Minhas leituras: Voltar a quando

Lançado no final de 2025, quando a crise na Venezuela só fazia aumentar e seus desdobramentos atuais se anunciavam, Voltar a Quando, de María Elena Morán, escritora venezuelana radicada no Brasil, é uma grande oportunidade de conhecermos a dimensão humana da crise humanitária vivida em nosso país vizinho. No romance, ganhador do prêmio literário espanhol Café Gijón de Novela, acompanhamos Nina, cuja família era admiradora fervorosa de Hugo Chávez, ver todos os sonhos irem por água abaixo a partir da ascensão de Nicolás Maduro e a consolidação de uma ditadura na Venezuela. Ao mesmo tempo que o país desmorona, levando a população à extrema pobreza, vão junto o casamento de Nina e o mínimo de segurança que carregava, a partir da morte de seu pai. Desesperada, ela decide imigrar para o Brasil, deixando a filha aos cuidados da mãe em Maracaibo, a decadente e esvaziada cidade petroleira venezuelana, onde Morán também nasceu. Como boa literatura latino-americana, Voltar a Quando é escrito em várias vozes e traz aquele cadinho de realismo mágico do qual somos feitos, talvez a única forma de encarar realidades difíceis que se repetem incansavelmente desde que o continente foi invadido e colonizado. Além daquele frio na espinha recorrente de encarar o que regimes autoritários podem causar, sejam de direita ou esquerda, o romance causa o mal-estar pelo pouco que sabermos da realidade tão próxima do venezuelanos, tanto os que persistem no país quando os muitos que atravessam as fronteiras e estão aqui convivendo conosco, tentando se erguer e se recuperar dos traumas em nosso país. O mais legal, porém, é todas estas questões, apesar de fundamentais, serem coadjuvantes em uma história de amor e aventura, que passa por Venezuela, Brasil, México e Estados Unidos, sem nos deixar piscar.
Minhas leituras: De Onde Eles Vêm

Todo começo de ano, somos inundados com um festival de inutilidades, ignorância e até crimes ao vivo no Big Brother Brasil. Mesmo quem não assiste, como é o meu caso, é só abrir qualquer rede social e lá estão os comentários do dia. Nesta edição, já vimos desinformação rasgada sobre o Bolsa Família, homem expondo a esposa grávida e o mesmo sujeito cometendo crime de assédio sexual. Enquanto estava de férias, na semana passada, um outro assunto do BBB me chamou a atenção: duas integrantes conversavam sobre cotas raciais e, pelo que entendi, uma branca defendia as cotas, por conta de reparação histórica, e a outra, negra, dizia que brancos e negros têm a mesma capacidade de raciocínio e, presume-se, era contra as cotas. Confundir capacidade de raciocínio com passar no vestibular é, no mínimo, ingenuidade. Acontece que vi os comentários sobre este assunto enquanto terminava de ler De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras), de Jefferson Tenório, mesmo autor de O Avesso da Pele, um dos melhores romances brasileiros sobre o racismo estrutural no país, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. Neste outro romance, o autor volta ao tema, dessa vez sob a perspectiva justamente das cotas raciais na universidade. Seus personagens são pobres, periféricos, excluídos … e negros que tiveram acesso à universidade pelo sistema de cotas raciais. Acompanhamos especialmente Joaquim, jovem órfão, desempregado e responsável por cuidar da avó doente, tentando se manter no curso de Letras e se enquadrar na faculdade, enquanto falta dinheiro até para pegar o ônibus da cidade dormitório onde vive até Porto Alegre, onde estuda. O romance se passa em meados dos anos 2000, quando as cotas estavam ainda no início e os alunos beneficiados começavam a se organizar para criar uma rede de apoio e enfrentar os preconceitos. Lendo o livro de Tenório, fica claro como as cotas são necessárias, embora insuficientes, para acabar com a desigualdade absurda que vigora em todo o Brasil. No ano passado, estive em Porto Alegre para a formatura da minha sobrinha, na mesma Universidade Federal do Rio Grande do Sul que é cenário do livro. Foi a primeira vez que assisti a uma formatura onde havia paridade de alunos negros e brancos. Eram formandos de Psicologia e Serviço Social e me emocionei ao ver muitos deles dizer serem os primeiros da família a completar um curso superior e dedicarem seus diplomas a mães e pais que lutaram a vida toda sem conseguir ascender dos trabalhos da base da pirâmide aos quais grande parte da população negra é aprisionada. Viva as cotas!
