“Os Imortais” nos transporta ao tempo das cavernas

O paleolítico descrito por Paulliny Tort em Os Imortais (Editora Fósfoto) é tão convincente que conseguimos ver, ouvir e sentir como se estivéssemos vivendo em um clã de neandertais em uma época na qual encontrar uma caverna para se abrigar era o maior dos sonhos e, em algumas circunstâncias, a única chance de sobrevivência. A autora brasiliense é tão convincente em suas descrições a ponto de acreditarmos que teve acesso a uma máquina do tempo e sabe exatamente o dia a dia desses humanos desaparecidos dos quais carregamos resquícios em nosso DNA. No romance, um clã neandertal vaga por algum lugar frio, localizado ao norte (não sabemos exatamente onde), em uma época na qual os grupos eram numerosos para alimentar e as grandes caças, principalmente cavalos, ficavam cada vez mais escassas. E começavam a encontrar estrangeiros vindos do sul, parecidos com eles, porém, mais altos e esguios, que competiam pelos abrigos e pela alimentação. Sabemos quem são esses estranhos. No mundo imaginado por Tort, a comunidade neandertal domina o fogo, cujo segredo é prerrogativa das mulheres, que também são as cozinheiras e curandeiras. Há ainda as mães (mas não existem pais), além dos fazedores e caçadores, que podem ser homens e mulheres. A comunicação é gestual e por um arremedo de linguagem. Os líderes são sempre dois: o Homem e a Mulher, chamados de guias. Os demais são denominados por características físicas: o pequeno, o esquilo. Mas cuidam de seus velhos e doentes, enterram e lamentam seus mortos. Sobretudo, têm pensamentos profundos e abstratos sobre a vida, a comunidade e a natureza. Quando encontram os sapiens, os neandertais manifestam atitudes ambíguas. Não os reconhecem como iguais, mas convivem com eles, chegando a criar a “menina” sapiens como um deles, mas sem nunca a integrar totalmente ao clã. Corpos de sapiens mortos são jogados fora, mas não os comem, mesmo estando passando fome. Embora os neandertais fossem mais fortes e parrudos, a imaginação de Paulliny Tort faz algumas suposições sobre porque os sapiens sobrevivem e os neandertais não. Ser esguio é uma vantagem, assim como ter uma linguagem mais desenvolvida, ser mais onívoro e depender menos de caça, saber fazer fogo mais facilmente, ter melhores armas, ferramentas e aptidão para encontrar comida, além de saber pintar e contar com maiores conhecimentos médicos, como usar o fogo para cicatrizar feridas. A maior vantagem, porém, deixo para quem ler o livro. Tudo na história é tão real, que durante a leitura sonhei várias noites ser parte daquele clã. Pesquisando um pouco, acho difícil acreditar que a maior parte das descrições são fruto apenas da imaginação da autora. Mas não há, por enquanto, como sabermos exatamente como os humanos, seja quais forem, viviam na época das cavernas. Atualmente já se sabe, por exemplo, que os neandertais pintavam e produziam manifestações artísticas há 64 mil anos. Estudos genéticos e fósseis indicam que os primeiros encontros e cruzamentos entre as duas espécies de humanos ocorreram há cerca de 100.000 a 120.000 anos, possivelmente na região do Oriente Médio e costa oeste da Ásia, antes de grandes migrações posteriores. É uma aventura muito antiga, e devem ter ocorrido muitas reviravoltas, sobre as quais nunca saberemos. Que delícia contarmos agora com a literatura como máquina do tempo para nos guiar. [Veja este e outros artigos em https://sler.com.br/os-imortais-nos-transporta-ao-tempo-das-cavernas/]
Violência como padrão familiar em O Aniversário

