Como é vestir-se de outros?

Transportar a experiência performática para a literatura é um desafio e tanto, mas foi encarado pela artista Beatriz Cruz no Projeto Desandar, uma coleção que traz para fotos e textos programas de performance que transitam entre os territórios do corpo e da linguagem. A obra, que lançou também a Editora Kipuka, nova aventura da Lili Almendary, também cofundadora da Taturama – Cinema de Impacto Social, vem em um caixa com três livros. O primeiro traz uma “Série de programas de performance para a cidade, o corpo e o fim do mundo” e surge da experiência com práticas de deriva urbana, de errar pela cidade, de andar sem um rumo ou objetivo a priori. E dá uma noção do olhar de Beatriz e como a performer usa o corpo em sua arte. O segundo livro é o audacioso “Uma ode à siririca e ao orgasmo autogestionado como resistência ao patriarcado”. Mais não falo, apenas recomendo que leiam sozinhas, de preferência em casa… “Notas sobre 365 dias vestida de outras pessoas”, o terceiro livro, me acompanhou por uma semana inteira de viagem imaginária. Nele, Beatriz relata, quase como um diário repleto de fotos, sua experiência de vestir-se exclusivamente com roupas emprestadas, a cada semana por uma pessoa diferente, durante um ano. Algumas delas quiseram usar as roupas da artista durante a participação. Nessa aventura, que chamou de “Descaracterizar-se”, Beatriz vestiu roupas de pessoas de todo tipo: mulheres e homens cis e pessoas não binárias. Usou até roupa de travesti. A cada semana, recebia uma mala preparada por alguém com trajes para todas as ocasiões (dormir, ficar em casa, trabalhar, passear), algumas com instruções bem precisas sobre a montagem dos trajes. Podia passar uma semana parecendo uma senhorinha, como quando pegou as roupas de sua avó, e na semana seguinte sair como um garoto grunge, com bermudões surrados e camisetas rasgadas ou com motivos rock and roll. Mudou o cabelo, pintou e cortou os cabelos, usou assessórios, pintou as unhas e fez maquiagem sempre de acordo com quem a estava vestindo. Ler seus relatos sobre como as roupas afetavam o seu cotidiano, desde o humor a como as pessoas a tratavam na rua, nos leva obrigatoriamente a questionar os papeis de gênero, convenções diversas e maneiras de ser de cada um. Como a performer pondera, todos nós fomos inicialmente vestidos por alguém. Como isso afetou nossos gostos e nossa personalidade? Como nosso gênero, profissão, ambiente que frequentamos moldam nossa maneira de vestir? Me vi em vários momentos pensando nas minhas próprias roupas e o que elas falam sobre mim. Lembrei do estilo de várias amigas e me imaginei vestindo suas roupas e perguntando quem eu seria com elas? Como eu seria com as combinações inusitadas da Nivia, que a deixam superelegante, mas que eu jamais pensaria em fazer? Ou com o estilo esportivo chique da Claudia, com as roupas transadas de trabalho da Paulinha e as sempre descoladas da Lili e da Nat? Teria coragem de usar os sapatos maravilhosos da Bia? Como eu faria exercícios com trajes de ginástica estilosos iguais aos da Maura ou da Regina? Será que minhas roupas me moldam ou as escolho a partir de um molde interno já determinado? Se alguém usasse minhas roupas, ficaria com um jeito parecido ao meu? É impressionante até onde a experiência de um livro consegue nos levar.
