Limpeza urbana é bom para o turista e a cidade

Manaus tinha tudo para ser uma cidade incrível. Fica às margens de um dos rios mais lindos do mundo, o Negro, e é o local onde ele se encontra com o Solimões formando o rio Amazonas de um jeito único, correndo juntos uma grande distância sem que suas águas se misturem. Eu fiquei boquiaberta quando vi o fenômeno na primeira vez que cheguei de avião à cidade. Além disso, é cercada pela floresta amazônica, o que dispensa comentários, e cortada por uma infinidade de córregos ou igarapés. Tem um centro histórico com um bonito conjunto arquitetônico do tempo da Borracha, com o Teatro Amazonas como a joia da coroa. Pelo menos uma bela praia de rio, a Ponta Negra. Uma culinária original e saborosa. É a maior metrópole no Norte do país, com mais de 2 milhões de habitantes, por onde não se chega por estradas, apenas pela água ou pelo ar. Poderia ficar enumerando outras coisas extraordinárias sobre a cidade, mas é impossível visitar Manaus e abstrair o tanto de lixo que se espalha pelas ruas, praças e rios manauaras. Por mais que se tente não olhar, o volume de resíduos por todo o canto chama o olhar do turista e se torna tema de conversas entre as pessoas, pelo menos no grupo de todo o Brasil com o qual eu estava, nesta última estada na cidade. Não sei dizer o que pensam os estrangeiros que chegam ali. A falta de saneamento básico não é um privilégio manauara, é um flagelo brasileiro. Segundo o Ranking do Saneamento 2024, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os serviços básicos das 100 maiores cidades do país, Manaus ocupa a 86ª posição, figurando entre os 20 municípios com os piores índices. Atualmente, mais de 1,5 milhão de manauaras não têm acesso à coleta de esgoto, e apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade é tratado. Pouca gente associa, porém, os resíduos urbanos entre os quatro pilares do saneamento básico: água tratada, esgotamento sanitário, drenagem urbana e coleta e tratamento de resíduos sólidos. Considero os resíduos sólidos como a sala de visitas de uma cidade. Todo o saneamento é importante, mas o lixo espalhado é o mais visível e, me parece, o mais fácil de resolver. Quando um rato morto permanece todo um fim de semana na esquina mais turística de uma cidade (em frente ao teatro Amazonas em sua época de óperas e a um restaurante), há algo que precisa ser pensado. A cidade padece ainda de uma característica forte brasileira, que é reabilitar espaços fazendo grandes obras sem pensar em sua manutenção. Ano passado, Manaus inaugurou uma parte do que chama de programa de recuperação de seu centro histórico. O complexo conta com o mirante Lúcia Almeida, largo de São Vicente, casarão Thiago de Mello e Píer Turístico. O mirante é o principal atrativo do local e conta com piso transparente para dar a sensação de que estamos andando sobre o rio Negro. O problema é que ao olhar para baixo, há mais lixo boiando no rio do que água. Nada disso quer dizer que não gostei ou não recomendo a visita a Manaus. Apenas a considero um exemplo da falta de visão de oportunidades que vejo nas cidades brasileiras. Tanto em termos de potencial turístico e econômico quando em prevenção às mudanças climáticas. Imagina uma enchente em Manaus, como a de 2021, com aquele tanto de resíduos espalhados com a maior parte da população vivendo em palafitas. Desastres climáticos, como seca, estiagem e excesso de chuvas, causaram perdas de R$ 732,2 bilhões entre 2013 e 2024 às cidades brasileiras, segundo um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. Só no ano passado, as tragédias climáticas causaram um impacto negativo de R$ 92,6 bilhões. Em 12 anos, 95% dos municípios do país já foram atingidos ao menos uma vez por algum tipo de desastre. Nesse período, mais de 5 milhões de pessoas ficaram desalojadas, 1 milhão desabrigadas e quase 3 mil morreram. É por isso que falar sobre saneamento básico não é uma questão estética, para turista ver, mas essencial para a própria existência das cidades nos tempos que vêm por aí.
