Descobrindo o Parque Vila Madalena
Domingo passado achei na internet toda uma programação, que incluía várias apresentações musicais, em um Festival do Parque Vila Madalena. Fiquei bastante curiosa, pois sou moradora do bairro há mais de 20 anos e não conhecia tal lugar. Ao olhar a localização, vi que se tratava da região do entorno do Beco do Batman, aqui do lado de casa. Corri pra lá. Grafites são a grande atração no local. Conheço todo aquele pedaço, inclusive o beco, pelo qual cortava caminho quando podia passar carro. E mesmo assim comemorei quando o trânsito foi proibido ali. Mas nunca tinha ido passear por lá em um domingo. Podem me chamar de tonta. Pois que me surpreendi e fiquei encantada com o que encontrei. Toda aquela baixada, entre a Harmonia, a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta, tomada de gente curtindo uma variedade de atividades, incluindo brincadeiras para crianças, uma feirinha com produtos descolados, vários bares e restaurantes, que conhecia a existência, mas não as cadeirinhas de praia espalhadas pela rua e os vários shows acontecendo por todos os lados. Sem falar das esperadas milhares de selfies sendo produzidas com os grafites ao fundo. Uma googlada rápida me mostrou que, no início desta década, houve um projeto, parceria entre a ONG Projeto Aprendiz e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, para criar um parque linear na região. Para quem não sabe, esse tipo de parque margeia um rio ou um córrego, com o objetivo de preservar suas margens. A ideia aqui era melhorar o escoamento de água na Vila Madalena, mas infelizmente não saiu do papel. O projeto começaria por desenterrar a nascente do Córrego Verde, uma pequena queda d’água que um dia existiu perto da estação Vila Madalena do Metrô, criaria praças e mirantes até chegar na área de 60 mil metros quadrados, que tem o Beco do Batman como centro. Todo canalizado, esse córrego é o causador (coitado) das indefectíveis enchentes que acontecem ali mesmo, na baixada onde fica o Beco do Batman, que, pelo menos uma vez por ano, são manchete em algum jornal mostrando a escultura formada pelo empilhamento de carros carregados pela água. Uma vez, há uns 15 anos, quando havia uma pizzaria bem no comecinho da Harmonia, fomos surpreendidos por uma dessas. Em quinze minutos se formou a pilha de carros – o do meu primo entre eles. Corremos ao mezanino para proteger nossas crianças, depois que a água invadiu o restaurante, e ficamos assistindo ao espetáculo bizarro que acontecia na rua. A água baixou em menos de meia hora. Tive sorte. Meu carro foi levado às pressas pelos manobristas para um lugar mais alto e encontrado intacto horas depois. Tudo isso para dizer que desenterrar o córrego, criando espaços verdes e sem ocupações permanentes, compõem a melhor solução para evitar sustos e prejuízos como esses. Aproveitar que o espaço já é espontaneamente usado como local de passeio é uma oportunidade tão grande, que apenas a tradicional miopia dos gestores municipais justifica ainda não termos, oficialmente, um parque por lá. Se não há na legislação, tampouco deve ser impossível criar um modelo de área especial e protegida sem desapropriações que prejudiquem toda a cadeia de economia criativa que circula por ali, mas que impeça mais adensamento, que piore ainda mais os alagamentos, e crie novas áreas verdes, por onde o córrego possa fluir e se espalhar quando necessário. Área do Parque Vila Madalena, segundo o site Catraca Livre.
Sanear é preciso
Se tem uma coisa que nunca teve investimento massivo no país é o saneamento básico. Isso diz muito sobre a falta de consciência sobre direitos que afeta nossa população. O brasileiro aceita facilmente a ladainha política de que nossa defasagem é tão grande que não pode ser solucionada e acaba achando natural conviver com rios que são esgotos, mares cheios de resíduos, populações inteiras vivendo ao longo de córregos infectos e no meio do lixo. Com isso, fica fácil acreditar na ideia de grandeza baseada em destruição de florestas, mineração em qualquer lugar e de qualquer jeito, produção agrícola a base de todo tipo de agrotóxico em quantidades astronômicas. Já que estamos condenados a viver na porquice, que ela seja ilimitada. Legenda dispensável. A Lei Federal do Saneamento Básico (Lei no 11.445/07) completou doze anos no início deste ano sem que a universalização desse serviço público esteja sequer próxima no Brasil. No final da segunda década do século 21, mais de 35 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água tratada; menos da metade dos brasileiros possui acesso à coleta de esgotos e somente 42,67% dos esgotos coletados no país são tratados, conforme o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (2015). O problema é que saneamento básico tem ligação direta com a saúde e a qualidade de vida do cidadão, e sua falta, além de aprofundar a desigualdade social e ferir a dignidade da pessoa humana, é um impedimento a um maior desenvolvimento econômico do país. Atualmente, o Brasil ocupa a 72ª posição no Relatório Global de Competitividade do Fórum Econômico Mundial, o que é um absurdo levando em consideração o tamanho econômico do país. Impossível