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PaulistanaSP

O mirante, a rosa e a fonte milagreira

A sensação no mirante era de abandono diante da emoção de ver por inteiro a paisagem já entranhada aos pedaços do chão. Mas havia ainda um outro abandono, este incômodo, do local mau cuidado que servia de base para a contemplação da planície de palmeiras e praias infinitas. Um espaço turístico, mas de terra esburacada, fios soltos, construções meio abandonadas. De repente, a menina, algo como cinco anos, chega do nada e me oferece uma rosa feita de palha. “Um presente para você”, diz olhando para o chão e voz envergonhada de quem foi mandada fazer algo que a deixava desconfortável. Pela primeira vez, olho ao redor e vejo, por traz de algumas árvores, duas mulheres sentadas no chão e dedicadas à produção das flores, cercadas de crianças e embalagens de copos e quentinhas espalhadas com seus materiais de trabalho. Tão sem-graça quanto a garotinha, aceito o “presente” que me trouxe à realidade, vou até o carro, pego um dinheiro, e me aproximo das mulheres. Uma das amigas que estavam comigo já estava praticamente interrogando as mulheres sobre o que as crianças faziam por lá, se não vão para a escola. Mais constrangida eu fico. Respondem que, sim, elas vão, mas por conta da covid, apenas uma semana sim e outra não. Ofereço o dinheiro esperado e perguntamos se sabiam onde ficava a Fonte Milagreira, que deu origem ao nome da cidade de São Miguel dos Milagres, que era o que procurávamos até encontrar o mirante. Uma das mulheres nos ensina o caminho, mas passa um sermão, “santo não faz milagre e Deus não aprova esse tipo de desfeita”, e nos desaconselha a ir até lá. Recitava o que deve ouvir de algum pastor, que possivelmente promete milagres dos quais ele é o intermediário e pode cobrar por eles. Achamos a fonte, que é uma gruta construída como um minitemplo, com um poço fechado com um vidro e um altar para o santo. Ao lado, uma bica onde moradores e turistas/fiéis enchem garrafas d´água. É mal sinalizada, não tem lugar para estacionar e fica junto a uma fábrica de móveis de madeira que funciona ao ar livre. Tiramos nossas fotos, algumas das amigas com alguma devoção fizeram orações e pegaram água, e fomos para a praia, que nunca decepciona por essas bandas. Para quem se interessa, essa fonte existe desde a ocupação holandesa, por volta de 1635, quando moradores da região fugiram à procura de um abrigo onde pudessem observar o movimento dos invasores e fundaram o povoado de Freguesia Nossa Senhora Mãe do Povo. Depois de alguns anos, um pescador encontrou na praia uma peça de madeira coberta de musgo e algas e foi limpá-la na fonte, quando descobriu ser uma imagem de São Miguel Arcanjo. Ao lavá-la, ele ficou curado de um grande problema de saúde. A notícia se espalhou e criou a fama do lugar que passou a ser conhecido como São Miguel dos Milagres.

Sobre a praia e o lixo, ou os restos que deixamos e o mar devolve

  Minha pior experiência com lixo oceânico foi na Grécia, há uns sete anos. Havia chegado a Istambul um dia antes e embarcado em um iate para uma viagem de dez dias pelas ilhas turcas e gregas na qual até hoje não sei como caí e o que estava fazendo lá, mas isso é outra história. Após uma noite a bordo, acordamos em território grego e de frente para duas ilhas paradisíacas, uma cheia de casinhas brancas e restaurantes caros da nossa imaginação e outra que parecia um recando verde esquecido do mundo – a segunda parte da frase é verdadeira. Como ficaríamos um dia inteiro no local, escolhemos ir primeiro ao destino natural, para o que parecia ser uma praia virgem, que sabemos não existir, mas fantasiar não custa nada. Conforme o bote se aproximada da praia, porém, brilhos e cores difusas começaram a aparecer e a nos intrigar. À medida que chegávamos mais perto, percebemos que se tratava de um depósito de lixo cuspido pelo mar que tomava todo o espaço, desde uns três metros dentro d’água, adentrando por toda a areia e se infiltrando na vegetação que vinha depois. Eram zilhões de pets, canudos, sacolas, latinhas, garrafas e tudo mais que podemos imaginar que não tem vontade de se decompor. Não faço ideia de quanto tempo aquele templo à imundície humana levou para ser formado, mas imagino que o governo local se preocupe em manter limpas e cheirosas apenas as ilhas onde os turistas possam gastar euros. Ficamos um tempão explorando o local e sentindo na pele o que os catadores sentem nos lixões aqui da terrinha, porque o barqueiro, acredito que de propósito, nos deixou por lá um tempão – quem, em sã consciência, trabalha em um iate e não odeia seus passageiros? Na hora, achei que era prenúncio de uma viagem fracassada, mas me enganei. Nada do que vi depois passou perto desse local de trevas, embora, para garantir, tenha me enquadrado e não arrisquei mais nada fora do recomendado. O trauma, no entanto, ficou. O mar não tolera desaforo: devolve toda a sujeira recebida. Desde então, quando ando na praia, qualquer praia, meus olhos acabaram treinados a enxergar plásticos, vidros e latas antes de se deterem na primeira conchinha ou siri perdidos na areia. A “chata do rolê” que eu já era, piorou, e fico vigiando quem está comigo para não deixar vestígios fora da lata do lixo, além de carregar pelo menos um canudinho de metal, para não ter que abrir mão da minha água de coco a beira mar. Não me tornei a louca do lixo, até porque acredito que mereça relaxar um pouco quando estou na praia. Há quase um mês neste quase paraíso perdido que é São Miguel do Milagres, já vi dois casais que carregam sacolas e vão andando pela praia recolhendo a sujeira dos outros. Não chego a tanto, mas nunca volto de uma caminhada sem recolher uma ou duas garrafas pet e, quando tenho bolsos, alguns canudinhos e tampinhas de cerveja. É um vício difícil de controlar. Há poucos dias, meu marido, o qual suspeito tinha certa vergonha secreta de mim, começou a fazer o mesmo. Ainda acho que não há salvação para nossa espécie, mas alguns indivíduos possivelmente terão acento no paraíso.