Nem todas as famílias são violentas, mas é praticamente impossível viver sob o patriarcado e não se identificar, pelos menos um pouquinho, com O Aniversário, do italiano Andrea Bajani (Companhia das Letras). Começamos a leitura sabendo que faz dez anos que o narrador mudou de telefone, endereço e continente para se afastar do pai e da mãe. E não se arrepende, avisa que sua vida melhorou muito. Bajani subverte a famosa frase de Tostoi – “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” – ao mostrar como a violência doméstica pode tornar igualmente infelizes todos os membros de uma família, cada um à sua maneira. Em seu relato, o qual não sabemos o quanto é ficção, ninguém tem nome, apenas um lugar na rede de relações: meu pai, minha mãe, minha irmã, a mãe da minha mãe, a mãe do meu pai, a amiga da minha mãe. Na linha dos romances sociológicos, ao modo Annie Ernaux e Édouard Louis, Bajani expõe como cada personagem assume seu papel na estrutura familiar: o pai provedor e controlador, que conduz a família na base do terror psicológico, a mãe dona de casa submissa e sem voz, a filha contestadora e o filho cúmplice, levado pelo medo e comodidade. A violência, mesmo sem ser física na maior parte das vezes nem estar presente a todo momento, é o fator determinante na vida dos personagens. Todos são algozes e vítimas. Mesmo com doses diferentes de culpa, não existe absolvição para ninguém. Em vários momentos, vi minha própria família sendo descrita e me enxerguei em mais de um papel. Fiquei me perguntando quantas vezes tive vontade de fazer como o narrador do livro e fugir de tudo, mas acabei capitulando, como o personagem faz diversas vezes antes do rompimento radical, ao passar por cima, digerir cobranças, mudar de assunto, fingir que o acontecido não aconteceu. Durante a leitura, me perguntei várias vezes, ainda, se, mesmo tentando ser diferente, em algum momento não reproduzi a mesma estrutura da família em que cresci, na que construí. Afinal, fazemos todos parte de uma engrenagem fabricada ao longo de muitas gerações. E, se há muita gente buscando modos alternativos de conviver, existe um exército à espreita montado para manter e recuperar seu poder. {Artigo publicado em: https://sler.com.br/violencia-como-padrao-familiar-em-o-aniversario/]
Bombardeios reais por redes sociais

Participei neste final de semana, pela segunda vez, do Festival Piauí de Jornalismo, um evento para jornalistas e para quem gosta de jornalismo. Com o tema No Olho do Furacão – diretores de redação em tempos de tormenta, passaram por lá convidados de quatro continentes. Em comum, relatos de perseguições, guerras, exílios e persistência, em um tempo no qual a extrema-direita avança em todo o mundo (apenas 80 anos passados da Segunda Guerra Mundial, com nazismo, holocausto e bomba atômica) e a verdade se tornou uma questão de opinião pessoal. Diretores de redações de veículos da Venezuela e El Salvador, Luz Mely Reyer (Efecto Cocuyo) e Carlos Dada (El Faro), forçados a deixar seus países, contaram como fazem para continuar mantendo seus veículos em funcionamento. A ucraniana Olga Fudenko, do Kyiv Independent, falou sobre o dia a dia dos jornalistas de seu país trabalhando em plena guerra. Entre estes e outros depoimentos, me tocou muito a do estadunidense Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic. Mesmo que essa história tenha repercutido muito na época, março de 2025, lembrar disso há poucas semanas das nossas eleições me deixou desanimada com o futuro da democracia. Para quem não lembra, o editor-chefe da revista The Atlantic foi incluído por engano em um grupo de bate-papo no aplicativo criptografado Signal (um tipo de WhatsApp mais difícil de rastrear) por altos funcionários do governo de Donald Trump. Alguém que o jornalista diz não saber quem foi adicionou acidentalmente o número de Goldberg a um grupo restrito que incluía autoridades de alto escalão, como o vice-presidente J.D. Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Defesa Pete Hegseth. O grupo discutia detalhes operacionais, alvos e o cronograma de ataques militares iminentes dos Estados Unidos contra os rebeldes houthis no Iêmen. O fato era tão surreal que Goldberg achou que era uma armadilha e acompanhou a troca de mensagens em tempo real por cerca de 15 dias até que, em um sábado de manhã, chegando ao supermercado, leu no grupo que os ataques começariam em duas horas. Os participantes comemoravam com muitos emojis de força, corações e bombas. Duas horas depois, quando o Iêmen foi efetivamente atacado, teve certeza de que o grupo era real. Saber que um bombardeio, que implica na morte de pessoas, é discutido em uma rede social já é bizarro o suficiente. O fato de alguém ser incluído “por engano”, colocando em risco também os soldados do próprio país invasor, demonstra um desprezo pelas vidas de seus próprios conterrâneos. Mas não ter acontecido nada após a divulgação do fato na imprensa me deixa estarrecida. Parece causo de filme satírico, mas aconteceu na maior potência militar do mundo, cujo hobby do presidente é ameaçar qualquer país que não faça exatamente o que ele quer. Pior, muita gente está achando bom.
Caminhar como prazer e propósito