Correntão ainda assombra Amazônia

A primeira vez que vi cenas de correntão derrubando floresta era na Mata Atlântica, em meados dos anos 1990, numa época em que ainda não existia uma lei específica para o bioma. Trabalhava na Rede de ONGs da Mata Atlântica e tentávamos denunciar aquilo que nos parecia um crime hediondo, além de proteger os ambientalistas locais, que viviam sob ameaças. A cena me chocou, nunca tinha imaginado ser possível tratar uma floresta tão majestosa como se fosse joguinho de carta de baralho tombando. Pra quem não sabe, o correntão é o método mais cruel de desmatamento, com o uso de uma corrente grossa entre dois tratores, derrubando tudo pelo que passa, sem poupar uma árvore ou dar chance aos animais que estão no caminho de fugir. Pode devastar 10 campos de futebol por dia. Em meados de 2010, foi a vez de assistir pessoalmente, árvores nativas da Amazônia sendo cortadas, quando fui conhecer o projeto de manejo florestal da Ecolog, em Rondônia, para escrever sobre a experiência. O resultado é o livro Explorar para Preservar, no qual conto a aventura do empresário Fabio Albuquerque em sua tentativa de salvar, via manejo, uma das últimas grandes florestas de Porto Velho. Acostumada até então a visitar apenas áreas conservadas da Amazônia, percorrer os 250 quilômetros da BR-364, ao longo do que foi a ferrovia Madeira-Mamoré, até a fazenda da Ecolog, foi uma experiência intensa, mesmo quando teoricamente se está preparado para o que se vai ver. Ao longo de todo o trajeto já não exista floresta. Em alguns pontos, me sentia no Velho Oeste de dois séculos atrás retratado em filmes estadunidenses. Criação de gado, em pastos pobres onde não se teve nem a preocupação de retirar os esqueletos das árvores carbonizadas na abertura da área, era a paisagem dominante. Ao fundo, matas empobrecidas e abertas, parecendo esperar a vez de também serem derrubadas. O cenário mudava quando entrávamos nos 30 mil hectares de matas nativas da Ecolog. Mas, mesmo dentro daquela situação controlada de manejo certificado, na qual poucas árvores são selecionadas para corte, é uma sensação terrível ouvir e ver uma árvore centenária tombar. Mesmo ainda acreditando na possibilidade do corte seletivo, espero não repetir da experiência. Por isso ver o correntão em ação, mesmo nos vídeos da internet, é um pesadelo. Atualmente, essa prática ainda tem sido registrada na Amazônia e é alvo de uma campanha de organizações da sociedade civil, que criaram uma petição online para que o PL 5.288/2020, que proíbe essa prática no país, seja aprovado no Congresso Nacional. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto, veja neste post do André Trigueiro em https://www.instagram.com/reel/DJUIlpJNTRm/.
