Livro narra trajetória de clube de leitura formado por mulheres 50+

A narrativa bem-humorada, sensível e afetiva sobre a criação e trajetória de um clube de leitura formado por mulheres 50+, dão o tom em Temos fome, somos loucas, da jornalista e escritora Maura Campanili. Lançamento da estreante Editora Pitanga, a obra mergulha o leitor na história do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um grupo que, há mais de 15 anos, transforma encontros em rituais de amizade, escuta e liberdade. “A ideia partiu de uma das integrantes, a sexóloga Neise Galego, que queria ter um grupo de amigas para discutir os livros que lia”, explica a autora. “Ela chamou as irmãs e outras amigas e começamos. Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio modo de nos reunirmos. Uma coisa interessante é que, no início, imaginava que o grupo não duraria tanto e que perderíamos o interesse ao longo do tempo. E aconteceu exatamente o contrário. Nossos encontros foram ganhando mais importância e profundidade.” Temos fome, somos loucas é uma celebração da força do coletivo e da busca por sentido em meio ao cotidiano acelerado. Com encontros regados a livros, taças de prosecco e muitas gargalhadas, as integrantes do grupo desafiam a lógica da produtividade infinita e constroem um espaço de acolhimento, trocas profundas e resistência — inclusive à própria sanidade imposta às mulheres. A obra reúne relatos sobre os livros lidos, as experiências compartilhadas, os desafios de convivência e os impactos profundos desses encontros na vida de cada participante. Obras como A Menina da Montanha, de Tara Westover, e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, por exemplo, provocaram debates intensos sobre temas como extremismo, consumismo e identidade feminina. A política brasileira, e os embates ideológicos das últimas eleições no país, não ficaram de fora. “Um grupo que não seja impactado por temas políticos e sociais, ou é muito simplista ou propositalmente alienado”, reflete Campanili. “No nosso caso, tentamos discutir todos os temas, sem a necessidade de todas concordarem com todas. Em alguns momentos, até nos alteramos, mas temos, ao longo do tempo, aprendido a superar as diferenças. Acredito que todas nós fomos, por meio dos livros, nos abrindo para temas mais difíceis e nos tornando mais permeáveis.” Além de relatos intimistas e literários, a publicação traz uma relação dos livros discutidos e um guia prático para quem deseja formar seu próprio clube de leitura. Um dos símbolos do CFL é o grito de guerra que dá nome à obra, inspirado no livro Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, e no icônico discurso de Steve Jobs em Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Em Temos fome, somos loucas, Maura Campanili convida o leitor a espiar um universo onde o riso tem o mesmo peso da análise literária, e onde a leitura se torna um gesto radical de existência. É uma obra sobre criar tempo para si, reinventar laços e fazer da leitura um ato de afeto e subversão. “Gostaria de transmitir um pouco do nosso amor pelos livros e pelo prazer que eles podem trazer. E como pode ser libertador ter um grupo de amigas com o qual nos reunimos apenas por prazer. Mesmo hoje, a maior parte das mulheres vive sobrecarregada e culpada num mundo de obrigações – com trabalho, com o cuidado com a família, com as obrigações de ser bonita, inteligente, capaz e perfeita o tempo todo. Espero que o livro seja um convite a um pouco de hedonismo, um momento de diversão. Se somamos a isso, pelos livros, um espaço para intimidade e reflexão, o resultado só pode ser bom”, finaliza a autora. (Texto do release sobre o livro)
O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.
