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PaulistanaSP

Mulheres esquecidas da literatura brasileira

Constância Lima Duarte, Isabella Martino (mediadora) e Luiz Ruffato no debate da Biblioteca Mário de Andrade. Você pode nunca ter ouvido falar, dificilmente aprendeu na escola, mas o Brasil contou com muitas escritoras, algumas de bastante sucesso em suas épocas, antes de Rachel de Queiroz e Cecília Meireles despontarem nos anos 1930. O resgate dessa história ocultada, como muitas outras neste país, é o objetivo da exposição Pioneiras – Autoras Mulheres no Acervo de Raridades da Biblioteca Mário de Andrade (até 26 de maio, das 8 às 20 horas, na própria biblioteca), que reúne 50 títulos escritos por autoras entre 1754 e 1933. “A exposição traz uma ótima amostra, mas foram centenas de escritoras que fizeram sucesso, obtiveram repercussão e desapareceram na amnésia que apagou a história da mulher, fruto do corporativismo masculino”, disse a pesquisadora Constância Lima Duarte, no debate que inaugurou a exposição na semana passada (2/4). Uma dessas escritoras é a norteriograndense Nísia Floresta, que nasceu em 1810 e, segundo Duarte, foi a primeira brasileira a escrever sobre os direitos das mulheres. Aos 21 anos, publicou o livro Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, no qual faz um apanhado do que estava sendo discutido sobre o tema na Europa e argumenta a favor da capacidade das mulheres de aprender a ler. Repetindo, para a turba que ainda vocifera que feminismo é “mimimi”, naquela época não existiam escolas para meninas no Brasil. A primeira lei autorizando a abertura de escola primária para meninas é de 1827. No final dos anos 1930, Nísia se muda para o Rio de Janeiro e abre uma escola para meninas, que funcionou por 16 anos. Entre seus mais de 15 livros, está, ainda, Opúsculo Humanitário, ensaio sobre a educação feminina (única de suas obras na Biblioteca Mário de Andrade e que está na exposição), que reúne artigos seus publicados nos principais jornais da época. Além das mulheres, a escritora foi também defendia a abolição dos escravos e os índios. Em 1949, lançou o livro Lágrima de um Caeté, poema épico com 720 versos denunciando a dizimação das tribos e dos valores indígenas. Neste mesmo ano, muda-se para a Europa, onde ainda publicou vários livros, principalmente sobre suas viagens. Outra história incrível contada no evento é a de Júlia Lopes de Almeida, que, segundo o escritor Luiz Ruffato, estava entre os escritores brasileiros mais lidos e conhecidos do final do século XIX. “Júlia era muito popular no Rio de Janeiro e fazia concorridos sarais em sua casa. Seu romance A Falência é um dos maiores da época. Por que ela foi apagada da história da literatura brasileira? Simplesmente por ser mulher”, diz Ruffato. O escritor conta que Lopes de Almeida era tão respeitada que, quando se começou a cogitar a fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo citava a autora entre os fundadores. Seis meses depois, quando a ABL é de fato criada, em julho de 1897, Júlia não está em seus quadros, mas seu marido (um poeta português medíocre, Filinto de Almeida) sim. Nas rodas da época, ele era chamado de “acadêmico consorte”. Ao todo, essa autora de quem nunca ouvimos falar publicou dez romances, cinco livros de contos, oito peças teatrais, além de mais 12 obras diversas, que vão de Livro das Noivas a Contos Infantis. Felizmente, recentemente a Unicamp incluiu A Falência como leitura obrigatória para seu vestibular. Com isso, há algumas edições do livro disponíveis para quem quiser conhecê-la. Entre eles, uma edição da Companhia das Letras, com prefácio da Luiz Ruffato. Esse veto vergonhoso às mulheres na ABL durou até 1977, com a eleição de Rachel de Queiroz. Atualmente, das 40 cadeiras da Academia, cinco são ocupadas por mulheres. Como vemos, equidade não é um característica dos nossos imortais. Nem do mercado editorial, já que 70% dos livros publicados no país são de homens (possivelmente a maior parte brancos, do centro sul). Termino, porém, com uma preciosidade, que mostra sozinha o quanto nós mulheres avançamos, mas como não podemos descuidar e continuar atentas e na luta. Trata-se de um trecho de carta do poeta Ovalo Bilac para sua noiva poetisa Amélia de Oliveira: “Minha Amélia (…) Antes de tudo quero dizer-te que te amo, agora mais do que nunca, que não me sais um minuto do pensamento, que és minha preocupação eterna, que vivo louco de saudade, (…) Não me agradou ver um soneto teu (…) desagradou-me a sua publicação. Previ logo que andava naquilo o dedo do Bernardo ou do Alberto. Tu, criteriosa como és, não o faria por tua própria vontade (…) Há uma frase de Ramalho Ortigão, que é uma das maiores verdades que tenho lido: – “O primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida”. – Não é uma verdade? (…) há em Portugal e Brasil cem ou mais mulheres que escrevem. Não há nenhuma delas de quem não se fale mal, com ou sem razão (…). Não quer isto dizer que não faça versos, pelo contrário. Quero que os faças, muitos, para teus irmãos, para tuas amigas, e principalmente para mim, – mas nunca para o público (…) Teu noivo Olavo Bilac. São Paulo, 7 de fevereiro 1888″ (ELEUTÉRIO. 2005, p.32). Homens, de todas as épocas, odeiam mesmo é concorrência.

