Vale: após os dois desastres, haverá algum aprendizado?
Bento Rodrigues, Mariana (MG) O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho me pegou no início da leitura do livro Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil, da jornalista Cristina Serra, um dos melhores livros-reportagens que já li. Com uma narrativa em primeira pessoa, Cristina nos leva para dentro do horror que foi o rompimento da barragem da Samarco (empresa da mesma Vale, em sociedade paritária com a australiana BHP Billiton) junto com ela, que chegou ao local poucos dias depois do fatídico 5 de novembro de 2015 como repórter do Fantástico, da TV Globo. Com o seu olhar humano, voltado logo de cara para as vítimas da tragédia, vamos nos comovendo com o que aconteceu. Sentimos junto com ela a compaixão pelos mortos, por seus familiares e amigos, pelos que perderam tudo o que tinham. E vamos nos indignando com a maneira como estas pessoas foram tratadas antes (não foram informadas dos riscos, não receberam instruções ou avisos) e depois da tragédia (suas casas destruídas ou deixadas ao léu para serem saqueadas, não foram indenizadas nem receberam novas casas permanentes três anos depois etc. etc. etc.). Cristina quis que as histórias de cada um dos 19 mortos fosse contada, para que não se perdesse a dimensão humana do que aconteceu (será que a história dos mais de 300 desta nova tragédia também será contada assim?) e que os heróis que impediram que a calamidade fosse ainda maior fossem reconhecidos. Paula Geralda Alves, a funcionária de uma terceirizada da Vale que, com a lama atrás de si, vai até o vilarejo de Bento Rodrigues em sua moto para salvar a mãe e o filho e não sai de lá antes de avisar a todos os moradores, mereceria, por si só, ter um filme sobre ela. Mais do que o impacto ambiental, cuja dimensão estamos longe de poder compreender e que nunca será sanado – o Rio Doce nunca mais será o mesmo -, são as pessoas impactadas que realmente nos fazem ver como nossas estruturas são frágeis e, no fim, os interesses empresariais tendem a prevalecer. O que pode justificar, por exemplo, que em três anos uma empresa que constrói barragens imensas e tritura montanhas inteiras vorazmente e em pouquíssimo tempo não tenha conseguido entregar as novas moradias para os que foram desalojados? Como explicar que lute para não precisar indenizar pessoas que trabalhavam nas praias próximas a foz do rio Doce, justificando que não tinham vínculo legal provando seus empregos? O livro traz muitas e muitas dessas histórias nos mais de 600 quilômetros percorridos pela lama. O estômago remói, porém, quando se lê com atenção as minuciosas páginas nas quais as questões técnicas da tragédia são contadas, com a sucessão de prepotência, pouco caso e incompetência que marcam a atuação da empresa. Um exemplo quase singelo, diante de tudo, é que, mesmo com a bomba relógio que era a barragem de Fundão, a exíguos 8 quilômetros de Bento Rodrigues, a empresa pretendia construir uma nova barragem a 1,2 quilômetro da localidade. Para tanto, já tinha projeto e encomendou uma pesquisa detalhada sobre a comunidade e seus moradores, para avaliar como seria (em termos de custos e convencimento) removê-los de lá, sem, em nenhum momento, dizer aquelas pessoas o que estava acontecendo. Foi muito difícil continuar a ler o livro (que é gigante, com suas 462 páginas) acompanhando, ao mesmo tempo, o desenrolar das notícias de Brumadinho, mas acho que deveria ser leitura obrigatória, sobretudo para jornalistas e engenheiros de qualquer área. Se tivesse lido antes da nova tragédia, porém, já estaria preparada e não me surpreenderia, pois a conclusão óbvia (e explicitada por especialistas e promotores entrevistados) é que só não se tinha a data e o local exato, mas a maneira como as coisas foram tratadas pelas empresas e pelas autoridades (governos de todas as instâncias) só poderia desembocar em novos desastres. Entre os fatores mais gritantes, a impunidade é talvez o que mais salta aos olhos e é o que deixa tranquilos todos os envolvidos na cadeia da mineração. Saber que, após Mariana, o lobby das empresas continuou e foi exitoso para abrandar as exigências para o licenciamento ambiental das barragens, que os promotores que investigavam o caso foram afastados, que a sociedade civil não teve voz em nenhuma das ações de remediação, são alguns dos fatores que anunciam as novas desgraças. Por isso, achei muito feliz o nome do evento realizado ontem (14/02), no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), Brumadinho pós-Mariana: lições não aprendidas, embora as informações e conclusões dos pesquisadores sobre as causas do desastre, sucessão e reincidência de falhas, exclusão social e vulnerabilidade das barragens sejam uma imensa infelicidade. O Brasil é um lugar renitente em não aprender com seus erros e fazer de tudo para manter tudo igual. Se comove com a desgraça alheia por alguns dias, mas logo depois tudo volta a ser como antes. As mentes e corações costumam vibrar mais forte para o mercado e o capital. Não demora nada para a sociedade esquecer o drama dos milhares de atingidos e voltar a se preocupar com o impacto do preço da Vale na Bolsa de Valores e a tachar o Movimento dos Atingidos por Barragem, que está lá dando apoio a mais essas vítimas, de baderneiro, que é como o establishment atual (mais acintosamente) vê os movimentos sociais. É por saber disso que o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, já se sente à vontade para dizer que a empresa é uma “joia que não pode ser condenada pelo rompimento da barragem” e não se digna, nem por hipocrisia, a se levantar para homenagear os mais de 300 mortos pela lama de sua empresa, durante a audiência na Câmara dos Deputados.