Sobre a diversidade do DNA brasileiro

Aquilo que vemos nas ruas e em nossas famílias agora foi apresentado cientificamente. Publicado na revista Sciense na semana passada, o estudo Genoma de Referência Brasileiro mostrou que o país tem a maior diversidade genética do mundo. O levantamento, realizado pela USP e financiado pelo Ministério da Saúde, sequenciou, pela primeira vez de forma completa de em larga escala, o DNA de 2,7 mil brasileiros de todas as regiões, incluindo comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas, e encontrou 8,7 milhões de variações genéticas inéditas. Um dos principais objetivos do estudo é obter dados de saúde da população para pesquisas médicas mais específicas para o Brasil. Foram encontrados marcados de doenças como hipertensão, obesidade, colesterol alto, malária, hepatite, tuberculose, salmonelose e leishmaniose. O mais interessante da pesquisa, porém, foi evidenciar o processo de miscigenação ocorrido ao longo de 500 anos de história do país, a partir da chegada dos colonizadores europeus, tendo como base o genoma de seus habitantes. A ancestralidade brasileira mostra vestígios genéticos de povos indígenas exterminados durante a colonização e combinações e genomas africanos formados apenas no Brasil, como consequência direta do tráfico de escravizados. Diferenças entre as heranças genéticas maternas e paternas indicam que brasileiros têm linhagem paterna europeia e linhagem materna indígena e africana, comprovando a violência sexual contra as mulheres como fator preponderante na formação do povo brasileiro. Ainda comprovando o que vemos intuitivamente, a pesquisa mostrou a prevalência de genes indígenas na região Norte, africanos no Nordeste, e europeus no Sul e no Sudeste. O estudo apontou também uma tendência de “acasalamento seletivo”, ou seja, que as gerações mais recentes tendem a ter filhos dentro do mesmo grupo étnico. Na média, os indivíduos analisados apresentam em torno de 60% de ancestralidade europeia, 27% africana e 13% indígena nativa, esta última maior do que era esperado. Há, ainda, 1% de ancestralidade asiática. Não sei vocês, mas, para mim, confirmar que o Brasil tem uma diversidade humana tão rica quanto sua biodiversidade geral foi motivo de satisfação. Nossa genética reflete a riqueza cultural do país, motivo de orgulho e possibilidades. Por mais que nossa história não seja lá muito edificante, o resultado nos irmana: somos todos fruto de miscigenação. Esta colcha de retalhos genética, cuja história oficial tentou encobrir durante muito tempo, faz com que muitos brasileiros não consigam saber exatamente sua origem. Eu mesma, sei que tenho dois terços de ancestralidade europeia recente. Do restante, só um teste de DNA para comprovar. Uma hora mato a curiosidade e faço um teste. Meu marido, que tem o lado paterno da família bem mapeado, mesmo sendo gaúcho, é descendente do cacique Tibiriçá e do casal Potira e João Ramalho, ascendentes de grande parte dos paulistas chamados quatrocentões. Brinco com meus filhos me referindo ao líder indígena como vovô Tibiriçá. Parece engraçado, mas não é. Afinal, ninguém aqui acha que Potira se apaixonou pelo português degredado Ramalho, que deveria ser mais velho que o pai dela e o qual, diz sua biografia, provavelmente se “casou” também com outras filhas de Tibiriçá.
Transição

A imagem estática no espelho mostrava uma mulher sem idade. Os cabelos crespos, um tanto grisalhos, modulavam o rosto sério, mas sereno, levemente assimétrico. Prestando bastante atenção, dava para ver o tremor fugidio no olho direito. O contorno da face começava a perder a forma, e a falta de tônus, principalmente ao redor da boca, era mais aparente do que as rugas, quase inexistentes na ausência de movimentos. Os olhos, o nariz e a boca eram pequenos, mas não destoavam do tamanho da cabeça. Ainda se reconhecia naquela moldura à sua frente. Sorriu. Ao fazer isso, algo se quebrou. O espasmo discreto se estendeu do olho para toda a face direita, repuxando a boca e deixando a pálpebra cair. A expressão tornou-se irônica, e preferiu fechar os olhos e apenas sentir os movimentos involuntários, agora parte de quem era. Repetiu seu mantra matutino — o importante é ter saúde, envelhecer faz parte da vida — sem muita convicção. Faltavam exatamente seis meses para completar 60 anos. Se deu conta de que as projeções feitas ao longo da vida nunca haviam chegado a esse ponto. Quando criança, havia as conversas sobre o final do mundo no ano 2000, conforme profetizara Nostradamus. Lembrava-se das discussões noturnas na cama de casal que dividia com as