não incluir a falta de saneamento básico como um dos motivos que levam a esse resultado. Lembrando, ainda, que, além dos serviços de abastecimento de água potável e coleta, tratamento e disposição final dos esgotos sanitários, também fazem parte do saneamento básico a drenagem e manejo das águas pluviais urbanas, a limpeza urbana e o manejo dos resíduos sólidos. Ou seja, se computarmos todos os prejuízos anuais no Brasil com enchentes, por exemplo, que atingem não apenas as grandes cidades, vemos que o que parece caro, pode ser muito lucrativo para o cidadão e o país. Embora assunto seja sempre relegado a quase nada nas discussões eleitorais, quem tiver curiosidade de saber a quantas anda o saneamento na sua cidade – quem sabe isso o motive e pensar nisso na hora de escolher candidatos no próximo ano para a administração municipal -, o Instituto Trata Brasil lançou neste mês o portal PainelSaneamento Brasil, com indicadores sobre a situação do saneamento das 200 maiores cidades do país. A ideia, porém, é incluir os 839 municípios com população acima de 50 mil habitantes. Nele, o interessado tem acesso fácil a dados relacionados a municípios, estados e regiões metropolitanas, comparando dados de saneamento a indicadores de saúde e renda, educação, valorização imobiliária, impactos ao turismo, entre outros. Conferi os dados sobre a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), a segunda mais rica do país (só perde para o Distrito Federal), com renda média de R$ 3.350,00, e descobri que 1,3% da sua população de mais de 21 milhões de pessoas não conta com acesso a água tratada (283.122 pessoas) e 9,7% (mais de 2 milhões) sequer têm coleta de esgoto. O incide de esgoto tratado não chega à metade (48,5%). Parece ruim, e de fato é (basta dar uma passadinha nas marginais Tietê e Pinheiros e dar uma olhada em seus dois principais rios para não deixar dúvida). Segundo o portal, em 2017, houve na RMSP 6.017 internações causadas por doenças de veiculação hídrica, entre os quais 139 morreram. Os dados mostram também como a falta de saneamento e mais um reforço na indigna desigualdade do país: Enquanto a renda das pessoas com coleta de esgoto é de R$ 3.414,00, as que não contam com o serviço é de R$ 2.154,00; a escolaridade é de 10,26 anos de educação formal para quem têm saneamento para 8,86 anos para os que não têm; o aluguel médio das morarias saneadas é de R$ 1.051,00, contra R$ 377.00 nas demais. E veja que, comparada à maior parte do país, São Paulo está bem na fita.
Quero teletransporte
Se houvesse teletransporte, poderíamos chegar a alguns locais rapidamente, mas este não é o meu ponto. A questão aqui é poder chegar ao local desejado sem ter que ver o que não deveria existir e, existindo, incomoda muito. Complexo Cultura Julio Prestes, São Paulo. Por exemplo, se houvesse teletransporte, eu poderia ir assistir a um concerto na Sala São Paulo sem ter que presenciar a escuridão e a sujeira que permeiam aquela parte da cidade, onde seres desvalidos vagueiam saqueando o lixo, fumando craque, vivendo (ou tentando sobreviver) embaixo de marquises (os sortudos) ou encostados em muros, enquanto outros (um pouco menos desprivilegiados) correm de um lado para o outro em estado de superatenção, torcendo para chegar ao destino sãos e salvos. Caso isso fosse possível, talvez eu não percebesse, por contraste, que praticamente todos os que estão nessa situação que não deveria ser vista são negros, enquanto os do lado de dentro do teatro (tirando alguns gatos pingados) são brancos, incluindo todos os músicos que se apresentavam. O teletransporte faria com que eu tirasse muito mais prazer de estar na fila do gargarejo ouvindo O Guarani e As Bachianas Brasileiras e só pensasse em como os brasileiros, dos compositores Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos ao maestro e toda a orquestra, são talentosos. Sem o teletransporte, eu e meus pares da plateia nem cogitamos ir ao concerto de metrô, como muitos fazem orgulhosamente quando estão em Nova York ou Londres para esse tipo de programa, mas contamos com um vasto estacionamento e um serviço de táxi que se pede do lado de dentro do prédio, para não corrermos o risco de ficar mais tempo do que o mínimo necessário do lado de fora. A falta do teletransporte é culpada por, ao invés de me concentrar em olhar como a Estação Julio Prestes era luxuosa e cheia de promessas de progresso, que propiciou abrigar um complexo cultural tão bonito, passar meu tempo pensando se as pessoas ao meu lado viram o mesmo que eu ou os vidros escuros dos automóveis as pouparam desse desgosto. Ou, ainda, ficar pensando quantos deles ainda se chocam com a tristeza da desigualdade suprema da nossa sociedade e quais estão no grupo que só pensa em como manter seus privilégios, se possível contando com mais repressão e menos direitos básicos que joguem mais gente para o time de quase walking dead do lado de fora? Claro que a região da Luz não é o único lugar na metrópole a nos jogar na cara que sociedade ruim temos produzido. Os sinais estão tão escancarados que dificilmente o teletransporte minimizaria a sensação de autodesprezo e impotência com a qual tento seguir adiante.
