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PaulistanaSP

Cidade de São Paulo aprova política de segurança hídrica

O momento político é tão desalentador que, quando temos uma boa notícia, dá até medo de comentar e alguém da turma dos neoempoderados da brigada do “vamos acabar com tudo que há de civilizado no país” se entusiasmar e pegar mais uma causa para detonar. Ainda mais na Semana do Meio Ambiente – por isso vamos nos benzer antes. Mas o fato é que, na última sexta-feira (31/5), a prefeitura de São Paulo sancionou a lei que institui a Política Municipal de Segurança Hídrica. Rio Pinheiros, aquele eternamente na fila de despoluição. Tudo bem que é, ainda, apenas um documento, mas sinaliza em uma direção de avanço significativo. E é resultado de uma iniciativa da sociedade: a campanha Vote pela Água, da Aliança da Água, lançada durante a eleição municipal de 2016. Para quem não sabe ou não se lembra, a Aliança foi formada durante a crise da água de 2014, quando a cidade de São Paulo quase entrou em colapso de abastecimento por conta da seca severa, que praticamente zerou a capacidade de armazenamento do Sistema Cantareira, principal manancial da metrópole. Na época, um grupo de organizações e pessoas se juntou para tentar encontrar alternativas e mobilizar a população para a importância de se adotar uma postura de cuidado com água de forma sistêmica e integrada, capaz de garantir proteção à população sobretudo em situações extremas, de secas e enchentes, que têm se tornado cada vez mais constantes com a mudança do clima. Apenas um parênteses: mudar os “termostatos” de lugar não está entre as medidas sugeridas. A capacidade de engajamento da Aliança da Água, que somou iniciativas de inúmeras entidades associadas a ela, foi fundamental para que São Paulo enfrentasse o perigo iminente e seu sucesso garantiu a continuidade da mobilização. Um de seus resultados foi uma proposta de projeto de lei que embute um conceito, relativamente novo, de segurança hídrica. O uso desse termo vem crescendo nos últimos anos, impulsionado, entre outros fatores, pela declaração da ONU, em 2010, do acesso à água e ao saneamento como direito humano. A conceito de segurança hídrica, presente na nova lei, compreende três dimensões que devem ser pensadas na gestão da água: social (direito à água e ao saneamento); econômico (uso de bem comum, insumo para atividades econômicas); ambiental (limites naturais, esgotamento de recursos, eventos climáticos extremos e menos previsibilidade). À administração municipal, ainda podemos dar o crédito de ter acrescendo à proposta da Aliança a criação de uma instância específica para tratar as questões que têm relação com a água, o que será fundamental na integração das políticas e ações relacionadas ao tema. Além disso, a lei prevê maior participação do município na gestão e planejamento dos serviços de saneamento (água, esgoto, drenagem e resíduos) e a construção, de forma participativa, de indicadores de segurança hídrica. Um dos resultados práticos que podem vir da nova legislação é São Paulo, a cidade, liderar o processo de recuperação do Rio Pinheiros, que está quase inteiro dentro do município. Importante salientar que essa é uma política inédita, que poderá inspirar outras cidades a fazer o mesmo. À sociedade mobilizada, cabe agora cobrar e participar da regulamentação da lei e da sua implantação.