primas, quando dormiam na casa da avó nos fins de semana, ou após a escola com os amigos, no escadão que ligava sua rua a uma outra abaixo, o qual não deveriam frequentar por ser inóspito, mas por isso mesmo ideal para conversas sérias. Contava nos dedos para ter certeza e, ao se certificar que teria 36 anos na mudança de século, ficava aliviada. Vou ser uma velha até lá, dane-se o fim do mundo. Depois fez planos para se formar, ter uma profissão e não ser dona de casa como as mulheres adultas do seu entorno. Queria ser linda, ter sucesso, encontrar alguém para dividir a vida e criar uma família. Em algum momento, acreditou que ajudava a salvar o mundo com seu trabalho e ativismo em organizações socioambientais, e a militância tomou grande parte de seu tempo, deixando um pouco de lado as pretensões de sucesso e independência. Encontrou o amor, educou os filhos. Olhando para trás, alguns dos projetos se realizaram, outros não. Perdeu a ilusão quanto à sua influência fora de seu espaço íntimo, o mundo se vira sozinho, mas o que fazer com este terço de vida pendente? Finalmente, era livre como nunca foi, mas se sentia paralisada, sem saber o que desejar. A resposta não estava no espelho. Se vestiu e foi ao parque caminhar em pleno meio da manhã. Estava mais quente do que esperava, a luz chapada do verão atravessando as árvores tornava o caminho um tanto dramático, é o sol ou sou eu? Pensou nos filhos crescidos e já fora de casa, no trabalho para o qual dedicou 40 anos, mas que não a satisfazia mais, nas novas atividades começadas sem objetivos claros. Será necessário propósito? Seu estado melancólico, tinha consciência, vinha dos braços doloridos pelas duas vacinas tomadas no dia anterior e do regime alimentar iniciado há duas semanas para perder peso. Eram parte do combo de mudanças que vinha se instalando lentamente em seu corpo: um metabolismo falho, insônia, cansaços súbitos e falta de concentração. O déficit de proteínas detectado nos exames e o tratamento dos espasmos faciais a levavam a se confrontar com antigos preconceitos e se render a soluções antes impensadas: suplementos alimentares, ansiolíticos, aplicações periódicas de botox no rosto. A vida já não era a mesma, mas, afinal, quem disse que será pior?, pensou. Aos poucos, seu estado de espírito se acalmou. Voltou do parque cantando, almoçou sua refeição de calorias controladas, vestiu uma das calças que estavam apertadas e voltaram a ficar bem. Nenhum compromisso era obrigatório ou tinha prazo. Foi ao shopping. Viu vitrines e, contrariando a sensatez habitual, comprou três vestidos de uma vez. Sem óculos, na luminosidade precária do provador, achou que estava ótima. *Texto publicado na Antologia 2024, da Pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz.
Imagem que gruda na mente

Vários dias se passaram e não sai da minha cabeça as cenas da reportagem sobre o estupro de uma mulher em Paranaguá, na qual uma câmera mostra a vítima tentando se segurar em uma parede até ser arrastada pelo agressor a um banheiro de um posto de gasolina desativado. Segundo a matéria, a câmera a registrou dizendo NÃO pelo menos onze vezes, mesmo só capturando som quando está de frente para a cena. Assistir ao estuprador dizendo cinicamente para a delegada que a mulher dizia NÃO para fazer charme é de embrulhar o estômago de qualquer pessoa normal. O aflitivo, no entanto, é ser cada vez mais difícil saber o que é normal, em um mundo em que, mesmo quando o estupro é praticamente filmado, um juiz negue duas vezes a prisão do agressor. Ele só foi detido após a apelação do Ministério Público. Desnecessário dizer que, caso não houvesse gravação, o mais provável é que as autoridades não acreditassem na versão da mulher e tudo ficaria por isso mesmo. O caso do jogador de futebol Daniel Alves, cuja condenação de estupro foi anulada na Espanha, é prova de que não é um problema apenas do Brasil. Já é difícil entender o que move homens a estuprarem mulheres. Pior: muitas vezes suas próprias esposas, namoradas, filhas. O descrédito que a palavra feminina tem como depoente, porém, é o maior incentivo para os criminosos. Dói ser mulher e pensar que o que aconteceu com as mulheres em Paranaguá e na Espanha está ocorrendo neste exato momento em vai saber quantos lugares no mundo, e poderia ser uma de minhas filhas naquela situação. Contra essa indignidade, nós mulheres precisamos não somente ocupar mais espaços de voz e poder, mas contar com posicionamentos mais incisivos dos homens que não compactuam com isso. As estatísticas e as imagens mostram que não têm sido feito o suficiente.
