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Bienal é um privilégio paulistano

Não perca a 36a Bienal de São Paulo. Mesmo que não entenda de arte, como eu, vale muito a pena. É um privilégio ter um evento desse porte na cidade, por tanto tempo e de graça. Uma mostra que acontece a cada dois anos desde 1951 e tem um prédio próprio especialmente projetado para ela por arquitetos como Oscar Niemeyer dentro do Parque Ibirapuera. Tudo isso já é motivo suficiente para programar correndo a visita, mas a Bienal de São Paulo ainda é considerada um dos três principais eventos do circuito artístico internacional, junto à Bienal de Veneza e à Documenta de Kassel (realizada na Alemanha a cada cinco anos). E nem precisa tanta pressa, já que a Bienal vai até 11 de janeiro de 2026, abrindo de terça a domingo, das 10 às 18 horas (aos sábados, vai até às 19 horas). Com o tema “Nem todo viandante anda estradas. Da humanidade como prática”, esta edição traz uma presença feminina muito forte e uma maior parte de artistas brasileiros e do sul global. As instalações predominam e contam uma história da presença humana e sua interação com os demais seres e com o planeta. Os temas são mostrados em seis capítulos e são autoexplicativos, as sensações vão dando conta do que se está querendo transmitir. Fazer uma visita guiada ajuda a entender, mas não é essencial. O importante é se deixar levar pela curiosidade, como em um passeio, sem compromisso, apenas sentindo. Dá para passar pelo menos duas horas por lá, percorrendo paisagens sonoras, olfativas, táteis e visuais. Entrar e já percorrer uma mata de cerrado com plantas nativas do bioma criada especialmente para a exposição pela artista e poeta britânica Precious Okoyomon. Se maravilhar dentro da instalação totalmente instagramável da chinesa Song Dong, com espelhos, lustres e abajures, todos emprestados de casas reais, ouvir o som vindo das entranhas do pavilhão a bienal via dutos de encanamento ou a sinfonia criada por ar e lâmpadas em contato com a água. É impossível passar por obras de pura beleza, como o caracol de panos pintados com flores, de Maria Magdalena Campo Pons, e não sair encantado desta viagem pela “intratável beleza do mundo”, nome da última parte da exposição.

