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PaulistanaSP

Todos deveríamos querer uma área protegida por perto

Na minha ilusão de amante da natureza e estudiosa da sua importância, áreas protegidas não apenas são imprescindíveis como também deveriam ser adoradas pela população, que faria de tudo para mantê-las da melhor forma possível e lutaria para que muitas delas fossem criadas em todo lugar. Ao contrário, o que vemos é um esforço deliberado para destruir avidamente o que temos – vide as invasões garimpeiras e grileiras nas terras indígenas e os desmatamentos e incêndios que não poupam unidades de conservação em todo o território nacional. Imagens do Pantanal, da Amazônia e do Cerrado em chamas – mas não só, como vimos até na Serra do Japi, em São Paulo, pertinho de onde estou (daqui a pouco voltamos a ela…) – são mais uma coisa a me assombrar nesta pandemia político-sanitária que nos assola. Praticamente todas as áreas protegidas que temos foram criadas a duras penas, a partir do esforço coletivo de pessoas e organizações que tiveram que enfrentar batalhas, algumas sangrentas, para garantir sua existência. Fazer com que sejam bem geridas (ou simplesmente geridas), porém, demandaria uma mobilização engajada da população que, até aqui, continua a não ver importância nesses territórios. Há um mito, espalhado pelos detratores dessas áreas, infelizmente hoje majoritários dentro do governo, de que temos áreas protegidas demais. Não é verdade. Estamos dentro da média mundial e essas áreas são muito mal distribuídas. Por exemplo, no município de Jarinu, onde atualmente me refugio, há apenas uma unidade de conservação (UC), que é a Área de Proteção Ambiental (APA) Jundiaí. O fato de ter o nome de outra cidade já é um indicador de que unidade de conservação não deve ser prioridade por aqui. Além disso, APA é o tipo de UC mais xexelento do nosso Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Sem querer dizer que não tem utilidade (tem sim), é uma categoria de uso sustentável onde quase tudo é permitido. Basta dizer que a APA Jundiaí pega TODO o município de Jundiaí e parte de vários outros. Essa unidade foi criada para proteger justamente a Serra do Japi, maior patrimônio ambiental da região e importante remanescente de Mata Atlântica. Que queima a cada inverno por falta de conscientização e um sistema de conservação insuficiente. Mas o que a falta de uma unidade de conservação integral, como um parque, faz a um município como Jarinu? Oras, sem entrar no mérito da informação, a cidade propaga ter o segundo melhor clima do mundo atestado pela Unesco, seja lá o que for ter o melhor clima do mundo. Como uma pessoa que frequenta a região há quase 30 anos, realmente é muito agradável, com dias quentes e noites frias, sem extremos de nenhum dos lados. O potencial turístico desse apelo, junto com uma topografia também bonita, a presença de muitas chácaras e proximidade com São Paulo, parece irresistível, mas não há praticamente nada para se fazer em Jarinu. A simples atividade de fazer uma caminhada só pode acontecer nas ruas, onde é urbanizado, ou em estradinhas sem nenhuma calçada ou qualquer coisa que indique segurança (aqui onde estou, quando criamos coragem de sair, levamos paus para o caso de encontramos cachorros bravos no caminho, o que é frequente). Se quiser fazer piquenique, trilha, andar de bicicleta (sem correr riscos), ou apenas curtir a natureza, não dá para ser por aqui. Ou está tão escondido que ainda não achei. Será que é tão difícil entender o potencial econômico, para saúde ou qualidade de vida de moradores e visitantes em contar com áreas protegidas? Tenho participado de vários trabalhos nos últimos tempos sobre unidades de conservação, principalmente para o WWF-Brasil, tanto sobre sua importância, quanto ameaças que vêm sofrendo, algumas, inclusive, de serem extintas. Para quem se interessa, tentarei mostrar um pouco dessas informações nos próximos textos.  (Foto: paisagem dos fundos da minha casa em Jarinu)

Mulheres odiadas (e violentadas)

