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A Moça Sem Rosto, por duas moças com tudo de bom

Beleza e leveza caminham juntas em A Moça Sem Rosto – Uma jornada de possibilidades, livro da poetisa (entre tantas outras coisas, como ela se define) Sandra Quinteiro e da ilustradora (também multiatividades) Juliana Cardozo, editado pelo selo Afins, que acaba de ser lançado. A obra é uma jornada poética de autodescoberta. Uma fábula contada em versos e imagens sobre a busca pelo essencial, o encontro consigo e com o mundo ao redor. Difícil dizer o que emociona mais, se as palavras ou os desenhos que as inundam de significados. Tive a alegria de ser convidada por essas duas amigas artistas para fazer a Apresentação do livro, que reproduzo aqui como um convite para que leiam o livro e conheçam os trabalhos das autoras: “Foi ao redor de uma fogueira, em uma noite de aconchego no Germinar, formação da qual a Sandra Quinteiro é uma das idealizadoras, que a ouvi declamar A Moça Sem Rosto. E ali, naquele clima de comunhão, tive o privilégio de assistir ao nascimento da ideia deste projeto de coautoria com a Juliana Cardozo, que reflete o talento das duas artistas. Conheci a Sandra em um Fórum de Confiança entre Mulheres e logo me identifiquei com seu jeito ao mesmo tempo gentil e firme em suas colocações. Foi ela quem primeiro me apresentou a antroposofia, a filosofia que norteia sua procura constante por um conhecimento profundo do ser humano, da natureza e do universo. Mais tarde, descobri a poetisa e declamadora, que sempre me emociona, e a facilitadora com quem mergulhei em um mundo mais sábio, tolerante e diverso, onde o autoconhecimento me fez entender um pouco mais sobre mim mesma e sobre o mundo. Participando do Germinar, também conheci a Ju, companheira de caronas e papos sobre a busca de novos caminhos profissionais e como criar impacto na sociedade. E uma ilustradora com a sensibilidade à altura da escrita da Sandra. Versos e traços integrados, presenteando beleza e despertando os sentidos.”

Tietar não é preciso, mas é legal!

A imensidão das águas do Rio Negro e suas ilhas de florestas alagadas me proporcionaram uma das experiências mais incríveis da vida. E não estou falando de estar na Amazônica, que sempre me emociona pela biodiversidade, cultura e gentes, mas de passar algum tempo junto de escritoras das quais sou fã, poder ouvi-las, conversar com elas e me permitir até tietar um pouquinho. Está aí uma vantagem de envelhecer: perder o excesso de compostura que me impediam de me aproximar de pessoas que admirava por medo de incomodar e vergonha de me mostrar. Participar da expedição Navegar é Preciso era um sonho acalentado há anos, que se tornou imperativo diante da seleção de autores anunciados. Iniciativa da Livraria da Vila, a viagem junta leitores apaixonados, isolados por quatro dias em um navio (sem internet), para trocar ideias e afetos com seus escritores favoritos, enquanto se embrenham em uma das paisagens mais lindas e remotas do país. Todos no mesmo barco (desculpem, não resisti ao lugar comum), fingimos ser super natural fazermos passeios, refeições, nadar e dançar com aqueles cuja intimidade só tínhamos por meio de seus personagens ou pensamentos que dividiram conosco através de seus livros. Descobri que Socorro Acioli é uma das criaturas mais divertidas e com as tiradas mais espirituosas que já conheci. Merecia um programa de entrevistas na televisão (#ficaadica). Mariana Salomão Carrara é uma amigona de suas amigas, daquelas que todo mundo quer ter. Eliane Marques é firme e aguerrida, mas um doce de pessoa e uma dançarina e tanto. Vera Iaconelli tem uma família linda, com filhas tão bacanas quanto ela. Zelia Duncan é tão simpática e gente boa quanto eu imaginava. E o Jeferson Tenório é menos sério do que achei na conferência que assisti no Instituto Vera Cruz e um paizão daqueles de emocionar. Não saí de lá best friend forever de nenhum deles como prometi para minhas amigas, mas os admirando um tantinho mais. Conheci, ainda, entre os viajantes, pessoas com muita coisa em comum, que espero levar para sempre. E trouxe uma vontade de, quem sabe, repetir a dose em uma próxima oportunidade.