Tudo começou quando ganhei um reloginho chinês que conta os passos diários. Inseri meus dados e ele me disse que, segundo meu peso e idade, precisava caminhar 6 mil passos por dia. Só faltou complementar: “isso é só para te manter viva”, pois na mesma mensagem de instrução ressaltou que, se quisesse me exercitar, o ideal deveria ser mais de 7.500 passos diários. Num primeiro momento, pareceu uma meta fácil de ser cumprida. Corresponde a distâncias de 3,9 e 5,5 km, respectivamente. Além disso, os especialistas parecem, no geral, concordar com meu relógio chinês. Só para não sair morrendo por aí, deveríamos andar entre 4 e 5 mil passos por dia. Caminhar entre 7 mil e 10 mil passos, porém, maximiza a proteção cardiovascular, controla a glicose e combate os malefícios de passar muito tempo sentada. É nesta última parte que mora o problema. Em um dia normal, trabalhando em casa e sentada em frente ao computador, é impossível cumprir até meu objetivo mínimo, mesmo fazendo meia hora de esteira na academia. O relógio não está nem aí se faço musculação, pilates ou qualquer outro exercício. Passei, então, a incluir caminhadas “artificialmente” em minha rotina sempre que possível, por exemplo, indo a pé a lugares onde normalmente iria de carro ou de metrô, ou dando voltas pelo bairro flanando. Mesmo com o tempo mais livre que tenho atualmente, ainda assim é difícil cumprir meu propósito. Mas tomei gosto pela coisa. Tanto que me inscrevi para uma caminhada de longa distância. Junto com um grupo de nove mulheres, percorreremos neste mês de setembro, em quinze dias, os 300 quilômetros do Caminho Cora Coralina, em Goiás. (Veja o artigo completo em: https://sler.com.br/caminhar-como-prazer-e-proposito/)
Minhas leituras: Oração para Desaparecer

Em Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli, uma mulher é desenterrada viva em Portugal, usando apenas um colar de búzios. A única coisa que sabemos sobre ela é que fala português com sotaque brasileiro. Batizada de Cida nessa nova vida, a personagem busca reconstruir sua trajetória a partir da nova realidade. O romance foi o livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL), no final de agosto. Indicação da anfitriã, Marli, foi sob medida para voltarmos ao tema recomeços, que tem mobilizado nosso grupo, a partir de mudanças de casa, recuperação da saúde, desapegos, amadurecimento. Somos uma geração sempre em reconstrução. Nascemos em um mundo no qual ter uma TV em preto e branco em casa ainda era luxo e as mulheres começavam a desbravar a universidade e o mercado de trabalho por opção. Vivemos ondas de mudanças tecnológicas e de comportamentos para chegarmos inteiras na fase das redes sociais e da Inteligência Artificial. Para nós, falar de ancestralidade e identidade, com ou sem realismo mágico, é sempre pertinente. Mais do que discutir um livro, procuramos no CFL, vivenciar a experiência da leitura. Assim, Marli nos provocou a imaginar estarmos no lugar de Cida e pensarmos em único objeto que, como o colar de conchas, poderia nos identificar e fazer-nos lembrar de quem somos. A ideia era trazer ou usar a peça e conversarmos sobre como ela nos conecta às nossas raízes. Levei uma caneta decorada com cristais que ganhei há anos dos meus filhos no Dia da Mães e está sempre comigo. Acredito que o amor pelos meus filhos e pela escrita me representa bem. Este foi o segundo livro da Socorro Acioli que lemos no grupo, e o que mais gostei. A autora mantém o mundo mágico de A Cabeça do Santo e uma trama bem amarrada que nos faz viajar por três continentes e por tempos distintos, mantendo vínculos com acontecimentos reais no Nordeste brasileiro e fictícios de outras obras. Na história, Jorge, marido da protagonista, vai a Angola procurar o icônico personagem Félix Ventura, do escritor José Eduardo Agualusa, no livro O Vendedor de Passados, para encomendar a ele um passado inventado e coerente para Cida. Afinal, passado a gente lembra, descobre, cria e recria a todo momento.
Toda vida importa apenas na série da TV

