Sesc Paulista: novo destino para sentir a cidade de cima
A inauguração de um novo Sesc é sempre motivo de agito na cidade. Em cada canto em que há uma unidade, há cultura, há cidadania, há inclusão. Quando isso acontece em plena avenida Paulista, a expectativa só pode ser triplicada. Aberto há pouco mais de uma semana, o Sesc Paulista se transformou no assunto, o lugar que todos precisamos conhecer. Não resisti. Fui no sábado, um pouco receosa de ainda encontrar ecos das filas que aconteceram durante o feriadão. Mas elas não haviam, apesar do movimento intenso. Entrar em prédio, em plana Paulista, sem precisar se identificar ou passar por nenhuma catraca já vale a visita. Entendo todas as formas de medo e necessidade de segurança de nossa sociedade, mas a sensação de ser bem-vinda que entrar e seguir diretamente para o elevador, sem interrupções, dá é muito boa. O destino de praticamente todos que chegam é o mirante na cobertura. Já ponto obrigatório dos visitantes da cidade. No Instituto Moreira Salles, na outra ponta da avenida, também temos uma vista bacana, mas é de mais baixo, em espaço fechado. Não dá para comparar. A cafeteria é convidativa e não consigo de lembrar de algum outro local em que podemos subir para tomar um cafezinho vendo Sampa de cima. Tratamento de ‘primeiro mundo’. Todo brasileiro ama, porque sabemos ser a conta-gotas. De cima, o destino do visitante – após de extasiar – é descer. Nessa hora, os elevadores ‘inteligentes’ são um tanto irritantes: querem saber para qual andar vamos, quantas pessoas querem ir, e o grande irmão por trás da tecnologia parece não se decidir para qual deles nos mandar. Angústias de quem sempre desconfia do novo. Ele deve saber o que faz, mas a espera é um pouco longa e aborrecida. Alguns preferem as escadas, mas achamos 17 andares um pouco demais. Fomos direto aos andares de galerias de arte: 13º (onde não havia programação naquele momento) e ao 5º, onde fomos brindadas com a exposição Visões do Tempo, do videoartista estadunidense Bill Viola, muito bonita e inquietadora (vai até 9 de setembro). Os vídeos mostram movimentos às vezes tão lentos que demoramos para perceber que existem, cenas que parecerem se repetir, outras que de repente mudam e você não percebeu. Mais inquietude. Estão vivos ou são fantasmas? Estão neste mundo? Vale a visita. Não chegamos a ver os demais andares. Pelas fotos, o espaço para crianças é muito bacana, e a experiência diz que a comedoria e as demais atividades esportivas e culturais só podem ser ótimas. Paulistanos agradecem.
As zonas de São Paulo
São Paulo é uma cidade em formato de cruz (com dois lados bem mais compridos que os outros dois), que divide seus moradores em grandes tribos. Com todo esse tamanho, você mora de verdade em um dos grandes bairros guarda-chuvas, que grosso modo correspondem às subprefeituras. Mas a cidadania é dada pela região ou zona: você é da Zona Norte, Zona Oeste, Zona Leste ou Zona Sul, ou resumidamente da ZN, ZO, ZL ou ZS, ou do Centro. É isso que vai te dar identidade de vizinhança. Nasci no Centro, mas fui criada na ZN, que nos anos 1970 não diferia muito de uma cidade do interior bem provinciana. As casas tinham quintal, os portões ficavam abertos, as crianças brincavam na rua. Isso acontecia também outras partes da cidade, mas quando vou até lá hoje em dia – praticamente apenas para visitar meus pais -, é como se voltasse para casa e a qualquer momento fosse encontrar algum amigo de infância – o que nunca acontece. A ZO, onde vivo há mais de 20 anos, é como se fosse a cidade escolhida, eu quis vir para cá, mas