Dia da Marmota
Mais uma manhã clara e fria. Silenciosa. Ajeito as cobertas e me pergunto porque coloquei o despertador. A sensação é de estar em mais um Dia da Marmota do filme Feitiço do Tempo. Sei que será tudo igual, nada de novo à vista. Desde que cheguei tento manter uma rotina, como indicam os manuais que inundam as redes sociais, mas às vezes – muitas vezes – o corpo quer e a mente não, e vice-versa. Fazer exercício, preparar as refeições, fingir que trabalho, eis o plano. Na minha lista ainda estão cuidar das plantas, estudar inglês, tocar piano, escrever e falar com amigos. Quase rio, por saber que não farei quase nada disso. Levanto relutante e passo alguns minutos sem conseguir decidir se tomo banho ou faço uma caminhada. Pego o celular para dar uma olhadinha e lá se vão 40 minutos de nada no Facebook, Twitter, Instagram e Paciência – muita paciência. Vou tomar café de pijama mesmo. Jardim dividido com as formigas. Decido por caminhar pelo menos meia hora em volta do campo de futebol. Dez minutos para cada lado para não ficar tonta – é só um campinho. A grama amassada marca o trajeto que, de qualquer maneira, é o único possível. Ouvir música alivia e algumas vezes chego a dançar. Mas é também quando choro, principalmente porque ninguém está vendo. Hoje não dancei nem chorei. Entrei em uma fase de resignação. Não sei qual virá depois. O banho é quente e demorado para evitar que o dia realmente comece. Decidir que roupa colocar, dentre a meia dúzia que trouxe comigo no que pareceu (e foi) uma fuga, demora muito mais do que o necessário, acabo com a mesma que estava ontem, coisa que jamais faria antes. Mas coloco brincos e colar, passo batom e rímel e, quando estou finalmente pronta, é hora de ir pra cozinha. Vou até a horta nos fundos da casa, escolho algumas verduras e temperos e penso em meus privilégios. Sem saber se agradeço ou me culpo, sigo para minha jornada de quase duas horas que é a mais prazerosa do dia. Cozinheira tardia e bissexta, me sinto uma alquimista ao transformar, em tão pouco tempo, uma ideia de cardápio em realidade concreta e ver os resultados imediatamente, quando nos reunimos à mesa. A refeição começa leve, elogios à comida e boas lembranças, até que alguém solta, inadvertidamente, algum comentário sobre a situação ou algum plano irrealizável. A conversa trivial se torna irônica, depois exaltada. Dejavu. A operação conjunta para arrumar a cozinha é rápida, coreografada. Cada um segue para suas atividades. Vou para a rede. Meia hora de leitura que se transforma em uma. Tantos anos pra ler On The Road e resolvo começar justamente agora. Devo me odiar. Crio coragem e, finalmente, encaro o trabalho. Há textos para editar e revisar, prazos a cumprir. Meu cérebro deletou a noção de produtividade. Concentração se tornou algo abstrato demais. Escondo o celular pra não ter perigo de me distrair. Todo o esforço me consome por, no máximo, duas horas. Lembro das formigas… ah, as formigas… não posso me esquecer das formigas. Mais ou menos um mês após nossa chegada, me interessei pelo jardim. No começo, apenas molhava as plantas com o regador. Passei a tirar espécies invasoras, podar galhos secos, afofar a terra. Mas, de repente, percebi que vivia em cima de um grande formigueiro, uma megalópole subterrânea e biodiversa, com uma população de diferentes tamanhos, técnicas construtivas e modos de trabalho, que tomou conta do terreno sem que eu percebesse. Não que eu não soubesse que elas existissem. Apenas era tolerante, achava que também tinham lugar ao sol – e sua cota de terra e vegetação. Acreditava que fossem, como grupo, inofensivas. Quando estendia minha toalha para tomar sol e elas me incomodavam, mudava de lugar e esquecia delas. Ledo engado. Com o tempo, se tornaram ousadas, não mais se preocupavam em disfarçar sua atuação nefasta e agora não sei como retomar meu território. Elas se portam como maioria e têm o poder. Fui estudar como enfrentá-las sem agredir todo o resto. O que adianta eliminar as formigas e, ao mesmo tempo, envenenar a horta, o jardim, os pássaros e os demais insetos? Comecei com água fervente – e pareceu eficiente -, mas me senti como uma tirana sanguinária. Não me fez bem. Ultimamente, borrifo uma solução de água, detergente e vinagre, espalho arroz cru pelo gramado – li que elas carregam para o formigueiro para alimentar seus fungos, e o arroz fica tóxico quando umedece -, e despejo toda a borra de café que produzimos. Devo, pelo menos, irritá-las. Decido fazer a inspeção do dia, mas percebo que já é hora do café da tarde, cada dia mais cedo, à medida que o inverno avança e o pôr-do-sol adianta. É o momento sagrado de reverenciar. Sentada na varanda, vejo o céu amarelar, depois alaranjar até chegar a um vermelho vivo. Beleza absoluta e melancólica. Fico imóvel, hipnotizada. Até que tudo fica escuro e frio. Antes, ficava para ver as estrelas e a lua, mas o quentinho de dentro agora é mais atrativo. À noite, tudo fica mais difícil. Ver ou não ver o Jornal Nacional? É melhor saber ou imaginar? Qual o nível de angústia aceitável? Decido pela ignorância, pelo menos hoje. O jantar é silencioso. Estamos todos abatidos, com saudade da vida. Assisto uma comédia, para tentar digerir tudo e retardar o momento de deitar. Que é bom, porque sonho muito, mas ruim, porque às vezes acordo assustada e demoro a voltar a dormir. Sei que mais um Dia da Marmota me espera.
