Minhas leituras: De Onde Eles Vêm

Todo começo de ano, somos inundados com um festival de inutilidades, ignorância e até crimes ao vivo no Big Brother Brasil. Mesmo quem não assiste, como é o meu caso, é só abrir qualquer rede social e lá estão os comentários do dia. Nesta edição, já vimos desinformação rasgada sobre o Bolsa Família, homem expondo a esposa grávida e o mesmo sujeito cometendo crime de assédio sexual. Enquanto estava de férias, na semana passada, um outro assunto do BBB me chamou a atenção: duas integrantes conversavam sobre cotas raciais e, pelo que entendi, uma branca defendia as cotas, por conta de reparação histórica, e a outra, negra, dizia que brancos e negros têm a mesma capacidade de raciocínio e, presume-se, era contra as cotas. Confundir capacidade de raciocínio com passar no vestibular é, no mínimo, ingenuidade. Acontece que vi os comentários sobre este assunto enquanto terminava de ler De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras), de Jefferson Tenório, mesmo autor de O Avesso da Pele, um dos melhores romances brasileiros sobre o racismo estrutural no país, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. Neste outro romance, o autor volta ao tema, dessa vez sob a perspectiva justamente das cotas raciais na universidade. Seus personagens são pobres, periféricos, excluídos … e negros que tiveram acesso à universidade pelo sistema de cotas raciais. Acompanhamos especialmente Joaquim, jovem órfão, desempregado e responsável por cuidar da avó doente, tentando se manter no curso de Letras e se enquadrar na faculdade, enquanto falta dinheiro até para pegar o ônibus da cidade dormitório onde vive até Porto Alegre, onde estuda. O romance se passa em meados dos anos 2000, quando as cotas estavam ainda no início e os alunos beneficiados começavam a se organizar para criar uma rede de apoio e enfrentar os preconceitos. Lendo o livro de Tenório, fica claro como as cotas são necessárias, embora insuficientes, para acabar com a desigualdade absurda que vigora em todo o Brasil. No ano passado, estive em Porto Alegre para a formatura da minha sobrinha, na mesma Universidade Federal do Rio Grande do Sul que é cenário do livro. Foi a primeira vez que assisti a uma formatura onde havia paridade de alunos negros e brancos. Eram formandos de Psicologia e Serviço Social e me emocionei ao ver muitos deles dizer serem os primeiros da família a completar um curso superior e dedicarem seus diplomas a mães e pais que lutaram a vida toda sem conseguir ascender dos trabalhos da base da pirâmide aos quais grande parte da população negra é aprisionada. Viva as cotas!
Paz e sustentabilidade por meio da espiritualidade

Mais uma vez no Brasil, desta vez para participar da COP30, em Belém, a líder espiritual indiana Jayanti Kirpalani fará uma palestra no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 27 de novembro, com o tema “Fazendo escolhas que cuidam de nós mesmos e do planeta”. Na ocasião, ela será entrevistada pela jornalista Darlene Menconi, produtora de conteúdo sobre resiliência climática e pesquisadora em cidades inteligentes e sustentáveis. Diretora administrativa adjunta da Brahma Kumaris (BK), maior organização espiritual do mundo liderada por mulheres, Sister Jayanti, como é conhecida, esteve no país em 2019, quando a entrevistei para o blog Mulheres Ativistas, do portal Conexão Planeta. Líder espiritual e professora há mais de 50 anos, é pioneira na defesa do cuidado com a terra a partir de uma base espiritual. Para ela, o materialismo e o consumismo afastaram o ser humano da natureza, que passou de lugar sagrado em todas as culturas, para algo a ser explorado. O resultado mais visível atualmente são as mudanças climáticas causadas por esse estilo de vida. Representante da Brahma Kumaris na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1982 e nas conferências anuais do clima desde 2009, a indiana procura inserir princípios espirituais nas mesas de discussão de políticos, economistas, líderes empresariais e cientistas. Veja a entrevista em https://conexaoplaneta.com.br/blog/jayanti-kirpalani-paz-e-sustentabilidade-por-meio-da-espiritualidade/ ou abaixo. A palestra no Sesc Santana começa às 19 horas de sexta-feira. A entrada franca, mas é necessário retirar ingresso pelo link https://www.sescsp.org.br/programacao/fazendo-escolhas-que-cuidam-de-nos-mesmos-e-do-planeta/ ou no dia do evento no local, a partir das 18 horas. – Como foi o seu despertar para a