me sinto como uma cidadã naturalizada, como se estivesse sempre querendo me enturmar. Minha vida é toda aqui – e isso é um privilégio, perto de grande parte da população que precisa se deslocar de uma região à outra para trabalhar, estudar etc., perdendo horas de vida no trânsito ou trens. Vou a ZS próxima (aquela que também está na mesopotâmia, ou seja, no entre rios Tietê e Pinheiros – para reuniões de trabalho e lazer com alguma frequência, mas sempre me perco. Em algumas avenidas e bairros modernosos – já que é lá onde a cidade rica cresce – me sinto estrangeira. Para a ZL, aquela que é a mais longínqua para todo o resto da cidade, praticamente não vou. É aquela região onde o urbanismo tordo de São Paulo elegeu para ser moradia, preferencialmente moradia popular. Com isso, os acessos são poucos e sempre lotados, sejam as vias sejam os trens. Trabalhei alguns anos em uma área entre o centro e a ZL, mas já há uns 25 anos. Outro dia estive na Mooca, no Teatro Arthur Azevedo, e fiquei surpresa em ver como também esta região vem crescendo e se modernizando. Ótima notícia. Esse bairrismo, que pode parecer estereotipado e divisor, não é necessariamente ruim. Megalópoles do tamanho de São Paulo são uma novidade para a humanidade e ainda estão em teste. Mesmo que estejamos nos adaptando rapidamente, a necessidade de identificação com o lugar onde vivemos ainda é forte e transmite uma certa segurança, a nos mostrar quem somos e porque somos assim. (Foto: no Pico do Jaraguá, vendo a cidade de cima)
O incômodo Caderno Rosa de Lory Lamb
Participo de um grupo de leitura o qual chamamos Círculo Feminino de Leitura (CFL), que completa em julho próximo 10 anos. Somos 11 mulheres que se reúnem mensalmente (entre fevereiro e dezembro) para discutir um livro indicado normalmente pela anfitriã do mês, além de dividir nossas experiências, alegrias e tristezas. Nesse período, lemos e discutimos mais de 130 livros, dos mais diversos gêneros e nacionalidades. Para comemorar nossos 10 anos, achamos que nada melhor do que realizar um sonho antigo e nos reunir na Festa Literária de Paraty. Já reservamos uma pousada e apenas uma de nós, que atualmente mora nos EUA, ainda não conseguiu confirmar. Como parte de nossa preparação, resolvemos que até a viagem vamos ler livros relacionados à Flip. Acabamos de discutir O Caderno Rosa de Lori Lamby, da autora homenageada Hilda Hilst. É preciso que se diga que ninguém ficou indiferente à Lory Lamb. Umas adoraram, outras odiaram. Incumbida de puxar a discussão sobre o livro pornô chique de Hilda Hilst fiz algumas perguntas para iniciar a conversa: Por que o livro incomoda? Pela linguagem obscena? Por ser uma criança? Por falar de prazer de uma forma crua? Por associar sexo, prazer e dinheiro? Pela participação dos pais? Por não ser uma família miserável? Por que foi escrito por uma mulher? E outras para ver como cada uma entendeu o livro: O que mudou da sua impressão após o final do livro? A menina é uma pervertida? A menina não existe e é uma metáfora para a prostituição que é o mercado (no caso o editorial)? O incômodo permaneceu igual? Acabou? Mudou de foco? O que você colocaria no seu caderno rosa? Sexo? Dinheiro? Liberdade? Qual a sua história? Claro que as visões foram muito diferentes e foi curioso ver como o olhar de cada uma se fecha no que mais a toca, no que quer ver. Comecei a leitura com um misto de asco e excitação, mas quando as reviravoltas se apresentaram e passei a enxergar a história em sua perspectiva metafórica passei a simplesmente me divertir e a me encher de admiração pela mulher