Exposição resgata história do “Treme-treme” paulistano

Fachada do São Vito, em foto da exposição do Sesc  Uma das passagens mais interessantes no livro Minha História, de Michelle Obama, quando conta sobre a decadência do bairro onde cresceu em Chicago, é que a ideia da degradação de um local vem antes que a degradação em si. No caso, o medo das famílias brancas de que o aumento da população negra no bairro o empobreceria, fez com que se mudassem e, com isso, as famílias negras mais abastadas passassem a fazer o mesmo movimento. Com isso, se realizou a profecia inicial, com a piora na qualidade das escolas e aumento da violência, entre outros problemas. Esse movimento é um velho conhecido de São Paulo e um dos casos mais bem acabados é a região do Parque D. Pedro II, no Centro, que sucumbiu a partir da migração (ainda em curso) das elites rumos à zona sul. A dimensão desse abandono foi tão poderosa que todas as tentativas de recuperação até agora, seja com uma intenção mais social ou com fins de gentrificação, deram com os burros n’água. Em qualquer um dos casos, os grandes perdedores sempre foram os moradores resistentes e a própria cidade, que expande seus domínios deixando para trás redutos abandonados pela urbe, sem nenhuma qualidade de vida, beleza ou memória. Um exemplo de tudo isso é a história do edifício São Vito, inaugurado em 1959 e demolido em 2011, em cujo espaço hoje está instalada a Ocupação Sesc Parque Dom Pedro II, que, como o próprio nome diz, não é uma propriamente uma unidade como as demais do Sesc, mas um conjunto com quadras, palcos e containers que, apesar de bacana, não chega aos pés do projeto previsto para quem sabe um dia para o local. Mas é justamente ali que se encontra (até 5 de maio) a exposição São Vito: uma escavação, que resgata a história dessa parte do centro de São Paulo a partir da saga daquele prédio que o preconceito da metrópole batizou de “Treme-treme”. Monitores atenciosos ajudam os curiosos a entender melhor o que está na mostra, concebida pela Grifo Projetos, com pesquisa e desenvolvimento de Lygia Rodrigues, Thaís Gurgel e Camila Mouri. Construído na mesma época de seu vizinho – igualmente demolido – edifício Mercúrio, o São Vito já é fruto de uma certa decadência da região, originalmente às margens de um sinuoso rio Tamanduateí e cercada pelo então lindíssimo Parque Dom Pedro II. A prova da importância do local é a suntuosidade do Mercado Municipal, que, com seus incríveis vitrais, pode-se dizer que era um shopping center dos anos 1930, quando foi inaugurado. Com o tempo, o Tamanduateí sofreu várias retificações, avenidas foram construídas e, quando os dois prédios foram construídos, com seus apartamentos muito pequenos (na época quitinetes; hoje seriam estúdios, kkk), eram voltados para uma população urbana de classe média, como os estudantes das faculdades do entorno. Com a desvalorização da região, o padrão de moradores foi empobrecendo e, na década de 1980, passou a ser tratado pela grande imprensa como um cortiço ou favela vertical, como mostra o trecho de reportagem de O Estado de S. Paulo, de 1987, presente na mostra: “O edifício São Vito, enorme cortiço de 37 andares, com 624 quitinetes, é um território livre dentro da cidade de São Paulo, as margens do Tamanduateí. Dentro dele, as leis brasileiras não são obedecidas e seus cinco mil moradores tentam seguir um código próprio. A polícia – nem mesmo a Guarda Civil Metropolitana – não se atreve a entrar no prédio”, diz o repórter, se queixando de também ter sido impedido de entrar. Consigo imaginar por quê. Trabalhando na época no jornal Shopping News, sob o comando do saudoso Aloísio Biondi, jornalista pouco afeito a ideias prontas, visitei o São Vito e encontrei, na verdade, muitas famílias de trabalhadores, grande parte delas proprietárias dos apartamentos. A precariedade realmente existia, por conta da pobreza (dentro do edifício e no seu entorno). Mas como pobre não tem voz nem vez no Brasil, ao invés de ajuda para revitalizar o prédio, seus moradores ganharam mesmo o despejo (parece que a maior parte recebeu indenizações ridículas). Os poucos que conseguiram se manter na região, pelo que me contaram na exposição, têm antipatia pelo Sesc, por ocupar um lugar que era deles. O incrível é que todo o trabalho de expulsão dos moradores e demolição dos dois edifícios não resultou em nenhuma das justificativas alegadas para que ocorressem: nem embelezamento urbano, nem renovação ou revitalização urbana, nem gentrificação (esta última se aproxima, via aproximação da verticalização do Belenzinho, ali do lado). Para quem quer entender um pouco sobre os termos urbanísticos, conforme a exposição.