Me programei para escrever nesta semana sobre áreas protegidas, um tema que acompanho há tanto tempo e mais um dos que só trazem péssimas novidades. Queria comentar o desespero que são as queimadas e o desmatamento sem precedentes que tomaram conta do país e as desventuras em São Paulo, com toda a mobilização que a sociedade civil foi obrigada a fazer para evitar que a Fundação Florestal fosse extinta. Também pretendia ser leve e abordar a importância dessas áreas para nossa vida, inclusive como refúgio que espero se tornem para humanos terem momentos de lazer e um pouco de liberdade pós-pandemia. Eu e minhas filhas, quando tinham dez anos, apenas brincando, que é o que meninas de dez anos fazem. Mas isso fica para uma próxima oportunidade, porque desde o fim-de-semana só consigo pensar no horror supremo do caso da menina de dez anos estuprada, engravidada e perseguida pela horda de cristandade que, em suas várias versões, submete corações, mentes, fé e política no Brasil desde que os europeus aqui chegaram. Pensamento dominante este que só causa ódio às mulheres e faz com que mais da metade da população viva aterrorizada, com medo de sair às ruas e medo de ficar em casa. Que induz meninas e mulheres a se sentir culpadas por existirem ou pelas inúmeras violências que são obrigadas a sofrer ao longo da vida. O aborto é um tema tão tabu nesta sociedade que é empurrado para baixo do tapete inclusive por políticos que sabidamente são a favor dele, intimidados pelo poder das igrejas e pelos votos que seu atraso induz. Que forças fazem as mulheres se calarem e deixarem de exigir a legalização de uma prática a qual boa parte delas vai passar pelo menos uma vez na vida (minha experiência empírica mostra que quase metade, sem contar as que não têm coragem de contar) e que mata pelo menos uma de nós a cada dois dias? Como podem existir mulheres sórdidas como Damares e essa Sara Giromini, que se intitula inverno? Por que controlar os corpos femininos é tão importante para os homens? Será para ter a garantia do silêncio quando as obrigam a abortar? Esse caso da menininha do Espírito Santo fez chacoalhar esse tapete e é tanta sujeira despejada no ar que tem me sufocado e tirado o sono (felizmente não apenas o meu). Nos fez lembrar que são realizados no país seis abortos por dia em meninas de até 14 anos vítimas de estupro, que quatro meninas de até 13 anos são estupradas por hora no Brasil, onde foram registradas 642 internações por esse motivo apenas neste fatídico 2020, e são realizados 26 mil partos anualmente de mães entre 10 (DEZ!!!!!) a 14 anos. Quem lê isso e não tem vontade de vomitar precisa de tratamento. Me pergunto quem são os homens que cometem essas atrocidades. Não podem ser exceções pela quantidade (os dados acima são apenas os oficiais). De que tamanho precisa ser a misoginia normalizada e incrustada no inconsciente coletivo masculino para que pais, avôs, tios, irmãos, primos, padrastos, amigos íntimos das famílias se sintam à vontade para abusar de meninas das quais são responsáveis por cuidar e deveriam amar? O que pensam quando se olham no espelho? Me vejo pensando nos homens que conheci durante a minha vida. Quais deles seriam capazes desses atos ou foram às vias de fato? Impossível não fazer perguntas como essa diante da realidade. Como mãe, confesso que o fato de minhas filhas serem gêmeas e inseparáveis sempre foi um fator tranquilizador quando não estavam sob meus olhos. Lembro desse pensamento quando saíam para brincar no clube, em festinhas ou em qualquer outro lugar. O que mais me choca, porém, é a postura religiosa, que se arvora de defender a vida, mas despreza as mulheres. A declaração da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de que o abordo realizado na menina – não custa repetir muitas vezes, de 10 anos estuprada por quatro anos pelo tio – foi um crime hediondo é tão revoltante, que escrevo tremendo. É por essas e outras que me excomunguei da igreja católica, na qual fui criada, há mais de 30 anos. Que adianta ter um papa bacaninha, em um clubinho onde mulheres não podem chefiar nem míseras paróquias e pedófilos são encobertos e perdoados aos borbotões? Uma das séries documentais que vi nesta quarentena foi The Keepers, sobre casos reais de padres pedófilos, tão ilustrativa sobre a questão quanto o mais conhecido filme Spotlight (Segredos Revelados). O documentário parece uma ficção de horror e nos faz assistir roendo as unhas. Recomendo muito. Ambos, documentário e filme, se passam nos Estados Unidos, mas duvido que seja diferente por aqui. Sem contar o espetáculo macabro dos cristãos vociferando na porta do hospital em Recife contra o médico e a vítima, o próprio fato da menina ter que ir a outro estado para ser atendida é outra aberração difícil de aceitar. Que tipo de gente são esses médicos que escolhem ser hipócritas e não acabar com o sofrimento de uma criança a seguir o juramento de Hipócrates? Será excesso de cloroquina preventiva afetando os neurônios ou a compaixão? Enfim, diante da realidade tão nefasta, me vejo como o Luís Fernando Veríssimo em sua última coluna no Estadão (Florescendo). Assim como o escritor não conseguiu falar apenas das cerejeiras do jardim pela imposição dos mais de 100 mil mortos pela covid-19, também eu não consigo pensar em nada bom, leve e bonito com mais essa barbárie jogada nas nossas costas já tão sobrecarregadas.