Carta ao narrador do romance Memórias do Subsolo, de Dostoiévski

Caro Homem do Subsolo, Você não me conhece, mas como lavou sua alma em público, eu te conheço um pouco. Aliás, conheço várias pessoas parecidas com você, e olha que 100 anos separam o seu nascimento (mesmo que aos 40 anos) do meu. Vivo mais de 150 anos à sua frente, e sou obrigada a concordar com sua insatisfação com o gênero humano. Esse tempo que nos aparta só fez reforçar sua tese sobre não sabermos fazer boas escolhas, nem para o coletivo, nem para nós mesmos. Temos hoje uma lista enorme para acrescentar às suas queixas: duas guerras mundiais com crueldades inimagináveis e, apesar disso, várias guerras inexplicáveis correndo soltas. Para piorar, agora, todos participamos delas, pelo menos olhando as terríveis imagens em tempo real. Além disso, temos um planeta devastado por nossas atividades. Neste momento, por causa delas, ocorre a mais rápida extinção em massa de espécies da história do planeta e mudanças climáticas agravam a situação de precariedade e violência inerente aos humanos. Não temos freios, tampouco motivos para otimismo. Você também é um vanguardista. Seu individualismo e, ao mesmo tempo, sua presunção de ser visto a qualquer custo (hoje diríamos “falem mal, mas falem de mim”) são muito modernos. Atualmente, pouquíssimos somos diferentes disso. O filme O Mundo Depois de Nós, da Netflix é um exemplo disso ao terminar com uma menininha – que passou a história toda tentando ser ouvida, sem sucesso -, diante do fim do mundo, escolhendo assistir sozinha a uma série boba de televisão. Tenho certeza de que esta seria sua opção também, mesmo que você não saiba o que é um filme, a Netflix, nem que os acontecimentos por aqui, agora, não têm repercussão por mais de alguns dias. Sua reação às questões inerentes à nossa espécie, porém, me parecem equivocadas e ignóbeis (aliás, termo que pessoas como você adoram usar). Não que você seja único, como quer demonstrar. Todos nós, em alguns momentos, temos esse comportamento vil, que inclui exercer pequenos poderes para prejudicar e constranger pessoas, apenas para nos vingar da própria mediocridade da existência. Alguns, porém, escolhem lutar contra esse instinto que nos trouxe até aqui. Não é uma escolha fácil, mas a que torna nossa permanência suportável (e a das demais pessoas também). Gosto das justificativas dadas para essa escolha por duas pessoas que admiro muito. O líder indígena e pensador Ailton Krenak, em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, aborda a raridade da existência, no universo, de um planeta que possibilitou a vida e de estarmos aqui. Defende que fomos convidados para uma festa cósmica improvável e, somente por isso, devemos ser gratos e fazer nosso melhor. Nurit Bensusan, bióloga e escritora, me salvou de sucumbir à desesperança, durante os anos nefastos de extrema direita e covid juntas que assolaram o Brasil, com sua tese sobre o imperativo ético. Para Nurit, é esse imperativo ético que nos faz continuar a fazer o que achamos certo, mesmo sabendo o quão poucos resultados (às vezes nenhum) terão nossas ações. Para pessoas ressentidas como você, essas ideias podem parecer pueris, mas garanto que tornam a vida mais leve e nossa breve passagem por aqui pelo menos um pouco gratificante. Nem sempre é simples, em alguns momentos parece mesmo impossível. Qualquer página de jornal está aí para não me deixar mentir. Precisa ser um propósito diário, mas, mesmo assim, acredito que valha a pena. O contrário disso é amargor e solidão. Aliás, é a lembrança da solidão que me faz ter certeza de estar certa ao escolher a leveza. Além de você, conheci recentemente um outro personagem/autor, mais contemporâneo, com esse tipo de irritação gratuita (ou, pelo menos, exagerada). Em Derrubar Árvores, Uma Irritação, de Thomas Bernhard, o narrador é tão pernóstico em relação aos demais personagens que vomitei antes de terminar a leitura. Ao destilar sua baixa estima por todos os demais, o personagem exala tanta infelicidade, que ela irradia para quem está ao seu lado na história ou apenas lendo o livro. Embora o título do livro não tenha ligação direta com o tema, pensei naqueles que derrubam árvores (e garimpam e grilam terras e perseguem mulheres e índios e negros e pobres e gays) somente para aplacar sua insatisfação de estar no mundo e tornar a vida de tantos insuportável, em um looping difícil de interromper. A cada dia, ao me levantar da cama, me exercito para não ser como estas pessoas, me esforço em suavizar minha reação ao que é mau, sem me tornar alienada ou desiludida contumaz. Como já disse, não é fácil, mas acho que você também deveria tentar. Abraço, Maura