Mulheres poderosas

Valorizar o protagonismo feminino sempre esteve na minha pauta, mas ultimamente tornou-se uma obsessão. Enquanto a atuação feminina não for fortemente valorizada para além dos limites do lar, o risco da sociedade embarcar em retrocessos bancados por machos inconformados em perder privilégios ou por mulheres que veem Jesus na goiabeira ou têm outros problemas que as impede de ter sororidade – não consigo entender o motivo – são grandes. Nem sei ao certo o que posso fazer nesse sentido, mas o primeiro passo é conhecer e divulgar, dentro das minhas possibilidades, o trabalho de mulheres que estão fazendo diferença nesta nossa combalida sociedade. Há um mês participo do Todas – Círculo de Confiança entre Mulheres, no qual tenho conhecido mulheres muito interessantes e decididas a compartilhar suas experiências. Nos últimos dias, também tive o privilégio de presenciar alguns eventos que me deixaram otimista não apenas sobre o quanto as mulheres têm feito – já que acredito que sempre fizeram -, mas o quanto estão conscientes da importância que sua atuação têm para todas as demais. Um deles foi a primeira conferência da temporada 2019 da iniciativa Fronteiras do Pensamento, que trouxe a moçambicana Graça Machel. Esposa de dois dos mais importantes presidentes africanos da história, de países diferentes, ela nunca se colocou em suas sombras, sendo uma das mais importantes políticas e ativistas daquele continente, com um trabalho reconhecido mundialmente em favor da infância e das mulheres. Incrível o simbolismo de ver aquela mulher africana, negra e poderosa falando sobre o respeito pela dignidade humana para aquela plateia, como sempre, lotada de brasileiros brancos de classe média alta. Difícil apenas saber se mais alguém ali se sentia tão constrangida quanto eu com a situação, em um país com 50% de população negra. Machel fez faculdade em Portugal e, de volta a seu país, lutou com a Frente de Libertação de Moçambique durante a Luta Armada da Libertação Nacional. Em 1976, casou-se com Samora Machel, o primeiro presidente do país, e participou do governo como ministra da Educação e Cultura por 14 anos. Continuou sua atuação política após a morte do marido, em 1986, e, em 1990, foi nomeada pela Organização das Nações Unidas para o Estudo do Impacto dos Conflitos Armados na Infância. Por esse trabalho, recebeu em 1995 a Medalha Nansen da ONU. Entre as suas condecorações estão o Prêmio Kora Lifetime Achievement, o World Prize for Integrated Development e a WHO Gold Medal, mais alta honraria da Organização Mundial de Saúde.  Em 1998, casou-se com Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da África do Sul, de quem é hoje viúva. Defensora da valorização das comunidades, em 2010, fundou a Graça Machel Trust, organização que auxilia mulheres empreendedoras no continente africano. Também integra o The Elders, grupo que reúne grandes líderes globais. Aos brasileiros que procuram os sentidos da vida, tema das conferências neste ano, Graça aconselhou cuidar da infância, sobretudo garantindo para as crianças um mundo melhor, com menos desigualdades raciais e de gênero, e um meio ambiente saudável. Feminismo no meio ambiente Érika Guimarães no Viva a Mata. Outra grata surpresa foi um dos eventos programados pela SOS Mata Atlântica para o Viva a Mata, ciclo de atividades que marcam o mês da Mata Atlântica. Pela primeira vez, nestes muitos anos de ativismo ambiental, vi um evento voltado a ressaltar o protagonismo feminino. Cinco convidadas contaram suas experiências que vão muito além do trabalho, mas estendem-se pela maneira com que levam suas vidas, buscando o bem-viver não apenas na sustentabilidade, mas também na valorização de seu lugar de fala feminino. A apresentadora Fernanda Cortez, criadora da plataforma Menos 1 Lixo e defensora da ONU Meio Ambiente Brasil na Campanha Mares Limpos, contou como sua inquietação com a indústria da moda, área em que atuava, a levou a uma mudança profissional e a fazer da sustentabilidade um estilo de vida. A socióloga Luciana Sonck, fundadora da Projeto 225, empresa de consultoria na área de desafios socioambientais e políticas públicas, e criadora da Butique Sustentável, iniciativa de reeducação no consumo de moda, defendeu que, embora a agenda ambiental seja mais do que um agenda feminista, mas uma agenda pela vida, a questão de gênero precisa ser ressaltada, já que 70% dos que sofrem com problemas ambientais são mulheres e meninas. A arquiteta e urbanista Luciana Travassos, professora da Universidade Federal do ABC e doutora em Ciência Ambiental, contou que passou a perceber a importância da presença feminina nas lutas ambientais trabalhando em campo, em projetos ligados às desigualdades espaciais e rios urbanos, ao ver que a maior parte de quem atua nas questões coletivas são mulheres. Mariana Belmont, jornalista e ativista política, integrante do movimento Ocupa Política – parceirona também na Aliança da Água – também ressaltou, a partir da experiência de quem nasceu em Parelheiros, no extremo da cidade de São Paulo, que os movimentos por moradia, ambiental e negro são puxados por mulheres. Mas também mostrou a importância de se olhar a cidade a partir da periferia e não apenas dos centros elitizados. A fotógrafa Marina Klink contou como transformou sua relação com a natureza, a partir de viagens a locais remotos do planeta, em nova profissão – abandonou a produção de eventos para se tornar fotógrafa e palestrante –, tornando seu trabalho uma causa que mobiliza toda a sua família, que incluí três filhas e o marido famoso, o navegador Amyr Klink. O mais bacana dessa conversa, que foi capitaneada pela bióloga Érika Guimarães, coordenadora de áreas protegidas da SOS Mata Atlântica e supermilitante de causas feministas, foi ver que o evento estava cheio de mulheres jovens e questionadoras, preocupadas em garantir o protagonismo feminino, mas também que esse protagonismo tenha diversidade racial e social. Continuarei a abordar o tema…