Ser ou não ser mãe, eis a questão

Embora tenham abordagens diferentes, o mesmo tema permeia Manifesto Antimaternalista, de Vera Iaconelli (Editora Zahar), e Maternidade, de Sheila Heti (Companhia das Letras). Ambos os livros problematizam a maternidade como função primordial da mulher, ideia corrente na sociedade ainda hoje nos quatro cantos do mundo. Enquanto Iaconelli aborda o assunto de maneira quase acadêmica, sob o ponto de vista da psicanálise e das políticas de reprodução, escancarando eventos políticos e sociais que moldaram um ideal de maternidade baseado na hipervalorização do papel de cuidadora na genitora e na conceção de um instinto materno que impõe sacrifício, abnegação e culpa à mulher, Heti escreve um livro inteiro para se decidir se quer (ou precisa) ser mãe. Segundo a psicanalista e escritora Vera Iaconelli, o maternalismo é a ideologia que atribui às mães um papel insubstituível no cuidado com as crianças, um modelo anacrônico, fonte de inúmeros sofrimentos e adoecimentos para as mulheres. Mais do que isso, o termo “mãe”, conforme a autora, se liga ao mito de que a genitora é o tipo preferencial de mãe, aquela que teria dotes naturais para a função, ou seja, o famoso “mãe só tem uma!”, distinguindo-a de todos os demais cuidadores, incluindo o pai. Seu manifesto antimaternalista combate a falsa premissa de que haveria uma natureza maternal decorrente do instinto e coloca em xeque o modelo de reprodução social que procura manter as mulheres em posição subalterna e que negligencia um sentido coletivo de cuidado e responsabilização. Chegando à idade crítica para procriar e vendo a maior parte de suas amigas se tornar mãe, a autora canadense Sheila Heti também questiona o papel feminino como principal responsável pela reprodução da espécie e, assim como Iaconelli, a ideia imposta às mulheres de incompletude se não tiverem filhos. Em suas sofridas divagações, que devem ser as mesmas de um número exorbitantes de mulheres atualmente, ela diz que, se pudesse, adoraria ser pai. E ninguém diga que essa afirmação carece de explicação. Mais do que a “mãe genitora”, que Iaconelli tão bem descreve, Sheila Heti também discute esse lugar de cuidadora que todos esperam das mulheres: “Na verdade, a coisa mais difícil é não ser mãe – se recusar a ser a mãe de quem quer que seja. (…) Há sempre alguém pronto a se meter no meio do caminho que leva uma mulher a sua liberdade, percebendo que ela não é mãe, tentando transformá-la em uma (…) – pessoas que querem que você faça com que tomem suas vitaminas, ou precisam do seu conselho a todo momento, ou que simplesmente querem conversar, tomar uma cerveja – e te persuadir a ser a mãe deles.” Fico muito feliz em ver mulheres jovens atualmente tendo dúvidas ou falando com naturalidade sobre não querer ser mães, pois nunca acreditei na máxima de que uma mulher só se realiza pela maternidade. E sempre me irritou a sobrecarga sobres as mães. Tinha a convicção de que não queria ter filhos. Como me casei muito cedo, aos 22 anos, passei anos sendo questionada sobre porque não engravidava, o que era muito irritante. Aos 30 anos, de repente, quis ser mãe, conversei com meu marido, e resolvemos juntos sermos pais. Em três anos, tivemos três filhos e foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, embora eu saiba que outras coisas boas poderiam ter acontecido se nossa decisão fosse outra. Na fase de crianças pequenas, outra frase que me deixava louca era se meu marido me ajudava. Sempre combati a concepção de que toda a obrigação era minha e que tinha que ser agradecida de obter “ajuda” do pai dos meus filhos. Ainda estamos longe como sociedade de resolver essa questão. Por isso, esses dois livros são muito bons para quem pensa em ter um bebê, para as mulheres que já tiveram bebês e para as que não querem ter. Se possível, sobre o tema, leiam também O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Ou melhor, se tem mulher que ainda não leu, corra pra ler Beauvoir o mais rápido possível.
O conforto da bolha é bom, mas não resolve

Os algoritmos decidem o que eu vejo nas redes sociais a partir das postagens que curto, comento ou apenas me detenho. Isso significa uma inundação de informações sobre meio ambiente – agora a maior parte sobre a COP-30 -, literatura, feminismo e política alinhada às pautas de esquerda. Para quem não sabe, não significa comer criancinha ou ditadura comunista, mas direitos humanos, justiça social e coisas comezinhas como estas. Mas também vejo bastante coisa sobre moda, viagens e programas culturais e gastronômicos na cidade de São Paulo. Sou feliz na minha bolha. Ultimamente, porém, tenho me perguntado o que deve passar pelas redes das pessoas, digamos, “conservadoras”. O termo me incomoda muito, porque não sei até agora o que essas pessoas querem conservar. As últimas semanas têm sido uma montanha-russa destrambelhada impossível de controlar. Um julgamento histórico, com um peruqueiro no meio tentando melar, mas que no final nos deixou aliviados. Mas que tipo de informação abastece os que querem uma intervenção estadunidense no Brasil, para salvar seu mito golpista e implantar um regime totalitário por aqui em nome da “liberdade de expressão” !?!?!?! Fico imaginando quais argumentos devem passar nas timelines e chegar nos grupos de WhatsApp das pessoas desejosas da aprovação do Projeto da Anistia. Sei que estão imersos em uma bolha muito diferente da minha, mas ela deve ter alguma lógica. Será? Quando tenho alguma informação sobre esse mundo invertido, vejo uma senhorinha dizendo que Lula e os ministros do STF foram substituídos por sósias ou então pessoas vociferando livremente pelas ruas, mas dizendo que estamos em uma ditadura. Gostaria de saber se e onde essas pessoas estudaram lógica, pois não consigo acompanhar seus raciocínios. Deve haver algum raciocínio. Se tudo isso é incompreensível, a PEC da blindagem, ou da picaretagem ou da bandidagem, é difícil nomear, ultrapassa todo o resto. Que tipo de informação pode estar circulando entre essas pessoas que justifique apoiar parlamentares não poderem ser presos, ou mesmo investigados, nem por crises comuns, como assassinato e estupro? O pior, nesse caso, é que não é apenas o PL e seus irmãos de sangue que votaram sim, mas muitos deputados de esquerda ameaçados por algum malfeito. Aparentemente, seus eleitores nem precisam estar sendo informados, visto que os deputados não parecem estar muito preocupados com o que a sociedade pensa sobre o assunto. Até porque, desconfio, muitos vão votar neste mesmo congresso nefasto na próxima eleição, conforme seus líderes ou pastores mandarem. É por isso que sempre escolho parlamentares do Psol e da Rede. Eles não me decepcionam.