Gostaria de entender o ódio masculino às mulheres

Assim como a maior parte das pessoas que já assistiram, não consigo parar de pensar na série Adolescência, da Netflix. Li tudo que apareceu na minha frente, conversei com quem tive oportunidade. O que tem me perturbado, mais do que o papel dos pais, instituições e redes sociais no comportamento atual dos meninos é o ódio às mulheres em si. Em que momento da história, os homens decidiram que as mulheres eram seres de outra espécie, inferiores, existentes para satisfazer seus desejos? O que diria Darwin sobre a utilidade dessa excrecência evolutiva? Um dos trechos que mais me chamou a atenção quando li “Sapiens, uma breve história da humanidade” é quando Yuval Harari questiona por que as sociedades humanas são majoritariamente patriarcais, pelo menos desde a invenção da agricultura. É o único capítulo no qual o autor se diz incapaz de formular uma teoria, reconhecendo não ver lógica científica para isso: não há diferença cognitiva entre os sexos e a diferença de tamanho é muito pequena e relativa para ser uma explicação, afinal há muitas mulheres maiores do que homens. Nesta semana, uma matéria em O Globo traz uma pesquisa, publicada em janeiro na revista cientifica Biology Letters, mostrando que a altura média masculina aumentou duas vezes mais rápido do que a feminina nos últimos anos, o que, especulo, pode significar que esta diferença está aumentando. Além da genética, o estudo atribui o fato às meninas entrarem na puberdade mais cedo, o que interrompe o crescimento, e à “seleção sexual” – mulheres tendem a preferir homens mais altos. Tem lógica, mas ainda acho as afirmações frágeis, afinal, as meninas também entram na puberdade antes dos meninos e homens transmitem seus genes para filhos e filhas. Quem sabe se a vida mais reprimida tem influência maior? Mas não sou cientista. Já ouvi dizer que ser mãe e ter que cuidar da cria fragiliza a mulher, mas acho difícil acreditar nisso. Ter muitos filhos é coisa recente. E cuidar da cria poderia muito bem ser uma tarefa dividida. Algumas famílias modernas provam isso. Ao contrário, penso que deve ser difícil para os homens aceitarem nossa capacidade de gerar, um superpoder que nunca terão. E a capacidade de perder litros de sangue e continuar vivendo como se nada (ou quase nada) estivesse acontecendo. Ou de parir uma criança e imediatamente se colocar de pé para cuidar dela, muitas vezes, após uma cirurgia complicada que é uma cesariana. O que interessa aqui, e parece mexer com as pessoas que assistem à série, porém, é o que faz um pirralho de treze anos achar que pode matar uma menina porque ela não deu bola pra ele e ir dormir tranquilamente. Isso em um país desenvolvido da Europa. E como os homens conseguiram por tanto tempo convencer as mulheres de que o mundo é assim mesmo, enfiando por nossas gargantas religiões que nos diminuem e reprimem. Em que momento, aquilo que muitos acham “brincadeira” ou, no extremo, “brincadeira de mau gosto” se torna explicitude de ódio e perigo à integridade feminina? Para o senador Plínio Valério (PSDB-AM), dizer que ficar com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, por algumas horas sem ter vontade de enforcá-la é um milagre. E uma brincadeira, da qual não se arrepende. Tenho muitas perguntas, uma indignação infinita e não vejo solução fácil. Os retrocessos civilizatórios que temos visto reforçam essas sensações. Só sei que não podemos nos descuidar. Os incels não parecem esmorecer.
O mundo chama pela sabedoria das avós

“A Ciranda das Mulheres Sábias – Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem” é da mesma autora de “Mulheres que Correm com Lobos”, um clássico sobre os arquétipos femininos. Neste outro livro, Clarissa Pinkola Estés se debruça no poder da mulher madura, onde “instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados”. É um convite às mulheres maduras, as avós de todos, para que compartilhem seus conhecimentos com as mais novas e usem sua sabedoria para fortalecer o mundo, para que sejam “as pedras de toque, as notas fundamentais, os paradigmas necessários”. Chegando neste momento da vida, me senti chamada a procurar por esse poder, do qual, segundo a autora, “não sabemos dizer com muita precisão onde e como tudo isso ocorre. A poesia faz-se necessária para explicar a força vital de uma mulher: a dança, a pintura, a escultura, os ofícios do tear e da terra, o teatro, os adornos pessoais, as invenções, escritos apaixonados, estudo em livros e nossos sonhos, conversas com outras que sejam sábias, o atento intuir, refletir sentir e pressentir…”.
Literatura feminina é só pra mulher?

