Limpeza urbana é bom para o turista e a cidade

Manaus tinha tudo para ser uma cidade incrível. Fica às margens de um dos rios mais lindos do mundo, o Negro, e é o local onde ele se encontra com o Solimões formando o rio Amazonas de um jeito único, correndo juntos uma grande distância sem que suas águas se misturem. Eu fiquei boquiaberta quando vi o fenômeno na primeira vez que cheguei de avião à cidade. Além disso, é cercada pela floresta amazônica, o que dispensa comentários, e cortada por uma infinidade de córregos ou igarapés. Tem um centro histórico com um bonito conjunto arquitetônico do tempo da Borracha, com o Teatro Amazonas como a joia da coroa. Pelo menos uma bela praia de rio, a Ponta Negra. Uma culinária original e saborosa. É a maior metrópole no Norte do país, com mais de 2 milhões de habitantes, por onde não se chega por estradas, apenas pela água ou pelo ar. Poderia ficar enumerando outras coisas extraordinárias sobre a cidade, mas é impossível visitar Manaus e abstrair o tanto de lixo que se espalha pelas ruas, praças e rios manauaras. Por mais que se tente não olhar, o volume de resíduos por todo o canto chama o olhar do turista e se torna tema de conversas entre as pessoas, pelo menos no grupo de todo o Brasil com o qual eu estava, nesta última estada na cidade. Não sei dizer o que pensam os estrangeiros que chegam ali. A falta de saneamento básico não é um privilégio manauara, é um flagelo brasileiro. Segundo o Ranking do Saneamento 2024, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os serviços básicos das 100 maiores cidades do país, Manaus ocupa a 86ª posição, figurando entre os 20 municípios com os piores índices. Atualmente, mais de 1,5 milhão de manauaras não têm acesso à coleta de esgoto, e apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade é tratado. Pouca gente associa, porém, os resíduos urbanos entre os quatro pilares do saneamento básico: água tratada, esgotamento sanitário, drenagem urbana e coleta e tratamento de resíduos sólidos. Considero os resíduos sólidos como a sala de visitas de uma cidade. Todo o saneamento é importante, mas o lixo espalhado é o mais visível e, me parece, o mais fácil de resolver. Quando um rato morto permanece todo um fim de semana na esquina mais turística de uma cidade (em frente ao teatro Amazonas em sua época de óperas e a um restaurante), há algo que precisa ser pensado. A cidade padece ainda de uma característica forte brasileira, que é reabilitar espaços fazendo grandes obras sem pensar em sua manutenção. Ano passado, Manaus inaugurou uma parte do que chama de programa de recuperação de seu centro histórico. O complexo conta com o mirante Lúcia Almeida, largo de São Vicente, casarão Thiago de Mello e Píer Turístico. O mirante é o principal atrativo do local e conta com piso transparente para dar a sensação de que estamos andando sobre o rio Negro. O problema é que ao olhar para baixo, há mais lixo boiando no rio do que água. Nada disso quer dizer que não gostei ou não recomendo a visita a Manaus. Apenas a considero um exemplo da falta de visão de oportunidades que vejo nas cidades brasileiras. Tanto em termos de potencial turístico e econômico quando em prevenção às mudanças climáticas. Imagina uma enchente em Manaus, como a de 2021, com aquele tanto de resíduos espalhados com a maior parte da população vivendo em palafitas. Desastres climáticos, como seca, estiagem e excesso de chuvas, causaram perdas de R$ 732,2 bilhões entre 2013 e 2024 às cidades brasileiras, segundo um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. Só no ano passado, as tragédias climáticas causaram um impacto negativo de R$ 92,6 bilhões. Em 12 anos, 95% dos municípios do país já foram atingidos ao menos uma vez por algum tipo de desastre. Nesse período, mais de 5 milhões de pessoas ficaram desalojadas, 1 milhão desabrigadas e quase 3 mil morreram. É por isso que falar sobre saneamento básico não é uma questão estética, para turista ver, mas essencial para a própria existência das cidades nos tempos que vêm por aí.