Educação contra o fanatismo
Pela primeira vez, nos quase 12 anos do Círculo Feminino de Leitura (CFL), pulamos um encontro mesal. Mas, finalmente, conseguimos nos reunir remotamente. Demorei um pouco, mas gostaria de fazer algumas considerações sobre nosso livro tema – “A menina da Montanha” -, que traz a autobiografia da estadunidense Tara Westover. Criada em uma família mórmon fanática, Tara só pisou em uma sala de aula aos 17 anos, já no ensino superior, depois de uma batalha com os pais e com a própria falta de instrução. O livro a acompanha até o doutorado em Cambridge e à sua libertação do jugo familiar. A primeira observação interessante sobre o livro é a tradução do nome original para o português: “Educated” passa a ser “A menina da montanha”, o que remete falsamente a um romance adolescente. É como se o brasileiro fosse idiotizado já de saída. Para os editores, não compraria um livro que se chamasse Educada ou Escolarizada, que é a grande mensagem da história (será que é isso mesmo?). Só o acesso à universidade permitiu a Tara se libertar da opressão de sua família, que incluía abusos físicos e mentais. Ao acompanhar a história de Tara, vemos como uma mente fanática se constrói e como é poderosa, sobretudo na figura do pai. A escritora é uma exceção. O livro deixa crer que há poucas chances de cura para uma família como a sua. Particularmente em relação à mulher, o fanatismo religioso (me desculpem as religiosas, mas todas as grandes religiões são opressoras da mulher) impede até qualquer ideia de sororidade. A submissão impede a compaixão, inclusive a autocompaixão. Como Tara deixa claro, a pessoa se sente culpada pelos maus tratos que sofre. Difícil ler o livro e não associar ao que vemos acontecer hoje nos Estados Unidos e no Brasil. Essa horda não vê evidências, não aceita argumentos, apenas dogmas, mesmo os que vai criando por conta própria. E, como no filme “Idiocracy”, os cretinos acabam vencendo porque se reproduzem muito. Impossível não fazer essa analogia com a família de Tara. Enquanto os irmãos se reproduzem como coelhos, ela é a única sem filhos. A produção de eleitores de Trump é avassaladora. Já devem nascer com armas e bíblias na mão. Se não assistiram a esse filme, procurem ver. Ele é horrível e de mau gosto, mas ideia é muito boa… Sobre as consequências da existência em si de gente como as personagens do livro, além de produzir contingentes de pessoas infelizes e ressentidas, preocupadas sempre em julgar o comportamento do outro – são infiéis, são putas etc.- e nunca o seu, produz danos que, somados, têm se tornado praticamente irreversíveis. Aqui vai um spoiler, a ser bem-entendido por quem ler o livro: O que é o ferro-velho dos Westouver? Toda aquela gasolina, todos os fluídos de bateria infiltrando no solo sem nenhum controle? Se o pai não se preocupa com a segurança dos filhos, que dirá do meio ambiente. É muito ilustrativo quando Tara menciona, quando volta para casa após o falecimento da avó, que a matriarca segurava um pouco, mas agora o ferro-velho tomava toda a montanha. Dá para imaginar o galão de gasolina que eles enterraram no solo também vazando. E a água, que o pai puxou da montanha para não pagar ao governo? Deve ter sido um servicinho de porco, com desmatamento e erosão. As chances dessa água estar contaminada pelo ferro-velho são enormes. Mas eles a usam para fazer “medicamentos”. Com a falta de higiene que Tara descreve na família, dá para imaginar a “qualidade” de seus “medicamentos”? Sem levar em conta a falta de qualquer aspecto científico (até eu tomo homeopatia de vez em quando mesmo sabendo que não é nada…), dá para imaginar o quanto a coisa toda é porca? E eles ficaram ricos com isso! Ainda daria para dissertar muito sobre o capitalismo e sua relação com a violência e a hipocrisia geral que os permitiu enriquecer e nunca ser punidos pelos malfeitos em nome da fé, mas deixo para outra discussão. Fico apenas com a imagem que me vem dessa família: um bando de sequelados física e emocionalmente, que sobreviveram por puro milagre (nesse ponto eles têm razão… ahahaha), que se comprazem das próprias mazelas e, quando possível, tiram algum proveito delas. Esperam o fim do mundo, principalmente, porque não gostam dele. E esperam o fim do mundo para se beneficiarem desse fim. Aguardam que todos sejam eliminados para que, finalmente, sua mediocridade seja premiada.