Ser ou não ser mãe, eis a questão

Embora tenham abordagens diferentes, o mesmo tema permeia Manifesto Antimaternalista, de Vera Iaconelli (Editora Zahar), e Maternidade, de Sheila Heti (Companhia das Letras). Ambos os livros problematizam a maternidade como função primordial da mulher, ideia corrente na sociedade ainda hoje nos quatro cantos do mundo. Enquanto Iaconelli aborda o assunto de maneira quase acadêmica, sob o ponto de vista da psicanálise e das políticas de reprodução, escancarando eventos políticos e sociais que moldaram um ideal de maternidade baseado na hipervalorização do papel de cuidadora na genitora e na conceção de um instinto materno que impõe sacrifício, abnegação e culpa à mulher, Heti escreve um livro inteiro para se decidir se quer (ou precisa) ser mãe. Segundo a psicanalista e escritora Vera Iaconelli, o maternalismo é a ideologia que atribui às mães um papel insubstituível no cuidado com as crianças, um modelo anacrônico, fonte de inúmeros sofrimentos e adoecimentos para as mulheres. Mais do que isso, o termo “mãe”, conforme a autora, se liga ao mito de que a genitora é o tipo preferencial de mãe, aquela que teria dotes naturais para a função, ou seja, o famoso “mãe só tem uma!”, distinguindo-a de todos os demais cuidadores, incluindo o pai. Seu manifesto antimaternalista combate a falsa premissa de que haveria uma natureza maternal decorrente do instinto e coloca em xeque o modelo de reprodução social que procura manter as mulheres em posição subalterna e que negligencia um sentido coletivo de cuidado e responsabilização. Chegando à idade crítica para procriar e vendo a maior parte de suas amigas se tornar mãe, a autora canadense Sheila Heti também questiona o papel feminino como principal responsável pela reprodução da espécie e, assim como Iaconelli, a ideia imposta às mulheres de incompletude se não tiverem filhos. Em suas sofridas divagações, que devem ser as mesmas de um número exorbitantes de mulheres atualmente, ela diz que, se pudesse, adoraria ser pai. E ninguém diga que essa afirmação carece de explicação. Mais do que a “mãe genitora”, que Iaconelli tão bem descreve, Sheila Heti também discute esse lugar de cuidadora que todos esperam das mulheres: “Na verdade, a coisa mais difícil é não ser mãe – se recusar a ser a mãe de quem quer que seja. (…) Há sempre alguém pronto a se meter no meio do caminho que leva uma mulher a sua liberdade, percebendo que ela não é mãe, tentando transformá-la em uma (…) – pessoas que querem que você faça com que tomem suas vitaminas, ou precisam do seu conselho a todo momento, ou que simplesmente querem conversar, tomar uma cerveja – e te persuadir a ser a mãe deles.” Fico muito feliz em ver mulheres jovens atualmente tendo dúvidas ou falando com naturalidade sobre não querer ser mães, pois nunca acreditei na máxima de que uma mulher só se realiza pela maternidade. E sempre me irritou a sobrecarga sobres as mães. Tinha a convicção de que não queria ter filhos. Como me casei muito cedo, aos 22 anos, passei anos sendo questionada sobre porque não engravidava, o que era muito irritante. Aos 30 anos, de repente, quis ser mãe, conversei com meu marido, e resolvemos juntos sermos pais. Em três anos, tivemos três filhos e foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, embora eu saiba que outras coisas boas poderiam ter acontecido se nossa decisão fosse outra. Na fase de crianças pequenas, outra frase que me deixava louca era se meu marido me ajudava. Sempre combati a concepção de que toda a obrigação era minha e que tinha que ser agradecida de obter “ajuda” do pai dos meus filhos. Ainda estamos longe como sociedade de resolver essa questão. Por isso, esses dois livros são muito bons para quem pensa em ter um bebê, para as mulheres que já tiveram bebês e para as que não querem ter. Se possível, sobre o tema, leiam também O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Ou melhor, se tem mulher que ainda não leu, corra pra ler Beauvoir o mais rápido possível.

Adolescente de Mariana Carrara traz credibilidade

“Se deus me chamar eu vou” é o terceiro romance que leio de Mariana Salomão Carrara, e a versatilidade da autora é o que mais gostei. Neste livro, a narradora é uma menina entre onze e doze anos escrevendo um livro/diário sobre o ano que está vivendo e transmite muita credibilidade. Aliás, mais credibilidade até do que a árvore e os objetos que contam a história em “A árvore mais sozinha do mundo”, em que pese o fato de não termos nenhuma ideia de como falariam uma árvore, um espelho, um carro e um uniforme de pulverização de veneno. Em “Não Fossem as Sílabas de Sábado”, a narradora é uma mulher adulta, cujo marido é morto por um vizinho que se joga da janela. Ainda é o meu preferido, mas ainda preciso ler “É Sempre a Hora da Nossa Morte Amém”, cuja protagonista, pelo que li, é uma septuagenária com problemas de memória. Mesmo que não tenha nenhuma metáfora ou pornografia embutida nos problemas de bullying sofridos por Maria Carmem e o trisal vivido por seus pais e o consultor Leonardo, a maneira como a narradora de “Se deus me chamar eu vou” encara seu cotidiano me lembrou “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, o diário da menina prostituída pelo pai de Hilda Hilst. Naquela obra, a autora brincava com o mercado editorial, Lori representando o autor, agenciado pelo editor/pai cafetão. O que me remeteu a Hilst, no caso da adolescente de Carrara, é o jeito direto de Maria Carmem tratar seus dramas, reconhecendo inclusive preferir o bullying à indiferença dos colegas e a inveja do amor a três dos pais em relação a ela, que se acredita incapaz de um dia ter um namorado. É um relato, mais do que tudo, sobre solidão. Para ler de um fôlego só.