Terra Dentro no parque

Algumas vidas são destinadas à tragédia. É esse o caso dos irmãos Rita, Mirna e Mosquito, de Terra Dentro, de Vanessa Vascouto, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Nesse pequeno romance (com menos de 100 páginas), feito para ser lido de um fôlego só, a autora dá voz aos três irmãos, que narram, cada um à sua maneira, a vida da família num pedaço de chão que não era deles e com a fatalidade como destino. Para conversar sobre a obra, ao mesmo tempo triste e bela, nos reunimos no Parque da Água Branca em uma tarde ensolarada, para um piquenique, no qual reverenciamos a rica linguagem presenteada por Vascouto, sempre poética, mas respeitosa das versões e personalidades de seus narradores, cada um se dirigindo a um interlocutor diferente. Na obra, acompanhamos como os acontecimentos impactam cada um dos irmãos de maneiras diferentes, suas reações e sentimentos. Impossível não ter empatia por cada um deles. É a história da Rita que amava o Maridinho, do Mosquito que amava a Rosa e da Mirna que escolheu não amar ninguém. História de amor e luto, inclusive por si mesmo e por quem não conta porque não veio. Luto vivido por Rita por meio dos cata-ventos que fazia: “Melhor cata-vento no lugar das flores que não morrem e são mais lindos. Da última vez, uma mulher veio falar comigo no cemitério, perguntar porque eu levava os cata-ventos e não as flores. Eu disse que era pra soprarem a alma do meu Maridinho mais pra longe pra ele não remorrer de desgosto naquele lugar”. A leveza dos cata-ventos também embalou nossas conversas no parque, um espaço coletivo feito para fruição, mas atualmente ameaçado pela sanha privatista dominante. Dóris, nossa membra vizinha do Água Branca e árdua defensora desta tradicional área verde paulistana, trouxe para a ocasião uma toalha-manifesto confeccionada para o grupo @amoraperdizes para lembrar a importância do lugar. Nós, que amamos os livros e a natureza, saímos revigoradas de lá.
Exposição retrata vida das pessoas por trás da crise hídrica

“A nossa seca está ofendendo muita gente”. “Se eu tivesse tido uma oportunidade ao longo da vida de ter um poço de água, eu teria até bens materiais”. Ao invés de encobrir, a beleza plástica das fotos de Érico Hiller torna mais impactantes as fotos da exposição Água, que o fotógrafo inaugurou nesta semana no MIS-SP. As frases acima ilustram algumas das mais de 30 imagens de pessoas lutando para sobreviver em situação de carência hídrica testemunhadas pelo artista nos últimos dez anos e revelam as histórias humanas por trás da crise da água que só faz aumentar diante das mudanças climáticas. A mostra conta com fotografias coloridas, feitas na Etiópia, Índia, Palestina, Jordânia, Bolívia, países onde a água aparece em sua dimensão universal — fonte de sobrevivência, beleza e contraste. Já na série em preto e branco captada no Brasil, o olhar se volta ao contexto nacional, ressaltando a força poética e crítica desse elemento em nossas paisagens e comunidades. Completando a experiência, uma sala exibe um vídeo de bastidores de cerca de sete minutos, que mergulha no processo criativo e nas vivências do fotógrafo durante a construção deste projeto. Mais do que um registro visual, a exposição convida o público a refletir sobre a urgência de preservar a água, compreendendo-a não apenas como recurso, mas como elo vital que sustenta toda a vida no planeta. Em uma semana em que o Congresso Nacional deu mais uma demonstração de desprezo pela vida de quem deveriam estar garantindo os direitos básicos, as fotos de Hiller deixam também um gosto é de revolta. Imaginar o retrocesso representado pela anulação aos vetos presidenciais que tentavam diminuir o impacto nefasto na legislação ambiental do país, é de doer o estômago. Não é demais repetir que a maior parte das consequências das mudanças climáticas – e o desmatamento é uma de suas grandes causas – chegam até nós por meio da água, seja por sua falta ou excesso causado por eventos extremos. Segundo Hiller, “Água é um minúsculo recorte do Brasil e do mundo nesta década quente dos anos 2020. A crise climática é o pano de fundo da cena planetária que, somada à má distribuição e ao uso indevido dos recursos naturais, torna a vida de milhões um verdadeiro calvário”. A exposição fica em cartaz até abril do próximo ano, aquele em que poderemos mudar o jogo de forças no Congresso, que tem nos levado ladeira abaixo.
