Nostalgia do que não vivi
Visitar a Casa da Imagem, para qualquer paulistano ‘da gema’, é como viajar no túnel do tempo e sentir saudade de uma cidade que não existe mais, ou ainda, acompanhar as diversas cidades que foram se transformando e sobrepondo para desembocar nesta que habitamos hoje. Este museu, localizado próximo à Praça da Sé, ao lado do Pátio do Colégio, faz parte do Museu da Cidade de São Paulo, responsável por 13 edificações históricas que exemplificam a evolução das técnicas construtivas da cidade (várias delas não sabia que existiam), entre as quais estão também o Solar da Marquesa de Santos, separado da Casa da Imagem pelo Beco do Pinto, sobre o qual falarei daqui a pouco. A Casa da Imagem abriga o Acervo Iconográfico de São Paulo, composto por 84 mil fotografias, das quais 140 estão expostas aos visitantes. Elas mostram São Paulo em diversas fases desde a segunda metade do século XIX, quando era uma cidadezinha, antes de se tornar a metrópole do café. Dá para acompanhar o crescimento vertiginoso a partir do início do século XX, quando ainda se conseguia ver as várzeas dos rios e a Serra da Cantareira praticamente de qualquer lugar. Acompanhamos a cidade se industrializar e expandir, com os bairros operários, e se sofisticar, com a construção da avenida Paulista. Vemos o crescimento vertical, com os primeiros arranha céus, a abertura de novas vias, as mudanças nos transportes – dos diversos tipos de bondes até o metrô. O mais legal, porém, está no fim: na última sala do andar de cima fica passando um filme, realizado como propaganda do Sesquicentenário de São Paulo, comemorado em 1954. Em um tom mais do que ufanista, o documentário enaltece a cidade que é “um fenômeno único no mundo”, passando de 350 mil habitantes na passagem do século para os 2,2 milhões cinquenta anos depois. A cidade “que mais cresce no planeta” atraia visitantes dos quatro cantos do mundo para ver as oito casas que eram construídas por hora, além dos grandes edifícios, avenidas e viadutos que surgiam velozmente e a quantidade de carros que não parava de aumentar. A metrópole, diz o filme, se preparava para ser o centro de um Brasil que caminhava a passos largos para ter seu lugar entre os países mais desenvolvidos do mundo. Vale muito a pena assistir! Como o nome diz, a proprietária e moradora mais ilustre do vizinho Solar da Marquesa de Santos foi Domitila de Castro Canto e Melo, que viveu lá entre 1834 e 1867, quando faleceu. Nessa época, o imóvel era famoso pelas festas promovidas por sua dona e era conhecido como Palacete do Carmo. Ambos os imóveis tiveram vários proprietários e usos até serem restaurados e abertos ao público em 2011. Com isso, apesar de serem bons representantes do que era a cidade no século XIX, foram bastante alterados ao longo do tempo e pouco mostram do estilo de vida da aristocracia de então. Por isso, a maior atração do Solar da Marquesa, até 13 de dezembro de 2018, é a exposição “Yolanda Penteado, a dama das artes de São Paulo”, que apresenta a trajetória da mulher que, junto com Assis Chateaubriand e Francisco Matarazzo Sobrinho (Ciccillo) – com quem foi casada -, brindaram a cidade com o MAM SP, o Masp, a Bienal de São Paulo, além de contribuírem para a criação do MAC USP. Fazendeira e socialite, foi daquelas mulheres plenamente classificadas no chavão “à frente de seu tempo”. Nascida no início do século passado, foi casada e se separou duas vezes, administrou sua fazenda, viajou o mundo e conviveu com os maiores artistas de sua época. E ajudou a trazer São Paulo para o cenário internacional das artes. Essa mulher trouxe Guernica, de Picasso, para a II Bienal de São Paulo, em 1953!! Agora, para mim, o menos conhecido dos três espaços é o que tem a história mais interessante sobre a relação da cidade com seus cidadãos e sobre quem manda nela. O Beco do Pinto é uma antiga passagem entre o Solar da Marquesa e a Casa no 1 (como era conhecido o casarão da Casa da Imagem), que, desde a época colonial, era usado para o trânsito de pessoas e animais entre o largo da Sé e a várzea do rio Tamanduateí. Ganhou esse nome quando, em 1821, o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme, então morador do futuro Solar da Marquesa, resolveu fechar o acesso ao beco, privatizando-o e criando uma briga com a vizinhança. Em 1826, a passagem foi reaberta e recebeu da Câmara o nome oficial de Beco do Colégio. Mas, quando o imóvel foi comprado pela Marquesa de Santos – veja só -, a passagem foi oficialmente fechada. Atualmente restaurado, é um lugar bem bonito com vestígios do calçamento original (e fechado na parte de baixo por um portão).
