Tristeza pela morte do idealizador das cidades esponjas

Fiquei consternada com a morte do arquiteto chinês Kongjian Yu em um acidente aéreo no Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Yu foi o criador do conceito de cidades esponja, uma das melhores definições para cidades sustentáveis, harmônicas com o meio ambiente e resilientes às mudanças climáticas. Escrevi sobre o paisagista e as cidades esponja na publicação Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas, lançada em fevereiro deste ano pelo Instituto Água e Saneamento (IAS). No trecho sobre o tema, reproduzido abaixo, dá para ter uma ideia da importância de Yu e de seu legado. Cidades esponjas na China Uma cidade-esponja é aquela com capacidade de deter, limpar e infiltrar águas usando soluções baseadas na natureza. Para entrar nessa categoria, uma cidade precisa encontrar soluções que ajudem a absorver as águas de chuva, seja em áreas livres ou construídas. Essas águas vão recarregar os aquíferos e lençóis freáticos, enquanto o excedente de chuva escorre para áreas possíveis de serem alagáveis. Várias cidades pelo mundo têm aderido a elementos característicos de cidades-esponja, como Nova York, nos Estados Unidos, Berlim, na Alemanha, Copenhague, na Dinamarca, Bangcoc, na Tailândia. Mas a grande referência mundial é a China, com 16 cidades adaptadas a esse conceito, incluindo metrópoles como Pequim e Xangai, além de mais de 250 cidades com projetos usando os mesmos princípios. O país passou a investir nesse tipo de intervenção urbanística a partir de 2012, quando uma grave enchente matou cerca de 80 pessoas em Pequim. Atualmente, a capital chinesa possui uma área de 150 hectares criada para absorver a água pluvial e evitar que tragédias semelhantes se repitam. Outras cidades do país que passaram por intervenções desde então são Xangai, Zhoushan, Suzhou Xi’na e Jinhua. A cerca de 350 km de Xangai, esta última com algumas das mais belas construções seguindo esses conceitos e uma das vitrines chinesas com seus enormes parques com passarelas suspensas e solo alagável. Uma das causas desse protagonismo é o paisagista chinês Kongjian Yu, professor da Universidade de Pequim, criador do conceito de cidade-esponja. Pelo pioneirismo, ele recebeu, em 2020, o prêmio Sir Geoffrey Jellicoe, da Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas, e, em 2023, o Prêmio Internacional de Arquitetura Paisagística Cornelia Hahn Oberlander. Ao perceber o avanço da infraestrutura cinza, com o aumento do concreto nas cidades (canalizando rios e impermeabilizando grandes áreas), Yu passou a praticar um urbanismo que privilegia a natureza para lidar com enchentes, priorizando grandes áreas alagáveis e presença de vegetação nativa. Isso torna as cidades uma espécie de esponja, com capacidade para receber inundações deixando a água escoar lentamente. Entre as medidas que tornam uma cidade esponja estão: a criação de áreas verdes como parques alagáveis; a reconstrução das margens dos rios, com a retirada de concreto e replantio de matas ciliares; implementação de jardins de chuva ou áreas verdes espalhadas pela cidade; criação de telhados verdes, para reduzir a taxa de escoamento da chuva; introdução de tecnologias de pavimentação permeável, para também absorver a água. Para o arquiteto chinês, “as enchentes não são inimigas e podemos ser amigos delas usando sabedoria ancestral”. Yu preconiza que muros de contenção são uma ameaça, por funcionarem como uma barreira que impede a água de retornar para o leito dos rios durante transbordamentos, assim como a canalização e retificação de rios, que aumentam a velocidade do fluxo da água ao invés de retardá-la.