A COP e a mudança para Marte

A crise climática tem ocupado maior espaço nas mídias e na boca do povo nestes dias de COP 30 acontecendo no Brasil. No noticiário, porém, o que prevalece são a presença de autoridades e celebridades, manifestações populares, perrengues relacionados à produção do evento e hospedagem de milhares de pessoas na cidade amazônica e discussões, na maior parte incompreensíveis, sobre acordos e promessas de financiamento. Fica uma sensação de que, ao invés de esclarecimento e adesão à causa, as pessoas acabam de bode do assunto. Isso acontece porque a conferência anual das partes (ou países signatários) da Convenção do Clima é um espaço para os representantes dos países retificarem coisas que foram negociadas ao longo do ano, enquanto ambientalistas e cientistas tentam dar visibilidade às pautas climáticas e lobistas do setor petroleiro vender a imagem de que são bacanas enquanto tentam melar tudo. Mesmo pra quem está acostumado a seguir o assunto rotineiramente, é muito difícil acompanhar para onde a banda vai tocar. Como meros mortais, sem poder de influenciar o que acontece em Belém, poderíamos aproveitar o ensejo para nos inteirarmos do tema e sabermos o que podemos fazer, no nosso dia a dia, para ajudar a conter a tragédia que se avizinha se deixarmos tudo apenas nas mãos do entourage da COP e dos negacionistas das mudanças climáticas. Uma boa fonte para tanto é o livro Mude ou Mude-se para Marte – Um empurrãozinho para uma vida com hábitos mais sustentáveis, da jornalista Giane Gatti, lançado no finalzinho do ano passado. O título entrega o que está dentro de forma bem-humorada. O mais bacana, porém, é a capacidade da autora de abordar temas tão indigestos com uma linguagem simples e deixar uma mensagem de esperança sem pieguismo, o que anda difícil ultimamente. Giane inicia seu relato narrando como tudo começou e como nos metemos nessa enrascada, contando como nós, os humanos, ocupamos e transformamos a Terra, sobretudo nos últimos 200 anos, a ponto de comprometermos nossa própria sobrevivência. Nos mostra como a maneira como comemos e consumimos é insustentável e vem provocando as três grandes crises do planeta: mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição. Além de dividir sua própria jornada para uma vida mais sustentável, Giane traz uma dimensão espiritual sobre o tema, abordagem incomum, mas necessária, numa época em que tudo é medido por dinheiro. “Meu desejo é mostrar, neste livro, como a contribuição de cada um é fundamental. Devemos assumir nosso papel de agentes transformadores. Não subestime sua capacidade de agir e acredite que dá para fazer diferente”, convida a autora. Às vésperas de um ano eleitoral, pensar em considerar estas questões antes de depositar nossos votos também é uma ótima pedida.
