Prefiro falar com gente de verdade

Gostaria de ser atendida por humanos inteligentes e não por inteligência artificial, sobretudo quando quero marcar um exame. Podem me dizer que a tecnologia vai se aperfeiçoar, espero que sim, mas, por enquanto, nada como um ser biológico pensante como interlocutor, para o qual possa explicar o que preciso. Marcar meu checkup anual costumava ser algo bem simples. Ligava para um laboratório, apertava o número para falar com o atendente, ditava os exames que precisava e ele agendava todos, normalmente no mesmo dia e na mesma unidade. Atualmente, a tarefa se tornou um ato de paciência sem garantia de sucesso. Na verdade, esqueça o telefone. Você vai ter que ouvir uma infinidade de perguntas, digitar um número idem de respostas e digitar seus dados. Quando chegar a hora de falar com alguém de carne e osso, passará a ouvir a famosa musiquinha até cair a ligação. Será obrigado a agendar via site. No site, será instruído a fotografar seus exames e terá que preencher novamente seus dados (CPF, plano de saúde), às vezes os nomes dos exames, quando a máquina não conseguir ler. Em alguns laboratórios, essa fase já foi tão complicada, com muitas voltas e mal-entendidos, que você já desistiu. Em outros, vão te encaminhar para um Whatsapp para “completar” o atendimento. Isso significa começar tudo de novo, com uma atendente (sempre com nome de mulher) digital. “Ela” vai te pedir tudo novamente: dados, fotos dos exames, todos os dados do seu plano de saúde E a foto da carteirinha do plano de saúde, que já tem todos os dados solicitados. Depois disso, a “atendente” vai pedir para você escolher uma unidade do laboratório e marcar alguns dos exames que você pediu, aqueles que ela entendeu o que é ou os que têm na unidade que você solicitou. Se você tiver alguma dúvida e perguntar algo fora do protocolo, vai começar tudo novamente. Depois dos exames marcados, você recebe por e-mail a confirmação – se tiver sorte (a depender do laboratório) vem a relação de exames efetivamente agendados – e as instruções para o preparo. Alguns pedem para você confirmar o agendamento via e-mail e/ou whatsapp. Quando você, finalmente, chega ao laboratório no dia marcado, pega uma senha para ser atendido. Nesse momento, normalmente, também pedem seus dados, que serão novamente solicitados quando chegar sua vez no guichê. Lá chegando (talvez seja apenas azar meu, mas acontece sempre), descobre que alguns dos exames não foram agendados, porque não estavam escritos exatamente como a atendente virtual entende. Na última vez que passei por isso, ainda descobri que o pedido da mamografia precisava ter um código de diagnóstico médico para ser aceito por meu plano de saúde. Já é um absurdo a necessidade de explicações para um exame que se deve ser feito anualmente como rotina – se eu for falar dos planos de saúde, melhor escrever um livro. Mas, se enviei os pedidos médicos mais de uma vez para o laboratório, um humaninho possivelmente teria me alertado disso e eu não teria que ficar mais uma hora no laboratório aguardando minha médica poder me reenviar o pedido médico. E olhe que ela conseguiu. Estou rabugenta? Estou. Muito. E poderia ficar aqui reclamando um dia inteiro. Sei que a promessa é que a IA vai ficar mais inteligente, mas prefiro pensar que logo, logo, as empresas vão fazer propaganda dizendo “venha para cá e fale com gente de verdade”. Eu vou correndo.
Limpeza urbana é bom para o turista e a cidade