A Casa Azul

Morar em uma casa simples, térrea, de frente para uma pracinha de verdade, daquelas com bancos de concreto e crianças brincando de esconde-esconde, senhoras que conversam ou só veem o tempo passar e casais de namorados que aproveitam o escurinho depois que o sol se põe. Assistir a tudo isso de uma varanda, com jardim e muro baixo, de onde também é possível entrever o mar. Fazer deste terraço o escritório de trabalho, no qual se esquece computador e celular do lado de fora enquanto vai almoçar e não lembrar que seria melhor levar para dentro. Sem falar do clima ensolarado e quente na medida, que fica sempre entre 24 e 29 graus. Tudo isso me foi concedido. Por um mês. Graças ao Airbnb, ao Google Earth, à internet, ao home office e algumas economias. Claro que a chegada à Casa Azul – sim, a casinha tem nome e é só mencioná-lo e todos por aqui sabem onde estou hospedada – em Porto da Rua, São Miguel dos Milagres, Alagoas, não foi sem algum susto. Como boa paulistana, vinda de uma cultura onde um apartamento de pouco mais de 90 metros quadrados é construído com quatro banheiros, entrei em choque ao verificar que aqui tinha apenas um. E que as paredes internas não chegam até o teto, que, por sua vez não tem forro. A imagem de filho, filhas e amigas, que viriam passar algum tempo conosco, disputando banheiro e sem privacidade me paralisaram por alguns minutos. Passou logo. Como me curar de Brasil me portando como a burguesia da qual quero tanto me afastar? Vim em busca de cura dessa tristeza sufocante e de um pouco de esperança, que me foram trazida, a primeira, e tirada, a segunda, por escolha intencional de meus conterrâneos, e que a pandemia colocou uma pá de cal. Consegui, mesmo que parcialmente. Já na primeira noite, acordamos eu e meu marido/companheiro de aventura com o barulho de uma grande chuva e descobrimos que os respingos que sentimos não vinham da janela aberta, mas do telhado. Sentamos cama, nos olhamos e tivemos uma crise de riso há muito represada, e voltamos a dormir refrescados com o chuvisco particular que durou uns dez minutos, se tanto. Em dois dias, a Casa Azul era nosso lar e seu frescor, trazido justamente pela falta de laje e fechamento total das paredes, motivo de admiração. Dividir o inquilinato com os gatos, do lado de fora, e com rãs e sapos, que não respeitam muito limites, mas comem os mosquitos, também se tornou normal. Acordar uma manhã com a cabeça de um sagui nos olhando por uma fresta entre telhado e parede também não causou mais do que um “chispa daí” do meu marido, que o visitante, por incrível que pareça, obedeceu. Fora isso, tocamos a vida, cumprimentando os vizinhos, que são também os pescadores e barqueiros que encontramos na praia de manhãzinha – bem de manhãzinha, porque aqui 5 horas já tem um sol pra cada um -, quando fazemos nossa caminhada e depois lá pelas 5 da tarde, quando vamos dar um mergulho e esperar o por do sol. São também os donos e funcionários dos mercadinhos, restaurantes e pousadas do lugarejo, muitos deles aparentados, que encontramos em todos os lugares que vamos, exercendo funções diferentes. Lica, que cuida da casa que alugamos, também trabalha no posto de saúde na rua ao lado e mora naquela mesma rua, onde à noite senta na calçada com os amigos para papear, em frente a um dos restaurantes que frequentamos e cujo garçom, que também cuida da agência de passeios do larguinho em frente à praia, é seu sobrinho. Aqui é assim. À medida que a pandemia arrefece, vemos as máscaras rarearam nas ruas e praticamente desaparecerem das praias, mas continuam na maior parte dos rostos de quem atende público em todos os estabelecimentos. Neste estado, um dos que menos votaram no inominável, também a pandemia foi um pouquinho menos cruel (para mim a relação é direta). Todos com quem falei estão aliviados com a vacina e com expectativas de que o próximo verão seja alvissareiro e compense os tempos sinistros sem os turistas que os sustentam. E eu agradeço o privilégio de estar aqui, penso sobre quais consequências dessa experiência ficarão na minha vida e faço contagem regressiva para a volta à rotina na metrópole que me criou e me tem cativa, por enquanto.