Desci do salto

Ganhei minha primeira sandália de salto alto aos 14 anos para o casamento de uma prima. Foi amor à primeira vista. Eu e os saltos altos sempre nos complementamos. Ele, exercendo seu poder sobre mim, obrigando que me equilibrasse em seu cume, e eu fazendo dele uma muleta contra minha insegurança e falta de altura. A eficácia sempre foi duvidosa, já que a alcunha de baixinha nunca me abandonou, ao contrário, virou minha marca registrada. De acessório para festas, rapidamente os saltos altos começaram a ganhar meu dia a dia e, já aos 17 anos, lembro de vibrar quando lançaram um tênis com salto. Me afeiçoei tanto ao modelo, que cheguei a deprimir quando a moda, tão desconfortável quando a média dos anos 1980, se evaporou como chegou. Ter um trabalho agitado, que me obriga ir de um lugar ao outro constantemente, nunca me intimidou. Aos poucos, os sapatos de salto alto foram dominando meu guarda-roupa, cada vez maiores, cada vez mais finos. Os anabelas e as plataformas tornaram-se minhas rasteirinhas, para ocasiões informais. Chegou ao ponto de até meus havaianas serem altos – tenho amigas que se divertem com isso até hoje. O fato de minhas panturrilhas terem ficado encurtadas e minha postura projetada pra frente tampouco me incomodou. A solução que encontrei, quando um ortopedista me alertou para o fato, foi não voltar mais lá. Quando passei a ter episódios de exaustão em grandes caminhadas, como em viagens em que era obrigada a colocar tênis ou sapatos baixos, um sinal de alerta se acendeu, mas preferi passar a levar calçados mais altos para revezar e descansar pés e pernas. Sempre me orgulhei de dançar uma noite inteira com salto agulha e terminar a noitada pleníssima. Jamais me rendi ao chinelinho no meio da festa, cultivando um certo desprezo para as fracas que preferiam até se arriscar ficando descalças. Além de manter uma indignação genuína pela ironia do destino, que privilegia as altas até nessas ocasiões. Nos dias normais, saltitam em sapatos baixinhos e continuam maiores do que eu. Nas festas, por calçarem sapatos maiores, podem se dar ao luxo de saltos altíssimos, tipo 15 centímetros, enquanto eu, com míseros pés 34, simplesmente não andaria com nada maior do que 12. Mas depois de 40 anos de convívio, nossa relação se desgastou. Percebi que estar nas alturas estava limitando minha vida quando passei a sentir uma vontade cada vez maior de caminhar e me locomover sem carro. Botinhas e sandálias com pouco salto definitivamente combinam mais com as calçadas íngremes, tortas e esburacadas do meu bairro, ou da minha cidade. Meus novos preferidos. Não foi de repente nem litigiosamente, mas comecei a achar que tênis combinavam mais com o tipo de roupa que passei a gostar de vestir e os caminhos que escolhi percorrer. Radical em mais aspectos do que gostaria, neste tenho sido leve, vou aos poucos. Substituo os saltos agulhas à medida que renovo meus sapatos. O processo é lento porque também resolvi comprar menos, só o necessário. Às vezes, sinto saudade e me elevo alguns centímetros sem culpa. Mas estou ficando seletiva. O futuro desse relacionamento só o tempo dirá.

Uma louca sem medo de divertir com ótimas reflexões

A Louca da Casa, da escritora espanhola Rosa Montero, é um livro difícil de definir e delicioso de ler. Parece ser um romance autobiográfico, porém não é bem isso. Pode ser também um ensaio, mas qual é o tema? Literatura, feminismo, criatividade? Tudo isso e mais um pouco. E muito humor, que nos transforma nas “loucas do livro” ao nos brindar com diferentes versões sobre um mesmo acontecimento, ligado a um romance de juventude com um famoso ator de Hollywood. Lembrei da sensação de ler Tia Julia e o Escrevinhador, de Mario Vargas Llosa. Não deve ser à toa que o elogio do grande escritor à obra esteja na capa do livro, editado pela Harper Collins. A obra foi o tema da reunião mensal do nosso Círculo Feminino de Leitura (CFL) e nos arrebatou com a originalidade com que trata de temas que nos são caros. CFL com A Louca da Casa. Seja quando conta suas estripulias juvenis ou quando divaga sobre as motivações e agruras da vida de romancista, nos oferecendo casos (estes, garante, sempre verdadeiros) de autores conhecidos, Rosa traz discussões profundas sobre o que move o escritor e a condição feminina. Sobre esta última, começa lembrando que não é uma futilidade o fato de que, quando todos os homens escrevem “homem”, mulheres têm que aprender a ler também “mulher”. O papel da mulher na literatura é um dos temas centrais da obra. Montero lembra que, “embora as coisas tenham melhorado muito, o feminino continua sendo o lado escuro da lua”. Conta sobre um livro de Paul Theroux, no qual compara irmãos escritores e se esquece de citar que os mais célebres dessa categoria são irmãs, as Bronté, que nem eram duas, mas três. E exorta os leitores homens a se identificarem com as protagonistas mulheres, “da mesma maneira que nós nos identificamos com os protagonistas masculinos”, ressaltando que “essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais sábios e livres”. Mesmo que só tenha mencionado a palavra feminista uma vez, para dizer que, embora seja pouco precisa, resume séculos de lutas para mudar “uma situação aberrante”, garante que a usa com orgulho. E todo o seu texto comprova isso. Discordo sutilmente apenas quando Montero critica mulheres que estudam a produção literária feminina como “cultura feminina”, que pode não ser um conceito universal, mas existe. A própria autora reconhece isso quando lembra que muitas obras antigas anônimas possivelmente têm por traz uma escritora que não podia se revelar (outras usaram pseudônimos masculinos) e afirma que “a mulher criadora foi levada a mimetizar o olhar masculino”. Oras, se há um olhar masculino, também há um feminino. E Rosa parece saber muito bem disso, ao divagar que, se homens menstruassem, a literatura “estaria cheia de metáforas do sangue”, que estão à espera de serem criadas pelas escritoras finalmente libertas. Um dos capítulos mais saborosos, porém, trata das mulheres de escritores, no qual é impossível não lembrar de Glenn Close, no filme A Esposa. Coadjuvantes que faziam tudo por seus reconhecidos maridos, na maior parte das vezes, acabaram com má fama. Entre os exemplos, Mercedes, mulher de Garcia Márquez, conhecida como “a leoa que o guarda”. Ou Fanny Vandegrift, mulher de Robert Louis Stevenson (autor de A ilha do tesouro e O médico e o monstro), cuja reputação era de “velha bruxa”. No entanto, além de cuidar de sua carreira, sabe-se que reescreveu suas obras mais famosas. Quando viúva, casou-se, aos 23 anos, com “um rapaz esperto e bonito de 23 anos”, com o qual viveu por onze anos até sua morte. Ou seja, ser chamada de bruxa tem mais a ver com o machismo histórico contra a mulher. O exemplo mais saboroso, porém, é o de Sonia Tolstoi que, segundo Montero, aguentou por 48 anos o “energúmeno” do Leon Tolstoi, passando a limpo todos os seus escritos e convivendo com suas depressões e delírios, que o transformaram em guru que pregava a abstinência sexual e a pobreza absoluta, sem deixar de engravidar a mulher ou abrir mão da vida confortável em sua fazenda. No entanto, a fama de maluca ficou com Sonia, que reclamava que o marido só dava ouvidos a Tchertkov, um jovem com quem, ao que tudo indica, teve um relacionamento, no mínimo, platônico. Com a morte do escritor, Sonia “deixou de ser louca”, administrou a fazenda da família, escreveu suas memórias e ainda processou Tcheftkov para recuperar a propriedade dos papéis de Tolstoi – e ganhou. Mas esse é apenas um dos recortes do livro, que discute fundamentalmente o processo de criação do escritor, seus medos, vaidades, compulsões, criatividade e contradições. Sobre estas últimas, Rosa lembra que Zola, que me deixou com febre quando li Germinal pela crueza de sua denúncia ao capitalismo, se recusou a assinar um manifesto de apoio a Oscar Wilde, condenado a dois anos de cadeia só por ser homossexual. Ou Victor Klemperer, judeu alemão célebre pela sua reflexão sobre a linguagem do Terceiro Reich de Hitler, do qual foi vítima, mostrando como “as palavras, quando mentem lambuzadas de sentimentalismo, podem ser letais como as balas de um assassino”, tornando todos os totalitarismos parecidos, também escreveu, antes da guerra: “uma civilização tão clara e tão grande não encontrei na Espanha em lugar nenhum. Aqui na Itália, o Renascimento continua vivo, aqui ele está livre de qualquer mistura africana. Aqui reina o fascismo? E o que importa isso? A Itália é um país de cultura, é o berço da cultura europeia e essa cultura vive; a Espanha, pelo contrário, pouco tem a ver com a Europa”. Ou seja, se não tivesse vivido na pele os horrores do nazismo, será que teria se preocupado em denunciar seus horrores? Com muita leveza, a autora nos mostra que os escritores não precisam ser coerentes, e na maior parte das vezes não o são, já que o pensamento racional e a consciência do eu destroçam a criatividade. Para ela, ser um romancista é não ter medo de visitar todos os mundos possíveis e alguns impossíveis. Não são,