Saudade de descer ladeira de carrinho de rolimã

Fazia muitos anos que eu não via carrinhos de rolimã. Eles fizeram parte da minha infância. Morava em uma rua sem saída com uma ladeira suave, o suficiente para os carrinhos deslizarem sem que perdêssemos o controle. A descida terminava em uma esquina com muito pouco movimento. Não havia portões em vilas. Podíamos virar e descer ainda um pouco mais ou seguir em frente na mesma rua até o carrinho parar. Nunca tive um carrinho só meu. Ninguém dava carrinhos de rolimã para meninas naquela época. Pegava emprestado dos meninos da rua e do meu irmão. Um tio fez um pra ele todo vermelho, com uma cadeirinha com encosto. Era lindo! Mas eu precisava contar com a boa vontade do dono para usar. Pelo que me lembro, eu era a única menina da rua que andava de rolimã. Devia ter entre cinco e seis anos. Alguém tinha um bem grandão e descíamos uns cinco empilhados nele. Normalmente, eu por cima deles. Às vezes, saía toda ralada, mas fazia parte da brincadeira. Não participava das corridas, porque aí já era demais pra mim, os garotos enlouqueciam e minha competitividade não chegava a tanto. Aliás, nunca chegou. Depois que mudamos da vila, tenho a impressão de ter usado o rolimã vermelho algumas vezes, mas a nova rua tinha uma ladeira mais íngreme e um maior movimento de carros. Minha mãe acabou com a alegria. Não sei que fim deu ao possante. Nunca mais andei de rolimã. No início do mês, fui ao Museu do Ipiranga e, ao passear pelo Parque Independência, me deparei com uma ladeira repleta desses carrinhos, com pessoas de todas as idades pilotando. Fiquei encantada, pois achava que não existiam mais em São Paulo. Apesar de placas proibindo o aluguel, deu pra perceber que são apenas proforma. Lamentei estar de saia. Fiquei com vontade de voltar ao parque e tentar alugar um, mesmo sem a certeza de ainda ter coragem de me aventurar na descida. Museu A visita ao museu também foi uma ótima surpresa. A última vez que estive lá foi algumas semanas antes de ser fechado por conta de vazamentos e permanecer alguns anos à espera de reforma. Embora tenha demorado, a reformulação o deixou mais interessante como museu histórico, com a tentativa de trazer uma versão um pouco menos parcial do que a da elite branca a qual representava. Com explicações sobre o sentido do que está representado nos quadros e objetos expostos, o museu deixa claro que são um ponto de vista da história. Há, ainda, a intensão de ilustrar o modo de vida do brasileiro comum dos primórdios da colonização até os dias atuais, dando representatividade às diferentes culturas e etnias do país. Para além disso, o prédio continua bonito e imponente. Imagino seu impacto ao ser construído no final do século 19, em local tão remoto quanto era o Ipiranga. Sem planejar, estive lá no primeiro domingo do mês e descobri que, neste dia, mensalmente, a entrada é gratuita. Fica a dica.
A Moça Sem Rosto, por duas moças com tudo de bom

Beleza e leveza caminham juntas em A Moça Sem Rosto – Uma jornada de possibilidades, livro da poetisa (entre tantas outras coisas, como ela se define) Sandra Quinteiro e da ilustradora (também multiatividades) Juliana Cardozo, editado pelo selo Afins, que acaba de ser lançado. A obra é uma jornada poética de autodescoberta. Uma fábula contada em versos e imagens sobre a busca pelo essencial, o encontro consigo e com o mundo ao redor. Difícil dizer o que emociona mais, se as palavras ou os desenhos que as inundam de significados. Tive a alegria de ser convidada por essas duas amigas artistas para fazer a Apresentação do livro, que reproduzo aqui como um convite para que leiam o livro e conheçam os trabalhos das autoras: “Foi ao redor de uma fogueira, em uma noite de aconchego no Germinar, formação da qual a Sandra Quinteiro é uma das idealizadoras, que a ouvi declamar A Moça Sem Rosto. E ali, naquele clima de comunhão, tive o privilégio de assistir ao nascimento da ideia deste projeto de coautoria com a Juliana Cardozo, que reflete o talento das duas artistas. Conheci a Sandra em um Fórum de Confiança entre Mulheres e logo me identifiquei com seu jeito ao mesmo tempo gentil e firme em suas colocações. Foi ela quem primeiro me apresentou a antroposofia, a filosofia que norteia sua procura constante por um conhecimento profundo do ser humano, da natureza e do universo. Mais tarde, descobri a poetisa e declamadora, que sempre me emociona, e a facilitadora com quem mergulhei em um mundo mais sábio, tolerante e diverso, onde o autoconhecimento me fez entender um pouco mais sobre mim mesma e sobre o mundo. Participando do Germinar, também conheci a Ju, companheira de caronas e papos sobre a busca de novos caminhos profissionais e como criar impacto na sociedade. E uma ilustradora com a sensibilidade à altura da escrita da Sandra. Versos e traços integrados, presenteando beleza e despertando os sentidos.”