O privilégio de ter uma área verde para chamar de minha

Uma caminhada de seis minutos, com 400 metros e uma boa subida, que não chega a incomodar, me separa da área verde mais próxima de onde moro, privilégio compartilhado por grande parte das pessoas que vivem na Zona Oeste de São Paulo, mas bem mais raro para habitantes de outras regiões. Sei disso porque nem sempre morei aqui. Na Zona Norte, onde fui criada, há apenas as ladeiras e as calçadas ruins em comum; praças e parques são raridade. O Centro, mais antigo, também é bem serviço de praças, mas poucas com as características de local para exercício e convívio com a natureza, parte pelo grande movimento, parte pela urbanização que não privilegia esse uso. O Vale do Anhangabaú é um exemplo sobre o qual tenho até preguiça de comentar. De volta à cidade – aos poucos – após quase sete meses de exílio no interior, percebo mais intensamente a importância dessas áreas. Já não temos horizonte para acompanhar o caminho do sol, da lua, das estrelas – deve ser por isso que alguns passaram a acreditar que a Terra é plana. Contar com áreas arborizadas onde possamos dividir espaço pelo menos com pássaros, caminhar sem torcer o pé, não respirar gás carbônico diretamente dos escapamentos ou se preocupar em não ser atropelado em cada esquina é uma essencialidade que pode reduzir a crescente popularidade das farmácias, setor em ascensão galopante por aqui. A “minha” é, na verdade, um conjunto de três praças com nomes de homens, Rafael Sapienza, Professor Haroldo Valadão e Dr. Fernando de Oliveira Pimentel, as duas primeiras contínuas desde o fechamento da rua que as separava. Há bosques com pequenas trilhas, mesinhas e bancos para descanso e convívio, equipamentos para exercício e um parquinho bacana para crianças, mantido por um grupo de amigos, como anuncia a plaquinha na entrada. Infelizmente, meus filhos não tiveram a oportunidade de usufruir, pois ele não existia quando eram pequenos. Placas espalhadas por toda a área pedem para os frequentadores recolherem o lixo e o cocô de seus cachorros. Há bastante novas mudas de árvores plantadas. Ou seja, mesmo com um entulhinho largado aqui ou ali, é um local bem cuidado. Áreas verdes podem, ainda, ser um espaço de convivência e treino de civilidade que precisamos muito. Neste, os frequentadores são todos da vizinhança e muitos se conhecem. Cumprimentar uns aos outros é um costume que permanece, mesmo que haja alguma redução a partir de 2017 (por que será?) e agora com a presença das indefectíveis máscaras. É um lugar onde qualquer um se sente bem, mas há muito a evoluir no quesito “eu não sou a pessoa mais importante do mundo, os demais têm os mesmos direitos que eu”. Quem tem cachorro, por exemplo, poderia entender que alguns não gostam ou têm medo. Outro dia, uma feliz cachorra enorme veio correndo lamber minha mão e paralisei. Sua dona/mãe (não sei o nome politicamente correto) só a chamou quando eu disse que por favor o fizesse, porque eu estava assustada. Não houve nenhum pedido de desculpa, só a informação de praxe “ela é mansinha”. Também alguns dos treinadores físicos que usam o espaço poderiam ter mais sensibilidade. Monopolizar a área com equipamentos públicos de ginástica com seus alunos e suas bolsas é um pouco chato. Em outras épocas, até pediria licença e tentaria conversar, mas os tempos são de prudência e me sinto acuada. Esses pequenos infortúnios, porém, são irrisórios diante da alegria de começar o dia com uma boa caminhada cercada da beleza e do frescor da vegetação. É um direito fundamental que continuarei a defender por aqui. (Fotos: minha mesmo)