A cara do Brasil
Me pergunto em qual contexto pode ser razoável dizer que CNPJs estão na UTI e vão morrer e por isso as medidas de isolamento social adotadas por estados e municípios devem ser rapidamente relaxadas, em meio a uma pandemia que já matou oficialmente 10 mil brasileiros (ou seriam CPFs?), com os números diários de vítimas subindo a cada dia. Também tento entender sob qual ponto de vista minha liberdade (de fazer o que bem entender) está acima da vida (de qualquer pessoa). Além destas, fomos brindados, nesta semana nefasta, com pérolas como a afirmação de que a pandemia já está controlada nas classes média e alta, portanto, podemos respirar aliviados, de preferência bem perto uns dos outros trabalhando e comprando para movimentar o “mercado”. Ou a, não menos significativa, iniciativa de incluir empregadas domésticas como serviço essencial. Talvez, para parcela da população, que possivelmente nunca se deu ao trabalho de sequer registrar essas profissionais, pagá-las sem que prestem o serviço deva ser tão aviltante quanto imaginar encontrá-las de férias na Disney. Acredito que a provocação feita por Cazuza, em 1988, finalmente se revelou: o Brasil mostrou a sua cara e quem paga pra gente ficar assim. De tudo que li para tentar assimilar esses tapas na cara diários – que começaram a ser dados há um ano e meio, mas se intensificam ultimamente na mesma proporção com que são abertas e fechadas covas nos cemitérios -, o mais contundente foi o artigo O Jair que há em nós, de Ivann Lago, escrito no final de fevereiro, quando ainda estávamos nos despedindo do carnaval, “negando as aparências” e “disfarçando as evidências”, como manda o gosto musical mais condizente com a atualidade. Nele, o sociólogo mostra como esse governo representa bem seu eleitorado, formado pelo que chama de “brasileiro médio”, e desconstrói a “imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e ‘malandro’”. E mostra como, no “mundo real”, “o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.” Infelizmente, esse retrato patético é o único que se enquadra nas cenas repugnantes que temos presenciado, como os ataques a enfermeiros e jornalistas, ou na atitude de muitos com os quais convivíamos e confraternizávamos até ontem e que vemos vociferar contra a ciência, a imprensa e apoiar o inaceitável. Enquanto isso, há aquela outra parte da população que, indignada com o que vê, tenta apagar os incêndios cada vez maiores com baldinho. São ativistas dos movimentos sociais e ambientais que precisam passar o dia com a boca no trombone listando as barbaridades praticadas, oficial e extraoficialmente, pelo governo federal e fazendo manifestos e apelos que se perdem no meio de tantas crueldades sobrepostas contra as populações mais vulneráveis, sejam as que vivem nas periferias das cidades, sejam as que estão nos mais remotos grotões, como índios e quilombolas. São jornalistas, profissionais de saúde ou funcionários públicos – como os fiscais do Ibama – hostilizados por cumprir a lei e fazer seu trabalho. Há os que ajudam como podem, com recursos ou demonstrando apoio. Independentemente de mais perto de qual desses espectros cada um esteja, é um bom momento para se olhar no espelho, ter uma conversa franca consigo mesmo e dizer honestamente o que pensa e de que lado está. Pode continuar a dizer publicamente que não se discute política, que o mais importante é a conciliação, que precisa respeitar a opinião de todos, que deixando de pensar no problema ele desaparece. Mas seja sincero privadamente, nem que seja pelo autoconhecimento. Qual é a sua cara?