Transição

A imagem estática no espelho mostrava uma mulher sem idade. Os cabelos crespos, um tanto grisalhos, modulavam o rosto sério, mas sereno, levemente assimétrico. Prestando bastante atenção, dava para ver o tremor fugidio no olho direito. O contorno da face começava a perder a forma, e a falta de tônus, principalmente ao redor da boca, era mais aparente do que as rugas, quase inexistentes na ausência de movimentos. Os olhos, o nariz e a boca eram pequenos, mas não destoavam do tamanho da cabeça. Ainda se reconhecia naquela moldura à sua frente. Sorriu. Ao fazer isso, algo se quebrou. O espasmo discreto se estendeu do olho para toda a face direita, repuxando a boca e deixando a pálpebra cair. A expressão tornou-se irônica, e preferiu fechar os olhos e apenas sentir os movimentos involuntários, agora parte de quem era. Repetiu seu mantra matutino — o importante é ter saúde, envelhecer faz parte da vida — sem muita convicção. Faltavam exatamente seis meses para completar 60 anos. Se deu conta de que as projeções feitas ao longo da vida nunca haviam chegado a esse ponto. Quando criança, havia as conversas sobre o final do mundo no ano 2000, conforme profetizara Nostradamus. Lembrava-se das discussões noturnas na cama de casal que dividia com as primas, quando dormiam na casa da avó nos fins de semana, ou após a escola com os amigos, no escadão que ligava sua rua a uma outra abaixo, o qual não deveriam frequentar por ser inóspito, mas por isso mesmo ideal para conversas sérias. Contava nos dedos para ter certeza e, ao se certificar que teria 36 anos na mudança de século, ficava aliviada. Vou ser uma velha até lá, dane-se o fim do mundo. Depois fez planos para se formar, ter uma profissão e não ser dona de casa como as mulheres adultas do seu entorno. Queria ser linda, ter sucesso, encontrar alguém para dividir a vida e criar uma família. Em algum momento, acreditou que ajudava a salvar o mundo com seu trabalho e ativismo em organizações socioambientais, e a militância tomou grande parte de seu tempo, deixando um pouco de lado as pretensões de sucesso e independência. Encontrou o amor, educou os filhos. Olhando para trás, alguns dos projetos se realizaram, outros não. Perdeu a ilusão quanto à sua influência fora de seu espaço íntimo, o mundo se vira sozinho, mas o que fazer com este terço de vida pendente? Finalmente, era livre como nunca foi, mas se sentia paralisada, sem saber o que desejar. A resposta não estava no espelho. Se vestiu e foi ao parque caminhar em pleno meio da manhã. Estava mais quente do que esperava, a luz chapada do verão atravessando as árvores tornava o caminho um tanto dramático, é o sol ou sou eu? Pensou nos filhos crescidos e já fora de casa, no trabalho para o qual dedicou 40 anos, mas que não a satisfazia mais, nas novas atividades começadas sem objetivos claros. Será necessário propósito? Seu estado melancólico, tinha consciência, vinha dos braços doloridos pelas duas vacinas tomadas no dia anterior e do regime alimentar iniciado há duas semanas para perder peso. Eram parte do combo de mudanças que vinha se instalando lentamente em seu corpo: um metabolismo falho, insônia, cansaços súbitos e falta de concentração. O déficit de proteínas detectado nos exames e o tratamento dos espasmos faciais a levavam a se confrontar com antigos preconceitos e se render a soluções antes impensadas: suplementos alimentares, ansiolíticos, aplicações periódicas de botox no rosto. A vida já não era a mesma, mas, afinal, quem disse que será pior?, pensou. Aos poucos, seu estado de espírito se acalmou. Voltou do parque cantando, almoçou sua refeição de calorias controladas, vestiu uma das calças que estavam apertadas e voltaram a ficar bem. Nenhum compromisso era obrigatório ou tinha prazo. Foi ao shopping. Viu vitrines e, contrariando a sensatez habitual, comprou três vestidos de uma vez. Sem óculos, na luminosidade precária do provador, achou que estava ótima. *Texto publicado na Antologia 2024, da Pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz.