Divagações sobre a cidade e a condição de cidadão

Uma certeza que carreguei até aqui era ser uma citadina. Mesmo minhas incursões campesinas, praianas ou florestais como turista ou a trabalho pareciam reforçar a convicção. Estar em São Paulo era estar em casa. Aliás, a metrópole funcionava como extensão da minha casa. Sempre gostei e interagi com sua efervescência, com a possibilidade de encontros, a diversidade cultural e de lazer, a facilidade de acesso a produtos imaginados a qualquer momento. Minha máxima era: se a pessoa não aproveita o que a cidade tem de bom, porque passar pelos perrengues – trânsito, poluição, transporte e calçadas precários, falta de segurança… São Paulo da janela do Masp. A consciência de que estar ou não na cidade e do que fazer nela são privilégios e não escolhas estava presente, mas com condicionantes, até que a pandemia se instalou e tive um duplo impacto. Por um lado, acabou minha liberdade de decidir o que fazer com meu tempo, por outro, tive a opção de sair sem grandes esforços e com muitas vantagens à disposição. Na primeira vez que voltei a São Paulo, pouco mais de um mês depois, em uma manhã chuvosa de sábado, ainda com as ruas desertas e tudo fechado, tive uma péssima impressão. Pela primeira vez, a feiura e a tristeza cinza da falta de horizonte me sufocou. Atravessar portões e depender da caixa fechada do elevador para chegar em casa foi penoso. Estar mascarada e com medo de tocar nas coisas só piorou a situação. Entrar no apartamento, que pareceu ainda menor do que achava, e olhar a cidade de cima através de redes foram a gota d’água para um acesso de choro (sou dramática, não tenho como evitar). Desde então, estive por lá algumas poucas vezes para buscar coisas ou resolver algum problema. A cidade quase voltou ao ritmo normal e apenas os protocolos pregados em todos os lugares e as máscaras usadas pela maior parte das pessoas impedem que esqueçamos a situação de anormalidade que se impôs com a alcunha de “novo normal’. Saudosa da minha antiga vida (quem não está?), não consigo planejar o que quero daqui para frente, partindo do princípio que “nada será como antes amanhã”. Principalmente, tenho severas dúvidas sobre ser ainda uma citadina, pelo menos da cidade como ela era e do que será se tudo seguir a tendência de normalidade que se avizinha. Sem uma nova utopia, receio me tornar uma eremita. Como parte desse treinamento intensivo para ermitã, tenho evitado me afundar na profusão de lives à disposição, mas na semana passada acabei acompanhando minha filha em uma da Escola da Cidade, onde ela estuda, com o arquiteto Wellington Cançado, professor da UFMG, e o sábio (muito sábio) Ailton Krenak. Não recebi respostas prontas, mas vários insights sobre meus incômodos e algumas ideias sobre um porvir desejável, na cidade e fora dela. Sob a provocação ‘Espaços para Respirar (em São Paulo)’, Cançado afirmou que estamos acossados em espaços privados pela impossibilidade de respirar coletivamente. E citou Lina Bo Bard: “Toda liberdade só pode ser coletiva”. Para o arquiteto, estamos confinados em nossas cavernas assistindo o extermínio afro-indígena e a exploração dos entregadores de tudo e mais um pouco. E se você acha que isso é fruto da pandemia, cuide da sua ingenuidade. Os vetores ‘antopocidas’ não chegaram com o vírus, mas o processo avançado de urbanização planetária propiciou que a covid-19 se espalhasse rapidamente a partir de poucas conexões aéreas, consequência do nosso modo epidêmico de ocupação da Terra. Nossa urbanização está muito distante dos sonhos cosmopolitas, cujo imaginário liga ao que é bom, educado, civilizado. E mesmo que o modo de vida ‘cidadocêntrico’ seja vendido como prevalente, afinal somos 3,5 bilhões de pessoas nas cidades, 2 bilhões ainda vivem na floresta e têm o direito de continuar por lá. O professor lembra que, no Brasil ocupado pelos europeus, a criação de espaço para respirar era limpar o terreno, criar clareiras para sair da floresta e afastar seus seres indesejáveis. Vivemos sobre ex-florestas e seguimos condenando as florestas e seus moradores indígenas e não-humanos. Nossa arrogância não permitiu que incluíssemos outros modos de viver humanos e também de outros seres (animais, árvores) como sujeitos de direito de respirar na cidade e fora dela. E pagamos o preço. Ailton Krenak diz que a cidadania, na verdade, é privilégio de quem é da cidade, quem está fora é outra coisa. “Por isso criamos a florestania, para lembrar que existem outras vidas que não a de citadino”. O líder indígena e ambientalista defende que a cidade atrai o ser humano com a ilusão de ser consumidor de tudo que há no mundo. “Mas é um lugar seletivo, para um pequeno clube, não é para todos. Na verdade, funciona como um indutor de desejo de consumir tudo o que vem de fora”. Com todas as promessas, as cidades tornaram-se arapucas bem sucedidas. Encomendadas pelo mercado imobiliário, são pródigas em produzir desigualdades. “Todas as grandes cidades nasceram ao longo de um rio, o qual mutilaram. E são onde as pessoas ficam encurraladas, onde mais gente está morrendo na pandemia.” Como sair dessa arapuca? Que cidade poderíamos especular para responder aos desafios das mudanças climáticas (e suas consequências que ameaçam sua existência, como a falta de água e alimentos ou novas pandemias) e que consiga sobreviver com respeito a outros modos de vida e sem a dependência da destruição do que está além dela? Algumas pistas começam por nos perguntarmos de onde vem o que consumimos (a carne, a madeira, os metais, a tecnologia) ou o que aconteceria se outros seres também fossem considerados como dignos de direitos. E se a cidade fosse mais autossuficiente, não apenas produtora de cultura e serviços, mas também de alimentos, energia limpa, moradia de qualidade, mais inclusiva e diversa, menos acumulativa? Vale a pena apostar na cidadania?