Mesmo quando anda pra trás, felizmente a roda é viva e sempre pode mudar

Teatro Oficina, aberto pra cidade. Quando comprei as entradas para assistir à montagem de Roda Vida, no Teatro Oficina, há um mês, o que me moveu foi a vontade de conhecer esse espaço de resistência e inovação da cidade neste momento de retrocessos múltiplos que me indignam a cada dia. Foi meu marido que me chamou a atenção para a data que tinha escolhido, confesso que aleatoriamente: 31 de março. O que já era para ser um programa bacana em família, passou a ter um significado mais especial a partir do momento em que Bolsonaro recomendou que se comemorasse o golpe militar que implantou a ditadura no Brasil. Difícil descrever a emoção de estar naquele lugar com meus filhos e marido nesse domingo e sentir a energia tanto naquele palco improvável quanto na plateia, que se mistura a ele. Acho tão surreal termos um governo que em três meses só trabalhou para retirar direitos conquistados e com equipe e entourage que chegam a ser escatológicas, que necessito me cercar de pessoas que mantêm a sanidade. Nós nos andaimes, ops, plateia. O Oficina é mais um daqueles lugares quase mitológicos de São Paulo que eu, no meu provincianismo, não conhecia. A concepção do lugar como se fosse uma rua no lugar do palco, com a plateia às margens ocupando uma estrutura que parece um andaime, é uma experiência em si. Não sei como era antes da reforma, mas o projeto atual, de Lina Bo Bardi e Edson Elito (inaugurado em 1994), com a parede de vidro que dá para o estacionamento do Silvio Santos e o que vem além, e os inúmeros recursos usados pelos atores para estar sempre muito junto ao público dão um toque mágico. Parece que participamos do espetáculo e não apenas assistimos. Estando ali, entendi a polêmica com o empresário/apresentador que luta há anos para construir neste terreno vizinho um grande empreendimento imobiliário. O teatro é tombado pelo Condephaat (órgão estadual de defesa do patrimônio) desde 1981 por sua importância histórica à arte do teatro nacional (e desde 2010 é tombado também nas esferas federal e municipal), o que torna qualquer construção no entorno sujeita a respeitar sua preservação. Não precisa ser um especialista em patrimônio material (no caso, a arquitetura) e imaterial (a ludicidade da arte) para olhar pelas incríveis janelas que fazem o espetáculo comungar com a cidade lá fora e perceber que qualquer intervenção no terreno vizinho que não seja o (reivindicado pelos representantes do teatro) Parque do Bixiga seria criminosa. Sob qualquer aspecto, um empresário que ficou milionário às custas de explorar pobres com seu Baú da Felicidade e uma concessão pública deveria ter a generosidade de retribuir à sociedade com um projeto que valorizaria muito mais aquele entorno do que mais um arranha céu. Ao contrário, se empenha em liberar a obra junto aos órgãos de proteção. Acompanhemos os desdobramentos, ainda mais nesta época bicuda de devoção ilimitada ao capital. Busca a qualquer preço por dinheiro e fama é justamente o tema de Roda Viva, de Chico Buarque, que está completando 50 anos de sua primeira exibição, quando foi sistematicamente censurada pelo regime militar. Conta a história do cantor Benedito Silva que ganha fama (após vender a alma ao diabo) e depois é engolido pela indústria cultural. Considerada subversiva e degradante pela ditadura (aquela que não existiu, não perseguiu nem torturou ninguém), teve o teatro invadido durante sua temporada paulistana, em 1968, com o cenário destruído e os atores (incluindo Marília Pera) espancados. Em Porto Alegre, os meigos espancaram os atores no hotel mesmo. Desde então, a peça não havia mais sido encenada e apenas agora teve autorização do autor para uma nova montagem, atualizada pelo diretor Zé Celso Martínez Correa para incluir as novas mídias (internet e mídias sociais) e o inacreditável momento político nacional. A presença magnética de Zé Celso marcou o início e o final da encanação, que trouxe o samba enredo campeão de 2019 da Mangueira, História para ninar gente grande, com toda a equipe do espetáculo e o público em uma confraternização que saiu da viela cenográfica para a rua real, terminando a noite em celebração.

