A África sem estereótipos de Binyavanga Wainaina

Apesar de não ser uma leitura fácil, Um Dia Vou Escrever Sobre Este Lugar, de Binyavanga Wainaina, é um dos livros mais interessantes que já li sobre a África, possivelmente por ser escrito por um africano negro de classe média, com uma realidade não muito diferente de qualquer morador de classe média de país em desenvolvimento, como o Brasil. A maior parte das obras literárias que tive acesso sobre o continente e de autores africanos são de escritores brancos (como como Mia Couto e Isabela Figueiredo) ou mulheres com experiências extremas – de mutilação, guerras (como Ayaan Hirsi Ali). Infelizmente, até agora li apenas ensaios da Chimamanda Ngozi Adichieainda, autora citada pelo próprio Wainaina. Binyavanga conta suas memórias em uma estrutura de tempo linear e, apesar de escrever a partir do futuro, a maior parte da narrativa é presentificada, sobretudo a primeira parte, relativa à infância e à adolescência, revivida pelo autor sem contextualização. Tudo é trazido sob o ponto de vista do cotidiano da criança e, depois, do adolescente: “Tenho sete anos de idade, e ainda não sei por que todo mundo parece saber o que está fazendo ou por que está fazendo”. “Ela é a estrela da classe. É 1978, e todos frequentamos a escola de ensino fundamental Lena Moi Primary School”. “É período de recesso escolar e está frio. Julho”. (pág. 9) Mesmo partindo de episódios familiares, as grandes questões do autor estão divididas em todo o livro entre o que é pessoal e o que é histórico, cultural e político em seu país e em toda a África, em como o contexto influencia sua existência e como reage a ele. Esta parece ser uma intenção clara já a partir do título de suas memórias, Ainda Vou Escrever Sobre Este LUGAR. Mas Wainaina não tem compromisso com o esclarecimento das circunstâncias para quem não está familiarizado com elas. Na maior parte do texto, essa falta de explicações ou o uso de palavras em vários idiomas não faz falta. Em alguns casos, ficamos mesmo sem entender, o que não diminui a vontade de continuar a leitura. Aliás, é muito interessante ver, em toda a primeira parte, que ocupa praticamente metade do livro, questões políticas apresentadas como uma criança que ouviu a história em casa contaria: “O Presidente Moi não vem de uma família importante. Ele era só um professor de ensino fundamental antes de entrar para a política. Ele está sempre sendo humilhado.” Dessa maneira, a vida cotidiana de um menino de uma família de classe média do Quênia se desenrola entre a escola e a família em um contexto de eterna instabilidade política de um país recém-saído do colonialismo. Mesmo assim, o Quênia é descrito como um país privilegiado e líder daquela parte da África, ao contrário de Uganda, terra natal de sua mãe, assombrada por Idi Amim Dada, ditador sanguinário e cruel, do qual Bynyavanga não precisa trazer detalhes, porque faz parte do imaginário global, pelo menos de quem acompanhava o noticiário dos anos 1970. Na página 49, temos um ótimo exemplo desse ponto de vista: “Olha! Olha o Michael Jackson se movendo como se não quebrasse. Tentamos dançar como ele.” “Baba nos acorda esta manhã e conta que houve um golpe de Estado (…) Há tiroteios por todo o Quênia (…) Muitas mulheres são estupradas. Há toques de recolher, por meses, e prisões (…).” “O Quênia não é Uganda. O Quênia tem grandes estradas e ferrovias e edifícios altos, ciência e tecnologia, pesquisa e grandes aviões (…). À tarde, o golpe é derrubado e milhares são mortos. Nairóbi tem cadáveres por todos os lados.” Embora linear, como mencionei antes, a narrativa tem mudanças de temas e tons, podendo ser dividida em outras três partes após a infância e adolescência no Quênia: a crise existencial (na África do Sul e no Quênia), a descoberta da vontade de ser escritor (na África do Sul e no Quênia) e o escritor reconhecido (África e Estados Unidos). Durante a adolescência e em todo o restante do livro, o autor deixa pistas não apenas do seu desconforto com questões