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PaulistanaSP

Violência como padrão familiar em O Aniversário

Nem todas as famílias são violentas, mas é praticamente impossível viver sob o patriarcado e não se identificar, pelos menos um pouquinho, com O Aniversário, do italiano Andrea Bajani (Companhia das Letras). Começamos a leitura sabendo que faz dez anos que o narrador mudou de telefone, endereço e continente para se afastar do pai e da mãe. E não se arrepende, avisa que sua vida melhorou muito. Bajani subverte a famosa frase de Tostoi – “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” – ao mostrar como a violência doméstica pode tornar igualmente infelizes todos os membros de uma família, cada um à sua maneira. Em seu relato, o qual não sabemos o quanto é ficção, ninguém tem nome, apenas um lugar na rede de relações: meu pai, minha mãe, minha irmã, a mãe da minha mãe, a mãe do meu pai, a amiga da minha mãe. Na linha dos romances sociológicos, ao modo Annie Ernaux e Édouard Louis, Bajani expõe como cada personagem assume seu papel na estrutura familiar: o pai provedor e controlador, que conduz a família na base do terror psicológico, a mãe dona de casa submissa e sem voz, a filha contestadora e o filho cúmplice, levado pelo medo e comodidade. A violência, mesmo sem ser física na maior parte das vezes nem estar presente a todo momento, é o fator determinante na vida dos personagens. Todos são algozes e vítimas. Mesmo com doses diferentes de culpa, não existe absolvição para ninguém. Em vários momentos, vi minha própria família sendo descrita e me enxerguei em mais de um papel. Fiquei me perguntando quantas vezes tive vontade de fazer como o narrador do livro e fugir de tudo, mas acabei capitulando, como o personagem faz diversas vezes antes do rompimento radical, ao passar por cima, digerir cobranças, mudar de assunto, fingir que o acontecido não aconteceu. Durante a leitura, me perguntei várias vezes, ainda, se, mesmo tentando ser diferente, em algum momento não reproduzi a mesma estrutura da família em que cresci, na que construí. Afinal, fazemos todos parte de uma engrenagem fabricada ao longo de muitas gerações. E, se há muita gente buscando modos alternativos de conviver, existe um exército à espreita montado para manter e recuperar seu poder. {Artigo publicado em: https://sler.com.br/violencia-como-padrao-familiar-em-o-aniversario/]

Quem se salva no Modelo Bukele?