Ver os Yanomami através de Claudia Anjudar é exercitar a compaixão
Como uma principiante, perdi a exposição do Weiwei na Oca. Coisa de paulistana que, ao ver que uma mostra ficará bastante tempo em cartaz, vai adiando, esperando o final do trânsito do fim do ano, as férias e, quando resolve que chegou o dia, descobre que acabou. Fiz diferente com a Claudia Andujar e fui correndo ver A Luta Yanomami, no Instituto Moreira Salles, assim que voltei do Ano Novo, mesmo que a mostra vá até 7 de abril. Aconselho a todos que façam o mesmo. Deixar para a última hora é um risco desnecessário e essa exposição merece muito ser vista. E não apenas pela beleza das fotos de Andujar e dos próprios Yanomami, que são mais do que suficientes. Mas, em uma época de trevas, como a que vivemos neste início de 2019 (acho que é por isso que só agora, quase meados de fevereiro, consegui escrever sobre o tema), se abstrair de procurar se informar é um ato de covardia atroz. Conhecer os Yanomami sob o olhar desta grande fotógrafa e ativista, que escapou com a mãe da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto sua família paterna, judaica, foi morta nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau, é exercitar a compaixão e, quem sabe, entender que Direitos Humanos é uma causa de todos para todos. Se, ao ver as fotos daquelas pessoas numeradas na Amazônia – mesmo que por conta da causa nobre de receberem tratamento médico -, você não se emocionar e lembrar das outras dos campos de concentração; ou assistir ao vídeo que é um apelo contra o extermínio desse povo e não ficar incomodadx, aconselho a visitar a mostra mais uma vez e ler todos os textos do Davi Kopenawa que acompanham boa parte das fotos expostas. Esses textos, tenho quase certeza, foram tirados do livro A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami (Companhia das Letras), no qual o antropólogo Bruce Albert transcreve praticamente literalmente as palavras de Davi Kopenawa contando sua história de iniciação ao xamanismo e como ele e seu povo viram e viveram o contato com o homem branco. É um raro relato em primeira pessoa do avanço dos brancos pela floresta e seu rastro de epidemias, violência e destruição narrado pelo lado de um índio. Poucas vezes me senti tão envergonhada de fazer parte desta ‘civilização’ brasileira quanto lendo este livro. Ver nossa cultura e valores por olhos indígenas foi uma experiência, no mínimo, triste. Apenas um exemplo que me marcou muito (li o livro em 2015, logo que foi lançado): para os Yanomami, visitas são muito importantes. Se um visitante chega à sua casa – seja um parente, um amigo ou um branco -, receberá o melhor tratamento possível e será presenteado com o que tem de melhor. Se tiver dois colares, dará o mais bonito para sua visita, e assim por diante. Quando os pastores evangélicos começaram a chegar e se instalar próximos às aldeias (Oh! Onde será que escutamos história parecida hoje em dia!?!?!), trouxeram muitos utensílios, como panelas, por exemplo, em quantidades muito maiores do que precisavam. Os índios, encantados, pediam se podiam ficar com alguma delas e a resposta era invariavelmente não (afinal, panelas são propriedades). Alguns deles ficavam indignados – pois isso ia completamente contra sua cultura e, lembremos, estavam na terra deles – e pegavam uma panela. E, surpresa, eram acusados de ladrões. Nem vou entrar nas doenças que essa gente “de deus” levou para as aldeias, porque tenho gasto muito minhas lágrimas ultimamente. Enfim, para quem acha que índio é um entrave ao progresso da nação, que a Amazônia está lá para dificultar a criação de gado e a mineração, e que Chico Mendes é irrelevante, visite a exposição porque o Instituto Moreira Salles é muito chique, tem um ótimo café e um restaurante descolado. E aproveita para ver a exposição Millôr: Obra Gráfica (esta, só vai até dia 24 de fevereiro). Se a visão da nossa pequenez pelos olhos do grande cartunista também não sensibilizar, melhor mesmo é procurar Jesus na goiabeira…
Minhocão, do tico-tico aos murais
O primeiro lugar em que morei foi um apartamento na Bela Vista, na rua Martinho Prado, no prédio onde funcionou por muitos anos o Ferro’s Bar, primeiro ponto de encontro de mulheres gays na cidade. Claro que eu não sabia disso, já que me mudei de lá aos cinco anos. Segundo o jornalista Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo[M1] , até 1964, ano em que nasci e em que houve o golpe militar, o bar era frequentado por militantes comunistas, mas com as perseguições que se seguiram passou a ser ocupado pelas lésbicas. A repressão ao local continuou, como se pode imaginar, mas era de outra natureza[M2] e não é essa história que eu queria contar. Falando do que me lembro sobre esse meu primeiro endereço, meu parquinho era a praça Roosevelt e, este é o ponto, andava de tico-tico (para quem sabe o que é isso) no Minhocão, enquanto estava sendo construído. Acho que meu pai me levava lá nos fins de semana, quando não havia obras (nem sei se aconteceu mais de uma vez), mas