Obra de ficção

Atenção: este é um diálogo hipotético. Uma obra de ficção. – Boa tarde! O senhor é o administrador do Parque Villa-Lobos? – Sim, no que posso ajudá-lo? – Eu gostaria de usar o parque para fazer algumas coisinhas e queria saber o que é possível. – Meu amigo, não trabalhamos com limites, mas com os trocadinhos que pingam. Dependendo do valor, pode fazer o que quiser. – Posso instalar máquinas, totens e equipamentos? Vender qualquer coisa? – Pode. – Ah! Muito bom. Posso cercar qualquer área do parque e fazer as obras que precisar? – Com certeza. – Mesmo obras permanentes e sublocadas? – Mesmo estas. – E tem alguma regra sobre como seriam os equipamentos, destinação de locais, datas possíveis, padronização, paisagismo? – Nada, apenas é desejável que escreva alguma placa que contenha palavras como “verde”, “sustentável”, “sustentabilidade”, “natureza”, “bem-estar”, qualquer coisa dessas. Mas não é obrigatório. – E os frequentadores do parque não acham ruim, não protestam? Tenho acompanhado o que está acontecendo no Parque da Água Branca e fico um pouco receoso. – Não se preocupe, o pessoal aqui não é tão radical e esquerdopata como os de lá. – Ufa! Mas alguma parte do pagamento vai para os equipamentos do próprio parque, como manter os espelhos d’água da biblioteca, reabrir o Circuito das Árvores ou restaurar e colocar em funcionamento o orquidário? Isso pode encarecer o projeto. – Imagina, o povo que frequenta este parque nem percebe que esses equipamentos existem. Aqui podemos fazer tudo o que quisermos. Dá para reservar parte do estacionamento, cobrar entrada de tudo, circular com caminhões dentro do parque na hora que precisar. Nossos eleitores nos autorizam e não estão nem aí para essas bobagens de paisagismo, arborização e sossego, que é coisa de vagabundo, não de patriota. – Que maravilha! Vai ser um prazer fazer negócio com gestores tão responsáveis e visionários. Circuito das Árvores: fechado!
O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.
Limpeza urbana é bom para o turista e a cidade

Manaus tinha tudo para ser uma cidade incrível. Fica às margens de um dos rios mais lindos do mundo, o Negro, e é o local onde ele se encontra com o Solimões formando o rio Amazonas de um jeito único, correndo juntos uma grande distância sem que suas águas se misturem. Eu fiquei boquiaberta quando vi o fenômeno na primeira vez que cheguei de avião à cidade. Além disso, é cercada pela floresta amazônica, o que dispensa comentários, e cortada por uma infinidade de córregos ou igarapés. Tem um centro histórico com um bonito conjunto arquitetônico do tempo da Borracha, com o Teatro Amazonas como a joia da coroa. Pelo menos uma bela praia de rio, a Ponta Negra. Uma culinária original e saborosa. É a maior metrópole no Norte do país, com mais de 2 milhões de habitantes, por onde não se chega por estradas, apenas pela água ou pelo ar. Poderia ficar enumerando outras coisas extraordinárias sobre a cidade, mas é impossível visitar Manaus e abstrair o tanto de lixo que se espalha pelas ruas, praças e rios manauaras. Por mais que se tente não olhar, o volume de resíduos por todo o canto chama o olhar do turista e se torna tema de conversas entre as pessoas, pelo menos no grupo de todo o Brasil com o qual eu estava, nesta última estada na cidade. Não sei dizer o que pensam os estrangeiros que chegam ali. A falta de saneamento básico não é um privilégio manauara, é um flagelo brasileiro. Segundo o Ranking do Saneamento 2024, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os serviços básicos das 100 maiores cidades do país, Manaus ocupa a 86ª posição, figurando entre os 20 municípios com os piores índices. Atualmente, mais de 1,5 milhão de manauaras não têm acesso à coleta de esgoto, e apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade é tratado. Pouca gente associa, porém, os resíduos urbanos entre os quatro pilares do saneamento básico: água tratada, esgotamento sanitário, drenagem urbana e coleta e tratamento de resíduos sólidos. Considero os resíduos sólidos como a sala de visitas de uma cidade. Todo o saneamento é importante, mas o lixo espalhado é o mais visível e, me parece, o mais fácil de resolver. Quando um rato morto permanece todo um fim de semana na esquina mais turística de uma cidade (em frente ao teatro Amazonas em sua época de óperas e a um restaurante), há algo que precisa ser pensado. A cidade padece ainda de uma característica forte brasileira, que é reabilitar espaços fazendo grandes obras sem pensar em sua manutenção. Ano passado, Manaus inaugurou uma parte do que chama de programa de recuperação de seu centro histórico. O complexo conta com o mirante Lúcia Almeida, largo de São Vicente, casarão Thiago de Mello e Píer Turístico. O mirante é o principal atrativo do local e conta com piso transparente para dar a sensação de que estamos andando sobre o rio Negro. O problema é que ao olhar para baixo, há mais lixo boiando no rio do que água. Nada disso quer dizer que não gostei ou não recomendo a visita a Manaus. Apenas a considero um exemplo da falta de visão de oportunidades que vejo nas cidades brasileiras. Tanto em termos de potencial turístico e econômico quando em prevenção às mudanças climáticas. Imagina uma enchente em Manaus, como a de 2021, com aquele tanto de resíduos espalhados com a maior parte da população vivendo em palafitas. Desastres climáticos, como seca, estiagem e excesso de chuvas, causaram perdas de R$ 732,2 bilhões entre 2013 e 2024 às cidades brasileiras, segundo um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. Só no ano passado, as tragédias climáticas causaram um impacto negativo de R$ 92,6 bilhões. Em 12 anos, 95% dos municípios do país já foram atingidos ao menos uma vez por algum tipo de desastre. Nesse período, mais de 5 milhões de pessoas ficaram desalojadas, 1 milhão desabrigadas e quase 3 mil morreram. É por isso que falar sobre saneamento básico não é uma questão estética, para turista ver, mas essencial para a própria existência das cidades nos tempos que vêm por aí.
