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PaulistanaSP

Minhas leituras: As Meninas

Uma das melhores coisas de As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, é a própria publicação do livro, em plena ditadura militar. A coragem da autora de enviar o livro para aprovação da censura demonstra sua segurança na preguiça e ignorância dos censores. Lygia traz um título singelo, de romance de mulherzinha, mas com uma narrativa sofisticada, misturando vozes e obrigando uma leitura atenta, e um crescente de densidade na história, com cenas de tortura, consumo de drogas e overdose. Diz a lenta, muito plausível, que o censor leu apenas as primeiras páginas, não entendeu nada e liberou. As Meninas foi tema de uma reunião do Círculos Feminino de Leitura (CFL) cheia de bossa, para usar um termo da época. A placa na porta dizia que chegávamos ao Pensionado Nossa Senhora de Fátima. A anfitriã, nossa querida Dóris, nos recebeu vestida de Madre Alix e, vestidas de jovens mulheres dos anos 1970, voltamos a ser as adolescentes que fomos, algumas mais no início, outras ao final daquela década. Nossa anfitriã nos levou a buscar o que lembrávamos daquele tempo, como vivíamos e o que sabíamos da ditadura e, depois, da abertura que marcou o seu final e pegou a maior parte de nós na faculdade. Concluímos que fomos alienadas como Leninha, mesmo em nossas famílias de classe média, sem saber quase nada sobre as combativas Lias e acompanhando de longe o desbunde das Anas Claras. Lygia constrói suas meninas com perfis diferentes, aos quais vamos reconhecendo por meio dos fluxos de pensamento sem identificação. São mulheres de seu tempo, mas também universais, nas dores, inseguranças, sonhos e amizade. No fundo, todas somos um pouco de cada uma delas e por isso esse é um livro atemporal. Se ainda não leu, já colocou na sua lista?

Casarão restaurado vira galeria de arte em Higienópolis

Quem ama São Paulo está sempre de cabelo em pé pelas barbaridades cometidas contra sua história e seu patrimônio. É por isso que saber de um casarão restaurado e destinado a exposições de arte é festa para uma paulistana sair correndo para visitar. Em São Paulo há quase 25 anos, a galeria Pinakotheke inaugurou agora em maio sua nova sede na cidade. Saiu do Morumbi para um espaço bem maior em Higienópolis, na rua Minas Gerais, 246, perto da avenida Paulista. Não conhecia esta galeria, que tem uma sede em Botafogo, no Rio de Janeiro, desde 1994, e em Fortaleza (Ceará), desde 1987. É mais um endereço para ficar atenta e acompanhar. A exposição de inauguração é Surrealismos: arte para além da razão (com curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiaretti). São dois andares com obras dos artistas clássicos do surrealismo, brasileiros e latino-americanos no térreo e europeus e estadunidenses e caribenhos no primeiro andar. A mostra incorpora revisões contemporâneas do movimento, incluindo a proeminência de mulheres artistas. Logo na entrada, Tarsila do Amaral nos chama para entrar no clima da exposição. Também em destaque, a escultora brasileira Maria Martins, da qual ficamos conhecendo seu romance impossível com Marcel Duchamp, por ambos serem casados, mas que inspirou a obra de ambos. Memória, sexualidade, trauma, percepção do corpo e relações familiares saltam nas esculturas da francesa, naturalizada estadunidense, Louise Borgeouis. Um trecho do filme O sangue de um poeta, de Jean Cocteau, me deixou paralisada por um tempão ao pé da escada. Para mim, representa uma tradução audiovisual do surrealismo. Como diz a apresentação da exposição, este movimento artístico “propõe uma experiência de pensamento. Um convite a atravessar zonas de ambiguidade e a reconhecer, na arte, um espaço de liberdade. A imaginação, nesse contexto é uma forma de reconfigurar o real”. Programe-se.