O que nos diz o cabelo crespo
Há sempre uma história por trás de um cabelo crespo. Assim como o gênero e a cor da pele, a textura das madeixas conferem status e estereótipos de todo tipo. Cresci ouvindo na família que minha “gadeia” não tinha jeito (mais tarde soube que era a maneira caipira de se dizer gadelha: o mesmo que cabeleira, cabelo disforme), condenada a usar, em grande parte da infância, o corte “Joãozinho”, para não dar trabalho. Nem tinha cinco anos e já me frustrava por não ter os cabelos na cintura e lisos como os da Wanderleia, para poder dançar e chacoalhá-los ao vento. Não é de admirar que, tão logo pude administrar meus problemas capilares, estes passaram a ser de outra natureza: lidar com químicas, toucas e escovas, sempre com resultados efêmeros ou pouco satisfatórios. Só muito mais tarde pude constatar que minha musa teve que passar pelos mesmos dramas que eu até assumir sua juba original. Durante toda a vida lidei com os sentimentos contraditórios dessa herança latina, que no contexto racista brasileiro tem variadas conotações. Por um lado, o volume dos cabelos me conferia poder, sensualidade. Quando me vejo em fotos assim, me acho mais bonita. Nos meus momentos mais segura de mim, sempre optei pelo cabelo natural. Por outro lado, os cabelos alisados conferem uma aceitabilidade reconfortante. Por incrível que pareça, te tratam melhor nas lojas, mexem menos com você na rua e, até hoje, se escovo os cabelos, a mulherada – sobretudo – invariavelmente diz como estou linda e chique. Minha autoestima vacilante é bastante suscetível. Eis que, na busca por autores que estarão na próxima Flip, em Paraty, onde vamos comemorar os dez anos do CFL-Círculo Feminino de Leitura, nos deparamos com Djaimilia Pereira de Almeida, com seu Esse Cabelo – A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras. Foi identificação à primeira vista. A transposição (supostamente) bem-humorada de sua história de menina mestiça, que sai de Luanda para viver com a família branca em Lisboa, para as aventuras de seus cabelos crespos é tocante. As andanças de Mila – a personagem autora – pelos bairros de Lisboa à procura da cabeleireira perfeita, mulheres originárias de várias partes do mundo, sobretudo da África, traz em seu bojo a necessidade de aceitação, sua em relação a si mesma e também dos outros. Apesar do carinho com o qual se refere aos avós e familiares paternos, que a acolheram, sua relação com a mãe – que ficou em Angola – e avós maternos, também imigrantes em Portugal, é repleta de amor, carinho e compaixão. Seu pertencimento oscila entre as duas realidades e culturas, assim como as mudanças em seu cabelo. Na narrativa, não há grandes explicações, mas impressões e sentimentos. No final, pelo menos por enquanto, já que o mundão dá voltas e Djaimilia é jovem, prevalece a aceitação dos cabelos como são, mostrada a partir do fiasco de seu penteado alisado de casamento, ornamentado com uma tiara, que anos depois deixou como enfeite em sua casa para lembrá-la de seu antigo “drama capilar”. “A travessa exposta na vitrina devolve-me a mim como decoração do meu cabelo. O cabelo é a pessoa. O subterfúgio da comédia, o drama pretensamente tranquilo, são os adornos. ‘Faz de ti um museu mostrando o que já era visível’”, escreveu. Em nossas discussões cefelistas sobre o livro, lembramos do momento de glória dos cabelos crespos nos anos 1960, com o Black Power e o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Recordações dos Jackson Five, dos Globetrotters ou de Tony Tornado cantando BR-3, no início dos anos 70, que nos remeteram à constatação de que conquistas vão e voltam, como a moda. Ver a ostentação de lindos penteados crespos florescer novamente, como marca de um renovado movimento negro – principalmente aqui no Brasil de Marielle – é reconfortante. Nas reuniões do CFL, procuramos sempre meios de vivenciar de alguma maneira a narrativa. Mas, nesta época de discussões – às vezes válidas, outras nem tanto – de apropriação cultural, me causou certo desconforto chegar e encontrar uma peruca Black Power circulando pelas cabeças. Ao longo da noite, porém, em meio a depoimentos de lisas e crespas – nós últimas, todas brancas, que, de verdade, na denominação cabelística, somos apenas “onduladas” – fomos incorporando o poder dessa cabeleira e o quão intimidante ela pode ser para os que ainda insistem em um modelo racista de sociedade. Diante do sofrimento que essa mentalidade tem imposto a gerações de mulheres negras – que apenas conseguimos (talvez) imaginar – só podemos desejar vida longa, cheia e abundante para todos os cabelos crespos.