O dote
O maior vexame da minha vida aconteceu durante uma audição de piano. Tocaria Escorregando, de Ernesto Nazareth, e Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. Mas quando entrei no palco, me sentei e olhei para as teclas, foi como se fosse fazer um discurso e na hora em que visse o texto a ser lido ele estivesse em mandarim. Era como se fosse a primeira vez que visse um piano, não sabia por onde começar. Tomada de pânico, consegui levantar, agradecer e sair totalmente perdida. Tinha 17 anos e estudava piano há nove. No camarim, fui recebida com abraços da atônita professora e das colegas, mas só conseguia chorar e me sentir miserável. Atendendo aos apelos de todas elas, ao final das apresentações, voltei ao palco e disparei a pior interpretação de Tico-tico no Fubá da história. Lembro de ter sido aplaudida, o que não me confortou. Meus pais, com a sensibilidade que lhes era característica, disseram que os fiz passar vergonha, me deixaram em casa com minhas lágrimas e foram comer pizza. Depois disso, minha relação com o piano, que era de um amor displicente, se desfez. Tinha acabado de passar no vestibular e o fracasso na apresentação só fez reforçar minha convicção da absoluta falta de talento para a música. Fui eu quem, aos oito anos, pediu para estudar piano e até então nunca tinha parado. Não era novata em audições, que aconteciam todo final de ano. Quase não faltava às aulas, mas sempre fui uma pessoa de múltiplos interesses. Tocar piano me fazia bem, mas nunca cogitei estudar as quatro horas diárias recomendadas por minha professora nem ir para o conservatório para me formar pianista. Era um hobby, e talvez a falta de entendimento disso tenha colaborado para esse fracasso de palco. Aquele ano em que terminei o segundo grau foi todo muito intenso e, como adolescente padrão, não abri mão de absolutamente nada. Estudava à noite para poder fazer cursinho durante o dia, mas também passava muitas tardes no clube (tudo bem, sempre carregava as apostilas comigo), tinha uma vida amorosa agitada e muitos amigos e programas para dar conta. E as aulas de piano. Minha mãe, que ouvia meus parcos momentos ensaiando as músicas da audição, chegou a sugerir que eu não participasse. Mas, como já disse, desistir de qualquer coisa não estava nos meus planos e não tive coragem de falar sobre isso com a professora, de quem gostava muito. Olha e piano lá atrás como porta porta-retratos. Levei muito tempo para superar esse trauma. Passaram-se anos até que conseguisse falar tranquilamente e outros tantos até que pudesse rir do acontecido. Ainda tentei continuar as aulas, mas perderam o encanto e a nova vida universitária foi uma desculpa convincente para parar de vez. Desde então, o piano Brasil que meus pais me deram – e que por tempo ouvi ter sido a coisa mais cara que compraram até aquele momento além da casa em que morávamos – virou peça de decoração. Mas nunca sequer cogitei me desfazer dele. Por conta da história sobre seu valor de compra, o piano virou uma piada particular entre mim e meu marido de que era o meu dote. E assim ele passou a ser tratado desde então. Como nosso primeiro apartamento mal nos cabia, o dote teve que esperar alguns anos. Na primeira mudança, nos custou a subida de onze andares (cobrados por andar) para ganhar seu lugar de honra na sala e alguns momentos de glória, pois meu marido se apaixonou pelo dote. Na segunda mudança, o pobre foi parcialmente desmontado para entrar no elevador. Mais tarde, com três crianças ocupando cada milímetro do apartamento, ganhar espaço se tornou um luxo maior do que um piano, e o dote foi para a chácara dos meus pais. Somente alguns anos depois, quando construímos nossa própria casa de campo, ele pode ganhar seu posto definitivo (pelo menos até agora). Nesses mais de trinta anos de peripécias, mantive sempre a esperança de um dia, quem sabe, voltar a tocar. Hoje, saí de casa e comprei algumas partituras. Será?
Sobre mérito e vitimização
Assisti ontem ao TEDx da incrível cientista e professora Joana Felix no qual conta sua trajetória de menina negra e pobre de Franca, interior de São Paulo, até o pós-doutorado em Harvard e o trabalho fantástico que conduz na Escola Técnica Estadual (ETEC) Professor Carmelino Corrêa Júnior, na sua cidade natal. Impossível não se emocionar com as experiências que ela conta sobre os resultados das pesquisas que realiza com seus alunos (também pobres e ainda no segundo grau) sempre voltadas para resolver algum problema concreto. Apesar dos 82 prêmios que ganhou – incluindo o Kurt Politizer de Tecnologia de “Pesquisadora do Ano”, em 2914 – Felix ressalta que seus maiores prêmios são os agradecimentos de pais que viram seus filhos trocarem a prostituição e o tráfico pela ciência. Claramente superdotada, a cientista alfabetizou-se sozinha aos quatro anos e, esta foi sua grande sorte, a façanha foi descoberta pela diretora de escola na casa de quem sua mãe trabalhava