espiritualidade? Embora não tenha perdido meu contato com a Índia, onde ia com a família para passar férias desde nossa mudança para a Inglaterra, aos 19 anos, em 1968, resolvi passar mais tempo no país, conhecer mais sobre nossa cultura. Minha mãe já tinha contato com a Brahma Kumaris e procurei um dos seus centros de meditação atrás de algo que me ajudasse a tomar melhores decisões na vida. Passei seis meses estudando e buscando meu desenvolvimento pessoal. Lá, encontrei o fundador da organização, Brahma Baba, que me perguntou o que eu queria dizer ao mundo. Naquele momento, soube que minha vontade era ser uma professora espiritual e inspirar pessoas. E essa foi minha jornada. Em janeiro de 1969, Baba faleceu e foi um momento de virada para a organização, quando duas mulheres passaram a ser as dirigentes. Isso foi possível porque, desde que a Brahma Kumaris foi criada, em 1937, existia a visão clara que, se quiséssemos um mundo de paz, precisávamos de igualdade entre os gêneros. Por isso, sempre houve treinamento de mulheres, como os que participei, para ser líderes. Essa postura era revolucionária na época na Índia e no mundo todo. – Você foi a primeira pessoa a levar a Brahma Kumaris para fora da Índia? Sim. Em 1969, voltei para Londres pensando em iniciar as atividades da organização para a Europa. Passei dois anos fazendo contatos com várias organizações até que, em 1971, uma delegação da Brahma Kumaris foi até lá para apresentar sua filosofia para a comunidade ocidental e fundamos o primeiro Centro de Meditação fora da Índia. Em 1981, estávamos em 30 países com nossa filosofia de paz individual e mundial. Em 1986, quando coordenávamos atividades do Ano Internacional da Paz, da ONU, criamos em Londres o primeiro escritório internacional, do qual sou dirigente, para agilizar a comunicação entre os países. Hoje, estamos em todos os continentes. – Qual a afinidade entre a Brahma Kumaris e a ONU? Somos filiados à ONU como uma organização não-governamental. Nosso propósito é a paz, o que também é a meta das Nações Unidas, por isso estamos conectados. Um ano antes do Ano Internacional da Paz, em 1985, houve o Festival Live Aid, para arredar recursos para a combater a fome na África. Vimos que as pessoas queriam doar mais do que dinheiro. Queríamos pedir algo mais valioso e as convidamos a doar tempo, minutos para orar, meditar ou ter pensamentos puros pela paz. Uma escola que decidisse dedicar três minutos de uma assembleia com mil alunos para isso, representaria três mil minutos de pensamento pela paz. O Projeto Mensageiro da Paz surgiu daí. Era uma técnica simples para tornar as pessoas perceptivas de que podem fazer algo pela paz no mundo. A meta era que começassem a ter pensamentos pacíficos para experimentar a paz que existe em cada ser humano e iniciassem uma jornada em direção à paz. Chegamos a bilhões de minutos pela causa, em 60 países diferentes. Com esse projeto ganhamos vários reconhecimentos da ONU e fomos considerados a entidade sem fins lucrativos que mais atuou pela causa naquele ano. A partir dali, passamos a desenvolver vários programas junto à ONU para mulheres, idosos, saúde, desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, estamos conectados com o tema de mudanças climáticas. – A campanha pela paz teve continuidade? A ONU se interessou pelo nosso trabalho e pediu que continuássemos com ele, o que resultou no Projeto de Cooperação Global por um Mundo Melhor, que durou de 1988 a 1991 e chegou a reunir 128 países. Nele, perguntávamos para as pessoas: qual a sua visão para um mundo melhor? Como vê os relacionamentos nesse mundo? Como se vê nele? Quais os passos práticos que você pode dar para tornar esse mundo melhor uma realidade? Cada um podia fazer o que quisesse. Por exemplo, uma família na Grécia tomou a decisão de pegar um cômodo da casa para ser uma zona livre de queixas. Engraxates mirins do Brasil, que brigavam muito entre eles, resolveram que iriam cooperar, emprestando seus equipamentos, como escovas, uns aos outros. – Por que a Brahma Kumaris se envolveu tão fortemente com as mudanças climáticas? Trabalhamos junto à ONU com o propósito de mostrar que existe uma dimensão espiritual em todas as pessoas. Mas a consciência humana criou uma forma materialista de viver. Nos tornamos uma sociedade consumista. Materialismo e consumismo nos distanciam da natureza. A espiritualidade nos lembra que a natureza é algo sagrado, por isso é
Como é vestir-se de outros?