O que podemos fazer sozinhos em uma ilha

Uma peça de teatro aonde você vai sem saber quem será o ator que interpretará o texto. Essa é a proposta de “Coro dos solitários, ou Sonhamos ser Robinson Crusoé”, da Cia de Teatro Acidental. No espetáculo, duas atrizes e dois atores começam em cena, mas, tal qual o Robison Crusoé de Daniel Dafoe, sofrem um naufrágio e apenas um sobreviverá e chegará à ilha deserta. Para saber qual deles será, é realizado um sorteio ao vivo. À medida que seus números vão saindo, os demais se retiram de cena deixando o último no palco. Sozinho. Nesta condição, o náufrago da vez começa sua conversa com o público e consigo mesmo sobre sua solidão, e a de todos nós. A solidão de estar sozinho e a de estar em multidão. Aquela que reconhecemos e a que fingimos não reparar. Saímos do espetáculo nos sentindo um pouco Robinson Crusoé. Essa percepção é forte a ponto de minha filha e eu passamos todo o caminho de volta do teatro conversando sobre o que assistimos: desejamos companhia, mas não temos paciência para entender o outro; tememos o outro, mas precisamos dele; ficamos seguros e em paz conosco mesmo, mas somente por pouco tempo. O texto do espetáculo é do ator e dramaturgo Artur Kon, meu amigo de pós-graduação no Vera Cruz. Por isso, eu já havia lido uma versão dele na nossa oficina. Infelizmente, Artur não foi o sorteado da vez para interpretá-lo, mas a experiência com outro ator foi tão boa quanto. O espetáculo ainda estará em cartaz neste final de semana, de quinta a sábado, às 19h e às 20h30, e domingo, às 18h e às 19h30, no TUSP Butantã, na USP. E é gratuito. Recomendo muito. P.S. – Acabei de ler o artigo “O que esperamos do amor?”, da coletânea Felicidade Ordinária, da Vera Iaconelli, que dialoga com o tema da peça ao abordar a projeção que colocamos no outro como responsável por nossa felicidade e capaz de apaziguar nosso vazio: “Acreditar que nossa solidão estrutural pode ser aplacada pela presença do amante é outra fantasia que o amor insiste em contrariar. Em nossa época, o amor teria a vocação de ser apenas a contingente e fugaz trégua na incontornável solidão humana. A mim, soa suficientemente bom”. E, se a solidão é inexorável, saibamos ser sós.

Em grupo, a leitura é mais transformadora

Ler um livro costuma ser um ato solitário, individual. Mas quando se tem a oportunidade de expandir essa experiência de modo compartilhado, aumentamos seu poder de entendimento e transformação. No caso da literatura, a expectativa da troca já torna a leitura especial. Essa é a essência dos encontros mensais do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Sabemos que nossas impressões sobre a obra do mês serão aprofundadas, modificadas e vivenciadas em discussões e atividades surpreendentes. Em nosso último encontro, o protagonista da noite foi “A árvore mais sozinha do mundo”, da Mariana Salomão Carrara, no qual a autora dá vida a uma árvore, um espelho, um carro e uma roupa de proteção para nos contar, de pontos de vista diferentes, o cotidiano de uma família de pequenos produtores de fumo no Rio Grande do Sul. Apesar da identificação com o tema central do livro, focado na crueldade da indústria fumageira e suas consequências em todos os aspectos das vidas dos personagens humanos da história, tive um pouco de dificuldade de me entregar à narração dos observadores humanizados. Ouvir as opiniões de minhas amigas, que entraram completamente na proposta da autora, me ajudou a rever algumas de minhas ideias iniciais e, principalmente, a me conhecer melhor. Para tanto, a leitura de trechos escolhidos com antecedência por cada uma, a pedido de nossa anfitriã Claudia, foi tão importante quando a produção feita por ela de um cenário com objetos, cores e sabores das personagens – o pêssego em calda foi quase uma abdução para aquela casa pobre, rodeada de tabaco e veneno, mas também entendida de amor (como constata a árvore solitária) e em busca de doçura, travestida em compotas de pêssego que complementavam a renda familiar. Colaboraram, ainda, a Neise e a Kátia vestidas de árvores e a Nivia enfeitada de espelho, além de trocarmos ideias com um espelho, e tentarmos nos imaginar como seres inanimados ou não humanos observando o mundo. Tivemos também a bela pesquisa da Claudia sobre a cultura de tabaco no Brasil (somos o segundo maior produtor e o maior exportador dessa cultura que só serve pra piorar a saúde de quem produz e quem usa), a análise literária da Dóris, as memórias de família da Marli no interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as tiradas bem-humoradas da Wal, da Edna e da Laura: estávamos inspiradas. Acho que essa é a mágica que a literatura conjugada à amizade faz.