Há muito mais que cobras e lagartos no Butantan, mas eles ainda são a atração principal
Apesar de um certo incômodo ao dar de cara com jiboias, jararacas, pítons e afins, às vezes te encarando nos olhos, a visita ao Instituto Butantan é sempre um programão. A começar por ficar em meio a uma belíssima área verde, que já vale sozinha o passeio. O fato de poder entrar com o carro e estacionar gratuitamente é quase um milagre em São Paulo e também é um belo convite. Além disso, o ingresso é baratinho (R$ 6,00 o mais caro, para adultos, após vários tipos de isenções e descontos) e vale para os três museus do complexo: Museu Biológico, Museu Histórico e Museu de Microbiologia. Dá para passar um dia inteiro – pena que fecha relativamente cedo (o funcionamento é de terça a domingo, das 9h às 16h45). Mas é claro que a atração principal é o Museu Biológico, com suas serpentes lindas e assustadoras, divertidos lagartos, iguanas e sapos, e os MUITO assustadores aranhas e escorpiões. Confesso que todas as vezes que estive lá, passei correndo por estes últimos. Também tenho dúvidas sobre esse sistema de exposição de animais vivos, do tipo zoológico. Dá pena ver os bichos presos, em pequenas vitrines. O serpentário, do lado de fora, dá um pouco menos essa impressão. De qualquer maneira, a exposição é bastante didática, mostrando de onde vêm, o que comem e quais répteis são venenosos. Mas para mim, o mais divertido (e posso ficar bastante tempo nisso) é brincar de Onde está Wally? com as serpentes, já que elas ficam camufladas e quase sempre imóveis – tirando os momentos em que nos encaram. Algumas vezes, chegamos a pensar que um dos recintos está vazio e, de repente, vemos uma cobra imensa bem ao lado do vidro sem que tivéssemos percebido. O mesmo vale para o serpentário: contar o número de cascavéis vai levar alguns bons minutos. Não conhecia o Museu de Microbiologia e fiquei impressionada ao saber que existe desde 2002. O local me pareceu bastante frequentado por escolas, mas é bem interessante para qualquer leigo ter uma ideia sobre o mundo dos micróbios. Há vídeos mostrando, por exemplo, bactérias sendo contaminadas por vírus e se multiplicando doidamente (isso se entendi direito…). Também dá para ver no microscópio belezuras como o vírus da gripe ou o mosquito da dengue. Para quem estudou em escolas públicas, onde laboratório de ciências era um ser desconhecido, foi bastante interessante. O Museu Histórico mostra objetos antigos utilizados nas atividades de pesquisa e produção de soros e vacinas do Butantan. O museu fica em uma edificação reconstruída no local onde funcionou o primeiro laboratório utilizado pelo cientista Vital Brazil, primeiro diretor do instituto, no início do século passado. Mais uma vez, em um país com tão pouca tradição ou apreço oficial pela ciência, é um prazer ver que há pessoas tanto produzindo conhecimento – e com resultados tão importantes -, quanto difundindo tudo isso, quem sabe inspirando muitos outros a seguir esse mesmo caminho.
Memorial da Resistência: o que o passado nos diz sobre o presente?