como empregada doméstica. Impressionada, pediu à mãe da menina se poderia levá-la à escola. Com uma trajetória impressionante, Joana iniciou sua vida acadêmica na Unicamp aos 14 anos e comove ao contar como venceu todas as dificuldades impostas por sua condição social e o preconceito racial que sofreu durante todo o percurso. Uma coisa, porém, me incomodou muito no seu depoimento. Várias vezes Felix ressalta que nunca se vitimizou e que é contra todo tipo de vitimização. Essa é uma narrativa utilizada hoje para justificar que não se tenham políticas especiais para populações marginalizadas ou para menosprezar movimentos feministas. Não combina com seu discurso de inclusão de jovens marginalizados em seus grupos de pesquisa e sua exortação para que se proporcione caminhos para que esses jovens tenham contato com a ciência. Lutar por oportunidades para quem sempre foi alijado delas está longe de ser vitimização. Voltando à pesquisa da Oxfam Brasil sobre desigualdades que mencionei na semana passada, continuo achando precisamos discutir mais as percepções sobre mérito na população. De acordo com a pesquisa, 58% dos brasieliros duvidam, mas 41% concordam que “uma pessoa de família pobre que trabalha muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito”. Há um empate técnico (51% contra e 49% a favor) sobre a afirmação de que “uma criança de família pobre que consegue estudar tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma criança nascida em uma família rica”. Consigo aceitar a hipocrisia sincera de privilegiados com que convivo que dizem acreditar em meritocracia (cada um defende o seu), mas é difícil entender esse pensamento no restante da população. Eles acham mesmo que os ricos o são porque trabalharam duro? Acham que os filhos dos ricos são todos superdotados como Joana Felix e que os seus não o são por isso não enriqueceram? Acreditam mesmo que frequentar uma escola mequetrefe, com falta de professores, de equipamentos (alguns básicos, como banheiros ou merenda decentes) dá as mesmas chances aos seus filhos do que as de crianças que frequentam ótimas escolas, curso de inglês, clubes, viagens etc.? Apresentação da Cia Sansacroma, do bairro Capão Redondo/SP, sobre desigualdades, durante apresentação da pesquisa da Rede Nossa São Paulo, no Sesc Pompeia. Essa percepção é ainda mais contraditória diante, por exemplo, de outros dados da pesquisa, indicando que 64% acreditam que mulheres ganham menos por serem mulheres, 52% que negros ganham menos por serem negros, 72% que a cor da pele influencia na decisão de contratação e 81% que ela influencia na abordagem policial, 71% que a justiça é mais dura com os negros e 81% que pobres negros sofrem mais do que pobres brancos. Infelizmente, a mim parece que apenas rezar ou se esforçar individualmente não tirará o Brasil dessa situação de extrema desigualdade. Sem políticas públicas consistentes, preocupadas com o bem comum e não com interesses privados bem delimitados, continuaremos nesse impasse eterno. Isso não tem nada a ver com vitimização. Cultura desigual Para exemplificar como a desigualdade se manifesta em todos os setores, uma outra pesquisa, lançada na semana passada pela Rede Nossa São Paulo, com realização do Ibope Inteligência, trouxe um panorama do acesso à cultura na cidade de São Paulo (isso mesmo, cultura, essa entidade que vem sendo demonizada, mal tratada e mal falada pelos poderosos da vez, sobretudo no governo federal, mas com ramificações consistentes também nas esferas locais). Dos 96 distritos da metrópole, 60 não possuem museus, 54 não têm cinemas, 53 não contam com centros culturais ou espaços de cultura, 52 não têm salas de show ou concertos, 42 não possuem teatros, 37 não têm acesso a livros para adultos e 36 a livros infanto-juvenis, e 23 não possuem equipamentos culturais públicos. Cinco distritos (Cidade Ademar, Marsilac, Ponte Rasa, Vila Matilde e Vila Medeiros) não possuem nenhum desses equipamentos. Desnecessário lembrar, mesmo para quem não conhece São Paulo, que os distritos mais carentes de cultura são os mais populosos e afastados do centro expandido da cidade. Um dos resultados concretos dessa distribuição desigual na oferta de cultura pode ser visto na frequência a atividades culturais nos últimos doze meses por faixas extremas de renda familiar mensal. Enquanto entre as pessoas das famílias com mais de cinco salários mínimos mensais 77% frequentaram cinema, nas de famílias com até dois salários mínimos foram 38%. Nas demais atividades, a discrepância se mantêm com: festas populares/de rua (41% entre os mais ricos, contra 29% entre os mais pobres), shows (47% contra 19%), centros culturas (41% contra 16%), bibliotecas (26% contra 14%), feiras de artesanato (48% contra 17%), teatro (30% contra 10%), museus (29% contra 10%). Quase três em cada 10 paulistanos (28% ou 2,7 milhões de pessoas) não frequentaram nenhuma atividade cultural nos últimos doze meses.
