Favela na calçada
A permanência da existência de favelas na nossa sociedade, como se fosse a coisa mais natural do mundo, já é uma aberração. Mesmo as famosas, como Heliópolis e Paraisópolis, hoje mais bairros pobres (romantizados em novelas de TV), me deixam indignada pela lógica de castas de cidadãos. Mas ver uma favela se formar, não em um terreno sem uso ou ocupação social e à mercê da especulação imobiliária, mas em plena calçada, é demais para mim. Em plena Vila Leopoldina, na rua Hassib Mofarrej (esquina com a rua Balmann), há menos de 50 metros da escola da minhas filhas, cresce horizontal e verticalmente uma favela espremida entre os muros (não sei do que) e a rua. Não faço a mínima ideia de como aquelas pessoas têm (se é que têm) acesso à água, por exemplo. Vivem em um ambiente de suprema insalubridade, no qual a proliferação de mosquitos é apenas uma das consequências. A cada vez que passo por ali fico pensando se ou o que eu deveria fazer. Já pensei em ligar para a administração regional, mas aí me pergunto se existe a mínima possibilidade de eles não saberem que a favela existe. Claro que não! Assim, acredito que não fazem nada porque não querem, não podem ou não sabem o que fazer. A região é próxima da Ceagesp e pessoas acampando nas calçadas, recuos de imóveis e canteiros centrais é tão comum quanto os horrendos fios, calçadas e ruas esburacadas que estão por toda a cidade e, talvez para nos proteger, acabamos abstraindo de olhar. Dizem que é porque há bicos na Ceagesp e as pessoas vem de longe para tentar consegui-los. Sou meio ingênua, mas também me pergunto: se a Ceagesp precisa dessas pessoas, porque não tem (ou é obrigada a ter) locais dignos para abrigá-las? A favela da calçada deve existir pelo mesmo motivo, só que esses trabalhadores resolveram trazer a família para ficar por perto. Que cidade é esta que se abastece a custas de pessoas sendo marginalizadas? Agora com o bairro valorizando (parece incrível, mas há condomínios do tipo varanda gourmet pipocando de monte por lá), dizem que a Ceagesp vai sair (coisa que ouço há muito tempo e só acredito vendo). Se isso acontecer, o que vão fazer com toda essa gente? Vão deixar surgir novas favelas no novo endereço, mais longe e em lugar onde não podemos ver? Isso é resolver o problema?
De São Paulo para o Cosmos
Há meio século, quando nasci, São Paulo já era uma metrópole, mas seu clima era ameno, com um friozinho gostoso no inverno e noites agradáveis no verão. Não me lembro de ver ar condicionado na casa de ninguém que eu conhecesse durante toda a minha infância. Aliás, nem ventilador. Isso tudo era coisa de quem morava na praia (como mosquitos e pernilongos, aliás!). A primeira vez que ouvi sobre as ilhas de calor foi nos anos 1980, a partir dos estudos da professora Magda Lombardo, da geografia da USP. Na época, já era jornalista e uma aluna mequetrefe da faculdade em que a geógrafa Lombardo dava aulas. Aliás, foi também nas aulas daquela faculdade que ouvi falar pela primeira vez em aquecimento global. Desde aquele tempo, o assunto me tocou e se tornou norte para minhas escolhas profissionais. Confesso que, no início, acreditava que as ilhas de calor eram o maior problema e que plantar algumas árvores na Zona Leste da cidade iria aplacá-lo. As mudanças climáticas eram problema para discutirmos, mas só afetariam de verdade, e se tudo desse errado, meus bisnetos ou além… Quanta ingenuidade. Hoje, segunda década no século XXI, só os muito muito ingênuos (ou quem nasceu ontem ou chegou a São Paulo na semana passada) não percebe a incrível mudança no clima da cidade e suas temerárias consequências. A crise da água e as enchentes são um bom aperitivo, mas o prato principal está vindo vagarosamente na forma de mosquitos a granel e nas intermináveis noites escaldantes pelas quais passamos. Atordoados (literalmente, pela falta de sono, acredito), começamos a investir em ventiladores (para os pobres remediados) e possantes ar-condicionados, além dos incontáveis produtos químicos contra mosquitos. Afinal, já passamos tanto tempo presos no trânsito, que um pouco de conforto é necessário e merecido. A analogia que me vem é a historinha do sapo, que colocado numa panela de água fria, não percebe se ela for esquentando aos poucos e morre cozido sem se dar conta. Há tempos participo de debates sobre como comunicar esse tema amargo. A equação seria mostrar evidências científicas de maneira que qualquer um entenda, sem causar alarmismo (pois aí as pessoas fogem e não querem nem saber), mas de maneira a fazê-las