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PaulistanaSP

Gostaria de entender o ódio masculino às mulheres

Assim como a maior parte das pessoas que já assistiram, não consigo parar de pensar na série Adolescência, da Netflix. Li tudo que apareceu na minha frente, conversei com quem tive oportunidade. O que tem me perturbado, mais do que o papel dos pais, instituições e redes sociais no comportamento atual dos meninos é o ódio às mulheres em si. Em que momento da história, os homens decidiram que as mulheres eram seres de outra espécie, inferiores, existentes para satisfazer seus desejos? O que diria Darwin sobre a utilidade dessa excrecência evolutiva? Um dos trechos que mais me chamou a atenção quando li “Sapiens, uma breve história da humanidade” é quando Yuval Harari questiona por que as sociedades humanas são majoritariamente patriarcais, pelo menos desde a invenção da agricultura. É o único capítulo no qual o autor se diz incapaz de formular uma teoria, reconhecendo não ver lógica científica para isso: não há diferença cognitiva entre os sexos e a diferença de tamanho é muito pequena e relativa para ser uma explicação, afinal há muitas mulheres maiores do que homens. Nesta semana, uma matéria em O Globo traz uma pesquisa, publicada em janeiro na revista cientifica Biology Letters, mostrando que a altura média masculina aumentou duas vezes mais rápido do que a feminina nos últimos anos, o que, especulo, pode significar que esta diferença está aumentando. Além da genética, o estudo atribui o fato às meninas entrarem na puberdade mais cedo, o que interrompe o crescimento, e à “seleção sexual” – mulheres tendem a preferir homens mais altos. Tem lógica, mas ainda acho as afirmações frágeis, afinal, as meninas também entram na puberdade antes dos meninos e homens transmitem seus genes para filhos e filhas. Quem sabe se a vida mais reprimida tem influência maior? Mas não sou cientista. Já ouvi dizer que ser mãe e ter que cuidar da cria fragiliza a mulher, mas acho difícil acreditar nisso. Ter muitos filhos é coisa recente. E cuidar da cria poderia muito bem ser uma tarefa dividida. Algumas famílias modernas provam isso. Ao contrário, penso que deve ser difícil para os homens aceitarem nossa capacidade de gerar, um superpoder que nunca terão. E a capacidade de perder litros de sangue e continuar vivendo como se nada (ou quase nada) estivesse acontecendo. Ou de parir uma criança e imediatamente se colocar de pé para cuidar dela, muitas vezes, após uma cirurgia complicada que é uma cesariana. O que interessa aqui, e parece mexer com as pessoas que assistem à série, porém, é o que faz um pirralho de treze anos achar que pode matar uma menina porque ela não deu bola pra ele e ir dormir tranquilamente. Isso em um país desenvolvido da Europa. E como os homens conseguiram por tanto tempo convencer as mulheres de que o mundo é assim mesmo, enfiando por nossas gargantas religiões que nos diminuem e reprimem. Em que momento, aquilo que muitos acham “brincadeira” ou, no extremo, “brincadeira de mau gosto” se torna explicitude de ódio e perigo à integridade feminina? Para o senador Plínio Valério (PSDB-AM), dizer que ficar com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, por algumas horas sem ter vontade de enforcá-la é um milagre. E uma brincadeira, da qual não se arrepende. Tenho muitas perguntas, uma indignação infinita e não vejo solução fácil. Os retrocessos civilizatórios que temos visto reforçam essas sensações. Só sei que não podemos nos descuidar. Os incels não parecem esmorecer.

O mundo chama pela sabedoria das avós

“A Ciranda das Mulheres Sábias – Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem” é da mesma autora de “Mulheres que Correm com Lobos”, um clássico sobre os arquétipos femininos. Neste outro livro, Clarissa Pinkola Estés se debruça no poder da mulher madura, onde “instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados”. É um convite às mulheres maduras, as avós de todos, para que compartilhem seus conhecimentos com as mais novas e usem sua sabedoria para fortalecer o mundo, para que sejam “as pedras de toque, as notas fundamentais, os paradigmas necessários”. Chegando neste momento da vida, me senti chamada a procurar por esse poder, do qual, segundo a autora, “não sabemos dizer com muita precisão onde e como tudo isso ocorre. A poesia faz-se necessária para explicar a força vital de uma mulher: a dança, a pintura, a escultura, os ofícios do tear e da terra, o teatro, os adornos pessoais, as invenções, escritos apaixonados, estudo em livros e nossos sonhos, conversas com outras que sejam sábias, o atento intuir, refletir sentir e pressentir…”.