Saneamento adaptado às mudanças do clima é chave para bem viver

Pensar em adaptação do saneamento básico às mudanças climáticas, em uma semana de sol em São Paulo às vésperas do Carnaval, parece uma péssima ideia. Ninguém quer se lembrar de problemas relacionados a chuvas ou falta de chuvas, que, no caso da cidade, remete a inverno. Mas, talvez, justamente por estarmos fora da emergência, seja o melhor momento. Ainda mais porque a maior parte das adaptações necessárias também pode minimizar esse calor em ondas cada vez mais fortes. Em “Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas”, publicação recém-lançada pelo Instituto Água e Saneamento (IAS), da qual participei, mostramos por que a adaptação dessa área é fundamental para garantir o bem viver nas cidades. Sem uma drenagem pensada para a nova realidade, ficaremos sem mobilidade – a parte mais visível da equação -, mas também sem abastecimento de água, sem tratamento adequado de esgotos, sem habitações de qualidade e com sérios problemas de saúde pública. Na pesquisa realizada para a publicação, ficou claro que um conjunto e medidas precisa ser tomado urgentemente, envolvendo de legislação e políticas públicas a meios de financiamento. Obras como sistemas de coleta e tratamento de esgotos eficientes e resilientes são urgentíssimas, já que temos uma defasagem a ser superada, além de outras infraestruturas cinzas, como piscinões, por exemplo. O que ficou evidente, porém, é a necessidade de soluções baseadas na natureza, chamadas pela nova sigla do momento SbN ou de infraestruturas verdes. Isso significa, em uma cidade como São Paulo, na qual as chuvas provocam tragédias e a falta d’água está sempre pairando, pensar em como era este espaço antes da metrópole se instalar: uma região com três grandes rios de várzeas (Tietê, Pinheiros e Tamanduateí) serpenteando uma planície para onde afluíam cerca de dois mil córregos, a maior parte deles atualmente canalizados. Mesmo com chuvas normais, as águas querem seu espaço original, imagine com os eventos extremos que vêm pela frente. (continua nos comentários ou em paulistanasp, link na bio) Conheço as respostas obvias. Os rios foram retificados, sem as marginais o trânsito não anda, tudo já foi ocupado. O pior é que o processo de impermeabilização do solo não cessa nunca, a cada dia mais e mais prédios gigantescos são construídos sem que se pense na drenagem urbana. Na chuva fatídica de 24 de janeiro, minha rua, que sempre enche na parte baixa, perto do Beco do Batman, conseguiu ter apartamentos inundados na parte alta, com o lençol freático subindo pelos ralos. As mudanças não são fáceis, mas têm que ser feitas. Há várias cidades sendo adaptadas pelo mundo. Nova York tem investido em aumentar suas áreas verdes e as cidades-esponja criadas na China tem aberto espaço para as águas escorrerem e armazenarem naturalmente. Na publicação do IAS, trazemos exemplos de medidas grandes e pequenas que podem ajudar, e disponibilizamos o endereço de várias plataformas com experiências em andamento. Ficar lamentando a época das chuvas e, alguns meses depois, a de seca não vai ajudar a melhorar a situação.
Eventos Extremos, o show

Enquanto São Paulo passava por mais um dia de caos por conta das chuvas na terça-feira (18/2), uma turma animada se reunia na Casa das Caldeiras no final de mais um dia de trabalho de avaliação justamente sobre as mudanças climáticas. Esse pessoal faz parte do Observatório do Clima, uma rede de organizações de todo o Brasil que atua para reduzir as emissões de carbono, minimizar seus efeitos deletérios, divulgar a enrascada em que nos metemos ao não levar a ciência a sério e tentar mudar o rumo dos acontecimentos enquanto é tempo. Quando cheguei lá, no final da tarde, para encontrar alguns desses meus amigos-heróis, ainda não sabíamos que mais uma pessoa (desta vez uma motorista de aplicativo) tinha perdido a vida em uma enchente, nem de todos os estragos na Zona Norte da capital paulista. Aliás, na Zona Oeste, a chuva nem tinha dados as caras ainda. Com todos os motivos para entrar em desespero, essa turma, como eu disse, é muito animada, e otimista. Acreditam que vamos acordar e agir. Gosto de estar com eles porque conseguem me contagiar. Naquele dia, descobri que alguns deles, entre os quais Claudio Ângelo, Gustavo Faleiros e Ricardo Baitelo, ainda conseguem tempo para tocar em uma banda – e não uma banda qualquer. É a Eventos Extremos, nome para não deixar dúvidas sobre a que veio. Com um repertório, na maior parte de versões satíricas de músicas conhecidas, a banda animava os fãs com letras sugestivas como: “Chora, IPCC/Ninguém te deu razão/Queimamos o carvão/E deu ruim/Chora, IPCC/Não tem planeta B/Ninguém ouviu você/E deu ruim/Ah, chupa essa, IPCC/O lobby fóssil ganhou/Nós vamos ferver/Você bem que avisou”. No momento que nos acabávamos na pista dançando ao som de: “Ontem choveu em casa/meu carro afundou/tô sem luz/ e a torneira secou/Mas tá tudo ok/sou negacionista, sem rancor/no meu coração, durmo bem”, os celulares começaram a apitar com mensagens da Defesa Civil sobre a tempestade chegando à região. Alguém da organização avisou para que ninguém saísse, porque as ruas ao redor estavam todas inundadas. Não nos restou nada a fazer, a não ser continuar a festa, com a certeza de tempos de muito sucesso para a Eventos Extremos.