Confusão mental

Mais de cinco meses depois que abandonei abruptamente minha até então vida para me refugiar na chácara, onde nunca pensei em morar, já não sei o que devo fazer. Ficar de quarentena ficou fora de moda de repente, quase ao mesmo tempo em que o país se aproxima de 100 mil mortos pela doença e que os índices de contaminados sobem vertiginosamente. Deve haver alguma coisa no isolamento que embotou minha capacidade de entendimento e os remédios da vez (cloroquina, invermectina e agora ozônio via retal) não são para esse mal. Estou meio perdida, algo me escapou sem que percebesse. Esperando o tempo passar. Não que eu acredite que tenha que seguir a boiada (será que posso falar isso?), mas a sensação de ficar para trás não é boa. Será que sou preguiçosa e não quero procurar novos desafios? Será que não ter um chefe me obrigando a voltar para o escritório é sintoma de fracasso? Será que meus amigos não são bons porque não me convidam para festas, ou sou egoísta por não os estar convidando para nada? Vou me tornar uma caipira que não sabe andar de metrô ou no shopping center? Vivo em uma realidade paralela e ninguém teve coragem de me contar? Pelo pouco entendimento que me resta, dizer que a pandemia é uma fatalidade ainda pode. Que atinge o mundo todo e isso é horrível também. Mas mencionar que política tem a ver com o tamanho da tragédia do país ficou old fashioned – ou antiquado mesmo, em bom português. Afinal, isso é só questão de opinião e opinião só é relevante (ou ciência) quando se trata de receitar medicamentos para a Covid-19. Dizer que a vacina vai chegar rapidinho e tudo vai voltar ao normal não só pode como é o esperado. Qualquer coisa diferente disso é ser do contra. Devo estar enganada, mas o maior crime para um brasileiro desde o início do ano passado é exatamente ser do contra. Parece que dá um superpoder ao vivente e o que ele prognostica acontece. Se todos pensassem positivo, estaríamos bem e eu não estaria com todos esses dilemas. Tento recorrer à minha bolha no Twitter ou Facebook, mas é só não resistir à tentação e olhar os comentários – mais uma prova de insanidade que me acomete com cada vez mais frequência – e vejo que esta bolha é realmente muito pequena e contaminada com pensamentos negativos, baseados em crenças démodé (a gente muda a língua, mas o significado é sempre o mesmo) sobre defender a lógica, a ciência, os direitos humanos, a coletividade. Somos um povo de pouca fé e quase nenhuma influência, como mostram as pesquisas de opinião divulgadas quase todos os dias. Se é que consigo interpretá-las. Na minha confusão mental, quando a gente acha algo razoável, é porque está mais para bom do que para mal. Então, não adianta especular que são poucos (entre 15% e 30%) os que avaliam bem a gestão federal. Somos bem minoritários os que, como eu, acham que vivemos uma realidade inaceitável. Mas deve ser apenas delírio do isolamento. Radicalismo de quem inveja os que aproveitam a vida enquanto fico aqui vendo o tempo passar.