políticas, mas também de uma inquietação e inadequação interior, que só revela ao final, quando conta aos pais já falecidos, em sua imaginação, que é homossexual. A sexualidade é uma questão mal resolvida que perpassa o livro sem ser manifestada e que parece não ser totalmente resolvida durante a vida de Binyavanga. Wainaina também descortina ao longo do texto a hierarquização em um país dividido em tribos e línguas diferentes, no qual o equilíbrio de forças é frágil e muda rapidamente a depender de quem está no poder. O autor se movimenta nessa miríade de povos e línguas sem preocupação de explicar termos, costumes etc., e vamos atrás tentando assimilar o que, parece, nem ele entende totalmente. A questão da língua é uma constante, e é difícil saber quais ele domina mais ou menos: é falante de inglês e Swahili, a língua oficial do Quênia (e em outros países africanos), mas compreende também o idioma paterno, Gikuro, que parece ser uma das etnias dominantes, enquanto salienta não entender o dialeto da mãe. Deixa claro que ser um africano é ser, no mínimo, bilíngue: “Há algumas semanas, li Decolonising the Mind, de Ngüri wa Thiong’o. É ilegal e foi emocionante, e eu tinha prometido voltar para minha própria língua. Inglês é a língua do colonizador.” Outra característica do autor, que vai ficando mais aparente conforme amadurece é a ironia. Um exemplo é quando Wainaina aborda a imagem da África fora dela e o termo diversidade, ao falar sobre os formulários para bolsas de estudo no exterior, nas quais se prega o “clube Modelo da ONU” e os “Shows da Unesco sobre as crianças do mundo”. E termina dizendo: “Quero fazer diversidade”. A partir do capítulo 13, quando Binyavanga vai para a universidade em Joanesburgo, há uma mudança no foco narrativo. A marcação deixa de ser apenas no presente: “Quando nos conhecemos, ele me perguntou qual era meu nome no rap. Eu
O ano em que fui livre

Quando nasci, morávamos em um pequeno apartamento de um quarto na Bela Vista perto do trabalho dos meus pais, que saíam cedo e só voltavam no fim da tarde. Era cuidada por uma babá. Dessa época, apenas flashs, fotos e o que me contaram compõem o que tenho por lembranças. Até que, aos cinco anos, por um daqueles arranjos familiares inusitados, nos mudamos para a casa dos meus avós, que foram morar com meu tio Luís, na casa que ele havia comprado para viver após seu casamento, o qual ainda levaria um ano para acontecer. Oficialmente, meus pais também tinham comprado um apartamento, em Santana, perto da casa dos meus avós, mas a entrega atrasou. Assim, como eu estava na idade de ir para a escola e já queriam estar no novo bairro, houve essa dança das cadeiras e acabei naquela casa (que anos depois descobri não ser enorme), em uma rua sem saída repleta de crianças e possibilidades. Era uma casa térrea, com jardim de rosas e azaleias na frente, canteiros com horta e árvores frutíferas ao longo dos corredores laterais, e dois quintais nos fundos: o primeiro mais funcional, com área de serviço e varais logo na saída da cozinha e, subindo uma escada, outro destinado a vasos, cacarecos que não se tinha onde por e, muito importante, um portão de acesso tanto ao escadão, que levava à avenida lá em cima, como ao terreno baldio ao lado, propriedade da tia Mariquinha, irmã de minha avó. Com frente para a vila, a casa e o terreno eram parte da divisão de uma antiga chácara dos tempos em que a urbanização tomava forma naquelas bandas remotas da cidade e imigrantes, como meus bisavós, faziam a passagem da vida rural que trouxeram da Itália para a urbana em uma São Paulo ainda provinciana. A parte mais alta e nobre da propriedade, de frente para a avenida, foi destinada ao filho homem e abrigava as casas de meu tio-avô e de seu filho. Era 1970, ano em que o Brasil seria tricampeão de futebol e política era assunto proibido em reuniões familiares – não que eu soubesse algo sobre isso. Assim que mudamos, minha mãe deixou seu trabalho e foi o melhor acontecimento para mim até então, mesmo que hoje, se