Descobrindo o Parque Vila Madalena

Domingo passado achei na internet toda uma programação, que incluía várias apresentações musicais, em um Festival do Parque Vila Madalena. Fiquei bastante curiosa, pois sou moradora do bairro há mais de 20 anos e não conhecia tal lugar. Ao olhar a localização, vi que se tratava da região do entorno do Beco do Batman, aqui do lado de casa. Corri pra lá. Grafites são a grande atração no local. Conheço todo aquele pedaço, inclusive o beco, pelo qual cortava caminho quando podia passar carro. E mesmo assim comemorei quando o trânsito foi proibido ali. Mas nunca tinha ido passear por lá em um domingo. Podem me chamar de tonta. Pois que me surpreendi e fiquei encantada com o que encontrei. Toda aquela baixada, entre a Harmonia, a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta, tomada de gente curtindo uma variedade de atividades, incluindo brincadeiras para crianças, uma feirinha com produtos descolados, vários bares e restaurantes, que conhecia a existência, mas não as cadeirinhas de praia espalhadas pela rua e os vários shows acontecendo por todos os lados. Sem falar das esperadas milhares de selfies sendo produzidas com os grafites ao fundo. Uma googlada rápida me mostrou que, no início desta década, houve um projeto, parceria entre a ONG Projeto Aprendiz e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, para criar um parque linear na região. Para quem não sabe, esse tipo de parque margeia um rio ou um córrego, com o objetivo de preservar suas margens. A ideia aqui era melhorar o escoamento de água na Vila Madalena, mas infelizmente não saiu do papel. O projeto começaria por desenterrar a nascente do Córrego Verde, uma pequena queda d’água que um dia existiu perto da estação Vila Madalena do Metrô, criaria praças e mirantes até chegar na área de 60 mil metros quadrados, que tem o Beco do Batman como centro. Todo canalizado, esse córrego é o causador (coitado) das indefectíveis enchentes que acontecem ali mesmo, na baixada onde fica o Beco do Batman, que, pelo menos uma vez por ano, são manchete em algum jornal mostrando a escultura formada pelo empilhamento de carros carregados pela água. Uma vez, há uns 15 anos, quando havia uma pizzaria bem no comecinho da Harmonia, fomos surpreendidos por uma dessas. Em quinze minutos se formou a pilha de carros – o do meu primo entre eles. Corremos ao mezanino para proteger nossas crianças, depois que a água invadiu o restaurante, e ficamos assistindo ao espetáculo bizarro que acontecia na rua. A água baixou em menos de meia hora. Tive sorte. Meu carro foi levado às pressas pelos manobristas para um lugar mais alto e encontrado intacto horas depois. Tudo isso para dizer que desenterrar o córrego, criando espaços verdes e sem ocupações permanentes, compõem a melhor solução para evitar sustos e prejuízos como esses. Aproveitar que o espaço já é espontaneamente usado como local de passeio é uma oportunidade tão grande, que apenas a tradicional miopia dos gestores municipais justifica ainda não termos, oficialmente, um parque por lá. Se não há na legislação, tampouco deve ser impossível criar um modelo de área especial e protegida sem desapropriações que prejudiquem toda a cadeia de economia criativa que circula por ali, mas que impeça mais adensamento, que piore ainda mais os alagamentos, e crie novas áreas verdes, por onde o córrego possa fluir e se espalhar quando necessário. Área do Parque Vila Madalena, segundo o site Catraca Livre.