é uma imagem que nunca esqueci. Já não morava no Centro quando o elevado foi inaugurado, em 1971, mas é um local que, de um jeito ou de outro, fez parte da minha vida. Seja por passar muito perto do apartamento dos meus tios, na rua Barão de Campinas, em Santa Cecília, quando eu e minhas primas, mesmo novinhas, circulávamos pelas ruas muito tranquilamente e íamos até a Igreja de Santa Cecília ver a imagem da santa e confabular se era verdade que os cabelos dela continuavam crescendo, seja bem mais tarde quando se tornou meu caminho diário. Foram incontáveis horas parada em seus congestionamentos, pelos menos dois espelhos de carro levados por motoqueiros e, em raras oportunidades, algumas tomadas de curva, numa época em que regras de trânsito e noção de perigo ainda não tinham sido inventadas por aqui. Foi por esses tempos que comecei a acompanhar, como repórter de cidades, as discussões sobre a degradação no entorno atual elevado Presidente João Goulart (cuja alcunha ainda era Costa e Silva) e a possibilidade de impor limites ao tráfego de automóveis e, quem sabe, um dia, até implodir a coisa. Ainda em fins do século passado, eram discussões que – apesar de me deixarem animada – pareciam meio surreais, de tão impossíveis. Os anos passaram e os limites ao tráfego vêm se efetivando lentamente e hoje até parece natural pensar em um Minhocão totalmente sem carros. Com a criação do Parque Municipal do Minhocão, no início deste ano, há uma previsão (sem data determinada) de desativação gradativa do elevado para o trânsito. Atualmente, fecha nos finais de semana e de segunda a sexta-feira entre 20 e 7 horas da manhã. Gosto da ideia do parque. Até acredito que a cidade ficaria mais bonita sem o elevado – e que talvez essa seja a alternativa defendida pelos moradores do entorno. Mas acho que as cidades têm uma história que precisa ser de alguma forma preservada. Além disso, faltam espaços públicos em São Paulo. Ter os 2,8 km de pistas abertas a pedestres e ciclistas me parece razão suficiente para manter o viaduto. Costumo passear por lá algumas vezes por ano. É um trajeto mais do que tudo afetivo, mas também uma oportunidade de vivenciar a metrópole por um ângulo diferente e também olhar os belos murais das empenas cegas dos prédios – tanto os grafites quanto as incríveis paredes verdes. E as pessoas fotografando, atividade que mais vejo as pessoas fazendo por lá, o que mostra que a obra mais bizarra da cidade também pode ser fotogênica. [M1]https://blogdaboitempo.com.br/2013/05/08/de-bar-em-bar-xxiv-ferros-bar/ [M2]https://vangeleonel.blogspot.com/2008/09/revolta-do-ferros-bar.html Foto: Minhocão em um sábado de sol.
Sandubas tradicionais paulistanos são para os fortes
Há pelo menos três sanduíches tradicionais paulistanos: o Bauru do Ponto Chic, o de mortadela do Mercado Municipal e o de pernil do Estadão. Todos são deliciosos, todos têm por base o pão francês – típico da cidade -, todos são exagerados. Isso significa que é praticamente impossível comer sem se lambuzar e devorá-los por inteiro é para os fortes. O Bauru do Ponto Chic, diz a lenda, foi criado nos anos 1930 por um dos alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco que frequentavam o bar no Largo do Paissandu, cujo apelido era o nome de sua cidade natal e acabou batizando também o sanduba. Embora se possa comer bauru em qualquer padaria paulistana – sanduíche caracterizado por ser um misto quente (queijo e presunto) com tomate -, o do Ponto Chic é muito mais incrementado: inúmeras fatias de rosbife, tomate em rodelas, pepino em conserva e uma mistura de quatro tipos de queijos fundidos em banho-maria (prato, estepe, gouda e suíço). Hoje pode ser encontrado nas três lojas do bar, além da do Paissandu, também em Perdizes e no Paraíso. Dos mesmos anos 1930, o famoso sanduíche do Bar do Mané é atração turística no Mercadão, no centro da cidade. É recheado com cerca de 300 gramas de mortadela da marca Ceratti. Para quem acha que é pouco, pode acrescentar queijo prato, alface e tomate. É tanta mortadela, que é quase impraticável segurar o gajo. O Bar Estadão tem esse nome por estar localizado no Viaduto 9 de Julho, ao lado da antiga sede do jornal O Estado de S. Paulo. Desde o final dos anos 1960, foi ponto de encontro de políticos, jornalistas e intelectuais e continua atraindo o mais variado tipo de público, disposto a comer no balcão seu famoso sanduíche de pernil com um molho feito com cebola, tomate e pimentão. Aqui também pode ser acrescentado queijo, conforme a preferência do freguês. O melhor é que o bar fica aberto 24 horas, o que significa que não há limitação de horário para matar a fome. Experimentar esses sandubas é obrigatório para quem gosta de tradições e não se importa de enfiar o pé na jaca. Se pudesse dar um conselho para seus diletos vendedores, apenas sugeriria que criassem versões mais de acordo com os padrões menos glutões atuais, para satisfazer quem quer ter esse prazer sem deixar parte da comida no prato. Foto: No Estadão, lutando entre a razão e a gulodice.