Minhas leituras: Flores para Algernon

Publicado pela primeira vez como um conto em 1959 e, como romance, em 1966, Flores para Algernon, de Daniel Keys, é uma ficção científica cientificamente anacrônica e, ao mesmo tempo, uma obra muito atual. São vários assuntos discutidos na história de Charles – um reconhecido retardado, no dizer da época, que é curado e transformado em gênio -, mas os mais marcantes, em tempos de Alzheimer e de inteligência artificial, é o que nos faz humanos. Transformado em prodígio cerebral, Charles tem consciência de ser uma pessoa desde sempre e, ao mesmo tempo, de não ser tratado como tal quando “retardado” nem tampouco na condição de cobaia talentosa. A leitura me instigou a pensar que o envelhecimento da população tem nos levando a uma epidemia de demências senis e hoje não há praticamente ninguém que não esteja lidando algum parente perdendo a memória e a autonomia, e a dificuldade de enfrentar a situação. Além das questões práticas, decidir quem vai cuidar, quais remédios e terapias podem retardar a doença, quais comportamentos devemos ter desde cedo para evitar ficar nesta condição, esta condição nos leva a perguntar para onde foi a consciência dessas pessoas e o que define a humanidade. Como essas pessoas são tratadas e como deveriam ser. As memórias de Charles jogam na nossa cada que, por mais que nos esforcemos (e nem todos se esforçam), acabamos sempre falhando. Alçado de deficiente mental grave a gênio no período de três meses, Charles também nos remete à nossa fascinação e temor em relação à inteligência artificial. Na trama, é como se o personagem se transformasse de uma máquina programada para operações simplíssimas, como varrer chão e fazer entregas, sem questionar ou entender nada a seu redor, para uma esponja aparentemente infinita de conhecimento. Essa absurda capacidade acaba afastando-o ainda mais das outras pessoas. Rapidamente, Charles começa a achar todo mundo medíocre e desinteressante. Sua tolerância fica cada vez menor às limitações inerentes aos humanos normais. Me lembrou o filme Her (Ela, de 2013), no qual a namorada digital se desinteressa de seu par humano e diz que prefere se relacionar com seus iguais tecnológicos. O filme, porém, é bonzinho sobre onde essa relação desigual leva. O que acontece com Charles e quem é, afinal, Algernon, deixo para quem se interessar a ler o livro. Recomendo. Em tempo, Flores para Algernon fez parte de uma reunião divertida e profunda do Círculo Feminino de Leitura (CFL), preparada pela Nivia Galego há algum tempo atrás.

Niemeyer e Portinari em edifício desapercebido no Centro

Finalmente tirei meu Bilhete Único de idosa (demorei para me convencer) e fui testá-lo. Precisei pedir ajuda a três pessoas até conseguir carregar o cartão, mas agora posso pegar metrô sem pagar. Ainda não entendi bem como funciona, pois é preciso recarregar de tempos em tempos, não sei se pelo número de viagens ou pela data, mas vou aprender. Para marcar a estreia, resolvi fazer um passeio pelo Centro. Fui até a estação República para conhecer a Galeria e Edifício Califórnia, na rua Barão de Itapetininga, por onde havia passado vezes a fio sem saber que existia. Desta vez, também passei em frente sem perceber que havia chegado e tive que voltar para encontrar. Incrível como São Paulo esconde suas preciosidades por falta de informação, valorização, deterioração do entorno ou acesso complicado. O edifício, inaugurado em 1955, tem projeto de Oscar Niemeyer e Carlos Lemos, fachada modernista bonita e um mural de mosaico de Cândido Portinari na galeria, com cerca de 250 metros quadrados. Só isso já vale a visita. Tinha ouvido falar que o edifício também conta com jardins suspensos dos quais não consegui confirmar a autoria. Um dos atendentes da portaria do prédio me contou que eles podem ser visitados, mas é preciso marcar com antecedência. E me passou um e-mail para isso (galeria.california@hotmail.com). Foi gentil, mas não teve jeito de me deixar acessar sem a anunciada burocracia. Já tinha ouvido falar deste lugar? Tem outros assim que também valem a visita? Me conta.

Minhas leituras: O Velho e o Mar

A primeira vez que li O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, foi bem no comecinho do Círculo Feminino de Leitura (CFL), possivelmente no final de 2008. Já naquele tempo tive uma impressão controversa do livro. Achei uma história típica de homem hétero, patriarcal, focado em mostrar que é macho, sem refletir muito sobre o que faz. Não estou falando da qualidade da literatura, mas do enredo. A escrita do Prêmio Nobel Hemingway é incrível, seguimos o pescador Santiago sem desgrudar os olhos da leitura. Mas o personagem tem uma obstinação sem propósito a partir do momento em que os tubarões passam a atacar o enorme marlim, finalmente vencido, e ele insiste na luta, mesmo sabendo que não terá o peixe ao final. O velho luta contra a natureza, o que importa é o triunfo. Reli o livro agora, para o Círculo de Leitura do Clube, e minha opinião se manteve a mesma. Desta vez como daquela foi uma opinião isolada. Não que algumas pessoas (mulheres, devo dizer) não vejam traços do patriarcado no livro, mas relevam, em nome da trajetória do herói, que enfrenta o inimigo até o fim, mesmo arriscando a vida e sem garantia de benefício. A maior parte das pessoas, parece, acha isso exemplar. Eu, porém, só consigo ver mérito se houver um propósito maior, o que não consigo enxergar no romance. Me lembra comportamentos masculinos sem sentido: briga de torcida, na melhor hipótese, ou o conjunto de guerras travadas pelo orgulho e teimosia de líderes sem qualquer princípio de razoabilidade. Lembrando que Hemingway era um macho alfa típico: lindo, com seu famoso queijo quadrado, boêmio e mulherengo. Se casou quatro vezes. Aos 17 anos, se alistou na Cruz Vermelha e foi ser motorista de ambulância durante a primeira Grande Guerra, quando se feriu. Depois foi para Paris, nos anos 1920, onde viveu a boemia junto a grandes artistas da época. Durante a Guerra Civil Espanhola, foi para lá como correspondente. Suicidou-se com pouco mais de 60 anos.