Sanear é preciso

Se tem uma coisa que nunca teve investimento massivo no país é o saneamento básico. Isso diz muito sobre a falta de consciência sobre direitos que afeta nossa população. O brasileiro aceita facilmente a ladainha política de que nossa defasagem é tão grande que não pode ser solucionada e acaba achando natural conviver com rios que são esgotos, mares cheios de resíduos, populações inteiras vivendo ao longo de córregos infectos e no meio do lixo. Com isso, fica fácil acreditar na ideia de grandeza baseada em destruição de florestas, mineração em qualquer lugar e de qualquer jeito, produção agrícola a base de todo tipo de agrotóxico em quantidades astronômicas. Já que estamos condenados a viver na porquice, que ela seja ilimitada. Legenda dispensável. A Lei Federal do Saneamento Básico (Lei no 11.445/07) completou doze anos no início deste ano sem que a universalização desse serviço público esteja sequer próxima no Brasil. No final da segunda década do século 21, mais de 35 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água tratada; menos da metade dos brasileiros possui acesso à coleta de esgotos e somente 42,67% dos esgotos coletados no país são tratados, conforme o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (2015). O problema é que saneamento básico tem ligação direta com a saúde e a qualidade de vida do cidadão, e sua falta, além de aprofundar a desigualdade social e ferir a dignidade da pessoa humana, é um impedimento a um maior desenvolvimento econômico do país. Atualmente, o Brasil ocupa a 72ª posição no Relatório Global de Competitividade do Fórum Econômico Mundial, o que é um absurdo levando em consideração o tamanho econômico do país. Impossível não incluir a falta de saneamento básico como um dos motivos que levam a esse resultado. Lembrando, ainda, que, além dos serviços de abastecimento de água potável e coleta, tratamento e disposição final dos esgotos sanitários, também fazem parte do saneamento básico a drenagem e manejo das águas pluviais urbanas, a limpeza urbana e o manejo dos resíduos sólidos. Ou seja, se computarmos todos os prejuízos anuais no Brasil com enchentes, por exemplo, que atingem não apenas as grandes cidades, vemos que o que parece caro, pode ser muito lucrativo para o cidadão e o país. Embora assunto seja sempre relegado a quase nada nas discussões eleitorais, quem tiver curiosidade de saber a quantas anda o saneamento na sua cidade – quem sabe isso o motive e pensar nisso na hora de escolher candidatos no próximo ano para a administração municipal -, o Instituto Trata Brasil lançou neste mês o portal PainelSaneamento Brasil, com indicadores sobre a situação do saneamento das 200 maiores cidades do país. A ideia, porém, é incluir os 839 municípios com população acima de 50 mil habitantes. Nele, o interessado tem acesso fácil a dados relacionados a municípios, estados e regiões metropolitanas, comparando dados de saneamento a indicadores de saúde e renda, educação, valorização imobiliária, impactos ao turismo, entre outros. Conferi os dados sobre a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), a segunda mais rica do país (só perde para o Distrito Federal), com renda média de R$ 3.350,00, e descobri que 1,3% da sua população de mais de 21 milhões de pessoas não conta com acesso a água tratada (283.122 pessoas) e 9,7% (mais de 2 milhões) sequer têm coleta de esgoto. O incide de esgoto tratado não chega à metade (48,5%). Parece ruim, e de fato é (basta dar uma passadinha nas marginais Tietê e Pinheiros e dar uma olhada em seus dois principais rios para não deixar dúvida). Segundo o portal, em 2017, houve na RMSP 6.017 internações causadas por doenças de veiculação hídrica, entre os quais 139 morreram. Os dados mostram também como a falta de saneamento e mais um reforço na indigna desigualdade do país: Enquanto a renda das pessoas com coleta de esgoto é de R$ 3.414,00, as que não contam com o serviço é de R$ 2.154,00; a escolaridade é de 10,26 anos de educação formal para quem têm saneamento para 8,86 anos para os que não têm; o aluguel médio das morarias saneadas é de R$ 1.051,00, contra R$ 377.00 nas demais. E veja que, comparada à maior parte do país, São Paulo está bem na fita.  