Pra quem o presidente quer ser popular?

Outro dia escutei a conversa de duas senhoras na piscina. Diziam que tinha sido bom “ele” ganhar a eleição, pois agora sua popularidade já estava caindo e nunca mais iria se eleger. “Ele”, logo descobri, era o presidente Lula. Segundo as duas mulheres, os maiores absurdos cometidos por ele eram não ter se pronunciado sobre a Nicaragua e não se manifestar contra o aborto. Depois dessa aula involuntária de política, me afastei e não sei o restante do papo. Acho que não preciso ser genial, porém, para concluir que essas senhoras nunca votaram e nunca vão votar “nele”. Mas, apesar de não ter dito nada sobre a Nicaragua – não faço a menor ideia do que o presidente deveria ter falado sobre o assunto – nem sobre o aborto, às vezes tenho a impressão de que “ele” governa sempre buscando agradar a essas senhoras, como se fosse um amor inatingível. Ao contrário do ex-presidente que certamente elas votaram e que em nenhum minuto de sua gestão deixou seus apoiadores na mão ou não cumpriu (infelizmente) suas promessas de campanha, Lula parece não se preocupar com seus eleitores fiéis. Em relação ao aborto, por exemplo, mesmo que não se pronuncie, nunca fez nem um movimentozinho sequer para corrigir este atraso no país, que criminaliza mulheres por decidirem o que fazer com seus corpos. Lula, contudo, quer aumentar sua popularidade e, para tanto, ao invés de focar nas pautas que o levaram ao poder, quer namorar e casar com o centrão. Ah! Precisa do Congresso para governar etc. etc. Mas tudo tem limites. Há questões que deveriam ser pétreas, como a proteção da Amazônia e dos brasileiros contra as mudanças climáticas, causas amplamente defendidas pelo presidente na campanha e no seu show de convidados na posse, ao subir a rampa para seu terceiro mandato. De que adianta ter Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e Rodrigo Agostinho no Ibama, se seus posicionamentos técnicos não são levados em consideração? Dá a impressão de que o presidente espera se fazer de bonito na COP30, mas quem ele quer agradar, na prática, são os negacionistas apaixonados por petróleo a qualquer custo. A um custo imenso. Ao custo do futuro do país. Aqui, derretendo de calor e à espera da próxima tempestade extrema que paralisará a cidade, tenho a sensação desagradável de ser mulher de malandro: ver seu eleito agradando às amantes o tempo todo e, quando precisar de votos, chegar novamente com o papinho de ser a melhor solução diante do resto que está aí, dizendo que, da próxima vez, vai ser diferente. Será que não teria jeitos melhores de aumentar a popularidade? Foto: José Bezerra.