Jornalistas contra o sistema

O fim de semana no Festival Piauí de Jornalismo, nos dias 6 e 7 de setembro foi uma experiência radical. Com o tema “A Contra-História, repórteres que bagunçam os mitos nacionais”, passaram pela Cinemateca jornalistas de vários cantos do mundo contando suas experiências e o funcionamento da vida real, aquela que até está disponível nos meios de comunicação, mas não temos tempo ou estômago para nos aprofundar. Entre os convidados, israelenses e estadunidenses que compartilham com a parte pensante da população a indignação pelos “patriotas” brasileiros adoradores de bandeiras de Israel e dos Estados Unidos em pleno dia da pátria. Assistir ao vivo o podcast mais querido de quem espera continuar se informando e mantendo a sanidade ao mesmo tempo foi a cereja do bolo. Uma fila se formou na entrada para pegar os melhores lugares para ouvir a música tema do Foro de Teresina e Fernando de Barros e Silva dar início, sem delongas, aos comentários de Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros sobre os principais assuntos políticos da semana no país. A jornalista etíope Selam Gebrekidan abriu o evento contando como foi realizada a reportagem do New York Times que desvendou a quantidade exorbitante que o Haiti teve que pagar à França como indenização por ter ganho a guerra contra o colonizador. Isso mesmo: é aparentemente o único caso no mundo em que o ganhador precisou reembolsar o perdedor – colonizador e escravagista – pelos prejuízos financeiros de não ter mais a colônia e os escravos. Essa aberração só foi possível porque os demais países escravocratas (Inglaterra, Estados Unidos, Portugal/Brasil etc.) não queriam que o exemplo haitiano se espalhasse. Com isso, a cada dois dólares produzidos no Haiti, a França ficava com um e meio. Isso diz muito sobre a pobreza do Haiti e a riqueza da França até os dias atuais, e só não enoja quem já perdeu (ou nunca teve) nenhuma dignidade. A repórter investigativa do NYTimes ainda contou como foi proibida de voltar ao seu país natal, a Etiópia, depois de narrar em suas matérias acordos suspeitos entre a Boeing e a companhia aérea Ethiopian Airlines após a queda dois aviões, matando mais de 150 pessoas. O jornalista russo Miklail Zygar cobriu várias guerras até tornar-se, em 2010, o primeiro editor-chefe do Dozhd, único canal de TV independente da Rússia e que cobria protestos contra Vladimir Putin. Hoje vivendo nos Estados Unidos, contou que teve que deixar a Rússia para não ser preso, pois foi condenado por espalhar fake news no país. As fake news, segundo o governo de Putin, referem-se a chamar a invasão da Ucrania de guerra, o que é proibido na Rússia. O depoimento mais tocante do evento talvez tenha sido o da nigeriana Kiki Mordi, que esteve à frente do documentário da BBC Sex for Grades (https://www.youtube.com/watch?v=we-F0Gi0Lqs) sobre assédio sexual nas universidades da Nigéria e de Gana. Mordi chorou (e nós também) ao contar como ela mesma foi obrigada a desistir do curso de medicina por não ceder ao assédio de um professor e decidiu ser jornalista para denunciar esse