mudar completamente o seu modo de vida. É um desafio hercúleo, mas necessário. Recém-ingressada no maravilhoso mundo do Netflix, achei a nova edição da série Cosmos, lançada em 2014, pela National Geographic, que não consegui assistir na época porque ver tv com hora marcada já é incompatível como a vida há mais tempo que isso. Mergulhei de cabeça, encantada com a capacidade lúdica que essa série tem de apresentar a complexa estrutura do Universo em uma linguagem acessível a qualquer um e mostrar como estamos interligados e somos parte irrelevante de algo muito maior, e porque, tendo tido a sorte de existir neste tempo e neste espaço, que tem tudo para nos abrigar em segurança – não eternamente, mas por um bom par de milhares de anos -, podemos estar pondo tudo a perder. Apresentada pelo cientista Neil DeGrasse Tyson, seguidor do cientista e astrônomo Carl Sagan (1934 – 1996), criador e apresentador da primeira versão dos anos 1980, a série consegue usar de todos os recursos disponíveis para nos transportar para dentro de uma estrela ou para o fundo do mar e o núcleo de nossas células – a descrição do efeito estufa em Vênus é de arrepiar. Faz o que for preciso para tornar simples o que é complicado: vai in loco, conta história, usa desenho animado e sofisticadíssima animação computadorizada. Deixa qualquer um sem fôlego e emociona. É um tratado contra a ignorância em 13 capítulos. De lambuja, ainda fiquei sabendo que o texto autoral mais antigo de que temos registro é de uma mulher (que viveu onde hoje é o Iraque) e que foram mulheres que descobriram do que são compostas as estrelas, no início do século XX, em Harvard, nos EUA. Por que não há quase mulheres na incrível história das grandes descobertas humanas? Até então, elas eram proibidas de estudar e se dedicar à ciência, como, aliás, ainda acontece em vários locais no mundo contemporâneo. Se dois pensam melhor do que um, o quando poderíamos estar à frente se metade da população do mundo não tivesse sido calada há tanto tempo?
Vivas para o #agoraéquesãoelas
Um dia depois de pensar sobre escrever sobre mulheres poderosas, foi lançado o blog #agoraéquesãoelas pela Folha de S. Paulo (http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2016/01/27/sozinhas-andamos-bem-mas-juntas-andamos-melhor-2/). E não é que fiquei feliz?!?! O movimento realizado por essas mulheres, agora responsáveis pelo blog (Alessandra Orofino, Ana Carolina Evangelista, Antonia Pellegrino, Manoela Miklos) no ano passado, no qual homens colunistas deram espaço para as mulheres escreverem, foi um dos motivos que me inspiraram a não parar de pensar nesse assunto e na necessidade de colocar esse inconformismo para fora. Saber que esse espaço estará aberto em um veículo de tanta importância já é um grande avanço no sentido de reforçar o feminismo que volta a brotar. Por alguns anos, acredito que a mulherada acabou dando uma trégua, talvez pelo cansaço natural da luta, talvez pelas conquistas inimagináveis há um século. Mas é só parar e olhar em volta para perceber que, de verdade, a maior parte dessas conquistas foi parcial, no papel, e não chegou à igualdade de gênero que se precisa. Não adianta contarmos com voto, se não temos representatividade; não adianta apenas lei Maria da Penha, se ainda temos medo de andar na rua (e muitas de chegar em casa…). Não resolve vivermos em um país onde cada um se veste como quer e ter um ministro da Saúde que diz que mulher é mais vulnerável a mosquito porque anda de perna de fora e sandália. Aliás, precisa avisar ao “sábio” ministro Marcelo Castro que é só no ambiente de “excelências” que ele frequenta que homens andam calça comprida e sapatos no Brasil. Voltando ao blog recém-lançado, confesso que pensei em abortar minha ideia, mas escrever sobre esse assunto se tornou uma necessidade. Chegar à maturidade e ver tantas mulheres nessa fase da vida ainda com questões que já deveriam estar superadas (dupla jornada, salários menores, dependendo de aprovação masculina para fazer coisas básicas…) somando-se a novos desafios, como ter que se renovar física, emocional e profissionalmente para uma vida muito mais longa e produtiva do que o imaginado, me impulsionam a contar histórias e também querer compartilhar experiências que tornem a jornada mais fácil para a minha geração e façam com que as gerações mais novas, como a das minhas filhas, possam finalmente usufruir plenamente do que temos tido o aperitivo. Como diz o título do primeiro post do #agoraéquesãoelas, “sozinhas andamos bem, mas juntas andamos melhor”.