Verde traz saúde e bem-estar às pessoas

  Todo mundo deveria ter uma área verde pública perto de casa, ou seja, na qual pudesse ir a pé. Na Zona Oeste de São Paulo, onde moro, isso é relativamente comum, mas não é padrão na cidade nem na maior parte do país. Visitei cidades na Amazônia onde os moradores não devem saber o que é isso (e não estou sendo irônica). Em Jarinu, onde tenho ficado a maior parte do tempo desde o início da pandemia, esse luxo também não existe. Em escala nacional – ou até planetária -, as grandes unidades de conservação, que protegem biomas, ecossistemas e espécies, são as mais importantes e há tratados e compromissos internacionais que indicam as necessidades mínimas para países e para a biodiversidade. Mas pouco se tem de concreto sobre a quantidade e como devem ser as áreas protegidas urbanas. Cada município deve trazer isso em seus planos diretores, mas a impressão é que praticamente nenhum leva isso realmente a sério. Quanto de áreas verdes deveria ter uma área urbana em relação a seu território e a sua quantidade de habitantes? Qual a distância aceitável entre cada uma delas para atender igualmente aos moradores da cidade? Como criar corredores entre elas para garantir um intercâmbio, no mínimo, de pássaros e para que áreas protegidas urbanas também sejam guardiãs de biodiversidade? Qual o tamanho mínimo de um parque, ou até de uma praça, para cumprir sua função e com quanto e que tipo de vegetação e outros equipamentos deve contar? Todas essas perguntas deveriam ser cruciais e, perto de eleições municipais que se aproximam, debatidas e encaminhadas. Mas costumam ser negligenciadas no país, sempre em nome de não serem prioridades diante da quantidade de demandas ditas mais urgentes, como saúde, educação, segurança etc. Mas será que realmente é uma discussão à parte? As áreas protegidas podem contribuir para a saúde e o bem-estar humanos de várias maneiras, muitas das quais estão apenas começando a ser entendidas, como mostra o volume Qual seu valor para nossa saúde e bem-estar?, do pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e tenho mostrado no blog paulistanasp. O material explica a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. De um modo geral, sua importância pode ser vista de três maneiras: proporcionam serviços ambientais que sustentam a vida, como proteção e provisão de água, regulação do clima (inclusive o microclima) e controle de doenças infecciosas; são fonte de biodiversidade para a produção de medicamentos tradicionais e para a descoberta de novos remédios; e possibilitam benefícios diretos para a saúde física, espiritual e mental, por conta da experiência e dos momentos passados em contato com a natureza.  A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere que até um quarto das mortes prematuras mundiais poderiam ser evitadas simplesmente com a boa gestão das questões ambientais, como a redução da poluição do ar, da contaminação da água e do solo. Pesquisas também relacionam o desmatamento e a fragmentação de florestas com o surgimento de doenças como ebola e aids, além da disseminação de doenças como a malária e a dengue. Agora podemos incluir a Covid-19 nessa lista. Para mostrar essa relação, uma pesquisa constatou que comunidades que vivem perto de Ruteng Park, em Flores, na Indonésia, apresentavam menos casos de malária e disenteria, crianças faltavam menos à escola por problemas de saúde e há menos fome associada à quebra de safra, do que nas comunidades vizinhas sem florestas intactas. A presença de unidades de conservação também ajuda a evitar a erosão do solo, a reduzir inundações e minimizar danos causados por outros eventos extremos do clima, como secas. Nas áreas urbanas, ajudam a reduzir a poluição, responsável por um grande número de mortes prematuras, e minimizar as ilhas de calor. Protegem, ainda, mananciais de água, garantindo quantidade e qualidade de água para abastecimento. Com isso, diminuem também os riscos de doenças de veiculação hídrica, como diarreias. Um terço das cem maiores cidades do mundo tem a maior parte do fornecimento de água a partir de mananciais protegidos por florestas, caso das maiores áreas metropolitanas brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte). No momento em que começamos a retomar uma vida quase normal, porém, seria importante percebermos o quanto a proximidade com a natureza pode nos beneficiar diretamente. Áreas protegidas são, em boa parte dos casos, seguros, acessíveis e gratuitos para recreação, prática de exercícios e relaxamento. Um relatório divulgado por pesquisadores australianos, a partir de um programa intitulado Parques Saudáveis, Pessoas Saudáveis no Parque Vitória, concluiu que há provas substanciais de que o acesso a áreas protegidas e a espaços verdes aumenta a saúde e o bem-estar das pessoas. Mostrou, ainda, que atividade física nesses espaços evita o gasto de 200 milhões de dólares australianos com saúde por ano. Pesquisa da Universidade de Chiba, no Japão, concluiu que pessoas que tiveram contato com a natureza mostraram uma diminuição de 16% no cortisol (hormônio do estresse), 4% na frequência cardíaca e 2% na pressão arterial. Por que, então, nossas cidades costumam preferir farmácias a parques? (Foto: Expedição Aracã, Amazonas, Brasil. WWF-Brasil/Zig Koch)