Correntão ainda assombra Amazônia

A primeira vez que vi cenas de correntão derrubando floresta era na Mata Atlântica, em meados dos anos 1990, numa época em que ainda não existia uma lei específica para o bioma. Trabalhava na Rede de ONGs da Mata Atlântica e tentávamos denunciar aquilo que nos parecia um crime hediondo, além de proteger os ambientalistas locais, que viviam sob ameaças. A cena me chocou, nunca tinha imaginado ser possível tratar uma floresta tão majestosa como se fosse joguinho de carta de baralho tombando. Pra quem não sabe, o correntão é o método mais cruel de desmatamento, com o uso de uma corrente grossa entre dois tratores, derrubando tudo pelo que passa, sem poupar uma árvore ou dar chance aos animais que estão no caminho de fugir. Pode devastar 10 campos de futebol por dia. Em meados de 2010, foi a vez de assistir pessoalmente, árvores nativas da Amazônia sendo cortadas, quando fui conhecer o projeto de manejo florestal da Ecolog, em Rondônia, para escrever sobre a experiência. O resultado é o livro Explorar para Preservar, no qual conto a aventura do empresário Fabio Albuquerque em sua tentativa de salvar, via manejo, uma das últimas grandes florestas de Porto Velho. Acostumada até então a visitar apenas áreas conservadas da Amazônia, percorrer os 250 quilômetros da BR-364, ao longo do que foi a ferrovia Madeira-Mamoré, até a fazenda da Ecolog, foi uma experiência intensa, mesmo quando teoricamente se está preparado para o que se vai ver. Ao longo de todo o trajeto já não exista floresta. Em alguns pontos, me sentia no Velho Oeste de dois séculos atrás retratado em filmes estadunidenses. Criação de gado, em pastos pobres onde não se teve nem a preocupação de retirar os esqueletos das árvores carbonizadas na abertura da área, era a paisagem dominante. Ao fundo, matas empobrecidas e abertas, parecendo esperar a vez de também serem derrubadas. O cenário mudava quando entrávamos nos 30 mil hectares de matas nativas da Ecolog. Mas, mesmo dentro daquela situação controlada de manejo certificado, na qual poucas árvores são selecionadas para corte, é uma sensação terrível ouvir e ver uma árvore centenária tombar. Mesmo ainda acreditando na possibilidade do corte seletivo, espero não repetir da experiência. Por isso ver o correntão em ação, mesmo nos vídeos da internet, é um pesadelo. Atualmente, essa prática ainda tem sido registrada na Amazônia e é alvo de uma campanha de organizações da sociedade civil, que criaram uma petição online para que o PL 5.288/2020, que proíbe essa prática no país, seja aprovado no Congresso Nacional. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto, veja neste post do André Trigueiro em https://www.instagram.com/reel/DJUIlpJNTRm/.