Um “curso” para entender o amor romântico e fazer com que dure para sempre

Livro do mês do CFL.  O que faz um casamento feliz e duradouro? A escolha certa? As experiências anteriores do casal? A vontade de que dê certo? Quais as vantagens e os problemas causados aos relacionamentos no modelo de amor romântico que rege as relações na nossa época? Essas são as questões que o escritor e filósofo suíço Alain de Botton tenta responder no livro O curso do amor, no qual mescla a história do casal Rabih e Kirsten com intervenções analíticas sobre como funcionam os relacionamentos e que foi o tema da reunião do nosso Círculo Feminino de Leitura (CFL) de março. A leitura, às vezes gostosa, às vezes entediante, como a vida do casal Khan, em Edimburgo, propositalmente comum – ali apenas para servir de escada para as digressões do autor -, nos traz, porém, muita daquela sabedoria simples sobre a qual não paramos para pensar. Por exemplo, como o sexo, mesmo sendo bom por si só, ganha sabor com a intimidade, mas também precisa de fantasia para se manter atraente. Em seu todo, o “curso” de Botton mostra o quanto a vida fica boa quando temos alguém com quem nos identificamos para dividir as agruras do dia-a-dia, mas o quanto, também, esse compartilhamento pode minar o romantismo que motivou a união. Como as experiências que trazemos da infância podem determinar como reagimos em cada situação e como isso pode criar mal entendidos entre pessoas que se amam, com uma falando uma coisa e a outra entendendo algo totalmente diferente. E, sobretudo, como a intimidade – sempre ela – faz com que despejemos nossos problemas e frustrações justamente na pessoa em quem mais confiamos e que nos compreende melhor. Desafios do amor romântico na pauta. Administrar tudo isso pode ser bastante difícil, ainda mais quando se junta a responsabilidade de criar filhos e uma cultura que presa a fidelidade sexual como o maior valor em uma relação. Assim, uma única escapada de um dos cônjuges põe para girar a maior crise do casamento de Rabih e Kirsten, desencadeada pela culpa e frustação do traidor e pela reação do outro à mudança de comportamento do parceiro. A terapia de casal e uma maior maturidade consegue, neste “case” inventado pelo autor, resolver estas questões e concluir – acredito que a grande tese do livro – que amor é mais habilidade do que entusiasmo. E que, se não é possível ser, ao mesmo tempo, um libertino e um romântico casado, por mais atraentes que os dois paradigmas sejam, o segundo costuma ser mais satisfatório em longo prazo. O maior conselho de Botton para que essa empreitada dê certo, e com a minha experiência de mais de 30 anos de casada tendo a concordar, é que “nenhum relacionamento pode começar sem o compromisso com uma intimidade sincera. Entretanto, para o bom andamento do amor, também parece impossível imaginar parceiros incapazes de guardar boa parte de seus pensamentos para si mesmos”. Isso vale para tudo na relação, não somente grandes segredos que poderiam terminar imediatamente a relação. Prefiro meu marido dizendo que continuo tão bonita quanto quando nos conhecemos, do que dizendo que estou ficando velha. Poupar quem amamos da crueldade que não usaríamos com estranhos é um fator primordial para manter relações felizes. Mas, embora este Curso do Amor termine concluindo que, após 13 anos juntos, o casal finalmente está maduro em sua relação, os filhos de Rabih e Kirsten ainda são pequenos e demandam uma grande empreitada em comum, muito bem delineada no livro: “Eles nunca se preocuparam de forma tão intensa e categórica com ninguém. A chegada dela [da filha] transforma o que entendem sobre amor. Ambos reconhecem que, até então, tinham entendido muito pouco sobre o que podia estar em jogo”. Mas o que acontece quando os filhos não precisam mais dos pais em seu dia-a-dia ou vão embora, deixando o casal novamente a sós? Se isso antes acontecia com as pessoas em plena meia idade, já sem expectativas, o que fazer hoje com essa geração de perennials, ainda cheia de gás e expectativas? É disso que trata o filme Um amor inesperado (direção de Juan Vera, ainda em cartaz em São Paulo, com o charmosíssimo Ricardo Darín e a também incrível Mercedes Morán), que me pareceu um ótimo complemento ao livro de Botton, talvez porque entender essa fase seja um dos meus desafios atuais. No filme, a dicotomia aventuras versus rotina, mesmo que esta seja suave e satisfatória, leva o casal a se separar e, realmente, viver aventuras que não teriam como se permitir casados, para redescobrir muito depois o porquê de um dia terem decidido ficar juntos (e com a pretensão de que seria para sempre). Acredito que muitos casais se percam nessa dúvida eterna – ou abrindo mão da vida que era boa pela esperança de novas experiências mais excitantes ou permanecendo como está com a melancolia de quem nunca tentou mudar. Conseguir conciliar (e resgatar) nesse momento tudo o que sempre foi bom em um casamento e, ao mesmo tempo, se reconectar com a pessoa que escolheu – e que mudou muito ao longo do tempo -, encontrando nela o prazer do romance e da convivência nessas novas bases, sem abrir mão de vivenciar seus próprios novos gostos, desafios e ambições, é o segredo dos casais que seguem acreditando que, embora alma gêmea não exista, o amor pode ser cultivado, renovado e dar muita satisfação para quem sabe investir bem nele.