Com vontade política, país pode gerir bem suas áreas protegidas

  O calor fora de época e de bitola dificultam a vontade de escrever ou fazer qualquer coisa. Quem sabe os cientistas estejam todos errados e as altas temperaturas sejam apenas um ponto fora da curva, como pregam os negacionistas. Ou sempre fez calor assim, nós que esquecemos ou os termômetros foram finalmente calibrados. Mesmo de brincadeira, acho difícil pensar em asneiras como essas. Imagino o que passa pela cabeça de mitômanos como o fulano que enviou discurso em nome do Brasil quarta-feira (30/9) à cúpula sobre biodiversidade da ONU e voltou a dizer que as ONGs comandam crimes ambientais e que seu governo está combatendo o desmatamento, sem provas ou mínimas evidências. O mais triste é que assistimos ao vivo um filme de terror que poderia ser muito diferente caso não fosse dirigido por vilões tão caricatos. Ao contrário do que apregoam os responsáveis pelo circo de horrores que nos tornamos, o país tem uma sociedade civil, boa parte dela organizadas em ONGs, altamente empenhada em colaborar com governos e entre si para resolver nossos problemas estruturais. E tem muita coisa para mostrar. Uma delas, muito representativa, por sua importância para nossa segurança climática, é o Programa Arpa – Áreas Protegidas da Amazônia -, a maior iniciativa de conservação de florestas do mundo. Lançado em 2003 pelo governo brasileiro e coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, é gerido financeiramente pelo Funbio – Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, uma associação civil sem fins lucrativos, a partir de doadores internacionais e nacionais. O Arpa foi responsável, entre 2005 e 2015, pela criação de 276 mil km2 de unidades de conservação (UC) e o apoio à consolidação de 590 mil km2. A consolidação de uma unidade de conservação significa dotá-la dos instrumentos necessários à sua gestão (plano de manejo, conselho, plano de proteção, infraestrutura – equipamentos e instalações, sistema de monitoramento) e garantir a realização de atividades que assegurem o alcance dos seus objetivos. Um estudo do WWF-Brasil, O Impacto do Programa Arpa na Efetividade de Gestão das Unidades de Conservação da Amazônia, de 2017, mostrou que o financiamento contínuo e de longo prazo, como é o caso do Arpa, foi fundamental para aumentar a consolidação das UC. A pesquisa mapeou muitos bons exemplos de gestão e programas em unidades de conservação, com resultados concretos da capacidade do país de manter e implementar suas áreas protegidas. Tudo isso, é claro, fica muito mais difícil com o próprio governo federal, que deveria estar liderando as boas iniciativas, jogando abertamente contra. Um exemplo de programa que vinha tendo bons resultados foi a implantação da técnica de manejo integrado do fogo pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio), em parceria com diversas instituições e ONGs, que permitiu a redução de 40% na área atingida por incêndios entre 2010 e 2017 em unidades de conservação federais. Entre as UC beneficiadas estavam a Estação Ecológica da Serra Geral do Tocantins, a Reserva Extrativista Chapada Limpa e os parques nacionais da Chapada dos Veadeiros, do Itatiaia, Lagoa do Peixe, do Araguaia e da Serra da Canastra. A técnica busca o uso sustentável do fogo, seja para produção agrícola com as queimas controladas, seja para a conservação ambiental com as queimas prescritas em fitofisinomias savânicas, sob condições em que o fogo pode ser facilmente controlado. Outra iniciativa mapeada é voltada para sensibilização e fiscalização de manguezais. Construção civil, lenha destinada a olarias e implantação de curral (tipo de pesca artesanal) trouxeram degradação para o manguezal da Área de Proteção Ambiental Guapimirim, na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A partir da criação da unidade de conservação, em 1984, trabalhos de sensibilização ambiental e posteriormente de fiscalização foram eficazes na recuperação de vários fragmentos. Em outras áreas, termos de ajustamento de conduta propiciaram a recuperação. Aproximadamente 100 hectares de áreas degradadas de mangue foram recuperados, com registro de reocupação da fauna local. Catadores de caranguejo do entorno não precisam mais viajar para outros estados brasileiros em busca de manguezais nos quais trabalhar. O projeto A Floresta é Nossa, realizado pela Floresta Nacional de Brasília, na região de Taguatinga/DF, promoveu o envolvimento do público em ações capazes de melhorar a experiência de visitação na área protegida. Com isso, houve uma mobilização de ciclistas, que se apropriaram da UC, respondendo ao movimento que partiu da equipe gestora. As ações foram decididas em conjunto e os ciclistas entraram com mão-de-obra e investimentos. Sete trilhas para ciclistas foram sinalizadas para diversos perfis, com melhoria de duas pontes. Além disso, foram criadas trilhas para caminhadas com diferentes níveis de dificuldade. O número de visitantes triplicou, passando de 11 mil, em 2014, para 33 mil, em 2017. Outros exemplos estão no volume Como gerir e maximizaros benefícios dessas áreas?, do pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e tenho mostrado no blog paulistanasp. O material explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. (Foto: Arara-canindé, no Parque Nacional do Juruena – WWF-Brasil/Zig Kock)

