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PaulistanaSP

A foto do Che

Demorei muito para entender, se é que cheguei a isso, a fixação que minha geração tinha pela foto de Che Guevara na adolescência. Mesmo com minhas parcas informações de aluna de escola pública no final da ditadura – e numa casa onde ninguém ousava conversar sobre nada que realmente importava –, não via naqueles meninos que portavam camisetas, cadernos e pôsteres do guerrilheiro cubano (só fui saber que era argentino muito depois), nada em comum com ele. Acredito que muitos nem sabiam de quem se tratava. Durante as aulas, pelo menos, nunca foi dita uma palavra sobre revolução cubana ou seus líderes – nem pra falar mal. O famoso retrato pelo qual o Korda nunca cobrou royalty. Aquele olhar terno e feroz ao mesmo tempo, decidido e cheio de esperança, só me capturou já na faculdade, quando a luta pelas Diretas Já indicavam que, veja só, de repente, um mundo novo e mais justo seria possível. Todos esses anos depois e muitas contradições não resolvidas – como a dicotomia de Cuba permanecer uma ditadura até hoje e o Brasil, depois de tanta luta por democracia, progressos reais e problemas praticamente insolúveis, estar em uma relação séria (de alianças compradas) com o fascismo -, ainda me pergunto o que aquela imagem quer nos dizer. Topei com essa questão novamente ao visitar a exposição Agora ou Nunca – Devolução de Maureen Bisilliat no Instituto Moreira Salles (IMS). A mostra traz uma série de vídeos produzidos pela fotógrafa desde os anos 1960. Dentre eles há uma entrevista com o autor da foto, o fotógrafo cubano Alberto Korda, que me capturou. As perguntas feitas por Maureen e que Korda não tinha como responder eram se ele tinha noção, ao tirá-la, do poder que teria e o que ela tem de tão especial. O fotógrafo acredita que tenha capturado o idealismo e a convicção de Che Guevara. O que a foto representa, porém, parece ir além do personagem. Batizada de Guerrilheiro Heroico por seu autor, falecido em 2001, a foto foi tirada em 5 de março de 1960 em Havana, durante um evento dedicado às cem vítimas da explosão do navio “La Coubre”, que vinha da Bélgica para Havana com armas e munições para a então recente Revolução Cubana e cujos líderes consideraram uma sabotagem. Che tinha na época 31 anos e a foto só foi publicada sete anos depois, logo após sua morte na Bolívia. A fotografia foi então projetada em um prédio durante um discurso de Fidel Castro e depois transformada em um pôster por uma editora italiana, que vendeu dois milhões de cópias em seis meses. O retrato é considerado a imagem mais reproduzida do Século XX, na frente até da Marilyn Monroe com a saia levantada e a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci.