corajosa que foi Hilda Hilst. Minha pesquisa Google me levou a um texto de 2016, de Francine Ramos: O feminismo de Hilda Hilst: ‘uma aventura obscena de tão lúcida’ (http://livroecafe.com/2016/05/03/o-feminismo-de-hilda-hilst/) – esta última parte é uma frase de outro livro da autora, A Obscena Senhora D, o qual ainda não li. Dois trechos do texto me marcaram, por me identificar com eles: “o anonimato social de uma mulher leva a sua carreira profissional para um lado diferente, como se mesmo fazendo parte dos grandes nomes da literatura, Hilda Hilst, por ser mulher, estivesse sempre à margem”. Sempre que leio um livro de história, me pergunto quantas mulheres geniais passaram pelo mundo sem serem notadas, sem que o seu papel tenha sido considerado. Ou que não tiveram nem a chance de exercer sua genialidade por falta de acesso aos meios para isso. O outro é continuação deste e traz duas premissas que também me são caras: “Hilda Hilst tinha um teto todo dela e dinheiro (conceito empregado por Virginia Woolf, em Um Teto Todo Seu); e assim conseguiu ser livre para escrever sobre o que quisesse, porém, o mundo à sua volta não era livre e recebeu a autora como uma figura provocadora. E ela adorava isso! Como prova, além de tudo, temos a sua obra erótica que até hoje causa espanto até nos mais libertários.” Entre premissas de ter dinheiro e liberdade, a primeira faz toda a diferença e tem a ver com o que disse acima, sobre as mulheres raramente terem acesso aos meios de exercer os seus talentos. Sem dinheiro (ou ganhando pouco, ou tendo seus trabalhos menosprezados), estão sempre inseguras de seu valor ou mesmo impedidas de se mostrar. Esse não era o caso de Hilst nem de Woolf. Hilda podia escrever sem se preocupar com a sobrevivência, sem medo de chocar, porque não dependia de ninguém. O mais incrível, porém, é que soube exercer essa liberdade, sem medo do que pudessem pensar. Mas nem tento: ela mesma diz que escreveu seus livros obscenos para tentar ser lida, tentar ter um reconhecimento popular que considerava negado por ser mulher. Há um crônica de Dráuzio Varela, daquelas que circulam periodicamente nas redes sociais (mas foi publicada na Folha – eu li no dia que saiu), onde mostra a misoginia na sociedade e conclui que, se outra encanação houver, quer novamente nascer homem, para não ter que passar o que uma mulher passa. Em um dado momento do texto, ele exemplifica sua teoria com um homem de meia idade e sobrepeso que, ao se olhar no espelho, bate na pança e sorri feliz consigo mesmo. Para o autor (com quem concordo 100%), dificilmente uma mulher nas mesmas condições teria a mesma segurança com sua aparência. Hilda Hilst, tinha, em relação ao seu trabalho, essa segurança que, em homens ‘alfa’ é considerada normal, mas que em uma mulher é vista como prepotência e falta de noção: “Depois de ter escrito tudo que eu escrevi, e eu sei que escrevi lindamente, que modifiquei a prosa narrativa, eu tenho plena consciência disso, não aconteceu nada. Fiz uma revolução na língua portuguesa, enfoquei os problemas mais importantes do homem, procurei fazer o possível para o outro se conhecer. Fiz um lindo trabalho. E não aconteceu absolutamente nada, não fui lida.” (p. 257, Fortuna Crítica, Pornô Chic, Editora Globo). Uma declaração dessas me deixa mais sem fôlego do que o diário de uma menininha inocente tirando prazer de sua relação com pedófilos agenciados pelos pais. Assim como sua coragem em mostrar que o que acha verdadeiramente pornográfico é o mercado editorial, em busca do sensacionalismo barato. Toda minha admiração para Hilda.