Descobri recentemente Hospital New Amsterdam: Toda Vida Importa, na Netflix. E viciei. Na série, o diretor médico do hospital é Max Goodwin, interpretado pelo ator Ryan Eggold, e seu bordão é uma ode à humanidade que deveríamos todos trazer como mantra: Como posso ajudar? Desde que chega ao hospital, doutor Max busca formar uma equipe de excelência focada nos interesses dos pacientes e desburocratizar o atendimento médico, mesmo lutando contra o sistema que mantém o hospital. Pelo que entendi, é um hospital de caridade, parecido com as santas casas brasileiras antes do SUS. Ou seja, diretor e equipe dependem da boa vontade dos doadores para implantar suas políticas. E todo dia (ou episódio) é uma luta. Em um dos últimos capítulos a que assisti, doutor Max está indignado com o preço da insulina, que faz diabéticos voltarem sempre ao hospital porque não têm dinheiro para comprar o remédio. Ele tenta, sem sucesso, fabricar insulina ou importar do Canadá (onde custa um quinto do que nos Estados Unidos), mas os laboratórios vencem. Tudo o que fez só resultou em um laboratório fornecer insulina vitaliciamente a uma de suas pacientes. Desanimado, ele questiona por que sempre há dinheiro para armas e até para coisas importantes como educação pública em seu país, mas não para saúde. No Brasil, remédios de uso contínuo como insulina são fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Veja o artigo completo em https://sler.com.br/toda-vida-importa-apenas-na-tv/
Miró exibe poesia em exposição na FAAP

Sou fã de Joan Miró desde adolescente. Quando tive contato com sua obra não entendia nada de arte e continuo sabendo muito pouco, mas as obras do pintor catalão me trazem uma alegria indizível. Visitei a Fundação Joan Miró em Barcelona e foi uma das melhores experiências que tive na vida. Trouxe uma serigrafia de lá, que está em meu terraço. Se fosse milionária, um quadro dele seria meu primeiro investimento. Sendo assim, não perderia por nada a exposição Miró: Mestre das Formas, no Museu de Arte Brasileira FAAP, cujo destaque são as tapeçarias, um lado do artista que nunca tinha visto. É uma mostra bastante representativa do trabalho de Miró, porém, o que me encantou mais e, se pudesse, ficaria admirando todos os dias, são suas pinturas de cores vibrantes e um jeito de desenho de criança, mas que hipnotizam ao retratar quase sempre pássaros, mulheres e estrelas. E, mesmo que nem sempre sejam facilmente identificadas, essas figuras parecem conversar com a gente. Para quem for à exposição, vale muito a pena assistir ao filme exibido ao final da mostra, que aborda o processo criativo de Miró, como foi criando as poucas figuras que marcam seu trabalho e fazem que qualquer um reconheça imediatamente uma obra sua. O documentário apresenta, ainda, a relação do artista com a poesia e acho que descobri aí minha atração por seus quadros: vejo seus desenhos como poemas. Uma fala de Miró a Pierre Matisse, em 1936, afixada na exposição, resume essa simbiose: “Sinto-me atraído por uma força magnética em direção a um objeto, e então sinto-me levado em direção a outro objeto, que adiciono ao primeiro, e a combinação deles cria um choque poético – para não falar do impacto físico formal original, que deixa a poesia realmente tocante. Sem ele, a obra não teria efeito”. Substitua “objeto” por “palavra” nesta fala e temos um poeta trabalhando. Alguns títulos de seus quadros remetem à beleza e ao contentamento que me transmitem, como o meu preferido nesta mostra: “Pássaros ao redor da estrela da esperança”. Lindo demais!
Minhas leituras: Poemas para brincar nas quatro estações