Jovens ainda estão com pouca raiva

Greve dos estudantes pelo clima. Convidada a falar sobre mudança do clima e o governo Bolsonaro para alunos da Fundação Getulio Vargas nesta semana, me vi pensando que o Brasil nunca foi um país que desse muita importância para as questões ambientais, mas, aos trancos e barrancos, seguíamos em frente. Mesmo nos governos Dilma e Temer, nos quais o Ministério do Meio Ambiente (MMA) voltou a ser um tanto café com leite e houve retrocessos, havia diálogo e decoro em relação ao tema, com ministros e equipe realmente comprometidos. A diferença é que agora não contamos nem com as aparências, como bem mostrou o editorial da Folha de S. Paulo de ontem (Neurose ambiental, 25/3) e, pior, a resposta do “ministro do Meio Ambiente” (entre aspas mesmo, pois não o considero digno do cargo) Ricardo Salles, no Twitter (óbvio), dizendo que trata-se de “estratégia da esquerda militante”. Ver o governo federal tentar ligar uma área tão crucial à sobrevivência humana à uma questão ideológica com tanta vulgaridade me deixa desalentada. Ainda mais porque as evidências não batem mais à porta, mas entraram e estão mostrando a que vieram. As últimas notícias mostram que a temperatura média global ultrapassou 1º C em relação à era pré-industrial – após 1,5º C, a segurança climática, segundo o IPCC, estará muito mais ameaçada. Nove dos dez anos mais quentes registrados aconteceram desde 2005; 2018 foi o quarto ano mais quentes da história (perdeu para 2015, 2016 e 2017). Quem passou o último verão no Centro-Sul do Brasil, pôde sentir na pele as temperaturas até 9°C mais altas que a média histórica para o mês. Florianópolis teve a maior temperatura máxima já medida, 40°C (3 de janeiro), Rio de Janeiro teve o janeiro mais quente desde o início das medições, com 37,4°C de máxima média mensal, e Brasília teve seu terceiro janeiro mais seco de todos os tempos (perdeu para 1972 e 1999). Saindo no nosso mundinho, vimos ainda que as temperaturas na Austrália beiraram os 50º C e acompanhamos horrorizados o que o ciclone Idai causou em Moçambique e países vizinhos. No outro extremo, o meio-oeste estadunidense teve temperaturas de – 32º C, com sensação térmica de – 60º C, neste janeiro. Mas o que o frio tem a ver com o aquecimento global? Como o Ártico vem esquentando duas vezes mais rápido do que o resto do planeta no último século, o gelo marinho e a neve da Sibéria vêm recuando. Com isso, os ventos ficam mais lentos e o imenso “rio aéreo” formado por eles fica mais denso. Resultado: massa polar escapulindo para América do Norte, Europa e Rússia. Enquanto isso, vemos o presidente do Estados Unidos, Donald Trump, desdenhando o que está na cara, e seu discípulo aqui no Brasil, Jair Bolsonaro, dizendo amém. Isso é muito inquietante, porque medidas essenciais estão sendo adiadas e nossa janela de oportunidade para reagirmos à mudança do clima vai se fechando. O novo presidente do Brasil prometeu em campanha um enorme desmonte na área ambiental e tem cumprido com galhardia. A Medida Provisória 870/2019 e os decretos que reorganizaram estrutura do governo reduziu drasticamente as competências do Ministério do Meio Ambiente: ü  Combate ao desmatamento não está na lista de atribuições do MMA; ü  Praticamente extinguiu referências ao combate às mudanças climáticas na estrutura do MMA. ü  Secretaria de Mudança do Clima e Floresta deixou de existir. ü  Agência Nacional de Águas (ANA) passou para o Ministério do Desenvolvimento Regional. ü  Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e Cadastro Ambiental Rural (CAR) passaram para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). ü  Na estrutura do MMA, ficou apenas o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima. Além disso, ü  Mapa também passou a ser responsável pela oficialização de terras indígenas e quilombolas e outros temas fundiários, como a reforma agrária e regularização fundiária na Amazônia Legal e nos territórios tradicionais. ü  Itamaraty deixou de ter a Subsecretaria de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia e suas divisões de Clima, de Recursos Energéticos Novos e Renováveis e de Desenvolvimento Sustentável. A área ambiental passou para um departamento de uma nova secretaria de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania. ü  Não se sabe quem vai conduzir a política nacional e as negociações internacionais sobre mudança do clima, que eram competências do MMA e do Itamaraty. Essas medidas terão um impacto enorme em questões cruciais para o país. Em janeiro de 2019, a Amazônia Legal perdeu 108 km² de florestas, um aumento de 54% em comparação ao mesmo período do ano anterior segundo os dados divulgados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), parte disso já consequência da sinalização federal de que combater desmatamento não será prioridade. Só que a Amazônia atingiu 19% de sua área desmatada, enquanto estudos apontam 20% a 25% como ponto de não retorno, aquele em que a deterioração da floresta e a mudança climática na região será irreversível. Por isso, conter o desmatamento é o principal compromisso do Brasil com a Convenção do Clima em sua NDC (metas de redução de emissões de cada país). Sem contar os eventos extremos e suas consequências sociais e econômicas em todo o país… Além dos pobres – sempre as maiores vítimas em qualquer situação em qualquer lugar do mundo -, os maiores prejudicados com a negação da mudança climática são os jovens, para quem vai sobrar dar um jeito (o que for possível) no problema. A Greve Escolar pelo Clima, movimento liderado pela estudante sueca Greta Thumberg, de 16 anos, que mobilizou, no último dia 15 de março, mais de 1 milhão de crianças e jovens em 120 países para pressionar líderes políticos e empresariais a agirem, para que a mudança do clima não ameace o seus futuro foi um alento. No Brasil, houve manifestação em 18 locais, uma tímida fagulhazinha. Na ocasião, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a atual geração que comanda o mundo não conseguiu responder adequadamente ao desafio dramático das mudanças climáticas. “Isso é profundamente sentido pelos

Uma chance à poesia

Ilustração de Manoel de Barros. Sempre achei que um dos meus principais defeitos de nascença era a falta de gosto sincero pela poesia. Como uma pessoa que ama tanto ler não se identifica com um tipo de escrita tão nobre? Claro que, ao longo dos anos, me apaixonei por alguns sonetos de Camões, alguns poemas de Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Mas se for bem sincera, amor mesmo tenho pelo letrista e pelo cronista, os quais embalaram minha adolescência e ainda hoje me fazem parar o que estou fazendo para escutar uma música ou reler um crônica que vou descobrindo que já conhecia ao longo do texto. Confesso, ainda, que tive uma epifania quando viajei para o Chile com as casas de Pablo Neruda. Visitei as três e chego a sonhar com elas, sobretudo a de Isla Negra. Mas seus livros li sem a mesma emoção. O mesmo vale para Mário Quintana. A cada vez que passo no centro cultural que o homenageia em Porto Alegre me sinto leve e confortada, mas não me animo da mesma forma com seus livros. Não me lembro de chorar lendo um poema e me pergunto como isso pode acontecer, se chego a soluçar mergulhada em romances, biografias e até livros reportagens e ensaios. Já fiquei doente e com febre ao longo de um Kafta ou um Zola. Mas eis que passei para dar uma olhada na Ocupação Manoel de Barros, no Itaú Cultural (até 7 de abril), e me vi desejando mais e mais da infância, comunhão com a natureza e desfaçatez com as palavras, tão belamente modificadas para significar exatamente o que a imaginação do poeta quis dizer, que encontrei ali. Talvez seja a identificação com o tema, essa saudade que carrego de uma vida junto a rios, plantas e bichos que nunca tive. E aconteceu. Li e reli os versos da exposição e saí de lá com uma publicação que traz respostas dadas pelo escritor a entrevistas diversas. Como era esperado, esses pequenos textos, sobre os quais nem sabemos quais foram as perguntas, me encantaram ao ponto de não conseguir me separar deles. Não são poesia convencional, mas a prova de que Manoel de Barros pensa poeticamente, de maneira que é impossível separar homem e poeta, ao contrário de uma de suas mais constantes afirmações, de que não misturava o poeta com o fazendeiro. Se o fazia, era realmente bom nisso, e não deve ter deixado transparecer o fazendeiro em nada que fazia como poeta. Mas acho que são a mesma pessoa e que essa suposta repartição é fruto de sua confissão: “noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento é mentira”. Tudo isso para dizer que talvez esse meu defeito tenha cura, seja apenas uma imaturidade persistente, e que terei que voltar minha atenção com mais leveza e afinco aos versos em geral. E também para fazer uma homenagem torta ao Dia Mundial da Poesia, que só soube que era em 21 de março agora a pouco.    