Cada epidemia tem seu gráfico
O nome poderia ser índice de solidariedade humana, de empatia ou simplesmente de humanidade mesmo. Como o que mais fazemos atualmente é ver gráficos e curvas, acho que este também seria procedente e ajudaria a entender uma epidemia nada silenciosa que vem ameaçando o país de maneira tão avassaladora quando o coronavírus. Começa com uma linha de base zero, formada por bolsominions que fazem manifestações durante o isolamento social – Bolsonaro & filhos e seguidores que batem em mulher, enfermeiras e jornalistas não entram porque estão abaixo da linha e não dá para começar o gráfico no negativo. A partir daí a curva vai subindo até atingir o pico, que seria nível, por exemplo, padre Júlio Lancellotti. Há vários outros exemplos, mas acredito que esse seja suficiente para estabelecer o padrão. Ao contrário da curva de contágio e mortes do covid-19, o ideal para acabar com esse tipo de vírus da desumanidade seria que a curva crescesse rapidamente e, ao atingir o pico – ou até ultrapassá-lo – ali se mantivesse indefinidamente. Infelizmente, o que vem acontecendo é diferente. O Brasil conseguiu achatar a curva de maneira impensada por qualquer padrão internacional e agora precisa correr atrás do prejuízo para que ela não caia ainda mais. Medidas como informação baseada em ciência, conceitos ligados a moral e ética, nem o simples bom-senso têm surtido os efeitos esperados. Ainda é um mistério como é feito o contágio, se é possível vacina ou cura. Essa não é absolutamente uma proposta científica, o que não significa que pesquisadores das áreas biológicas, humanas e exatas não possam se juntar para aperfeiçoar a ideia e tecer teorias de como melhorar esses índices. A demanda se justifica em prol de sua urgência para evitar sequelas irreversíveis à saúde e à democracia no país.
O céu é a nova fronteira
Olhar o céu é uma experiência quase transcendental para uma paulistana que, de seu apartamento, não consegue nem ver a lua. Estrelas são artigo tão remoto quanto cobras e jacarés. Mas há mais de um mês na chácara em quarentena, viciei. Paro tudo o que estiver fazendo pontualmente para ver o pôr-do-sol, que tem se esmerado nesse tempo seco e de céu limpo. Só não aplaudo porque meus filhos me proibiram. Um pouco mais tarde, quando a escuridão se impõe, mas o frio ainda não deu as caras, passo alguns minutos admirando o firmamento. Nessa hora, me transporto para a infância e acompanho as fases da lua, procuro Vênus e Marte, as Três Marias, o Cruzeiro do Sul, tento contar as estrelas e escolher a mais brilhante. É o momento de paz que antecede a queda na realidade de quando ligo a TV para o noticiário. Deitar no gramado para mirar o céu embrulhada em mantas de avião (sim, peguei algumas de souvenirs), é minha maneira de viajar e me sentir conectada ao mundo em época de pandemia. Raramente, um avião corta a paisagem, com sua luz vermelha, e interrompe o silêncio, outro artigo de luxo que tenho cultivado com muito carinho. Nada que se compare ao antigo normal. Mas em algum momento, na semana passada, uma estrela se mexeu… Infelizmente não era uma estrela cadente, coisa que vi tão poucas vezes na vida. Ela se movia bem mais alto e um pouco mais rápido do que um avião e se misturava às outras estrelas. Perdi de vista sem saber do que se tratava. Decidi não pensar mais nisso, por medo de estar ficando mais louca que o necessário – minha costumeira indignação com as mazelas vindas do planalto central tem se multiplicado ultimamente e a família tem duvidado de minha sanidade. No último sábado, porém, foi impossível ignorar. Os pontos luminosos viajavam em fila indiana ou em pares, a velocidade e órbita constantes. Contamos mais de trinta em meia hora – Ufa! Tive várias testemunhas. Como mistério atualmente é só o que vai na cabeça de terraplanistas e suas variantes políticas e epidêmicas, uma pesquisa rápida no Google nos informou que são satélites do Elon Musk, que quer formar uma constelação de 12 mil satélites artificiais para criar uma rede global de internet de banda larga. Toda minha alegria de imaginar que eram OVNI chegando para acabar com a lambança que os humanos estamos fazendo com o planeta se esvaiu em segundos. Fui obrigada a reconhecer que, mais uma vez, o capitalismo selvagem levou a melhor. Depois de invadir cada cantinho da Terra, tornar os oceanos lar das mais variadas espécies de plásticos, que se apoderam do domínio dos peixes como os brancos fizeram há 500 anos com os índios na América, a terra de ninguém da vez é o espaço. Já imagino as crianças do futuro, em excursões para áreas protegidas para escuro – as para ambientes naturais não tenho como prever se existirão –, olhando para o céu e tentando discernir o que é estrela, o que é satélite e outras porquices que ainda virão. Ok, escuto as vozes da multidão me informando que é um preço baixíssimo, praticamente uma liquidação, pelo grande benefício de internet barata e em grande escala. Afinal, quem precisa olhar para o céu se tem um celular. Além disso, como empresários são pessoas muito razoáveis e boas, após o grito de astrônomos contra tanta demonstração de empreendedorismo, a SpaceX, empresa responsável pela inovação, promete criar um revestimento especial projetado para tornar o satélite menos reflexivo, na tentativa de reduzir a interferência em observações espaciais. Posso dormir tranquila. Ou não…