O maior impacto de se visitar o Memorial da Resistência é chegar até lá, antes de entrar. Um verdadeiro soco no estômago. Localizado há uns três quarteirões da Estação da Luz, logo atrás da Sala São Paulo, este museu está instalado na Estação Pinacoteca, em um prédio tombado construído para ser estação ferroviária, mais tarde substituída pela Júlio Prestes, e onde funcionou por 42 anos (entre 1941 e 1983) o famigerado Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo, o DEOPS/SP. Sua proposta é nos conectar com um passado de repressão política pouco lisonjeiro e que nos envergonha como país, mas dar de cara com a marquise do edifício tomada por pessoas vivendo ao relento ou em barracas precárias, em meio a excrementos e restos de comida dos quais precisamos desviar, faz do presente algo intolerável. Se as atrocidades cometidas pelos diversos regimes autoritários que formaram o Brasil, sobretudo o regime militar pós-64, que usou aquele espaço para torturar e matar, é algo do qual a maior parte dos atuais brasileiros pode se eximir (afinal não éramos nascidos ou éramos crianças na época), a situação degradante que deixamos existir debaixo de nossos narizes (literalmente) fingindo que não existe, que não é conosco, é nefasta. Pior – pelo que vem sendo demonstrado nas famigeradas redes sociais –, parte da sociedade culpa essa multidão de excluídos por suas mazelas, causando uma sensação de desesperança total: nem a democracia nem a Constituição de 1988 conseguiram dar um sentido de empatia e civilidade ao país. Continuamos, os privilegiados, agarrados à falsa premissa de que, se fingirmos que não existe – e que não temos responsabilidade – a concentração de renda, a injustiça social (e a violência associada à ela), o racismo, a corrupção e outros problemas nossos do dia a dia vão desaparecer sozinhos ou dependem de regimes truculentos e autoritários. Passando por esse corredor da vergonha, entramos em um prédio muito limpo, muito amplo, com funcionários muito gentis e temos acesso a uma exposição autoguiada um pouco difícil de acompanhar. Parece coisa feita para iniciado. O lugar se propõe a mapear a memória da repressão política e dos que resistiram a ela, mas duvido que um jovem que cresceu sem saber o que é poder ser preso apenas por expressar uma opinião ou porque leu um determinado livro entenda, passando por lá, o que isso significa. Mesmo as celas conservadas, mantendo alguns registro feitos nas paredes pelos presos que passaram por lá, parecem um cenário pálido, que dependem de leituras de textos enormes para se saber o que acontecia ali. Senti falta de mensagens mais contundentes, talvez com imagens da tortura (mesmo que em cenas de filmes), dos desaparecidos, dos muitos jovens presos, com os quais os jovens atuais possam se identificar. E até de dados do Brasil real daquela época, que não era absolutamente melhor do que o de agora. Seria bacana se os jovens que se aventurassem a conhecer aquele espaço – muito poucos, pelo que vi na minha visita, aparentemente a partir da persistência de alguns professores abnegados – saíssem de lá acreditando que as imagens que viram do lado de fora ao chegar não são uma novidade do Brasil atual, mas a consequência e a permanência de defeitos de origem que incluem o autoritarismo e a falta – e não excesso – de participação democrática de sua população.
Sesc Paulista: novo destino para sentir a cidade de cima
A inauguração de um novo Sesc é sempre motivo de agito na cidade. Em cada canto em que há uma unidade, há cultura, há cidadania, há inclusão. Quando isso acontece em plena avenida Paulista, a expectativa só pode ser triplicada. Aberto há pouco mais de uma semana, o Sesc Paulista se transformou no assunto, o lugar que todos precisamos conhecer. Não resisti. Fui no sábado, um pouco receosa de ainda encontrar ecos das filas que aconteceram durante o feriadão. Mas elas não haviam, apesar do movimento intenso. Entrar em prédio, em plana Paulista, sem precisar se identificar ou passar por nenhuma catraca já vale a visita. Entendo todas as formas de medo e necessidade de segurança de nossa sociedade, mas a sensação de ser bem-vinda que entrar e seguir diretamente para o elevador, sem interrupções, dá é muito boa. O destino de praticamente todos que chegam é o mirante na cobertura. Já ponto obrigatório dos visitantes da cidade. No Instituto Moreira Salles, na outra ponta da avenida, também temos uma vista bacana, mas é de mais baixo, em espaço fechado. Não dá para comparar. A cafeteria é convidativa e não consigo de lembrar de algum outro local em que podemos subir para tomar um cafezinho vendo Sampa de cima. Tratamento de ‘primeiro mundo’. Todo brasileiro ama, porque sabemos ser a conta-gotas. De cima, o destino do visitante – após de extasiar – é descer. Nessa hora, os elevadores ‘inteligentes’ são um tanto irritantes: querem saber para qual andar vamos, quantas pessoas querem ir, e o grande irmão por trás da tecnologia parece não se decidir para qual deles nos mandar. Angústias de quem sempre desconfia do novo. Ele deve saber o que faz, mas a espera é um pouco longa e aborrecida. Alguns preferem as escadas, mas achamos 17 andares um pouco demais. Fomos direto aos andares de galerias de arte: 13º (onde não havia programação naquele momento) e ao 5º, onde fomos brindadas com a exposição Visões do Tempo, do videoartista estadunidense Bill Viola, muito bonita e inquietadora (vai até 9 de setembro). Os vídeos mostram movimentos às vezes tão lentos que demoramos para perceber que existem, cenas que parecerem se repetir, outras que de repente mudam e você não percebeu. Mais inquietude. Estão vivos ou são fantasmas? Estão neste mundo? Vale a visita. Não chegamos a ver os demais andares. Pelas fotos, o espaço para crianças é muito bacana, e a experiência diz que a comedoria e as demais atividades esportivas e culturais só podem ser ótimas. Paulistanos agradecem.