Há uma conspiração contra todos nós

Quem estiver interessado em saber por que Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e companhia estão todos faceiros lambendo as botas de Donald Trump assista ao documentário Conspiração Consumista, de Nic Stacey, na Netflix. O título original em inglês, ainda traz um complemento mais explicativo: Buy Now! (compre agora), retirado na versão em português. O filme mostra como as grandes corporações contam com a tecnologia/redes sociais para fazer com que as pessoas consumam cada vez mais, sem nem pensar no assunto. Para isso, usam estratégias sofisticadas para esconder informações e mentir descaradamente para que as pessoas ajam contra seus próprios interesses e ainda achem que as empresas se preocupam com seu bem-estar. O diferencial deste documentário é trazer depoimentos de pessoas com altos cargos dentro dessas corporações, como Amazon e Adidas, que colaboraram para a criação destas estratégias e hoje lutam contra elas, por perceberem o quão insustentáveis são. Ver imagens de produtos devolvidos ou encalhados sendo destruídos e descartados para que ninguém possa usar, incluindo roupas, bolsas, eletrônicos e comida, dá um misto de nojo e agonia. Entender como foi criada e como é aplicada a obsolescência programada dos produtos, revolta qualquer um. Qualquer um talvez seja forte demais. Viciados que gostam de ficar na fila para comprar os primeiros Iphones lançados a cada ano, se esmagam para serem os primeiros a entrar em lojas com promoções como black Friday ou o dedo já está gasto de clicar em “promoções imperdíveis” na internet, possivelmente não se incomodem de ver as montanhas de lixo que lotam oceanos e praias e aterros em países pobres da Ásia ou da África ou o deserto do Atacama. Possivelmente, os negacionistas climáticos que apoiam a extrema-direita mundo afora acreditem que é tudo balela e que esse lixo todo vai se autodestruir ou ser enviado para Marte, em um foguete do Elon Musk. (continua nos comentários; artigo completo em paulistanasp, link na bio) Para os que têm um mínimo de bom-senso e não precisam nem ver as imagens chocantes desse volume todo de descarte para entender que estamos em uma enrascada, o melhor é procurar representações melhores nos governos, cada vez mais difícil com o crescimento desse controle midiático das big tecs, e bancar o Dom Quixote em sua vida particular, rezando – para quem acredita – que vai dar tempo de consertar tudo isso. Comece eliminando o máximo de plástico da sua vida. É uma missão quase impossível, mas não aceitar sacolas plásticas e carregar uma garrafa de água de casa são um bom começo. Enviar o lixo para reciclagem é fundamental, mas o filme nos mostra que essa é a mentira master das indústrias: grande parte do que achamos que é reciclável não é. A maior parte das embalagens que separamos cuidadosamente, vai acabar mesmo no mar, em aterros ou queimada, aumentando o efeito estufa. Comprar roupas, sapatos e bolsas também vai deixar de ter tanto encanto se você assistir ao documentário. Trocar o computador ou o celular só para mostrar aos amigos e ficar com mais medo de ladrão também dará menos prazer. Muito preferem não encarar questões como esta. Quem está disposto?
Cadê a cura pra ultramacho?

Disse o novo (de novo) presidente do Estados Unidos que, naquele país, a partir de agora, só existem dois sexos. Na minha humilde opinião, ele esqueceu de um, que não é exclusividade dos EUA, é mundialmente disseminado, mas infelizmente pouco combatido: o ultramacho. O fato de ser tão persistente na sociedade, mesmo nas mais evoluídas, indica que talvez tenha algum componente genético, embora o gatilho cultural (todas as religiões monoteístas costumam valorizá-lo bastante) seja fundamental. Prevalecem nos grupos de direita, são quase a totalidade nos de extrema-direita, onde desde criancinha são doutrinados ou recebem algum remedinho em suas mamadeirinhas de piroquxnhas, não sei. Mas aparecem também entre ditos esquerdistas, onde são conhecidos como esquerdomachos. Estes, ao contrário dos demais, não se reconhecem na comunidade, ficam no armário a maior parte do tempo, mas não enganam ninguém. A maior característica dos humanos desta tipificação sexual, além da preferência por piadas infames, armas, guerras e similares, é a incapacidade de amar e até de enxergar mulheres, de qualquer gênero, como da mesma espécie. Eles até gostam delas, como os demais gostam de pizza, por exemplo. Gostam do cheiro, da aparência, do sabor. Gostam de se gabar de quem come a melhor pizza, às vezes a compartilham pra provar seu ponto ou generosidade. Quando esfria um pouquinho, jogam fora. Eles também gostam de conversar e dar palpites sobre as pizzas uns dos outros, sobre a preparação e formas de descarte. O problema é que querem dominar o mundo. Querem aliciar SEU FILHO para que seja um deles. Desejam que todos os humanos que nasçam com uma protuberância e duas bolinhas entre as perninhas sejam doutrinados desde bebês para ser como eles. Os poucos que se incomodam com esse impulso, sobretudo os que vivem em ambientes majoritariamente intolerantes a eles, atualmente costumam se conter, alguns se afirmam publicamente curados. Até o momento, porém, não existe tratamento comprovado pra ultramacho. Não conheço pastores, padres, psicólogos ou coaches tentando o intento. Quem salvará nossos meninos?