A memória como resgate histórico e de afeto

Acaba de ser publicado na revista Cadernos de Pesquisa da Escola da Cidade (edição 17) um artigo da minha filha Adriana. Resumo do TCC em Arquitetura, é resultado de sua pesquisa sobre a vida do avô arquiteto, que ela não conheceu – só esteve com ele uma vez, aos seis meses de idade. Em “A trajetória de um arquiteto comum: dimensões da prática de Alfredo Porto Alegre (1939-1999)”, ela busca abarcar o campo profissional de sua atuação na arquitetura e urbanismo entre meados dos anos 1960 e 1999, quando faleceu. Em que pese meu orgulho de ver um artigo da minha filha aceito em uma revista acadêmica, acredito que preservar memórias, sejam pessoais, familiares, de uma profissão, de um povo ou país é uma atividade pouco usual na nossa cultura. Essa falta parece ajudar a distorcer fatos, trazer de volta posicionamentos controversos, vestidos com roupas trocadas. Além disso, costumamos valorizar apenas as histórias daqueles que foram incomuns, que ficaram famosos, dificultando a compreensão de como nossa sociedade foi realmente construída. Por isso sua pesquisa é importante. Nessa investigação, apesar da narrativa trazer as realizações profissionais do meu sogro, a discussão não diz respeito unicamente ao resgate de sua história, “mas sim a uma tentativa de preencher lacunas historiográficas dos arquitetos ‘comuns’ que não pertencem aos cânones da arquitetura moderna do século XX”. No final das contas, como Adriana mostra, nenhuma trajetória é comum. No artigo, ela apresenta a pluralidade profissional do avô, passando pela sua atuação como arquiteto assalariado, a especialização em arquiteturahospitalar, o trabalho no funcionalismo público e, em paralelo, seu engajamentoem instituições de representação profissional, como o Conselho Regionalde Engenharia e Agronomia (Crea), do qual foi o mais jovem presidente no Rio Grande do Sul; o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e o Sindicato dos Arquitetos do Rio Grande do Sul, do qual foi um dos fundadores, em plena ditadura militar. Em sua pesquisa, que envolveu visitas a diversos órgãos e arquivos, além de entrevistas com pessoas da vida familiar e profissional do avô, ela ajuda a contar um pouco da história da arquitetura brasileira e constrói um vínculo pessoal com alguém que teria uma profunda afinidade se a finitude precoce não tivesse interrompido essa possibilidade.

Como seria reescrever a própria vida?

O que você faria se pudesse voltar atrás nas diversas decisões que tomou ao longo da vida, vivenciar seu presente a partir dessa mudança e escolher entre a vida que tem hoje ou uma das alternativas possíveis? Essa é a premissa de A Biblioteca da Meia-noite, de Matt Haig, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Na narrativa, a protagonista Nora tenta o suicídio e permanece em uma espécie de purgatório, ou multiverso, no qual experimenta várias das vidas possíveis que poderia ter tido. Mesmo sendo um tanto previsível e ter um quê de autoajuda disfarçada, é um texto gostoso de ler, como uma minissérie de televisão. Aliás, parece que logo o enredo se transformará nisso mesmo. Para quem não quer esperar e prefere uma leitura leve, apesar da temática pesada, o livro inspira a pensarmos em nossas próprias escolhas e as consequências imaginadas e imprevistas de diferentes decisões. O mais interessante, na minha opinião, é que somos muito bons em fantasiar o futuro brilhante que teríamos em caso de opções alternativas em nosso passado, mas dificilmente incluímos na conta o que aconteceria com o resto do mundo, sobretudo as pessoas próximas, por causa disso. Aquele tal “efeito borboleta”. Por exemplo, se tivéssemos terminado o namoro antes de nos casarmos, qual seria o futuro do nosso/a parceiro/a ou como seria o mundo sem os nossos filhos, pois, mesmo que tivéssemos filhos, não seriam “esses” filhos. Ou se tivéssemos aceitado aquele trabalho do outro lado do mundo ao invés de ficar para cuidar da nossa mãe velhinha. O que teria acontecido com ela? Esses foram dilemas que a personagem de Haig enfrentou e sobre os quais nos dedicamos a especular no CFL, na maior parte das vezes confirmando que gostamos de nossas escolhas, mesmo que às vezes as questionemos em alguns momentos. A vida vivida é sempre um presente construído pelo acaso, pelas nossas opções e pelas oportunidades dadas. Imaginar que podemos direcioná-la exatamente como queremos é, no mínimo, ingenuidade.

