Em busca dos caminhos do escritor

O prazer da leitura pode vir de vários lugares. Pode ser o gênero literário, a linguagem do autor, o tema em si. O leitor não precisa saber de onde vem sua identificação com o livro, assim como um quadro pode emocionar sem que se conheça as técnicas ou o movimento artístico a que pertence. Ter noções sobre os métodos artísticos, processos criativos e história da arte, porém, pode enriquecer a experiência. Na literatura, é a mesma coisa. Novo artigo no Sler: Em busca dos caminhos do escritor – Maura Campanili
As cores como experiência

Estive nesta semana, pela primeira vez, no Espaço Cultural Rudolf Steiner, sede da Sociedade Antroposófica no Brasil. Fica em Santo Amaro, em uma região com várias referências desta filosofia criada pelo austríaco Rudolf Steiner no início do século 20, com escola, farmácia e restaurante baseados em princípios antroposóficos na redondeza, além de várias casas com estilo alemão. O espaço cultural tem, ainda, uma biblioteca dedicada ao tema. Por tudo isso, um lugar bacana para se visitar em São Paulo. Fui visitar a exposição de pinturas Véus que Revelam – Experiência entre Luz, Escuridão e Cor, da qual minha amiga Rhauna Damous participa. A mostra, que vai até 7 de outubro, traz dez artistas da Academia de Pintura Hubertus, idealizada por Virgínia Xiol e fruto de um coletivo de estudo, pesquisa e prática da metodologia de Luz, Escuridão e Cor, criada por Liane Collot d’Herbois. Segundo me explicou Rhauna, como todas as atividades que envolvem a antroposofia, esta metodologia vê as cores como seres espirituais com capacidade de nos influenciar diretamente. Fundada durante a pandemia de covid, a Academia reúne um grupo de mulheres movidas pelo desejo de realizar, por meio da pintura, um movimento de fortalecimento interior. A exposição tem como centro os véus de cor e a maneira como dialogam entre si. A ideia é explorar como a luz emerge na escuridão e trazer atmosferas, sentimentos e lembranças despertadas por cada obra, um convite para viver uma experiência em que a cor fala antes das palavras. Tenho pouco contato com a antroposofia; o que sei vem do Programa Germinar, que fiz em 2022. Tirando alguns enfoques um tanto eurocêntricos e religiosos demais, gosto muito deste movimento inicialmente chamado de “ciência do espírito” por Steiner, como uma tentativa de unir a rigidez do método científico à busca espiritual, sem ser uma religião dogmática. A antroposofia desenvolveu práticas para diferentes áreas que movimenta uma legião de seguidores ao redor do mundo, como a arquitetura, medicina e farmácia antroposóficas, educação Waldorf e, o que mais gosto, a agricultura biodinâmica.
Minhas leituras: Canção para ninar menino grande

Apesar de ser o personagem principal, Fio Jasmin, o menino grande de Conceição Evaristo, não é o protagonista desta escrevivência da autora. Em Canção para Ninar Menino Grande, as mulheres seduzidas pelo ferroviário em suas andanças são as figuras centrais. O livro foi o tema da reunião de julho do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um encontro regado a boas novas em nosso grupo, ligadas a saúde, mudanças e desafios. Cada uma de nós com suas características e questões pessoais, assim como as amantes do homem bonito e sedutor, mas imaturo emocionalmente, que parece não superar ter sido preterido, por ser negro, para o papel de príncipe na escola. Sem se preocupar com os sentimentos das mulheres que encontrava ou com as consequências de seus casos, inclusive filhos, Fio Jasmim exala seu perfume e fia a teia de histórias de várias mulheres, a maior parte fortes e fazedoras de seus destinos; algumas, vítimas de expectativas não realizadas. A autora/narradora nos conta as aventuras de Fio e suas mulheres a partir de histórias que ouviu, mas principalmente de uma delas, Tina, compositora da canção que dá nome ao livro, que passou grande parte da vida a amar e esperar por ele. A anfitriã Wal nos levou a viajar pelas cidadezinhas e comidas mineiras enquanto nos instigou a pensar no que deixaríamos na estação ferroviária e o que levaríamos conosco no trem da vida. Desenhamos enquanto desenrolamos os fios de nossas próprias histórias. Nos tornamos Pérola Maria, Juventina, Dolores, Antonieta, Angelina, cada uma com suas paixões, desilusões e sonhos. Somos fruto do patriarcado e sofremos seus reflexos, querendo ou não ninar meninos grandes.
Minhas leituras: Mafalda – nesta família não há chefes