Unidades de conservação geram recursos econômicos para o país

Há um mito, provocado pela ignorância, de que unidades de conservação (UC) não possuem valor econômico. A base dessa crença é o desserviço bancado pelos interessados na ocupação das terras que deveriam estar ou estão sob proteção – grileiros, madeireiros, garimpeiros, agropecuaristas – e os políticos que os representam (em número exponencialmente maior do que a representatividade que esses setores têm na população). Outra dificuldade, que começa a ser vencida, é explicitar esse valor em números. O valor econômico de uma unidade de conservação é calculado a partir da variação do bem-estar das pessoas devido a mudanças na quantidade ou qualidade de bens e serviços ambientais que ela propicia. Valorar seus recursos ambientais é a melhor forma de calcular monetariamente as perdas ou ganhos da sociedade diante da variação da quantidade e tamanho dessas áreas protegidas. Mas não só. As UC geram recursos também a partir da geração direta de renda, seja por meio dos serviços turísticos, seja pela produção de riquezas nas unidades de conservação de uso sustentável. O estudo Quanto Vale o Verde – a importância econômica das unidades de conservação brasileiras mensurou o valor econômico das unidades de conservação para vários setores, mostrando o quanto o país pode ganhar a partir de suas UC. Alguns desses dados estão no pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e tenho mostrado nesteblog. O material explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. Esses dados fazem parte do volume Quantovalem economicamente para o país?. O mais óbvio desse valor é o gerado pela água que é produzida sob influência de unidades de conservação. A estimativa é que as UC gerem R$ 59,8 bilhões anuais, distribuídos em termos de proteção de rios para geração hidrelétrica (R$ 23,6 bilhões anuais), usos consuntivos (R$ 28,4 bilhões anuais) – aqueles que retiram água do manancial para sua destinação, como a irrigação, a utilização na indústria e o abastecimento humano – e erosão evitada (R$ 7,8 bilhões anuais). Cerca de 44% da capacidade da produção de hidroeletricidade em operação no Brasil está sob influência de unidades de conservação. Aproximadamente 24% da captação de água (o equivalente a 4,03 bilhões de m3 de água por ano para consumo nas cidades e propriedades) é influenciada por unidades de conservação, que ajudam a manter a qualidade e a quantidade da água necessárias. No caso da água, deve-se ainda considerar que o efeito é mais importante por causa da mudança do clima, que deve agravar problemas de chuvas intensas e de secas prolongadas. O que temos presenciado neste ano é um bom aperitivo sobre o que vem pela frente. A visitação em áreas protegidas continua tendo grande destaque como elemento de dinamização econômica. Cerca de 17 milhões de visitantes foram registrados em 2016, com impacto sobre a economia estimado entre R$ 2,5 bilhões a R$ 6,1 bilhões anuais, correspondendo a uma geração entre 77 mil e 133 mil ocupações de trabalho. Esses valores, porém, podem estar subdimensionados porque nem todas as unidades de conservação fazem esse tipo de registro. O que salta aos olhos, no entanto, é que as UC podem receber uma quantidade bastante superior de visitantes caso sejam realizados investimentos para tanto: um incremente de 20% na visitação (mais 3,4 milhões de visitantes anuais) resultaria em um impacto econômico entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão, com a criação de 15 mil a 42 mil novos postos de trabalho. Boa parte de nossas unidades de conservação são de uso sustentável, com populações tradicionais que nelas vivem ou com possibilidade de exploração econômica. O potencial de aproveitamento de bens que podem ser extraídos de forma sustentável das unidades de conservação que admitem atividades econômicas é muito grande. A madeira em tora é o produto de maior destaque no extrativismo do país, e o sistema de concessões florestais implementado pelo Serviço Florestal Brasileiro pode expandir a produção sustentável de madeira das florestas nacionais. A persistência do desmatamento, porém, tem reduzido as possibilidades de aproveitamento dos recursos madeireiros, cuja extração teve redução de 36% entre 2006 e 2016. A extração sustentável de produtos não-madeireiros – como castanhas, frutas, óleos, mel etc. – também é uma oportunidade e está melhor estruturada no país. A produção de açaí aumentou 112% entre 2006 e 2016. No mesmo período, a produção de castanha-do-pará cresceu 20,4%. Melhoramentos nas cadeias produtivas podem aumentar as possibilidades desses setores. O valor potencial em todas as unidades de conservação passíveis de atividade pesqueira é de R$ 86,5 milhões para o peixe, R$ 55,2 milhões para o camarão e de R$ 24,8 milhões para o caranguejo, totalizando R$ 167,5 milhões em pescado. Em 2016, nas unidades de conservação onde as famílias foram atendidas pelo Programa Bolsa Verde, a contribuição econômica do pescado foi de R$ 10 milhões para o peixe, R$ 7,5 milhões para o camarão e de R$ 11,7 milhões para o caranguejo, totalizando em R$ 29,2 milhões. Assunto ainda difícil de explicar, mas cujo potencial tende a aumentar à medida que avança o aquecimento global, o valor monetário do estoque de carbono conservado nas unidades de conservação brasileiras foi estimado em R$ 130,3 bilhões, correspondendo a fluxos anuais de benefícios por conservação entre R$ 3,9 a R$ 7,8 bilhões, mesmo usando valores conservadores para monetizar a tonelada de CO2 equivalente (US$ 3,8 ou R$ 12,4 por tCO2 e). Por fim, a presença de unidades de conservação responde por 44% do valor total do ICMS ecológico dos municípios de treze estados brasileiros. Esse valor foi estimado em R$ 776 milhões para o ano de 2015. Em ano de eleições municipais, vale a pena se informar se seu estado conta com o ICMS ecológico e se e quanto de unidades de conservação há na sua cidade. (Foto: Parque Nacional do Iguaçu, Paraná, Brasil.WWF-Brasil/Chris Rizzi)