Representatividade
A cidade de São Paulo completou 462 anos na segunda-feira (25 de janeiro), ocasião em que foi homenageada pelos principais veículos de comunicação da metrópole. Uma delas, em especial, me chamou a atenção por trazer sacadas bacanas da cidade, pelo menos para a parte badabá dos moradores, na qual, como jornalista, moradora da Vila Madalena, leitora da Folha de S. Paulo, logicamente me incluo. Publicada na revista Sãopaulo (suplemento dominical da Folha, edição 24 a 30 de janeiro de 2016), a matéria lista 62 motivos para gostar da cidade, muitos deles sugeridos por moradores ilustres. Nos últimos 15 motivos, paulistanos indicam “quem representa a cidade e a transforma com seu trabalho”. O primeiro indica o segundo, que indica o próximo e assim por diante. É aí que mora o problema. Vivemos em uma cidade com 11.581.798 habitantes, dos quais 5.500.051 são homens e 6.081.747 são mulheres (estimativa Fundação Seade, 2015), ou seja, meio a meio, com ligeira predominância feminina. No entanto, na visão desses entrevistados, São Paulo é representada sobretudo por homens. Das 14 pessoas consultadas, foram indicados 10 homens, incluindo um que decidiu na maturidade viver como mulher, um coletivo (com homens e mulheres) e apenas três mulheres. Nenhuma das mulheres consultadas indicou outra mulher (o que certamente não era uma obrigação). Minha questão não são os nomes escolhidos (que realmente representam e transformam essa metrópole para melhor), mas por que, no universo de possibilidades de escolha, a representatividade feminina ainda seja tão pequena? Faltam mulheres realizadoras ou falta visibilidade ao seu trabalho?
Amyr Klink e o barco anfíbio
Uma queda de avião matou, no dia 13 de agosto de 2014, o então candidato a presidência Eduardo Campos, pouco antes de pousar em Santos para um dia de campanha. Nesse mesmo triste e chuvoso dia, o navegador Amyr Klink aportou na praia da mesma cidade com seu novíssimo barco anfíbio, acionou as rodas da embarcação e a dirigiu até um posto de gasolina, abasteceu e voltou, com sucesso, para o mar. Por uma infeliz coincidência na data, o teste da nova embarcação passou praticamente em branco (possivelmente não tenha sido notado nem por quem passou pelo barco rodando na rua). No último domingo (8/3), o navegador fez novamente uma demonstração da embarcação, desta vez na praia de Pernambuco, no Guarujá. O público também não era grande, já que não foi um fim de semana de clima maravilhoso, mas várias pessoas puderam embarcar na praia e ‘rodar’ com o barco até que não precisasse mais de rodas no mar e passasse a navegar para uma voltinha. No retorno, a mesma coisa: ao se aproximar da praia, o barco simplesmente aciona as rodas e adentra na praia. Para quem é totalmente leiga em navegação, a operação pareceu de uma simplicidade atroz. Sei que existem vários barcos e carros anfíbios, embora tenha sido o primeiro que vi ‘ao vivo e em cores’. Na hora, me lembrei de tantas crianças na Amazônia, que têm dificuldade de chegar à escola por conta das marés que impedem a chegada e saída de barcos e precisam sair de casa em horários esdrúxulos (quando conseguem sair). Outras, em locais como o Pantanal, que só podem ir à escola na seca (ou desistir de estudar, ou viver em colégios internos), porque não há estradas na cheia. Pensei também em épocas de tragédias, como a atual enchente em Rio Branco, onde não se sabe mais onde é rua e onde é rio. Imagina um barco que pode aportar em praias (de mar e de rio) para pegar crianças para a escola ou levar alguém para o hospital ou realizar salvamentos, sem depender da hora da maré ou da época do ano e ir pegar os passageiros em casa. Claro que não deve ser uma opção barata, mas se ninguém pensar nisso, nunca vai acontecer. Que bom que o Amyr Klink é um sonhador e vai atrás desses sonhos. Tomara que tenhamos outros muitos (inclusive no poder público do país) com esse espírito empreendedor.