Saneamento adaptado às mudanças do clima é chave para bem viver

Pensar em adaptação do saneamento básico às mudanças climáticas, em uma semana de sol em São Paulo às vésperas do Carnaval, parece uma péssima ideia. Ninguém quer se lembrar de problemas relacionados a chuvas ou falta de chuvas, que, no caso da cidade, remete a inverno. Mas, talvez, justamente por estarmos fora da emergência, seja o melhor momento. Ainda mais porque a maior parte das adaptações necessárias também pode minimizar esse calor em ondas cada vez mais fortes. Em “Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas”, publicação recém-lançada pelo Instituto Água e Saneamento (IAS), da qual participei, mostramos por que a adaptação dessa área é fundamental para garantir o bem viver nas cidades. Sem uma drenagem pensada para a nova realidade, ficaremos sem mobilidade – a parte mais visível da equação -, mas também sem abastecimento de água, sem tratamento adequado de esgotos, sem habitações de qualidade e com sérios problemas de saúde pública. Na pesquisa realizada para a publicação, ficou claro que um conjunto e medidas precisa ser tomado urgentemente, envolvendo de legislação e políticas públicas a meios de financiamento. Obras como sistemas de coleta e tratamento de esgotos eficientes e resilientes são urgentíssimas, já que temos uma defasagem a ser superada, além de outras infraestruturas cinzas, como piscinões, por exemplo. O que ficou evidente, porém, é a necessidade de soluções baseadas na natureza, chamadas pela nova sigla do momento SbN ou de infraestruturas verdes. Isso significa, em uma cidade como São Paulo, na qual as chuvas provocam tragédias e a falta d’água está sempre pairando, pensar em como era este espaço antes da metrópole se instalar: uma região com três grandes rios de várzeas (Tietê, Pinheiros e Tamanduateí) serpenteando uma planície para onde afluíam cerca de dois mil córregos, a maior parte deles atualmente canalizados. Mesmo com chuvas normais, as águas querem seu espaço original, imagine com os eventos extremos que vêm pela frente. (continua nos comentários ou em paulistanasp, link na bio) Conheço as respostas obvias. Os rios foram retificados, sem as marginais o trânsito não anda, tudo já foi ocupado. O pior é que o processo de impermeabilização do solo não cessa nunca, a cada dia mais e mais prédios gigantescos são construídos sem que se pense na drenagem urbana. Na chuva fatídica de 24 de janeiro, minha rua, que sempre enche na parte baixa, perto do Beco do Batman, conseguiu ter apartamentos inundados na parte alta, com o lençol freático subindo pelos ralos. As mudanças não são fáceis, mas têm que ser feitas. Há várias cidades sendo adaptadas pelo mundo. Nova York tem investido em aumentar suas áreas verdes e as cidades-esponja criadas na China tem aberto espaço para as águas escorrerem e armazenarem naturalmente. Na publicação do IAS, trazemos exemplos de medidas grandes e pequenas que podem ajudar, e disponibilizamos o endereço de várias plataformas com experiências em andamento. Ficar lamentando a época das chuvas e, alguns meses depois, a de seca não vai ajudar a melhorar a situação.
Eventos Extremos, o show

Enquanto São Paulo passava por mais um dia de caos por conta das chuvas na terça-feira (18/2), uma turma animada se reunia na Casa das Caldeiras no final de mais um dia de trabalho de avaliação justamente sobre as mudanças climáticas. Esse pessoal faz parte do Observatório do Clima, uma rede de organizações de todo o Brasil que atua para reduzir as emissões de carbono, minimizar seus efeitos deletérios, divulgar a enrascada em que nos metemos ao não levar a ciência a sério e tentar mudar o rumo dos acontecimentos enquanto é tempo. Quando cheguei lá, no final da tarde, para encontrar alguns desses meus amigos-heróis, ainda não sabíamos que mais uma pessoa (desta vez uma motorista de aplicativo) tinha perdido a vida em uma enchente, nem de todos os estragos na Zona Norte da capital paulista. Aliás, na Zona Oeste, a chuva nem tinha dados as caras ainda. Com todos os motivos para entrar em desespero, essa turma, como eu disse, é muito animada, e otimista. Acreditam que vamos acordar e agir. Gosto de estar com eles porque conseguem me contagiar. Naquele dia, descobri que alguns deles, entre os quais Claudio Ângelo, Gustavo Faleiros e Ricardo Baitelo, ainda conseguem tempo para tocar em uma banda – e não uma banda qualquer. É a Eventos Extremos, nome para não deixar dúvidas sobre a que veio. Com um repertório, na maior parte de versões satíricas de músicas conhecidas, a banda animava os fãs com letras sugestivas como: “Chora, IPCC/Ninguém te deu razão/Queimamos o carvão/E deu ruim/Chora, IPCC/Não tem planeta B/Ninguém ouviu você/E deu ruim/Ah, chupa essa, IPCC/O lobby fóssil ganhou/Nós vamos ferver/Você bem que avisou”. No momento que nos acabávamos na pista dançando ao som de: “Ontem choveu em casa/meu carro afundou/tô sem luz/ e a torneira secou/Mas tá tudo ok/sou negacionista, sem rancor/no meu coração, durmo bem”, os celulares começaram a apitar com mensagens da Defesa Civil sobre a tempestade chegando à região. Alguém da organização avisou para que ninguém saísse, porque as ruas ao redor estavam todas inundadas. Não nos restou nada a fazer, a não ser continuar a festa, com a certeza de tempos de muito sucesso para a Eventos Extremos.
