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PaulistanaSP

Lucro virou propósito nos parques paulistanos

Há um embate acontecendo no município de São Paulo. De um lado, estão o governo do estado, a prefeitura e as empresas concessionárias dos principais parques da cidade; do outro, os frequentadores dos parques. Tem sido uma luta desigual, pois os primeiros têm o poder e nenhuma disposição para conversar, além de um aparente desprezo pelo que é público e pela função de um parque urbano. Em tese, a concessão (ou privatização) dos parques não é um problema em si mesmo. Governos liberais costumam defender esse método de gestão e parte da população apoia. Acontece que parques são um espaço público de uso comum, predominantemente verde e com elementos naturais. Sua finalidade é oferecer lazer e recreação gratuitos, propiciando a prática de esportes, caminhadas, piqueniques, atividades culturais e artísticas. Também devem funcionar como um “refúgio” contra o estresse, o barulho e a poluição visual das grandes metrópoles, impactando diretamente na saúde mental dos frequentadores. Além de tomarem os espaços verdes da cidade, toda essa infraestrutura do lucro traz ainda poluição do ar e sonora, devido a inúmeros geradores e veículos transitando dentro dos parques, e a conhecida poluição visual das marcas. Na era de mudanças climáticas e cidades esponjas, os parques também servem para reduzir o efeito das ilhas de calor urbanas, ajudar a absorver a água da chuva, diminuindo o risco de enchentes e alagamentos, e como abrigo e zona de alimentação para a fauna urbana (como aves e insetos polinizadores), além de preservar espécimes da flora nativa. Acontece que, quando o objetivo principal desses lugares passa a ser gerar lucro para as empresas, abusos são cometidos e suas funções iniciais deixam de ser prioridade. Espaços públicos começam a ser ocupados por empresas privadas, marcas passam a ganhar mais visibilidades do que o paisagismo e as árvores. Atividades incompatíveis com a finalidade do parque são praticadas, locais históricos e tombados são desrespeitados. Desde que os parques começaram a ser privatizados em São Paulo, em 2019, o primeiro serviço impactado foram os estacionamentos. Como são poucas as pessoas que contam com áreas verdes perto de casa no município, praticar esportes ou simplesmente frequentar esses locais ficou caro. Uma das justificativas para as concessões é que a “arrecadação e o lucro” em parques de áreas nobres (por exemplo, o Ibirapuera) ajudam a custear e manter outras áreas verdes incluídas no pacote, localizadas em regiões periféricas ou com menor “apelo comercial”. Em nome do lucro, o parque paulistano mais icônico e outros tradicionais da cidade, como os parques estaduais Villa-Lobos e da Água Branca, têm se transformado em algo parecido com o Cais Embarcadero de Porto Alegre, um shopping a céu aberto. A diferença é que este último, apesar de estar em uma área pública, não era um parque antes, é um empreendimento privado, construído para tal. Possivelmente, São Paulo até comporte empreendimentos como o Cais Embarcadero, apesar de contar com aproximadamente 156 mil bares e restaurantes e inúmeros espaços públicos e privados destinados a eventos esportivos, shows e exposições. No entanto, são apenas 134 parques (124 municipais e 10 estaduais) para uma população de 12 milhões de pessoas. Nesse sentido, talvez, quem sabe, grandes eventos privados de moda e decoração e até esportivos, que impliquem em cobrança de ingressos, construções e cercamentos, assim como a instalação de lojas e restaurantes, estação para transmissão de TV ou espaço fixo de cervejaria não precisariam ocupar justamente nossos poucos parques públicos. Um dos casos mais bizarros, atualmente na justiça, é o projeto de construção de uma academia particular e paga no Parque Ibirapuera, na área do mezanino da antiga Serraria histórica, tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo e atualmente usada para atividades esportivas gratuitas. Associações de moradores dos bairros próximos e frequentadores dos parques têm procurado as autoridades e tentado negociar, contando com o apoio de poucos vereadores simpáticos à causa. Manifestações têm sido realizadas. Mas a única coisa, por enquanto, capaz de segurar a sanha privatizante é quando há falta de lucratividade: uma das empresas concessionárias, a Urbia (a mesma do Ibirapuera), pediu para devolver ao estado a administração do Parque Estadual da Cantareira e do Horto Florestal, na Zona Norte da cidade, porque a operação não deu o retorno financeiro esperado. (Artigo publicado em https://sler.com.br/lucro-virou-proposito-nos-parques-paulistanos/)