Como plantar água em Itu
A situação no município de Itu é o exemplo mais contundente da falta d’água no Estado de São Paulo. A convulsão social causada pelos muitos meses sem abastecimento tem se tornado o terror do que pode acontecer se a mesma situação se concretizar na Região Metropolitana de São Paulo (a possibilidade não é infundada nem remota). A experiência realizada no Alphavillage Refúgio Ecológico, narrada no livro “Explorar para Preservar” – publicação de 2011 de cujo projeto participei e que conta a luta pela conservação na Amazônia e na Mata Atlântica do empresário Fábio Albuquerque (dono também da Ecolog, que faz manejo florestal em Rondônia) -, é uma pequena mostra do imenso poder que a natureza tem de se recuperar, se levada a sério. E se passou justamente em Itu, onde Fábio adquiriu, nos anos 1990, uma propriedade de 75 hectares, “praticamente abandonada (…), onde só restava pasto degradado e uma plantação de pínus”, e “uma represa de mais de 600 metros de extensão”. Despois de algumas tentativas frustradas de recuperar a área por conta própria e ver “a dificuldade de recuperar uma área desmatada e degradada”, o empresário foi procurar ajuda profissional: “No início, eu contava apenas com um técnico, que era caseio e administrador, mas, a partir de 2000, contratei também um técnico em meio ambiente, que ajudou bastante. O processo de restauração da propriedade não foi nada fácil, já que é uma região seca e com grande variação de temperatura ao longo do dia. Além disso, foi desmatada há muito tempo, o que causou a perda da fertilidade por causa da erosão. Assim que começamos a coletar sementes, fizemos um viveiro de mudas.” (…) “Há dois anos [2009], a SOS Mata Atlântica me incluiu no programa Clickarvore e recebi a doação de 24 mil mudas, com as quais acabei de restaurar a propriedade. Hoje, só faço manutenção e reposição. Na mesma época, foi feita também a recuperação do lago, que estava bastante assoreado. Quando foi formado para o haras, nos anos 1970, tinha 14 metros de profundidade no leito antigo do riacho (…). Agora foi refeito como se deve: foi totalmente esvaziado e, por dois meses, máquinas retiraram terra preta que foi jogada nas áreas mais altas. As margens foram recuperadas com areia. Hoje, a presença de mata impede que seja assoreado novamente. Antes, na época seca, chegava a baixar dois metros, o que não acontece mais. A volta da água é o resultado mais palpável do reflorestamento. O córrego que formou o lago estava seco e voltou com a umidade da floresta. A nascente do lago principal foi uma das sete que reapareceram. Quando começamos, a propriedade era abastecida com água do córrego que vinha do vizinho, a nascente que utilizamos atualmente apareceu há três anos.”
Água e perplexidade
Hoje estive em uma reunião da Aliança pela Água (aguasp.com.br). Para quem não sabe do que se trata, é um coletivo de pessoas e instituições que, desde o final de outubro, vem debatendo, dividindo informações e realizando ações sobre a crise da água em São Paulo. As principais organizações não governamentais do país que atuam nas esferas ambiental, socioambiental e direitos do consumidor estão lá, assim como técnicos e jornalistas na área e uma moçada nova (que bom!!!) com muito gás para mobilização, seja na web, seja nas ruas. Concretamente desta reunião, da qual participaram cerca de 50 pessoas, deve sair alguma carta de impacto, chamando governos e população para um plano de emergência, com sugestões de ações. Há planos para eventos, mobilizações, materiais informativos e tudo que uma situação grave pede. Todas as organizações e coletivos representados também relataram o que tem feito e o que há programado para os próximos dias. Tem muito coisa. No entanto, o que mais chamava a atenção era o ar de perplexidade presente. Da primeira reunião realizada em outubro até agora, não dá nem para dizer que o pior cenário se concretizou, pois a situação é pior do que o pior cenário esperado de então. Tanto o clima não ajudou – as chuvas não vieram – como o governo do Estado e a Sabesp continuaram a minimizar a crise (da mesma maneira que o governo federal parece estar se encaminhando no caso da crise de energia…). Tudo o que se vinha prevendo como possibilidade para daqui a duas décadas se nada fosse feito, parece ter se antecipado, abrindo alas e mostrando que sempre pode piorar. No frigir dos ovos, temos água para uns 50 dias, com sorte (e racionamento) até junho (e um inverno inteiro sem chuvas pela frente). Ao sair da reunião, andava pela rua e via a cidade seguir sua vida normal. Embora nunca tenha vivido isso, a sensação era como a de um país que declara guerra, mas a concretude desse ato ainda não chegou, aguarda as primeiras bombas. Isso significa que, mesmo acompanhando todo o noticiário, tento informações de primeira mão de quem está na linha de frente e entende do assunto, é difícil acreditar que está mesmo acontecendo. Tenho água na torneira (sei que no prédio acaba todo dia às 15 horas, mas a economia, a caixa d’água e alguns caminhões pipa têm dado conta do recado), vivo no segundo país com mais água doce do mundo (o Brasil é sempre o Brasil!), não moro no semiárido, como é que a água vai acabar?