pudesse escolher, teria dito a ela para não fazer isso, pois o custo em longo prazo seria cruel. Na época, porém, significou ter à disposição a melhor mãe da rua. Minha mãe era jovem, cheia de energia e parecia estar em uma colônia de férias com suas crianças – eu e meu irmão um ano mais novo. Era a única que se dava com todas as outras mães, o que fazia da nossa casa um território que todas as crianças podiam frequentar e, eu e meu irmão, os únicos que podiam circular livremente pela rua e por todas as casas da vizinhança. Tenho certeza de que minha mãe sabia onde estávamos e o que estávamos fazendo, mas, em minhas recordações, era eu quem estava no controle. Não faço ideia de porque aquela mulherada brigava, mas presenciei cenas memoráveis de trocas de gentilezas a plenos pulmões no meio da rua ou por cima dos muros das casas. Era um mundo um tanto complicado para minha pouca idade, mas tenho o tabuleiro ainda nítido na memória: a mãe de Ísis e Ozires, que moravam em frente de casa, era rompida com os pais de Luci e Leandro, que viviam ao nosso lado. Estes trabalhavam fora o dia todo e os filhos não podiam sair para a rua ou falar com as crianças da frente. A mãe dos gêmeos (Davi e Douglas), que eu nunca consegui distinguir, era às vezes amiga e outras inimiga mortal da mãe de Bira e Téo, e protagonizavam os melhores espetáculos públicos, com berros e ameaças, acredito que por brigas entre os meninos, que faziam as pazes antes das mães acabarem a discussão. A mãe do Márcio era metida. Trabalhava fora e não gostava que o filho se misturasse com os demais, mas, como ele passava o dia com a avó, podia circular livremente desde que se recolhesse antes da mãe voltar. Ainda havia a Lia, que passava os dias fora (na casa da avó?) e só aparecia nos finais de semana, às vezes com uma legião de primas. E a Rose, que não podia sair, mas morava em uma casa com uma floresta nos fundos e um pai que passava o dia falando no rádio amador. No final da rua, havia um morro com uma trilha que levava à casa da Marli, com um grande jardim de frente para avenida, e vizinha à de meus primos, que eram um pouco mais velhos, mas, de vez em quando, desciam o escadão e se juntavam a nós. Na prática, a rua em si era território dos meninos, mas eu não percebia isso. Era a única menina a participar de todas as brincadeiras de pega-pega, esconde-esconde, guerras de mamona e a ter meu próprio carrinho de rolimã, feito por meu avô, com o qual descia a ladeira suave da vila, normalmente com mais dois ou três caronas a bordo. Às vezes, porém, a molecada resolvia jogar futebol. Na verdade, muito mais vezes do que eu gostaria. Não é que não me deixassem jogar, mas as peladas nunca me seduziram. Nessas horas, ia bater nas portas das meninas: amarelinha com a Marli, bonecas com a Ísis ou a Luci – nunca com as duas juntas -, aventuras mirabolantes na floresta da Rose, se bem que seu pai e o rádio amador fossem um tanto assustadores. E havia os melhores momentos de todos, quando todo mundo ia à minha casa, que, como disse antes, era território neutro ao qual todas as crianças tinham, em algum momento, autorização para frequentar. Era um mundo vasto, a única casa da rua que podia ser contornada pelos dois lados e ainda tinha o único acesso ao terreno baldio da minha tia-avó, que era nosso fornecedor
Dzi Croquettes ainda podem soar revolucionários

Conheci o Dzi Croquettes no cinema, quando assisti ao documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez (2009, inexplicavelmente fora do streaming). Fiquei encantada com aquele grupo de teatro e dança que fez gato e sapato da moral dominante no país nos anos 1970, em plena ditadura militar. A única referência que tinha deles era que meu sogro os viu no teatro, em São Paulo ou Rio (não sabemos), e ficou tão impressionado que meu marido nunca se esqueceu do pai contando. Por isso fomos assistir. Eis que agora, 50 anos depois do sucesso da trupe, Ciro Barcelos, na época o caçula da turma, leva aos palcos Dzi Croquettes Sem Censura, onde conta