Transportar a experiência performática para a literatura é um desafio e tanto, mas foi encarado pela artista Beatriz Cruz no Projeto Desandar, uma coleção que traz para fotos e textos programas de performance que transitam entre os territórios do corpo e da linguagem. A obra, que lançou também a Editora Kipuka, nova aventura da Lili Almendary, também cofundadora da Taturama – Cinema de Impacto Social, vem em um caixa com três livros. O primeiro traz uma “Série de programas de performance para a cidade, o corpo e o fim do mundo” e surge da experiência com práticas de deriva urbana, de errar pela cidade, de andar sem um rumo ou objetivo a priori. E dá uma noção do olhar de Beatriz e como a performer usa o corpo em sua arte. O segundo livro é o audacioso “Uma ode à siririca e ao orgasmo autogestionado como resistência ao patriarcado”. Mais não falo, apenas recomendo que leiam sozinhas, de preferência em casa… “Notas sobre 365 dias vestida de outras pessoas”, o terceiro livro, me acompanhou por uma semana inteira de viagem imaginária. Nele, Beatriz relata, quase como um diário repleto de fotos, sua experiência de vestir-se exclusivamente com roupas emprestadas, a cada semana por uma pessoa diferente, durante um ano. Algumas delas quiseram usar as roupas da artista durante a participação. Nessa aventura, que chamou de “Descaracterizar-se”, Beatriz vestiu roupas de pessoas de todo tipo: mulheres e homens cis e pessoas não binárias. Usou até roupa de travesti. A cada semana, recebia uma mala preparada por alguém com trajes para todas as ocasiões (dormir, ficar em casa, trabalhar, passear), algumas com instruções bem precisas sobre a montagem dos trajes. Podia passar uma semana parecendo uma senhorinha, como quando pegou as roupas de sua avó, e na semana seguinte sair como um garoto grunge, com bermudões surrados e camisetas rasgadas ou com motivos rock and roll. Mudou o cabelo, pintou e cortou os cabelos, usou assessórios, pintou as unhas e fez maquiagem sempre de acordo com quem a estava vestindo. Ler seus relatos sobre como as roupas afetavam o seu cotidiano, desde o humor a como as pessoas a tratavam na rua, nos leva obrigatoriamente a questionar os papeis de gênero, convenções diversas e maneiras de ser de cada um. Como a performer pondera, todos nós fomos inicialmente vestidos por alguém. Como isso afetou nossos gostos e nossa personalidade? Como nosso gênero, profissão, ambiente que frequentamos moldam nossa maneira de vestir? Me vi em vários momentos pensando nas minhas próprias roupas e o que elas falam sobre mim. Lembrei do estilo de várias amigas e me imaginei vestindo suas roupas e perguntando quem eu seria com elas? Como eu seria com as combinações inusitadas da Nivia, que a deixam superelegante, mas que eu jamais pensaria em fazer? Ou com o estilo esportivo chique da Claudia, com as roupas transadas de trabalho da Paulinha e as sempre descoladas da Lili e da Nat? Teria coragem de usar os sapatos maravilhosos da Bia? Como eu faria exercícios com trajes de ginástica estilosos iguais aos da Maura ou da Regina? Será que minhas roupas me moldam ou as escolho a partir de um molde interno já determinado? Se alguém usasse minhas roupas, ficaria com um jeito parecido ao meu? É impressionante até onde a experiência de um livro consegue nos levar.