Sobre assédio, redação e O Escândalo

Assédio e redação de jornal para mim sempre soaram como quase sinônimos, sobretudo no meu início de carreira, entre o final dos anos 1980 e início dos 1990. Tive chefe que nunca me convidou para sentar ao falar comigo em sua sala (e eu entrava lá várias vezes por dia) e, quando queria me dar bronca, perguntava se meu marido não estava comprando comida (deve ser porque sabia que me pagava uma miséria…). Um outro trocou a mesa baixa dos repórteres com a mais alta dos diagramadores, apenas com a intensão de humilhar a redação. Os diagramadores devem ter tido todos dores nas costas, enquanto os repórteres trabalhavam com listas telefônicas sobre as cadeiras como se fossem almofadas para conseguir alcançar as máquinas de escrever (sim, você entendeu bem, eram máquinas de escrever, sou velha). Houve também chefes (vários) que, quando eu saía no meu horário – o que era raro, pois o normal era ficar pelo menos uma hora a mais -, olhavam ostensivamente no relógio antes de me dar boa tarde. Um deles tinha os costume de, quando ligava para a casa de algum repórter para passar a pauta, perguntar o que ele estava fazendo. Na verdade, só sei que fez isso comigo e com colegas minhas, não sei se fazia com homens também. Tinha uma delas que ouvia isso praticamente todas as noites. Eu sempre a aconselhava a dizer que estava trepando com o marido, mas ela era fina e nunca aceitou a sugestão. Além de uma chefe (mulher e feminista) que, na véspera de minhas férias, me chamou para dizer que não havia assinado a autorização porque estava com “ódio” (isso mesmo!) de mim. Felizmente, chefes intermediários (entre a big boss e eu) intercederam por mim e não precisei abandonar o emprego, já que da minha viagem eu não abriria mão. Tinha uns 25 anos, porém, quando enfrentei meu caso explícito de assédio sexual. Trabalhava em um jornal semanal e, durante uma viagem de trabalho com um grupo de jornalistas, conheci um editor do jornal que sempre sonhei em trabalhar – detalhe importante: ele levou a esposa na viagem. Ficamos amigos, ele me elogiou muito. De volta, me ligou e pediu que eu encaminhasse meu currículo, o que fiz imediatamente, explodindo de felicidade. Eis que, depois de alguns dias, ele me liga e diz que tinha outra viagem para fazer, que era um final de semana e que seria muito legal se eu fosse com ele para discutirmos minha contratação. Fiquei em estado de choque e só consegui responder que estava fora de cogitação. Desnecessário dizer que nunca mais ouvi falar no sujeito. Me senti um lixo. Pensava que eu devia ser uma péssima profissional, que só era vista por ser uma garota bonitinha. No meu primeiro trabalho, ainda não como jornalista (mas coincidentemente na mesma empresa desse editor), o big boss da vez, ao me contratar, disse que o local ficaria muito mais bonito comigo lá – saí da sala muito infeliz, pois esperava que ficasse muito mais eficiente… Tenho certeza que há mulheres muito fortes e seguras que não se deixam intimidar por essas coisas. Além esperar – desesperadamente – que aconteçam muito menos. No meu caso, não tenho como dizer se e quanto isso influenciou na minha própria vida e carreira. Essas lembranças vieram à minha cabeça enquanto assistia ao filme O Escândalo (de Jay Roach), sobre os casos de assédio sexual na Fox News. O incômodo era ainda maior porque as mulheres assediadas do filme (as atrizes Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie, incríveis nos papéis) nem eram o que considero pessoas legais, mas umas reacionárias e carreiristas de primeira. Aliás, sororidade é o que não vemos entre as mulheres no filme, o que dificulta, no primeiro momento, a empatia por elas. Mas, conforme acompanhamos seus dramas e as escrotices às quais são submetidas, vamos percebendo que são pequenas as chances femininas de ascensão sem, no mínimo, um pouco de cumplicidade com o sistema. Foi um filme doloroso de ver.

Agropecuária brasileira precisa se adaptar às mudanças climáticas

O Brasil é líder global na produção agropecuária e pode ser tornar o maior exportador de alimentos do mundo nos próximos anos. Para isso, porém, o país precisa estar preparado para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. A poucos dias do início da reunião anual da Convenção do Clima (COP-25), em Madri – que seria no Brasil, mas foi esnobada pelo seu (des)governo, não esqueçamos -, esse alerta foi amplificado com o lançamento do working paper “Papel do Plano ABC e do Planaveg na Adaptação da Agricultura e da Pecuária às Mudanças Climáticas”, pelo WRI Brasil. O estudo traz pesquisas e análises que mostram quais são os impactos das mudanças climáticas na agricultura brasileira e como eles podem ser minimizados por meio da implantação das tecnologias do Plano Nacional de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) e da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Espera-se uma redução de 17% na produtividade agrícola global até 2050, causadas por essas mudanças, cujos principais impactos são: alterações nos ritmos de ganho de biomassa vegetal e animal; modificação nos padrões fenológicos; diminuição da fertilidade animal e vegetal; e aumento da susceptibilidade a doenças. Estima-se que, no Brasil, em nove culturas (algodão, arroz, café, cana, feijão, girassol, mandioca, milho e soja), em pastagens e na pecuária de corte, os efeitos levariam a um impacto negativo de US$ 4 bilhões em 2050, com a soja responsável por 50% dessas perdas. A adoção de tecnologias de baixo carbono, disponíveis e já em implantação no Brasil (infelizmente por uma minoria de visionários), poderia ajudar o país a reduzir, em muito, os prejuízos que terá com as mudanças climáticas. Essas tecnologias, que incluem a recuperação de pastagens e os sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta, lavoura-floresta, pecuária floresta, além dos sistemas agroflorestais (SAF), entre outras vantagens, minimizam os efeitos de eventos extremos, como secas prolongadas, picos de calor e de frio, e tempestades. Se aplicados conjuntamente às metas do Planaveg, de recuperar pelo menos 12 milhões de hectares até 2030 de vegetação nativa, em áreas de preservação permanente (APP), de Reserva Legal (RF) e degradadas com baixa aptidão agrícola, beneficiariam não apenas o setor agropecuário como o país como um todo. Este working paper levou mais de um ano de trabalho árduo para ficar pronto e contou com a participação dos especialistas Eduardo Assad, Luiz Claudio Costa, Susian Martins, Miguel Calmom e Rafael Feltran-Barbieri, e a coordenação de Carlos Nobre. Também tive a honra de participar desse trabalho e aprender um monte com essas feras. Durante a apresentação do estudo, na semana passada, uma das grandes questões era entender porque, com tantas evidências, essas tecnologias ainda não são mainstream na agropecuária brasileira. Ao contrário, parecem ser combatidas por grandes representantes do setor. Além de questões como falta de formação técnica – tanto dos agropecuaristas quando dos financiadores – ou as facilidades propiciadas pela ilegalidade, Daniela Mariuzzo, diretora executiva do IDH Brasil (Iniciativa para o Comércio Sustentável) lembrou que a decisão final sobre a adoção de qualquer prática é do próprio agricultor, normalmente preocupado com sua lucratividade ou sobrevivência de curto prazo. Ganhar corações e mentes dessas pessoas talvez seja o desafio mais urgente de todos que lutam por um país mais resiliente e preparado para enfrentar o que vem pela frente. Competir com a propaganda de fronteira agrícola infinita – na qual progresso é desmatar e plantar indefinidamente e de qualquer jeito -, gastar energia para libertar ativistas presos como se fossem vilões da floresta ou explicar que Leonardo DiCaprio não financia incêndios na Amazônia entre um filme e outro têm sido um fardo para quem persegue essa meta. Veja o estudo na íntegra: http://bit.ly/AdaptacaoAgro