Correntão ainda assombra Amazônia

A primeira vez que vi cenas de correntão derrubando floresta era na Mata Atlântica, em meados dos anos 1990, numa época em que ainda não existia uma lei específica para o bioma. Trabalhava na Rede de ONGs da Mata Atlântica e tentávamos denunciar aquilo que nos parecia um crime hediondo, além de proteger os ambientalistas locais, que viviam sob ameaças. A cena me chocou, nunca tinha imaginado ser possível tratar uma floresta tão majestosa como se fosse joguinho de carta de baralho tombando. Pra quem não sabe, o correntão é o método mais cruel de desmatamento, com o uso de uma corrente grossa entre dois tratores, derrubando tudo pelo que passa, sem poupar uma árvore ou dar chance aos animais que estão no caminho de fugir. Pode devastar 10 campos de futebol por dia. Em meados de 2010, foi a vez de assistir pessoalmente, árvores nativas da Amazônia sendo cortadas, quando fui conhecer o projeto de manejo florestal da Ecolog, em Rondônia, para escrever sobre a experiência. O resultado é o livro Explorar para Preservar, no qual conto a aventura do empresário Fabio Albuquerque em sua tentativa de salvar, via manejo, uma das últimas grandes florestas de Porto Velho. Acostumada até então a visitar apenas áreas conservadas da Amazônia, percorrer os 250 quilômetros da BR-364, ao longo do que foi a ferrovia Madeira-Mamoré, até a fazenda da Ecolog, foi uma experiência intensa, mesmo quando teoricamente se está preparado para o que se vai ver. Ao longo de todo o trajeto já não exista floresta. Em alguns pontos, me sentia no Velho Oeste de dois séculos atrás retratado em filmes estadunidenses. Criação de gado, em pastos pobres onde não se teve nem a preocupação de retirar os esqueletos das árvores carbonizadas na abertura da área, era a paisagem dominante. Ao fundo, matas empobrecidas e abertas, parecendo esperar a vez de também serem derrubadas. O cenário mudava quando entrávamos nos 30 mil hectares de matas nativas da Ecolog. Mas, mesmo dentro daquela situação controlada de manejo certificado, na qual poucas árvores são selecionadas para corte, é uma sensação terrível ouvir e ver uma árvore centenária tombar. Mesmo ainda acreditando na possibilidade do corte seletivo, espero não repetir da experiência. Por isso ver o correntão em ação, mesmo nos vídeos da internet, é um pesadelo. Atualmente, essa prática ainda tem sido registrada na Amazônia e é alvo de uma campanha de organizações da sociedade civil, que criaram uma petição online para que o PL 5.288/2020, que proíbe essa prática no país, seja aprovado no Congresso Nacional. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto, veja neste post do André Trigueiro em https://www.instagram.com/reel/DJUIlpJNTRm/.
Tietar não é preciso, mas é legal!