Desabafo de quarentena
Sempre que alguma notícia ruim era divulgada sobre políticas públicas ou qualquer coisa relacionada a governos de qualquer instância, meu desgosto imediatamente se dirigia para os políticos e gestores, traidores da confiança neles depositada. Quando se tratava de uma gestão na qual apostei – ou seja, pessoas e partidos em que votei – ficava ainda mais furiosa. Desde que o atual presidente foi eleito, porém, esse sentimento mudou radicalmente. Minha indignação, que tem se transformado em raiva, recai para seus eleitores e tenho que me esforçar para não incluir os que lavaram as mãos no mesmo caldo. O que diferencia minha posição são questões bastante concretas. Até então, mesmo políticos com ideologias e histórias pregressas que abominava passavam em suas campanhas imagens comprometidas com a lisura e a busca do bem comum para todos. Mesmo que desconfiasse (ou tivesse certeza, em muitos casos) que mentissem, me parecia plausível que parcela da população tivesse esperança em seus discursos e acreditasse que os cumpririam. Aplico esse mesmo princípio ao caso de Jair Bolsonaro e seus eleitores. Ele sempre me pareceu bastante honesto em suas intenções, não disfarçou ou escamoteou o que pensava. Sua campanha foi totalmente coerente com sua história e suas prioridades muito bem delineadas. Em uma pesquisa rápida no Google – que fiz quando percebi que aquele deputado obscuro, que só conhecia por tentar dar carteirada ao ser pego de sunga branca pescando em área de proteção ambiental, crescia nas pesquisas -, o assisti (de própria voz) dizer orgulhosamente ter sido o único parlamentar a votar contra os direitos trabalhistas de domésticas; que não estupraria uma mulher porque ela era feia e não merecia; defender as milícias, mesmo sabendo que são ilegais; falar a uma mulher negra que um filho seu não se casaria com uma mulher negra por questões morais; afirmar que preferia ter um filho ladrão ou morto a um filho gay; que negros quilombolas não serviam nem para procriar; que acabaria com todo o ativismo no país; e que a ditadura militar no Brasil foi branda e que deveria ter matado uns 30 mil. Havia muito mais, mas isso foi o suficiente para eu ficar profundamente deprimida. E não por ele ser quem é. Acreditava que indivíduos assim eram sociopatas minoritários e que sozinhos não ofereciam tanto risco. Meu desgosto foi, pela primeira vez, ouvir pessoas próximas dizerem que votariam nele mesmo assim, com o argumento de que não eram questões importantes como a economia, por exemplo, ou, cinicamente, afirmarem que ele não cumpriria o que prometia. Vi pessoas com o mesmo nível intelectual e social que eu votarem em alguém que afirmava existir mamadeira de piroca. A vitória desse candidato e a entrada de sua trupe bizarra de filhos e ministros na direção do país e tudo que se seguiu foram minando minha fé na humanidade dia após dia desde então. Acredito na existência de pessoas ingênuas e sem acesso a informações que caíram na lorota anticorrupção – já tínhamos tido um Collor, não sou cretina e sei como isso acontece. Mas seria um insulto pensar que as pessoas que conheço e que ainda defendem esse governo ou se fazem de sonsas – não conheço nenhuma arrependida – se enquadrem nessas categorias. Penso que, de alguma forma, se identificam com essas ética e moral tortas ou são tão egoístas, que estão se lixando para qualquer coisa que não seja elas mesmas, seus dinheiros e privilégios. Me tornei uma pessoa pior, porque intransigente. Tinha convicção de que nunca seria a maquinista do trem para Auschwitz, mas algo me dizia que aquele condutor poderia estar sendo sincero quando argumentou apenas cumprir ordens. Não consigo mais banalizar o mal. Sei que não trago toda a bondade e suporto um bom tanto de hipocrisia em mim e no outro. Não somos perfeitos, pensamos e temos histórias de vida diferentes. E há momentos, como esta pandemia, que nos põem à prova como comunidade humana e torna difícil julgar as necessidades de cada um. Mas há um limite, que foi transposto no Brasil de maneira vil. E não sei se, e como, podemos sair desse atoleiro.