O legado do ISA

Há pouco mais de 22 iniciei meu relacionamento com o Instituto Socioambiental, o ISA, quando passei a fazer parte da equipe daquela ONG, na época – como agora – muito inovadora. Fundada menos de três anos antes por um grupo de antropólogos, indigenistas, advogados e ativistas, trazia como novidade um olhar para as florestas, a biodiversidade e o meio ambiente como um todo vinculado à defesa dos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. O lema do ISA nos primeiros anos era justamente socioambiental se escreve junto, produzindo uma nova palavra e um novo conceito de atuação. Muito sinceramente, achava que não sairia de lá nunca mais, tamanha minha identificação com a causa. Mesmo que isso não tenha acontecido, nunca perdi totalmente o vínculo, seja acompanhando o trabalho deles como jornalista e cidadã, seja como colaboradora em vários trabalhos, entre eles alguns que estão no rol dos que mais me orgulhei de fazer parte, como as duas edições do Almanaque Brasil Socioambiental. Tudo isso para contar que, na semana passada, foi lançada a revista ISA 25 anos, Unidos pela Diversidade – que traz um pouco do legado e da forma de trabalhar da organização -, da qual também tive a felicidade de colaborar. A ideia da publicação é mostrar as atividades – baseadas em trabalho de campo ao lado das comunidades, monitoramento de áreas protegidas, produção de informação qualificada, articulação política e mobilização – para novos públicos. Um trabalho que é essencial em um momento no qual os direitos dos povos indígenas e tradicionais estão ameaçados como nunca, assim como muitos dos direitos de todos os brasileiros, com destaque para os ambientais. Saber que há pessoas, como as que atuam no ISA, lutando para reverter esse quadro e evitar que, quando essa tendência nefasta acabar (e há de acabar!), não tenhamos que recomeçar do zero é um alento. Dentro dessa revista, temos uma amostra de como é possível manter o Brasil com sua verdadeira riqueza e prosperar, com mais justiça, democracia e qualidade de vida para toda a população. PDF da publicação 