tipo de violência. No documentário, ela e mais duas jornalistas entraram como alunas infiltradas nas universidades e mostraram como a cultura de assédio funcionava. Em uma cena do documentário exibida no evento, um professor quer obrigar uma aluna/repórter a beijá-lo, apaga a luz e tranca a porta da sala. É terrível. Após o documentário, os professores envolvidos foram demitidos e as universidades nos dois países criaram regras para evitar o assédio. No entanto, Kiki Mordi foi perseguida, está sendo processada e teve que deixar o país. Proprietário do jornal Haaretz, de oposição a Benjamin Netanyahu, Amos Schocken não conseguiu sair de Israel para vir a São Paulo e participou do evento remotamente. Não consegui conter as lágrimas ao vê-lo contar, mesmo que já saibamos, as atrocidades cometidas pelo governo de seu país contra a população palestina, vivendo em um campo de concentração bombardeado constantemente e sem acesso à ajuda internacional. A matança de jornalistas impingida nesta guerra por Israel já fez mais vítimas do que a primeira e a segunda guerra mundiais juntas. E todos eles palestinos, pois jornalistas internacionais, inclusive israelenses, são proibidos do cobrir o massacre. Sobre a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan, Pakrat Estukyan nos contou que jornalistas são perseguidos e presos. O pequeno jornal Agos, do qual é editor, porém, é tolerado justamente, acredita ele, por ser pequeno, por ser o único veículo bilingue de Istanbul, escrito em turco e em armênio, e por seu fundador ter sido assassinado por um garoto nacionalista turco. Pakrat contou como a comunidade armênia, cujo genocídio a Turquia se nega a aceitar, vive no país sob preconceito e luta para manter viva sua cultura. Pela primeira vez, ouvi a história de que a criação da polícia de Nova York estava diretamente relacionada à captura de negros alforriados por policiais, que depois os vendiam no Sul dos Estados Unidos para voltarem à escravidão. O jornalista Chenjerai Kumanyikad narra esse fato no podcast Empire City, no qual mostra como o racismo estrutural está na base da polícia da sua cidade. Em sua entrevista, se emocionou ao saber dos mais de 6.000 mortos por ano, a maior parte homens negros jovens, pela polícia brasileira.    A jornalista Ruth Marcus, atualmente na The New Yorker, narrou com detalhes como acabou pedindo demissão do jornal Whashington Post, um dos mais combativos dos Estados Unidos e onde trabalhou por mais de 40 anos, após ser censurada por escrever contra as regras do jornal de não falar mal de Donald Trump em editoriais e colunas de opinião. A jornalista contou sobre a mudança editorial no jornal após o novo dono, o poderoso dono Amazon, Jeffrey Bezos, se alinhar ao presidente ultradireitista, e comparou os empresários das bigtechs norte-americanas aos oligarcas russos. Ruth Marcus, especialista em Direito, abordou como Trump tem intimidado todo o sistema judiciário daquele país, incluindo os grandes escritórios de advocacia, assim como as demais instituições democráticas. Ambos os jornalistas estadunidenses se mostraram