Maurício de Sousa cria um personagem para a cidade

Cresci lendo os gibis de Maurício de Sousa. Mônica e sua turma me representavam, inclusive pela força e liderança desta menina destemida que me inspirava. Mais tarde, meu então namorado foi trabalhar com Maurício e tive o privilégio de conviver um pouquinho com ele durante algum tempo. Sua presença foi a maior atração do meu casamento. Pobres noivos, não tínhamos como competir… Acabo de ver que este cartunista genial vai completar 90 anos e, para comemorar, criou o personagem Paulistinha, como um presente para São Paulo, onde Maurício vive desde 1954. Aos 9 anos, segundo a divulgação, é um mascote para metrópole e representa o espírito paulistano: é curioso, está sempre atento às novidades e gosta de descobrir lugares, pessoas e histórias diferentes. Maurício conhece mesmo a cidade. Para celebrar o aniversário, a Prefeitura promete instalar um banco de bronze em frente ao Parque Trianon, na avenida Paulista, na qual Maurício estará sentado ao lado de oito de seus personagens: Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, Milena, Chico Bento, Horácio e Bidu. As celebrações preveem ainda a instalação de infláveis gigantes e 91 esculturas inspiradas em personagens do cartunista espalhadas por parques, praças, bibliotecas e centros culturais da capital paulista. A programação inclui também um desfile gratuito no Sambódromo do Anhembi, no dia 28 de julho, com expectativa de reunir cerca de 30 mil pessoas. O espetáculo terá quatro carros alegóricos, mais de 400 artistas e personagens da Turma da Mônica, retratando diferentes momentos da trajetória de Maurício de Sousa. Homenagem merecida.

Engenheiro faz cartografia de Grande Sertão: Veredas

O que pode deixar uma amante de literatura, que por acaso também é geógrafa e louca por mapas, alucinada? Eu conto: um mapa, construído ao longo de mais de 40 anos, das andanças de Riobaldo pelo grande sertão de Minas Gerais. Sim, esse mapa existe. Conheci a façanha do engenheiro que desenvolveu esta façanha, Paulo Guimarães Salles, em uma apresentação no Espaço Mirabilis, espaço para amantes de artes & livros, de onde só pode sai coisa boa. Salles contou como refez a trajetória de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, a obra-prima de Guimarães Rosa que completa 70 neste ano, e produziu a cartografia do romance no livro Anatomia do Grande Sertão, que será lançado no próximo mês. Nascido em Uberlândia, Salles passou a infância acompanhando o pai veterinário pelas entranhas de Minas Gerais e se apaixonou, na adolescência, pelo livro de Guimarães Rosa. Daí surgiu a ideia de, a partir das indicações do romance, refazer os caminhos percorridos por Riobaldo e Diadorim. Para tanto, anotou os 438 topônimos (nome próprio dado a um lugar ou acidente geográfico), citados ao todo 1.090 vezes pelo autor ao longo da obra e, a partir de mapas antigos, os localizou e desenhou as andanças dos jagunços pelos sertões mineiros, chegando a Bahia e Goiás. O intento demorou a ser feito porque precisou descobrir onde ficavam rios, córregos, fazendas, lugarejos citados por Rosa, o que só conseguiu concluir in loco, depois de aposentado. Sim, o engenheiro percorreu todo o circuito de Grande Sertão, coisa que Guimarães Rosa não fez. “Com certeza, ele escreveu o romance com um mapa ao lado. Adoraria saber exatamente qual foi”, disse. Salles chegou a muitos dos locais seguindo as indicações geográficas e calculando as distâncias percorridas na história a partir dos dias percorridos. Dividiu as aventuras em oito trajetos, que supõe devem ter levado cerca de dez anos, entre a primeira segunda décadas do século 20, para serem percorridas por Riobaldo e demais jagunços. “Guimarães praticamente não dá dicas sobre quando a história se passa, mas é muito preciso sobre os trajetos percorridos”, avalia o engenheiro, cujo hobby deu um presentão aos muitos fãs de uma das obras mais geniais da literatura brasileira.