A foto do Che
Demorei muito para entender, se é que cheguei a isso, a fixação que minha geração tinha pela foto de Che Guevara na adolescência. Mesmo com minhas parcas informações de aluna de escola pública no final da ditadura – e numa casa onde ninguém ousava conversar sobre nada que realmente importava –, não via naqueles meninos que portavam camisetas, cadernos e pôsteres do guerrilheiro cubano (só fui saber que era argentino muito depois), nada em comum com ele. Acredito que muitos nem sabiam de quem se tratava. Durante as aulas, pelo menos, nunca foi dita uma palavra sobre revolução cubana ou seus líderes – nem pra falar mal. O famoso retrato pelo qual o Korda nunca cobrou royalty. Aquele olhar terno e feroz ao mesmo tempo, decidido e cheio de esperança, só me capturou já na faculdade, quando a luta pelas Diretas Já indicavam que, veja só, de repente, um mundo novo e mais justo seria possível. Todos esses anos depois e muitas contradições não resolvidas – como a dicotomia de Cuba permanecer uma ditadura até hoje e o Brasil, depois de tanta luta por democracia, progressos reais e problemas praticamente insolúveis, estar em uma relação séria (de alianças compradas) com o fascismo -, ainda me pergunto o que aquela imagem quer nos dizer. Topei com essa questão novamente ao visitar a exposição Agora ou Nunca – Devolução de Maureen Bisilliat no Instituto Moreira Salles (IMS). A mostra traz uma série de vídeos produzidos pela fotógrafa desde os anos 1960. Dentre eles há uma entrevista com o autor da foto, o fotógrafo cubano Alberto Korda, que me capturou. As perguntas feitas por Maureen e que Korda não tinha como responder eram se ele tinha noção, ao tirá-la, do poder que teria e o que ela tem de tão especial. O fotógrafo acredita que tenha capturado o idealismo e a convicção de Che Guevara. O que a foto representa, porém, parece ir além do personagem. Batizada de Guerrilheiro Heroico por seu autor, falecido em 2001, a foto foi tirada em 5 de março de 1960 em Havana, durante um evento dedicado às cem vítimas da explosão do navio “La Coubre”, que vinha da Bélgica para Havana com armas e munições para a então recente Revolução Cubana e cujos líderes consideraram uma sabotagem. Che tinha na época 31 anos e a foto só foi publicada sete anos depois, logo após sua morte na Bolívia. A fotografia foi então projetada em um prédio durante um discurso de Fidel Castro e depois transformada em um pôster por uma editora italiana, que vendeu dois milhões de cópias em seis meses. O retrato é considerado a imagem mais reproduzida do Século XX, na frente até da Marilyn Monroe com a saia levantada e a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci.