A Boba da Corte

Mesmo vivendo há quase 30 anos na Zona Oeste de São Paulo, só fui descobrir que mangostão, longana e rambutã não são nomes de remédios, mas frutas exóticas, ao ler A Boba da Corte, da Tati Bernardi. Indicar o livro para o Círculo Feminino de Leitura (CFL) também fez com que eu fosse pela primeira vez ao Santa Luzia (um dos mercados chiques da elite paulistana), o lugar mais próximo onde poderia ser que encontrasse algumas delas. Só achei o rambutã, pois as demais, segundo me informou a funcionária atenciosa, não estão na época. Mas comprei outras frutas tão exóticas quanto (pelo menos para mim), para montar a mesa do nosso encontro do mês em minha casa. Escolhi o livro da autora paulistana porque me identifiquei com seu sentimento de inadequação entre seu bairro suburbano de origem e a rica e descolada Zona Oeste, onde passou a viver. Assim como Tati foi criada no Tatuapé, na Zona Leste, cresci em Santana, na Zona Norte, sonhando em atravessar a ponte e morar na região entre rios (Tietê e Pinheiros) onde acreditava viver pessoas mais parecidas comigo, o que fiz assim que tive oportunidade. Depois, por muito tempo, não conseguia traduzir o desconforto próprio de quem não se sente verdadeiramente pertencente ao lugar em que mora, mas nunca cheguei na tradução certeira da elite paulistana feita pela Boba da Corte de Bernardi. Achei que a conversa seria boa em nossa reunião, pois das dez mulheres do grupo atual, somente duas são naturais desta região que chamamos de “bolha”, termo que aprendi com meus filhos, já nascidos na Vila Madalena. Quase todas as demais, assim como eu, atravessaram a ponte. No caso delas, vindas da mesma Zona Leste de Tati Bernardi. Somente a Kátia sempre viveu no Tatuapé (e nunca cogitou sair de lá) e a Marli, passada a pandemia, resolveu voltar para sua Mooca natal e ficar perto da família. Tivemos discussões acaloradas como há tempos não tínhamos. Incrível como um livrinho de menos de 100 páginas e aparentemente despretensioso pode causar polêmica. Fico imaginando o que pensam as pessoas citadas no livro. Identificamos algumas, inclusive próximas. Admiro o despudor e coragem da autora, de quem sou fã há bastante tempo. Bernardi começa seu livro contando sobre uma festa que deu em seu apartamento na rua Maranhã, no bairro “diferenciado” de Higienópolis, e uma amiga vinda do Rio de Janeiro digitou errado o endereço no Uber e foi parar na Praça Maranhão, na Zona Leste. A amiga ligou desesperada, achando que corria risco de vida, sem saber que estava exatamente no lugar onde a anfitriã passou toda a infância e adolescência. A partir desse mote, Tati Bernardi mostra de forma irônica e divertida o comportamento às vezes ingênuo e mais vezes hipócrita dessa elite, sobretudo a progressista e culta, a qual passa a frequentar, querendo furar a bolha para pertencer a ela, mas também rejeitando muitos dos seus códigos. Um mundo feito de “qual o seu sobrenome”, “de quem você é parente”, “o que faz e onde trabalha” e “onde você estudou”. Um mundo feito de oriundos do Santa Cruz, Vera Cruz, Bandeirantes, Rio Branco, entre outros, hoje com filhos no Avenues e similares. Para alguém que se alfabetizou e cursou o fundamental entre as escolas Expedicionário Brasileiro e República da Bolívia, como eu, nunca é uma situação confortável… Difícil não pensar: como vim parar aqui? Como no livro, algumas de nós consideraram a personagem/autora um tanto vulgar e exagerada. Também não é fácil se ver como pertencente a uma bolha, tendo nascido nela ou não, mesmo sabendo que isso não tem a ver obrigatoriamente com possuir dinheiro, estudo e cultura. No final, por mais que generalizações possam ser engraçadas, cada experiência é única e a capacidade de rir se si mesma, uma bênção. Para nossa reunião de dois mundos, trouxe frutas exóticas e comidinhas personalizadas, mas também estrogonofe de camarão, balas sete belo e brigadeiros, como uma boa festa suburbana deve ter. Nossa presidenta Neise se vestiu de Boba da Corte e estava maravilhosa, mostrando que o diferente também pode ser chique. Desde que sejamos nós mesmas. Tivemos direito, ainda, há uma coleção de fotos dos lugares citados pela autora na Zona Leste, presente da Kátia, que conhecia tudinho.

Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluções

Ler em grupo pode ser muito mais do que dividir opiniões sobre leituras. Em um clube do livro, compartilham-se também experiências, afetos e transformações. No dia 3 de setembro, às 19h, as autoras Maura Campanili e Luciana Gerbovic estarão na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho para uma conversa sobre essa atividade que, cada vez mais, vira tendência – principalmente entre mulheres que buscam um espaço de trocas intelectuais e afetivas reais. Será um bate-papo descontraído sobre suas vivências com clubes de leitura, os dois livros que nasceram dessas experiências e a força política e subjetiva da leitura coletiva. A conversa terá a mediação da crítica literária Patricia Ditolvo. Após as falas, as autoras farão breve sessão de autógrafos. Maura é escritora, jornalista e geógrafa, com mais de 30 anos de atuação em comunicação socioambiental. Trabalhou em organizações como a SOS Mata Atlântica e o Instituto Socioambiental, além de colaborar com diversas ONGs por meio do Núcleo de Conteúdos Ambientais (NUCA). É autora de Temos fome, somos loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres (Pitanga, 2025), que narra a trajetória de um grupo de leitoras que transformou dor em vínculo, e leitura em liberdade. Luciana é graduada em Comunicação Social e Direito. Advogada, mestre em Direito Civil e mediadora de clubes de leitura há mais 15 anos, em diversos espaços públicos e privados. Professora de leitura e escrita literárias e formadora de mediadores de clubes de leitura desde 2019. Coarticuladora do “Remição em Rede”, programa que implementa clubes de leitura e forma mediadores em penitenciárias, com fins de formação de leitores e remição de pena pela leitura. É sócia-diretora da Escrevedeira Centro Cultural Literário. Coautora do livro “Clubes de leitura: uma aposta nas pequenas revoluções” (Solisluna/Selo Emília, 2024) e autora do romance “A maior mentira do mundo” (Quelônio, 2024). Patricia é formada em Letras e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é mediadora de conversas e clubes de leitura, e criadora do projeto Críticas Instantâneas Não Especializadas (@criticasinstantaneas). A conversa é gratuita e aberta ao público, com sessão de autógrafos ao final. Venham!!! 📍 SERVIÇO O quê: Bate-papo com Maura Campanili e Luciana Gerbovic, com mediação de Patricia DitolvoTema: Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluçõesQuando: Quarta-feira, 3 de setembro de 2025, às 19hOnde: Livraria da Vila da FradiqueRua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo – SPQuanto: Evento gratuitoLivros à venda no local, com sessão de autógrafos após a conversa

Encontro com o CFL Júnior

Quando resolvi escrever um livro sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), um dos motivos era dividir uma experiência coletiva tão bacana e, quem sabe, inspirar outras pessoas a tentar fazer algo parecido. Antes mesmo do livro ser publicado, eu e mais duas mulheres do CFL tivemos a alegria de ver nossas filhas, tão amigas quanto nós, criar o CFL-Júnior, com suas próprias amigas. Depois do lançamento, mais uma boa surpresa: as meninas escolheram Temos Fome, Somos Loucas como livro do mês e nos convidaram a participar da reunião sobre o livro. Conversar com elas sobre o livro, encontros e amizade foi um momento único. O mais bonito foi ouvir que, mesmo próximas da história que conto – nossas filhas inclusive aparecem na narrativa em alguns momentos, as amigas ouvem sobre nosso grupo há anos -, ler o livro as fez nos ver de outra maneira. Deixamos de ser “as mães” para nos tornarmos mulheres, que têm vida própria, discutem entre si, se emocionam com as amigas e, ao mesmo tempo, continuamos meninas, como elas mesma se veem. Disseram ter compreendido que não existe o tal amadurecer que a tudo responde. E o peso de se tornar adulta diminuiu. Foi divertido repartirmos uma reunião cheia de cuidados na preparação, com direito às comidinhas feitas por cada uma, brindes, atividades e lembrancinhas. Apenas no figurino eu a Claudia demos demonstração de sermos veteranas: nos vestimos de lilás, como a capa do livro. Todas elas perceberam o detalhe ao chegar e comentaram que deveriam ter pensado nisso. Mais do que tudo, foi muito gratificante saber que conseguimos mostrar às nossas eternas meninas que é possível encontrar propósito e prazer em todos os aspectos da existência.