De volta ao mundo real
No final da semana passada, já com a perspectiva da volta para São Paulo após as férias, meus filhos começaram a demonstrar o medo de como encontraríamos a cidade. As notícias sobre a falta de água e de luz, as árvores caídas, as enchentes repentinas – sabidas através de rápidas passadas em frente à TV – começavam a tomar concretude. No centro das preocupações, questões concretas: Como a escola e a universidade funcionarão sem água? Haverá êxodo de Sampa? Será que teremos que nos mudar para a chácara? E quem não tem para onde se mudar? Há soluções para resolver a falta de água no curto prazo? A cidade de São Paulo ainda tem como se tornar viável? Dos risos sobre distopias apocalípticas de uma cidade abandonada, com tudo em ruínas, sendo mostrada aos seus futuros filhos, a conversa migrou para a falta de condições para se pensar em algum dia ter filho. Soluções tecnológicas delirantes também foram aventadas, como inverter o curso da Henry Borden, que traria água do mar dessanilizada para a metrópole e possíveis técnicas chinesas para produzir nuvens de chuva e encher as represas. Acabamos mesmo foi pensando em formas extremas de economia de água na esfera doméstica. De verdade, gostaria de ter uma solução bacana para propor e tirar o peso que nossos filhos certamente terão que carregar. Mas, com todos os anos que tenho trabalhando com questões ambientais, também não me preparei para esse momento. Tirando a revolta, totalmente inútil, de constatar que todos os avisos dados por cientistas, técnicos e ambientalistas que, como jornalista, ajudei a divulgar, foram solenemente ignorados ao longo de décadas, sobra apenas perplexidade diante da inércia do governo e, sobretudo, da população diante da catástrofe iminente. Fico me lembrando da quantidade enorme de matérias que produzi, desde os anos 1980, sobre a ocupação dos mananciais de São Paulo e da tristeza que sentia a cada vez que ia fazer reportagens sobre a Guarapiranga (que também quase secou há pouco mais de uma década) e ver o local em que eu nadava quando criança (nos não tão longínquos anos 1970) ser totalmente assoreado e transformado em loteamentos clandestinos. Também dá uma enorme frustração recordar toda a luta pela preservação das matas ciliares, sobretudo na luta para fazer valer (e não flexibilizar) o Código Florestal. Sem falar nas mudanças climáticas, sobre as quais ouço falar desde os tempos de aluna na faculdade de geografia, também nos anos 1980. Enfim, ainda acabo escutando dos meus filhos que não adianta “os ambientalistas” (leia-se toda essa gama de gente com as quais tenho me informado, trabalhado junto e acompanhado os esforços para que não chegássemos até aqui) ficarem falando “eu não disse!”, porque isso não vai resolver o problema. Pior que não vai mesmo… No entanto, as soluções que sempre foram aventadas por esses “radicais contra o desenvolvimento” (como são chamados sobretudo por políticos e empresários retrógrados – infelizmente os que detêm o poder) continuam sendo ignoradas ou tratadas como opções marginais. Bom mesmo é continuar a fazer grandes obras.