Literatura feminina é só pra mulher?

  Longe de mim desmerecer os autores, são todos ótimos, mas fiquei decepcionada ao ler hoje que apenas três mulheres estão entre os dez livros mais vendidos na Flip neste ano. Sem estar na programação do evento, a sul-coreana Han Kang entrou na lista, possivelmente, apenas porque foi a vencedora do Nobel de Literatura de 2024. Há mais de uma lista, com nomes diferentes, mas a proporção se mantém. A impressão que tenho é que o tempo passa e as mulheres continuam sendo menos lidas. Dizem que homens normalmente não leem mulheres, o que desequilibra a corrida. Tenho lido bastante literatura, obras de autores de todos os gêneros, e não consigo achar que um é melhor do que o outro. Nos ambientes literários, como em lançamentos, clubes de leitura ou na pós-graduação em escrita criativa que frequento, as mulheres são sempre maioria, mas isso não se reflete no quanto são lidas. Quando aparecem comentários sobre isso, costumo ouvir que há uma literatura feminina, com temas que só interessam às mulheres, sendo a masculina, ao contrário, universal. Será? Pensei isso hoje lendo o delicioso livro de poesia “do vago conforto de estar viva”, da querida Julia Caiuby, companheira no curso do Vera Cruz. Sim, um jeito feminino de ver o mundo, pelo menos culturalmente feminino. Mas não uma leitura para mulheres, a beleza de seus versos fala a qualquer um. Enfim, é apenas mais um desabafo feminino, cheio de mimimi. E fica aqui um cheirinho do livro da Julia: A VIDA   disse um dia um amigo poeta que a vida não pode ser só isso   digo mais a vida não pode ser só, é isso.