Pra quem o presidente quer ser popular?

Outro dia escutei a conversa de duas senhoras na piscina. Diziam que tinha sido bom “ele” ganhar a eleição, pois agora sua popularidade já estava caindo e nunca mais iria se eleger. “Ele”, logo descobri, era o presidente Lula. Segundo as duas mulheres, os maiores absurdos cometidos por ele eram não ter se pronunciado sobre a Nicaragua e não se manifestar contra o aborto. Depois dessa aula involuntária de política, me afastei e não sei o restante do papo. Acho que não preciso ser genial, porém, para concluir que essas senhoras nunca votaram e nunca vão votar “nele”. Mas, apesar de não ter dito nada sobre a Nicaragua – não faço a menor ideia do que o presidente deveria ter falado sobre o assunto – nem sobre o aborto, às vezes tenho a impressão de que “ele” governa sempre buscando agradar a essas senhoras, como se fosse um amor inatingível. Ao contrário do ex-presidente que certamente elas votaram e que em nenhum minuto de sua gestão deixou seus apoiadores na mão ou não cumpriu (infelizmente) suas promessas de campanha, Lula parece não se preocupar com seus eleitores fiéis. Em relação ao aborto, por exemplo, mesmo que não se pronuncie, nunca fez nem um movimentozinho sequer para corrigir este atraso no país, que criminaliza mulheres por decidirem o que fazer com seus corpos. Lula, contudo, quer aumentar sua popularidade e, para tanto, ao invés de focar nas pautas que o levaram ao poder, quer namorar e casar com o centrão. Ah! Precisa do Congresso para governar etc. etc. Mas tudo tem limites. Há questões que deveriam ser pétreas, como a proteção da Amazônia e dos brasileiros contra as mudanças climáticas, causas amplamente defendidas pelo presidente na campanha e no seu show de convidados na posse, ao subir a rampa para seu terceiro mandato. De que adianta ter Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e Rodrigo Agostinho no Ibama, se seus posicionamentos técnicos não são levados em consideração? Dá a impressão de que o presidente espera se fazer de bonito na COP30, mas quem ele quer agradar, na prática, são os negacionistas apaixonados por petróleo a qualquer custo. A um custo imenso. Ao custo do futuro do país. Aqui, derretendo de calor e à espera da próxima tempestade extrema que paralisará a cidade, tenho a sensação desagradável de ser mulher de malandro: ver seu eleito agradando às amantes o tempo todo e, quando precisar de votos, chegar novamente com o papinho de ser a melhor solução diante do resto que está aí, dizendo que, da próxima vez, vai ser diferente. Será que não teria jeitos melhores de aumentar a popularidade? Foto: José Bezerra.