Os “gatos“ oficiais
Parece frescura se preocupar com isso, em uma semana onde pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra que mais de 90% dos paulistanos se sentem inseguros na capital paulista. Que a segurança é um problema sério, está claro também nos altos índices de roubos e assassinatos, muitos deles através da grande moda no momento que são as abordagens em motos. Por isso mesmo, sonho com o dia em que o morador de São Paulo comece a se incomodar e pedir providências em relação à fiação exposta na cidade, agressão estética que acaba influenciando também na segurança, sobretudo por causar vários blecautes durante as chuvas. A grande desculpa para convivermos com esses “gatos” oficiais e monstruosos são os custos de enterramento da fiação, o que parece justo em um contexto de tantas necessidades prementes. No entanto, o serviço de porco realizado pelas concessionárias responsáveis pela fiação (seja de eletricidade, telefone ou TV a cabo) é gritante: fios emaranhados, sobrepostos, mal fixados, com pontas escapando até quase o chão – o que também me parece muito perigoso, não? – além das decorativas instalações que propiciam, com tênis, restos de pipas e outras coisas criativas penduradas. Na frente da minha casa, eu contei 15 camadas de fios, que competem com as pobres árvores na rua, deformadas para poderem ter algum lugar ao sol das calçadas. Sem falar da quantidade de postes. Em alguns locais, chegam a ter dois ou três, um ao lado do outro (por que será?), alguns tortos ameaçando cair e todos eles quase escondidos no meio de tanto remendo mau feito. Não entendo nada de fiação, mas acho muito difícil acreditar que toda essa feiura não seja muito mais fruto do descaso do que da falta de recursos. Talvez manter a fiação exposta com algum capricho seja um passo civilizacional intermediário ao primeiro mundo – o que para alguns parece significar apenas construir um monte de shopping center e comprar qualquer coisa fabricada na China com grife norte-americana ou europeia. O fato de uma preocupação como esta não fazer parte da agenda na cidade mostra o quanto estamos longe de atingir um nível de desenvolvimento compatível com a riqueza que achamos que temos, que o digam a falta ou má qualidade de saneamento, moradia, transporte, saúde e educação. Particularmente, acho que a segurança vem praticamente de brinde quando se tem o resto. Em relação à fiação, uma lei municipal de 2005 (no 14.023), regulamentada em 2006, obriga as concessionárias, empresas estatais e operadores de serviço a enterrarem 250 quilômetros de fios e cabos por ano. Nem precisa dizer que é mais uma lei que entra na categoria das que “não pegaram”. Passar pelo centro velho, pela avenida Paulista e outros poucos pontos onde os fios não estão à vista mostra o quanto essa leveza na paisagem tem a capacidade de embelezar uma cidade por si só tão cinza. Veja que, se a lei fosse cumprida, em um ano teríamos todos os grandes corredores de tráfego (aqueles que aparecem no índice de congestionamento da cidade) totalmente despoluídos visualmente e com mais espaço para se caminhar nas calçadas ou, quem sabe, viabilizar novas ciclovias.
Presente fajuto
Em uma festa no final do ano, recebi na saída uma tradicional sacolinha de brindes, daquelas com revistas velhas e papeizinhos variados. Entre eles, um cartão de uma loja chamada Madame Valentine que trazia a frase “venha nos fazer uma visita e ganhe um gift exclusivo da marca”. Como uma das lojas fica no Shopping Villa Lobos, que costumo frequentar, guardei o dito cujo na bolsa. Não achei que fosse ganhar um dos caros itens da loja, claro, mas um brinde simpático. Ao apresentar o cartão à balconista, achei que ela não soubesse ler, pois ficou olhando para ele um tempo infinito com cara de quem viu algo de outro mundo. Depois de um tempo bastante desconfortável, sorriu e disse que precisava consultar a gerente. Esta, também passou um tempo enorme lendo a pequena frase e analisando o cartão da propaganda (me passou pela cabeça que estava duvidando de sua autenticidade). Depois, disse que não sabia nada a respeito, me perguntou “onde eu havia conseguido aquilo” (ela sabia do evento!), e queria que eu deixasse meus dados para ela poder entrar em contato. Não deixei e, é obvio, não pretendo entrar novamente nesta loja. Difícil entender a falha de comunicação e sensibilidade de quem faz esse tipo de pseudopromoção ou publicidade. Considero este um caso extremo, mas já cansei de ver promoções onde o brinde sempre “acabou de acabar”, ou onde para ganhar o brinde precisa do cupom mais um pagamento (que é o valor do brinde) ou que pede que se junte pontos -possíveis apenas para quem resolver comprar a loja toda – para ganhar algo totalmente irrelevante. Mais do que marketing mal feito, é um desrespeito com o consumidor.