Dilemas de nossos dias

  Assisti a The Social Dilemma, na Netflix, e não fiquei confortável. A primeira impressão é que a polarização criada pelas redes sociais é apenas reflexo da burrice ou má intensão de parte (significativa) da população – o que já se intuía. O documentário mostra que as empresas do Vale do Silício se aproveitam dessas fraquezas para ficar trilhardárias e estão se lixando se isso leva o mundo para o buraco. Se há quem queira crer que a terra é plana, mudança climática e covid não existem e Bolsonaro é um bom presidente, porém, como não haver divisão? Acreditar que com regulações para a internet o problema será contornado, como os entrevistados dizem no filme, é de uma ingenuidade que condiz com a mágica que atribuem à inteligência artificial. A narrativa é feita para tocar o terror e não nos deixar dormir. Associam a internet às drogas – “são os dois segmentos que chamam seus clientes de ‘usuários’” – e seguem o mesmo padrão de apavorar pais: adolescentes abobados e sem vontade própria caindo nas mãos de “traficantes” de fake news. Produzido por estadunidentes para estadunidentes, citam um montão de problemas no terceiro mundo (Bolsonaro é, merecidamente, o caso apresentado de manipulação de uma eleição), mas não mexem em suas próprias feridas. Trump não é citado e os políticos que aparecem não são identificados por partido. O dilema, no entanto, está lá. É viável usar as redes sociais sem ser manipulado por elas? É possível vencer a falta de vontade de pensar do ser humano médio, que foi potencializada à estratosfera com os algoritmos da internet? Sou uma profissional de comunicação que lido com a manipulação desse setor desde os primórdios, quando ainda era uma questão apenas relacionada a anúncios. Uma vez, no Portal de Meio Ambiente da Agência Estado, no início dos anos 2000, tivemos uma briga com o departamento comercial porque uma entidade ligada a empresas (não lembro qual), travestida de instituto de pesquisa, comprou um espaço em nossa página e fez um anúncio seguindo à risca nosso padrão editorial. Recebemos vários comentários de fontes confiáveis que não perceberam que era anúncio nos questionando sobre a “matéria”. Hoje, essas fontes nem veriam esse material, que seria destinado apenas para os desinformados que acreditariam nele. Na ocasião, ficamos arrasadas porque já havíamos sido humilhadas pelo departamento comercial que nos respondeu que “pagava nosso salário” e que não reclamássemos. A primeira vez que publiquei uma matéria online, naquela mesma época, e recebi uma mensagem furiosa, cheia de insultos, menos de dois minutos depois, entrei em choque. No mundo offline em que vivia até então, o sujeito indignado precisava escrever uma carta, que por amor próprio revisava, tinha que comprar envelope e selo e ir até a caixa do correio para enviar. Tempo suficiente para refletir sobre o que pensava e como expressaria sua opinião. Hoje, as reações não passam pelo cérebro e são comandadas diretamente pelo fígado. Para me preservar, tenho como princípio não olhar nenhum anúncio nas redes sociais. Mas muitos não aparecerem como tal. Também limpei minhas redes de negacionistas, racistas, misóginos, fascistas e tudo o que me corrói o estômago. Tenho convicção que a militância que faço online não serve para nada porque só chega a quem pensa como eu. Costumo me consolar dizendo que envio para o “universo”, mas sei que ele pouco se importa. A opção seria sair de todas elas, me alienar e isolar de vez? Escuto as mensagens que pedem o fim da polarização e mais diálogo. Acredito que é nossa única alternativa. Até porque temos questões urgentes a resolver que não há como serem adiadas. Um bioma queimado e desaparecido não tem como ressuscitar espécies e ecossistemas perdidos para sempre. Povos, culturas e línguas de populações tradicionais idem. Mudanças climáticas que se aceleram vão continuar e nos destruir, mesmo que o presidente e seus seguidores continuem a rir delas. As vidas perdidas pela intolerância racial, de gênero ou social não voltarão. Mas não sei nem como começar. (Foto: Reprodução da Netflix)

O que ameaça as áreas protegidas brasileiras?

Parece piada fazer essa pergunta no momento em que quase todos os biomas brasileiros estão sob ataque, principalmente governamental, e metade da população brasileira apoia o governo. Ou seja, os algozes de nossas áreas naturais somos os brasileiros mesmo. Se com essa postura estivéssemos apenas nos condenando a uma vida que tenderá a ficar desesperadora, acho que me preocuparia menos, pois é uma opção civilizatória. Mas as cenas que temos presenciado da carnificina animal, sobretudo pelo fogo no Pantanal, são das mais indignas de nossa história recente, que não é lá grande coisa. As áreas protegidas deveriam ser nossas principais aliadas para reverter as mudanças climáticas que já não se fazem de rogadas, mas a falta de entendimento sobre sua importância e prioridades tortas as têm ameaçado sempre, com tendência crescente nos últimos anos. Ou seja, ao invés de estarmos aumentando o número dessas áreas e investindo pesado para que sejam bem geridas, assistimos a um ataque sistemático a elas. Nem vou falar agora sobre as terras indígenas e quilombolas porque persegui-las é programa de governo explícito de Bolsonaro desde sua campanha. As unidades de conservação (nossos parques e todos os demais tipos de áreas destinadas especificamente à conservação da natureza), porém, vêm sofrendo crescentes ataques nos últimos anos no Congresso Nacional e assembleias legislativas estaduais, com uma série de tentativas de diminuição de tamanho, redução no grau de proteção ou sua total eliminação. Conhecidos internacionalmente pela sigla PADDD – do inglês Protected Areas Ddowngrading and Degazettement – esses eventos são motivados por projetos de infraestrutura, mineração e agronegócio. No Brasil, 90 casos desse tipo já ocorreram, afetando uma área total de mais de 116 mil km2, outros mais de 250 mil km2 estão diretamente ameaçados. Esses dados fazem parte do pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e comecei a abordar na semana passada. O material explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. Esses dados fazem parte do volume O que ameaça as áreas protegidas brasileiras?. Entre as principais ameaças, estão a proposta de reabertura da Estrada do Colono (no Parque Nacional do Iguaçu), a redução do status de proteção do Parque Nacional Campos Gerais (ambos no Paraná), da Estação Ecológica de Tamoios (no Rio de Janeiro) e as propostas de redelimitação dos parques nacionais Serra da Bodoquena (Mato Grosso do Sul) e Lençóis Maranhenses (Maranhão). As unidades de conservação estão ameaçadas, ainda, pela proposta do Ministério do Meio Ambiente (MMA) de revisar todos os limites e categorias de unidades de conservação federais. Nos últimos cinco anos (entre 2013 e 2018), o orçamento do MMA caiu R$ 1,3 bilhão, passando de R$ 5 bilhões para R$ 3,7 bilhões. De 2017 para 2018, o ICMBio, responsável pela manutenção das unidades de conservação, teve redução de 44% em seu orçamento. Um exemplo comezinho do que acontece. Sem nenhuma manifestação contrária, deputados da Assembleia Legislativa de Rondônia fizeram desaparecer, em menos de uma hora de discussão, mais de meio milhão de hectares de áreas protegidas na Amazônia. De uma só vez, há exato um ano (setembro de 2019), riscaram do mapa onze unidades de conservação no estado, com tramitação em tempo recorde: o projeto foi protocolado no meio da manhã e, à tarde, já estava aprovado. A maior delas é a Estação Ecológica Soldado da Borracha, de 1.789 km2. Outro caso, ainda não efetivado, mas com porteira está aberta e boiada louca para passar, é a ação judicial movida por antigos proprietários que não foram indenizados no Parque Nacional da Bodoquena, em Mato Grosso do Sul. A ação visa a reduzir a área do parque de 76 mil hectares, para 20% disso (cerca de 15 mil ha). O parque abriga mais de 170 tipos diferentes de árvores e fauna ameaçada de extinção. Além disso, é o local onde nascem alguns dos rios mais importantes para as atividades que fazem de Bonito um dos principais destinos de ecoturismo no país. Resolver questões como essa é essencial para acabar com as ameaças às áreas protegidas, sem que a solução seja punir o meio ambiente e toda a vida que dele depende. (Foto: Queimada na Amazônia no estado do Pará,2019. Araquém Alcântara/WWF-Brasil)