Literatura que vem da África será destaque na Flip
O que uma mulher, que se sente inadequada com seu corpo – e carrega esse peso real e metafórico – por toda a sua vida, tem em comum com outra mulher, que se sente insatisfeita no papel de mãe e se apoia em uma babá para se realizar profissionalmente, e essas duas com um porco-espinho condenado a ser o duplo de um humano e fazer maldades em seu lugar? Aparentemente nada, a não ser o fato de serem personagens de três livros escritos por autores nascidos na África e revelados para a literatura na Europa. Isabela Figueiredo, autora de A Gorda, é moçambicana, filha de portugueses, e se mudou para Portugal após a independência da colônia; Leila Slimani, autora do best-seller Canção de Ninar, nasceu no Marrocos e vive na França; Alain Mabanckou, autor de Memórias de Porco-espinho, é natural da República do Congo, despontou para a literatura na França e hoje mora nos Estados Unidos. Os três estão entre os escritores convidados da próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 25 e 29 de julho, e por isso foram tema da última reunião do nosso Círculo Feminino de Leitura (CFL), na semana passada. Estamos nos preparando para comemorar neste evento os 10 anos desse grupo de mulheres leitoras. Na bagagem, levaremos também a leitura de O Caderno Rosa de Lori Lamby, da autora homenageada Hilda Hilst, e dos também africanos/europeus Djaimilia Pereira de Almeida (Esse Cabelo – A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras) e André Aciman (Me chame pelo seu nome). Não sei se essa seleção foi proposital, mas esse mergulho na Flip nos proporcionou um contato inesperado com escritoras e escritores africanos, que eram franca minoria na nossa relação de mais de 130 obras lidas desde o início do CFL. O fato de nenhum deles ainda viver na África ou ter ficado conhecido a partir de lá é um indicativo de que o problema não deve ser falta de talentos, mas oportunidades, naquele imenso e populoso continente. Autores brasileiros devem entender do que estou falando. Com temas e estilos tão diferentes, todos esses livros são ótimos e renderam debates incríveis. Com A Gorda, romance de pitadas autobiográficas, vimos uma mulher em permanente luta contra o abandono – da terra natal, dos pais – que permaneceram ainda por muito anos em Moçambique antes de também retornarem a Portugal -, da melhor amiga, do amor da sua vida. A fome de amor se traduz em uma fome real, que define seu corpo e sua história, de modo que já não é possível saber o que é causa e o que é consequência. Logo no início, nos conta que perdeu 40 quilos com uma gastrectomia, mas foi uma meia-solução: “Ainda penso como gorda. Serei sempre uma gorda. Sei que o mundo das pessoas normais não é para mim”. Fugir ao padrão de beleza feminino é uma carga tão grande para Maria Luiza, a protagonista do romance, que se torna a questão central em sua vida, eclipsando tudo o que ela apenas sugere – e que se torna mero pano de fundo em sua trajetória -, que é ser uma intelectual brilhante e reconhecida. Ser marginalizada na escola, preterida no baile de formatura, rejeitada pelo namorado, que tinha vergonha dela, criticada pela mãe, são questões que nem a conquista de um novo corpo tem a capacidade de apagar. Em Canção de Ninar, mais uma vez, nos deparamos com as limitações impostas às mulheres e nos identificamos com aquela jovem advogada que se torna mãe e vê todo o seu potencial se perder em uma rotina nada estimulante, enquanto o marido ascende profissionalmente. Mesmo quando decide contratar uma babá para poder voltar ao trabalho, recebe um apoio relutante do marido, que, em nenhum momento, mesmo quando as coisas claramente estão se tornando problemáticas, assume um papel igualitário na responsabilidade pelos filhos. O mote da história, com a babá sendo uma psicopata que mata as crianças, parece gritar que essa mãe fez a opção errada, que foi egoísta. A autora estressa uma culpa tão conhecida por mães de classe média brasileiras: culpa por trabalhar não apenas por questões financeiras, mas também por realização e ambições pessoais; culpa por não serem mães perfeitas e não estarem presentes sempre que os filhos precisam – produzindo com isso uma geração de crianças mimadas e sem limites, num processo de compensação ilimitado; culpa, para algumas, por sublocar, por valores que sabe serem irrisórios, seus filhos a outras mulheres que, nesse caso por necessidade de sobrevivência, muitas vezes abrem mão de cuidar de seus próprios filhos para se dedicar ao de outras, num círculo vicioso de frustrações. Parece que Slimani está gritando que esta é uma questão não resolvida na nossa sociedade e que precisamos falar mais e mais sobre isso. Ao dar voz ao irônico porco-espinho, Mabanckou também está jogando na cara dos humanos – que chama de primos dos macacos – o quando essa espécie que domina o planeta é pretenciosa e age sem nenhuma razoabilidade. Obrigado a realizar tarefas maléficas de seu senhor, movidas sempre por motivos torpes, como ciúme, inveja, vingança, o duplo nocivo se questiona: “quem entre o Homem e o animal é verdadeiramente uma besta? Vasta questão!” Fotos: Livros e mimos da reunião do CFL de julho e nossas discussões, tudo fotografado pela Wal.