Ligações aleatórias, de Jane Austen à distopia feminista

Imagem conhecida de Jane Austen. Poucas coisas são mais “mulherzinha” do que os livros de Jane Austen. E, no entanto, sou apaixonada por eles. Suas mulheres são fúteis, fofoqueiras, melodramáticas. Será? Escritos entre o final do século 18 e início do 19, quando a única ambição permitida ao sexo feminino no ambiente em que vivia (o que seria hoje uma classe média alta e rural na Inglaterra) era conseguir um bom casamento, me parece mais que eram inteligentes e pragmáticas. Afinal, em um mundo onde não tinham nenhuma voz ou direito, que melhor saída para uma contrariedade, na qual não tinham a mínima chance de fazer valer seu ponto de vista, do que desmaiar? Esse recurso é usado mais de uma vez no engraçado e trágico conto Amor e Amizade, que acabei de ler. Escrito quando Austen tinha apenas 15 anos, narra as desventuras econômicas e amorosas de Laura, que conta sua história por meio de cartas à filha de uma amiga, em um tom de ironia e tragicomédia que prenunciam a grande autora que se tornaria. Ironia maior, porém, é o fato da escritora ter usufruído pouquíssimo de seu sucesso. Seus livros publicados em vida não traziam sua assinatura e, como não se casou, viveu seus 41 anos dependendo financeiramente da família. Criada em uma época na qual feminismo ainda era uma vaguíssima ideia, Jane Austen faz de sua mais icônica personagem, Elizabeth Bennet (de Orgulho e Preconceito – minha personagem austeana favorita), uma mulher com valores fortes sobre não submissão, mas ainda assim muito realista sobre suas possibilidades. Se casar era a profissão feminina por excelência naquela sociedade, acho icônico o trecho em que Lizzy conhece na mansão de Darcy e pensa no que perdeu ao recusar seu pedido de casamento. Raciocina como uma mulher moderna que recusou uma oferta de emprego por questões éticas, mas têm consciência de que dificilmente terá outra oportunidade igual. Tão surpreendente quanto a ironia de Austen em seu tempo, para mim, foi ler a primeira distopia feminista que já vi. Em Lola pela Manhã, conto também escrito por uma mulher (Karin Hueck, no livro Realidade Alternativa – 24 contos além da imaginação, coletânea da revista SuperInteressante, da Abril), a autora descreve um mundo comandado por mulheres, no qual as líderes decidiram manter uma porcentagem estável de homens de 15% da população. “A ideia era usá-los para a procriação, mas preservar a liberdade dos sobreviventes. Mesmo em minoria, seguiram responsáveis por oito em cada dez dos crimes violentos registrados”. A solução, então, foi confiná-los em campos de concentração, nos quais mantêm suas atividades vigiados de longe, com um mínimo de intervenção. Assim, em uma singela partida de futebol, por exemplo, torcidas adversárias deixadas à própria sorte e instinto deixam um saldo de 17 mortos. Fora dos ambientes masculinos confinados, os índices de criminalidade caíram a quase zero. Acidentes de trânsito viraram notícia. Mulheres que querem sexo ou ter filhas (há seleção genética e só nascem homens quando é preciso repor), podem entrar e escolher parceiros. Mas, passadas algumas gerações, a maior parte das mulheres prefere mesmo relacionamentos lésbicos. Tive acessos de riso com esse The Handmaid’s Tale ao contrário, mesmo com o final surpreendente e pretensamente enigmático.