Ser ou não ser mãe, eis a questão

Embora tenham abordagens diferentes, o mesmo tema permeia Manifesto Antimaternalista, de Vera Iaconelli (Editora Zahar), e Maternidade, de Sheila Heti (Companhia das Letras). Ambos os livros problematizam a maternidade como função primordial da mulher, ideia corrente na sociedade ainda hoje nos quatro cantos do mundo. Enquanto Iaconelli aborda o assunto de maneira quase acadêmica, sob o ponto de vista da psicanálise e das políticas de reprodução, escancarando eventos políticos e sociais que moldaram um ideal de maternidade baseado na hipervalorização do papel de cuidadora na genitora e na conceção de um instinto materno que impõe sacrifício, abnegação e culpa à mulher, Heti escreve um livro inteiro para se decidir se quer (ou precisa) ser mãe. Segundo a psicanalista e escritora Vera Iaconelli, o maternalismo é a ideologia que atribui às mães um papel insubstituível no cuidado com as crianças, um modelo anacrônico, fonte de inúmeros sofrimentos e adoecimentos para as mulheres. Mais do que isso, o termo “mãe”, conforme a autora, se liga ao mito de que a genitora é o tipo preferencial de mãe, aquela que teria dotes naturais para a função, ou seja, o famoso “mãe só tem uma!”, distinguindo-a de todos os demais cuidadores, incluindo o pai. Seu manifesto antimaternalista combate a falsa premissa de que haveria uma natureza maternal decorrente do instinto e coloca em xeque o modelo de reprodução social que procura manter as mulheres em posição subalterna e que negligencia um sentido coletivo de cuidado e responsabilização. Chegando à idade crítica para procriar e vendo a maior parte de suas amigas se tornar mãe, a autora canadense Sheila Heti também questiona o papel feminino como principal responsável pela reprodução da espécie e, assim como Iaconelli, a ideia imposta às mulheres de incompletude se não tiverem filhos. Em suas sofridas divagações, que devem ser as mesmas de um número exorbitantes de mulheres atualmente, ela diz que, se pudesse, adoraria ser pai. E ninguém diga que essa afirmação carece de explicação. Mais do que a “mãe genitora”, que Iaconelli tão bem descreve, Sheila Heti também discute esse lugar de cuidadora que todos esperam das mulheres: “Na verdade, a coisa mais difícil é não ser mãe – se recusar a ser a mãe de quem quer que seja. (…) Há sempre alguém pronto a se meter no meio do caminho que leva uma mulher a sua liberdade, percebendo que ela não é mãe, tentando transformá-la em uma (…) – pessoas que querem que você faça com que tomem suas vitaminas, ou precisam do seu conselho a todo momento, ou que simplesmente querem conversar, tomar uma cerveja – e te persuadir a ser a mãe deles.” Fico muito feliz em ver mulheres jovens atualmente tendo dúvidas ou falando com naturalidade sobre não querer ser mães, pois nunca acreditei na máxima de que uma mulher só se realiza pela maternidade. E sempre me irritou a sobrecarga sobres as mães. Tinha a convicção de que não queria ter filhos. Como me casei muito cedo, aos 22 anos, passei anos sendo questionada sobre porque não engravidava, o que era muito irritante. Aos 30 anos, de repente, quis ser mãe, conversei com meu marido, e resolvemos juntos sermos pais. Em três anos, tivemos três filhos e foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, embora eu saiba que outras coisas boas poderiam ter acontecido se nossa decisão fosse outra. Na fase de crianças pequenas, outra frase que me deixava louca era se meu marido me ajudava. Sempre combati a concepção de que toda a obrigação era minha e que tinha que ser agradecida de obter “ajuda” do pai dos meus filhos. Ainda estamos longe como sociedade de resolver essa questão. Por isso, esses dois livros são muito bons para quem pensa em ter um bebê, para as mulheres que já tiveram bebês e para as que não querem ter. Se possível, sobre o tema, leiam também O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Ou melhor, se tem mulher que ainda não leu, corra pra ler Beauvoir o mais rápido possível.