Um bem de todos nós

Tive nesta semana uma grata surpresa ao receber o livro infantil Água, do ilustrador indiano Subhash Vyam, publicado pela FTD. Além das ilustrações muitos bonitas e da história comovente, que se passa na Índia, mas poderia tranquilamente ser de milhares de brasileiros, tenho uma pequena participação na publicação, pois fui convidada para fazer um posfácio contextualizando para os pequenos leitores daqui a questão da água no mundo e no nosso país. A obra parte da narrativa oral em híndi do artista, recontada em inglês por Gita Wolf e traduzida por Claudio Alves Marcondes para o português. A narrativa, baseada na vida do autor, conta sobre sua infância em uma aldeia pobre onde a escassez de água determinava a dinâmica da comunidade. Depois, foi para a cidade para estudar e trabalhar e se surpreendeu que, também lá, apesar de toda estrutura e do desperdício com seu uso, muitas vezes a água também faltava na torneira. Sem perder o vínculo com a aldeia natal, descobriu em uma de suas visitas que a construção de uma barragem poderá inundar o vilarejo, desalojar a população e destruir seu modo de vida. Toda a narrativa leva a uma reflexão sobre como nos relacionamos e fazemos uso da natureza. Ao ponderar sobre o estilo devida de seus conterrâneos, percebe que na aldeia “sempre fomos muito modestos para satisfazer as nossas necessidades. Claro que gostaríamos de algum desenvolvimento, mas não de modo a prejudicar o lugar em que vivemos”. E conclui: “Não, o problema que estamos enfrentando não foi causado por nada que a gente tenha feito – na verdade, é um problema que surgiu por causa da ganância da cidade. Não de todas as pessoas que moram na cidade, mas das ricas e poderosas que, para alcançarem o que desejam, não se importam com as consequências de seus atos”. Tudo muito lindo, poético e claro.

Mineração, consumo e estupro

Fazer sinapses é uma atividade difícil, às vezes, parece que tentamos forçar a barra ou, mais comum, sermos muito radicais. Ontem, no meio desta semana triste, quando a Amazônia arde por obra de ruralistas, madeireiros e mineradores – e, com certeza, não por iniciativa de ONGs, como quer convencer a galera o presidente do Brasil -, ouvi o médico congolês Denis Mukwege, Prêmio Nobel da Paz de 2018, no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Denis Mukwege, no Fronteiras do Pensamento Mukwege ficou conhecido por sua atuação em prol das mulheres que são estupradas como estratégia de guerra nos conflitos que já deixaram mais de 6 milhões de mortos na República Democrática do Congo (RPC). Segundo o médico, os estupros coletivos, cometidos de maneiras diversas conforme o grupo, são uma forma barata de humilhar e destruir comunidades, forçando seus habitantes a deixar suas terras. O motivo da violência é o controle sobre as minas de tantalina, minério utilizado na maioria dos aparelhos eletrônicos portáteis, do qual o país detém 80% das reservas mundiais. Não é preciso ser gênio para concluir que, a cada vez que compramos um novo celular ou notebook, estamos sendo cúmplices desses estupros. Para quem gosta de trocar de aparelho como quem troca de roupa, a cada vez que a câmara fotográfica aumenta um pixel, a culpa é maior (pode me xingar, mas é verdade). Infelizmente, as mineradoras usam táticas tão ignóbeis quanto aqui no Brasil, seja colocando a população em risco com suas barragens mal feitas, seja cooptando os dirigentes do país e incentivando a invasão de terras indígenas para tomar posse de seu subsolo. Se isso acontece às custas de vidas indígenas e das florestas brasileiras, não é uma questão que parece ganhar corações de mentes. Aliás, em se tratando de Amazônia, precisamos saber que também o nosso bifinho de cada dia colabora, e muito, para as cenas deprimentes de fogo na mata que temos visto na TV e também da janela de nossas casas aqui no sul-sudeste, nas chuvas engrossadas pela fumaça que veio do norte. Essas sinapses são desagradáveis, mas necessárias se – e somente se – quisermos mudar essa inversão de valores que tomou conta da humanidade e que banaliza o mal, como disse o Prêmio Nobel à plateia que foi vê-lo aqui em São Paulo. Mukwege decidiu ser médico para combater a mortalidade infantil em seu país, mas descobriu que a mortalidade materna era uma tragédia ainda maior, com mulheres já chegando quase mortas ao hospital. Diante disso, resolveu ir para a França e se especializar em ginecologia. Na volta, o hospital onde trabalhava em Lemera, no leste do país, foi atacado e 35 pacientes mortos. Fugiu para Bukadu onde fundou, em 1999, o Hospital de Panzi. A ideia era atuar na saúde da mulher, realizar partos, mas a primeira paciente que apareceu foi uma vítima de estupro, com extrema violência. Contou que, apesar do choque, acreditou que fosse um caso isolado, mas as vítimas não pararam mais de chegar. São dez casos, em média, por dia, incluindo bebês com meses de vida a senhoras octagenárias.   “O corpo da mulher virou uma arma de guerra para destruir as comunidades, uma arma largamente utilizada em vários lugares do mundo, como Colômbia, Iraque, Sudão do Sul, Síria”, disse. Por seu trabalho e suas críticas às grandes empresas mineradoras – “que sabem que esses são minerais de sangue, obtidos pelo martírio das mulheres e a destruição de seus órgãos genitais” -, Mukwege já foi alvo de seis atentados. Em um deles, em sua casa, em 2012, seu segurança foi morto e ele resolveu se refugiar no exterior. No entanto, logo voltou ao país, por conta do apelo das mulheres a quem tinha ajudado, que juntaram dinheiro para a passagem de volta vendendo frutas e verduras. As maiores críticas, o médico reserva à comunidade internacional, que faz vistas grossas para o que acontece na República Democrática do Congo por interesses econômicos. Segundo ele, somente a igualdade de gênero fará com que as mulheres tenham dignidade e paz. Para tanto, é preciso que seja uma campanha global e que esses crimes sejam punidos, inclusive como crimes de guerra. “As mulheres não podem combater esse mal sozinhas como têm feito até agora. É hora dos homens se tornarem aliados-chave para a igualdade entre os sexos. Não podemos enfrentar os desafios da humanidade – pobreza, desigualdade, clima – sem a presença igualitária das mulheres. Não há mais lugar para o modelo da masculinidade patriarcal”, disse Mukwege. E exortou: “Um mundo 50/50 é possível e está ao nosso alcance. A dominação de 50% não vai garantir nossa sobrevivência”.  