A imensidão das águas do Rio Negro e suas ilhas de florestas alagadas me proporcionaram uma das experiências mais incríveis da vida. E não estou falando de estar na Amazônica, que sempre me emociona pela biodiversidade, cultura e gentes, mas de passar algum tempo junto de escritoras das quais sou fã, poder ouvi-las, conversar com elas e me permitir até tietar um pouquinho. Está aí uma vantagem de envelhecer: perder o excesso de compostura que me impediam de me aproximar de pessoas que admirava por medo de incomodar e vergonha de me mostrar. Participar da expedição Navegar é Preciso era um sonho acalentado há anos, que se tornou imperativo diante da seleção de autores anunciados. Iniciativa da Livraria da Vila, a viagem junta leitores apaixonados, isolados por quatro dias em um navio (sem internet), para trocar ideias e afetos com seus escritores favoritos, enquanto se embrenham em uma das paisagens mais lindas e remotas do país. Todos no mesmo barco (desculpem, não resisti ao lugar comum), fingimos ser super natural fazermos passeios, refeições, nadar e dançar com aqueles cuja intimidade só tínhamos por meio de seus personagens ou pensamentos que dividiram conosco através de seus livros. Descobri que Socorro Acioli é uma das criaturas mais divertidas e com as tiradas mais espirituosas que já conheci. Merecia um programa de entrevistas na televisão (#ficaadica). Mariana Salomão Carrara é uma amigona de suas amigas, daquelas que todo mundo quer ter. Eliane Marques é firme e aguerrida, mas um doce de pessoa e uma dançarina e tanto. Vera Iaconelli tem uma família linda, com filhas tão bacanas quanto ela. Zelia Duncan é tão simpática e gente boa quanto eu imaginava. E o Jeferson Tenório é menos sério do que achei na conferência que assisti no Instituto Vera Cruz e um paizão daqueles de emocionar. Não saí de lá best friend forever de nenhum deles como prometi para minhas amigas, mas os admirando um tantinho mais. Conheci, ainda, entre os viajantes, pessoas com muita coisa em comum, que espero levar para sempre. E trouxe uma vontade de, quem sabe, repetir a dose em uma próxima oportunidade.
Carta ao narrador do romance Memórias do Subsolo, de Dostoiévski

Caro Homem do Subsolo, Você não me conhece, mas como lavou sua alma em público, eu te conheço um pouco. Aliás, conheço várias pessoas parecidas com você, e olha que 100 anos separam o seu nascimento (mesmo que aos 40 anos) do meu. Vivo mais de 150 anos à sua frente, e sou obrigada a concordar com sua insatisfação com o gênero humano. Esse tempo que nos aparta só fez reforçar sua tese sobre não sabermos fazer boas escolhas, nem para o coletivo, nem para nós mesmos. Temos hoje uma lista enorme para acrescentar às suas queixas: duas guerras mundiais com crueldades inimagináveis e, apesar disso, várias guerras inexplicáveis correndo soltas. Para piorar, agora, todos participamos delas, pelo menos olhando as terríveis imagens em tempo real. Além disso, temos um planeta devastado por nossas atividades. Neste momento, por causa delas, ocorre a mais rápida extinção em massa de espécies da história do planeta e mudanças climáticas agravam a situação de precariedade e violência inerente aos humanos. Não temos freios, tampouco motivos para otimismo. Você também é um vanguardista. Seu individualismo e, ao mesmo tempo, sua presunção de ser visto a qualquer custo (hoje diríamos “falem mal, mas falem de mim”) são muito modernos. Atualmente, pouquíssimos somos diferentes disso. O filme O Mundo Depois de Nós, da Netflix é um exemplo disso ao terminar com uma menininha – que passou a história toda tentando ser ouvida, sem sucesso -, diante do fim do mundo, escolhendo assistir sozinha a uma série boba de televisão. Tenho certeza de que esta seria sua opção também, mesmo que você não saiba o que é um filme, a Netflix, nem que os acontecimentos por aqui, agora, não têm repercussão por mais de alguns dias. Sua reação às questões inerentes à nossa espécie, porém, me parecem equivocadas e ignóbeis (aliás, termo que pessoas como você adoram usar). Não que você seja único, como quer demonstrar. Todos nós, em alguns momentos, temos esse comportamento vil, que inclui exercer pequenos poderes para prejudicar e constranger pessoas, apenas para nos vingar da própria mediocridade da existência. Alguns, porém, escolhem lutar contra esse instinto que nos trouxe até aqui. Não é uma escolha fácil, mas a que torna nossa permanência suportável (e a das demais pessoas também). Gosto das justificativas dadas para essa escolha por duas pessoas que admiro muito. O líder indígena e pensador Ailton Krenak, em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, aborda a raridade da existência, no universo, de um planeta que possibilitou a vida e de estarmos aqui. Defende que fomos convidados para uma festa cósmica improvável e, somente por isso, devemos ser gratos e fazer nosso