Sob o governo populista de extrema direita de Nayib Bukele, um em cada 50 salvadorenhos está na prisão. No Brasil, isso equivaleria a uma população carcerária de 4,3 milhões de pessoas (hoje são 900 mil). Em El Salvador, esses prisioneiros dividem espaço, no Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) — a mega prisão salvadorenha —, com centenas de pessoas deportadas dos Estados Unidos por Donald Trump. Países menos desenvolvidos receberem resíduos de países ricos – como as roupas que lotam o deserto do Atacama, no Chile – já me parecem terríveis; receberem seres humanos é de uma indignidade que nem sei nomear. O mais triste é que muitos brasileiros acham isso bacana e apoiam a postura do governo Bukele. É claro que nenhum deles acha que será preso ou que seus parentes e amigos o serão. Se não pensam no custo social de medidas como essa, que dirá o custo econômico de manter tanta gente encarcerada. No início de setembro, durante o Festival Piauí de Jornalismo, que aconteceu em São Paulo com o tema “No Olho do Furacão: diretores de redação em tempos de tormenta”, o jornalista salvadorenho Carlos Dada, diretor do jornal El Faro, contou uma história que ilustra bem esse fato. Dada e sua equipe sofrem perseguições no país, estão todos exilados e lutam para manter o El Faro a partir do exterior. Segundo o jornalista, recentemente ele estava em um evento no qual receberia um prêmio e foi abordado por um “homem, muito bem-vestido”, que disse ser um empresário brasileiro. Falou ser fã de Bukele e que gostaria que fizessem o mesmo no Brasil, para acabar com a bandidagem nas favelas brasileiras. Dada respondeu que seria necessário apenas soltar algumas bombas nas favelas e estaria tudo resolvido. O empresário se escandalizou e disse que a proposta era imoral, pois mataria muitas pessoas inocentes. Ao que Dada respondeu: “então…”. A política de segurança de El Salvador tem sido apresentada indiretamente ao empresariado paulista por meio de figuras políticas brasileiras. Em eventos organizados em casas de grandes empresários em São Paulo (como lideranças ligadas à varejista Riachuelo), o Modelo Bukele é frequentemente debatido e citado por parlamentares como uma referência de atração de negócios por meio da ordem pública. Dada relatou, ainda, a passagem do chefe da Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, em agosto último, em São Paulo, para apresentar o Modelo Bukele para industriais, quando foi ovacionado. “Esses empresários poderiam utilizar bem melhor seu direito à informação”, disse o jornalista. Em sua fala no Festival Piauí, o diretor do El Faro contou que tem sido difícil praticar o jornalismo livre em seu país. Telefones de repórteres têm sido grampeados para identificar as fontes que falam com eles. Um drone chegou a entrar na casa de Dada antes que decidisse deixar El Salvador. O diretor do El Faro lamentou que a tecnologia esteja sendo usada como mecanismo de controle voltado a instalar uma voz única. Na opinião do jornalista, há dez anos acreditava-se que a internet tornaria o jornalismo mais livre, mas isso não aconteceu. “As redes sociais são o sonho dos governos autoritários. Infelizmente, hoje há mais governos autoritários do que democráticos no mundo”. Estima-se que 72% da população mundial vive sob autocracias, regimes com tendência a ditaduras ou ditaduras claras. Formalmente, El Salvador ainda mantém a estrutura de uma república democrática presidencialista, com a realização periódica de eleições. No entanto, relatórios internacionais, cientistas políticos e institutos especializados (como o Freedom House e o IDEA Internacional) apontam que o país sofreu uma rápida transição para um regime híbrido ou autocracia eleitoral sob o comando do presidente Nayib Bukele. Carlos Dada contou que, quando estava há um ano no poder, Bukele entrou armado e cercado de militares no parlamento, sentou-se à mesa da presidência da casa, passou dois minutos sem dizer nada, olhando para cima, e saiu. Do lado de fora, declarou que estava falando com Deus e que este lhe pediu para “ter paciência”. É bom lembrarmos que mensagens celestes não costumam ter lógica e podem mudar a qualquer momento (Artigo publicado em https://sler.com.br/quem-se-salva-no-modelo-bukele/)

Minhas leituras: Canção para ninar menino grande

Apesar de ser o personagem principal, Fio Jasmin, o menino grande de Conceição Evaristo, não é o protagonista desta escrevivência da autora. Em Canção para Ninar Menino Grande, as mulheres seduzidas pelo ferroviário em suas andanças são as figuras centrais. O livro foi o tema da reunião de julho do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um encontro regado a boas novas em nosso grupo, ligadas a saúde, mudanças e desafios. Cada uma de nós com suas características e questões pessoais, assim como as amantes do homem bonito e sedutor, mas imaturo emocionalmente, que parece não superar ter sido preterido, por ser negro, para o papel de príncipe na escola. Sem se preocupar com os sentimentos das mulheres que encontrava ou com as consequências de seus casos, inclusive filhos, Fio Jasmim exala seu perfume e fia a teia de histórias de várias mulheres, a maior parte fortes e fazedoras de seus destinos; algumas, vítimas de expectativas não realizadas. A autora/narradora nos conta as aventuras de Fio e suas mulheres a partir de histórias que ouviu, mas principalmente de uma delas, Tina, compositora da canção que dá nome ao livro, que passou grande parte da vida a amar e esperar por ele. A anfitriã Wal nos levou a viajar pelas cidadezinhas e comidas mineiras enquanto nos instigou a pensar no que deixaríamos na estação ferroviária e o que levaríamos conosco no trem da vida. Desenhamos enquanto desenrolamos os fios de nossas próprias histórias. Nos tornamos Pérola Maria, Juventina, Dolores, Antonieta, Angelina, cada uma com suas paixões, desilusões e sonhos. Somos fruto do patriarcado e sofremos seus reflexos, querendo ou não ninar meninos grandes.