Sobre assédio, redação e O Escândalo
Assédio e redação de jornal para mim sempre soaram como quase sinônimos, sobretudo no meu início de carreira, entre o final dos anos 1980 e início dos 1990. Tive chefe que nunca me convidou para sentar ao falar comigo em sua sala (e eu entrava lá várias vezes por dia) e, quando queria me dar bronca, perguntava se meu marido não estava comprando comida (deve ser porque sabia que me pagava uma miséria…). Um outro trocou a mesa baixa dos repórteres com a mais alta dos diagramadores, apenas com a intensão de humilhar a redação. Os diagramadores devem ter tido todos dores nas costas, enquanto os repórteres trabalhavam com listas telefônicas sobre as cadeiras como se fossem almofadas para conseguir alcançar as máquinas de escrever (sim, você entendeu bem, eram máquinas de escrever, sou velha). Houve também chefes (vários) que, quando eu saía no meu horário – o que era raro, pois o normal era ficar pelo menos uma hora a mais -, olhavam ostensivamente no relógio antes de me dar boa tarde. Um deles tinha os costume de, quando ligava para a casa de algum repórter para passar a pauta, perguntar o que ele estava fazendo. Na verdade, só sei que fez isso comigo e com colegas minhas, não sei se fazia com homens também. Tinha uma delas que ouvia isso praticamente todas as noites. Eu sempre a aconselhava a dizer que estava trepando com o marido, mas ela era fina e nunca aceitou a sugestão. Além de uma chefe (mulher e feminista) que, na véspera de minhas férias, me chamou para dizer que não havia assinado a autorização porque estava com “ódio” (isso mesmo!) de mim. Felizmente, chefes intermediários (entre a big boss e eu) intercederam por mim e não precisei abandonar o emprego, já que da minha viagem eu não abriria mão. Tinha uns 25 anos, porém, quando enfrentei meu caso explícito de assédio sexual. Trabalhava em um jornal semanal e, durante uma viagem de trabalho com um grupo de jornalistas, conheci um editor do jornal que sempre sonhei em trabalhar – detalhe importante: ele levou a esposa na viagem. Ficamos amigos, ele me elogiou muito. De volta, me ligou e pediu que eu encaminhasse meu currículo, o que fiz imediatamente, explodindo de felicidade. Eis que, depois de alguns dias, ele me liga e diz que tinha outra viagem para fazer, que era um final de semana e que seria muito legal se eu fosse com ele para discutirmos minha contratação. Fiquei em estado de choque e só consegui responder que estava fora de cogitação. Desnecessário dizer que nunca mais ouvi falar no sujeito. Me senti um lixo. Pensava que eu devia ser uma péssima profissional, que só era vista por ser uma garota bonitinha. No meu primeiro trabalho, ainda não como jornalista (mas coincidentemente na mesma empresa desse editor), o big boss da vez, ao me contratar, disse que o local ficaria muito mais bonito comigo lá – saí da sala muito infeliz, pois esperava que ficasse muito mais eficiente… Tenho certeza que há mulheres muito fortes e seguras que não se deixam intimidar por essas coisas. Além esperar – desesperadamente – que aconteçam muito menos. No meu caso, não tenho como dizer se e quanto isso influenciou na minha própria vida e carreira. Essas lembranças vieram à minha cabeça enquanto assistia ao filme O Escândalo (de Jay Roach), sobre os casos de assédio sexual na Fox News. O incômodo era ainda maior porque as mulheres assediadas do filme (as atrizes Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie, incríveis nos papéis) nem eram o que considero pessoas legais, mas umas reacionárias e carreiristas de primeira. Aliás, sororidade é o que não vemos entre as mulheres no filme, o que dificulta, no primeiro momento, a empatia por elas. Mas, conforme acompanhamos seus dramas e as escrotices às quais são submetidas, vamos percebendo que são pequenas as chances femininas de ascensão sem, no mínimo, um pouco de cumplicidade com o sistema. Foi um filme doloroso de ver.
Agropecuária brasileira precisa se adaptar às mudanças climáticas
O Brasil é líder global na produção agropecuária e pode ser tornar o maior exportador de alimentos do mundo nos próximos anos. Para isso, porém, o país precisa estar preparado para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. A poucos dias do início da reunião anual da Convenção do Clima (COP-25), em Madri – que seria no Brasil, mas foi esnobada pelo seu (des)governo, não esqueçamos -, esse alerta foi amplificado com o lançamento do working paper “Papel do Plano ABC e do Planaveg na Adaptação da Agricultura e da Pecuária às Mudanças Climáticas”, pelo WRI Brasil. O estudo traz pesquisas e análises que mostram quais são os impactos das mudanças climáticas na agricultura brasileira e como eles podem ser minimizados por meio da implantação das tecnologias do Plano Nacional de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) e da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Espera-se uma redução de 17% na produtividade agrícola global até 2050, causadas por essas mudanças, cujos principais