melhor. Nurit Bensusan, bióloga e escritora, me salvou de sucumbir à desesperança, durante os anos nefastos de extrema direita e covid juntas que assolaram o Brasil, com sua tese sobre o imperativo ético. Para Nurit, é esse imperativo ético que nos faz continuar a fazer o que achamos certo, mesmo sabendo o quão poucos resultados (às vezes nenhum) terão nossas ações. Para pessoas ressentidas como você, essas ideias podem parecer pueris, mas garanto que tornam a vida mais leve e nossa breve passagem por aqui pelo menos um pouco gratificante. Nem sempre é simples, em alguns momentos parece mesmo impossível. Qualquer página de jornal está aí para não me deixar mentir. Precisa ser um propósito diário, mas, mesmo assim, acredito que valha a pena. O contrário disso é amargor e solidão. Aliás, é a lembrança da solidão que me faz ter certeza de estar certa ao escolher a leveza. Além de você, conheci recentemente um outro personagem/autor, mais contemporâneo, com esse tipo de irritação gratuita (ou, pelo menos, exagerada). Em Derrubar Árvores, Uma Irritação, de Thomas Bernhard, o narrador é tão pernóstico em relação aos demais personagens que vomitei antes de terminar a leitura. Ao destilar sua baixa estima por todos os demais, o personagem exala tanta infelicidade, que ela irradia para quem está ao seu lado na história ou apenas lendo o livro. Embora o título do livro não tenha ligação direta com o tema, pensei naqueles que derrubam árvores (e garimpam e grilam terras e perseguem mulheres e índios e negros e pobres e gays) somente para aplacar sua insatisfação de estar no mundo e tornar a vida de tantos insuportável, em um looping difícil de interromper. A cada dia, ao me levantar da cama, me exercito para não ser como estas pessoas, me esforço em suavizar minha reação ao que é mau, sem me tornar alienada ou desiludida contumaz. Como já disse, não é fácil, mas acho que você também deveria tentar. Abraço, Maura
O apocalipse, agora, é quântico

A primeira conta em banco que abri, no início dos anos 1980, foi no Banerj. Não por algum amor especial pelo Rio de Janeiro, mas porque era a agência mais próxima da minha casa – e mesmo assim demandava uma pernada. Recebia mensalmente meu módico salário e levava o cheque para depositar. Na agência, o caixa verificava o cheque, pegava minha ficha em um fichário e preenchia à mão o meu saldo, que seria depois confirmado, quando o cheque fosse descontado. Normalmente, se houvesse saldo, eu também sacava algum dinheiro, pois era com ele que se pagava quase tudo. Pode parecer um perrengue, mas suponho que era quase assim desde que existe banco e todo mundo sobrevivia bem. Desde então, as coisas foram se complicando, ou facilitando, conforme o ponto de vista. Os saques passaram a ser feitos em máquinas, as contas a ser pagas online, o cheque e o dinheiro substituídos pelo cartão ou celular, e cada um se adaptou como pode. Meu pai, por exemplo, nunca se adaptou totalmente. Nesse processo de mudança, o primeiro susto coletivo veio com o “bug do milênio”, um problema previsto para ocorrer na virada de 1999 para 2000, devido à forma como as datas eram armazenadas nos sistemas computacionais. Para economizar memória, muitos sistemas representavam os anos com apenas dois dígitos (por exemplo, “99” para 1999). Dizia-se que, ao chegar ao ano 2000, os sistemas interpretariam “00” como 1900, colapsando o sistema, e todo o dinheiro que tínhamos no banco desapareceria enquanto estourássemos a champanhe no réveillon. Seja porque as empresas corrigiram o problema, seja porque os computadores não fossem tão burros, nada aconteceu. Desde então, as agências bancárias praticamente desapareceram, surgiu o pix, e seguimos com novos pavores, como roubarem nosso celular com todos os nossos dados, rouparem nossos dados simplesmente, cairmos em algum dos zilhares de golpes que nos cercam diariamente, a inteligência artificial decidir que não vai mais nos empregar ou pagar. E vamos nos equilibrando para não cair nesse mar de perigos. Mas eis que me chega um novo alerta: o “apocalipse quântico”. Qualquer termo que comece com apocalipse vem para gelar nossas espinhas. Ele se refere ao potencial impacto devastador que a computação quântica avançada pode ter na segurança da informação global. Poderosos computadores quânticos, em um futuro próximo, poderiam quebrar os sistemas de criptografia que protegem nossos dados sigilosos. E não apenas nossas informações bancárias, mas também registros médicos, segredos de Estado e propriedade intelectual poderão ir para o saco. Pensando bem, não vejo tanta novidade assim nesse apocalipse quântico. Agradeço o alerta, mas os apocalipses climático e nuclear me parecem mais palpáveis, prefiro desperdiçar meu sono em questões mais complicadas de solucionar. Vem ni mim, apocalipse quântico, que um fichário (ou o colchão da minha cama) pode me salvar.