A bailarina

Acompanho as aventuras da Joana desde bebezinha, ou até antes, na barriga da mãe, minha amiga Daiani Mistieri, que sempre amou dividir as proezas da cria nas redes sociais. E a @jo.mistieri não decepciona. Era um azougue já bem pequena fazendo dança acrobática. E isso não faz tanto tempo assim, porque a menina só tem dez anos. Desde 2022, Joana é aluna da Escola Momentum Arte e Movimento e, sob direção e coreografia de Marina Mancini, já vem conquistando espaço nos palcos. Tem participado de importantes festivais e se destaca em cada apresentação. Com a coreografia “Dermatite Atópica”, criada por Marina Mancini em 2023, ganhou cinco premiações expressivas: o Festival Aplausos, o Festival de São Paulo, o Festival de Joinville e, mais recentemente, neste ano, o Festival Pridansp, no qual ficou em primeiro lugar. Além da conquista no Pridansp, Joana recebeu um convite exclusivo para se apresentar na Noite de Gala, um espaço reservado apenas para os grandes destaques do festival — um reconhecimento que celebra não só o talento, mas também todo o empenho e a evolução da jovem bailarina. Tem tudo para fazer história nos palcos, para corujice da mãe (e das amigas da mãe!). Enquanto isso, sigam ela por aqui, que é uma delícia.
Apocalipse nos Trópicos é uma ode para que ele não aconteça

O documentário Apocalipse nos Trópicos, da cineasta Petra Costa, está sendo exibido na Netflix e merece ser visto. O filme não emociona tanto quanto Democracia em Vertigem, de 2019, que foi indicado ao Oscar e ao qual assisti às lágrimas, talvez porque estamos mais cascudos aos absurdos naturalizados desde então, mas é um ótimo retrato do crescimento dos evangélicos na política brasileira e seu papel na ascensão da extrema direita no país e de Bolsonaro à presidência, além da tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. Costa faz do pastor Malafaia seu personagem emblemático. Falastrão, ele explica que seu principal objetivo é ter o poder terreno mesmo, ou seja, Brasília, e que não mede esforços para tanto. Fala de Bolsonaro quase como um subordinado seu. É engraçada uma cena em que o ex-presidente discursa e Malafaia, ao seu lado no palanque, vai falando labialmente as palavras junto com ele, como faria um “ponto” no teatro. Poderia ser divertida também, mas absolutamente não é, a entrevista com uma senhora na Bahia que diz gostar muito das políticas do Lula, que ele fez muita coisa para a população, mas que não votaria nele porque ele era do Candomblé e isso era inadmissível. Quando perguntada sobre de onde tirou a informação, ela mostra o celular. Me chamou a atenção, ainda, a forma articulada de funcionamento da bancada evangélica no Congresso Nacional. Dizer que a cineasta generaliza os evangélicos é pueril diante das cenas que mostram como eles acham muito natural transformar o legislativo brasileiro em quintal de suas crenças. Estado laico para eles não representa nada. O alinhamento da bancada da Bíblia com a da Bala fica bem claro sobretudo nos comícios. Me deixou intrigada também a obsessão que os evangélicos têm com o aborto: a primeira coisa a ser combatida no mundo em todos os discursos. Alguém precisa dizer pra eles que mentir descaradamente na internet ou nos palanques, assediar, estuprar e bater em mulheres, deixar crianças abandonadas nas ruas, deixar pessoas morrerem sem atendimento médico e ainda debochar dos doentes é um caminho muito mais certeiro para o inferno, seja lá o que for isso, do que ajudar uma menina violentada a ter alguma chance de futuro ou uma mulher adulta decidir o que fazer com o próprio corpo. O que mais me espanta, porém, vendo o documentário, me lembrando dos quatro terríveis anos do governo Bolsonaro – principalmente durante a pandemia – e em todos os noticiários diários desde então, é como alguém consegue votar em uma pessoa que não consegue formular uma frase coerente como começo, meio e fim.