Dia da Marmota

Mais uma manhã clara e fria. Silenciosa. Ajeito as cobertas e me pergunto porque coloquei o despertador. A sensação é de estar em mais um Dia da Marmota do filme Feitiço do Tempo. Sei que será tudo igual, nada de novo à vista. Desde que cheguei tento manter uma rotina, como indicam os manuais que inundam as redes sociais, mas às vezes – muitas vezes – o corpo quer e a mente não, e vice-versa. Fazer exercício, preparar as refeições, fingir que trabalho, eis o plano. Na minha lista ainda estão cuidar das plantas, estudar inglês, tocar piano, escrever e falar com amigos. Quase rio, por saber que não farei quase nada disso. Levanto relutante e passo alguns minutos sem conseguir decidir se tomo banho ou faço uma caminhada. Pego o celular para dar uma olhadinha e lá se vão 40 minutos de nada no Facebook, Twitter, Instagram e Paciência – muita paciência. Vou tomar café de pijama mesmo. Jardim dividido com as formigas. Decido por caminhar pelo menos meia hora em volta do campo de futebol. Dez minutos para cada lado para não ficar tonta – é só um campinho. A grama amassada marca o trajeto que, de qualquer maneira, é o único possível. Ouvir música alivia e algumas vezes chego a dançar. Mas é também quando choro, principalmente porque ninguém está vendo. Hoje não dancei nem chorei. Entrei em uma fase de resignação. Não sei qual virá depois. O banho é quente e demorado para evitar que o dia realmente comece. Decidir que roupa colocar, dentre a meia dúzia que trouxe comigo no que pareceu (e foi) uma fuga, demora muito mais do que o necessário, acabo com a mesma que estava ontem, coisa que jamais faria antes. Mas coloco brincos e colar, passo batom e rímel e, quando estou finalmente pronta, é hora de ir pra cozinha. Vou até a horta nos fundos da casa, escolho algumas verduras e temperos e penso em meus privilégios. Sem saber se agradeço ou me culpo, sigo para minha jornada de quase duas horas que é a mais prazerosa do dia. Cozinheira tardia e bissexta, me sinto uma alquimista ao transformar, em tão pouco tempo, uma ideia de cardápio em realidade concreta e ver os resultados imediatamente, quando nos reunimos à mesa. A refeição começa leve, elogios à comida e boas lembranças, até que alguém solta, inadvertidamente, algum comentário sobre a situação ou algum plano irrealizável. A conversa trivial se torna irônica, depois exaltada. Dejavu. A operação conjunta para arrumar a cozinha é rápida, coreografada. Cada um segue para suas atividades. Vou para a rede. Meia hora de leitura que se transforma em uma. Tantos anos pra ler On The Road e resolvo começar justamente agora. Devo me odiar. Crio coragem e, finalmente, encaro o trabalho. Há textos para editar e revisar, prazos a cumprir. Meu cérebro deletou a noção de produtividade. Concentração se tornou algo abstrato demais. Escondo o celular pra não ter perigo de me distrair. Todo o esforço me consome por, no máximo, duas horas. Lembro das formigas… ah, as formigas… não posso me esquecer das formigas. Mais ou menos um mês após nossa chegada, me interessei pelo jardim. No começo, apenas molhava as plantas com o regador. Passei a tirar espécies invasoras, podar galhos secos, afofar a terra. Mas, de repente, percebi que vivia em cima de um grande formigueiro, uma megalópole subterrânea e biodiversa, com uma população de diferentes tamanhos, técnicas construtivas e modos de trabalho, que tomou conta do terreno sem que eu percebesse. Não que eu não soubesse que elas existissem. Apenas era tolerante, achava que também tinham lugar ao sol – e sua cota de terra e vegetação. Acreditava que fossem, como grupo, inofensivas. Quando estendia minha toalha para tomar sol e elas me incomodavam, mudava de lugar e esquecia delas. Ledo engado. Com o tempo, se tornaram ousadas, não mais se preocupavam em disfarçar sua atuação nefasta e agora não sei como retomar meu território. Elas se portam como maioria e têm o poder. Fui estudar como enfrentá-las sem agredir todo o resto. O que adianta eliminar as formigas e, ao mesmo tempo, envenenar a horta, o jardim, os pássaros e os demais insetos? Comecei com água fervente – e pareceu eficiente -, mas me senti como uma tirana sanguinária. Não me fez bem. Ultimamente, borrifo uma solução de água, detergente e vinagre, espalho arroz cru pelo gramado – li que elas carregam para o formigueiro para alimentar seus fungos, e o arroz fica tóxico quando umedece -, e despejo toda a borra de café que produzimos. Devo, pelo menos, irritá-las. Decido fazer a inspeção do dia, mas percebo que já é hora do café da tarde, cada dia mais cedo, à medida que o inverno avança e o pôr-do-sol adianta. É o momento sagrado de reverenciar. Sentada na varanda, vejo o céu amarelar, depois alaranjar até chegar a um vermelho vivo. Beleza absoluta e melancólica. Fico imóvel, hipnotizada. Até que tudo fica escuro e frio. Antes, ficava para ver as estrelas e a lua, mas o quentinho de dentro agora é mais atrativo. À noite, tudo fica mais difícil. Ver ou não ver o Jornal Nacional? É melhor saber ou imaginar? Qual o nível de angústia aceitável? Decido pela ignorância, pelo menos hoje. O jantar é silencioso. Estamos todos abatidos, com saudade da vida. Assisto uma comédia, para tentar digerir tudo e retardar o momento de deitar. Que é bom, porque sonho muito, mas ruim, porque às vezes acordo assustada e demoro a voltar a dormir. Sei que mais um Dia da Marmota me espera.