em primeira pessoa a história de um dos grupos mais revolucionários do teatro brasileiro. Na peça, Ciro interpreta a si mesmo, nos dias atuais, e Lennie Dale, o famoso coreógrafo e dançarino norte-americano que se radicou no Brasil e foi um dos líderes do Dzi. O elenco traz atores, cantores, dançarinos que interpretam cada um dos participantes originais do Dzi Croquettes, mantendo a irreverência e a androginia originais do grupo. Vestidos quase sempre de mulher, com maquiagens exageradas, mas mantendo corpos masculinos à mostra, nos lembram o quanto as barreiras rígidas entre os gêneros são artificiais e caretas. O espetáculo original (e o atual, para alguns, suponho) só soa escandaloso por conta disso. Se fosse interpretado por mulheres, seria normal. Seria uma reunião do meu Círculo Feminino de Leitura, com mulheres fantasiadas se divertindo, como retrato no livro Temos Fome, Somos Loucas. É muito mais do que apenas ser gay, hétero ou o que achar melhor. É sobre não se deixar rotular. Os Dzi Croquettes foram corajosos nos anos 1970 e fizeram merecido sucesso, até, possivelmente, algum milico desavisado ficar sabendo e resolver implicar com eles. Foram perseguidos pelo regime militar e levados a se exilar. Sorte dos europeus, que também puderam curtir seus espetáculos. Tinham fãs no mundo inteiro, do porte de Liza Minelli e Mick Jagger. A peça está no Teatro Itália até 27 de julho e tem potencial para também se tornar clássica.
Livro narra trajetória de clube de leitura formado por mulheres 50+

A narrativa bem-humorada, sensível e afetiva sobre a criação e trajetória de um clube de leitura formado por mulheres 50+, dão o tom em Temos fome, somos loucas, da jornalista e escritora Maura Campanili. Lançamento da estreante Editora Pitanga, a obra mergulha o leitor na história do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um grupo que, há mais de 15 anos, transforma encontros em rituais de amizade, escuta e liberdade. “A ideia partiu de uma das integrantes, a sexóloga Neise Galego, que queria ter um grupo de amigas para discutir os livros que lia”, explica a autora. “Ela chamou as irmãs e outras amigas e começamos. Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio modo de nos reunirmos. Uma coisa interessante é que, no início, imaginava que o grupo não duraria tanto e que perderíamos o interesse ao longo do tempo. E aconteceu exatamente o contrário. Nossos encontros foram ganhando mais importância e profundidade.” Temos fome, somos loucas é uma celebração da força do coletivo e da busca por sentido em meio ao cotidiano acelerado. Com encontros regados a livros, taças de prosecco e muitas gargalhadas, as integrantes do grupo desafiam a lógica da produtividade infinita e constroem um espaço de acolhimento, trocas profundas e resistência — inclusive à própria sanidade imposta às mulheres. A obra reúne relatos sobre os livros lidos, as experiências compartilhadas, os desafios de convivência e os impactos profundos desses encontros na vida de cada participante. Obras como A Menina da Montanha, de Tara Westover, e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, por exemplo, provocaram debates intensos sobre temas como extremismo, consumismo e identidade feminina. A política brasileira, e os embates ideológicos das últimas eleições no país, não ficaram de fora. “Um grupo que não seja impactado por temas políticos e sociais, ou é muito simplista ou propositalmente alienado”, reflete Campanili. “No nosso caso, tentamos discutir todos os temas, sem a necessidade de todas concordarem com todas. Em alguns momentos, até nos alteramos, mas temos, ao longo do tempo, aprendido a superar as diferenças. Acredito que todas nós fomos, por meio dos livros, nos abrindo para temas mais difíceis e nos tornando mais permeáveis.” Além de relatos intimistas e literários, a publicação traz uma relação dos livros discutidos e um guia prático para quem deseja formar seu próprio clube de leitura. Um dos símbolos do CFL é o grito de guerra que dá nome à obra, inspirado