Livro narra trajetória de clube de leitura formado por mulheres 50+

A narrativa bem-humorada, sensível e afetiva sobre a criação e trajetória de um clube de leitura formado por mulheres 50+, dão o tom em Temos fome, somos loucas, da jornalista e escritora Maura Campanili. Lançamento da estreante Editora Pitanga, a obra mergulha o leitor na história do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um grupo que, há mais de 15 anos, transforma encontros em rituais de amizade, escuta e liberdade. “A ideia partiu de uma das integrantes, a sexóloga Neise Galego, que queria ter um grupo de amigas para discutir os livros que lia”, explica a autora. “Ela chamou as irmãs e outras amigas e começamos. Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio modo de nos reunirmos. Uma coisa interessante é que, no início, imaginava que o grupo não duraria tanto e que perderíamos o interesse ao longo do tempo. E aconteceu exatamente o contrário. Nossos encontros foram ganhando mais importância e profundidade.” Temos fome, somos loucas é uma celebração da força do coletivo e da busca por sentido em meio ao cotidiano acelerado. Com encontros regados a livros, taças de prosecco e muitas gargalhadas, as integrantes do grupo desafiam a lógica da produtividade infinita e constroem um espaço de acolhimento, trocas profundas e resistência — inclusive à própria sanidade imposta às mulheres. A obra reúne relatos sobre os livros lidos, as experiências compartilhadas, os desafios de convivência e os impactos profundos desses encontros na vida de cada participante. Obras como A Menina da Montanha, de Tara Westover, e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, por exemplo, provocaram debates intensos sobre temas como extremismo, consumismo e identidade feminina. A política brasileira, e os embates ideológicos das últimas eleições no país, não ficaram de fora. “Um grupo que não seja impactado por temas políticos e sociais, ou é muito simplista ou propositalmente alienado”, reflete Campanili. “No nosso caso, tentamos discutir todos os temas, sem a necessidade de todas concordarem com todas. Em alguns momentos, até nos alteramos, mas temos, ao longo do tempo, aprendido a superar as diferenças. Acredito que todas nós fomos, por meio dos livros, nos abrindo para temas mais difíceis e nos tornando mais permeáveis.” Além de relatos intimistas e literários, a publicação traz uma relação dos livros discutidos e um guia prático para quem deseja formar seu próprio clube de leitura. Um dos símbolos do CFL é o grito de guerra que dá nome à obra, inspirado no livro Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, e no icônico discurso de Steve Jobs em Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Em Temos fome, somos loucas, Maura Campanili convida o leitor a espiar um universo onde o riso tem o mesmo peso da análise literária, e onde a leitura se torna um gesto radical de existência. É uma obra sobre criar tempo para si, reinventar laços e fazer da leitura um ato de afeto e subversão. “Gostaria de transmitir um pouco do nosso amor pelos livros e pelo prazer que eles podem trazer. E como pode ser libertador ter um grupo de amigas com o qual nos reunimos apenas por prazer. Mesmo hoje, a maior parte das mulheres vive sobrecarregada e culpada num mundo de obrigações – com trabalho, com o cuidado com a família, com as obrigações de ser bonita, inteligente, capaz e perfeita o tempo todo. Espero que o livro seja um convite a um pouco de hedonismo, um momento de diversão. Se somamos a isso, pelos livros, um espaço para intimidade e reflexão, o resultado só pode ser bom”, finaliza a autora. (Texto do release sobre o livro)
O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.