Estou apaixonada pelo novo mapa-múndi

Sou geógrafa bissexta, fui uma aluna medíocre de cartografia, mas adoro mapas. As distorções nos tamanhos dos continentes e países no mapa-múndi, porém, me incomodam muito antes da faculdade. Lembro que aprendíamos na escola que toda a Europa, tirando a Rússia, cabe dentro do Brasil e ainda comportaria mais 25 Portugais. Eu olhava e não via como isso era possível. Mesmo quando aprendi sobre as distorções necessárias para representar no plano o que é uma esfera (por mais que isso doa nos terraplanistas), achava injusto os Estados Unidos parecerem maior do que o Brasil, o que aquele país só é quando acrescenta o Alasca. Bairrismos à parte, fiquei muito feliz com a resolução da Assembleia da ONU recomendando a adoção do mapa-múndi baseado na projeção Equal Earth no lugar da projeção de Mercador, criada em 1569 com o objetivo de ajudar na navegação marítima, privilegiando os ângulos das rotas e distorcendo muito o tamanho dos territórios. Nessa projeção, tudo o que fica mais próximo do Equador diminui de tamanho e o que fica mais perto dos polos aumenta. O exemplo clássico, que tem sido bastante comentado, é a África parecer, no mapa de Mercator, ter o mesmo tamanho da Groenlândia, que é 14 vezes menor. A projeção de Mercator continuará a ser usada em aplicativos de GPS e navegação, entretanto ter os tamanhos dos territórios mais reais fará um bem enorme ao ensino de geografia. Mesmo que a padronização seja recomendada em um mundo globalizado, consideraria salutar se os países do hemisfério Sul também ensinassem seus alunos com o mapa-múndi invertido, sul na parte de cima e norte na de baixo. Nenhuma hierarquia é neutra. Tanto isso é verdade que 164 países votaram sim à resolução, seis se abstiveram e apenas os Estados Unidos votaram contra. A justificativa do governo Trump é que a proposta é desnecessária e ideológica. O mesmo governo que decretou, em seu território, a mudança do nome do Golfo do México para Golfo da América e do Lago Ontário, na divisa com o Canadá, também para Lago América. Coerência mandou lembranças.

Caminhar como prazer e propósito

Tudo começou quando ganhei um reloginho chinês que conta os passos diários. Inseri meus dados e ele me disse que, segundo meu peso e idade, precisava caminhar 6 mil passos por dia. Só faltou complementar: “isso é só para te manter viva”, pois na mesma mensagem de instrução ressaltou que, se quisesse me exercitar, o ideal deveria ser mais de 7.500 passos diários. Num primeiro momento, pareceu uma meta fácil de ser cumprida. Corresponde a distâncias de 3,9 e 5,5 km, respectivamente. Além disso, os especialistas parecem, no geral, concordar com meu relógio chinês. Só para não sair morrendo por aí, deveríamos andar entre 4 e 5 mil passos por dia. Caminhar entre 7 mil e 10 mil passos, porém, maximiza a proteção cardiovascular, controla a glicose e combate os malefícios de passar muito tempo sentada. É nesta última parte que mora o problema. Em um dia normal, trabalhando em casa e sentada em frente ao computador, é impossível cumprir até meu objetivo mínimo, mesmo fazendo meia hora de esteira na academia. O relógio não está nem aí se faço musculação, pilates ou qualquer outro exercício. Passei, então, a incluir caminhadas “artificialmente” em minha rotina sempre que possível, por exemplo, indo a pé a lugares onde normalmente iria de carro ou de metrô, ou dando voltas pelo bairro flanando. Mesmo com o tempo mais livre que tenho atualmente, ainda assim é difícil cumprir meu propósito. Mas tomei gosto pela coisa. Tanto que me inscrevi para uma caminhada de longa distância. Junto com um grupo de nove mulheres, percorreremos neste mês de setembro, em quinze dias, os 300 quilômetros do Caminho Cora Coralina, em Goiás. (Veja o artigo completo em: https://sler.com.br/caminhar-como-prazer-e-proposito/)