Educação contra o fanatismo

Pela primeira vez, nos quase 12 anos do Círculo Feminino de Leitura (CFL), pulamos um encontro mesal. Mas, finalmente, conseguimos nos reunir remotamente. Demorei um pouco, mas gostaria de fazer algumas considerações sobre nosso livro tema – “A menina da Montanha” -, que traz a autobiografia da estadunidense Tara Westover. Criada em uma família mórmon fanática, Tara só pisou em uma sala de aula aos 17 anos, já no ensino superior, depois de uma batalha com os pais e com a própria falta de instrução. O livro a acompanha até o doutorado em Cambridge e à sua libertação do jugo familiar. A primeira observação interessante sobre o livro é a tradução do nome original para o português: “Educated” passa a ser “A menina da montanha”, o que remete falsamente a um romance adolescente. É como se o brasileiro fosse idiotizado já de saída. Para os editores, não compraria um livro que se chamasse Educada ou Escolarizada, que é a grande mensagem da história (será que é isso mesmo?). Só o acesso à universidade permitiu a Tara se libertar da opressão de sua família, que incluía abusos físicos e mentais. Ao acompanhar a história de Tara, vemos como uma mente fanática se constrói e como é poderosa, sobretudo na figura do pai. A escritora é uma exceção. O livro deixa crer que há poucas chances de cura para uma família como a sua. Particularmente em relação à mulher, o fanatismo religioso (me desculpem as religiosas, mas todas as grandes religiões são opressoras da mulher) impede até qualquer ideia de sororidade. A submissão impede a compaixão, inclusive a autocompaixão. Como Tara deixa claro, a pessoa se sente culpada pelos maus tratos que sofre. Difícil ler o livro e não associar ao que vemos acontecer hoje nos Estados Unidos e no Brasil. Essa horda não vê evidências, não aceita argumentos, apenas dogmas, mesmo os que vai criando por conta própria. E, como no filme “Idiocracy”, os cretinos acabam vencendo porque se reproduzem muito. Impossível não fazer essa analogia com a família de Tara. Enquanto os irmãos se reproduzem como coelhos, ela é a única sem filhos. A produção de eleitores de Trump é avassaladora. Já devem nascer com armas e bíblias na mão. Se não assistiram a esse filme, procurem ver. Ele é horrível e de mau gosto, mas ideia é muito boa… Sobre as consequências da existência em si de gente como as personagens do livro, além de produzir contingentes de pessoas infelizes e ressentidas, preocupadas sempre em julgar o comportamento do outro – são infiéis, são putas etc.- e nunca o seu, produz danos que, somados, têm se tornado praticamente irreversíveis. Aqui vai um spoiler, a ser bem-entendido por quem ler o livro: O que é o ferro-velho dos Westouver? Toda aquela gasolina, todos os fluídos de bateria infiltrando no solo sem nenhum controle? Se o pai não se preocupa com a segurança dos filhos, que dirá do meio ambiente. É muito ilustrativo quando Tara menciona, quando volta para casa após o falecimento da avó, que a matriarca segurava um pouco, mas agora o ferro-velho tomava toda a montanha. Dá para imaginar o galão de gasolina que eles enterraram no solo também vazando. E a água, que o pai puxou da montanha para não pagar ao governo? Deve ter sido um servicinho de porco, com desmatamento e erosão. As chances dessa água estar contaminada pelo ferro-velho são enormes. Mas eles a usam para fazer “medicamentos”. Com a falta de higiene que Tara descreve na família, dá para imaginar a “qualidade” de seus “medicamentos”? Sem levar em conta a falta de qualquer aspecto científico (até eu tomo homeopatia de vez em quando mesmo sabendo que não é nada…), dá para imaginar o quanto a coisa toda é porca? E eles ficaram ricos com isso! Ainda daria para dissertar muito sobre o capitalismo e sua relação com a violência e a hipocrisia geral que os permitiu enriquecer e nunca ser punidos pelos malfeitos em nome da fé, mas deixo para outra discussão. Fico apenas com a imagem que me vem dessa família: um bando de sequelados física e emocionalmente, que sobreviveram por puro milagre (nesse ponto eles têm razão… ahahaha), que se comprazem das próprias mazelas e, quando possível, tiram algum proveito delas. Esperam o fim do mundo, principalmente, porque não gostam dele. E esperam o fim do mundo para se beneficiarem desse fim. Aguardam que todos sejam eliminados para que, finalmente, sua mediocridade seja premiada.

A cara do Brasil

Me pergunto em qual contexto pode ser razoável dizer que CNPJs estão na UTI e vão morrer e por isso as medidas de isolamento social adotadas por estados e municípios devem ser rapidamente relaxadas, em meio a uma pandemia que já matou oficialmente 10 mil brasileiros (ou seriam CPFs?), com os números diários de vítimas subindo a cada dia. Também tento entender sob qual ponto de vista minha liberdade (de fazer o que bem entender) está acima da vida (de qualquer pessoa). Além destas, fomos brindados, nesta semana nefasta, com pérolas como a afirmação de que a pandemia já está controlada nas classes média e alta, portanto, podemos respirar aliviados, de preferência bem perto uns dos outros trabalhando e comprando para movimentar o “mercado”. Ou a, não menos significativa, iniciativa de incluir empregadas domésticas como serviço essencial. Talvez, para parcela da população, que possivelmente nunca se deu ao trabalho de sequer registrar essas profissionais, pagá-las sem que prestem o serviço deva ser tão aviltante quanto imaginar encontrá-las de férias na Disney. Acredito que a provocação feita por Cazuza, em 1988, finalmente se revelou: o Brasil mostrou a sua cara e quem paga pra gente ficar assim. De tudo que li para tentar assimilar esses tapas na cara diários – que começaram a ser dados há um ano e meio, mas se intensificam ultimamente na mesma proporção com que são abertas e fechadas covas nos cemitérios -, o mais contundente foi o artigo O Jair que há em nós, de Ivann Lago, escrito no final de fevereiro, quando ainda estávamos nos despedindo do carnaval, “negando as aparências” e “disfarçando as evidências”, como manda o gosto musical mais condizente com a atualidade. Nele, o sociólogo mostra como esse governo representa bem seu eleitorado, formado pelo que chama de “brasileiro médio”, e desconstrói a “imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e ‘malandro’”. E mostra como, no “mundo real”, “o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.” Infelizmente, esse retrato patético é o único que se enquadra nas cenas repugnantes que temos presenciado, como os ataques a enfermeiros e jornalistas, ou na atitude de muitos com os quais convivíamos e confraternizávamos até ontem e que vemos vociferar contra a ciência, a imprensa e apoiar o inaceitável. Enquanto isso, há aquela outra parte da população que, indignada com o que vê, tenta apagar os incêndios cada vez maiores com baldinho. São ativistas dos movimentos sociais e ambientais que precisam passar o dia com a boca no trombone listando as barbaridades praticadas, oficial e extraoficialmente, pelo governo federal e fazendo manifestos e apelos que se perdem no meio de tantas  crueldades sobrepostas contra as populações mais vulneráveis, sejam as que vivem nas periferias das cidades, sejam as que estão nos mais remotos grotões, como índios e quilombolas. São jornalistas, profissionais de saúde ou funcionários públicos – como os fiscais do Ibama – hostilizados por cumprir a lei e fazer seu trabalho. Há os que ajudam como podem, com recursos ou demonstrando apoio. Independentemente de mais perto de qual desses espectros cada um esteja, é um bom momento para se olhar no espelho, ter uma conversa franca consigo mesmo e dizer honestamente o que pensa e de que lado está. Pode continuar a dizer publicamente que não se discute política, que o mais importante é a conciliação, que precisa respeitar a opinião de todos, que deixando de pensar no problema ele desaparece. Mas seja sincero privadamente, nem que seja pelo autoconhecimento. Qual é a sua cara?