Culto à misoginia*

Travestido de estiloso e moderno, por trazer pseudoinovações (Guimarães Rosa foi bem mais eficiente, já que usar só caixa baixa não é exatamente um grande achado estilístico), o livro “o remorso de baltazar serapião”, de Valter Hugo Mãe, é um culto à misoginia. O autor tenta disfarçar o intento, ao mostrar a vida como dura e sem sentido para todos os personagens, mas o prazer com que descreve (em primeira pessoa, através de seu bronco personagem) os atributos físicos, fisiológicos e intelectuais femininos da forma mais torpe que já vi na literatura é inegável (nem Nelson Rodrigues conseguiu chegar perto, coitado!). O livro é premiado e elogiado por Saramago etc., mas curiosamente não encontrei uma resenha sequer escrita por mulher. Todos os elogios citam a misoginia do texto, mas parecem ter caído na armadilha de ser esta mais uma das dores do mundo e não “A” fonte de inspiração do livro, cuja centralidade na vaca não deixa dúvidas. Um exemplo, que parece chegar perto da questão, é a crítica de Sérgio Rodrigues, que conclui: “(…) o remorso de baltazar serapião se torna mais forte e mais incômodo quando a misoginia visceral do mundo que retrata, exposta com brutalidade na paulatina subtração física a que os maridos submetem as mulheres, parece se infiltrar no tecido narrativo. Ao perder a voz, aquela voz feminina que “vinha das caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino”, como anuncia o narrador já na primeira frase, a mulher finalmente se entrega ao amor do homem. É tarde: tudo já deu em nada, a humanidade perdeu. De pé só resta Sarga, a vaca, com sua inútil compaixão.” A misoginia é constante na história da humanidade. Ela está presente na bíblia judaica e em cartinhas do Novo Testamento (apenas Jesus Cristo parece não ter comungado dela), e se perpetua através dos tempos nos cintos de castidade, mutilações de clitóris, burcas, prostituição e afins. Ela compraz os homens desde que o mundo é mundo. Isso por si só já é um grande problema, mas poderia ser aos poucos extirpado se a outra metade da humanidade (que na verdade é a maioria – só no Brasil somos 6 milhões a mais) não compactuasse voluntária e contentemente com ele. Acredito que isso pode não ter sido sempre verdade (e ainda não o seja para todas as culturas), mas é fato inequívoco na sociedade Ocidental. Vejamos. Somos menores (parece que 15% na média) e mais fracas fisicamente do que os homens. Só aí, já há uma desvantagem enorme, que fez ao longo de milênios as mulheres se sujeitarem a machos que as defendessem e sustentassem (essa vantagem competitiva do sexo masculino foi fundamental na hora de caçar mamutes ou carregar a cria e pertences em longas caminhadas – lembrem-se, que a cada passo dado por um homem, uma mulher dá praticamente 1,5 – façam as contas no final de um dia caminhando quilômetros e quilômetros…). Essa relação de poder se perpetua no tempo através de religião e força (vide Oriente Médio, regimes tribais africanos). Mas não é o que acontece no Ocidente, onde as mulheres finalmente se rebelaram, queimaram seus sutiãs (espartilhos? cintos de castidade?), ganharam o direito de eleger e de mandar (temos aqui mesmo a terceira mulher mais poderosa do mundo – estaria ela também na lista dos humanos mais poderosos?) e de fazer sexo com quem quiserem (viva a pílula!). No entanto, estamos, de livre e espontânea vontade, ficando apenas com a pior parte dessas conquistas. Lutamos, enfrentando muita resistência, pelo direito de estudar e entrar no mercado de trabalho remunerado (já que mulher nunca ficou um dia sem trabalhar – e olha que puxar água de poço e lavar roupa no rio é trabalho braçal tão duro quanto carregar pedra). Passado o susto, porém, os homens se tranquilizaram: “elas não deixaram de cuidar de nossos filhos, da nossa casa, da nossa comida e de fazer sexo quando tivermos vontade. E, ainda por cima, tiraram de nossos ombros a responsabilidade de garantir o sustento da prole se quisermos perpetuar nossos genes. Podem fazer isso sozinhas, nos permitindo ficar apensas com a parte boa. De agora em diante, se falta provento à família, a responsabilidade, no mínimo, é compartilhada (em troca, podemos, de vez em quando, trocar uma fralda, que não mata ninguém).” Mas o ódio a esse ser que pode se virar sozinho só fez aumentar: agora os homens ganharam novos direitos, como o de contar as piores piadas e fazer os mais grosseiros comentários não apenas entre eles, mas na frente delas (mesmo que sejam pequenas mulheres em formação) e de justificar suas grosserias como o preço a pagar pela “liberdade” e “igualdade” conquistadas. Até aí, volto a dizer, nenhuma surpresa… A gota d’água é ver as próprias mulheres se submeterem a carregar o mundo nas costas – com suas duplas jornadas – e ainda buscarem a submissão sexual. Ler um livro como “o remorso de baltazar serapião” deveria ser uma ofensa tão grande quanto ler o artigo do Luiz Felipe Pondé, na Folha desta semana, defendendo que mulher gosta de apanhar e este é o mundo real. Mais triste ainda é ver que ele justifica isso citando o sucesso do livro Cinquenta Tons de Cinza, escrito por uma mulher e idolatrado por elas mesmas. Que recado estamos enviando para nossos homens? Pior do que tudo isso, é ver mulheres se mutilando e exibindo a prova publicamente: em seus rostos, seus seios e, agora, em suas genitálias, para poder melhor se submeter à competitividade por um macho (para sustentá-las? para humilhá-las?). Não me admira ver adolescentes bulímicas e se cortando com giletes. Comportamentos semelhantes são infinitamente incomuns em indivíduos do sexo masculino, que, sabemos porquê, são muito mais felizes com a própria existência. No suplemente Equilíbrio (da Folha) nesta mesma semana do artigo do Pondé, além da matéria de capa “Costura íntima” sobre as plásticas de vagina, há um artigo dizendo que, para muitas mulheres, o sexo se tornou uma obrigação e

Calça legging

Praticamente todos os dias quando levo as crianças para a escola cruzo na rua com uma mulher que apelidei de ‘moça da calça legging’.  Dependendo do horário que passo de carro, ela caminha calmamente pela Natingui (se a encontro na ida) ou na Nazaré Paulista (se a encontro na volta, quando estamos mais atrasadas). O motivo óbvio do apelido é que, independentemente do tempo, da época do ano ou seja lá o que for, ela está sempre com uma calça legging e um blusão. Nunca, mas nunca mesmo, a vi com um vestido, uma calça jeans ou qualquer outro tipo de roupa. Não significa que ela está sempre com a mesma roupa ou não se vista bem: tem uma variedade incrível de ‘leggings’ e complementos e está sempre produzida. Também nunca a vi com o horror símbolo brasileiro que são as mulheres mostrando o traseiro em ‘leggins’ justíssimas e blusas curtíssimas, às vezes vertendo pneus para fora. Não é, absolutamente, o caso da minha personagem. Ela apenas me chama a atenção e me faz viajar em conjecturas de porque uma pessoa só veste um tipo determinado de roupa. Procurá-la nas minhas manhãs é um daqueles poucos prazeres desinteressados que fazem o dia a dia um pouco mais interessante…