Um olhar feminino sobre a incipiente república brasileira

Parece incrível, mas somente neste ano tomei conhecimento da existência da escritora brasileira Júlia Lopes de Almeida. Um dos autores mais lidos em sua época – final do século XIX e início do XX -, ela foi apagada do quadro dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), após ser anunciada como uma das participantes, e também, até bem pouco tempo, da história da literatura no país. Me pergunto quantas mais mulheres tiveram suas obras e atuações nas mais diversas áreas esquecidas, propositalmente, apenas por serem do sexo feminino. Instigada por conhecer mais sobre Júlia, cujo marido – o poeta português, dizem que medíocre, Filinto de Almeida – assumiu a cadeira que seria dela e era chamado nas rodas intelectuais de imortal consorte, indiquei seu livro A Falência para o encontro mensal do Círculo Feminino de Leitura (CFL), que aconteceu na minha casa em julho. E ela não decepcionou. Mulherada pirando com Júlia de Almeida. Publicado originalmente em 1901, o romance é um retrato realista da sociedade brasileira logo após a abolição dos escravos e proclamação da república – sobretudo de sua elite econômica. Infelizmente, o livro é também bem atual. Conta a história da família do imigrante português Francisco Theodoro, que enriqueceu com o comércio do café, mas acaba falido por ter caído na lábia de um especulador. A questão do livro, porém, não é exatamente essa e sim as relações entre as pessoas, a começar pela protagonista, esposa do empresário e amante de um médico refinado que praticamente faz parte da família. O que diferencia o olhar de Julia é não ter a visão idealizada ou misógina da mulher. Ao contrário de Capitu, a personagem símbolo de Machado de Assis, seu contemporâneo – e possivelmente um dos censores de sua entrada na ABL –, sua Camila não é dissimulada nem punida pelo autor por conta apenas de suspeitas. É uma mulher do seu tempo, que casa por interesse, por ser a única alternativa possível de ascensão para uma mulher pobre, bonita e inteligente. Corresponde totalmente ao que espera dela o marido, a quem dedica um afeto verdadeiro, apesar do descrédito da sociedade, sobretudo quando da falência e posterior suicídio do esposo. Aliás, é nesse momento de tragédia, que os aparentes sentimentalismo e superficialidade que rondam o mundo feminino, cercado de receitas, moda, fofocas e recepções, dá lugar a força e determinação, ao contrário da fraqueza de caráter e covardia dos personagens masculinos. Enquanto o filho mimado se casa com uma ricaça, deixando a mãe e as irmãs se virarem, o pai se mata por vergonha, largando a família na mão, e o amante confessa que não pode se casar por ter abandonado uma esposa à mingua por suspeita de traição, as mulheres dão a volta por cima e vão à luta: desde a empregada – típica “criada da casa”, quase escrava, mas “da família” -, à sobrinha agregada, à filha mocinha que vai dar aulas de música, até a madame, que assume a educação das filhas pequenas e as rédeas da família e manda o amante cínico passear – nenhuma fica de mimimi. No CFL, amamos todas elas. Escrito em um tom realista, mas sem abrir mão de uma linguagem poética e lúdica, o livro nos permite viajar no tempo, inclusive nas palavras que já não conhecemos o sentido e precisam de saborosas notas de rodapé explicativas. Fiz um quiz com parte delas e nos divertimos tentando adivinhar o que queriam dizer fora do contexto do livro. Mas a autora também nos faz pensar em quão pouco (e se) avançamos nesses pouco mais de cem anos de república, como nas meditações de Francisco Theodoro, o homem “de bem”, após ser abatido pela ganância e ambição: “No fim, havia de aparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades destes tempos e destes homens doidos, quando, depois de tudo consumado, não houvesse nada a refazer, mas tudo a criar. A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção fantástica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorância de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela política amaldiçoada”. Já a beira da decisão irrefutável de tirar a própria vida, o empresário falido reconhece a importância dos valores que sempre desprezou (ah se ele pudesse deixar esse legado aos seus semelhantes porvindouros): “Era pois também certo que a inteligência e a instrução valiam alguma coisa”.