Novata no desfile das campeãs do carnaval
Desprezei solenemente os blocos de carnaval que dominaram a cidade nos últimos três finais de semana. Mas isso não significa que não gosto da folia, apenas que tê-los em abundância embaixo da minha janela diminuiu muito minha tolerância sobre o que é razoável na comemoração. O que não impede de que tudo mude até o próximo ano e eu resolva ser a rainha dos blocos. Mas neste carnaval resolvi me aventurar em caminhos inéditos: pela primeira vez fui ao Sambódromo do Anhembi. Achei que o desfile das campeãs poderia ser uma escolha mais tranquila: menos gente, menos torcida e as melhores do ano. Acertei! Vai entrar para o calendário. Pode até ser que os desfiles competitivos sejam mais animados – as escolas vêm bem desfalcadinhas no das campeãs, o que dá para perceber mais pelos faltantes nos carros alegóricos do que entre os que sambam no chão. Mas ficar folgado na arquibancada, podendo dançar à vontade tem o seu valor. Dá até para sair para ir ao banheiro ou comer alguma coisa e voltar, que o lugar continua lá. Para quem nunca foi, uma dica é ir de táxi: não tenho ideia de como seria possível ir de carro, o horário é péssimo para condução e Uber e congêneres não podem entrar no perímetro do Sambódromo, apenas táxis, que são credenciados e, com isso, se anda um pouco menos. Novatos que não se preocupam em ver onde é seu portão – como eu e o André – vão caminhar um monte de qualquer jeito. Compramos na arquibancada perto do recuo da bateria: outro acerto. Os camarotes são uma fortuna, as mesas ficam no nível da pisca (e ver de cima me parece bem mais legal) e, se chover, você ficará molhado do mesmo jeito. Levando em consideração as estatísticas, tivemos uma sorte tremenda: não estava muito quente e não choveu. Há muitos anos desisti de assistir aos desfiles pela TV, sejam os de Sampa ou do Rio: nunca consegui passar de uma escola e meia antes de cair no sono. Por isso, decidimos não convidar mais ninguém para ir junto, pois, caso ficasse chato, poderíamos ir embora a qualquer momento. Como sempre ouvimos de quem já foi, in loco é muito diferente. Neste ano, desfilaram a Mocidade Unida da Mooca (campeã do Grupo de Acesso 2), Colorado do Brás (2ª lugar no Grupo de Acesso) – que perdemos porque ficamos com medo de chegar muito cedo e não ver as melhores escolas (da próxima vez, vamos antes) -, Águia de Ouro (campeã do Grupo de Acesso), e as cinco primeiras Grupo Especial), Dragões da Real (5º lugar), Tom Maior (4º lugar), Mancha Verde (3º lugar), Mocidade Alegre (Vice-campeã) e Acadêmicos do Tatuapé (Campeã). Assistimos cinco escolas e só não ficamos até a última porque já era quase 5 da manhã e achamos que deu. Das impressões de principiante: quanto mais rica a escola, mais chance de ganhar, os carros alegóricos e as fantasias são tão luxuosos quando aparentam na televisão, mas os carros são maiores e mais impressionantes ao vivo. Mas o que importa mesmo para um desfile ser bom é a qualidade do samba e da bateria. Mesmo assim, ninguém entende o que é cantado. Uma dica que seguirei é imprimir as letras antes de ir. Cantar apenas o refrão (e muitas vezes errado) acaba ficando chato. O intervalo entre uma escola e outra é o suficiente para se sentar, descansar um pouquinho e fazer um lanche. Assim como é muito bem policiado do lado de fora, dentro, o Sambódromo é organizado e conta com opções de comida e bebida tanto em barracas como de ambulantes credenciados. Muitos levam seu próprio piquenique. É um programa família.