O conforto da bolha é bom, mas não resolve

Os algoritmos decidem o que eu vejo nas redes sociais a partir das postagens que curto, comento ou apenas me detenho. Isso significa uma inundação de informações sobre meio ambiente – agora a maior parte sobre a COP-30 -, literatura, feminismo e política alinhada às pautas de esquerda. Para quem não sabe, não significa comer criancinha ou ditadura comunista, mas direitos humanos, justiça social e coisas comezinhas como estas. Mas também vejo bastante coisa sobre moda, viagens e programas culturais e gastronômicos na cidade de São Paulo. Sou feliz na minha bolha. Ultimamente, porém, tenho me perguntado o que deve passar pelas redes das pessoas, digamos, “conservadoras”. O termo me incomoda muito, porque não sei até agora o que essas pessoas querem conservar. As últimas semanas têm sido uma montanha-russa destrambelhada impossível de controlar. Um julgamento histórico, com um peruqueiro no meio tentando melar, mas que no final nos deixou aliviados. Mas que tipo de informação abastece os que querem uma intervenção estadunidense no Brasil, para salvar seu mito golpista e implantar um regime totalitário por aqui em nome da “liberdade de expressão” !?!?!?! Fico imaginando quais argumentos devem passar nas timelines e chegar nos grupos de WhatsApp das pessoas desejosas da aprovação do Projeto da Anistia. Sei que estão imersos em uma bolha muito diferente da minha, mas ela deve ter alguma lógica. Será? Quando tenho alguma informação sobre esse mundo invertido, vejo uma senhorinha dizendo que Lula e os ministros do STF foram substituídos por sósias ou então pessoas vociferando livremente pelas ruas, mas dizendo que estamos em uma ditadura. Gostaria de saber se e onde essas pessoas estudaram lógica, pois não consigo acompanhar seus raciocínios. Deve haver algum raciocínio. Se tudo isso é incompreensível, a PEC da blindagem, ou da picaretagem ou da bandidagem, é difícil nomear, ultrapassa todo o resto. Que tipo de informação pode estar circulando entre essas pessoas que justifique apoiar parlamentares não poderem ser presos, ou mesmo investigados, nem por crises comuns, como assassinato e estupro? O pior, nesse caso, é que não é apenas o PL e seus irmãos de sangue que votaram sim, mas muitos deputados de esquerda ameaçados por algum malfeito. Aparentemente, seus eleitores nem precisam estar sendo informados, visto que os deputados não parecem estar muito preocupados com o que a sociedade pensa sobre o assunto. Até porque, desconfio, muitos vão votar neste mesmo congresso nefasto na próxima eleição, conforme seus líderes ou pastores mandarem. É por isso que sempre escolho parlamentares do Psol e da Rede. Eles não me decepcionam.
A bailarina

Acompanho as aventuras da Joana desde bebezinha, ou até antes, na barriga da mãe, minha amiga Daiani Mistieri, que sempre amou dividir as proezas da cria nas redes sociais. E a @jo.mistieri não decepciona. Era um azougue já bem pequena fazendo dança acrobática. E isso não faz tanto tempo assim, porque a menina só tem dez anos. Desde 2022, Joana é aluna da Escola Momentum Arte e Movimento e, sob direção e coreografia de Marina Mancini, já vem conquistando espaço nos palcos. Tem participado de importantes festivais e se destaca em cada apresentação. Com a coreografia “Dermatite Atópica”, criada por Marina Mancini em 2023, ganhou cinco premiações expressivas: o Festival Aplausos, o Festival de São Paulo, o Festival de Joinville e, mais recentemente, neste ano, o Festival Pridansp, no qual ficou em primeiro lugar. Além da conquista no Pridansp, Joana recebeu um convite exclusivo para se apresentar na Noite de Gala, um espaço reservado apenas para os grandes destaques do festival — um reconhecimento que celebra não só o talento, mas também todo o empenho e a evolução da jovem bailarina. Tem tudo para fazer história nos palcos, para corujice da mãe (e das amigas da mãe!). Enquanto isso, sigam ela por aqui, que é uma delícia.