Uma por TODAS e TODAS por uma

Cheguei ao Círculo de Confiança entre Mulheres, que chamamos carinhosamente de TODAS, por um convite via Facebook, curtido por minha amiga Rachel Añón. Vivia uma fase particularmente triste, com a situação política neste início de 2019, onde confiar era o que mais queria e menos estava conseguindo. Na reunião introdutória, fiquei sabendo da proposta e de cara percebi que muitas das mulheres ali presentes dividiam angústias parecidas com as minhas. Por isso, aceitei o convite das três facilitadoras para participar das dez reuniões quinzenais, que estão em curso. O formato um pouco formal e regrado dos encontros me assustou no início, mas a força dessas vinte e poucas mulheres que formaram o grupo quebraram meu ceticismo de pessoa que desconfia e se sente um tanto desconfortável com tudo o que não é puramente intelectual. Hoje, aguardo ansiosa nossas reuniões. Mulheres juntas são como flores: melhoram o mundo. É o que fazemos lá? Em primeiro lugar, cuidamos umas das outras por algumas horinhas: levamos lanches, fazemos caixinha – para o caso de alguma precisar de ajuda para chegar ao encontro -, nos abraçamos, ouvimos e somos ouvidas, participamos – a convite das facilitadoras – de atividades lúdicas para pensar em temas que normalmente nos inquietam: amor, sexto, dinheiro, relacionamentos, trabalho. E participamos do círculo, onde cada uma, individualmente, pode entrar e dividir alguma questão pessoal com o grupo. Pode ter ou não relação com o tema do encontro, algo que a esteja angustiando, um acontecimento do dia, um insight, uma realização. Pode ser um depoimento curtinho, de um minuto, ou algo mais complexo, que pode ser seguido – a partir do consentimento de quem está se expondo -, de uma vivência proposta pelas facilitadoras e de “espelhos” das demais participantes da roda. Esse último é uma devolutiva sem conselhos ou julgamentos. Apenas a impressão que aquela fala causou em quem quis “espelhar”. Parece singelo, mas é muito intenso, e acredito que tem o potencial de mudar a vida de algumas das pessoas que participam. As trocas têm ficado mais profundas, à medida que nos conhecemos melhor e conseguimos alguma intimidade. Algumas somos mais participativas, outras mais tímidas, mas o envolvimento tem sido crescente. Voltando ao que me motivou a participar – a luta incessante que tenho travado para me autoconhecer, entender minhas motivações, níveis de tolerância e decepções em série com meu país e com pessoas (algumas muito próximas) -, esse espaço tem sido um alento, uma rede de proteção contra a solidão. Minha busca me levou também para outros caminhos, que incluem terapia, aproximação com a literatura – como leitora e escritora -, e estudo, muito estudo. Tenho dito aos próximos que sou hoje uma pessoa diferente, menos otimista, mais seletiva, porém, com uma autoestima bem mais elevada. O TODAS é parte dessa mudança.