Indígenas: imigrantes na própria terra

Inicio nesta semana minha colaboração para o Sler. Publicarei todas as segundas-feiras.Neste primeiro artigo, reflito sobre nossa percepção sobre os povos indígenas. Em Paraty durante a Flip, enquanto intelectuais desfilavam, adultos e crianças indígenas tocavam, cantavam, dançavam e comercializavam do lado de fora, como imigrantes pobres em sua própria terra. No entanto, são eles que podem nos ajudar a enfrentar os desafios das mudanças climáticas e do Antropoceno. Leia o artigo em Indígenas: imigrantes na própria terra – Maura Campanili

Minhas leituras: Mafalda – nesta família não há chefes

Adoro quadrinhos. E adoro a Mafalda. Na Feira do Livro em junho passado, a editora WMF Martins Fontes resolveu homenagear a personagem símbolo do cartunista argentino Quino e muita gente aproveitou para tirar uma foto ao lado de simpática e ácida menina, inclusive eu. Me entusiasmei e aproveitei para comprar uma das seleções de tirinhas da protagonista: Mafalda – nesta família não há chefes. A edição conta com apresentação da psicanalista e escritora Vera Iaconelli. Produzidas nos anos 1960, as tirinhas conseguem manter o humor e até a atualidade apesar do anacronismo de muitas situações, como a mãe dona de casa de Mafalda e os pais de seus amiguinhos que poderiam hoje ser denunciados por bater e humilhar seus rebentos. Para quem é quase contemporânea da personagem, porém, é impossível não se identificar com as situações apresentadas. Apesar dos papeis muito definidos, como diz o título do livro, na casa de Mafalda não há chefes e é divertido ver seus pais lidar com as observações adultas e irônicas de sua filha e, na segunda metade, do filho bebê. A pertinência das observações de mundo de Mafalda, muitas vezes metafóricas, como sua preocupação com o Globo Terrestre de enfeite enquanto saem de férias, podem hoje ser acompanhadas nas redes sociais, o que é um privilégio em tempos de doutrinação conservadora, hoje mais explicitada. Há uns dez anos, visitei a famosa livraria El Ateneo Grand Splendid, em Buenos Aires, e perguntei onde poderia encontrar os livros da Mafalda, achando que deveria haver uma sessão inteira para ela. O vendedor me olhou ainda na fase exploratória como se não soubesse sobre o que eu estava falando e disse que não tinha nada. Não me convenci e encontrei, na sessão de quadrinhos infantis, apenas um título da personagem mais famosa do país. Será que na Argentina de agora seria mais fácil encontrar?

Minhas leituras: Suíte Tóquio

Desta vez, a anfitriã do Círculo Feminino de Leitura (CFL) fui eu e o livro indicado foi Suíte Tóquio, da Giovana Madalosso. O romance é contado, em capítulos alternados, pela babá Maju e sua patroa, a executiva Fernanda, enquanto a primeira sequestra Cora, a filha da segunda. Embora tenha um ritmo de thriller, o livro traz discussões sobre diferenças sociais e relações de classe, maternidade, desejos e liberdade femininos e seus limites. Daquelas histórias onde não há mocinhas e vilãs: não dá para justificar o sequestro de uma criança e também julgamos a mãe que prioriza tanto a carreira que não tem vergonha de admitir que negligencia a filha. Ainda por cima, para resolver seus problemas, destrói a vida da babá ao comprá-la, aproveitando-se de sua condição econômica, para trabalhar em regime praticamente de escravidão. Para a reunião do CFL, quis ressaltar a relação mãe-babá, situação vivida pela maior parte do nosso grupo. Somos todas mulheres de classe média e sempre presamos por nossas carreiras. E pudemos escolher ser ou não mães. Todas as que fizeram essa escolha, em algum momento, contamos com babás e empregadas para nos dar suporte. E tivemos nossos dramas internos por conta disso. Pensei em nos colocar do outro lado do balcão: pedi que minhas amigas viessem vestidas de babás e trouxessem suas “picochucas”, como Maju chamava carinhosamente a menina da qual tomava conta e acabou achando que poderia ser sua. Deixei avisado na portaria do prédio para encaminhá-las pela garagem e o elevador de serviço. Pendurei na porta da cozinha uma placa com os dizeres “Entrada para o Exército de Branco”, como Fernanda se referia às babás do bairro em que morava. Aliás, para os bons entendedores, a personagem vivia no “bairro diferenciado” de Higienópolis. Não vou dar spoiler sobre o nome do livro, mas se refere a mais uma das ironias da patroa em relação à sua funcionária. O romance também discute relações amorosas e como em nossa sociedade estão diretamente ligadas ao trabalho e ao dinheiro. E as expectativas contraditórias sobre quem deve cuidar de quem.