Há uma conspiração contra todos nós

Quem estiver interessado em saber por que Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e companhia estão todos faceiros lambendo as botas de Donald Trump assista ao documentário Conspiração Consumista, de Nic Stacey, na Netflix. O título original em inglês, ainda traz um complemento mais explicativo: Buy Now! (compre agora), retirado na versão em português. O filme mostra como as grandes corporações contam com a tecnologia/redes sociais para fazer com que as pessoas consumam cada vez mais, sem nem pensar no assunto. Para isso, usam estratégias sofisticadas para esconder informações e mentir descaradamente para que as pessoas ajam contra seus próprios interesses e ainda achem que as empresas se preocupam com seu bem-estar. O diferencial deste documentário é trazer depoimentos de pessoas com altos cargos dentro dessas corporações, como Amazon e Adidas, que colaboraram para a criação destas estratégias e hoje lutam contra elas, por perceberem o quão insustentáveis são. Ver imagens de produtos devolvidos ou encalhados sendo destruídos e descartados para que ninguém possa usar, incluindo roupas, bolsas, eletrônicos e comida, dá um misto de nojo e agonia. Entender como foi criada e como é aplicada a obsolescência programada dos produtos, revolta qualquer um. Qualquer um talvez seja forte demais. Viciados que gostam de ficar na fila para comprar os primeiros Iphones lançados a cada ano, se esmagam para serem os primeiros a entrar em lojas com promoções como black Friday ou o dedo já está gasto de clicar em “promoções imperdíveis” na internet, possivelmente não se incomodem de ver as montanhas de lixo que lotam oceanos e praias e aterros em países pobres da Ásia ou da África ou o deserto do Atacama. Possivelmente, os negacionistas climáticos que apoiam a extrema-direita mundo afora acreditem que é tudo balela e que esse lixo todo vai se autodestruir ou ser enviado para Marte, em um foguete do Elon Musk. (continua nos comentários; artigo completo em paulistanasp, link na bio) Para os que têm um mínimo de bom-senso e não precisam nem ver as imagens chocantes desse volume todo de descarte para entender que estamos em uma enrascada, o melhor é procurar representações melhores nos governos, cada vez mais difícil com o crescimento desse controle midiático das big tecs, e bancar o Dom Quixote em sua vida particular, rezando – para quem acredita – que vai dar tempo de consertar tudo isso. Comece eliminando o máximo de plástico da sua vida. É uma missão quase impossível, mas não aceitar sacolas plásticas e carregar uma garrafa de água de casa são um bom começo. Enviar o lixo para reciclagem é fundamental, mas o filme nos mostra que essa é a mentira master das indústrias: grande parte do que achamos que é reciclável não é. A maior parte das embalagens que separamos cuidadosamente, vai acabar mesmo no mar, em aterros ou queimada, aumentando o efeito estufa. Comprar roupas, sapatos e bolsas também vai deixar de ter tanto encanto se você assistir ao documentário. Trocar o computador ou o celular só para mostrar aos amigos e ficar com mais medo de ladrão também dará menos prazer. Muito preferem não encarar questões como esta. Quem está disposto?
Cadê a cura pra ultramacho?

Disse o novo (de novo) presidente do Estados Unidos que, naquele país, a partir de agora, só existem dois sexos. Na minha humilde opinião, ele esqueceu de um, que não é exclusividade dos EUA, é mundialmente disseminado, mas infelizmente pouco combatido: o ultramacho. O fato de ser tão persistente na sociedade, mesmo nas mais evoluídas, indica que talvez tenha algum componente genético, embora o gatilho cultural (todas as religiões monoteístas costumam valorizá-lo bastante) seja fundamental. Prevalecem nos grupos de direita, são quase a totalidade nos de extrema-direita, onde desde criancinha são doutrinados ou recebem algum remedinho em suas mamadeirinhas de piroquxnhas, não sei. Mas aparecem também entre ditos esquerdistas, onde são conhecidos como esquerdomachos. Estes, ao contrário dos demais, não se reconhecem na comunidade, ficam no armário a maior parte do tempo, mas não enganam ninguém. A maior característica dos humanos desta tipificação sexual, além da preferência por piadas infames, armas, guerras e similares, é a incapacidade de amar e até de enxergar mulheres, de qualquer gênero, como da mesma espécie. Eles até gostam delas, como os demais gostam de pizza, por exemplo. Gostam do cheiro, da aparência, do sabor. Gostam de se gabar de quem come a melhor pizza, às vezes a compartilham pra provar seu ponto ou generosidade. Quando esfria um pouquinho, jogam fora. Eles também gostam de conversar e dar palpites sobre as pizzas uns dos outros, sobre a preparação e formas de descarte. O problema é que querem dominar o mundo. Querem aliciar SEU FILHO para que seja um deles. Desejam que todos os humanos que nasçam com uma protuberância e duas bolinhas entre as perninhas sejam doutrinados desde bebês para ser como eles. Os poucos que se incomodam com esse impulso, sobretudo os que vivem em ambientes majoritariamente intolerantes a eles, atualmente costumam se conter, alguns se afirmam publicamente curados. Até o momento, porém, não existe tratamento comprovado pra ultramacho. Não conheço pastores, padres, psicólogos ou coaches tentando o intento. Quem salvará nossos meninos?