Livro de Lúcio Flavio Pinto será lançado em Belém durante a COP 30

Mesmo há algum tempo afastado do jornalismo, Lúcio Flavio Pinto continua a ser um dos maiores conhecedores da Amazônia, sobretudo de suas questões políticas e econômicas. Trabalhei com ele durante alguns anos na Agência Estado, no início dos anos 2000, onde ele publicava semanalmente artigos produzidos também para o seu Jornal Pessoal. Lúcio era perseguido judicialmente e recebia ameaças de morte o tempo todo, sobretudo de políticos e grileiros incomodados com sua audácia de expor fatos e análises certeiras sobre a região. Se apresentava como um amazônida, um cidadão da Amazônia. No próximo dia 18 de novembro, ainda durante a COP 30, será lançada a reedição de seu livro Memória de Santarém (904 páginas – Editora Letra Selvagem), que reúne crônicas e artigos publicados durante 25 anos no jornal o Estado do Tapajós (já extinto) e no portal www.oestadonet.com.br. Ambientado a partir de Santarém, o livro é uma fonte autêntica e segura de informações sobre acontecimentos que marcaram a região do Baixo Amazonas paraense durante dois séculos e que extrapolam essa região, revelando um conjunto impressionante de fatos e personagens. Por exemplo, o desmatamento e o extrativismo mineral, que produz riquezas sem melhoria expressiva das condições de vida das populações nativas. É uma publicação para quem quer conhecer a Amazônia a fundo e para colecionadores de grandes obras. Editado pelo jornalista Miguel Oliveira, um dos organizadores da reedição, juntamente com Nicodemos Sena, diretor da editora Letra Selvagem, o livro transita entre o jornalismo e a sociologia, e explica as razões da secular estagnação econômica, social e política da Amazônia, sempre a reboque dos interesses dos governos centrais, desde a Colônia até os dias de hoje. O lançamento será às 18 horas, no auditório do Ministério Público Federal (MPF), em Belém. O livro estará à venda na Amazon.
Temos Fome, Somos Loucas na Feira do Livro de Porto Alegre

A Feira do Livro de Porto Alegre é uma das mais antigas do Brasil. Sua primeira edição foi em 1955, idealizada pelo jornalista Say Marques, diretor-secretário do Diário de Notícias. Acompanho esse evento há mais de 40 anos, quando comecei a frequentar Porto Alegre, uma cidade da qual sou apaixonada e, desde que me casei, em 1986, carrego no nome: Maura Campanili Porto Alegre. Por isso, poder participar de uma mesa de bate-papo e ter uma sessão de autógrafos do meu livro Temos Fome, Somos Loucas no evento deste ano é motivo de alegria e bastante expectativa. Quero conversar sobre o Círculo Feminino de Leitura, o CFL, clube do livro do qual faço parte com outras mulheres há mais de 17 anos e me inspirou a contar nossa história de amizades, encontros, leituras e muitos brindes nesta obra publicada pela Editora Pitanga. Clubes do livro têm se espalhado no país como uma forma de incentivo à leitura e aos encontros, sejam eles presenciais ou virtuais. Nosso CFL é uma verdadeira festa mensal dos livros, na qual discutimos o título do mês e nos inspiramos nele para nos vestir, realizar atividades, preparar o cardápio e até decorar a casa. É uma verdadeira imersão mensal em mundos diferentes que, ao longo do tempo, influenciou a vida de mais de uma dezena de mulheres, hoje na tão propalada fase dos 50+. A 71ª Feira do Livro de Porto Alegre acontece de 31 de outubro a 16 de novembro, das 10 às 20 horas, na Praça da Alfândega, no Centro Histórico de Porto Alegre. Minha participação será na quarta-feira, 5 de novembro, a partir das 14h30, no Clube do Comércio (rua dos Andradas, 1085, 2º andar, em frente da praça principal do evento). Para completar, a patrona desta edição é a escritora portalegrense Martha Medeiros, autora da qual já lemos mais de um livro no nosso grupo. Abaixo, um trecho do capítulo Doidas e Santas (2010), de Temos Fome, Somos Loucas, na qual Medeiros é a protagonista: “Obras como Divã e Doidas e Santas, de Martha Medeiros, com suas crônicas conectadas com as experiências de mulheres da nossa geração, estavam entre as leituras com as quais nos identificávamos. Suas histórias e divagações sobre viagens, filhos, amores e trabalho pareciam escritas especialmente para nós. Todas tínhamos casos inspirados nos livros para contar e, muitas vezes, pouca disposição para ouvir. Era divertido, mas caótico.”