Agrotóxico é veneno, não adianta maquiar o nome
Já entrevistei muito agricultor na vida e nunca vi nenhum chamar agrotóxico de defensivo agrícola. Para eles, a coisa chama veneno mesmo. Isso significa que agrotóxico já é o nome bonzinho para um produto desenvolvido para matar – insetos, plantas invasoras e outras “pragas” que podem atacar a plantação. O grande desafio no uso desses venenos é dosar a quantidade para que mate o que atrapalha sem destruir a cultura que se quer proteger. Para os fabricante, se prejudica a saúde do agricultor (ou do consumidor), é um detalhe bem ilustrado pela luta empreendida pelas empresas produtoras desses químicos contra toda legislação que tenta restringi-los. Ao invés de procurar fazer que seus produtos sejam cada vez menos tóxicos, em geral, a indústria prefere investir em propaganda ou no desenvolvimento de espécies resistentes ao veneno, seja pelo processo da seleção natural, seja via transgênicos. Esse é o caso do defensivo Roundup, nome comercial de um herbicida fabricado pela Monsanto cujo princípio ativo é o glifosato, conhecido por contaminar alimentos, atmosfera, solo e lençol freático, podendo causar intoxicação humana mesmo quando consumido em baixas doses. É tão forte que causava a morte da soja que tentava “proteger”. A solução foi criar uma soja transgênica resistente ao produto, que pode tomar banho com ele à vontade. Já os rios, o solo, os animais que se alimentam da soja (inclusive os humanos que a consomem direta ou indiretamente) são só o “detalhe”. Não é à toa que essa indústria também luta ferozmente para que não se tenha a obrigação de avisar nas embalagens dos alimentos que eles têm origem transgênica. São questões como essas que estão em jogo na votação, que se desenrolou ao longo desta semana na Câmara Federal, do chamado Pacote do Veneno, voltado a flexibilizar ainda mais a legislação dos agrotóxicos no país, que já é uma das mais tolerantes. O Brasil é o país onde mais se consomem esses agroquímicos no mundo e onde são permitidos produtos há tempos proibidos na Comunicada Europeia e nos Estados Unidos. A pior parte desse pacote nem é a questão do nome da coisa, que no projeto final que está em discussão ficou como “pesticida” (a contratação do publicitário mais famoso do país pela Confederação Nacional de Agricultura deve dar conta disso sem lei mesmo), mas permitir que esses produtos possam ser liberados pelo Ministério da Agricultura sem análises de outros órgãos que são hoje reguladores, como a Anvisa e o Ibama. Não sou especialista nem tenho a pretensão de ficar contradizendo cada argumento dessa poderosa indústria, que faz gato e sapato desde sempre em países menos desenvolvidos, onde a democracia é mais claudicante. O que ouvi de pequenos agricultores que entrevistei para reportagens e livros que falam sobre agricultura sustentável, em várias parte dos país, é que o que a indústria chama de técnicos que os visitam são, na verdade, vendedores encarregados de fazer o agricultor comprar cada vez mais, dando o mínimo de orientação, para que ele fique dependente e use o máximo possível dos produtos. Vários produtores rurais acabam optando pela agricultura orgânica depois de ficarem doentes. Críticos que dizem que produtos orgânicos são para ricos, me emocionam só até a página 2. É claro que disputar com a indústria do veneno é difícil e ganhar escala competitiva é difícil, fazendo esses produtos chegarem mais caros aos supermercados. Mas essas diferenças de preço vêm caindo rapidamente e as opções de locais de compras, principalmente as feirinhas de orgânicos, crescem em todas as regiões do país. Há anos, na minha casa, a maior parte verduras e legumes que comemos (e frutas quando há disponibilidade) é orgânica – ou fornecida por um produtor daqui mesmo da região metropolitana, que entrega em casa semanalmente, ou plantada na nossa horta. É um processo de reaprendizado, pois ficamos (mal)acostumados a comprar o que queremos em qualquer época do ano e os produtores orgânicos precisam respeitar as épocas de cada cultura. O resultado é um cardápio muito mais rico e variado ao longo do ano (e sem tomates que podem durar mais de um mês na geladeira – que medo!). Outro dia, meu marido, que não é ambientalista de carteirinha como eu, comentava feliz como ninguém mais fica doente em casa. Tenho como provar que é por causa do que comemos? Não. Pretendo mudar? Só se for para aumentar a quantidade de produtos orgânicos na mesa. (Foto: Aplicação de agrotóxico)
A pintora e o revolucionário: quando ficção parece realidade que parece ficção
A melhor parte de ler livros que romanceiam acontecimentos históricos é humanizar os personagens e trazê-los para um mundo mais palpável. Por outro lado, podem nos fazer cair na armadilha de tomar ficção por realidade e não termos mais como diferenciar o que realmente aconteceu do que foi inventado. Isso está particularmente na moda quando se trata de autobiografias. O autor se protege mudando nomes, fantasiando alguns fatos, mas todo mundo sabe que trata-se da vida dele, só que não temos como separar as duas coisas. É superlegítimo, instiga, não tira o prazer da leitura, mas confunde. Quando é um romancista partindo de uma fato que conhecemos, mas não muito, e sobre o qual há pouca informação disponível, esse efeito é mais forte ainda. Mesmo sabendo que o que está sendo contado não é exatamente verdade, nossa mente registra a informação como tal e