Adoro quadrinhos. E adoro a Mafalda. Na Feira do Livro em junho passado, a editora WMF Martins Fontes resolveu homenagear a personagem símbolo do cartunista argentino Quino e muita gente aproveitou para tirar uma foto ao lado de simpática e ácida menina, inclusive eu. Me entusiasmei e aproveitei para comprar uma das seleções de tirinhas da protagonista: Mafalda – nesta família não há chefes. A edição conta com apresentação da psicanalista e escritora Vera Iaconelli. Produzidas nos anos 1960, as tirinhas conseguem manter o humor e até a atualidade apesar do anacronismo de muitas situações, como a mãe dona de casa de Mafalda e os pais de seus amiguinhos que poderiam hoje ser denunciados por bater e humilhar seus rebentos. Para quem é quase contemporânea da personagem, porém, é impossível não se identificar com as situações apresentadas. Apesar dos papeis muito definidos, como diz o título do livro, na casa de Mafalda não há chefes e é divertido ver seus pais lidar com as observações adultas e irônicas de sua filha e, na segunda metade, do filho bebê. A pertinência das observações de mundo de Mafalda, muitas vezes metafóricas, como sua preocupação com o Globo Terrestre de enfeite enquanto saem de férias, podem hoje ser acompanhadas nas redes sociais, o que é um privilégio em tempos de doutrinação conservadora, hoje mais explicitada. Há uns dez anos, visitei a famosa livraria El Ateneo Grand Splendid, em Buenos Aires, e perguntei onde poderia encontrar os livros da Mafalda, achando que deveria haver uma sessão inteira para ela. O vendedor me olhou ainda na fase exploratória como se não soubesse sobre o que eu estava falando e disse que não tinha nada. Não me convenci e encontrei, na sessão de quadrinhos infantis, apenas um título da personagem mais famosa do país. Será que na Argentina de agora seria mais fácil encontrar?
Deixei a Flip me levar. E aproveitei!

Um lema para mim e meu marido é ir à Flip de “sangue doce”, ou seja, deixar que as coisas cheguem até nós sem nos preocuparmos em bater recordes de eventos ou celebridades vistas. Isso nos deixa fora dos tititis em filas (como o conflito no evento superlotado com Carmen Lúcia e Conceição Evaristo no Canal Amado Mundo) e da quase gamificação de quem conseguiu ir ou ser convidado para o quê. Acredito que a maior parte das pessoas que estavam lá tem o mesmo princípio e, assim, se diverte e ainda sai renovada de tanta coisa boa que encontrou. Nesta edição, pela primeira vez, compramos algumas mesas da programação oficial. Mesmo que não tenhamos conseguido nenhuma das que havíamos previamente selecionado, acabamos conhecendo novos autores e aumentando nossa pilha de livros “imprescindíveis”. Os poetas Edimilson de Almeida Pereira e José Tolentino de Mendonça, este último cardeal português que foi responsável pela Biblioteca do Vaticano, estão nessa lista. Acostumada a uma relação de estranheza com a poesia, Mendonça me ganhou ao dizer que a poesia serve para profanar o silêncio e libertar a palavra do utilitarismo. Muito erudito, defendeu o espanto de estar vivo e que estar triste é colaborar com o final. Falando a partir de experiências com populações afrodescendentes, Pereira é menos otimista em seu trabalho, pois fala de sofrimentos ainda não resolvidos. Na mesa cujo tema era território, vimos o mesmo dilema. Enquanto o arquiteto paraguaio Solano Benitez esbanjou simpatia e falou da importância de se buscar uma vida extraordinária, o escritor e crítico brasileiro José Godoy, lembrou da dificuldade dessa busca em um país mestiço e com o mundo ficando pior. Nos dois casos, tendo a concordar com os brasileiros, embora um pouco de otimismo não faça mal a ninguém. De qualquer maneira, a beleza da literatura é nos fazer viver os dois tipos de experiências. Godoy contou sobre suas motivações e aventuras para escrever A ilha do silêncio: terror e genocídio na terra do fogo, que aborda a história da ilha Dawson, no Chile, palco de confinamentos de indígenas e presos políticos em diferentes momentos. Os escritores ucranianos Maria Reva, que vive no Canadá, e Andrei Kurkov relataram suas experiências com a guerra iniciada em 2022 e como ela influencia suas vidas e escritas. Quando a realidade é mais surreal do que a ficção, ela precisa ser incorporada à narrativa, mostraram os dois. Voltando à poesia, o resgate da poetisa Orides Fontela foi mais um ponto alto nesta edição. Passamos tempo lendo a autora lá mesmo. Assim como a participação de destaque da angolana Ana Paula Tavares, a “menina teimosa”, como dizia sua família para não reconhecer seu ativismo ao se recusar a deixar Angola antes da independência de Portugal como o restante dos parentes. As dores coloniais, sobretudo das mulheres, emocionam na obra da ganhadora do Prêmio Camões. Mas as andanças na Flip são feitas também de sorte e filas. A sorte foi conseguirmos ver Angela Davis, sábado, no Sesc. Os 700 ingressos gratuitos foram disponibilizados às 11 horas de sexta-feira em uma plataforma (e acho que todo mundo tentou entrar): ficamos entre os felizardos que conseguiram. Entrevistada pela jornalista Flávia Oliveira, da Globonews, a filósofa e ativista estadunidense mostrou conhecimento e amor pelo Brasil e os brasileiros. Celebrou a partir do roteiro da entrevistadora o legado de pensadores e ativistas brasileiros, como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Milton Santos e Marielle Franco; defendeu jornadas menores na era dos trilionários; denunciou a gentrificação e o racismo ambiental que afetam terras ancestrais e comunidades pobres em Paraty, as quais visitou; alertou sobre o avanço autoritário global; e reforçou a necessidade de se pensar em soluções para substituir o capitalismo. Me emocionei. Ficamos mais de uma hora na fila para acompanhar Jamil Chade e Marcelo Freixo defenderem a democracia. Para ver Drauzio Varella na Casa Folha, nos levantamos mais cedo para conseguir senha e ficamos uma hora e meia na fila para assisti-lo falar sobre sua carreira como médico e escritor, e defender o SUS com unhas e dentes. Não dá para não se apaixonar por este doutor!
Campeão de vendas