Complexo Brasiliana: lindo prédio, ótimo exemplo
Iniciando meu projeto pessoal de conhecer São Paulo, ontem visitei pela primeira vez o Complexo Brasiliana USP, cuja maior atração é a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Minha ideia é que viver nesta megalópole é um privilégio desperdiçado pela maior parte da população. Temo à disposição – ao alcance de uma caminhada ou uma curta viagem (apesar do aperto e do trânsito) de metrô, ônibus ou carro – locais, eventos, experiências que a maior parte das pessoas de outros locais nunca terão na vida, mesmo que viagem bastante. Acredito que estou no topo da pirâmide dos paulistanos que curtem e conhecem o que a cidade proporciona, mas, mesmo assim, é impressionante a quantidade de lugares incríveis que desconhecia até a existência. E nem estou falando, ainda, das coisas novas que abrem todos os dias. A Biblioteca Brasiliana estava na minha lista de locais a visitar desde sua inauguração em 2013, ali bem na frente do prédio da Geografia da USP, na Cidade Universitária, onde passei anos da minha vida como estudante. Minha primeira surpresa foi saber que o prédio imponente pelo qual passei inúmeras vezes é um complexo, que inclui o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), a livraria da Edusp, com uma cafeteria no mezanino, um auditório (István Jancsó, com capacidade para 300 pessoas), além imensos espaços vazios com salas de aula e de exposição. O prédio é muito bonito e já vale a visita, no entanto, passado o impacto inicial, começamos a perceber, minha filha Adriana – que me acompanhou – e eu, que estávamos diante de muito espaço vazio. Talvez por ser férias, o movimento da livraria e da cafeteria era muito pequeno, o da biblioteca poderia ser bem maior (e deve ser – meu filho que estuda na Ciências Sociais me disse que sempre vai estudar lá). Talvez os imensos espaços destinados às exposições também estejam à espera do período letivo para serem ocupados. Mas a impressão geral é de desperdício (mesmo que esteja tudo muito bem cuidado). A pior sensação é a parte destinada ao IEB, com andares e andares de prateleiras vazias à espera de um acerto que nem deus sabe quando seguirá para lá (pelo menos foi a informação que tivemos dos recepcionistas do prédio). Pelo que nos disseram na portaria, apenas a administração foi para o novo endereço, porém o acervo – que o folder me diz ser formado por 147 conjuntos documentais formados por artistas e intelectuais brasileiros, distribuídos entre arquivo, biblioteca e coleção de artes visuais – estão ainda na antiga sede. É uma pena. Criado pelo jornalista, sociólogo e historiador Sérgio Buarque de Holanda, em 1962, como um centro multidisciplinar de pesquisas e documentação sobre a história e a cultura do Brasil, o IEB tem o mesmo espírito da Biblioteca Brasiliana, de disponibilizar acervos pessoais de grande importância para a história e cultura do país, como o de Guita e José Mindlin, que está à nossa vista na biblioteca. Ambos os acervos trazem documentos raros (no caso da biblioteca, fomos informadas que, para acessá-los é preciso agendamento) que merecem estar acessíveis e são exemplo para que outras iniciativas do gênero surjam no Brasil.
Estou na rua ou no parque?
A privatização do que é público é uma prática considerada normal no país, e não costuma causar indignação: vender, se apropriar, cobrar por algo que deveria ser de todos é algo super bem aceito, infelizmente. Mas me reservo o direito de continuar me indignando, sobretudo quando é praticada pelo próprio Estado. Hoje pela manhã fomos surpreendidos ao estacionar em um recuo da rua, na frente do Parque Villa Lobos, onde paramos há muitos anos, por um mocinho uniformizado dizendo que agora precisamos pagar para parar ali. Não havia qualquer sinalização indicando a possibilidade de cobrança. Então, ignoramos o mocinho e fomos (eu e o André) fazer nossa costumeira caminhada matutina. Na volta, embora não tenhamos sido incomodados ao pegar nosso carro, vimos uma tabuleta (daquelas usadas por flanelinhas nas redondezas de locais de shows e jogos de futebol) colocada em cima de um cone informando a cobrança. Não somos cretinos, portanto sabemos que o estacionamento do parque foi privatizado (e parece que o parque também, pois se você quiser comer qualquer especialidade de comida servida por food truck em São Paulo, haverá um em algum ponto dentro do Villa-Lobos). Mas esta área não está dentro do parque. Se fosse zona azul, até entenderia. Mas não é um estacionamento. Fomos buscar a licitação: o edital diz que é preciso ter cancela e cabine, além de comunicação visual de pórtico na entrada e na saída. Embora esse lugar na rua esteja marcado em um mapinha dentro da licitação (na qual os números de vagas licitadas não batem com o total de vagas somadas nos mapinhas), tenho dúvida se o lugar faz mesmo parte do parque. Possivelmente, na próxima vez que for ao Villa-Lobos, como sou uma não-cidadã paulista, acabarei tendo que pagar para estacionar o carro (ou me contentar em caminhar na rua perto de casa).