Brasileiro é iludido sobre desigualdade no país
Seminário de apresentação da pesquisa no Tucarena. O brasileiro tem noção de que reduzir as desigualdades entre ricos e pobres é uma necessidade para o progresso do país. Segundo pesquisa da Oxfam Brasil, realizada pelo Datafolha em fevereiro deste ano e divulgada na última terça-feira (9/4), essa ideia é corroborada por 72% das pessoas, com 14% concordando parcialmente e outros 12% discordando total ou parcialmente. No geral, porém, é uma população iludida e, talvez, se tivesse um pouco mais de noção da realidade, pensaria mais no assunto e colaboraria mais (individual e coletivamente) para melhorar essa situação. Vejamos. A pesquisa mostra que a maior parte dos brasileiros (53%) acredita que a linha de pobreza está entre R$ 700 e R$ 1.000, ou seja, próxima ao salário mínimo (outros 15% acham que essa linha está ainda acima desse valor). Assim, quando ouvem que há 15 milhões de pobres no Brasil, acham que não é tanta gente assim. Só que não. Esses 15 milhões de pessoas (números de 2017) são calculados pelo critério-base do Banco Mundial, que traça um rendimento de US$ 1,90 por pessoa/dia – algo em torno de R$ 210 por pessoa do domicílio ao mês. Se o critério percebido na pesquisa fosse levado em consideração, teríamos estatisticamente aproximadamente 83 milhões de pobres, perto de 40% da população abaixo da linha de pobreza. É só dar uma passadinha no supermercado, pegar um ônibus ou tentar arrumar um lugar para morar, para qualquer pessoa entender que a percepção do que é ser pobre não está errada. Errado está achar que não são tantos assim, sobretudo quando comparamos com a segunda grande ilusão: quem são os mais ricos. Quase metade dos brasileiros (49%) acredita que, para estar entre os 10% mais ricos do país é preciso ter uma renda maior do que R$ 20 mil por mês, quase cinco vezes mais do que a realidade. Ou seja, para estar no topo da pirâmide, em valores atuais, é preciso uma renda de R$ 4.290. Levando em consideração que nesses 10% mais ricos estão desde os remediados que contam com pouco mais de R$ 4 mil até os que ganham milhões de reais mensais, dá para entender porque, mesmo percebendo que há desigualdade no país, o brasileiro não tem muita noção de que o buraco é muito mais embaixo. Otimismo infantil Mas o brasileiro é um otimista! Mesmo que 85% se enxerguem na metade mais pobre da população, 70% acreditam que, dentro de cinco anos, estarão entre a “classe média” e a “classe média alta”. O bom é que, se aceitamos que essa expectativa é factível e se realizará, nossos problemas acabaram. Seremos um país rico. Porém, no entanto, todavia, 57% dos brasileiros não acreditam que a diferença entre os mais ricos e os mais pobres vai diminuir no Brasil nesse período. Ou seja, só eles vão enriquecer… Como? Um pista é a resposta à pergunta sobre o que é mais importante para melhorar de vida. A fé religiosa é considerada o fator mais importante, com peso de 28%. Depois disso, as prioridades são estudar mais (21%), ter acesso a atendimento de saúde (19%), crescer no trabalho (11%). Enfim, ganhar mais dinheiro só é prioridade para 8% (entre os mais pobres, esse índice cai para 7%). A pesquisa traz ainda outros dados interessantes que ficam para o próximo post.
Mulheres esquecidas da literatura brasileira
Constância Lima Duarte, Isabella Martino (mediadora) e Luiz Ruffato no debate da Biblioteca Mário de Andrade. Você pode nunca ter ouvido falar, dificilmente aprendeu na escola, mas o Brasil contou com muitas escritoras, algumas de bastante sucesso em suas épocas, antes de Rachel de Queiroz e Cecília Meireles despontarem nos anos 1930. O resgate dessa história ocultada, como muitas outras neste país, é o objetivo da exposição Pioneiras – Autoras Mulheres no Acervo de Raridades da Biblioteca Mário de Andrade (até 26 de maio, das 8 às 20 horas, na própria biblioteca), que reúne 50 títulos escritos por autoras entre 1754 e 1933. “A exposição traz uma ótima amostra, mas foram centenas de escritoras que fizeram sucesso, obtiveram repercussão e desapareceram na amnésia que apagou a história da mulher, fruto do corporativismo masculino”, disse a pesquisadora Constância Lima Duarte, no debate que inaugurou a exposição na semana passada (2/4). Uma dessas escritoras é a norteriograndense Nísia Floresta, que nasceu em 1810 e, segundo Duarte, foi a primeira brasileira a escrever sobre os direitos das mulheres. Aos 21 anos, publicou o livro Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, no qual faz um apanhado do que estava sendo discutido sobre o tema na Europa e argumenta a favor da capacidade das mulheres de aprender a ler. Repetindo, para a turba que ainda vocifera que feminismo é “mimimi”, naquela época não existiam escolas para meninas no Brasil. A primeira lei autorizando a abertura de escola primária para meninas é de 1827. No final dos anos 1930, Nísia se muda para o Rio de Janeiro e abre uma escola para meninas, que funcionou por 16 anos. Entre seus mais de 15 livros, está, ainda, Opúsculo Humanitário, ensaio sobre a educação feminina (única de suas obras na Biblioteca Mário de Andrade e que está na exposição), que reúne artigos seus publicados nos principais jornais da época. Além das mulheres, a escritora foi também defendia a abolição dos escravos e os índios. Em 1949, lançou o livro Lágrima de um Caeté, poema épico com 720 versos denunciando a dizimação das tribos e dos valores indígenas. Neste mesmo ano, muda-se para a Europa, onde ainda publicou vários livros, principalmente sobre suas viagens. Outra história incrível contada no evento é a de Júlia Lopes de Almeida, que, segundo o escritor Luiz Ruffato, estava entre os escritores brasileiros mais lidos e conhecidos do final do século XIX. “Júlia era muito popular no Rio de Janeiro e fazia concorridos sarais em sua casa. Seu romance A Falência é um dos maiores da época. Por que ela foi apagada da história da literatura brasileira? Simplesmente por ser mulher”, diz Ruffato. O escritor conta que Lopes de Almeida era tão respeitada que, quando se começou a cogitar a fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo citava a autora entre os fundadores. Seis meses depois, quando a ABL é de fato criada, em julho de 1897, Júlia não está em seus quadros, mas seu marido (um poeta português medíocre, Filinto de Almeida) sim. Nas rodas da época, ele era chamado de “acadêmico consorte”. Ao todo, essa autora de quem nunca ouvimos falar publicou dez romances, cinco livros de contos, oito peças teatrais, além de mais 12 obras diversas, que vão de Livro das