Clubes de leitura ganham atenção na mídia

Escrever sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), experiência compartilhada com um grupo de amigas há 17 anos, foi minha maneira de inspirar mais pessoas a se juntar em nome dos livros, do prazer de viver e, principalmente, da amizade. Desde então, tenho tido retornos mais do que maravilhosos, como esta matéria do Viva, um canal dedicado ao público 50+ que traz assuntos aprofundados para este público, do qual também faço parte. Abaixo, um trecho da reportagem Clubes de leitura se ramificam e ganham força com benefícios para saúde, na qual sou uma das entrevistadas: “A proliferação dos clubes do livro e de leitura pelo país ganharam fôlego desde a pandemia, em 2020, quando as pessoas se viram restritas ao lar e os meios de comunicação e formas de trabalho se reconfiguraram. É sabido que a leitura estimula o cérebro a se adaptar e criar novas conexões. Já os clubes, por conceito, são locais onde se realizam reuniões de caráter recreativo, cultural, artístico, social, entre outros. (…) A experiência de entrar para um grupo de leitura, iniciada há mais de 15 anos, foi tão marcante e trouxe tantos benefícios para a jornalista Maura Campanili que precisou ser contada em livro. Em ‘Temos fome, somos loucas’, publicado pela Editora Pitanga em agosto, a jornalista e escritora revela como o Círculo Feminino de Leitura (CFL), integrado por 11 mulheres 50+, se transformou em uma excelente receita para o bem-estar. Segundo ela, aos poucos os encontros literários foram se transformando em rituais de amizade, escuta e liberdade. “Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio jeito de nos reunir. Achávamos que o interesse poderia se perder com o tempo, mas aconteceu exatamente o contrário. Os encontros foram ganhando mais importância e profundidade”, explica. A experiência também revelou para a jornalista que ler em conjunto é muito mais do que trocar impressões sobre livros: é criar laços de confiança, resiliência e companheirismo. Ao longo do livro, Campanili relata como as leituras de A Menina da Montanha, de Tara Westover, ou Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, provocaram debates sobre identidade, extremismo e consumismo, assim como temas sociais e políticos que marcaram a vida brasileira nos últimos anos. De brinde, a autora ainda reúne uma lista com mais de 180 obras lidas pelo grupo e um guia prático para quem deseja criar seu próprio clube de leitura. Campanili afirma que ter esse grupo de amigas é libertador. “E, pelos livros, conseguimos também espaço para intimidade e reflexão. O resultado só pode ser bom”, conclui.”
Como é vestir-se de outros?

Transportar a experiência performática para a literatura é um desafio e tanto, mas foi encarado pela artista Beatriz Cruz no Projeto Desandar, uma coleção que traz para fotos e textos programas de performance que transitam entre os territórios do corpo e da linguagem. A obra, que lançou também a Editora Kipuka, nova aventura da Lili Almendary, também cofundadora da Taturama – Cinema de Impacto Social, vem em um caixa com três livros. O primeiro traz uma “Série de programas de performance para a cidade, o corpo e o fim do mundo” e surge da experiência com práticas de deriva urbana, de errar pela cidade, de andar sem um rumo ou objetivo a priori. E dá uma noção do olhar de Beatriz e como a performer usa o corpo em sua arte. O segundo livro é o audacioso “Uma ode à siririca e ao orgasmo autogestionado como resistência ao patriarcado”. Mais não falo, apenas recomendo que leiam sozinhas, de preferência em casa… “Notas sobre 365 dias vestida de outras pessoas”, o terceiro livro, me acompanhou por uma semana inteira de viagem imaginária. Nele, Beatriz relata, quase como um diário repleto de fotos, sua experiência de vestir-se exclusivamente com roupas emprestadas, a cada semana por uma pessoa