A palavra que resta

O livro de Stênio Gardel, a Palavra que Resta, é daquelas obras misteriosas: contam uma história triste, mas o encanto é tanto, que a alma termina leve. Talvez tenha sido esse encantamento que inundou nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) sobre o livro. Mesmo que algumas de nós passassem por momentos difíceis de saúde em suas famílias, conseguimos ter um encontro alegre e profundo, no qual a compaixão pelo sofrimento de Raimundo e sua dúvida de uma vida inteira sobre as palavras escritas por Cícero, que não conseguiu ler, se misturou com nossas próprias palavras não ditas. Em seu primeiro romance, o cearense Gardel conta a história de amor de dois rapazes que se separam após a descoberta do romance pelas famílias. Na falta de uma despedida, Cícero manda entregar uma carta a Raimundo, que a guarda ao longo dos anos sem conhecer seu conteúdo, porque não sabe ler e não quer dividir aquelas palavras com ninguém. Somente aos 71 anos, ele decide se alfabetizar para poder finalmente abrir a carta. Em uma mistura de narradores e tempos nem sempre identificáveis, acompanhamos Raimundo em seus muitos anos de ajudante de caminhoneiro, escondendo sua sexualidade, até o encontro como a travesti Suzzanný, que mudaria sua trajetória para uma vida de aceitação e realização como costureiro. Com A Palavra que Resta, o autor e a tradutora Bruna Dantas Lobato venceram o National Book, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, na categoria melhor livro de literatura traduzido. Foram os primeiros brasileiros e os primeiros nomes em língua portuguesa a ganhar o prêmio. Na reunião preparada pela Wal, anfitriã do mês do CFL, trouxemos cartas seladas com palavras que conseguimos dizer em nossas vidas. A maior parte de nós as queimou, deixando-as ir, enquanto algumas preferiam guardá-las e, quem sabe, enviar algum dia ao destinatário… Trouxemos, ainda, objetos amuletos que, como a carta de Raimundo, levamos conosco ao longo dos anos. Achei emblemático apenas uma de nós levar cartas recebidas de amores antigos, enquanto as demais carregamos lembranças de familiares queridos, sobretudo mães e avós. Desenrolando um novelo de lã, dissemos umas às outras as palavras importantes que nos mantêm unidas por tanto tempo em uma rede de afeto e amizade. Palavras sempre disponíveis, para que nunca reste nada por dizer entre nós.

Escritoras mostram que memória pode ser sentimento e ancestralidade

Dois livros sobre memória, dois pontos de vista, ambos tocantes e prazerosos. Enquanto Hilda Lucas, em A Casa Dentro de Mim (Editora Laranja Original), mergulha em suas lembranças, Renata Lima, em Desde Lucrécia (Editora Faria e Silva) vai em busca de histórias e documentos de família. As duas preenchem as lacunas com a imaginação e nos levam junto como testemunhas. Em A Casa Dentro de Mim, Hilda mostra do que é feita: da infância em Ilhéus, cercada de família, nas casas dos avós, na fazenda, da religiosidade marcando sua formação. Depois a mudança para o Rio de Janeiro, adolescência, faculdade e, aos poucos, a menina que tias e avós constaram ao nascer “vai ser curiosa, nasceu com os olhos abertos ponto reparo em tudo”, ganhou o mundo, sobrenome famoso e uma imensidão de oportunidades. Mas o que preenche sua casa são as relações profundas, a mãe, as filhas, e os pequenos acontecimentos, os detalhes, aquilo que não se ostenta. Cada pequena crônica do livro é uma viagem à linguagem poética e única da autora, para quem “memória é lugar vereda abismo remanso. É quimera inventário invenção. Se é mentira, é também verdade e, na maior parte das vezes, falácia ou ficção. Viva, volátil e autoral, a Memória é minha, e eu mato quanto quiser. (…) Que minha alma-memória não se afaste de mim enquanto vivermos. Nós duas, se não autoras do vivido, autora das nossas lembranças. Memória é oráculo”. O livro de Renata também é oráculo, mas de pessoas antigas e acontecimentos históricos, como diz a autora, que traz à tona 13 gerações de sua família, Desde Lucrécia, no final do século 16, em Portugal, até seu pai nos dias atuais. De família de cristãos novos, Lucrécia Pedroso foi presa pela Inquisição por práticas de judaísmo, “foi condenada a cárcere e hábito perpétuo. Em 1596, teve sua punição comutada para penas espirituais. Mudou seu nome para Lucrécia da Cruz, virou freira capucha, foi mulher na Casa de Recolhimento da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, em Almada”. Diante da violência, os irmãos, António e Pedro (ascendente direto de Renata), imigraram para o Brasil, aonde chegaram, por volta de 1600, em São Vicente. Nos 400 anos desde então, a família cresceu e prosperou e faz parte das famílias pioneiras que se costuma chamar em São Paulo de “quatrocentões”. De bandeirantes escravizadores de indígenas, passaram a fazendeiros donos de escravos por gerações e políticos influentes – seu trisavô Manoel foi senador e era irmão do presidente da República Prudente de Moraes. Fiel aos fatos, a autora não enaltece nem desmerece o histórico familiar, é o máximo possível fiel ao que apurou, inclusive mostrando a falta de possibilidades e escolhas mesmo para as mulheres da elite sob a sociedade totalmente patriarcal. “Descobrir Lucrécia Pedroso e a sina dessa família de cristãos-novos no século 16, gerou uma onda de impactos, como o seixo que repica na superfície de um lago espelhado. (…) Há memórias que ainda latejam. Atraem e repelem, com a força invisível dos polos de um ímã.” Como conclui Renata ao final do relado, “a memória é um atordoamento”.