Longe de mim desmerecer os autores, são todos ótimos, mas fiquei decepcionada ao ler hoje que apenas três mulheres estão entre os dez livros mais vendidos na Flip neste ano. Sem estar na programação do evento, a sul-coreana Han Kang entrou na lista, possivelmente, apenas porque foi a vencedora do Nobel de Literatura de 2024. Há mais de uma lista, com nomes diferentes, mas a proporção se mantém. A impressão que tenho é que o tempo passa e as mulheres continuam sendo menos lidas. Dizem que homens normalmente não leem mulheres, o que desequilibra a corrida. Tenho lido bastante literatura, obras de autores de todos os gêneros, e não consigo achar que um é melhor do que o outro. Nos ambientes literários, como em lançamentos, clubes de leitura ou na pós-graduação em escrita criativa que frequento, as mulheres são sempre maioria, mas isso não se reflete no quanto são lidas. Quando aparecem comentários sobre isso, costumo ouvir que há uma literatura feminina, com temas que só interessam às mulheres, sendo a masculina, ao contrário, universal. Será? Pensei isso hoje lendo o delicioso livro de poesia “do vago conforto de estar viva”, da querida Julia Caiuby, companheira no curso do Vera Cruz. Sim, um jeito feminino de ver o mundo, pelo menos culturalmente feminino. Mas não uma leitura para mulheres, a beleza de seus versos fala a qualquer um. Enfim, é apenas mais um desabafo feminino, cheio de mimimi. E fica aqui um cheirinho do livro da Julia: A VIDA disse um dia um amigo poeta que a vida não pode ser só isso digo mais a vida não pode ser só, é isso.
Culto à misoginia*
Travestido de estiloso e moderno, por trazer pseudoinovações (Guimarães Rosa foi bem mais eficiente, já que usar só caixa baixa não é exatamente um grande achado estilístico), o livro “o remorso de baltazar serapião”, de Valter Hugo Mãe, é um culto à misoginia. O autor tenta disfarçar o intento, ao mostrar a vida como dura e sem sentido para todos os personagens, mas o prazer com que descreve (em primeira pessoa, através de seu bronco personagem) os atributos físicos, fisiológicos e intelectuais femininos da forma mais torpe que já vi na literatura é inegável (nem Nelson Rodrigues conseguiu chegar perto, coitado!). O livro é premiado e elogiado por Saramago etc., mas curiosamente não encontrei uma resenha sequer escrita por mulher. Todos os elogios citam a misoginia do texto, mas parecem ter caído na armadilha de ser esta mais uma das dores do mundo e não “A” fonte de inspiração do livro, cuja centralidade na vaca não deixa dúvidas. Um exemplo, que parece chegar perto da questão, é a crítica de Sérgio Rodrigues, que conclui: “(…) o remorso de baltazar serapião se torna mais forte e mais incômodo quando a misoginia visceral do mundo que retrata, exposta com brutalidade na paulatina subtração física a que os maridos submetem as mulheres, parece se infiltrar no tecido narrativo. Ao perder a voz, aquela voz feminina que “vinha das caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino”, como anuncia o narrador já na primeira frase, a mulher finalmente se entrega ao amor do homem. É tarde: tudo já deu em nada, a humanidade perdeu. De pé só resta Sarga, a vaca, com sua inútil compaixão.” A misoginia é constante na história da humanidade. Ela está presente na bíblia judaica e em cartinhas do Novo Testamento (apenas Jesus Cristo parece não ter comungado dela), e se perpetua através dos tempos nos cintos de castidade, mutilações de clitóris, burcas, prostituição e afins. Ela compraz os homens desde que o mundo é mundo. Isso por si só já é um grande problema, mas poderia ser aos poucos extirpado se a outra metade da humanidade (que na verdade é a maioria – só no Brasil somos 6 milhões a mais) não compactuasse voluntária e contentemente com ele. Acredito que isso pode não ter sido sempre verdade (e ainda não o seja para todas as culturas), mas é fato inequívoco na sociedade Ocidental. Vejamos. Somos menores (parece que 15% na média) e mais fracas fisicamente do que os homens. Só aí, já há uma desvantagem enorme, que fez ao longo de milênios as mulheres se sujeitarem a machos que as defendessem e sustentassem (essa vantagem competitiva do sexo masculino foi fundamental na hora de caçar mamutes ou carregar a cria e pertences em longas caminhadas – lembrem-se, que a cada passo dado por um homem, uma mulher dá