Que 2025 seja fresco!

Dois mil de vinte e cinco era para ser um ano tranquilinho. Não temos eleição, copa do mundo, olimpíadas. Há bastantes feriados e o carnaval é no começo de março, ampliando o verão. Mas é por aí começam os problemas, pois não foi só o verão, mas tudo ficou mais quente. Quente de verdade, e não apenas pelo fogo que queima a Califórnia e que, no ano passado, queimou o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica por aqui. Com mais de 1,5º C de temperatura média no planeta, o índice que esperávamos evitar, o fogo deve seguir firme e forte dando as caras neste ano. Assim como as chuvas, que costumavam fechar o verão em março, mas, agora, quem sabe quando e onde vão aparecer. Ou se recusar a aparecer. Passei as últimas duas semanas em um paraíso à beira mar – a Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte -, onde o tempo ainda é previsível e perfeito para o lazer, entre 25 e 30 graus, e a chuva, quando cai, é pouca e suave nesta época do ano. As praias são limpas, (quase) sem plásticos, (quase) sem caixas de som, bênçãos as quais estava desacostumada. Mas não existe mais refúgio isolado no mundo. A especulação imobiliária já corre solta, à força de gringos que trazem recursos, baratos pra eles e bem-vindos para a população local. As criações de camarão comem o mangue, também na mesma pegada de progresso que destrói a proteção do que lá tem de melhor e mais garantido. Embora nada mais seja garantido de verdade. Moradores e, principalmente, os que dependem o turismo, veem o nível do mar aumentando e a faixa de areia aproveitável abaixo das maravilhosas falésias cada vez menor. É preciso consultar a tabua de marés para escolher o intervalo de tempo, mais curto a cada ano, para caminhar entre as praias, uma das melhores atrações locais. Nada que tenha me impedido de relaxar e abstrair que o Trump vai assumir na segunda-feira com promessas hitlerianas para o mundo, que as big techs perderam de vez o pouco pudor que fingiam ter e as fake news sobre o PIX escancararam o que vem pela frente. Para quem gosta de viver e deste planeta como eu, aconselho muita meditação, calma e uma disposição otimista para a luta. Sejamos serenos e bem-humorados, sem usar óculos cor-de-rosa, por favor, porque excesso de tolerância com a insanidade e falta de realismo não vão nos tirar do buraco. Sei que estou um pouco atrasada, mas Feliz Ano Novo, que seja fresco pra todo mundo!