Mostra remete a ruínas metamorfoseadas

Passados dois anos da grande inundação que assolou Porto Alegre, as marcas da tragédia continuam presentes, se não nas ruas e construções, no imaginário traumatizado de sua população. É difícil, para quem vem de fora como eu, conversar com alguém sem que o tema não seja mencionado. Impossível passear pela orla do Guaíba, como fiz alguns dias atrás, sem pensar na vulnerabilidade de uma metrópole rodeada de águas lentas e praticamente ao nível do mar quando as mudanças climáticas entram porta adentro de nossas vidas sem pedir licença. Senti um certo aperto no peito enquanto ia em direção ao Centro Histórico ao lembrar que um El Niño foi o causador das chuvas de 2024 e agora o mesmo fenômeno (e, como dizem, super) volta a se formar com possibilidade de enchentes e inundações no Sul do país. É muito pouco tempo para que as pessoas suportem um novo desastre climático. Meu destino naquele dia era a abertura da exposição 2016-2026 da artista plástica Ana Norogrando, no Museu de Arte do Paço (antigo prédio da Prefeitura). A mostra é formada por um conjunto de esculturas e audiovisuais de extremo impacto ao remeter a ruínas, de corpos e coisas unidas em objetos metamorfoseados que parecem ter vida própria. São fragmentos corporais, membros isolados, próteses, estrutura mecânicas, objetos encontrados, partes industriais e dispositivos tecnológicos rearranjados como ao final de uma tragédia que os carregou e obrigou a se fundirem em uma nova realidade. Vemos um mundo pós-pandêmico e pós-enchente em seu trabalho. Um mundo feito de cacos que tentamos dar forma e sentido. (Veja artigo completo em sler.com.br)

Ataque ao canteiro central

Soluções urbanas dificilmente agradam a todos, mas há opções que vão claramente na contramão das necessidades da cidade, preocupadas em beneficiar (quem sabe) algum pequeno grupo. Um exemplo disso é a destruição do canteiro central da avenida dos Semaneiros, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Enfrentamos um agosto quente e seco, com a ameaça de um super El Niño pela frente, o que pode significar uma seca terrível acompanhada de tempestades idem. Nesse contexto, deveríamos estar preocupados em abrir espaço para o solo e as árvores, para aumentar a capacidade de infiltração e a umidade do ar na cidade. Cada metro quadrado importa. É tempo de criar novas áreas verdes, mesmo pequenas. Tirar asfalto, desencanar rios, plantar árvores, muitas árvores. Mas o que vemos ali é, em nome de aumentar as vagas de estacionamento para carros, a destruição da ciclovia existente, transferindo-a para o canteiro central, aumentando a área impermeabilizada, cortando raízes e espremendo as árvores, acabando com a possibilidade de plantar novas árvores. O engraçado é que, quem estaciona neste local, exclusivamente residencial, são apenas os sócios do Clube Alto dos Pinheiros, do qual sou sócia e espero que não tenha tido nada a ver com esta horrorosa decisão. Frequento o clube diariamente e nunca aconteceu de não encontrar vaga para estacionar à distância de, no máximo, um quarteirão. Além disso, quem para ali, normalmente está indo praticar esporte. Se vai andar na esteira, não custa nada andar um pouquinho para chegar até lá. Mesmo que nem uma árvore tenha sido cortada para a obra (não acredito, pois vi troncos jogados no caminho), elas ficarão fragilizadas, com maior risco de queda durante as chuvas. Além disso, a ciclovia é pouco movimentada e fica dos dois lados da avenida. Poderia tranquilamente se mantida em apenas um dos lados. Como a via é pouco movimentada na maior parte do tempo, muito ciclistas continuarão a andar no meio da rua, pois a ciclovia do canteiro central fará muitas curvas, aumentando o trajeto. Perde a cidade, perdemos todos.