isso mistura com o que sabemos mais ou menos e pronto: temos uma nova versão particular reinventada. Se já passamos pelo vestibular, não há o que temer. É essa a sensação que me acompanhou durante a leitura de “Frida e Trótski – a história de uma paixão secreta”, de Gérard de Cortanze (Planeta, 2018). O romance é centrado na relação – ao que parece verídica – entre a pintora mexicana Frida Kahlo e o revolucionário comunista León Trótski, durante seu exilio na Cidade do México (entre 1937 e sua morte em 1940) – país que o aceitou após estar jurado de morte por Stálin -, por intervenção justamente de Diego Rivera, o influente pintor que era marido de Frida. Fui acompanhada durante a leitura pela impressão que o romance entre os dois personagens foi muito inflado no livro, que sustenta que, mesmo após os poucos meses do caso em si, os laços entre eles nunca foram rompidos. Falta verossimilhança para nos fazer acreditar na importância desse relacionamento tanto para Frida quanto para Trótski, cuja relação com sua mulher Natalia Sedova continuou firme e forte depois disso. Talvez o título do livro em português colabore para o desconforto. No original, em francês, o nome é “Les Amants de Coyacán”, que suaviza a palavra paixão – termo bastante dramático – para amante, algo mais normal na vida de Frida, cuja paixão foi reservada a Rivera. Mas é só um palpite. A parte essa questão, o romance é muito gostoso de ler, nos faz entrar no mundo de Frida e sua época. Essa mulher incrível causaria furor hoje em dia, imagina na década de 1930, em um México ultracatólico e um mundo mergulhado no nazifascismo da Segunda Guerra Mundial. Também traz certa normalidade a um personagem como Trótski, com sua vida que parece série do Netflix (como é que ainda não fizeram uma!). É como se naquele período final, quando viveu praticamente prisioneiro e aguardando o momento, que de fato ocorreu, do seu assassinato, Frida representasse para León um oásis de juventude e liberdade que o ajudava a fugir das lembranças doloridas – que incluíam a morte dos quatro filhos – e do destino inexorável que o esperava. Sobre avida amorosa do revolucionário soviético, o artigo “Trótski teve casos amorosos com a pintora Frida Kahlo e com uma prima de Winston Churchill”, de Euler de França Belém, no jornal Opinião, é bastante saboroso: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/trotski-teve-casos-amorosos-com-pintora-frida-kahlo-e-com-uma-prima-de-winston-churchill-97477/ (Foto: Contracapa do livro “Frida e Trótski – A história de uma paixão secreta”)
Sesc 24 de Maio é oásis de modernidade no Centro
Fui conhecer o Sesc 24 de Maio, inaugurado no ano passado no antigo prédio da Mesbla, no Centro – destino que tem se tornado constante, com mais surpresas positivas do que negativas. Desci na estação Anhangabaú do metrô, que é um pouco mais longe do que a República, mas o caminho é bem bacana, passando pelo Teatro Municipal. Me desafiar a fazer um passeio por semana a lugares diferentes tem me feito (re)descobrir a cidade real, longe da cidadela Zona Oeste onde me refugiei. Andar a pé, de metrô, descobrir caminhos com a escala do pedestre tem sido gratificante. Talvez isso aconteça por ser o que eu disse – passeio. Quando só usava transporte público, meu esgotamento era patológico. Venci meu medo de dirigir e comprei um carro para não desistir de estudar e ter um pouco mais de vontade de trabalhar. De dentro do carro a vida fica mais fácil, mas cria uma dependência da qual estou tentando me libertar. A primeira impressão ao chegar no prédio do Sesc, lindamente reformado a partir de projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, é de entrar em um mundo diferente. Saem os prédios antigos, a superlotação das ruas, a agitação das galerias e surge um ambiente ultramoderno, amplo, onde reina confraternização e tranquilidade. Grupos de jovens, crianças, gente de todo tipo circula e se reúne em pequenos grupos para aproveitar um espaço público acolhedor, caso raro em São Paulo. Logo na entrada, há um balcão de informações onde te ajudam a se localizar e saber o que há para fazer. Pena que muitas atividades do Sesc são restritas aos comerciários (já fui associada quando trabalhava em jornal). Não consegui ver a piscina icônica na cobertura, só é aberta à visitação às quartas (fui em uma quinta), mas subi ao café do 11º andar (Jardim da Piscina), onde tem um espelho d´água e se pode passar o tempo tranquilamente nos bancos e poltronas com vista para a cidade. Desci depois pelas rampas, que são uma atração por si só, vendo tudo o que há nos demais andares. As salas de ginástica são incríveis! O andar de exposições é o quinto e, até 26 de agosto, é possível ver a mostra “Jamaica, Jamaica!”, que traz a história deste país caribenho, com um grande enfoque em sua música. Tema novo para mim, uma Jamaica além de Bob Marley e do reggae, que vai do sound system, na década de 1950, até o dancehall, que começou nos anos 1990 e pelo visto são a inspiração até das dançarinas de funk nos bailes no Brasil. Descobri que a origem dos hastafáris é um imperador da Etiópia, Haile Selassie, coroado em 1930, que representou a resistência ao colonialismo e era considerado a encarnação de Deus por seus seguidores jamaicanos. Ras era o título do príncipe e Tafari Makonnen, nome de Selassie antes da coroação. Só exposição já vale a visita. (Fotos: Café Jardim da Piscina e exposição Jamaica, Jamaica!)