imenso céu azul de repete – movimento – voa a borboleta Nunca tentei fazer haicai e a definição acima é de Yara Fers, na Apresentação do livro Poemas para Brincar nas Quatro Estações, de Francine Cruz, autora do texto que abre este artigo. Descobri esta obra durante a Flip, em Paraty, e continuo encantada com a beleza dos poemas, das ilustrações de Débora Bacchi e a delicadeza das páginas costuradas à mão, marca das publicações da Editora Arpillera, de Camaçari. Só descobri o que é haicai com meus filhos, quando aprenderam na escola. Me encantei pela (aparente) simplicidade dessa poesia curta, nascida em meados do século 17, no Japão. O haicai tradicional, ou kaiku, é composto de três versos, sendo o primeiro com cinco sílabas poéticas, o segundo com sete e o terceiro com cinco. É um poema minimalista, geralmente sem título e sem rimas. O livro traz, ainda, colagens de flores e folhas secas na capa e representando as estações do ano. Isso faz cada exemplar ser único, por isso, numerado. O meu é o 293. É uma obra de arte para ser admirada e exposta com cuidado. Tem cara de presente bem dado. E os poemas para brincar – na primavera, no verão, no outono e no inverso – remetem a alegria e encantamento. Dá para ler em uma sentada, mas fica muito melhor se for apreciado aos poucos, cada verso, cada colagem, cada ilustração, acompanhando as mudanças de estação.
Mostra remete a ruínas metamorfoseadas

Passados dois anos da grande inundação que assolou Porto Alegre, as marcas da tragédia continuam presentes, se não nas ruas e construções, no imaginário traumatizado de sua população. É difícil, para quem vem de fora como eu, conversar com alguém sem que o tema não seja mencionado. Impossível passear pela orla do Guaíba, como fiz alguns dias atrás, sem pensar na vulnerabilidade de uma metrópole rodeada de águas lentas e praticamente ao nível do mar quando as mudanças climáticas entram porta adentro de nossas vidas sem pedir licença. Senti um certo aperto no peito enquanto ia em direção ao Centro Histórico ao lembrar que um El Niño foi o causador das chuvas de 2024 e agora o mesmo fenômeno (e, como dizem, super) volta a se formar com possibilidade de enchentes e inundações no Sul do país. É muito pouco tempo para que as pessoas suportem um novo desastre climático. Meu destino naquele dia era a abertura da exposição 2016-2026 da artista plástica Ana Norogrando, no Museu de Arte do Paço (antigo prédio da Prefeitura). A mostra é formada por um conjunto de esculturas e audiovisuais de extremo impacto ao remeter a ruínas, de corpos e coisas unidas em objetos metamorfoseados que parecem ter vida própria. São fragmentos corporais, membros isolados, próteses, estrutura mecânicas, objetos encontrados, partes industriais e dispositivos tecnológicos rearranjados como ao final de uma tragédia que os carregou e obrigou a se fundirem em uma nova realidade. Vemos um mundo pós-pandêmico e pós-enchente em seu trabalho. Um mundo feito de cacos que tentamos dar forma e sentido. (Veja artigo completo em sler.com.br)
Descobrindo cantinhos em Porto Alegre

O Centro Histórico, por questões familiares, sempre foi meu reduto em Porto Alegre, cidade que há quase 40 anos carrego como parte do meu nome. De uns tempos para cá, no entanto, passei a ficar no Moinhos e Vento, bairro cheio de boas surpresas para uma caminhante. Em primeiro lugar por sua topografia alta, mas suave, um comércio variado e charmoso, os restaurantes balados e o Parcão, o Parque Moinhos de Vento, que não é tão grande assim, mas tem espaço suficiente para um respiro e exercícios. Alguns quarteirões à frente, o Jardim do DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto) é um refúgio tranquilo que acabei de descobrir. Uma pequena área verde aberta ao público, cheio de cantinhos para se sentar e descansar, quem sabe ler um livro. Daqueles locais privilegiados que todos os moradores das cidades deveriam ter, mas sabemos raros nas nossas grandes cidades. O local abriga também uma Galeria de Arte, com acervo de mais de duzentas obras doadas, que podem ser apreciadas de segunda a sexta-feira (exceto feriados), das 8h às 17h30, com entrada franca. O Jardim abriga, ainda, o monumento público mais antigo de Porto Alegre: quatro estátuas que representam os afluentes do Guaíba. As esculturas, em mármore de Carrara, foram idealizadas pelo arquiteto italiano José Obino e instaladas na Capital em 1866. São duas figuras femininas, as Ninfas, que simbolizam os rios Caí e Sinos, e duas masculinas, os Netunos, que representam os rios Jacuí e Gravataí.