Michael: a nostalgia ganhou

A biografia de Michael Jacson terminou recheada de polêmicas, com esquisitices, coisas mal explicadas e até possíveis crimes, estes últimos totalmente ignorados no filme Michael. Assistindo à cinebiografia, confirmei minhas expectativas em relação às esquisitices (se relacionar melhor com animais selvagens do que com pessoas é bem estranho). No filme, vemos uma criança abusada pelo pai, que o espancava, humilhava e obrigava a trabalhar, e um adulto emocionalmente infantilizado e com problemas de imagem. Ao mesmo tempo, um artista genial, com uma voz dos deuses, capaz de compor músicas inesquecíveis e criar passos e coreografias impensáveis. O que é fato e o que é show business é difícil saber, assim como se vai haver uma continuação para a parte polêmica da vida do astro, pois o filme termina quando ele, finalmente, consegue se livrar das garras do pai. Uma coisa, porém, não dá para negar. O filme é um “revival” incrível para quem cresceu nos anos 1970 ao som (e assistindo aos desenhos animados) do The Jackson 5. Fui uma criança apaixonada por Michael Jacson. Lembrar as incontáveis canções e coreografias interpretadas por ele, com e sem os irmãos, compensou as concessões feitas pela adulta antes de ir ao cinema.  

Minhas leituras: Sociedade do Cansaço

Que estamos todos cansados não é novidade. Para o filósofo coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, porém, a Sociedade do Cansaço (Editora Vozes) é um mal devido ao excesso de positividade dos nossos tempos, é causa as doenças mentais que nos afligem, como a depressão e o burnout. Em seu livro, Han defende que o humano do século 20 era um sujeito imunológico, atacado de fora para dentro (um patrão roubando direitos, um estado repressor), o que o mobilizava a ativar suas defesas. Hoje, sofremos por nossa própria conta, tipo uma doença autoimune, para a qual não existe imunorreação. Estamos sujeitos a uma violência neural que “não parte de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema”. Não é que os problemas do século 20 tenham sido resolvidos e criamos novos, sobretudo em países periféricos, como ainda somos. Eles se sobrepõem e agora não poupam ninguém. Vivemos em uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade agora é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Qualquer referência à epidemia de empreendedorismo uberizado não é mera coincidência. Para o filósofo (e ele me lembrou em certa medida Ailton Krenak), a perda da capacidade contemplativa é corresponsável pela histeria e nervosismo da sociedade ativa moderna. A vida contemplativa pressupõe um fazer soberano, que sabe dizer não, o que traz mais ação do que qualquer hiperatividade, que seria um sintoma de esgotamento espiritual. “É uma ilusão acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres seríamos”. Viramos uma sociedade “pacífica”. Não sabemos reivindicar. Segundo Han, no empuxo da aceleração geral e da hiperatividade, desaprendemos também a ira, que cede lugar à irritação, a qual não produz nenhuma mudança decisiva. Irritamo-nos por causa do inevitável. A irritação está para a ira como o medo está para a angústia. Contrariamente ao medo que se refere a um objeto determinado, a angústia atinge e abala toda a existência. O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma (ou, como no meu caso recente, um AVC real). A potência negativa, defende Han, é a do não fazer, que me lembrou o princípio central do taoísmo, como está dito no Tao-te ching: o livro do caminho e da virtude, escrito há cerca de 2.500 anos. “A inspiração do cansaço diz menos o que se deve fazer do que aquilo que pode ser deixado de lado”, sugere o filósofo. “Falta-nos o tempo intermediário, um tempo sem trabalho, um tempo lúdico, um tempo de paz.” Esgotamento  Segundo Byung-Chul Han, não é que o sujeito narcisista da sociedade do desempenho não queira chegar a uma meta e descansar, mas a coação de desempenho o obriga a produzir cada vez mais. Assim, nunca alcança o ponto de repouso da gratificação. “Vive constantemente num sentimento de carência e culpa” e “está cansado de tanta exigência de ter iniciativas”. O sistema capitalista mudou o registro da exploração exterior para a exploração própria, a fim de acelerar o processo. Transformado em empreendedor de si mesmo, esse sujeito virou um escravo de si mesmo. Por isso está esgotado. A violência sistemática da sociedade de desempenho mora no elemento psicológico e não no econômico ou político. A preocupação por uma boa vida dá lugar à histeria pela sobrevivência. Para o filósofo, a sociedade de desempenho “está despida de toda transcendência, porque foi reduzida à imanência da vida, que deve ser prolongada a qualquer custo e com todos os meios. A saúde é elevada à nova deusa.” Han conclui que vivemos numa época desprovida de festividade e celebração, o que nos deixa sem qualquer relação com o divino, já que festas e rituais abrem um acesso ao divino. “Os deuses nada produzem. Eles tampouco trabalham. Talvez devêssemos reconquistar aquela divindade, aquela festividade divina, em vez de continuarmos sendo escravos do trabalho e do desempenho.” Como Ailton Krenak, em seu livro A Vida Não É Útil, o coreano sugere que precisamos de uma nova forma de vida, onde o tempo da celebração não desapareça em prol do tempo do trabalho. “Hoje edifícios de trabalho e salas de estar estão todos misturados. Com isso torna-se possível haver trabalho em qualquer lugar e a qualquer hora. (…) Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox.” Por isso, conclama ao final do livro: “O neoliberalismo é um terrorismo do capital e do capitalismo financeiro. Hoje, há que se profanar o trabalho, a produção, o capital, o tempo de trabalho, transformando-os em tempo de jogo e de festa. Hoje em dia, as coisas só começam a ter valor quando são vistas e expostas, quando chamam a atenção. Nos expomos no Facebook, e com isso nos transformamos em mercadoria. O hipercapitalismo atual dissolve totalmente a existência humana numa rede de relação comerciais. As coisas superpovoam céu e terra. Esse universo-mercadoria não é mais apropriado para se morar. Já é hora de transformar essa casa mercantil novamente numa moradia, numa casa de festas, onde valha mesmo a pena viver.”