no livro Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, e no icônico discurso de Steve Jobs em Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Em Temos fome, somos loucas, Maura Campanili convida o leitor a espiar um universo onde o riso tem o mesmo peso da análise literária, e onde a leitura se torna um gesto radical de existência. É uma obra sobre criar tempo para si, reinventar laços e fazer da leitura um ato de afeto e subversão. “Gostaria de transmitir um pouco do nosso amor pelos livros e pelo prazer que eles podem trazer. E como pode ser libertador ter um grupo de amigas com o qual nos reunimos apenas por prazer. Mesmo hoje, a maior parte das mulheres vive sobrecarregada e culpada num mundo de obrigações – com trabalho, com o cuidado com a família, com as obrigações de ser bonita, inteligente, capaz e perfeita o tempo todo. Espero que o livro seja um convite a um pouco de hedonismo, um momento de diversão. Se somamos a isso, pelos livros, um espaço para intimidade e reflexão, o resultado só pode ser bom”, finaliza a autora. (Texto do release sobre o livro)
Vamos comprar um poeta

Fomos convidadas, em nosso mais recente encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL), a entrar em um mundo distópico no qual tudo é avaliado por sua utilidade, entendida basicamente por seu valor econômico. Neste lugar, poetas – e artistas em geral – são considerados supérfluos e comprados como se fossem pets para entretenimento familiar. Imbuídas de toda nossa “inutilidade”, algumas de nós foram com roupas “patrocinadas”, como a Claudia, toda de branco, com apoio Omo, ou minhas pantufas Pé Quente Bradesco. Nada na recepção preparada pela Edna era “inutilista”, como tudo o que não é numerável é definido no romance Vamos Comprar um Poeta, do autor português Afonso Cruz. Logo descobrirmos que nossos nomes foram reduzidos a letras e números que precisavam ser decifrados para acharmos nossos lugares à mesa. As iguarias servidas também apresentavam etiquetas explicativas: bacalhau (R$ 130,00 o quilo, “melhor apertar o cinto”); crispes de shitake importados (100g o pote, 10g por pessoa); queijo provolone (uma fatia, 30g, 100 calorias). Tudo estava catalogado, até nosso livro do mês, que pesava 13,3g. Antes de começarmos a reunião, deixamos nas caras umas das outras “um ou dois miligramas de saliva, ou beijos, se quiserem ser poéticos”, como elucidou a protagonista do livro, sem nome como, aliás, todos que aparecem na história. Fizemos isso, porque “dizem que é bom transacionarmos afetos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda, há quem acredite – é uma questão de fé -, que pode trazer dividendos.” Nivia foi transgressora nessa realidade não tão diferente assim da nossa, e apareceu vestida de poeta. Com isso, ganhou a prerrogativa de ser a primeira a apresentar seu talento “inutilista”, como nos pediu a anfitriã. Declamou um poema feito especialmente para a ocasião. Depois dela, as demais mostramos desenhos e pinturas, cantamos canções e lemos contos produzidos por nós como demonstrações do quando ter poesia na vida é essencial para nos tornarmos humanos. Conhecemos ali versões até então escondidas de algumas de nós, alargando a janela por onde vemos o mundo, como nos ensinou o poeta comprado e depois abandonado pela família na obra de Afonso Cruz. Felizmente, no CFL, concordamos com a descoberta da protagonista de que “a cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem”. E a criatividade também. Pode ser até que tenhamos exagerado, ao fazer um poema coletivo a partir de trechos do livro escritos em frente aos lugares de cada uma à mesa: “O mar é tão grande Que o bico dos pássaros leva às costas O horizonte na margem do olhar. Um segundo, uma eternidade Com pessoas constantemente receosas para ver o mar Além do infinito que desenhou um sorriso.” Francamente…
Clubes de leitura: revoluções individuais a partir dos livros