Passando pela Livraria das Marés durante a Flip, fiquei feliz em ver meu livro Paraty & Ilha Grande – Cultura e Biodiversidade (com Andrey Rosenthal Schlee e Andrey de Aspiazu Schlee, Quereres Edições) em destaque. Resolvi tirar uma foto e a vendedora Carina, ao saber que eu era uma das autoras, me abraçou e disse que o livro era o campeão de vendas na livraria. Contou que tinham encomendado o dobro do normal para a Flip, mas só restavam os dois na estante. Passei por lá no dia seguinte, e já havia terminado. Participei deste projeto a convite do organizador Luiz Prado e escrevi sobre a biodiversidade e as populações da região, que engloba principalmente Paraty e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, mas inclui porções de Ubatuba, Cunha, São José do Barreiro e Areais, em São Paulo. O livro, que traz fotos maravilhosas, todas de fotógrafos locais, mostra o reconhecimento de Paraty e Ilha Grande como o primeiro sítio misto da América do Sul e do Caribe a ser reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. Isso significa que estão incluídas, além da arquitetura da cidade histórica de Paraty, as populações tradicionais de diferentes etnias e a área natural de Mata Atlântica preservada com sua rica biodiversidade. Isto é muito e é único. Viajar para Paraty significa imergir aos poucos neste lugar especial formado pela natureza e pela presença humana. Para chegar, temos que passar por parques que invadem a estrada, formando túneis arbóreos que nos recebem como um portal. Durante a Flip, em especial, um portal para um mundo mágico, feito de literatura, encontros, debates e artes.
A Flip é um acontecimento