Transição

A imagem estática no espelho mostrava uma mulher sem idade. Os cabelos crespos, um tanto grisalhos, modulavam o rosto sério, mas sereno, levemente assimétrico. Prestando bastante atenção, dava para ver o tremor fugidio no olho direito. O contorno da face começava a perder a forma, e a falta de tônus, principalmente ao redor da boca, era mais aparente do que as rugas, quase inexistentes na ausência de movimentos. Os olhos, o nariz e a boca eram pequenos, mas não destoavam do tamanho da cabeça. Ainda se reconhecia naquela moldura à sua frente. Sorriu. Ao fazer isso, algo se quebrou. O espasmo discreto se estendeu do olho para toda a face direita, repuxando a boca e deixando a pálpebra cair. A expressão tornou-se irônica, e preferiu fechar os olhos e apenas sentir os movimentos involuntários, agora parte de quem era. Repetiu seu mantra matutino — o importante é ter saúde, envelhecer faz parte da vida — sem muita convicção. Faltavam exatamente seis meses para completar 60 anos. Se deu conta de que as projeções feitas ao longo da vida nunca haviam chegado a esse ponto. Quando criança, havia as conversas sobre o final do mundo no ano 2000, conforme profetizara Nostradamus. Lembrava-se das discussões noturnas na cama de casal que dividia com as primas, quando dormiam na casa da avó nos fins de semana, ou após a escola com os amigos, no escadão que ligava sua rua a uma outra abaixo, o qual não deveriam frequentar por ser inóspito, mas por isso mesmo ideal para conversas sérias. Contava nos dedos para ter certeza e, ao se certificar que teria 36 anos na mudança de século, ficava aliviada. Vou ser uma velha até lá, dane-se o fim do mundo. Depois fez planos para se formar, ter uma profissão e não ser dona de casa como as mulheres adultas do seu entorno. Queria ser linda, ter sucesso, encontrar alguém para dividir a vida e criar uma família. Em algum momento, acreditou que ajudava a salvar o mundo com seu trabalho e ativismo em organizações socioambientais, e a militância tomou grande parte de seu tempo, deixando um pouco de lado as pretensões de sucesso e independência. Encontrou o amor, educou os filhos. Olhando para trás, alguns dos projetos se realizaram, outros não. Perdeu a ilusão quanto à sua influência fora de seu espaço íntimo, o mundo se vira sozinho, mas o que fazer com este terço de vida pendente? Finalmente, era livre como nunca foi, mas se sentia paralisada, sem saber o que desejar. A resposta não estava no espelho. Se vestiu e foi ao parque caminhar em pleno meio da manhã. Estava mais quente do que esperava, a luz chapada do verão atravessando as árvores tornava o caminho um tanto dramático, é o sol ou sou eu? Pensou nos filhos crescidos e já fora de casa, no trabalho para o qual dedicou 40 anos, mas que não a satisfazia mais, nas novas atividades começadas sem objetivos claros. Será necessário propósito? Seu estado melancólico, tinha consciência, vinha dos braços doloridos pelas duas vacinas tomadas no dia anterior e do regime alimentar iniciado há duas semanas para perder peso. Eram parte do combo de mudanças que vinha se instalando lentamente em seu corpo: um metabolismo falho, insônia, cansaços súbitos e falta de concentração. O déficit de proteínas detectado nos exames e o tratamento dos espasmos faciais a levavam a se confrontar com antigos preconceitos e se render a soluções antes impensadas: suplementos alimentares, ansiolíticos, aplicações periódicas de botox no rosto. A vida já não era a mesma, mas, afinal, quem disse que será pior?, pensou. Aos poucos, seu estado de espírito se acalmou. Voltou do parque cantando, almoçou sua refeição de calorias controladas, vestiu uma das calças que estavam apertadas e voltaram a ficar bem. Nenhum compromisso era obrigatório ou tinha prazo. Foi ao shopping. Viu vitrines e, contrariando a sensatez habitual, comprou três vestidos de uma vez. Sem óculos, na luminosidade precária do provador, achou que estava ótima. *Texto publicado na Antologia 2024, da Pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz.