Noivas a Contos Infantis. Felizmente, recentemente a Unicamp incluiu A Falência como leitura obrigatória para seu vestibular. Com isso, há algumas edições do livro disponíveis para quem quiser conhecê-la. Entre eles, uma edição da Companhia das Letras, com prefácio da Luiz Ruffato. Esse veto vergonhoso às mulheres na ABL durou até 1977, com a eleição de Rachel de Queiroz. Atualmente, das 40 cadeiras da Academia, cinco são ocupadas por mulheres. Como vemos, equidade não é um característica dos nossos imortais. Nem do mercado editorial, já que 70% dos livros publicados no país são de homens (possivelmente a maior parte brancos, do centro sul). Termino, porém, com uma preciosidade, que mostra sozinha o quanto nós mulheres avançamos, mas como não podemos descuidar e continuar atentas e na luta. Trata-se de um trecho de carta do poeta Ovalo Bilac para sua noiva poetisa Amélia de Oliveira: “Minha Amélia (…) Antes de tudo quero dizer-te que te amo, agora mais do que nunca, que não me sais um minuto do pensamento, que és minha preocupação eterna, que vivo louco de saudade, (…) Não me agradou ver um soneto teu (…) desagradou-me a sua publicação. Previ logo que andava naquilo o dedo do Bernardo ou do Alberto. Tu, criteriosa como és, não o faria por tua própria vontade (…) Há uma frase de Ramalho Ortigão, que é uma das maiores verdades que tenho lido: – “O primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida”. – Não é uma verdade? (…) há em Portugal e Brasil cem ou mais mulheres que escrevem. Não há nenhuma delas de quem não se fale mal, com ou sem razão (…). Não quer isto dizer que não faça versos, pelo contrário. Quero que os faças, muitos, para teus irmãos, para tuas amigas, e principalmente para mim, – mas nunca para o público (…) Teu noivo Olavo Bilac. São Paulo, 7 de fevereiro 1888″ (ELEUTÉRIO. 2005, p.32). Homens, de todas as épocas, odeiam mesmo é concorrência.
Exposição resgata história do “Treme-treme” paulistano
Fachada do São Vito, em foto da exposição do Sesc Uma das passagens mais interessantes no livro Minha História, de Michelle Obama, quando conta sobre a decadência do bairro onde cresceu em Chicago, é que a ideia da degradação de um local vem antes que a degradação em si. No caso, o medo das famílias brancas de que o aumento da população negra no bairro o empobreceria, fez com que se mudassem e, com isso, as famílias negras mais abastadas passassem a fazer o mesmo movimento. Com isso, se realizou a profecia inicial, com a piora na qualidade das escolas e aumento da violência, entre outros problemas. Esse movimento é um velho conhecido de São Paulo e um dos casos mais bem acabados é a região do Parque D. Pedro II, no Centro, que sucumbiu a partir da migração (ainda em curso) das elites rumos à zona sul. A dimensão desse abandono foi tão poderosa que todas as tentativas de recuperação até agora, seja com uma intenção mais social ou com fins de gentrificação, deram com os burros n’água. Em qualquer um dos casos, os grandes perdedores sempre foram os moradores resistentes e a própria cidade, que expande seus domínios deixando para trás redutos abandonados pela urbe, sem nenhuma qualidade de vida, beleza ou memória. Um exemplo de tudo isso é a história do edifício São Vito, inaugurado em 1959 e demolido em 2011, em cujo espaço hoje está instalada a Ocupação Sesc Parque Dom Pedro II, que, como o próprio nome diz, não é uma propriamente uma unidade como as demais do Sesc, mas um conjunto com quadras, palcos e containers que, apesar de bacana, não chega aos pés do projeto previsto para quem sabe um dia para o local. Mas é justamente ali que se encontra (até 5 de maio) a exposição São Vito: uma escavação, que resgata a história dessa parte do centro de São Paulo a partir da saga daquele prédio que o preconceito da metrópole batizou de “Treme-treme”. Monitores atenciosos ajudam os curiosos a entender melhor o que está na mostra, concebida pela Grifo Projetos, com pesquisa e desenvolvimento de Lygia Rodrigues, Thaís Gurgel e Camila Mouri. Construído na mesma época de seu vizinho – igualmente demolido – edifício Mercúrio, o São Vito já é fruto de uma certa decadência da região, originalmente às margens de um sinuoso rio Tamanduateí e cercada pelo então lindíssimo Parque Dom Pedro II. A prova da importância do local é a suntuosidade do Mercado Municipal, que, com seus incríveis vitrais, pode-se dizer que era um shopping center dos anos 1930, quando foi inaugurado. Com o tempo, o Tamanduateí sofreu várias retificações, avenidas foram construídas e, quando os dois prédios foram construídos, com seus apartamentos muito pequenos (na época quitinetes; hoje seriam estúdios, kkk), eram voltados para uma população urbana de classe média, como os estudantes das faculdades do entorno. Com a desvalorização da região, o padrão de moradores foi empobrecendo e, na década de 1980, passou a ser tratado pela grande imprensa como um cortiço ou favela vertical, como mostra o trecho de reportagem de O Estado de S. Paulo, de 1987, presente na mostra: “O edifício São Vito, enorme cortiço de 37 andares, com 624 quitinetes, é um território livre dentro da cidade de São Paulo, as margens do Tamanduateí. Dentro dele, as leis brasileiras não são obedecidas e seus cinco mil moradores tentam seguir um código próprio. A polícia – nem mesmo a Guarda Civil Metropolitana – não se atreve a entrar no prédio”, diz o repórter, se queixando de também ter sido impedido de entrar. Consigo imaginar por quê. Trabalhando na época no jornal Shopping News, sob o comando do saudoso Aloísio Biondi, jornalista pouco afeito a ideias prontas, visitei o São Vito e encontrei, na verdade, muitas famílias de trabalhadores, grande parte delas proprietárias dos apartamentos. A precariedade realmente existia, por conta da pobreza (dentro do edifício e no seu entorno). Mas como pobre não tem voz nem vez no Brasil, ao invés de ajuda para revitalizar o prédio, seus moradores ganharam mesmo o despejo (parece que a maior parte recebeu indenizações ridículas). Os poucos que conseguiram se manter na região, pelo que me contaram na exposição, têm antipatia pelo Sesc, por ocupar um lugar que era deles. O incrível é que todo o trabalho de expulsão dos moradores e demolição dos dois edifícios não resultou em nenhuma das justificativas alegadas para que ocorressem: nem embelezamento urbano, nem renovação ou revitalização urbana, nem gentrificação (esta última se aproxima, via aproximação da verticalização do Belenzinho, ali do lado). Para quem quer entender um pouco sobre os termos urbanísticos, conforme a exposição.