Apocalipse nos Trópicos é uma ode para que ele não aconteça

O documentário Apocalipse nos Trópicos, da cineasta Petra Costa, está sendo exibido na Netflix e merece ser visto. O filme não emociona tanto quanto Democracia em Vertigem, de 2019, que foi indicado ao Oscar e ao qual assisti às lágrimas, talvez porque estamos mais cascudos aos absurdos naturalizados desde então, mas é um ótimo retrato do crescimento dos evangélicos na política brasileira e seu papel na ascensão da extrema direita no país e de Bolsonaro à presidência, além da tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. Costa faz do pastor Malafaia seu personagem emblemático. Falastrão, ele explica que seu principal objetivo é ter o poder terreno mesmo, ou seja, Brasília, e que não mede esforços para tanto. Fala de Bolsonaro quase como um subordinado seu. É engraçada uma cena em que o ex-presidente discursa e Malafaia, ao seu lado no palanque, vai falando labialmente as palavras junto com ele, como faria um “ponto” no teatro. Poderia ser divertida também, mas absolutamente não é, a entrevista com uma senhora na Bahia que diz gostar muito das políticas do Lula, que ele fez muita coisa para a população, mas que não votaria nele porque ele era do Candomblé e isso era inadmissível. Quando perguntada sobre de onde tirou a informação, ela mostra o celular. Me chamou a atenção, ainda, a forma articulada de funcionamento da bancada evangélica no Congresso Nacional. Dizer que a cineasta generaliza os evangélicos é pueril diante das cenas que mostram como eles acham muito natural transformar o legislativo brasileiro em quintal de suas crenças. Estado laico para eles não representa nada. O alinhamento da bancada da Bíblia com a da Bala fica bem claro sobretudo nos comícios. Me deixou intrigada também a obsessão que os evangélicos têm com o aborto: a primeira coisa a ser combatida no mundo em todos os discursos. Alguém precisa dizer pra eles que mentir descaradamente na internet ou nos palanques, assediar, estuprar e bater em mulheres, deixar crianças abandonadas nas ruas, deixar pessoas morrerem sem atendimento médico e ainda debochar dos doentes é um caminho muito mais certeiro para o inferno, seja lá o que for isso, do que ajudar uma menina violentada a ter alguma chance de futuro ou uma mulher adulta decidir o que fazer com o próprio corpo. O que mais me espanta, porém, vendo o documentário, me lembrando dos quatro terríveis anos do governo Bolsonaro – principalmente durante a pandemia – e em todos os noticiários diários desde então, é como alguém consegue votar em uma pessoa que não consegue formular uma frase coerente como começo, meio e fim.
Livro narra trajetória de clube de leitura formado por mulheres 50+

A narrativa bem-humorada, sensível e afetiva sobre a criação e trajetória de um clube de leitura formado por mulheres 50+, dão o tom em Temos fome, somos loucas, da jornalista e escritora Maura Campanili. Lançamento da estreante Editora Pitanga, a obra mergulha o leitor na história do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um grupo que, há mais de 15 anos, transforma encontros em rituais de amizade, escuta e liberdade. “A ideia partiu de uma das integrantes, a sexóloga Neise Galego, que queria ter um grupo de amigas para discutir os livros que lia”, explica a autora. “Ela chamou as irmãs e outras amigas e começamos. Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio modo de nos reunirmos. Uma coisa interessante é que, no início, imaginava que o grupo não duraria tanto e que perderíamos o interesse ao longo do tempo. E aconteceu exatamente o contrário. Nossos encontros foram ganhando mais importância e profundidade.” Temos fome, somos loucas é uma celebração da força do coletivo e da busca por sentido em meio ao cotidiano acelerado. Com encontros regados a livros, taças de prosecco e muitas gargalhadas, as integrantes do grupo desafiam a lógica da produtividade infinita e constroem um espaço de acolhimento, trocas profundas e resistência — inclusive à própria sanidade imposta às mulheres. A obra reúne relatos sobre os livros lidos, as experiências compartilhadas, os desafios de convivência e os impactos profundos desses encontros na vida de cada participante. Obras como A Menina da Montanha, de Tara Westover, e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, por exemplo, provocaram debates intensos sobre temas como extremismo, consumismo e identidade feminina. A política brasileira, e os embates ideológicos das últimas eleições no país, não ficaram de fora. “Um grupo que não seja impactado por temas políticos e sociais, ou é muito simplista ou propositalmente alienado”, reflete Campanili. “No nosso caso, tentamos discutir todos os temas, sem a necessidade de todas concordarem com todas. Em alguns momentos, até nos alteramos, mas temos, ao longo do tempo, aprendido a superar as diferenças. Acredito que todas nós fomos, por meio dos livros, nos abrindo para temas mais difíceis e nos tornando mais permeáveis.” Além de relatos intimistas e literários, a publicação traz uma relação dos livros discutidos e um guia prático para quem deseja formar seu próprio clube de leitura. Um dos símbolos do CFL é o grito de guerra que dá nome à obra, inspirado no livro Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, e no icônico discurso de Steve Jobs em Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Em Temos fome, somos loucas, Maura Campanili convida o leitor a espiar um universo onde o riso tem o mesmo peso da análise literária, e onde a leitura se torna um gesto radical de existência. É uma obra sobre criar tempo para si, reinventar laços e fazer da leitura um ato de afeto e subversão. “Gostaria de transmitir um pouco do nosso amor pelos livros e pelo prazer que eles podem trazer. E como pode ser libertador ter um grupo de amigas com o qual nos reunimos apenas por prazer. Mesmo hoje, a maior parte das mulheres vive sobrecarregada e culpada num mundo de obrigações – com trabalho, com o cuidado com a família, com as obrigações de ser bonita, inteligente, capaz e perfeita o tempo todo. Espero que o livro seja um convite a um pouco de hedonismo, um momento de diversão. Se somamos a isso, pelos livros, um espaço para intimidade e reflexão, o resultado só pode ser bom”, finaliza a autora. (Texto do release sobre o livro)
O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.