Ecofalante: uma mostra necessária
A 7ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental termina hoje, depois de duas semanas, quando exibiu mais de 120 filmes de 31 países, gratuitamente, em vários espaços de São Paulo, além de realizar debates, oficinas e prêmios. Nesta edição, assisti a quatro filmes, com temáticas diferentes e bastante contundentes. Fiquei feliz porque todas as seções a que estive estavam lotadas – porém foram acompanhadas de debates, então não sei dizer se foi uma constante. Mas uma coisa é certa: a mostra vem crescendo muito e deve aumentar ainda mais nos próximos anos, tanto porque o público vem aprendendo a assistir documentários quanto porque a temática socioambiental ambiental vem ganhando adeptos. Acredito que o interesse por documentários venha da maior difusão deste tipo de filme a partir das TVs pagas e streaming, mas também da pouca profundidade e credibilidade tanto da imprensa tradicional quando das redes sociais. Notícias rápidas cansam e não satisfazem, as pessoas buscam nos documentários um pouco de reflexão. A maior conscientização e os sinais do dia a dia também têm aumentado a curiosidade sobre mudanças climáticas, economia verde, consumo sustentável, entre outros assuntos para os quais passamos a dar importância e procuramos maneiras de nos informar. Mais do que os debates, que trouxeram visões muito interessantes, os filmes que vi foram todos muito perturbadores. O primeiro (Safari, de Ulrich Seidl, Áustria, 2016), que abriu a mostra, é bastante indigesto, várias pessoas não conseguiram ficar até o fim. O documentário mostra europeus (alemães e austríacos) que fazem “turismo” de caça na África. Para alguns, é chocante ver tirar a pele de uma zebra ou de uma girafa, com o que concordo. Mas o pior no filme, para mim, foram os depoimentos dos turistas/caçadores, descrevendo o prazer de atirar, os motivos torpes e mentirosos que justificam seu hobby (chegaram a dizer que é pelo bem dos animais, pois já estão velhos) e o prazer em tirar fotos ao lado do bicho morto. A desfaçatez de contarem com ajudantes negros para fazer praticamente todo o trabalho (eles não carregam nada, não fazem praticamente nada, apenas apertam o gatilho após o guia escolher o bicho e posicionar a arma, e sorriem para a foto). Depois da caça, após escalpelarem o bicho, os nativos ficam apenas com suas patas, que levam para alimentar a família em casebres miseráveis. Como disse um amigo, não é exatamente um filme sobre natureza, mas sobre a natureza humana. O segundo filme que assisti, Sob a Pata do Boi (de Márcio Isensee e Sá, Brasil, 2018), aborda a criação de gado na Amazônia, mostrando sua relação direta com o desmatamento. Apesar de fazer um alerta, principalmente para os consumidores urbanos, para que se antenem sobre de onde vem o seu bifinho, é um filme um pouco mais otimista, ao mostrar que já há pecuaristas fazendo diferente e que é possível produzir sem destruição. A diferença entre uma fazenda bem manejada das demais é uma coisa que sempre me impressionou nas minhas idas para a região. São oásis cercados de “velho oeste” ou, em alguns casos, quando a queimada da floresta foi recente e não tiveram nem o trabalho de tirar os tocos das árvores incendiadas, parecem cenário de filme pós hecatombe nuclear. Minha terceira incursão foi para o debate sobre consumo, precedido de um curta chamado Coração de Açougueiro (de Marijn Frank, Holanda, 2017), que descreve o dia a dia de uma família de açougueiros pela perspectiva de um adolescentes dividido entre a tradição de trabalho da família e o bullying que sofre dos colegas por conta da atividade: pouca gente encara que, para comer carne, um animal deve ser morto. Logo em seguida, Uma História de Desperdício (de Anna Chai e Nari Kye, Estados Unidos, 2017) apresenta as consequências do consumo alimentar no mundo, mostrando o desperdício desde a produção do campo, industrialização, comercialização, consumo e descarte. E como o que é jogado fora seria suficiente para que não houvesse ninguém passando fome no mundo. A condução do filme segue a sequência que nós, comunicadores da área, tendemos a dar para nossos produtos (sejam filmes, matérias, livros), que é mostrar os problemas e depois trazer as soluções que estão sendo buscadas. Nesse caso, animais alimentados com sobras da indústria, restaurantes populares abastecidos com sobras de restaurantes chiques, países onde o descarte tem reduzido muito. O tom otimista dessa