As zonas de São Paulo
São Paulo é uma cidade em formato de cruz (com dois lados bem mais compridos que os outros dois), que divide seus moradores em grandes tribos. Com todo esse tamanho, você mora de verdade em um dos grandes bairros guarda-chuvas, que grosso modo correspondem às subprefeituras. Mas a cidadania é dada pela região ou zona: você é da Zona Norte, Zona Oeste, Zona Leste ou Zona Sul, ou resumidamente da ZN, ZO, ZL ou ZS, ou do Centro. É isso que vai te dar identidade de vizinhança. Nasci no Centro, mas fui criada na ZN, que nos anos 1970 não diferia muito de uma cidade do interior bem provinciana. As casas tinham quintal, os portões ficavam abertos, as crianças brincavam na rua. Isso acontecia também outras partes da cidade, mas quando vou até lá hoje em dia – praticamente apenas para visitar meus pais -, é como se voltasse para casa e a qualquer momento fosse encontrar algum amigo de infância – o que nunca acontece. A ZO, onde vivo há mais de 20 anos, é como se fosse a cidade escolhida, eu quis vir para cá, mas me sinto como uma cidadã naturalizada, como se estivesse sempre querendo me enturmar. Minha vida é toda aqui – e isso é um privilégio, perto de grande parte da população que precisa se deslocar de uma região à outra para trabalhar, estudar etc., perdendo horas de vida no trânsito ou trens. Vou a ZS próxima (aquela que também está na mesopotâmia, ou seja, no entre rios Tietê e Pinheiros – para reuniões de trabalho e lazer com alguma frequência, mas sempre me perco. Em algumas avenidas e bairros modernosos – já que é lá onde a cidade rica cresce – me sinto estrangeira. Para a ZL, aquela que é a mais longínqua para todo o resto da cidade, praticamente não vou. É aquela região onde o urbanismo tordo de São Paulo elegeu para ser moradia, preferencialmente moradia popular. Com isso, os acessos são poucos e sempre lotados, sejam as vias sejam os trens. Trabalhei alguns anos em uma área entre o centro e a ZL, mas já há uns 25 anos. Outro dia estive na Mooca, no Teatro Arthur Azevedo, e fiquei surpresa em ver como também esta região vem crescendo e se modernizando. Ótima notícia. Esse bairrismo, que pode parecer estereotipado e divisor, não é necessariamente ruim. Megalópoles do tamanho de São Paulo são uma novidade para a humanidade e ainda estão em teste. Mesmo que estejamos nos adaptando rapidamente, a necessidade de identificação com o lugar onde vivemos ainda é forte e transmite uma certa segurança, a nos mostrar quem somos e porque somos assim. (Foto: no Pico do Jaraguá, vendo a cidade de cima)
O incômodo Caderno Rosa de Lory Lamb
Participo de um grupo de leitura o qual chamamos Círculo Feminino de Leitura (CFL), que completa em julho próximo 10 anos. Somos 11 mulheres que se reúnem mensalmente (entre fevereiro e dezembro) para discutir um livro indicado normalmente pela anfitriã do mês, além de dividir nossas experiências, alegrias e tristezas. Nesse período, lemos e discutimos mais de 130 livros, dos mais diversos gêneros e nacionalidades. Para comemorar nossos 10 anos, achamos que nada melhor do que realizar um sonho antigo e nos reunir na Festa Literária de Paraty. Já reservamos uma pousada e apenas uma de nós, que atualmente mora nos EUA, ainda não conseguiu confirmar. Como parte de nossa preparação, resolvemos que até a viagem vamos ler livros relacionados à Flip. Acabamos de discutir O Caderno Rosa de Lori Lamby, da autora homenageada Hilda Hilst. É preciso que se diga que ninguém ficou indiferente à Lory Lamb. Umas adoraram, outras odiaram. Incumbida de puxar a discussão sobre o livro pornô chique de Hilda Hilst fiz algumas perguntas para iniciar a conversa: Por que o livro incomoda? Pela linguagem obscena? Por ser uma criança? Por falar de prazer de uma forma crua? Por associar sexo, prazer e dinheiro? Pela participação dos pais? Por não ser uma família miserável? Por que foi escrito por uma mulher? E outras para ver como cada uma entendeu o livro: O que mudou da sua impressão após o final do livro? A menina é uma pervertida? A menina não existe e é uma metáfora para a prostituição que é o mercado (no caso