Favela na calçada
A permanência da existência de favelas na nossa sociedade, como se fosse a coisa mais natural do mundo, já é uma aberração. Mesmo as famosas, como Heliópolis e Paraisópolis, hoje mais bairros pobres (romantizados em novelas de TV), me deixam indignada pela lógica de castas de cidadãos. Mas ver uma favela se formar, não em um terreno sem uso ou ocupação social e à mercê da especulação imobiliária, mas em plena calçada, é demais para mim. Em plena Vila Leopoldina, na rua Hassib Mofarrej (esquina com a rua Balmann), há menos de 50 metros da escola da minhas filhas, cresce horizontal e verticalmente uma favela espremida entre os muros (não sei do que) e a rua. Não faço a mínima ideia de como aquelas pessoas têm (se é que têm) acesso à água, por exemplo. Vivem em um ambiente de suprema insalubridade, no qual a proliferação de mosquitos é apenas uma das consequências. A cada vez que passo por ali fico pensando se ou o que eu deveria fazer. Já pensei em ligar para a administração regional, mas aí me pergunto se existe a mínima possibilidade de eles não saberem que a favela existe. Claro que não! Assim, acredito que não fazem nada porque não querem, não podem ou não sabem o que fazer. A região é próxima da Ceagesp e pessoas acampando nas calçadas, recuos de imóveis e canteiros centrais é tão comum quanto os horrendos fios, calçadas e ruas esburacadas que estão por toda a cidade e, talvez para nos proteger, acabamos abstraindo de olhar. Dizem que é porque há bicos na Ceagesp e as pessoas vem de longe para tentar consegui-los. Sou meio ingênua, mas também me pergunto: se a Ceagesp precisa dessas pessoas, porque não tem (ou é obrigada a ter) locais dignos para abrigá-las? A favela da calçada deve existir pelo mesmo motivo, só que esses trabalhadores resolveram trazer a família para ficar por perto. Que cidade é esta que se abastece a custas de pessoas sendo marginalizadas? Agora com o bairro valorizando (parece incrível, mas há condomínios do tipo varanda gourmet pipocando de monte por lá), dizem que a Ceagesp vai sair (coisa que ouço há muito tempo e só acredito vendo). Se isso acontecer, o que vão fazer com toda essa gente? Vão deixar surgir novas favelas no novo endereço, mais longe e em lugar onde não podemos ver? Isso é resolver o problema?