praticamente 1,5 – façam as contas no final de um dia caminhando quilômetros e quilômetros…). Essa relação de poder se perpetua no tempo através de religião e força (vide Oriente Médio, regimes tribais africanos). Mas não é o que acontece no Ocidente, onde as mulheres finalmente se rebelaram, queimaram seus sutiãs (espartilhos? cintos de castidade?), ganharam o direito de eleger e de mandar (temos aqui mesmo a terceira mulher mais poderosa do mundo – estaria ela também na lista dos humanos mais poderosos?) e de fazer sexo com quem quiserem (viva a pílula!). No entanto, estamos, de livre e espontânea vontade, ficando apenas com a pior parte dessas conquistas. Lutamos, enfrentando muita resistência, pelo direito de estudar e entrar no mercado de trabalho remunerado (já que mulher nunca ficou um dia sem trabalhar – e olha que puxar água de poço e lavar roupa no rio é trabalho braçal tão duro quanto carregar pedra). Passado o susto, porém, os homens se tranquilizaram: “elas não deixaram de cuidar de nossos filhos, da nossa casa, da nossa comida e de fazer sexo quando tivermos vontade. E, ainda por cima, tiraram de nossos ombros a responsabilidade de garantir o sustento da prole se quisermos perpetuar nossos genes. Podem fazer isso sozinhas, nos permitindo ficar apensas com a parte boa. De agora em diante, se falta provento à família, a responsabilidade, no mínimo, é compartilhada (em troca, podemos, de vez em quando, trocar uma fralda, que não mata ninguém).” Mas o ódio a esse ser que pode se virar sozinho só fez aumentar: agora os homens ganharam novos direitos, como o de contar as piores piadas e fazer os mais grosseiros comentários não apenas entre eles, mas na frente delas (mesmo que sejam pequenas mulheres em formação) e de justificar suas grosserias como o preço a pagar pela “liberdade” e “igualdade” conquistadas. Até aí, volto a dizer, nenhuma surpresa… A gota d’água é ver as próprias mulheres se submeterem a carregar o mundo nas costas – com suas duplas jornadas – e ainda buscarem a submissão sexual. Ler um livro como “o remorso de baltazar serapião” deveria ser uma ofensa tão grande quanto ler o artigo do Luiz Felipe Pondé, na Folha desta semana, defendendo que mulher gosta de apanhar e este é o mundo real. Mais triste ainda é ver que ele justifica isso citando o sucesso do livro Cinquenta Tons de Cinza, escrito por uma mulher e idolatrado por elas mesmas. Que recado estamos enviando para nossos homens? Pior do que tudo isso, é ver mulheres se mutilando e exibindo a prova publicamente: em seus rostos, seus seios e, agora, em suas genitálias, para poder melhor se submeter à competitividade por um macho (para sustentá-las? para humilhá-las?). Não me admira ver adolescentes bulímicas e se cortando com giletes. Comportamentos semelhantes são infinitamente incomuns em indivíduos do sexo masculino, que, sabemos porquê, são muito mais felizes com a própria existência. No suplemente Equilíbrio (da Folha) nesta mesma semana do artigo do Pondé, além da matéria de capa “Costura íntima” sobre as plásticas de vagina, há um artigo dizendo que, para muitas mulheres, o sexo se tornou uma obrigação e
Calça legging
Praticamente todos os dias quando levo as crianças para a escola cruzo na rua com uma mulher que apelidei de ‘moça da calça legging’. Dependendo do horário que passo de carro, ela caminha calmamente pela Natingui (se a encontro na ida) ou na Nazaré Paulista (se a encontro na volta, quando estamos mais atrasadas). O motivo óbvio do apelido é que, independentemente do tempo, da época do ano ou seja lá o que for, ela está sempre com uma calça legging e um blusão. Nunca, mas nunca mesmo, a vi com um vestido, uma calça jeans ou qualquer outro tipo de roupa. Não significa que ela está sempre com a mesma roupa ou não se vista bem: tem uma variedade incrível de ‘leggings’ e complementos e está sempre produzida. Também nunca a vi com o horror símbolo brasileiro que são as mulheres mostrando o traseiro em ‘leggins’ justíssimas e blusas curtíssimas, às vezes vertendo pneus para fora. Não é, absolutamente, o caso da minha personagem. Ela apenas me chama a atenção e me faz viajar em conjecturas de porque uma pessoa só veste um tipo determinado de roupa. Procurá-la nas minhas manhãs é um daqueles poucos prazeres desinteressados que fazem o dia a dia um pouco mais interessante…