Estar na Festa Literária de Paraty, que será aberta nesta quarta-feira (22/7) e vai até domingo (26/7) é um privilégio não apenas para quem ama livros e literatura, quanto para quem gosta de agito, colecionar autógrafos e saber mais sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Autoridades, no bom sentido do termo, de todas as áreas estarão por aqui em uma multiplicidade de eventos de deixar qualquer um maluco na hora de escolher qual priorizar. Se começar a citar minha lista aqui, não termino mais. Claro que é preciso encarar horas de fila, mas costuma valer a pena. O único jeito de evitá-las é comprar com antecedência as mesas do evento principal, porém, além de caras, quando abrem para venda, os principais convidados já estão esgotados. Quem tem acesso a moradores de Paraty, que podem comprar antes, já adquiriram tudo. Cada um que lute com suas armas. Há sempre a possibilidade de assistir de graça no telão da praça, o que também é bacana e confortável, ou pelo Youtube, mas aí nem precisa ir a Paraty. O restante da programação acontece nas muitas casas parceiras, com entrada gratuita. Mesmo quem não gosta de pegar filas, pode encontrar eventos e discussões incríveis apenas passeando e entrando quando vir algo acontecendo. Sem falar na possibilidade de encontrar e conhecer pessoas interessantes em qualquer lugar. Durante a Flip, a hospedagem é cara, os restaurantes estão sempre lotados e estacionar o carro é uma aventura. Às vezes, até caminhar fica difícil, não apenas pelas pedras do calçamento, mas pela quantidade de gente. Para mim, tudo isso faz parte da festa. Que venha a maratona literária.
Minhas leituras: Eu, Claudius, Imperador

Incluído em listas dos melhores romances do século 20, Eu, Claudius, Imperador, do inglês Robert Graves, é imperdível para quem gosta de história, de política … e de sacanagem. Para os fãs de Game of Trones, este livro é um tesouro. Muita coisa que aparece na série e achamos inverossímil demais foi baseada na fictícia autobiografia do imperador romano Claudius, por sua vez, inspirada em relatos históricos. O livro nos leva ao período da dinastia Júlio-claudiana do Império Romano, desde o assassinato de Júlio César em 44 a.C. até o assassinato de Calígula em 41 d.C., passando pelos reinados de César Augusto e sua mulher vilã Lívia, ao sádico e rancoroso Tibério até o louco Calígula. Claudius, o patinho feio da família – se é que se pode chamar esse povo de família – era gago e cocho, por conta de paralisia infantil, e por isso marginalizado e tratado como imbecil pelos parentes. Deixado de escanteio, tem um lugar privilegiado para observar, com uma narrativa cheia de ironia, o comportamento da nobreza romana. Fofocas, crueldades das mais escabrosas, casamentos feitos e desfeitos pelas mais torpes razões, traições e assassinatos de todos os tipos, corrupção como estilo de vida. Não falta nada de sádico nesta história, onde o mais difícil é acompanhar a árvore genealógica onde não faltam filhos ilegítimos e incestos. Guerras, degredos, envenenamentos e homicídios, sentenciados ou não, tornam Claudius, tio de Calígula, o único disponível para assumir o trono, por ser o único adulto vivo da família. A narrativa de seu reinado é tema de um outro livro, Claudius, o Deus, o que já mostra que não deve ter sido muito diferente de seus antecessores nem de seu sucessor, ninguém menos do que Nero. Tirando os excessos do absolutismo que tornava os imperadores poderosos como deuses (eles mesmos se autoproclamavam assim), Eu, Claudius, Imperador, mostra que nossa sociedade e nossa política não mudaram tanto assim. Talvez tenhamos, pelo menos nesse interstício que vivemos, um pouco mais de mecanismos de controle para nossos governantes. Mas dá para perceber como a democracia (ou a República, como chamavam os romanos) é frágil.
Dia D me deu saudades de ET, O Extraterrestre