Sobre a diversidade do DNA brasileiro

Aquilo que vemos nas ruas e em nossas famílias agora foi apresentado cientificamente. Publicado na revista Sciense na semana passada, o estudo Genoma de Referência Brasileiro mostrou que o país tem a maior diversidade genética do mundo. O levantamento, realizado pela USP e financiado pelo Ministério da Saúde, sequenciou, pela primeira vez de forma completa de em larga escala, o DNA de 2,7 mil brasileiros de todas as regiões, incluindo comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas, e encontrou 8,7 milhões de variações genéticas inéditas. Um dos principais objetivos do estudo é obter dados de saúde da população para pesquisas médicas mais específicas para o Brasil. Foram encontrados marcados de doenças como hipertensão, obesidade, colesterol alto, malária, hepatite, tuberculose, salmonelose e leishmaniose. O mais interessante da pesquisa, porém, foi evidenciar o processo de miscigenação ocorrido ao longo de 500 anos de história do país, a partir da chegada dos colonizadores europeus, tendo como base o genoma de seus habitantes. A ancestralidade brasileira mostra vestígios genéticos de povos indígenas exterminados durante a colonização e combinações e genomas africanos formados apenas no Brasil, como consequência direta do tráfico de escravizados. Diferenças entre as heranças genéticas maternas e paternas indicam que brasileiros têm linhagem paterna europeia e linhagem materna indígena e africana, comprovando a violência sexual contra as mulheres como fator preponderante na formação do povo brasileiro. Ainda comprovando o que vemos intuitivamente, a pesquisa mostrou a prevalência de genes indígenas na região Norte, africanos no Nordeste, e europeus no Sul e no Sudeste. O estudo apontou também uma tendência de “acasalamento seletivo”, ou seja, que as gerações mais recentes tendem a ter filhos dentro do mesmo grupo étnico. Na média, os indivíduos analisados apresentam em torno de 60% de ancestralidade europeia, 27% africana e 13% indígena nativa, esta última maior do que era esperado. Há, ainda, 1% de ancestralidade asiática. Não sei vocês, mas, para mim, confirmar que o Brasil tem uma diversidade humana tão rica quanto sua biodiversidade geral foi motivo de satisfação. Nossa genética reflete a riqueza cultural do país, motivo de orgulho e possibilidades. Por mais que nossa história não seja lá muito edificante, o resultado nos irmana: somos todos fruto de miscigenação. Esta colcha de retalhos genética, cuja história oficial tentou encobrir durante muito tempo, faz com que muitos brasileiros não consigam saber exatamente sua origem. Eu mesma, sei que tenho dois terços de ancestralidade europeia recente. Do restante, só um teste de DNA para comprovar. Uma hora mato a curiosidade e faço um teste. Meu marido, que tem o lado paterno da família bem mapeado, mesmo sendo gaúcho, é descendente do cacique Tibiriçá e do casal Potira e João Ramalho, ascendentes de grande parte dos paulistas chamados quatrocentões. Brinco com meus filhos me referindo ao líder indígena como vovô Tibiriçá. Parece engraçado, mas não é. Afinal, ninguém aqui acha que Potira se apaixonou pelo português degredado Ramalho, que deveria ser mais velho que o pai dela e o qual, diz sua biografia, provavelmente se “casou” também com outras filhas de Tibiriçá.
Transição

A imagem estática no espelho mostrava uma mulher sem idade. Os cabelos crespos, um tanto grisalhos, modulavam o rosto sério, mas sereno, levemente assimétrico. Prestando bastante atenção, dava para ver o tremor fugidio no olho direito. O contorno da face começava a perder a forma, e a falta de tônus, principalmente ao redor da boca, era mais aparente do que as rugas, quase inexistentes na ausência de movimentos. Os olhos, o nariz e a boca eram pequenos, mas não destoavam do tamanho da cabeça. Ainda se reconhecia naquela moldura à sua frente. Sorriu. Ao fazer isso, algo se quebrou. O espasmo discreto se estendeu do olho para toda a face direita, repuxando a boca e deixando a pálpebra cair. A expressão tornou-se irônica, e preferiu fechar os olhos e apenas sentir os movimentos involuntários, agora parte de quem era. Repetiu seu mantra matutino — o importante é ter saúde, envelhecer faz parte da vida — sem muita convicção. Faltavam exatamente seis meses para completar 60 anos. Se deu conta de que as projeções feitas ao longo da vida nunca haviam chegado a esse ponto. Quando criança, havia as conversas sobre o final do mundo no ano 2000, conforme profetizara Nostradamus. Lembrava-se das discussões noturnas na cama de casal que dividia com as