Sobre os barulhos que causamos e sofremos com nossas reformas

Acabei de fazer uma reforma em meu apartamento em que uma parede foi derrubada. Foi a terceira nas quase três décadas em que moro aqui. Em todas elas, tive o cuidado de prevenir minha vizinha de porta e pedir desculpas, sem fazer mais nada. Não passou pela minha cabeça fazer o mesmo com os vizinhos de cima e de baixo. Viajei ou fui para a chácara durante os períodos críticos. Entendo que prevenir os demais afetados não iria fazer a menor diferença na experiência que intuía ser ruim, mas pelo menos seria um agrado, como dizer eu me importo com o desconforto que vou te causar. Fica aqui um mea-culpa tardio de alguém que está para enlouquecer com a reforma do apartamento acima do meu. Eu sabia que meus vizinhos fariam esta grande reforma, pois no prédio se comentava que havia sido adiada por conta de um acidente sofrido por um dos moradores do apartamento. Vi a mudança deles sair, pois precisam ficar fora para as obras e sei que têm todo o direito de mexer em seu imóvel, tanto quanto eu tenho no meu. Nada disso minimiza a sensação de permanecer oito horas por dia com pessoas martelando na minha cabeça. Esta é daquelas situações da qual ninguém tem culpa, consequência do nosso jeito de viver empilhado uns sobre os outros, em uma cidade já barulhenta o suficiente. Além dos carros, motos e ônibus na rua, aqui ainda temos música e conversas durante a noite, afinal moro em um bairro boêmio. E uma marmoraria ao lado, a qual me acostumei a abstrair, assim como a diversidade de obras no edifício. Com quase 30 anos de construção, as reformas são necessárias. Vários dos moradores que se mudaram quando o prédio ficou pronto e criou filhos por aqui, como eu e meu vizinho de cima, estamos readaptando nossas casas para a nova situação de ninho vazio. O resultado, porém, é que minha rotina nesta semana, e sabe-se lá até quando, é lidar com britadeira, marteladas e outros barulhos indecifráveis, que parecem dobrar o tamanho da minha cabeça e reverberar por cada centímetro do meu corpo, que algumas vezes, inconscientemente, se encolhe a espera de que algo caia sobre ele. Enquanto minha capacidade de me concentrar no trabalho e meu estoque de dipirona desaparecem, penso em resiliência e leveza, sem muito sucesso. Imagino o número de paulistanos que convivem com grandes obras ao lado de casa, nesse frenesi imobiliário da cidade, e me arrepio. Contem com minha solidariedade.
Imagem que gruda na mente

Vários dias se passaram e não sai da minha cabeça as cenas da reportagem sobre o estupro de uma mulher em Paranaguá, na qual uma câmera mostra a vítima tentando se segurar em uma parede até ser arrastada pelo agressor a um banheiro de um posto de gasolina desativado. Segundo a matéria, a câmera a registrou dizendo NÃO pelo menos onze vezes, mesmo só capturando som quando está de frente para a cena. Assistir ao estuprador dizendo cinicamente para a delegada que a mulher dizia NÃO para fazer charme é de embrulhar o estômago de qualquer pessoa normal. O aflitivo, no entanto, é ser cada vez mais difícil saber o que é normal, em um mundo em que, mesmo quando o estupro é praticamente filmado, um juiz negue duas vezes a prisão do agressor. Ele só foi detido após a apelação do Ministério Público. Desnecessário dizer que, caso não houvesse gravação, o mais provável é que as autoridades não acreditassem na versão da mulher e tudo ficaria por isso mesmo. O caso do jogador de futebol Daniel Alves, cuja condenação de estupro foi anulada na Espanha, é prova de que não é um problema apenas do Brasil. Já é difícil entender o que move homens a estuprarem mulheres. Pior: muitas vezes suas próprias esposas, namoradas, filhas. O descrédito que a palavra feminina tem como depoente, porém, é o maior incentivo para os criminosos. Dói ser mulher e pensar que o que aconteceu com as mulheres em Paranaguá e na Espanha está ocorrendo neste exato momento em vai saber quantos lugares no mundo, e poderia ser uma de minhas filhas naquela situação. Contra essa indignidade, nós mulheres precisamos não somente ocupar mais espaços de voz e poder, mas contar com posicionamentos mais incisivos dos homens que não compactuam com isso. As estatísticas e as imagens mostram que não têm sido feito o suficiente.