Quem me conhece sabe da importância que participar de um clube de leitura tem na minha vida. Especial para mim e para as demais membras, o Círculo Feminino de Leitura-CFL, ao invés de se tornar rotina, foi ganhando maior espaço em nossas vidas ao longo do tempo e transformou nossa maneira de ver o mundo. Por isso, ao receber da Nivia, uma de minhas companheiras de CFL, uma foto do livro Clubes de Leitura – Uma aposta nas pequenas revoluções (Solisluna Editora), de Janine Durand e Luciana Gerbovic, fiquei com coceira nos olhos e fui correndo comprar. As autoras escrevem a partir de suas experiências de mediadoras de clubes de leitura e abordam o potencial da literatura como caminho para libertação pessoal. Advocam que a literatura é um Direito Humano, mas pouco respeitado no Brasil. As duas são articuladoras do Programa Remição em Rede, que fomenta clubes de leitura em unidades prisionais para remição da pena por meio da leitura. Trazem depoimentos tocantes de pessoas transformadas pelos livros em presídios, escolas, comunidades. A obra é, ainda, quase um curso sobre a mediação de clubes de leitura, defendida com entusiasmo pelas autoras, o que me surpreendeu. O círculo do qual faço parte há anos não tem mediação. Participo eventualmente de um outro grupo com uma mediadora e gosto bastante, embora seja uma experiência bem diferente, quase uma aula sobre o livro discutido. Lendo Janine e Luciana, porém, percebi que temos, no CFL, uma mediação compartilhada entre as membras, construída ao longo do tempo de convivência. Acredito que nosso modelo é mais uma alternativa para multiplicar tanto a criação de clubes de leitura quanto para proporcionar a perenidade e a diversidade dos círculos.
Culinária pode ser central para saborear um livro

Cada encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL) tem uma característica especial que fica gravada em nossa memória coletiva. Neste “Fique Comigo”, de Ayòbámi Adébáyò, será a culinária nigeriana e sua indiscutível relação com os sabores que a África presenteou ao Brasil que ficará conosco por mais tempo. A partir das pesquisas da Neise, nossa anfitriã do mês, sobre os ingredientes e pratos citados na obra, mergulhamos em bolinhos de feijão que por aqui viraram o acarajé; usos múltiplos do inhame, tubérculo tão importante para os povos iorubá, etnia dos principais personagens do livro, quando a mandioca é para nós; e descobrimos que o quindim e o pavê de amendoim não têm origem em Portugal, mas na África. Esse mergulho gastronômico foi o pano de fundo da discussão de uma trama folhetinesca regada a tradições ancestrais ainda fortemente presentes na cultura de vários países africanos: a poligamia, o poder das hierarquias familiares sobre as vidas individuais, a necessidade imprescindível de deixar descendência e o julgamento moral sobre a mulher que não cumpre essa função. Todo esse peso cai sobre as cabeças do casal Yejide e Akin. Eles se conhecem e apaixonam na faculdade e logo se casam, com o compromisso de não se render aos costumes, sobretudo à poligamia, uma exigência de Yejide para embarcar na relação. Todas as promessas desmoronam quando os anos passam e ela não engravida, levando a família a impor uma nova esposa a Akin. A partir desse acontecimento arrebatador, a vida da empresária e cabelereira Yejide se torna uma montanha-russa de tragédias e reviravoltas, que incluem uma interminável gravidez psicológica. A turbulência familiar de Yejide e Akin acontece em meio à desordem política e social da própria Nigéria dos anos 1980, acontecimentos que se misturam na história, potencializando o enredo. Em “Fique Comigo”, a autora nos faz deparar com a subjugação da mulher por costumes que anulam (ou quase) as possibilidades de sororidade. Mesmo a heroína Yejide transfere a maior parte de sua revolta às outras mulheres e não aos homens que se “beneficiam” dessas tradições. O que não quer dizer que a vida dos homens seja mais fácil ou feliz. O que sobressai, porém, são as traições revestidas de amor, a capacidade de se reerguer a partir das decepções e do luto, e de enfrentar sentimentos universais de amor e perdão.