À procura da razão, contra a barbárie

Orquídea do jardim, para lembrar que há muita coisa boa e linda. Desde o final do ano passado tenho feito uma peregrinação voltada a entender o que está acontecendo no país. Isso inclui ler muitos artigos, ter engulhos nas redes sociais, fazer cursos e me refugiar na arte, sobretudo exposições e literatura. Tento achar onde nos perdemos e, a cada instante, me convenço de que nunca nos encontramos realmente, como povo, como nação, como cidadãos. Mas já tivemos dias muito melhores. Em mais uma dessas tentativas de busca, me inscrevi no curso Obras Abertas: História Sincrônica da Literatura, na Casa Guilherme de Almeida. Ontem (13/3), na primeira aula, o escritor e professor Flávio Ricardo Vassolar, por conta do massacre na escola de Suzano, escolheu um texto – já previsto na grade – de Amós Oz (do livro Como curar um fanático, Companhia das Letras, 2018). Para Vassolar, tragédias como essa tendem a se repetir por um fenômeno que chama de “narcisismo necrófilo”. Em uma sociedade onde todos buscam o sucesso a qualquer custo, tendemos a nos ocupar apenas dos vencedores, seja porque são lindos, são atletas, são ricos ou bem-sucedidos, mesmo que apenas nas redes sociais. Mas quem está de fora dessas categorias também se acha merecedor de seus 5 minutos de fama, nem que, para tanto, precise matar e morrer. O narciso, assim, se torna também um fanático pela morte. No artigo Narciso gosta de se mutilar – De ‘Crise e castigo’ a crimes sem castigo, Vassoler assinala que “…se observamos o padrão de comportamento dos atiradores civis, desde o massacre na Columbine High School, no Colorado (EUA), em abril de 1999, passando pelo massacre do Realengo, ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, na cidade do Rio de Janeiro, em abril de 2011, até chegarmos ao mais recente caso na Parkland High School, na Flórida (EUA), no dia 14 de fevereiro de 2018 (apenas para citarmos três entre as várias tragédias ocorridas), descobriremos que há uma profunda fusão entre winners e losers, vida e morte. Os atiradores escolares tendem a apresentar o perfil dos nerds que, supostamente (e não mais do que supostamente), não se importam em ser postos em ostracismo. (…) em alguns casos (…), o profundo ressentimento opera como um propulsor que, no limite, pretende transformar o loser em winner, o coadjuvante em herói, por meio de uma vingança viril que, ao mesmo tempo, lance mão do martírio como derradeira exposição narcísica”. Incentivados por uma cultura de violência – que hoje parece, inclusive, ser política de Estado -, narcisos necrófilos tentem a se tornar fanáticos – frutos de uma “inutilidade banal”, como define Vassoler, parafraseando a “banalidade do mal” de Hannah Arendt. Em que pese o pessimismo que a situação enseje, entre os antídotos sugeridos para desmobilizar os fanáticos que infestam a sociedade (travestidos não apenas de adolescentes losers, mas de milicianos, políticos, religiosos e afins) pelo grande escritor israelense Amós Oz, estão o humor e a curiosidade: “Fanáticos não têm sendo de humor e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas”. É na literatura, e na arte em geral, que Oz deposita suas melhores apostas para instigar a curiosidade dos fanáticos – a mesma arte que vemos atualmente (e sempre que fanáticos encontram o poder) como um dos principais alvos de perseguição. Sobre o humor, me vem à cabeça a fúria destilada pela turba governista e asseclas contra o ator José de Abreu, que brinca nas redes sociais ser “presidente autoproclamado do Brasil”. Vi também essa falta de leveza em algumas pessoas sensatas, que pareceram levar a sério a brincadeira ou reclamam do deboche como a dizer que o momento pede mais seriedade. Um artigo que li no Facebook, da psicóloga Rita Almeida, abordando justamente o case José de Abreu, traz essa ideia o uso do humor como instrumento desconstrutor com a qual tendo a concordar (embora, reconheço, com muita dificuldade em utilizar). Para ela, “se não é possível desmontar um delírio, é possível desconstruí-lo pouco a pouco, parte por parte. Fazer pequenos furos, abalar algumas verdades, duvidar, perguntar, são algumas das estratégias que utilizamos para ir minando a certeza do sujeito delirante, fazendo-o enxergar outras possibilidades. E é muito importante que ele encontre outras possibilidades, caso contrário, voltará para sua certeza delirante, que ao menos lhe assegura um lugar”. A mesma ideia norteia o documentário Tá rindo de quê? (Brasil, direção Claudio Manoel, Álvaro Campos e Alê Braga, 2018), que estava em cartaz em São Paulo até a semana passada. O filme mostra como o humor foi usado por artistas como resistência durante a brutalidade e truculência da ditadura militar no Brasil e como foram ameaçados e perseguidos por isso. Claro que uma tragédia como a de ontem em Suzano não suscita, nem poderia, nenhuma dose de humor. Mas para evitar que ideias até pouco tempo impensáveis, como professores armados como solução para casos como esses, sejam sequer cogitadas, precisamos pensar cada vez mais em como garantir que a razão prevaleça à barbárie.