Quero teletransporte

Se houvesse teletransporte, poderíamos chegar a alguns locais rapidamente, mas este não é o meu ponto. A questão aqui é poder chegar ao local desejado sem ter que ver o que não deveria existir e, existindo, incomoda muito. Complexo Cultura Julio Prestes, São Paulo. Por exemplo, se houvesse teletransporte, eu poderia ir assistir a um concerto na Sala São Paulo sem ter que presenciar a escuridão e a sujeira que permeiam aquela parte da cidade, onde seres desvalidos vagueiam saqueando o lixo, fumando craque, vivendo (ou tentando sobreviver) embaixo de marquises (os sortudos) ou encostados em muros, enquanto outros (um pouco menos desprivilegiados) correm de um lado para o outro em estado de superatenção, torcendo para chegar ao destino sãos e salvos. Caso isso fosse possível, talvez eu não percebesse, por contraste, que praticamente todos os que estão nessa situação que não deveria ser vista são negros, enquanto os do lado de dentro do teatro (tirando alguns gatos pingados) são brancos, incluindo todos os músicos que se apresentavam. O teletransporte faria com que eu tirasse muito mais prazer de estar na fila do gargarejo ouvindo O Guarani e As Bachianas Brasileiras e só pensasse em como os brasileiros, dos compositores Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos ao maestro e toda a orquestra, são talentosos. Sem o teletransporte, eu e meus pares da plateia nem cogitamos ir ao concerto de metrô, como muitos fazem orgulhosamente quando estão em Nova York ou Londres para esse tipo de programa, mas contamos com um vasto estacionamento e um serviço de táxi que se pede do lado de dentro do prédio, para não corrermos o risco de ficar mais tempo do que o mínimo necessário do lado de fora. A falta do teletransporte é culpada por, ao invés de me concentrar em olhar como a Estação Julio Prestes era luxuosa e cheia de promessas de progresso, que propiciou abrigar um complexo cultural tão bonito, passar meu tempo pensando se as pessoas ao meu lado viram o mesmo que eu ou os vidros escuros dos automóveis as pouparam desse desgosto. Ou, ainda, ficar pensando quantos deles ainda se chocam com a tristeza da desigualdade suprema da nossa sociedade e quais estão no grupo que só pensa em como manter seus privilégios, se possível contando com mais repressão e menos direitos básicos que joguem mais gente para o time de quase walking dead do lado de fora? Claro que a região da Luz não é o único lugar na metrópole a nos jogar na cara que sociedade ruim temos produzido. Os sinais estão tão escancarados que dificilmente o teletransporte minimizaria a sensação de autodesprezo e impotência com a qual tento seguir adiante.

O dote

O maior vexame da minha vida aconteceu durante uma audição de piano. Tocaria Escorregando, de Ernesto Nazareth, e Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. Mas quando entrei no palco, me sentei e olhei para as teclas, foi como se fosse fazer um discurso e na hora em que visse o texto a ser lido ele estivesse em mandarim. Era como se fosse a primeira vez que visse um piano, não sabia por onde começar. Tomada de pânico, consegui levantar, agradecer e sair totalmente perdida. Tinha 17 anos e estudava piano há nove. No camarim, fui recebida com abraços da atônita professora e das colegas, mas só conseguia chorar e me sentir miserável. Atendendo aos apelos de todas elas, ao final das apresentações, voltei ao palco e disparei a pior interpretação de Tico-tico no Fubá da história. Lembro de ter sido aplaudida, o que não me confortou. Meus pais, com a sensibilidade que lhes era característica, disseram que os fiz passar vergonha, me deixaram em casa com minhas lágrimas e foram comer pizza. Depois disso, minha relação com o piano, que era de um amor displicente, se desfez. Tinha acabado de passar no vestibular e o fracasso na apresentação só fez reforçar minha convicção da absoluta falta de talento para a música. Fui eu quem, aos oito anos, pediu para estudar piano e até então nunca tinha parado. Não era novata em audições, que aconteciam todo final de ano. Quase não faltava às aulas, mas sempre fui uma pessoa de múltiplos interesses. Tocar piano me fazia bem, mas nunca cogitei estudar as quatro horas diárias recomendadas por minha professora nem ir para o conservatório para me formar pianista. Era um hobby, e talvez a falta de entendimento disso tenha colaborado para esse fracasso de palco. Aquele ano em que terminei o segundo grau foi todo muito intenso e, como adolescente padrão, não abri mão de absolutamente nada. Estudava à noite para poder fazer cursinho durante o dia, mas também passava muitas tardes no clube (tudo bem, sempre carregava as apostilas comigo), tinha uma vida amorosa agitada e muitos amigos e programas para dar conta. E as aulas de piano. Minha mãe, que ouvia meus parcos momentos ensaiando as músicas da audição, chegou a sugerir que eu não participasse. Mas, como já disse, desistir de qualquer coisa não estava nos meus planos e não tive coragem de falar sobre isso com a professora, de quem gostava muito. Olha e piano lá atrás como porta porta-retratos. Levei muito tempo para superar esse trauma. Passaram-se anos até que conseguisse falar tranquilamente e outros tantos até que pudesse rir do acontecido. Ainda tentei continuar as aulas, mas perderam o encanto e a nova vida universitária foi uma desculpa convincente para parar de vez. Desde então, o piano Brasil que meus pais me deram – e que por tempo ouvi ter sido a coisa mais cara que compraram até aquele momento além da casa em que morávamos – virou peça de decoração. Mas nunca sequer cogitei me desfazer dele. Por conta da história sobre seu valor de compra, o piano virou uma piada particular entre mim e meu marido de que era o meu dote. E assim ele passou a ser tratado desde então. Como nosso primeiro apartamento mal nos cabia, o dote teve que esperar alguns anos. Na primeira mudança, nos custou a subida de onze andares (cobrados por andar) para ganhar seu lugar de honra na sala e alguns momentos de glória, pois meu marido se apaixonou pelo dote. Na segunda mudança, o pobre foi parcialmente desmontado para entrar no elevador. Mais tarde, com três crianças ocupando cada milímetro do apartamento, ganhar espaço se tornou um luxo maior do que um piano, e o dote foi para a chácara dos meus pais. Somente alguns anos depois, quando construímos nossa própria casa de campo, ele pode ganhar seu posto definitivo (pelo menos até agora). Nesses mais de trinta anos de peripécias, mantive sempre a esperança de um dia, quem sabe, voltar a tocar. Hoje, saí de casa e comprei algumas partituras. Será?