Conceição Evaristo traz prazer e incômodo na leitura de Ponciá Vicêncio

Ponciá Vicêncio foi minha primeira leitura de Conceição Evaristo e me trouxe, simultaneamente, duas sensações: uma de prazer, pelo texto conciso e, mesmo assim, poético da autora, que nos faz devorar a obra de um fôlego só; e outra de incômodo, ao seguir uma história de tristezas em série, que Evaristo não economiza. Desde o início, quando Ponciá, mesmo um bebê de colo, se recorda do enterro do avô e, mais tarde, imita seu jeito de andar, a autora anuncia um presságio inexorável no destino da menina. Destino esse que se cumpre, na pobreza persistente ao migrar para a cidade grande em busca de oportunidades, nos sete abortos, na falta de notícias da família, na violência do companheiro e, finalmente, nas ausências predestinadas desde a infância. Conceição Evaristo, em suas escrevivências, como denomina, faz de Ponciá e sua família um microcosmo desse erro de nascença brasileiro, forjado na violência da escravidão e enfrentado tão timidamente como sociedade ao longo dos últimos cento e poucos anos, que deixa pouca margem para sonhar. A começar pela questão agrária e relações de trabalho ainda coloniais e intocáveis, escancaradas no nome da vila e no sobrenome da família Vicêncio. E nos reflexos desse modus operandi também na cidade, onde o trabalho doméstico e braçal, praticamente a única opção dessas pessoas, não é nada melhor. No final, porém, quando tudo leva à mais absoluta desesperança, parece que Evaristo busca, no fundo da alma, uma luz no fim desse túnel praticamente impossível de atravessar. A partir de decisões inusitadas (a mãe ir para a cidade, o irmão não fazer justiça com as próprias mãos, Ponciá – mesmo sem força nenhuma – decidir voltar para sua terra) e encontros mais inusitados ainda, vemos a família de repente unida e voltando junta para casa. Mãe e filhos prontos para recomeçar, apesar de uma realidade sem novidades, contando apenas consigo mesmos e com a herança da memória dos seus.
Sobre a diversidade do DNA brasileiro

Aquilo que vemos nas ruas e em nossas famílias agora foi apresentado cientificamente. Publicado na revista Sciense na semana passada, o estudo Genoma de Referência Brasileiro mostrou que o país tem a maior diversidade genética do mundo. O levantamento, realizado pela USP e financiado pelo Ministério da Saúde, sequenciou, pela primeira vez de forma completa de em larga escala, o DNA de 2,7 mil brasileiros de todas as regiões, incluindo comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas, e encontrou 8,7 milhões de variações genéticas inéditas. Um dos principais objetivos do estudo é obter dados de saúde da população para pesquisas médicas mais específicas para o Brasil. Foram encontrados marcados de doenças como hipertensão, obesidade, colesterol alto, malária, hepatite, tuberculose, salmonelose e leishmaniose. O mais interessante da pesquisa, porém, foi evidenciar o processo de miscigenação ocorrido ao longo de 500 anos de história do país, a partir da chegada dos colonizadores europeus, tendo como base o genoma de seus habitantes. A ancestralidade brasileira mostra vestígios genéticos de povos indígenas exterminados durante a colonização e combinações e genomas africanos formados apenas no Brasil, como consequência direta do tráfico de escravizados. Diferenças entre as heranças genéticas maternas e paternas indicam que brasileiros têm linhagem paterna europeia e linhagem materna indígena e africana, comprovando a violência sexual contra as mulheres como fator preponderante na formação do povo brasileiro. Ainda comprovando o que vemos intuitivamente, a pesquisa mostrou a prevalência de genes indígenas na região Norte, africanos no Nordeste, e europeus no Sul e no Sudeste. O estudo apontou também uma tendência de “acasalamento seletivo”, ou seja, que as gerações mais recentes tendem a ter filhos dentro do mesmo grupo étnico. Na média, os indivíduos analisados apresentam em torno de 60% de ancestralidade europeia, 27% africana e 13% indígena nativa, esta última maior do que era esperado. Há, ainda, 1% de ancestralidade asiática. Não sei vocês, mas, para mim, confirmar que o Brasil tem uma diversidade humana tão rica quanto sua biodiversidade geral foi motivo de satisfação. Nossa genética reflete a riqueza cultural do país, motivo de orgulho e possibilidades. Por mais que nossa história não seja lá muito edificante, o resultado nos irmana: somos todos fruto de miscigenação. Esta colcha de retalhos genética, cuja história oficial tentou encobrir durante muito tempo, faz com que muitos brasileiros não consigam saber exatamente sua origem. Eu mesma, sei que tenho dois terços de ancestralidade europeia recente. Do restante, só um teste de DNA para comprovar. Uma hora mato a curiosidade e faço um teste. Meu marido, que tem o lado paterno da família bem mapeado, mesmo sendo gaúcho, é descendente do cacique Tibiriçá e do casal Potira e João Ramalho, ascendentes de grande parte dos paulistas chamados quatrocentões. Brinco com meus filhos me referindo ao líder indígena como vovô Tibiriçá. Parece engraçado, mas não é. Afinal, ninguém aqui acha que Potira se apaixonou pelo português degredado Ramalho, que deveria ser mais velho que o pai dela e o qual, diz sua biografia, provavelmente se “casou” também com outras filhas de Tibiriçá.