última parte, porém, é minimizado no depoimento do chef-celebridade Anthony Bourdain, que abre e fecha o filme. Norte-americano, super viajado e estrela de TV, começa falando da diversidade dos alimentos no mundo, em como as pessoas se conectam por meio deles. No final (não lembro as palavras literais, mas a mensagem me marcou muito), começa com um discurso edificante, mas termina ironicamente perguntando se deveria dizer que, na verdade, não há solução, já que o problema está mesmo no ser humano. Mais uma falha minha, nuca tinha ouvido falar de Bourdain, que sequer foi identificado no filme. Mas seu tom pessimista me deixou triste, pois, sem esperança, o que nos resta é ficarmos imóveis vendo o apocalipse chegar. Eis que dois dias depois de conhecê-lo no filme, descubro quem é pelas manchetes que noticiaram o seu suicídio. Desde então, tenho pensado bastante que precisamos realmente encarar nossos problemas como espécie e, para isso, é necessário ir fundo em questões que não gostamos, sobretudo nossa maneira injusta de tratarmos com nossos semelhantes, com as desigualdades de todos os tipos, e de lidarmos com nossa casa, que é o planeta que habitamos. Para tanto, filmes como os da Ecofalante são essenciais. Mas que nos levem para uma (re)ação e não para a depressão. (Foto: cena do filme Safari/Divulgação)
Me chame pelo seu nome, porque eu me desejo através de você
Mais do que um amor de verão, o romance entre Elio e Oliver, em “Me chame pelo seu nome”, de André Aciman, é uma paixão daquela fase em que estamos descobrindo a sexualidade e como lidar com ela. Daquelas onde a pessoa amada é idealizada como uma projeção de nós mesmos e da ideia que fazemos do amor. O fato dos personagens passarem a chamar um ao outro pelo seu próprio nome parece ser uma forte representação disso. Essa foi a impressão mais forte que ficou deste livro do mês, na última reunião do CFL-Círculo Feminino de Leitura. Foi mais uma obra da nossa lista de autores que estarão na próxima Flip, em julho, em Paraty, onde vamos comemorar os 10 anos do nosso grupo [há mais três na nossa mira até a viagem]. Mesmo não tendo sido uma unanimidade – parte adorou (foi o meu caso!), parte achou apenas uma história de amorzinho -, todas achamos um mérito do livro o fato da homossexualidade não ser uma questão tão relevante na narrativa. Poderia ser contada com qualquer tipo de casal – como deveria ser na vida em geral. O romance nos fez divagar sobre as paixões de juventude, aquelas que, por um período, preenchem todo o seu corpo e o seu tempo e, talvez justamente por não terem prosseguido (ou, em alguns casos, nem se concretizado), ficaram como lembrança da história perfeita (e nem precisaram acontecer na Riviera Italiana!). Nossos amantes do livro são lindos, inteligentes e desejados, e estão em um ambiente de sensualidade que parece só existir mesmo no mundo da idealização. É tudo tão perfeito que você lê e pensa: eu queria ser o Elio, ter 17 anos, viver naquela casa, naquele lugar, ter aqueles pais e amigos, comer a comida e beber os refrescos da Mafalda, tocar piano divina e despretensiosamente, viver uma paixão com o Oliver e, se perigar, até transar com a Marzia. A conversa entre Elio e seu pai, após voltar da viagem a Roma, é uma das partes mais tocantes, onde o pai deixa claro a importância de se permitir seguir o coração e o desejo sem medo do que possa acontecer. “No meu lugar, muitos pais esperariam que a coisa simplesmente sumisse, ou rezariam para que seus filhos se reerguessem logo. Mas eu não sou um desses pais. No seu lugar, se houver dor, cuide dela, e se houver uma chama, não apague, não seja bruto com ela”, aconselha. Quanto sofrimento seria evitado no mundo com posturas assim! Impossível não considerar, ainda, a influência do filme de Luca Guadagnino, ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado em 2018 – um dos raros casos em que cinema e literatura se completam e são tão bons quanto. Mesmo tendo me proposto a esperar ler o livro para depois ver o filme, não resisti e assisti antes de começar. Com isso, já mergulhei na leitura com o cenário e os personagens formados, embora tenham ganhado vida nova e independente ao longo da história. Com o sucesso, o diretor anunciou que vai filmar a continuação do romance. Claro que vou assistir, mas teria terminado o romance onde termina o filme. Saber o que acontece depois não acrescenta muito e quebra um pouco o encanto de se imaginar o que poderia ser.