o editorial)? O incômodo permaneceu igual? Acabou? Mudou de foco? O que você colocaria no seu caderno rosa? Sexo? Dinheiro? Liberdade? Qual a sua história? Claro que as visões foram muito diferentes e foi curioso ver como o olhar de cada uma se fecha no que mais a toca, no que quer ver. Comecei a leitura com um misto de asco e excitação, mas quando as reviravoltas se apresentaram e passei a enxergar a história em sua perspectiva metafórica passei a simplesmente me divertir e a me encher de admiração pela mulher corajosa que foi Hilda Hilst. Minha pesquisa Google me levou a um texto de 2016, de Francine Ramos: O feminismo de Hilda Hilst: ‘uma aventura obscena de tão lúcida’ (http://livroecafe.com/2016/05/03/o-feminismo-de-hilda-hilst/) – esta última parte é uma frase de outro livro da autora, A Obscena Senhora D, o qual ainda não li. Dois trechos do texto me marcaram, por me identificar com eles: “o anonimato social de uma mulher leva a sua carreira profissional para um lado diferente, como se mesmo fazendo parte dos grandes nomes da literatura, Hilda Hilst, por ser mulher, estivesse sempre à margem”. Sempre que leio um livro de história, me pergunto quantas mulheres geniais passaram pelo mundo sem serem notadas, sem que o seu papel tenha sido considerado. Ou que não tiveram nem a chance de exercer sua genialidade por falta de acesso aos meios para isso. O outro é continuação deste e traz duas premissas que também me são caras: “Hilda Hilst tinha um teto todo dela e dinheiro (conceito empregado por Virginia Woolf, em Um Teto Todo Seu); e assim conseguiu ser livre para escrever sobre o que quisesse, porém, o mundo à sua volta não era livre e recebeu a autora como uma figura provocadora. E ela adorava isso! Como prova, além de tudo, temos a sua obra erótica que até hoje causa espanto até nos mais libertários.” Entre premissas de ter dinheiro e liberdade, a primeira faz toda a diferença e tem a ver com o que disse acima, sobre as mulheres raramente terem acesso aos meios de exercer os seus talentos. Sem dinheiro (ou ganhando pouco, ou tendo seus trabalhos menosprezados), estão sempre inseguras de seu valor ou mesmo impedidas de se mostrar. Esse não era o caso de Hilst nem de Woolf. Hilda podia escrever sem se preocupar com a sobrevivência, sem medo de chocar, porque não dependia de ninguém. O mais incrível, porém, é que soube exercer essa liberdade, sem medo do que pudessem pensar. Mas nem tento: ela mesma diz que escreveu seus livros obscenos para tentar ser lida, tentar ter um reconhecimento popular que considerava negado por ser mulher. Há um crônica de Dráuzio Varela, daquelas que circulam periodicamente nas redes sociais (mas foi publicada na Folha – eu li no dia que saiu), onde mostra a misoginia na sociedade e conclui que, se outra encanação houver, quer novamente nascer homem, para não ter que passar o que uma mulher passa. Em um dado momento do texto, ele exemplifica sua teoria com um homem de meia idade e sobrepeso que, ao se olhar no espelho, bate na pança e sorri feliz consigo mesmo. Para o autor (com quem concordo 100%), dificilmente uma mulher nas mesmas condições teria a mesma segurança com sua aparência. Hilda Hilst, tinha, em relação ao seu trabalho, essa segurança que, em homens ‘alfa’ é considerada normal, mas que em uma mulher é vista como prepotência e falta de noção: “Depois de ter escrito tudo que eu escrevi, e eu sei que escrevi lindamente, que modifiquei a prosa narrativa, eu tenho plena consciência disso, não aconteceu nada. Fiz uma revolução na língua portuguesa, enfoquei os problemas mais importantes do homem, procurei fazer o possível para o outro se conhecer. Fiz um lindo trabalho. E não aconteceu absolutamente nada, não fui lida.” (p. 257, Fortuna Crítica, Pornô Chic, Editora Globo). Uma declaração dessas me deixa mais sem fôlego do que o diário de uma menininha inocente tirando prazer de sua relação com pedófilos agenciados pelos pais. Assim como sua coragem em mostrar que o que acha verdadeiramente pornográfico é o mercado editorial, em busca do sensacionalismo barato. Toda minha admiração para Hilda.