Sobre mérito e vitimização

Assisti ontem ao TEDx da incrível cientista e professora Joana Felix no qual conta sua trajetória de menina negra e pobre de Franca, interior de São Paulo, até o pós-doutorado em Harvard e o trabalho fantástico que conduz na Escola Técnica Estadual (ETEC) Professor Carmelino Corrêa Júnior, na sua cidade natal. Impossível não se emocionar com as experiências que ela conta sobre os resultados das pesquisas que realiza com seus alunos (também pobres e ainda no segundo grau) sempre voltadas para resolver algum problema concreto. Apesar dos 82 prêmios que ganhou – incluindo o Kurt Politizer de Tecnologia de “Pesquisadora do Ano”, em 2914 – Felix ressalta que seus maiores prêmios são os agradecimentos de pais que viram seus filhos trocarem a prostituição e o tráfico pela ciência. Claramente superdotada, a cientista alfabetizou-se sozinha aos quatro anos e, esta foi sua grande sorte, a façanha foi descoberta pela diretora de escola na casa de quem sua mãe trabalhava como empregada doméstica. Impressionada, pediu à mãe da menina se poderia levá-la à escola. Com uma trajetória impressionante, Joana iniciou sua vida acadêmica na Unicamp aos 14 anos e comove ao contar como venceu todas as dificuldades impostas por sua condição social e o preconceito racial que sofreu durante todo o percurso. Uma coisa, porém, me incomodou muito no seu depoimento. Várias vezes Felix ressalta que nunca se vitimizou e que é contra todo tipo de vitimização. Essa é uma narrativa utilizada hoje para justificar que não se tenham políticas especiais para populações marginalizadas ou para menosprezar movimentos feministas. Não combina com seu discurso de inclusão de jovens marginalizados em seus grupos de pesquisa e sua exortação para que se proporcione caminhos para que esses jovens tenham contato com a ciência. Lutar por oportunidades para quem sempre foi alijado delas está longe de ser vitimização. Voltando à pesquisa da Oxfam Brasil sobre desigualdades que mencionei na semana passada, continuo achando precisamos discutir mais as percepções sobre mérito na população. De acordo com a pesquisa, 58% dos brasieliros duvidam, mas 41% concordam que “uma pessoa de família pobre que trabalha muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito”. Há um empate técnico (51% contra e 49% a favor) sobre a afirmação de que “uma criança de família pobre que consegue estudar tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma criança nascida em uma família rica”. Consigo aceitar a hipocrisia sincera de privilegiados com que convivo que dizem acreditar em meritocracia (cada um defende o seu), mas é difícil entender esse pensamento no restante da população. Eles acham mesmo que os ricos o são porque trabalharam duro? Acham que os filhos dos ricos são todos superdotados como Joana Felix e que os seus não o são por isso não enriqueceram? Acreditam mesmo que frequentar uma escola mequetrefe, com falta de professores, de equipamentos (alguns básicos, como banheiros ou merenda decentes) dá as mesmas chances aos seus filhos do que as de crianças que frequentam ótimas escolas, curso de inglês, clubes, viagens etc.? Apresentação da Cia Sansacroma, do bairro Capão Redondo/SP, sobre desigualdades, durante apresentação da pesquisa da Rede Nossa São Paulo, no Sesc Pompeia. Essa percepção é ainda mais contraditória diante, por exemplo, de outros dados da pesquisa, indicando que 64% acreditam que mulheres ganham menos por serem mulheres, 52% que negros ganham menos por serem negros, 72% que a cor da pele influencia na decisão de contratação e 81% que ela influencia na abordagem policial, 71% que a justiça é mais dura com os negros e 81% que pobres negros sofrem mais do que pobres brancos. Infelizmente, a mim parece que apenas rezar ou se esforçar individualmente não tirará o Brasil dessa situação de extrema desigualdade. Sem políticas públicas consistentes, preocupadas com o bem comum e não com interesses privados bem delimitados, continuaremos nesse impasse eterno. Isso não tem nada a ver com vitimização. Cultura desigual Para exemplificar como a desigualdade se manifesta em todos os setores, uma outra pesquisa, lançada na semana passada pela Rede Nossa São Paulo, com realização do Ibope Inteligência, trouxe um panorama do acesso à cultura na cidade de São Paulo (isso mesmo, cultura, essa entidade que vem sendo demonizada, mal tratada e mal falada pelos poderosos da vez, sobretudo no governo federal, mas com ramificações consistentes também nas esferas locais). Dos 96 distritos da metrópole, 60 não possuem museus, 54 não têm cinemas, 53 não contam com centros culturais ou espaços de cultura, 52 não têm salas de show ou concertos, 42 não possuem teatros, 37 não têm acesso a livros para adultos e 36 a livros infanto-juvenis, e 23 não possuem equipamentos culturais públicos. Cinco distritos (Cidade Ademar, Marsilac, Ponte Rasa, Vila Matilde e Vila Medeiros) não possuem nenhum desses equipamentos. Desnecessário lembrar, mesmo para quem não conhece São Paulo, que os distritos mais carentes de cultura são os mais populosos e afastados do centro expandido da cidade. Um dos resultados concretos dessa distribuição desigual na oferta de cultura pode ser visto na frequência a atividades culturais nos últimos doze meses por faixas extremas de renda familiar mensal. Enquanto entre as pessoas das famílias com mais de cinco salários mínimos mensais 77% frequentaram cinema, nas de famílias com até dois salários mínimos foram 38%. Nas demais atividades, a discrepância se mantêm com: festas populares/de rua (41% entre os mais ricos, contra 29% entre os mais pobres), shows (47% contra 19%), centros culturas (41% contra 16%), bibliotecas (26% contra 14%), feiras de artesanato (48% contra 17%), teatro (30% contra 10%), museus (29% contra 10%). Quase três em cada 10 paulistanos (28% ou 2,7 milhões de pessoas) não frequentaram nenhuma atividade cultural nos últimos doze meses.