Perigos extremos exigem adaptação cognitiva

Como nas temporadas das séries de TV, em que aparecem personagens diferentes para bagunçar geral e dar mais emoção às histórias, nos deparamos com uma nova ameaça relacionada às mudanças climáticas a cada ano. As ondas de calor, a falta de chuva ou as tempestades com volumes de água nunca vistos não foram absorvidas e chegaram, parece que para ficar, as ventanias. Avisos como os da Defesa Civil, em que pese a necessidade de se aprimorarem, precisam começar a ser levados a sério. Leia artigo completo em: Perigos extremos exigem adaptação cognitiva – Maura Campanili

Meu adeus ao Parque Villa-Lobos

Hoje fui pela última vez ao Parque Villa-Lobos, pelo menos nesta gestão. Que os deuses das eleições permitam que o Estado de São Paulo possa ser melhor-administrado. Transformar um parque deste porte em uma rua 25 de Março deveria ser crime. No mínimo, crime ambiental. Creio, na verdade, que seja, só não há Ministério Público para ver. Se quiser entender do que estou falando, sugiro uma visita. Não se surpreenda caso só encontre tapumes e quase nenhuma árvore. Se quiser fazer um piquenique, não é um bom lugar. Além de se sentar próximo a algum tapume (não há área sem), provavelmente será interrompido pela passagem de caminhões e operários, e pela poluição e barulho ensurdecedor de geradores de energia. Me faz tão mal ir lá que resolvi seguir o conselho do meu marido e desistir de vez. Que este governo do Estado só pense em dinheiro e para quê, posso imaginar. Mas como as marcas se sujeitam a participar desta lambança, ainda me impressiona. De Casé TV, a competição de sei lá que campeonato de tênis ou sei lá que festa culinária, a Cirque du Soleil, a espaço para restaurantes e barraquinhas e lojas, banquinhas de bebidas (inclusive alcoólicas), tudo é permitido. Aliás, quem estiver interessado, pode oferecer qualquer projeto. Com certeza, será aprovado. Se tivesse capacidade (ou relevância) para fazer uma campanha seria: não frequente o Parque Villa-Lobos, não vá aos eventos realizados lá – faça esses empreendimentos fracassarem. Quem sabe, assim, haveria uma chance de os oportunistas de plantão desistirem de usar este espaço público, que deveria ser para a população fruir a natureza gratuitamente em paz, e o parque pudesse ser devolvido aos seus usuários. A empresa privada Urbia quer devolver o Horto Florestal e o Parque Estadual da Cantareira ao governo por falta de lucro. Deve ser porque ficam um pouco mais distantes, na Zona Norte. O Villa-Lobos não teve a mesma sorte. A Reserva Parques, pelo que parece, tem um contrato com direitos ilimitados, sem escrúpulos, sem bom-gosto, sem noção do que é um parque urbano. Este é só um desabafo, quem sou eu na fila do pão para mudar a situação. Apenas desisti de frequentar um dos locais de que mais gostava na cidade. (Legenda da foto: nada do que se vê neste mapa é real. O Parque está totalmente ocupado por empreendimentos)

Indígenas: imigrantes na própria terra

Inicio nesta semana minha colaboração para o Sler. Publicarei todas as segundas-feiras.Neste primeiro artigo, reflito sobre nossa percepção sobre os povos indígenas. Em Paraty durante a Flip, enquanto intelectuais desfilavam, adultos e crianças indígenas tocavam, cantavam, dançavam e comercializavam do lado de fora, como imigrantes pobres em sua própria terra. No entanto, são eles que podem nos ajudar a enfrentar os desafios das mudanças climáticas e do Antropoceno. Leia o artigo em Indígenas: imigrantes na própria terra – Maura Campanili