Mesmo quando anda pra trás, felizmente a roda é viva e sempre pode mudar
Teatro Oficina, aberto pra cidade. Quando comprei as entradas para assistir à montagem de Roda Vida, no Teatro Oficina, há um mês, o que me moveu foi a vontade de conhecer esse espaço de resistência e inovação da cidade neste momento de retrocessos múltiplos que me indignam a cada dia. Foi meu marido que me chamou a atenção para a data que tinha escolhido, confesso que aleatoriamente: 31 de março. O que já era para ser um programa bacana em família, passou a ter um significado mais especial a partir do momento em que Bolsonaro recomendou que se comemorasse o golpe militar que implantou a ditadura no Brasil. Difícil descrever a emoção de estar naquele lugar com meus filhos e marido nesse domingo e sentir a energia tanto naquele palco improvável quanto na plateia, que se mistura a ele. Acho tão surreal termos um governo que em três meses só trabalhou para retirar direitos conquistados e com equipe e entourage que chegam a ser escatológicas, que necessito me cercar de pessoas que mantêm a sanidade. Nós nos andaimes, ops, plateia. O Oficina é mais um daqueles lugares quase mitológicos de São Paulo que eu, no meu provincianismo, não conhecia. A concepção do lugar como se fosse uma rua no lugar do palco, com a plateia às margens ocupando uma estrutura que parece um andaime, é uma experiência em si. Não sei como era antes da reforma, mas o projeto atual, de Lina Bo Bardi e Edson Elito (inaugurado em 1994), com a parede de vidro que dá para o estacionamento do Silvio Santos e o que vem além, e os inúmeros recursos usados pelos atores para estar sempre muito junto ao público dão um toque mágico. Parece que participamos do espetáculo e não apenas assistimos. Estando ali, entendi a polêmica com o empresário/apresentador que luta há anos para construir neste terreno vizinho um grande empreendimento imobiliário. O teatro é tombado pelo Condephaat (órgão estadual de defesa do patrimônio) desde 1981 por sua importância histórica à arte do teatro nacional (e desde 2010 é tombado também nas esferas federal e municipal), o que torna qualquer construção no entorno sujeita a respeitar sua preservação. Não precisa ser um especialista em patrimônio material (no caso, a arquitetura) e imaterial (a ludicidade da arte) para olhar pelas incríveis janelas que fazem o espetáculo comungar com a cidade lá fora e perceber que qualquer intervenção no terreno vizinho que não seja o (reivindicado pelos representantes do teatro) Parque do Bixiga seria criminosa. Sob qualquer aspecto, um empresário que ficou milionário às custas de explorar pobres com seu Baú da Felicidade e uma concessão pública deveria ter a generosidade de retribuir à sociedade com um projeto que valorizaria muito mais aquele entorno do que mais um arranha céu. Ao contrário, se empenha em liberar a obra junto aos órgãos de proteção. Acompanhemos os desdobramentos, ainda mais nesta época bicuda de devoção ilimitada ao capital. Busca a qualquer preço por dinheiro e fama é justamente o tema de Roda Viva, de Chico Buarque, que está completando 50 anos de sua primeira exibição, quando foi sistematicamente censurada pelo regime militar. Conta a história do cantor Benedito Silva que ganha fama (após vender a alma ao diabo) e depois é engolido pela indústria cultural. Considerada subversiva e degradante pela ditadura (aquela que não existiu, não perseguiu nem torturou ninguém), teve o teatro invadido durante sua temporada paulistana, em 1968, com o cenário destruído e os atores (incluindo Marília Pera) espancados. Em Porto Alegre, os meigos espancaram os atores no hotel mesmo. Desde então, a peça não havia mais sido encenada e apenas agora teve autorização do autor para uma nova montagem, atualizada pelo diretor Zé Celso Martínez Correa para incluir as novas mídias (internet e mídias sociais) e o inacreditável momento político nacional. A presença magnética de Zé Celso marcou o início e o final da encanação, que trouxe o samba enredo campeão de 2019 da Mangueira, História para ninar gente grande, com toda a equipe do espetáculo e o público em uma confraternização que saiu da viela cenográfica para a rua real, terminando a noite em celebração.