Michelle Obama, a história de uma mulher incomum

Reunião do CFL, fevereiro de 2019. Começar o ano do Círculo Feminino de Leitura (CFL) com Minha História, de Michelle Obama, foi uma oportunidade para nos conectarmos ainda mais com o feminino e a necessidade urgente do diálogo, daquele em que feridas podem ser expostas, mas o objetivo é a cura, não torcer pela infecção. A escolha pela autobiografia de uma mulher forte, atualmente uma das mais influentes do mundo, propiciou um sentimento de identificação com seus valores e admiração por sua força e capacidade de não perder a humanidade, mesmo no centro do poder mundial. Claro que uma autobiografia tem um que de edulcoração, mas Michelle consegue transmitir sinceridades em seus questionamentos sobre seu papel de mulher, de mãe, de profissional, sobre as dificuldades das escolhas e como assumi-las com responsabilidade. O longo e detalhado relato de sua vida desde a infância mostra a construção de sua personalidade e capacidades a partir da família e da realidade em que cresceu, contando com uma mãe dedicada a não deixar que o determinismo de viver em um bairro decadente e em uma comunidade discriminada impedissem o potencial de seus filhos. Inteligente, bonita e segura de si, Michelle foi atrás e não deixou escapar nenhuma oportunidade. Passou por cima de tudo que poderia desencorajá-la – como a coordenadora da escola que achava que as melhores universidades não eram para ela -, sem perder a noção de foi uma exceção. Por isso, quando chegou lá, optou por lutar pelo empoderamento de mais pessoas. Uma das causas mais interessantes abraçadas por ela é o de mentoria de jovens provenientes de minorias e comunidades carentes – principalmente meninas -, para que desenvolvam suas capacidades. Michelle teve sorte em encontrar Barak Obama em seu caminho, mas tem luz própria e sua história teria sido igualmente significativa sem ele. Como casal, parece que se completaram e o sucesso de ambos está bastante ligado. Todo o relato sobre a ascensão de sua família para a posição central no maior olimpo mundial é narrado sem disfarçar o deslumbramento que o fato enseja, mas mantendo o foco na realidade, na efemeridade e, sobretudo, buscando as oportunidades que poderia ensejar. Competente, soube eleger suas prioridades como primeira dama dos Estados Unidos dentro do papel que lhe cabia. Não esconde, em nenhum momento, a dificuldade em conciliar essa vida cheia de poder, glamour, mas também restrições, com o papel de mãe, desafio para qualquer mulher, seja qual for sua posição social ou geográfica, no mundo. Chama a atenção, ainda, a capacidade de indignação, que não se perdeu em desculpas de quem assume o poder e tende a minimizar os problemas. Michelle mostra isso quando se comove com as tragédias que acontecem durante o governo de seu marido, como os massacres gratuitos, que são quase uma rotina naquela sociedade que endeusa armas, ou quando manifesta seu desconforto com a comemoração nas ruas da morte de Osama Bin Laden, mesmo tendo sido uma vitória política para seu marido. Também não disfarça sua decepção (e até certo ponto atordoamento) com a eleição de Donald Trump e com o retrocesso que representou. Ao final da jornada como primeira dama – já que possivelmente não desistirá de continuar sua busca por grandes causas -, ela diz que é “uma pessoa comum que se viu numa jornada extraordinária”. Infelizmente, pois precisaríamos de infinitas mais como ela, Michelle não é, absolutamente, comum.

Por que aceitamos complacentes o lixo boiando no Tietê?

Lixo de todo tipo boiando no rio Tietê, São Paulo Artigo publicado na Ilustríssima do último domingo (O Brasil contra si mesmo, FSP, 17/2), do sociólogo Zander Navarro, defende que a complacência* é a característica que define o brasileiro. Mesmo sem concordar com todas as afirmações do autor para justificar sua afirmação, tendo a concordar que faz sentido. Só mesmo muita complacência diante do poder público, das indústrias e de nós mesmos justifica – entre tantas e tantas outras coisas – assistirmos à cena do rio Tietê totalmente tomado por lixo (sobretudo garrafas pets) neste fim-de-semana em Salto. Meu amigo Rodrigo Agostinho (agora deputado federal) me diz, no Facebook, que parte da sujeira chegou em Barra Bonita e a mancha de poluição já está em Sabino. O que, se não muita complacência, pode justificar que o principal rio do estado mais rico do país, cujo processo de despoluição começou há mais de 20 anos, consumindo bilhões e bilhões de investimentos, apresente uma cena tão triste, digna do pior subdesenvolvimento no mundo? É como se todos os governantes que passaram por aqui rissem na cara de cada um de nós e achássemos normal. Parece mentira que o país tenha uma Política Nacional de Resíduos Sólidos desde 2010 (Lei nº 12.305/10) e o lixo continue a correr solto em todos os cantos possíveis, das equinas e praças das cidades, terrenos baldios, rios e oceano. Somos tão indiferentes a isso que o assunto sequer entra em debates nas campanhas eleitorais (nem nas municipais). A passividade é tanta, que as pessoas nem ficam constrangidas em atirar lixo das janelas de seus carros nas ruas. Engravatados e madames em carrões atirando bitucas de cigarro sem nenhuma cerimônia é uma constante (não apenas eles, mas, afinal, é a elite que temos…). Sem contar a pasmaceira diante da imundície das ruas após qualquer evento (está aí o Carnaval chegando para não me deixar mentir) ou das praias, mesmo as de “bacanas”, após um dia de sol. A questão é que, diferentemente da poluição do ar ou mesmo dos esgotos que empesteiam nossas águas, o lixo é visível a olho nu e, mesmo assim, conseguimos abstrair. Se isso não incomoda, se fingimos não ver o que está na nossa cara, qual a esperança de que as demais formas de poluição (e outros grandes problemas), que demandam mais investimentos e mudanças estruturais, sejam algum dia enfrentadas? Enquanto formos complacentes com o poder público (“ele é incompetente mesmo”), com as indústrias (“afinal, por que o capital deveria se responsabilizar pelo lixo que produziu? Pobrezinho, teria que repassar custos para o consumidor, que pagaria mais pelos produtos, sobretudo os produtos de primeiríssima necessidade que são vendidos dentro de garrafas pet!”) e conosco mesmos (“o que posso fazer se não há coleta seletiva na minha rua, ou se o horário da coleta é em um horário muito ruim, ou o que pode significar um bituquinha de cigarro ou uma garrafinha de água a mais da rua, quer que meu carro fique abarrotado de lixo?”) nada vai mudar. Diante de tantas demandas, porém, por que a sujeira literal deveria ser prioridade? Também não sei, mas deixar a tarefa de limpar praças, ruas, rios e oceano apenas nas mãos de voluntários abnegados, que enxugam gelo em seus finais de semana, não nos levará longe. *Complacência, no dicionário, é a disposição habitual para corresponder aos desejos ou gostos de outrem com a intenção de ser-lhe agradável. Para o autor do artigo da Ilustríssima, significa “atitude passiva de subordinação acrítica e frouxidão valorativa dos indivíduos, em contextos variados e em todos os estratos sociais”.