Minhas leituras: Rebecca

Uma narradora pouco confiável, que mistura acontecimentos que presenciou com outros apenas imaginados, fizeram de Rebecca, de Daphne du Maurier, um livro instigante e um prato cheio para uma reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Pouco se sabe sobre a nova senhora de Manderley, a substituta que não revela nem o próprio nome ao contar sua história e tem dificuldade em se autodenominar sr. Winter, título que acredita soberano à esposa falecida. Um convite da anfitriã do mês, Neise, para um Baile a Fantasia na Mansão Manderley, nos levou, uma semana atrás, diretamente para o universo cercado de mistério do livro. A mensagem no envelope pedia para que fosse aberto apenas no capítulo 17, para não estragar a surpresa da realização do “famoso baile” na história. Além disso, mensagens foram enviadas para cada uma de nós solicitando que preparássemos um perfil psicológico de um dos personagens. Os encontros na casa da Neise são sempre aguardados por conta da dedicação e capricho na recepção e dessa vez não foi diferente. Um grande painel reproduzia a fachada de uma grande propriedade inglesa e toda a decoração nos fazia quase acreditar estarmos dentro da própria Manderley, no litoral inglês, no final dos anos 1930. Da prataria ao aparelho de chá, aos sanduíches de agrião, tudo remetia a detalhes do livro. Até o banheiro e o quarto eram os aposentos de Rebecca. Nas fantasias, tivemos duas senhoras de Winter (qual seria Rebecca?), uma sr. Danvers, damas antigas, uma indiana e euzinha, de Carmen Miranda, um traje possível de ser pensado na época em que se passa a história. A gente capricha! A discussão foi tão acalorada que não sobrou tempo nem para nossas atualizações e fofocas mensais. Foram horas tentando entender se Rebecca era uma vilã ou somente uma mulher à frente de seu tempo, se a sra. Danvers era apenas fiel à antiga patroa ou apaixonada por ela, se Maxim foi uma vítima de Rebecca ou um assassino frio e cínico, que escolheu uma nova esposa fraca propositalmente para não ter mais que ser confrontado. Será que ele se arrependeu de seu crime ou premeditou tudo? Por fim, a sra. Winter narradora era mesmo tão ingênua quanto faz parecer ou queria apenas que acreditássemos nisso? Quero destacar, ainda, a edição da Darkside, com ilustrações belíssimas e o destaque para o clima gótico do livro, além de uma introdução de Nilsen Silva que não se abstém de tocar no tema do suposto plágio da autora do livro A Sucessora, da brasileira Carolina Nabuco. Assisti à novela de 1978 baseada da obra de Carolina e, olha, difícil acreditar em coincidências…