Um “curso” para entender o amor romântico e fazer com que dure para sempre
Livro do mês do CFL. O que faz um casamento feliz e duradouro? A escolha certa? As experiências anteriores do casal? A vontade de que dê certo? Quais as vantagens e os problemas causados aos relacionamentos no modelo de amor romântico que rege as relações na nossa época? Essas são as questões que o escritor e filósofo suíço Alain de Botton tenta responder no livro O curso do amor, no qual mescla a história do casal Rabih e Kirsten com intervenções analíticas sobre como funcionam os relacionamentos e que foi o tema da reunião do nosso Círculo Feminino de Leitura (CFL) de março. A leitura, às vezes gostosa, às vezes entediante, como a vida do casal Khan, em Edimburgo, propositalmente comum – ali apenas para servir de escada para as digressões do autor -, nos traz, porém, muita daquela sabedoria simples sobre a qual não paramos para pensar. Por exemplo, como o sexo, mesmo sendo bom por si só, ganha sabor com a intimidade, mas também precisa de fantasia para se manter atraente. Em seu todo, o “curso” de Botton mostra o quanto a vida fica boa quando temos alguém com quem nos identificamos para dividir as agruras do dia-a-dia, mas o quanto, também, esse compartilhamento pode minar o romantismo que motivou a união. Como as experiências que trazemos da infância podem determinar como reagimos em cada situação e como isso pode criar mal entendidos entre pessoas que se amam, com uma falando uma coisa e a outra entendendo algo totalmente diferente. E, sobretudo, como a intimidade – sempre ela – faz com que despejemos nossos problemas e frustrações justamente na pessoa em quem mais confiamos e que nos compreende melhor. Desafios do amor romântico na pauta. Administrar tudo isso pode ser bastante difícil, ainda mais quando se junta a responsabilidade de criar filhos e uma cultura que presa a fidelidade sexual como o maior valor em uma relação. Assim, uma única escapada de um dos cônjuges põe para girar a maior crise do casamento de Rabih e Kirsten, desencadeada pela culpa e frustação do traidor e pela reação do outro à mudança de comportamento do parceiro. A terapia de casal e uma maior maturidade consegue, neste “case” inventado pelo autor, resolver estas questões e concluir – acredito que a grande tese do livro – que amor é mais habilidade do que entusiasmo. E que, se não é possível ser, ao mesmo tempo, um libertino e um romântico casado, por mais atraentes que os dois paradigmas sejam, o segundo costuma ser mais satisfatório em longo prazo. O maior conselho de Botton para que essa empreitada dê certo, e com a minha experiência de mais de 30 anos de casada tendo a concordar, é que “nenhum relacionamento pode começar sem o compromisso com uma intimidade sincera. Entretanto, para o bom andamento do amor, também parece impossível imaginar parceiros incapazes de guardar boa parte de seus pensamentos para si mesmos”. Isso vale para tudo na relação, não somente grandes segredos que poderiam terminar imediatamente a relação. Prefiro meu marido dizendo que continuo tão bonita quanto quando nos conhecemos, do que dizendo que estou ficando velha. Poupar quem amamos da crueldade que não usaríamos com estranhos é um fator primordial para manter relações felizes. Mas, embora este Curso do Amor termine concluindo que, após 13 anos juntos, o casal finalmente está maduro em sua relação, os filhos de Rabih e Kirsten ainda são pequenos e demandam uma grande empreitada em comum, muito bem delineada no livro: “Eles nunca se preocuparam de forma tão intensa e categórica com ninguém. A chegada dela [da filha] transforma o que entendem sobre amor. Ambos reconhecem que, até então, tinham entendido muito pouco sobre o que podia estar em jogo”. Mas o que acontece quando os filhos não precisam mais dos pais em seu dia-a-dia ou vão embora, deixando o casal novamente a sós? Se isso antes acontecia com as pessoas em plena meia idade, já sem expectativas, o que fazer hoje com essa geração de perennials, ainda cheia de gás e expectativas? É disso que trata o filme Um amor inesperado (direção de Juan Vera, ainda em cartaz em São Paulo, com o charmosíssimo Ricardo Darín e a também incrível Mercedes Morán), que me pareceu um ótimo complemento ao livro de Botton, talvez porque entender essa fase seja um dos meus desafios atuais. No filme, a dicotomia aventuras versus rotina, mesmo que esta seja suave e satisfatória, leva o casal a se separar e, realmente, viver aventuras que não teriam como se permitir casados, para redescobrir muito depois o porquê de um dia terem decidido ficar juntos (e com a pretensão de que seria para sempre). Acredito que muitos casais se percam nessa dúvida eterna – ou abrindo mão da vida que era boa pela esperança de novas experiências mais excitantes ou permanecendo como está com a melancolia de quem nunca tentou mudar. Conseguir conciliar (e resgatar) nesse momento tudo o que sempre foi bom em um casamento e, ao mesmo tempo, se reconectar com a pessoa que escolheu – e que mudou muito ao longo do tempo -, encontrando nela o prazer do romance e da convivência nessas novas bases, sem abrir mão de vivenciar seus próprios novos gostos, desafios e ambições, é o segredo dos casais que seguem acreditando que, embora alma gêmea não exista, o amor pode ser cultivado, renovado e dar muita satisfação para quem sabe investir bem nele.