Com os incas, aprendi que distopias acontecem

Sempre quis conhecer Machu Picchu pela incrível beleza da cidadela, mas pouco sabia do império inca, além do fato de ter se estendido por grande parte da costa oeste do continente sul-americano e ter desaparecido com a chegada dos espanhóis. Descobrir que o Peru é um país inca – ou pelo menos o estado de Cusco com certeza o é -, foi uma surpresa. Encontrei uma população preocupada em recuperar todos os aspectos de sua cultura usurpada há 500 anos pelos conquistadores europeus e rever cada pedacinho de sua história. Machu Picchu, a joia que os espanhóis não acharam. O que ouvi de guias, motoristas, vendedores, artesão, garçons e todas as pessoas com que tive contato é uma versão ainda impensável no Brasil, país onde seus habitantes originais foram praticamente exterminados e os poucos que resistiram ainda precisam lutar por seu reconhecimento e, no momento, por garantia de vida. Lá, a população majoritariamente de descendência índia tem mais facilidade em se identificar com aquela terra e enxergar os efeitos da colonização. No Peru, cada ruína encontrada – algumas recentemente – e seus diversos museus vêm escancarando uma civilização milenar, formada por uma sucessão de povos nativos, que foi se aperfeiçoando ao longo do tempo, a partir de tecnologia e beleza, e chegou ao auge justamente cerca de 200 anos antes dos espanhóis aportarem por lá, com o domínio inca. Nesse curto espaço de tempo, construíram cidades lindas e funcionais, cortaram o império de estradas, desenvolveram uma agricultura poderosa. Mais da metade do que comemos hoje vem de lá. Aliás, sem as plantas domesticadas e desenvolvidas pelos povos americanos, não teríamos tido revolução industrial. A grande pergunta, cuja resposta é cheia de versões, é como esse povo, que contava na época da invasão com uma população de 12 milhões de pessoas, foi tão facilmente subjugado por um punhado de espanhóis selvagens atrás principalmente de metais preciosos? Colaborou para isso o fato de, na época, o imperador anterior ter dividido o império em dois para contemplar seus dois filhos. Como um deles não se conformou, estavam em uma guerra fraticida e não deram muita bola, em um primeiro momento, para os estranhos que chegaram. Como ouro e prata não tinham valor econômico para os incas, não identificaram perigo no interesse excessivo dos visitantes por ele. Também não tinham o costume, pelo que percebi, de destruir a cultura dos povos que conquistavam, mas agregá-las. Por isso não esperavam que os recém-chegados quisessem exterminar tudo o que construíram. Some-se a isso o fato dos espanhóis terem armas de fogo, cavalos e terem passado 400 anos desenvolvendo estratégias para expulsar seus invasores locais (os árabes) e de terem desembarcado com uma miríade de doenças nunca vistas no novo continente, e começamos a ter uma ideia do que aconteceu. O que me ficou dessa história ainda por ser totalmente desvendada é que a humanidade não anda para frente e o que se tem pode ser perdido em um piscar de olhos e, às vezes, sem muita explicação. Para ajudar, levei para ler na viagem, inadvertidamente, o romance Senhor das Moscas, de William Golding. Nele, um avião com um bando de meninos ingleses, entre os seis e os doze anos, que estava sendo levado não se sabe para onde durante a Segunda Guerra, cai em uma ilha tropical e eles ficam ali por sua própria conta (possivelmente, o piloto morreu). A partir daí, o autor mostra como, em um período que deve ter sido de alguns meses, eles vão da colaboração inicial, para disputas de poder até cair na selvageria total. Dos únicos três garotos que parecem perceber o que está acontecendo, dois são assassinados pelos demais e o último só não o foi porque, no último minuto, são encontrados por um navio. Isso depois dos meninos, para encontrar o fugitivo (cujo crime era querer que mantivessem uma fogueira para serem achados), terem colocado fogo em toda a ilha para encontrá-lo, possivelmente acabando com as árvores frutíferas que até então os alimentara. Voltar para a casa e ao noticiário rotineiro depois dessas experiências não me trouxe uma boa sensação, embora tenha me ajudado a entender o que parece ser um transe coletivo que se apossou da maior parte dos brasileiros, que aceita passivamente (ou festivamente) o desmonte de tudo o que tínhamos de civilizado. Tanto a saga dos incas como a dos meninos de Golding me mostraram que distopias acontecem na ficção, mas também na vida real.