Sobre a diversidade do DNA brasileiro

Aquilo que vemos nas ruas e em nossas famílias agora foi apresentado cientificamente. Publicado na revista Sciense na semana passada, o estudo Genoma de Referência Brasileiro mostrou que o país tem a maior diversidade genética do mundo. O levantamento, realizado pela USP e financiado pelo Ministério da Saúde, sequenciou, pela primeira vez de forma completa de em larga escala, o DNA de 2,7 mil brasileiros de todas as regiões, incluindo comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas, e encontrou 8,7 milhões de variações genéticas inéditas. Um dos principais objetivos do estudo é obter dados de saúde da população para pesquisas médicas mais específicas para o Brasil. Foram encontrados marcados de doenças como hipertensão, obesidade, colesterol alto, malária, hepatite, tuberculose, salmonelose e leishmaniose. O mais interessante da pesquisa, porém, foi evidenciar o processo de miscigenação ocorrido ao longo de 500 anos de história do país, a partir da chegada dos colonizadores europeus, tendo como base o genoma de seus habitantes. A ancestralidade brasileira mostra vestígios genéticos de povos indígenas exterminados durante a colonização e combinações e genomas africanos formados apenas no Brasil, como consequência direta do tráfico de escravizados. Diferenças entre as heranças genéticas maternas e paternas indicam que brasileiros têm linhagem paterna europeia e linhagem materna indígena e africana, comprovando a violência sexual contra as mulheres como fator preponderante na formação do povo brasileiro. Ainda comprovando o que vemos intuitivamente, a pesquisa mostrou a prevalência de genes indígenas na região Norte, africanos no Nordeste, e europeus no Sul e no Sudeste. O estudo apontou também uma tendência de “acasalamento seletivo”, ou seja, que as gerações mais recentes tendem a ter filhos dentro do mesmo grupo étnico. Na média, os indivíduos analisados apresentam em torno de 60% de ancestralidade europeia, 27% africana e 13% indígena nativa, esta última maior do que era esperado. Há, ainda, 1% de ancestralidade asiática. Não sei vocês, mas, para mim, confirmar que o Brasil tem uma diversidade humana tão rica quanto sua biodiversidade geral foi motivo de satisfação. Nossa genética reflete a riqueza cultural do país, motivo de orgulho e possibilidades. Por mais que nossa história não seja lá muito edificante, o resultado nos irmana: somos todos fruto de miscigenação. Esta colcha de retalhos genética, cuja história oficial tentou encobrir durante muito tempo, faz com que muitos brasileiros não consigam saber exatamente sua origem. Eu mesma, sei que tenho dois terços de ancestralidade europeia recente. Do restante, só um teste de DNA para comprovar. Uma hora mato a curiosidade e faço um teste. Meu marido, que tem o lado paterno da família bem mapeado, mesmo sendo gaúcho, é descendente do cacique Tibiriçá e do casal Potira e João Ramalho, ascendentes de grande parte dos paulistas chamados quatrocentões. Brinco com meus filhos me referindo ao líder indígena como vovô Tibiriçá. Parece engraçado, mas não é. Afinal, ninguém aqui acha que Potira se apaixonou pelo português degredado Ramalho, que deveria ser mais velho que o pai dela e o qual, diz sua biografia, provavelmente se “casou” também com outras filhas de Tibiriçá.