impactos são: alterações nos ritmos de ganho de biomassa vegetal e animal; modificação nos padrões fenológicos; diminuição da fertilidade animal e vegetal; e aumento da susceptibilidade a doenças. Estima-se que, no Brasil, em nove culturas (algodão, arroz, café, cana, feijão, girassol, mandioca, milho e soja), em pastagens e na pecuária de corte, os efeitos levariam a um impacto negativo de US$ 4 bilhões em 2050, com a soja responsável por 50% dessas perdas. A adoção de tecnologias de baixo carbono, disponíveis e já em implantação no Brasil (infelizmente por uma minoria de visionários), poderia ajudar o país a reduzir, em muito, os prejuízos que terá com as mudanças climáticas. Essas tecnologias, que incluem a recuperação de pastagens e os sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta, lavoura-floresta, pecuária floresta, além dos sistemas agroflorestais (SAF), entre outras vantagens, minimizam os efeitos de eventos extremos, como secas prolongadas, picos de calor e de frio, e tempestades. Se aplicados conjuntamente às metas do Planaveg, de recuperar pelo menos 12 milhões de hectares até 2030 de vegetação nativa, em áreas de preservação permanente (APP), de Reserva Legal (RF) e degradadas com baixa aptidão agrícola, beneficiariam não apenas o setor agropecuário como o país como um todo. Este working paper levou mais de um ano de trabalho árduo para ficar pronto e contou com a participação dos especialistas Eduardo Assad, Luiz Claudio Costa, Susian Martins, Miguel Calmom e Rafael Feltran-Barbieri, e a coordenação de Carlos Nobre. Também tive a honra de participar desse trabalho e aprender um monte com essas feras. Durante a apresentação do estudo, na semana passada, uma das grandes questões era entender porque, com tantas evidências, essas tecnologias ainda não são mainstream na agropecuária brasileira. Ao contrário, parecem ser combatidas por grandes representantes do setor. Além de questões como falta de formação técnica – tanto dos agropecuaristas quando dos financiadores – ou as facilidades propiciadas pela ilegalidade, Daniela Mariuzzo, diretora executiva do IDH Brasil (Iniciativa para o Comércio Sustentável) lembrou que a decisão final sobre a adoção de qualquer prática é do próprio agricultor, normalmente preocupado com sua lucratividade ou sobrevivência de curto prazo. Ganhar corações e mentes dessas pessoas talvez seja o desafio mais urgente de todos que lutam por um país mais resiliente e preparado para enfrentar o que vem pela frente. Competir com a propaganda de fronteira agrícola infinita – na qual progresso é desmatar e plantar indefinidamente e de qualquer jeito -, gastar energia para libertar ativistas presos como se fossem vilões da floresta ou explicar que Leonardo DiCaprio não financia incêndios na Amazônia entre um filme e outro têm sido um fardo para quem persegue essa meta. Veja o estudo na íntegra: http://bit.ly/AdaptacaoAgro
O legado do ISA
Há pouco mais de 22 iniciei meu relacionamento com o Instituto Socioambiental, o ISA, quando passei a fazer parte da equipe daquela ONG, na época – como agora – muito inovadora. Fundada menos de três anos antes por um grupo de antropólogos, indigenistas, advogados e ativistas, trazia como novidade um olhar para as florestas, a biodiversidade e o meio ambiente como um todo vinculado à defesa dos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. O lema do ISA nos primeiros anos era justamente socioambiental se escreve junto, produzindo uma nova palavra e um novo conceito de atuação. Muito sinceramente, achava que não sairia de lá nunca mais, tamanha minha identificação com a causa. Mesmo que isso não tenha acontecido, nunca perdi totalmente o vínculo, seja acompanhando o trabalho deles como jornalista e cidadã, seja como colaboradora em vários trabalhos, entre eles alguns que estão no rol dos que mais me orgulhei de fazer parte, como as duas edições do Almanaque Brasil Socioambiental. Tudo isso para contar que, na semana passada, foi lançada a revista ISA 25 anos, Unidos pela Diversidade – que traz um pouco do legado e da forma de trabalhar da organização -, da qual também tive a felicidade de colaborar. A ideia da publicação é mostrar as atividades – baseadas em trabalho de campo ao lado das comunidades, monitoramento de áreas protegidas, produção de informação qualificada, articulação política e mobilização – para novos públicos. Um trabalho que é essencial em um momento no qual os direitos dos povos indígenas e tradicionais estão ameaçados como nunca, assim como muitos dos direitos de todos os brasileiros, com destaque para os ambientais. Saber que há pessoas, como as que atuam no ISA, lutando para reverter esse quadro e evitar que, quando essa tendência nefasta acabar (e há de acabar!), não tenhamos que recomeçar do zero é um alento. Dentro dessa revista, temos uma amostra de como é possível manter o Brasil com sua verdadeira riqueza e prosperar, com mais justiça, democracia e qualidade de vida para toda a população. PDF da publicação