Novata no desfile das campeãs do carnaval
Desprezei solenemente os blocos de carnaval que dominaram a cidade nos últimos três finais de semana. Mas isso não significa que não gosto da folia, apenas que tê-los em abundância embaixo da minha janela diminuiu muito minha tolerância sobre o que é razoável na comemoração. O que não impede de que tudo mude até o próximo ano e eu resolva ser a rainha dos blocos. Mas neste carnaval resolvi me aventurar em caminhos inéditos: pela primeira vez fui ao Sambódromo do Anhembi. Achei que o desfile das campeãs poderia ser uma escolha mais tranquila: menos gente, menos torcida e as melhores do ano. Acertei! Vai entrar para o calendário. Pode até ser que os desfiles competitivos sejam mais animados – as escolas vêm bem desfalcadinhas no das campeãs, o que dá para perceber mais pelos faltantes nos carros alegóricos do que entre os que sambam no chão. Mas ficar folgado na arquibancada, podendo dançar à vontade tem o seu valor. Dá até para sair para ir ao banheiro ou comer alguma coisa e voltar, que o lugar continua lá. Para quem nunca foi, uma dica é ir de táxi: não tenho ideia de como seria possível ir de carro, o horário é péssimo para condução e Uber e congêneres não podem entrar no perímetro do Sambódromo, apenas táxis, que são credenciados e, com isso, se anda um pouco menos. Novatos que não se preocupam em ver onde é seu portão – como eu e o André – vão caminhar um monte de qualquer jeito. Compramos na arquibancada perto do recuo da bateria: outro acerto. Os camarotes são uma fortuna, as mesas ficam no nível da pisca (e ver de cima me parece bem mais legal) e, se chover, você ficará molhado do mesmo jeito. Levando em consideração as estatísticas, tivemos uma sorte tremenda: não estava muito quente e não choveu. Há muitos anos desisti de assistir aos desfiles pela TV, sejam os de Sampa ou do Rio: nunca consegui passar de uma escola e meia antes de cair no sono. Por isso, decidimos não convidar mais ninguém para ir junto, pois, caso ficasse chato, poderíamos ir embora a qualquer momento. Como sempre ouvimos de quem já foi, in loco é muito diferente. Neste ano, desfilaram a Mocidade Unida da Mooca (campeã do Grupo de Acesso 2), Colorado do Brás (2ª lugar no Grupo de Acesso) – que perdemos porque ficamos com medo de chegar muito cedo e não ver as melhores escolas (da próxima vez, vamos antes) -, Águia de Ouro (campeã do Grupo de Acesso), e as cinco primeiras Grupo Especial), Dragões da Real (5º lugar), Tom Maior (4º lugar), Mancha Verde (3º lugar), Mocidade Alegre (Vice-campeã) e Acadêmicos do Tatuapé (Campeã). Assistimos cinco escolas e só não ficamos até a última porque já era quase 5 da manhã e achamos que deu. Das impressões de principiante: quanto mais rica a escola, mais chance de ganhar, os carros alegóricos e as fantasias são tão luxuosos quando aparentam na televisão, mas os carros são maiores e mais impressionantes ao vivo. Mas o que importa mesmo para um desfile ser bom é a qualidade do samba e da bateria. Mesmo assim, ninguém entende o que é cantado. Uma dica que seguirei é imprimir as letras antes de ir. Cantar apenas o refrão (e muitas vezes errado) acaba ficando chato. O intervalo entre uma escola e outra é o suficiente para se sentar, descansar um pouquinho e fazer um lanche. Assim como é muito bem policiado do lado de fora, dentro, o Sambódromo é organizado e conta com opções de comida e bebida tanto em barracas como de ambulantes credenciados. Muitos levam seu próprio piquenique. É um programa família.