Minhas leituras: As Meninas

Uma das melhores coisas de As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, é a própria publicação do livro, em plena ditadura militar. A coragem da autora de enviar o livro para aprovação da censura demonstra sua segurança na preguiça e ignorância dos censores. Lygia traz um título singelo, de romance de mulherzinha, mas com uma narrativa sofisticada, misturando vozes e obrigando uma leitura atenta, e um crescente de densidade na história, com cenas de tortura, consumo de drogas e overdose. Diz a lenta, muito plausível, que o censor leu apenas as primeiras páginas, não entendeu nada e liberou. As Meninas foi tema de uma reunião do Círculos Feminino de Leitura (CFL) cheia de bossa, para usar um termo da época. A placa na porta dizia que chegávamos ao Pensionado Nossa Senhora de Fátima. A anfitriã, nossa querida Dóris, nos recebeu vestida de Madre Alix e, vestidas de jovens mulheres dos anos 1970, voltamos a ser as adolescentes que fomos, algumas mais no início, outras ao final daquela década. Nossa anfitriã nos levou a buscar o que lembrávamos daquele tempo, como vivíamos e o que sabíamos da ditadura e, depois, da abertura que marcou o seu final e pegou a maior parte de nós na faculdade. Concluímos que fomos alienadas como Leninha, mesmo em nossas famílias de classe média, sem saber quase nada sobre as combativas Lias e acompanhando de longe o desbunde das Anas Claras. Lygia constrói suas meninas com perfis diferentes, aos quais vamos reconhecendo por meio dos fluxos de pensamento sem identificação. São mulheres de seu tempo, mas também universais, nas dores, inseguranças, sonhos e amizade. No fundo, todas somos um pouco de cada uma delas e por isso esse é um livro atemporal. Se ainda não leu, já colocou na sua lista?

Precisamos falar sobre os homens, sobretudo os jovens

A vida das mulheres mais jovens, inacreditavelmente, parece ser mais difícil do que as da minha geração. Pelo menos no que se refere a relacionamentos. Como rabeira dos baby boomers e início da geração X, tínhamos que lutar por espaços e enfrentar um machismo brutal, mas achávamos que caminhávamos para a frente, a situação só tinha a melhorar. Fomos ensinadas a não nos expormos demais e a achar natural ter jornada dupla e chefes homens. Sempre nos vimos como uma geração de transição. As mulheres mais jovens, porém, cresceram para ser livres, competir com os homens de igual para igual e ter relacionamentos sexuais e sentimentais também igualitários. Muitas delas não devem nem ter a malícia de identificar perigo quando ele se apresenta. Educamos as mulheres e esquecemos de educar os homens (será que são educáveis?). Me assusta essa onda conservadora. Fiquei chocada com a pesquisa mostrando que homens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) são os que mais concordam com visões tradicionais sobre o comportamento de homens e mulheres na sociedade. Tenho duas filhas nesta faixa etária e as criei para enfrentarem os homens, andarem livremente e como e com quem quiserem. Assistir as cenas mostradas ontem nas redes sociais e telejornais de homens “treinando” para encarar um não feminino na base da violência me embrulhou o estômago. São desta geração os quatro estupradores de Copacabana. Realizada pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, a pesquisa mostra que um terço dos homens jovens acha que o homem deve ter a palavra final (bem mais do que as gerações mais velhas), a mesma porcentagem afirma que a esposa deve sempre obedecer ao marido. Sentem-se intimidados com mulheres bem-sucedidas e acreditam que “mulher de verdade” nunca deve dar o primeiro passo. Não é um fenômeno brasileiro, a pesquisa foi realizada com 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Índia, Alemanha, Austrália, Turquia e Japão. É um fenômeno da internet globalizada e sem controle, mas tenho dificuldade em aceitar essa falta de discernimento que tem produzido homens revoltados e violentos – os Red Pill (ou “pílula vermelha”), tão bem retratados na minissérie Adolescência. Pensar que as mulheres, como gênero, evoluíram tão mais do que os homens é triste. Perder privilégios é difícil, mas os jovens já deveriam estar saindo de fábrica mais adaptados. Não é que mostram os dados.