Cada epidemia tem seu gráfico

O nome poderia ser índice de solidariedade humana, de empatia ou simplesmente de humanidade mesmo. Como o que mais fazemos atualmente é ver gráficos e curvas, acho que este também seria procedente e ajudaria a entender uma epidemia nada silenciosa que vem ameaçando o país de maneira tão avassaladora quando o coronavírus. Começa com uma linha de base zero, formada por bolsominions que fazem manifestações durante o isolamento social – Bolsonaro & filhos e seguidores que batem em mulher, enfermeiras e jornalistas não entram porque estão abaixo da linha e não dá para começar o gráfico no negativo. A partir daí a curva vai subindo até atingir o pico, que seria nível, por exemplo, padre Júlio Lancellotti. Há vários outros exemplos, mas acredito que esse seja suficiente para estabelecer o padrão. Ao contrário da curva de contágio e mortes do covid-19, o ideal para acabar com esse tipo de vírus da desumanidade seria que a curva crescesse rapidamente e, ao atingir o pico – ou até ultrapassá-lo – ali se mantivesse indefinidamente. Infelizmente, o que vem acontecendo é diferente. O Brasil conseguiu achatar a curva de maneira impensada por qualquer padrão internacional e agora precisa correr atrás do prejuízo para que ela não caia ainda mais. Medidas como informação baseada em ciência, conceitos ligados a moral e ética, nem o simples bom-senso têm surtido os efeitos esperados. Ainda é um mistério como é feito o contágio, se é possível vacina ou cura. Essa não é absolutamente uma proposta científica, o que não significa que pesquisadores das áreas biológicas, humanas e exatas não possam se juntar para aperfeiçoar a ideia e tecer teorias de como melhorar esses índices. A demanda se justifica em prol de sua urgência para evitar sequelas irreversíveis à saúde e à democracia no país.

O céu é a nova fronteira

Olhar o céu é uma experiência quase transcendental para uma paulistana que, de seu apartamento, não consegue nem ver a lua. Estrelas são artigo tão remoto quanto cobras e jacarés. Mas há mais de um mês na chácara em quarentena, viciei. Paro tudo o que estiver fazendo pontualmente para ver o pôr-do-sol, que tem se esmerado nesse tempo seco e de céu limpo. Só não aplaudo porque meus filhos me proibiram. Um pouco mais tarde, quando a escuridão se impõe, mas o frio ainda não deu as caras, passo alguns minutos admirando o firmamento. Nessa hora, me transporto para a infância e acompanho as fases da lua, procuro Vênus e Marte, as Três Marias, o Cruzeiro do Sul, tento contar as estrelas e escolher a mais brilhante. É o momento de paz que antecede a queda na realidade de quando ligo a TV para o noticiário. Deitar no gramado para mirar o céu embrulhada em mantas de avião (sim, peguei algumas de souvenirs), é minha maneira de viajar e me sentir conectada ao mundo em época de pandemia. Raramente, um avião corta a paisagem, com sua luz vermelha, e interrompe o silêncio, outro artigo de luxo que tenho cultivado com muito carinho. Nada que se compare ao antigo normal. Mas em algum momento, na semana passada, uma estrela se mexeu… Infelizmente não era uma estrela cadente, coisa que vi tão poucas vezes na vida. Ela se movia bem mais alto e um pouco mais rápido do que um avião e se misturava às outras estrelas. Perdi de vista sem saber do que se tratava. Decidi não pensar mais nisso, por medo de estar ficando mais louca que o necessário – minha costumeira indignação com as mazelas vindas do planalto central tem se multiplicado ultimamente e a família tem duvidado de minha sanidade. No último sábado, porém, foi impossível ignorar. Os pontos luminosos viajavam em fila indiana ou em pares, a velocidade e órbita constantes. Contamos mais de trinta em meia hora – Ufa! Tive várias testemunhas. Como mistério atualmente é só o que vai na cabeça de terraplanistas e suas variantes políticas e epidêmicas, uma pesquisa rápida no Google nos informou que são satélites do Elon Musk, que quer formar uma constelação de 12 mil satélites artificiais para criar uma rede global de internet de banda larga. Toda minha alegria de imaginar que eram OVNI chegando para acabar com a lambança que os humanos estamos fazendo com o planeta se esvaiu em segundos. Fui obrigada a reconhecer que, mais uma vez, o capitalismo selvagem levou a melhor. Depois de invadir cada cantinho da Terra, tornar os oceanos lar das mais variadas espécies de plásticos, que se apoderam do domínio dos peixes como os brancos fizeram há 500 anos com os índios na América, a terra de ninguém da vez é o espaço. Já imagino as crianças do futuro, em excursões para áreas protegidas para escuro – as para ambientes naturais não tenho como prever se existirão –, olhando para o céu e tentando discernir o que é estrela, o que é satélite e outras porquices que ainda virão. Ok, escuto as vozes da multidão me informando que é um preço baixíssimo, praticamente uma liquidação, pelo grande benefício de internet barata e em grande escala. Afinal, quem precisa olhar para o céu se tem um celular. Além disso, como empresários são pessoas muito razoáveis e boas, após o grito de astrônomos contra tanta demonstração de empreendedorismo, a SpaceX, empresa responsável pela inovação, promete criar um revestimento especial projetado para tornar o satélite menos reflexivo, na tentativa de reduzir a interferência em observações espaciais. Posso dormir tranquila. Ou não…