De São Paulo para o Cosmos
Há meio século, quando nasci, São Paulo já era uma metrópole, mas seu clima era ameno, com um friozinho gostoso no inverno e noites agradáveis no verão. Não me lembro de ver ar condicionado na casa de ninguém que eu conhecesse durante toda a minha infância. Aliás, nem ventilador. Isso tudo era coisa de quem morava na praia (como mosquitos e pernilongos, aliás!). A primeira vez que ouvi sobre as ilhas de calor foi nos anos 1980, a partir dos estudos da professora Magda Lombardo, da geografia da USP. Na época, já era jornalista e uma aluna mequetrefe da faculdade em que a geógrafa Lombardo dava aulas. Aliás, foi também nas aulas daquela faculdade que ouvi falar pela primeira vez em aquecimento global. Desde aquele tempo, o assunto me tocou e se tornou norte para minhas escolhas profissionais. Confesso que, no início, acreditava que as ilhas de calor eram o maior problema e que plantar algumas árvores na Zona Leste da cidade iria aplacá-lo. As mudanças climáticas eram problema para discutirmos, mas só afetariam de verdade, e se tudo desse errado, meus bisnetos ou além… Quanta ingenuidade. Hoje, segunda década no século XXI, só os muito muito ingênuos (ou quem nasceu ontem ou chegou a São Paulo na semana passada) não percebe a incrível mudança no clima da cidade e suas temerárias consequências. A crise da água e as enchentes são um bom aperitivo, mas o prato principal está vindo vagarosamente na forma de mosquitos a granel e nas intermináveis noites escaldantes pelas quais passamos. Atordoados (literalmente, pela falta de sono, acredito), começamos a investir em ventiladores (para os pobres remediados) e possantes ar-condicionados, além dos incontáveis produtos químicos contra mosquitos. Afinal, já passamos tanto tempo presos no trânsito, que um pouco de conforto é necessário e merecido. A analogia que me vem é a historinha do sapo, que colocado numa panela de água fria, não percebe se ela for esquentando aos poucos e morre cozido sem se dar conta. Há tempos participo de debates sobre como comunicar esse tema amargo. A equação seria mostrar evidências científicas de maneira que qualquer um entenda, sem causar alarmismo (pois aí as pessoas fogem e não querem nem saber), mas de maneira a fazê-las mudar completamente o seu modo de vida. É um desafio hercúleo, mas necessário. Recém-ingressada no maravilhoso mundo do Netflix, achei a nova edição da série Cosmos, lançada em 2014, pela National Geographic, que não consegui assistir na época porque ver tv com hora marcada já é incompatível como a vida há mais tempo que isso. Mergulhei de cabeça, encantada com a capacidade lúdica que essa série tem de apresentar a complexa estrutura do Universo em uma linguagem acessível a qualquer um e mostrar como estamos interligados e somos parte irrelevante de algo muito maior, e porque, tendo tido a sorte de existir neste tempo e neste espaço, que tem tudo para nos abrigar em segurança – não eternamente, mas por um bom par de milhares de anos -, podemos estar pondo tudo a perder. Apresentada pelo cientista Neil DeGrasse Tyson, seguidor do cientista e astrônomo Carl Sagan (1934 – 1996), criador e apresentador da primeira versão dos anos 1980, a série consegue usar de todos os recursos disponíveis para nos transportar para dentro de uma estrela ou para o fundo do mar e o núcleo de nossas células – a descrição do efeito estufa em Vênus é de arrepiar. Faz o que for preciso para tornar simples o que é complicado: vai in loco, conta história, usa desenho animado e sofisticadíssima animação computadorizada. Deixa qualquer um sem fôlego e emociona. É um tratado contra a ignorância em 13 capítulos. De lambuja, ainda fiquei sabendo que o texto autoral mais antigo de que temos registro é de uma mulher (que viveu onde hoje é o Iraque) e que foram mulheres que descobriram do que são compostas as estrelas, no início do século XX, em Harvard, nos EUA. Por que não há quase mulheres na incrível história das grandes descobertas humanas? Até então, elas eram proibidas de estudar e se dedicar à ciência, como, aliás, ainda acontece em vários locais no mundo contemporâneo. Se dois pensam melhor do que um, o quando poderíamos estar à frente se metade da população do mundo não tivesse sido calada há tanto tempo?