Brasileiro é iludido sobre desigualdade no país

Seminário de apresentação da pesquisa no Tucarena. O brasileiro tem noção de que reduzir as desigualdades entre ricos e pobres é uma necessidade para o progresso do país. Segundo pesquisa da Oxfam Brasil, realizada pelo Datafolha em fevereiro deste ano e divulgada na última terça-feira (9/4), essa ideia é corroborada por 72% das pessoas, com 14% concordando parcialmente e outros 12% discordando total ou parcialmente. No geral, porém, é uma população iludida e, talvez, se tivesse um pouco mais de noção da realidade, pensaria mais no assunto e colaboraria mais (individual e coletivamente) para melhorar essa situação. Vejamos. A pesquisa mostra que a maior parte dos brasileiros (53%) acredita que a linha de pobreza está entre R$ 700 e R$ 1.000, ou seja, próxima ao salário mínimo (outros 15% acham que essa linha está ainda acima desse valor). Assim, quando ouvem que há 15 milhões de pobres no Brasil, acham que não é tanta gente assim. Só que não. Esses 15 milhões de pessoas (números de 2017) são calculados pelo critério-base do Banco Mundial, que traça um rendimento de US$ 1,90 por pessoa/dia – algo em torno de R$ 210 por pessoa do domicílio ao mês. Se o critério percebido na pesquisa fosse levado em consideração, teríamos estatisticamente aproximadamente 83 milhões de pobres, perto de 40% da população abaixo da linha de pobreza. É só dar uma passadinha no supermercado, pegar um ônibus ou tentar arrumar um lugar para morar, para qualquer pessoa entender que a percepção do que é ser pobre não está errada. Errado está achar que não são tantos assim, sobretudo quando comparamos com a segunda grande ilusão: quem são os mais ricos. Quase metade dos brasileiros (49%) acredita que, para estar entre os 10% mais ricos do país é preciso ter uma renda maior do que R$ 20 mil por mês, quase cinco vezes mais do que a realidade. Ou seja, para estar no topo da pirâmide, em valores atuais, é preciso uma renda de R$ 4.290. Levando em consideração que nesses 10% mais ricos estão desde os remediados que contam com pouco mais de R$ 4 mil até os que ganham milhões de reais mensais, dá para entender porque, mesmo percebendo que há desigualdade no país, o brasileiro não tem muita noção de que o buraco é muito mais embaixo. Otimismo infantil Mas o brasileiro é um otimista! Mesmo que 85% se enxerguem na metade mais pobre da população, 70% acreditam que, dentro de cinco anos, estarão entre a “classe média” e a “classe média alta”. O bom é que, se aceitamos que essa expectativa é factível e se realizará, nossos problemas acabaram. Seremos um país rico. Porém, no entanto, todavia, 57% dos brasileiros não acreditam que a diferença entre os mais ricos e os mais pobres vai diminuir no Brasil nesse período. Ou seja, só eles vão enriquecer… Como? Um pista é a resposta à pergunta sobre o que é mais importante para melhorar de vida. A fé religiosa é considerada o fator mais importante, com peso de 28%. Depois disso, as prioridades são estudar mais (21%), ter acesso a atendimento de saúde (19%), crescer no trabalho (11%). Enfim, ganhar mais dinheiro só é prioridade para 8% (entre os mais pobres, esse índice cai para 7%). A pesquisa traz ainda outros dados interessantes que ficam para o próximo post.