Desabafo de quarentena

Sempre que alguma notícia ruim era divulgada sobre políticas públicas ou qualquer coisa relacionada a governos de qualquer instância, meu desgosto imediatamente se dirigia para os políticos e gestores, traidores da confiança neles depositada. Quando se tratava de uma gestão na qual apostei – ou seja, pessoas e partidos em que votei – ficava ainda mais furiosa. Desde que o atual presidente foi eleito, porém, esse sentimento mudou radicalmente. Minha indignação, que tem se transformado em raiva, recai para seus eleitores e tenho que me esforçar para não incluir os que lavaram as mãos no mesmo caldo. O que diferencia minha posição são questões bastante concretas. Até então, mesmo políticos com ideologias e histórias pregressas que abominava passavam em suas campanhas imagens comprometidas com a lisura e a busca do bem comum para todos. Mesmo que desconfiasse (ou tivesse certeza, em muitos casos) que mentissem, me parecia plausível que parcela da população tivesse esperança em seus discursos e acreditasse que os cumpririam. Aplico esse mesmo princípio ao caso de Jair Bolsonaro e seus eleitores. Ele sempre me pareceu bastante honesto em suas intenções, não disfarçou ou escamoteou o que pensava. Sua campanha foi totalmente coerente com sua história e suas prioridades muito bem delineadas. Em uma pesquisa rápida no Google – que fiz quando percebi que aquele deputado obscuro, que só conhecia por tentar dar carteirada ao ser pego de sunga branca pescando em área de proteção ambiental, crescia nas pesquisas -, o assisti (de própria voz) dizer orgulhosamente ter sido o único parlamentar a votar contra os direitos trabalhistas de domésticas; que não estupraria uma mulher porque ela era feia e não merecia; defender as milícias, mesmo sabendo que são ilegais; falar a uma mulher negra que um filho seu não se casaria com uma mulher negra por questões morais; afirmar que preferia ter um filho ladrão ou morto a um filho gay; que negros quilombolas não serviam nem para procriar; que acabaria com todo o ativismo no país; e que a ditadura militar no Brasil foi branda e que deveria ter matado uns 30 mil. Havia muito mais, mas isso foi o suficiente para eu ficar profundamente deprimida. E não por ele ser quem é. Acreditava que indivíduos assim eram sociopatas minoritários e que sozinhos não ofereciam tanto risco. Meu desgosto foi, pela primeira vez, ouvir pessoas próximas dizerem que votariam nele mesmo assim, com o argumento de que não eram questões importantes como a economia, por exemplo, ou, cinicamente, afirmarem que ele não cumpriria o que prometia. Vi pessoas com o mesmo nível intelectual e social que eu votarem em alguém que afirmava existir mamadeira de piroca. A vitória desse candidato e a entrada de sua trupe bizarra de filhos e ministros na direção do país e tudo que se seguiu foram minando minha fé na humanidade dia após dia desde então. Acredito na existência de pessoas ingênuas e sem acesso a informações que caíram na lorota anticorrupção – já tínhamos tido um Collor, não sou cretina e sei como isso acontece. Mas seria um insulto pensar que as pessoas que conheço e que ainda defendem esse governo ou se fazem de sonsas – não conheço nenhuma arrependida – se enquadrem nessas categorias. Penso que, de alguma forma, se identificam com essas ética e moral tortas ou são tão egoístas, que estão se lixando para qualquer coisa que não seja elas mesmas, seus dinheiros e privilégios. Me tornei uma pessoa pior, porque intransigente. Tinha convicção de que nunca seria a maquinista do trem para Auschwitz, mas algo me dizia que aquele condutor poderia estar sendo sincero quando argumentou apenas cumprir ordens. Não consigo mais banalizar o mal. Sei que não trago toda a bondade e suporto um bom tanto de hipocrisia em mim e no outro. Não somos perfeitos, pensamos e temos histórias de vida diferentes. E há momentos, como esta pandemia, que nos põem à prova como comunidade humana e torna difícil julgar as necessidades de cada um. Mas há um limite, que foi transposto no Brasil de maneira vil. E não sei se, e como, podemos sair desse atoleiro.