O mundo chama pela sabedoria das avós

“A Ciranda das Mulheres Sábias – Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem” é da mesma autora de “Mulheres que Correm com Lobos”, um clássico sobre os arquétipos femininos. Neste outro livro, Clarissa Pinkola Estés se debruça no poder da mulher madura, onde “instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados”. É um convite às mulheres maduras, as avós de todos, para que compartilhem seus conhecimentos com as mais novas e usem sua sabedoria para fortalecer o mundo, para que sejam “as pedras de toque, as notas fundamentais, os paradigmas necessários”. Chegando neste momento da vida, me senti chamada a procurar por esse poder, do qual, segundo a autora, “não sabemos dizer com muita precisão onde e como tudo isso ocorre. A poesia faz-se necessária para explicar a força vital de uma mulher: a dança, a pintura, a escultura, os ofícios do tear e da terra, o teatro, os adornos pessoais, as invenções, escritos apaixonados, estudo em livros e nossos sonhos, conversas com outras que sejam sábias, o atento intuir, refletir sentir e pressentir…”.

A memória é o grande tema do livro Ainda Estou Aqui

O sucesso do filme Ainda Estou Aqui, com seus múltiplos prêmios e indicações ao Oscar, comprovam a escolha certeira do diretor Walter Salles na abordagem escolhida na adaptação do livro. Quase tudo já foi dito sobre sua atualidade, qualidade e importância para o resgate da história brasileira. Ao ler o texto de Marcelo Rubens Paiva, no qual foi baseado, porém, fiquei encantada com a quantidade de camadas do livro. Outros filmes, igualmente bons, poderiam ser inspirados nele. Para alguém como eu, que convive há quase 20 anos com uma mãe perdendo lentamente a memória e a personalidade, sabendo como a demência rouba seu ente querido aos poucos, em uma marcha inexorável sem prazo para acabar, o relato de Marcelo emociona a cada detalhe de suas indagações, pesquisas e constatações sobre o Alzheimer. O resgate amoroso da história de uma mulher inteligente e forte, pelo filho que nada pode fazer para impedir que ela vá se tornando frágil e incapaz de gerenciar a própria vida é um retrato da situação vivida por tanta gente hoje em dia. Um drama que, mesmo sem os vilões sádicos da ditadura militar, corrói famílias impotentes diante da situação. A demência de minha mãe é consequência da retirada de um tumor cerebral há muitos anos, embora os sintomas sejam muito semelhantes ao Alzheimer. Mesmo que hoje ela reconheça cada vez menos pessoas e fale quase nada com sentido – na maior parte do tempo repete nomes de cores: verde, verde, verde, azul, azul, azul -, de repente, olha para televisão e faz uma observação coerente, “este homem é mal”, para um vilão de novela, ou “coitadinhos”, para vítimas de enchentes no telejornal. E sentimos a mesma angústia de Marcelo em relação à Eunice Paiva. Ambas as mães (e tantas outras) ali, em seus mundos particulares, ao qual ninguém tem acesso, a dizer “ainda estou aqui”. Está mesmo? Está onde? É possível resgatá-la? Aos 90 anos, também meu pai começa a apresentar os sintomas de senilidade, a memória recente já é quase nula e não consegue gerenciar mais suas coisas. Nunca imaginei passar por um drama desses com pai e mãe ao mesmo tempo. A capacidade de Marcelo Rubens Paiva de trazer duas questões tão prementes relacionadas à importância da memória, a coletiva e a individual, para a sociedade contemporânea, talvez seja o maior mérito do livro. Vermos um mundo, há apenas 80 anos saído da mais cruel das guerras, voltar a se encaminhar para pensamentos e, possivelmente, regimes fascistas, é tão cruel quando vermos nossos velhos sobrevivendo sem entender o que estão fazendo aqui.