Saudade de descer ladeira de carrinho de rolimã

Fazia muitos anos que eu não via carrinhos de rolimã. Eles fizeram parte da minha infância. Morava em uma rua sem saída com uma ladeira suave, o suficiente para os carrinhos deslizarem sem que perdêssemos o controle. A descida terminava em uma esquina com muito pouco movimento. Não havia portões em vilas. Podíamos virar e descer ainda um pouco mais ou seguir em frente na mesma rua até o carrinho parar. Nunca tive um carrinho só meu. Ninguém dava carrinhos de rolimã para meninas naquela época. Pegava emprestado dos meninos da rua e do meu irmão. Um tio fez um pra ele todo vermelho, com uma cadeirinha com encosto. Era lindo! Mas eu precisava contar com a boa vontade do dono para usar. Pelo que me lembro, eu era a única menina da rua que andava de rolimã. Devia ter entre cinco e seis anos. Alguém tinha um bem grandão e descíamos uns cinco empilhados nele. Normalmente, eu por cima deles. Às vezes, saía toda ralada, mas fazia parte da brincadeira. Não participava das corridas, porque aí já era demais pra mim, os garotos enlouqueciam e minha competitividade não chegava a tanto. Aliás, nunca chegou. Depois que mudamos da vila, tenho a impressão de ter usado o rolimã vermelho algumas vezes, mas a nova rua tinha uma ladeira mais íngreme e um maior movimento de carros. Minha mãe acabou com a alegria. Não sei que fim deu ao possante. Nunca mais andei de rolimã. No início do mês, fui ao Museu do Ipiranga e, ao passear pelo Parque Independência, me deparei com uma ladeira repleta desses carrinhos, com pessoas de todas as idades pilotando. Fiquei encantada, pois achava que não existiam mais em São Paulo. Apesar de placas proibindo o aluguel, deu pra perceber que são apenas proforma. Lamentei estar de saia. Fiquei com vontade de voltar ao parque e tentar alugar um, mesmo sem a certeza de ainda ter coragem de me aventurar na descida. Museu A visita ao museu também foi uma ótima surpresa. A última vez que estive lá foi algumas semanas antes de ser fechado por conta de vazamentos e permanecer alguns anos à espera de reforma. Embora tenha demorado, a reformulação o deixou mais interessante como museu histórico, com a tentativa de trazer uma versão um pouco menos parcial do que a da elite branca a qual representava. Com explicações sobre o sentido do que está representado nos quadros e objetos expostos, o museu deixa claro que são um ponto de vista da história. Há, ainda, a intensão de ilustrar o modo de vida do brasileiro comum dos primórdios da colonização até os dias atuais, dando representatividade às diferentes culturas e etnias do país. Para além disso, o prédio continua bonito e imponente. Imagino seu impacto ao ser construído no final do século 19, em local tão remoto quanto era o Ipiranga. Sem planejar, estive lá no primeiro domingo do mês e descobri que, neste dia, mensalmente, a entrada é gratuita. Fica a dica.