Amianto deveria ser discussão encerrada

Deixei o pudor de lado e assumo meu lado chata de galocha. Em um mundo cada vez mais idiotizado, onde quem olha o copo meio vazio é destinado à marginalização, estou me encaminhando pra lá. Me desculpem os felizes de plantão, mas o copo do Brasil está meio vazio e está furado. São tantos os absurdos e retrocessos, que ficar colecionando limões para fazer limonada vai acabar afogando todo mundo. Dos descalabros mais óbvios, do tipo armar a população e deixar criancinhas a voar soltas nos carros, todos os neopoderosos tiram da cartola pacotes de maldades menos populares, mas também nocivos, que podem passar desapercebidos no tsunami de incêndios que a sociedade civil organizada – ou, em bom português, que pensa – tem que apagar. Fibra de amianto: imagina ela no seu pulmão! Uma desses pacotes, que parecem não morrer nunca, é a volta da discussão para a liberação da produção de amianto, encabeçada por políticos de Goiás, onde fica a mina finalmente fechada em 2017, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a produção, comercialização e uso desse minério cancerígeno no Brasil. Esse é um assunto que me toca, por ter acompanhado, como repórter da Agência Estado, no início dos anos 2000, a luta dos doentes e familiares dos mortos em consequência desse produto nefasto para que fosse banido do país. Na época, a causa dessas pessoas foi abraçada pela auditora-fiscal do Trabalho Fernanda Giannase, que comprou a briga e, por conta de seu trabalho destemido – chegou a receber ameaças inclusive envolvendo seus familiares – já recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Naquele iniciozinho de século, a luta era para proibir o amianto estado a estado, já que a proibição nacional era quase impossível. Hoje, os defensores, pelo que vi dando uma pesquisada, pois não acompanhei mais o assunto, visam ao mercado asiático – maior consumidor de amianto atualmente, já que na Europa e em boa parte dos países ele é proibido. E por que é proibido? Porque causa uma diversidade de doenças para quem o aspira, entre elas asbestose, placas pleurais, mesotelioma e câncer de pulmão. E aí está o cinismo de seus defensores. Enquanto está inerte em caixas d’água, como revestimento de paredes ou em telhas, ele realmente não faz mal. Todos os doentes que entrevistei se contaminaram nas minas ou eram familiares de mineiros. Seu pó é tão nocivo que adoece até quem simplesmente lava uma roupa suja com ele. Controlar o descarte de todo o amianto que já foi usado já me parece um desafio imenso. Para completar, nesta época onde mentiras e fatos se misturam com desfaçatez, se publica (https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/entenda-porque-senadores-lutam-para-liberar-o-amianto-no-brasil/) sem questionar o depoimento, por exemplo, do senador Vanderlei Cardoso (PP-GO) dizendo este absurdo: “Eu já tenho 56 anos de idade e tomo água de caixa d´água, desde criança, de amianto. Morei muito tempo debaixo de telha de amianto e nunca tive problema”. Eu também!!! Esse senhor saber muito bem qual é o problema real desse minério, que pode ser facilmente substituído por outros materiais em rigorosamente tudo para o qual é utilizado. Um exemplo pungente dos riscos envolvidos no uso do amianto é o World Trade Center de Nova York, derrubado no 11 de setembro de 2001. Nessa época, como eu cobria o tema, me ligaram para contar que grande parte do pó liberado pela queda dos prédios derrubados pelos terroristas era de amianto, que revestia todas as paredes do complexo, ironicamente para proteger contra o fogo. Cheguei até a fazer uma nota sobre isso, que se perdeu diante daquela tragédia sem tamanho. Mas eis que, algum tempo depois, vemos manchetes como esta: “Pulverização do WTC liberou substâncias nocivas em Manhattan; mais policiais morreram por poeira do que diretamente nos ataques”. Em 2011, Jerry J. Borg, que morreu em 15 de dezembro de 2010 depois de adoecer por conta da inalação do amianto liberado na queda das torres, foi reconhecido como a vítima 2.753 dos ataques. Bem, para os que acham que é pouco para proibir que se crie alguns empregos e alguns pouquíssimos ganhem muito dinheiro, só tenho a lamentar. Sou mesmo chata de galocha.