diferente, durante um ano. Algumas delas quiseram usar as roupas da artista durante a participação. Nessa aventura, que chamou de “Descaracterizar-se”, Beatriz vestiu roupas de pessoas de todo tipo: mulheres e homens cis e pessoas não binárias. Usou até roupa de travesti. A cada semana, recebia uma mala preparada por alguém com trajes para todas as ocasiões (dormir, ficar em casa, trabalhar, passear), algumas com instruções bem precisas sobre a montagem dos trajes. Podia passar uma semana parecendo uma senhorinha, como quando pegou as roupas de sua avó, e na semana seguinte sair como um garoto grunge, com bermudões surrados e camisetas rasgadas ou com motivos rock and roll. Mudou o cabelo, pintou e cortou os cabelos, usou assessórios, pintou as unhas e fez maquiagem sempre de acordo com quem a estava vestindo. Ler seus relatos sobre como as roupas afetavam o seu cotidiano, desde o humor a como as pessoas a tratavam na rua, nos leva obrigatoriamente a questionar os papeis de gênero, convenções diversas e maneiras de ser de cada um. Como a performer pondera, todos nós fomos inicialmente vestidos por alguém. Como isso afetou nossos gostos e nossa personalidade? Como nosso gênero, profissão, ambiente que frequentamos moldam nossa maneira de vestir? Me vi em vários momentos pensando nas minhas próprias roupas e o que elas falam sobre mim. Lembrei do estilo de várias amigas e me imaginei vestindo suas roupas e perguntando quem eu seria com elas? Como eu seria com as combinações inusitadas da Nivia, que a deixam superelegante, mas que eu jamais pensaria em fazer? Ou com o estilo esportivo chique da Claudia, com as roupas transadas de trabalho da Paulinha e as sempre descoladas da Lili e da Nat? Teria coragem de usar os sapatos maravilhosos da Bia? Como eu faria exercícios com trajes de ginástica estilosos iguais aos da Maura ou da Regina? Será que minhas roupas me moldam ou as escolho a partir de um molde interno já determinado? Se alguém usasse minhas roupas, ficaria com um jeito parecido ao meu? É impressionante até onde a experiência de um livro consegue nos levar.
Mata Doce

Mata Doce é um lugar no coração do Brasil, provavelmente nascido de um quilombo, onde em um tempo indefinido os donos da terra estão constantemente ameaçados pelo primeiro coronel branco que chegar. Onde a justiça oficial é tão improvável, que ninguém nem pensa em buscar. A alternativa é procurar um jeito de viver cada um com suas dores e, quem sabe, contar com o justiçamento de deus. Neste lugar presenteado pela escritora Luciany Aparecida, cachorros podem ser imortais, rosas brancas inundam o ambiente com seu perfume, mulheres podem ser um casal sem ser incomodadas, mesmo uma delas sendo uma travesti. Lá, uma noiva, cujo casamento não se concretizou por conta de um assassinato injustificável, pode ter três mães. E mesmo cercada de toda essa quantidade de amor materno, passar uma vida inteira de falta. Em Mata Doce, uma noiva banhada em sangue, escolhe passar o resto de sua existência nesta condição. Maria Teresa transforma-se em filinha mata-boi para aplacar sua raiva todos os sábados no matadouro de seu algoz, impondo a ele sua presença. Mas a noiva também é a datilógrafa que imortaliza em cartas histórias e sentimentos não ditos de personagens esquecidos do Brasil. Foi neste mundo ao mesmo tempo belo, amoroso, violento e triste que imergimos em nossa última reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), algumas vestidas de noiva, outras de vaqueira, todas Maria Teresa/Filinha Mata Boi. Em um ambiente cercado de religiosidade e rosas, entramos na intimidade de cada morador de Mata Doce, sofremos suas dores, o iminente fim de sua comunidade, e escrevemos cartas: uma amiga datilografava enquanto outra ditava algo destinado a uma terceira de nós. Ao contrário das cartas do livro, repartimos nossos afetos lendo as mensagens no final.