É mentira que Brasil tem áreas protegidas demais

  O Brasil arde em chamas e boa parte da população ainda cai no conto do vigário de que fogo não é fogo, fogo aparece sozinho, floresta é mato e existe mesmo para queimar (e depois plantar commodity, criar gado ou minerar). Pantanal, Amazônia, Cerrado e até o pouco que resta da Mata Atlântica estão indo para o espaço, em forma de fumaça, e brasileiro médio preocupado com os incêndios das mansões da Califórnia. Enquanto nossos biomas agonizam e as populações que deles dependem vivem em situação de guerra, incentivada pelo governo federal, mas não só, a ladainha de que há muita área conservada, muita terra pra pouco índio (e pouca pra latifundiário) e nosso agro é pop continua a ser recitada em verso e prosa. Mas são informações que, como tantas outras nesses tempos sinistros, não correspondem aos fatos. O Brasil é o quinto maior país em território do mundo, com seus 8.516.000 km2. Desse total, 18% são cobertos por unidades de conservação (UC), que somam aproximadamente 1,6 milhão de km2. No entanto, apenas 6% da área em UC estão em unidades de proteção integral, ou seja, aquelas que permitem apenas o uso indireto dos recursos naturais e atividades como educação, pesquisa científica e turismo.  Os demais 12% são unidades de uso sustentável, nas quais são permitidas atividades econômicas, sendo 5,4% em Áreas de Proteção Ambiental (APA), categoria com pouquíssimas restrições de uso da terra, contendo inclusive cidades efazendas em seu interior. O restante são áreas nas quais são permitidas a produção madeireira sustentável e o extrativismo de produtos como castanha, açaí e borracha. A porcentagem de cada bioma em unidades de conservação também não é homogênea: Amazônia, 28%; Caatinga, 8,8%; Cerrado, 8,3%; Mata Atlântica, 9,5%, Pampa, 3%; Pantanal, 4,6% (alguém adivinha se essa porcentagem baixa ajuda que o fogo esteja tomando este bioma a ponto de até os pecuaristas estarem desesperados?). Além disso, o país conta com 963 mil km2 de unidades de conservação no mar, totalizando 26,4% de sua área marinha; 22,9% em Áreas de Proteção Ambiental. Em números, são mais de 2.300 unidades de conservação no Brasil. Parece muito, mas não é. E não estou nem levando em consideração como essas áreas (não) são geridas. Se observarmos as áreas protegidas como um todo e somarmos às unidades de conservação as terras indígenas, que ocupam 1.179.560 km2 (14% do território brasileiro), o Brasil protege 2.572.575 ou 30,2% do país. Caso sejam excluídas as APA, muito pouco restritivas (ou unidade de conservação para boi dormir, às vezes literalmente), são 25% do território em UC e TI. Para quem ainda não entendeu: terras indígenas são áreas federais do povo brasileiro, com usufruto dos índios, que, se deixados em paz, costumam cuidar muito bem delas. Em relação à área do país, as áreas protegidas estão ainda muito mal distribuídas pelos biomas: 90% ficam na Amazônia, que concentra apenas 10% da produção agropecuária. Fora da Amazônia, onde ocorre 90% da produção agropecuária brasileira, apenas 5% do território está sob áreas protegidas. O ideal seria ter, no mínimo, 20% de cada bioma em unidade de conservação. O mais importante, porém, para os recalcitrantes não ficarem de mimimi, é que a proporção de áreas protegidas no Brasil não destoa da média mundial, que é de 29%. A Europa, aquele continente o qual nossos governantes gostam de dizer que destruiu tudo o que tinha e agora quer que o Brasil morra à míngua e no meio do mato, tem porcentagens significativas de território em áreas protegidas: França: 26%, Reino Unido: 29%, Alemanha: 38%. O Japão tem 29%, enquanto nossos hermanos amazônicos Peru, Colômbia e Bolívia têm mais de 40%. Esses dados fazem parte de um pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, que ajudei a produzir, o qual explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. Esses dados fazem parte do volume Quanto o Brasil tem em unidades de conservação?. (Foto: Confluência dos rios Juruena e Teles Pires, Pará. @WWF-Brazil/Zig Kock)