Apocalipse nos Trópicos é uma ode para que ele não aconteça

O documentário Apocalipse nos Trópicos, da cineasta Petra Costa, está sendo exibido na Netflix e merece ser visto. O filme não emociona tanto quanto Democracia em Vertigem, de 2019, que foi indicado ao Oscar e ao qual assisti às lágrimas, talvez porque estamos mais cascudos aos absurdos naturalizados desde então, mas é um ótimo retrato do crescimento dos evangélicos na política brasileira e seu papel na ascensão da extrema direita no país e de Bolsonaro à presidência, além da tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. Costa faz do pastor Malafaia seu personagem emblemático. Falastrão, ele explica que seu principal objetivo é ter o poder terreno mesmo, ou seja, Brasília, e que não mede esforços para tanto. Fala de Bolsonaro quase como um subordinado seu. É engraçada uma cena em que o ex-presidente discursa e Malafaia, ao seu lado no palanque, vai falando labialmente as palavras junto com ele, como faria um “ponto” no teatro. Poderia ser divertida também, mas absolutamente não é, a entrevista com uma senhora na Bahia que diz gostar muito das políticas do Lula, que ele fez muita coisa para a população, mas que não votaria nele porque ele era do Candomblé e isso era inadmissível. Quando perguntada sobre de onde tirou a informação, ela mostra o celular. Me chamou a atenção, ainda, a forma articulada de funcionamento da bancada evangélica no Congresso Nacional. Dizer que a cineasta generaliza os evangélicos é pueril diante das cenas que mostram como eles acham muito natural transformar o legislativo brasileiro em quintal de suas crenças. Estado laico para eles não representa nada. O alinhamento da bancada da Bíblia com a da Bala fica bem claro sobretudo nos comícios. Me deixou intrigada também a obsessão que os evangélicos têm com o aborto: a primeira coisa a ser combatida no mundo em todos os discursos. Alguém precisa dizer pra eles que mentir descaradamente na internet ou nos palanques, assediar, estuprar e bater em mulheres, deixar crianças abandonadas nas ruas, deixar pessoas morrerem sem atendimento médico e ainda debochar dos doentes é um caminho muito mais certeiro para o inferno, seja lá o que for isso, do que ajudar uma menina violentada a ter alguma chance de futuro ou uma mulher adulta decidir o que fazer com o próprio corpo. O que mais me espanta, porém, vendo o documentário, me lembrando dos quatro terríveis anos do governo Bolsonaro – principalmente durante a pandemia – e em todos os noticiários diários desde então, é como alguém consegue votar em uma pessoa que não consegue formular uma frase coerente como começo, meio e fim.