Sou uma consumidora voraz de ficção científica, seja em livros, filmes ou séries e estou sempre disposta a acreditar em quase tudo enquanto estou envolvida com a história. Mas Dia D (Disclosure Day), de Steven Spielberg, me irritou um pouco. A falta de verossimilhança e a supervalorização de si mesmos dos estadunidenses chegou a um nível extraterrestre, para ficar no tema do filme. O fato dos ETs acharem que somente os Estados Unidos são dignos da visita de seus Ovnis é um pouco ofensivo, mas entendo. Se eu fosse fazer um filme sobre o tema, tenderia a localizá-lo no Brasil. Em Varginha, talvez? Imaginar, no entanto, seres extraterrestres tão poderoso a ponto de viajarem distâncias inimagináveis, com tecnologia e superpoderes para enfiar conhecimento infinito na cabeça de criancinhas, obrigar outros seres a fazer o que eles querem, ler pensamentos e se transformarem em qualquer animal e, mesmo assim, serem feitos de gato e sapato pelo governo e por ong maléfica norte-americanos, a ponto de somente um conseguir sobreviver, é difícil de engolir. No filme de Spielberg há três tipos de seres com alguma inteligência relevante: os ETs, os estadunidenses malvados e os estadunidenses com boas intenções. O restante da humanidade é tão estúpido que precisa ser tutelado em tudo. Essa parte, aliás, é bem explicadinha: Jane, ex-freira namorada do mocinho, ao descobrir a existência dos extraterrestres fica desesperada porque todos os humanos, menos ela, vão entrar em parafuso ao saber que não estamos sozinhos no universo. Mas se acalma um pouco quando a madre superiora do convento que frequentou (minha xará, irmã Maura) explica pra ela que a Bíblia diz que os humanos são os maiorais na Terra, sem mencionar o resto do universo. Ufa!, podemos acreditar em ET e em Deus ao mesmo tempo. Doutrinas a parte, a história sobre o possível caos global após uma transmissão ao vivo na televisão revelar que a humanidade sempre esteve sendo visitada por inteligências extraterrestres tem inconsistências gritantes. A narrativa acompanha duas figuras centrais que recebem habilidades extraordinárias ao serem abus@das, ops, abduzidas pelos ETs quando crianças para futuramente revelar a verdade no Dia D (a tradução literal do título seria Dia da Revelação). O menino é Daniel Kellner, que não se lembra da infância, mas se descobre gênio da matemática na adolescência, se transforma em hacker, é preso e depois vai trabalhar na ONG que esconde as informações sobre a presença dos extraterrestres. Entre suas habilidades, está entender a língua do ET sobrevivente transformada em equação matemática. O problema é que o funcionário da ONG que raptou o ET sobrevivente para revelar ao mundo sua existência esperou cinco anos até a menina abduzida, repórter do tempo de uma emissora de TV, Margareth Fairchild, começar a ter experiências misteriosas: seu dom é ler pensamento e conhecer todos os humanos pelo nome. No entanto, não há nada de útil em esperar pela revelação dela, já que Daniel é quem se comunica com o ET. A única colaboração de Margareth é ser a apresentadora de televisão que faz a revelação ao público. Isso eu também poderia fazer. Se, para quem não viu o filme, deu para entender toda essa complicação, deixo aqui o spoiler final: não ficamos sabendo qual é a revelação, porque o ET cochicha para o hacker que cochicha para a apresentadora. Quando ela vai fazer a revelação na TV para o mundo, o filme acaba. Saudades de ET, O Extraterreste.
Minhas leituras: Suíte Tóquio

Desta vez, a anfitriã do Círculo Feminino de Leitura (CFL) fui eu e o livro indicado foi Suíte Tóquio, da Giovana Madalosso. O romance é contado, em capítulos alternados, pela babá Maju e sua patroa, a executiva Fernanda, enquanto a primeira sequestra Cora, a filha da segunda. Embora tenha um ritmo de thriller, o livro traz discussões sobre diferenças sociais e relações de classe, maternidade, desejos e liberdade femininos e seus limites. Daquelas histórias onde não há mocinhas e vilãs: não dá para justificar o sequestro de uma criança e também julgamos a mãe que prioriza tanto a carreira que não tem vergonha de admitir que negligencia a filha. Ainda por cima, para resolver seus problemas, destrói a vida da babá ao comprá-la, aproveitando-se de sua condição econômica, para trabalhar em regime praticamente de escravidão. Para a reunião do CFL, quis ressaltar a relação mãe-babá, situação vivida pela maior parte do nosso grupo. Somos todas mulheres de classe média e sempre presamos por nossas carreiras. E pudemos escolher ser ou não mães. Todas as que fizeram essa escolha, em algum momento, contamos com babás e empregadas para nos dar suporte. E tivemos nossos dramas internos por conta disso. Pensei em nos colocar do outro lado do balcão: pedi que minhas amigas viessem vestidas de babás e trouxessem suas “picochucas”, como Maju chamava carinhosamente a menina da qual tomava conta e acabou achando que poderia ser sua. Deixei avisado na portaria do prédio para encaminhá-las pela garagem e o elevador de serviço. Pendurei na porta da cozinha uma placa com os dizeres “Entrada para o Exército de Branco”, como Fernanda se referia às babás do bairro em que morava. Aliás, para os bons entendedores, a personagem vivia no “bairro diferenciado” de Higienópolis. Não vou dar spoiler sobre o nome do livro, mas se refere a mais uma das ironias da patroa em relação à sua funcionária. O romance também discute relações amorosas e como em nossa sociedade estão diretamente ligadas ao trabalho e ao dinheiro. E as expectativas contraditórias sobre quem deve cuidar de quem.