Parques não existem para dar lucro a empresas

A Urbia, mesma empresa que administra o Parque do Ibirapuera, anunciou que quer devolver a concessão do Horto Florestal e do Parque Estadual da Cantareira, na Zona Norte de São Paulo, porque a rentabilidade do “negócio” ficou abaixo do esperado. Chamar uma área protegida de negócio me dá embrulho no estômago. Esperar que o lucro seja financeiro e não em qualidade de vida para a população ainda mais. Estive recentemente no Horto Florestal, o qual faz parte da minha história. Marcou esta última visita a falta de sinalização sobre caminhos e atrações do parque. Por exemplo, a entrada para a Trilha da Pedra Grande (localizada no vizinho Parque Estadual da Cantareira) fica dentro do Horto, mas só descobri por acaso, pois não há nada indicando isso. Existem, sim, espaços fechados sem informações sobre o que (e se algo) funciona ali, poucos banheiros e um estacionamento carésimo. Painéis de LED e propagandas em geral também têm bastante. Espero que estas duas importantes áreas de conservação urbanas paulistas voltem para a gestão pública estadual rapidamente. De preferência, para uma gestão que as valorize como se deve. A atual, parece, só enxerga cifrões em seus parques paulistanos, vide o Água Branca e o Villa-Lobos, onde cada centímetro está disponível para comercialização, seja do que for. A concessão desses dois parques estaduais é da Reserva Parques (do grupo DC Set Group), administradora de áreas verdes através do Consórcio Novos Parques Urbanos, que também inclui a LivePark e o Grupo Oceanic. Ambos têm sido fontes de questionamentos sobre a privatização. Frequentadores do Parque da Água Branca criaram uma associação para protestar contra a realização de eventos e instalação de restaurantes em áreas do parque. Seu slogan é “Parque não é shopping”. No Villa-Lobos, painéis publicitários anunciam bebidas alcoólicas, vendidas em diversos locais do parque. A Heineken é “parceira” do Villa-Lobos e conta com um espaço exclusivo no local chamado Heineken House. É só um pouco menos vergonhoso do que as bets serem patrocinadoras de atletas, jogos e times de futebol. Parques urbanos são locais para preservação ambiental, lazer gratuito e de qualidade. Não é mercadoria, é direito. Além de proporcionarem serviços ambientais, como proteção e provisão de águas, regulação do clima (inclusive o microclima) e controle de doenças infecciosas, possibilitam benefícios diretos para a saúde física, espiritual e mental da população. Um estudo na Austrália concluiu que a atividade física realizada em áreas protegidas evita o gasto de 200 milhões de dólares australianos com saúde por ano. Pesquisa da Universidade de Chiba, o Japão, concluiu que pessoas que tiveram contato com a natureza mostraram uma diminuição de 16% no cortisol (hormônio do estresse), 4% na frequência cardíaca e 2% na pressão arterial. Natureza não é shopping ou 25 de março. Nem tudo no mundo é sobre lucratividade empresarial.

Minhas leituras: O Velho e o Mar

A primeira vez que li O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, foi bem no comecinho do Círculo Feminino de Leitura (CFL), possivelmente no final de 2008. Já naquele tempo tive uma impressão controversa do livro. Achei uma história típica de homem hétero, patriarcal, focado em mostrar que é macho, sem refletir muito sobre o que faz. Não estou falando da qualidade da literatura, mas do enredo. A escrita do Prêmio Nobel Hemingway é incrível, seguimos o pescador Santiago sem desgrudar os olhos da leitura. Mas o personagem tem uma obstinação sem propósito a partir do momento em que os tubarões passam a atacar o enorme marlim, finalmente vencido, e ele insiste na luta, mesmo sabendo que não terá o peixe ao final. O velho luta contra a natureza, o que importa é o triunfo. Reli o livro agora, para o Círculo de Leitura do Clube, e minha opinião se manteve a mesma. Desta vez como daquela foi uma opinião isolada. Não que algumas pessoas (mulheres, devo dizer) não vejam traços do patriarcado no livro, mas relevam, em nome da trajetória do herói, que enfrenta o inimigo até o fim, mesmo arriscando a vida e sem garantia de benefício. A maior parte das pessoas, parece, acha isso exemplar. Eu, porém, só consigo ver mérito se houver um propósito maior, o que não consigo enxergar no romance. Me lembra comportamentos masculinos sem sentido: briga de torcida, na melhor hipótese, ou o conjunto de guerras travadas pelo orgulho e teimosia de líderes sem qualquer princípio de razoabilidade. Lembrando que Hemingway era um macho alfa típico: lindo, com seu famoso queijo quadrado, boêmio e mulherengo. Se casou quatro vezes. Aos 17 anos, se alistou na Cruz Vermelha e foi ser motorista de ambulância durante a primeira Grande Guerra, quando se feriu. Depois foi para Paris, nos anos 1920, onde viveu a boemia junto a grandes artistas da época. Durante a Guerra Civil Espanhola, foi para lá como correspondente. Suicidou-se com pouco mais de 60 anos.