Minhas leituras: O Acontecimento

Em O Acontecimento (editora Fósforo), Annie Ernaux relata a experiência traumática de um abordo realizado em sua juventude, nos anos 1960, quando era universitária e a prática considerada crime na França. O drama da autora em nenhum momento se refere a alguma dúvida sobre sua vontade de interromper a gravidez indesejada, mas à dificuldade de fazer o abordo por conta das questões legais. O que está em jogo é o controle moral e legal sobre o corpo da mulher e os sofrimentos causados por este combo. O livro foi uma ótima escolha para a reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), da qual não consegui participar por questões de trabalho. Mas adorei a indicação e o impacto que a leitura me causou, sobretudo por Ernaux afirmar considerar seu relato válido mesmo sendo anacrônico, pois hoje o aborto é livre na França e a história seria completamente outra. Para uma brasileira, é uma porrada na barriga, com ou sem feto, pois aqui mulheres ainda são consideradas criminosas ao abortar, mesmo sendo crianças. E, ao invés deste debate avançar, parece piorar. Enquanto a extrema-direita ganhar a narrativa por aqui, o assunto não será colocado em pauta seriamente por nenhum governo, por mais progressista que seja. Ernaux é uma das principais autoras da atualidade, sobretudo do estilo escrita de si. Embora muito utilizado, não acredito que o termo autoficção se aplique à autora, ganhadora do Nobel. Sua escrita é biográfica e política, com contexto, análise, opinião. E emociona pela sinceridade, como quando reconhece ter sido tratada com desprezo até por pessoas próximas sem perceber e na cena do abordo em si, sem assistência e colocando sua vida em risco, humilhada até no hospital a que precisou recorrer. Neste momento, Ernaux traz a hipocrisia da sociedade, ao contar que os maus tratos eram também direcionados a outra mulher, por estar para parir sem marido. Durante todo o tempo de seu infortúnio, Annie lembra a presença onipresente da lei, da “impossibilidade absoluta de imaginar que um dia as mulheres pudessem abortar livremente”. Para francesas e tantas outras mundo afora esse dia chegou. Nos Estados Unidos da extrema-direita autoritária (sei que é pleonasmo) esses dias parecem contados. Para as brasileiras, temos que criar possibilidades concretas para imaginar uma realidade diferente. Ao final, a autora divaga sobre sua provação e considera que precisou passar por aquela experiência para depois poder ser mãe. Com certeza, apesar de ser bonito e tocante ver como precisamos achar razão e redenção para nosso sofrimento, Annie não necessitava nem merecia passar por aquilo. Nenhuma mulher deveria passar por esse tipo de sofrimento por razão alguma.

Minhas leituras: O Segredo de Espinosa

Deus ou a natureza. Ou, melhor dizendo, Deus é a natureza. Esta formulação tornou Bento de Espinosa um herege em sua época, por ser considerado ateu, o que o filósofo sempre negou. A mim, iluminou algo que eu intuía. Não preciso mais me considerar ateia. Não sem motivo, este pensador do século 19 é um dos precursores do Iluminismo e ferrenho defensor da liberdade de expressão e do uso da razão contra a superstição. O romance O Segredo de Espinosa, do autor moçambicano José Rodrigues dos Santos (Editora Planeta), é baseado na biografia do filósofo judeu de origem portuguesa nascido nos Países Baixos, Bento de Espinosa. Considerado um gênio na comunidade judia de Amsterdã (seus pais eram imigrantes fugidos da inquisição em Portugal) e cotado para ser um grande líder religioso, acabou sendo expulso ainda muito jovem de sua comunidade após passar por um cherem, o equivalente judeu da inquisição. Entre as ideias heréticas de Espinosa estavam que a Bíblia foi escrita por homens comuns e que o povo judeu não tinha nada de especial em relação aos demais povos. Embora ficcionado, o romance traz nas falas do filósofo toda a construção de seu pensamento, que continua inovador, sobretudo nestes tempos em que a humanidade parece regredir à época onde a superstição estava à frente da razão. Para Espinosa, Deus é o universo e, por isso, infinito. Os humanos são parte dele, assim como todo o restante da natureza. O filósofo chocou até seus contemporâneos, como Thomas Hobbes, ao sustentar que milagres não existiam porque a natureza não atua fora de suas regras. Essa afirmação o levou também à conclusão de que não existe o livre-arbítrio, pois tudo está ligado a causas e efeitos da natureza. O grande desafio, disse Espinosa, é criar uma ética em um mundo sem livre-arbítrio, no qual a liberdade é “a de compreender o meu comportamento e, através dessa compreensão, libertar-me das paixões e passar a usar a razão”. Sem um Deus que vá te castigar ou promessa de uma vida no além, ser ético significa buscar a alegria no amor e na generosidade, pois quem se diz crente, mas só pratica a virtude movido por medo ou interesse, não é um verdadeiro crente.