Complexo Brasiliana: lindo prédio, ótimo exemplo
Iniciando meu projeto pessoal de conhecer São Paulo, ontem visitei pela primeira vez o Complexo Brasiliana USP, cuja maior atração é a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Minha ideia é que viver nesta megalópole é um privilégio desperdiçado pela maior parte da população. Temo à disposição – ao alcance de uma caminhada ou uma curta viagem (apesar do aperto e do trânsito) de metrô, ônibus ou carro – locais, eventos, experiências que a maior parte das pessoas de outros locais nunca terão na vida, mesmo que viagem bastante. Acredito que estou no topo da pirâmide dos paulistanos que curtem e conhecem o que a cidade proporciona, mas, mesmo assim, é impressionante a quantidade de lugares incríveis que desconhecia até a existência. E nem estou falando, ainda, das coisas novas que abrem todos os dias. A Biblioteca Brasiliana estava na minha lista de locais a visitar desde sua inauguração em 2013, ali bem na frente do prédio da Geografia da USP, na Cidade Universitária, onde passei anos da minha vida como estudante. Minha primeira surpresa foi saber que o prédio imponente pelo qual passei inúmeras vezes é um complexo, que inclui o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), a livraria da Edusp, com uma cafeteria no mezanino, um auditório (István Jancsó, com capacidade para 300 pessoas), além imensos espaços vazios com salas de aula e de exposição. O prédio é muito bonito e já vale a visita, no entanto, passado o impacto inicial, começamos a perceber, minha filha Adriana – que me acompanhou – e eu, que estávamos diante de muito espaço vazio. Talvez por ser férias, o movimento da livraria e da cafeteria era muito pequeno, o da biblioteca poderia ser bem maior (e deve ser – meu filho que estuda na Ciências Sociais me disse que sempre vai estudar lá). Talvez os imensos espaços destinados às exposições também estejam à espera do período letivo para serem ocupados. Mas a impressão geral é de desperdício (mesmo que esteja tudo muito bem cuidado). A pior sensação é a parte destinada ao IEB, com andares e andares de prateleiras vazias à espera de um acerto que nem deus sabe quando seguirá para lá (pelo menos foi a informação que tivemos dos recepcionistas do prédio). Pelo que nos disseram na portaria, apenas a administração foi para o novo endereço, porém o acervo – que o folder me diz ser formado por 147 conjuntos documentais formados por artistas e intelectuais brasileiros, distribuídos entre arquivo, biblioteca e coleção de artes visuais – estão ainda na antiga sede. É uma pena. Criado pelo jornalista, sociólogo e historiador Sérgio Buarque de Holanda, em 1962, como um centro multidisciplinar de pesquisas e documentação sobre a história e a cultura do Brasil, o IEB tem o mesmo espírito da Biblioteca Brasiliana, de disponibilizar acervos pessoais de grande importância para a história e cultura do país, como o de Guita e José Mindlin, que está à nossa vista na biblioteca. Ambos os acervos trazem documentos raros (no caso da biblioteca, fomos informadas que, para acessá-los é preciso agendamento) que merecem estar acessíveis e são exemplo para que outras iniciativas do gênero surjam no Brasil.
Estou na rua ou no parque?
A privatização do que é público é uma prática considerada normal no país, e não costuma causar indignação: vender, se apropriar, cobrar por algo que deveria ser de todos é algo super bem aceito, infelizmente. Mas me reservo o direito de continuar me indignando, sobretudo quando é praticada pelo próprio Estado. Hoje pela manhã fomos surpreendidos ao estacionar em um recuo da rua, na frente do Parque Villa Lobos, onde paramos há muitos anos, por um mocinho uniformizado dizendo que agora precisamos pagar para parar ali. Não havia qualquer sinalização indicando a possibilidade de cobrança. Então, ignoramos o mocinho e fomos (eu e o André) fazer nossa costumeira caminhada matutina. Na volta, embora não tenhamos sido incomodados ao pegar nosso carro, vimos uma tabuleta (daquelas usadas por flanelinhas nas redondezas de locais de shows e jogos de futebol) colocada em cima de um cone informando a cobrança. Não somos cretinos, portanto sabemos que o estacionamento do parque foi privatizado (e parece que o parque também, pois se você quiser comer qualquer especialidade de comida servida por food truck em São Paulo, haverá um em algum ponto dentro do Villa-Lobos). Mas esta área não está dentro do parque. Se fosse zona azul, até entenderia. Mas não é um estacionamento. Fomos buscar a licitação: o edital diz que é preciso ter cancela e cabine, além de comunicação visual de pórtico na entrada e na saída. Embora esse lugar na rua esteja marcado em um mapinha dentro da licitação (na qual os números de vagas licitadas não batem com o total de vagas somadas nos mapinhas), tenho dúvida se o lugar faz mesmo parte do parque. Possivelmente, na próxima vez que for ao Villa-Lobos, como sou uma não-cidadã paulista, acabarei tendo que pagar para estacionar o carro (ou me contentar em caminhar na rua perto de casa).