Vivas para o #agoraéquesãoelas
Um dia depois de pensar sobre escrever sobre mulheres poderosas, foi lançado o blog #agoraéquesãoelas pela Folha de S. Paulo (http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2016/01/27/sozinhas-andamos-bem-mas-juntas-andamos-melhor-2/). E não é que fiquei feliz?!?! O movimento realizado por essas mulheres, agora responsáveis pelo blog (Alessandra Orofino, Ana Carolina Evangelista, Antonia Pellegrino, Manoela Miklos) no ano passado, no qual homens colunistas deram espaço para as mulheres escreverem, foi um dos motivos que me inspiraram a não parar de pensar nesse assunto e na necessidade de colocar esse inconformismo para fora. Saber que esse espaço estará aberto em um veículo de tanta importância já é um grande avanço no sentido de reforçar o feminismo que volta a brotar. Por alguns anos, acredito que a mulherada acabou dando uma trégua, talvez pelo cansaço natural da luta, talvez pelas conquistas inimagináveis há um século. Mas é só parar e olhar em volta para perceber que, de verdade, a maior parte dessas conquistas foi parcial, no papel, e não chegou à igualdade de gênero que se precisa. Não adianta contarmos com voto, se não temos representatividade; não adianta apenas lei Maria da Penha, se ainda temos medo de andar na rua (e muitas de chegar em casa…). Não resolve vivermos em um país onde cada um se veste como quer e ter um ministro da Saúde que diz que mulher é mais vulnerável a mosquito porque anda de perna de fora e sandália. Aliás, precisa avisar ao “sábio” ministro Marcelo Castro que é só no ambiente de “excelências” que ele frequenta que homens andam calça comprida e sapatos no Brasil. Voltando ao blog recém-lançado, confesso que pensei em abortar minha ideia, mas escrever sobre esse assunto se tornou uma necessidade. Chegar à maturidade e ver tantas mulheres nessa fase da vida ainda com questões que já deveriam estar superadas (dupla jornada, salários menores, dependendo de aprovação masculina para fazer coisas básicas…) somando-se a novos desafios, como ter que se renovar física, emocional e profissionalmente para uma vida muito mais longa e produtiva do que o imaginado, me impulsionam a contar histórias e também querer compartilhar experiências que tornem a jornada mais fácil para a minha geração e façam com que as gerações mais novas, como a das minhas filhas, possam finalmente usufruir plenamente do que temos tido o aperitivo. Como diz o título do primeiro post do #agoraéquesãoelas, “sozinhas andamos bem, mas juntas andamos melhor”.
Representatividade
A cidade de São Paulo completou 462 anos na segunda-feira (25 de janeiro), ocasião em que foi homenageada pelos principais veículos de comunicação da metrópole. Uma delas, em especial, me chamou a atenção por trazer sacadas bacanas da cidade, pelo menos para a parte badabá dos moradores, na qual, como jornalista, moradora da Vila Madalena, leitora da Folha de S. Paulo, logicamente me incluo. Publicada na revista Sãopaulo (suplemento dominical da Folha, edição 24 a 30 de janeiro de 2016), a matéria lista 62 motivos para gostar da cidade, muitos deles sugeridos por moradores ilustres. Nos últimos 15 motivos, paulistanos indicam “quem representa a cidade e a transforma com seu trabalho”. O primeiro indica o segundo, que indica o próximo e assim por diante. É aí que mora o problema. Vivemos em uma cidade com 11.581.798 habitantes, dos quais 5.500.051 são homens e 6.081.747 são mulheres (estimativa Fundação Seade, 2015), ou seja, meio a meio, com ligeira predominância feminina. No entanto, na visão desses entrevistados, São Paulo é representada sobretudo por homens. Das 14 pessoas consultadas, foram indicados 10 homens, incluindo um que decidiu na maturidade viver como mulher, um coletivo (com homens e mulheres) e apenas três mulheres. Nenhuma das mulheres consultadas indicou outra mulher (o que certamente não era uma obrigação). Minha questão não são os nomes escolhidos (que realmente representam e transformam essa metrópole para melhor), mas por que, no universo de possibilidades de escolha, a representatividade feminina ainda seja tão pequena? Faltam mulheres realizadoras ou falta visibilidade ao seu trabalho?