80% da água doce da Terra está na Antártica

De todos os locais que gostaria de conhecer, mas duvido que consiga, a Antártica está no topo da lista. É muito longe, é muito caro, é muito frio. Mas é fascinante. Estou aqui embevecida com o livro Expedições Antárticas, do fotógrafo e biólogo Cesar Rodrigo dos Santos, que teve o privilégio de estar 15 vezes por lá, entre 2002 e 2017, e registrar imagens de tirar o fôlego. O livro ainda tem com o plus dos textos serem da minha amiga Silvia Marcuzzo, que conta as aventuras de Cesar, e nos traz detalhes da infraestrutura e o trabalho desenvolvido pelo Brasil no continente gelado, da geografia e da biodiversidade locais, assim como os desafios do último lugar remoto do planeta. É uma região sobre a qual tudo o que sabemos, normalmente, se resume às suas paisagens de horizontes brancos infinitos e pinguins amontoados. Mas é um território a ser muito estudado, até porque as mudanças climáticas podem modificar rapidamente o que conhecemos até agora: “O continente antártico é repleto de superlativos, ostentando os títulos de mais seco, mais frio, mais desértico, mais ventoso, mais preservado, mais desconhecido. Com uma extensão de 14 milhões de quilômetros quadrados, equivalente à soma territorial de quase todos os países da América do Sul, a Antártica impressiona pela sua imensidão. Durante o inverno, o continente pode dobrar de tamanho devido ao congelamento do mar em seu entorno”. E, a cereja do bolo: “O continente detém 90% do gelo e 80% da água doce da Terra”. Dá pra imaginar? A Antártida conta com um tratado internacional assinado em 1959, que estabelece que o continente deve ser utilizado exclusivamente para fins pacíficos, proibindo qualquer atividade militar no continente. Além disso, o tratado incentiva a cooperação científica internacional e o intercâmbio de informações científicas entre os países signatários (12, atualmente), proíbe novas reivindicações territoriais e reconhece as reivindicações existentes, mas sem reconhecimento de soberania. Segundo o autor do livro, “enquanto persistir o tratado, essas belezas não podem ser exploradas comercialmente por nenhum país, pois o local influencia o clima de todo mundo”. Gostaria de acreditar que dá para confiar em tratados internacionais.
Livro mostra como o Brasil já controlou o desmatamento da Amazônia – e que pode repetir a dose

Sob o céu poluído e esfumaçado de São Paulo, o jornalista Claudio Ângelo lançou ontem (10/9), na livraria Megafauna, o livro O Silêncio da Motosserra – Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia (Companhia das Letras), realizado com a colaboração do engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da iniciativa MapBiomas e um dos personagens dessa história da vida real – tão real que afeta a vida de todos nós. Não fosse esse “presente de grego” da fumaça das queimadas vindas dos nossos “quintais” paulistas, mas também da Amazônia, até poderíamos achar que o livro traz notícias reconfortantes. Em O Silêncio da Motosserra, Ângelo e Azevedo contam como o desmatamento da Amazônia começou a ser uma questão para o Brasil no final dos anos 1980, quando começou a ser monitorado. E, principalmente, como foi domado entre 2005, quando o sistema de monitoramento por satélite em tempo real foi instaurado, até 2012 (governos Lula e início de Dilma), período em que o desmatamento foi reduzido continuamente, até voltar a aumentar e sair do controle no governo Bolsonaro. A boa notícia, disse Claudio Ângelo, durante papo com público no lançamento, é que, se olharmos além da fumaça, veremos que o desmatamento voltou a cair desde que a nova equipe (parte dela, a começar pela ministra do Meio Ambiente, Maria Silva, a mesma que reduziu as taxas de desmate da primeira vez) tomou posse no terceiro mandato do presidente Lula. Isso significa que conter a devastação da Amazônia não é uma missão impossível e o desmatamento deve estar novamente sob controle brevemente. O problema – do qual a fumaça é um alerta – é que, com as mudanças climáticas, os desafios são maiores. Claudio e Tasso, mesmo querendo ser otimistas, lembraram que o desmatamento zero sozinho, hoje, não evita o ponto de inflexão, ou seja, aquele em que a floresta não mais se recompõe. Com secas cada vez mais severas e recorrentes, e incêndios criminosos encontrando campo fértil para se espalhar, outras medidas precisam ser rapidamente tomadas para garantir a conservação da floresta. Mesmo que não se saiba ainda exatamente o que precisamos fazer, com certeza, exploração de petróleo, garimpo ilegal, grilagem de terra e queimadas estão entre as coisas que só vão piorar a situação.