primas, quando dormiam na casa da avó nos fins de semana, ou após a escola com os amigos, no escadão que ligava sua rua a uma outra abaixo, o qual não deveriam frequentar por ser inóspito, mas por isso mesmo ideal para conversas sérias. Contava nos dedos para ter certeza e, ao se certificar que teria 36 anos na mudança de século, ficava aliviada. Vou ser uma velha até lá, dane-se o fim do mundo. Depois fez planos para se formar, ter uma profissão e não ser dona de casa como as mulheres adultas do seu entorno. Queria ser linda, ter sucesso, encontrar alguém para dividir a vida e criar uma família. Em algum momento, acreditou que ajudava a salvar o mundo com seu trabalho e ativismo em organizações socioambientais, e a militância tomou grande parte de seu tempo, deixando um pouco de lado as pretensões de sucesso e independência. Encontrou o amor, educou os filhos. Olhando para trás, alguns dos projetos se realizaram, outros não. Perdeu a ilusão quanto à sua influência fora de seu espaço íntimo, o mundo se vira sozinho, mas o que fazer com este terço de vida pendente? Finalmente, era livre como nunca foi, mas se sentia paralisada, sem saber o que desejar. A resposta não estava no espelho. Se vestiu e foi ao parque caminhar em pleno meio da manhã. Estava mais quente do que esperava, a luz chapada do verão atravessando as árvores tornava o caminho um tanto dramático, é o sol ou sou eu? Pensou nos filhos crescidos e já fora de casa, no trabalho para o qual dedicou 40 anos, mas que não a satisfazia mais, nas novas atividades começadas sem objetivos claros. Será necessário propósito? Seu estado melancólico, tinha consciência, vinha dos braços doloridos pelas duas vacinas tomadas no dia anterior e do regime alimentar iniciado há duas semanas para perder peso. Eram parte do combo de mudanças que vinha se instalando lentamente em seu corpo: um metabolismo falho, insônia, cansaços súbitos e falta de concentração. O déficit de proteínas detectado nos exames e o tratamento dos espasmos faciais a levavam a se confrontar com antigos preconceitos e se render a soluções antes impensadas: suplementos alimentares, ansiolíticos, aplicações periódicas de botox no rosto. A vida já não era a mesma, mas, afinal, quem disse que será pior?, pensou. Aos poucos, seu estado de espírito se acalmou. Voltou do parque cantando, almoçou sua refeição de calorias controladas, vestiu uma das calças que estavam apertadas e voltaram a ficar bem. Nenhum compromisso era obrigatório ou tinha prazo. Foi ao shopping. Viu vitrines e, contrariando a sensatez habitual, comprou três vestidos de uma vez. Sem óculos, na luminosidade precária do provador, achou que estava ótima. *Texto publicado na Antologia 2024, da Pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz.
Imagem que gruda na mente

Vários dias se passaram e não sai da minha cabeça as cenas da reportagem sobre o estupro de uma mulher em Paranaguá, na qual uma câmera mostra a vítima tentando se segurar em uma parede até ser arrastada pelo agressor a um banheiro de um posto de gasolina desativado. Segundo a matéria, a câmera a registrou dizendo NÃO pelo menos onze vezes, mesmo só capturando som quando está de frente para a cena. Assistir ao estuprador dizendo cinicamente para a delegada que a mulher dizia NÃO para fazer charme é de embrulhar o estômago de qualquer pessoa normal. O aflitivo, no entanto, é ser cada vez mais difícil saber o que é normal, em um mundo em que, mesmo quando o estupro é praticamente filmado, um juiz negue duas vezes a prisão do agressor. Ele só foi detido após a apelação do Ministério Público. Desnecessário dizer que, caso não houvesse gravação, o mais provável é que as autoridades não acreditassem na versão da mulher e tudo ficaria por isso mesmo. O caso do jogador de futebol Daniel Alves, cuja condenação de estupro foi anulada na Espanha, é prova de que não é um problema apenas do Brasil. Já é difícil entender o que move homens a estuprarem mulheres. Pior: muitas vezes suas próprias esposas, namoradas, filhas. O descrédito que a palavra feminina tem como depoente, porém, é o maior incentivo para os criminosos. Dói ser mulher e pensar que o que aconteceu com as mulheres em Paranaguá e na Espanha está ocorrendo neste exato momento em vai saber quantos lugares no mundo, e poderia ser uma de minhas filhas naquela situação. Contra essa indignidade, nós mulheres precisamos não somente ocupar mais espaços de voz e poder, mas contar com posicionamentos mais incisivos dos homens que não compactuam com isso. As estatísticas e as imagens mostram que não têm sido feito o suficiente.