Manaus tinha tudo para ser uma cidade incrível. Fica às margens de um dos rios mais lindos do mundo, o Negro, e é o local onde ele se encontra com o Solimões formando o rio Amazonas de um jeito único, correndo juntos uma grande distância sem que suas águas se misturem. Eu fiquei boquiaberta quando vi o fenômeno na primeira vez que cheguei de avião à cidade. Além disso, é cercada pela floresta amazônica, o que dispensa comentários, e cortada por uma infinidade de córregos ou igarapés. Tem um centro histórico com um bonito conjunto arquitetônico do tempo da Borracha, com o Teatro Amazonas como a joia da coroa. Pelo menos uma bela praia de rio, a Ponta Negra. Uma culinária original e saborosa. É a maior metrópole no Norte do país, com mais de 2 milhões de habitantes, por onde não se chega por estradas, apenas pela água ou pelo ar. Poderia ficar enumerando outras coisas extraordinárias sobre a cidade, mas é impossível visitar Manaus e abstrair o tanto de lixo que se espalha pelas ruas, praças e rios manauaras. Por mais que se tente não olhar, o volume de resíduos por todo o canto chama o olhar do turista e se torna tema de conversas entre as pessoas, pelo menos no grupo de todo o Brasil com o qual eu estava, nesta última estada na cidade. Não sei dizer o que pensam os estrangeiros que chegam ali. A falta de saneamento básico não é um privilégio manauara, é um flagelo brasileiro. Segundo o Ranking do Saneamento 2024, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os serviços básicos das 100 maiores cidades do país, Manaus ocupa a 86ª posição, figurando entre os 20 municípios com os piores índices. Atualmente, mais de 1,5 milhão de manauaras não têm acesso à coleta de esgoto, e apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade é tratado. Pouca gente associa, porém, os resíduos urbanos entre os quatro pilares do saneamento básico: água tratada, esgotamento sanitário, drenagem urbana e coleta e tratamento de resíduos sólidos. Considero os resíduos sólidos como a sala de visitas de uma cidade. Todo o saneamento é importante, mas o lixo espalhado é o mais visível e, me parece, o mais fácil de resolver. Quando um rato morto permanece todo um fim de semana na esquina mais turística de uma cidade (em frente ao teatro Amazonas em sua época de óperas e a um restaurante), há algo que precisa ser pensado. A cidade padece ainda de uma característica forte brasileira, que é reabilitar espaços fazendo grandes obras sem pensar em sua manutenção. Ano passado, Manaus inaugurou uma parte do que chama de programa de recuperação de seu centro histórico. O complexo conta com o mirante Lúcia Almeida, largo de São Vicente, casarão Thiago de Mello e Píer Turístico. O mirante é o principal atrativo do local e conta com piso transparente para dar a sensação de que estamos andando sobre o rio Negro. O problema é que ao olhar para baixo, há mais lixo boiando no rio do que água. Nada disso quer dizer que não gostei ou não recomendo a visita a Manaus. Apenas a considero um exemplo da falta de visão de oportunidades que vejo nas cidades brasileiras. Tanto em termos de potencial turístico e econômico quando em prevenção às mudanças climáticas. Imagina uma enchente em Manaus, como a de 2021, com aquele tanto de resíduos espalhados com a maior parte da população vivendo em palafitas. Desastres climáticos, como seca, estiagem e excesso de chuvas, causaram perdas de R$ 732,2 bilhões entre 2013 e 2024 às cidades brasileiras, segundo um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. Só no ano passado, as tragédias climáticas causaram um impacto negativo de R$ 92,6 bilhões. Em 12 anos, 95% dos municípios do país já foram atingidos ao menos uma vez por algum tipo de desastre. Nesse período, mais de 5 milhões de pessoas ficaram desalojadas, 1 milhão desabrigadas e quase 3 mil morreram. É por isso que falar sobre saneamento básico não é uma questão estética, para turista ver, mas essencial para a própria existência das cidades nos tempos que vêm por aí.
O apocalipse, agora, é quântico

A primeira conta em banco que abri, no início dos anos 1980, foi no Banerj. Não por algum amor especial pelo Rio de Janeiro, mas porque era a agência mais próxima da minha casa – e mesmo assim demandava uma pernada. Recebia mensalmente meu módico salário e levava o cheque para depositar. Na agência, o caixa verificava o cheque, pegava minha ficha em um fichário e preenchia à mão o meu saldo, que seria depois confirmado, quando o cheque fosse descontado. Normalmente, se houvesse saldo, eu também sacava algum dinheiro, pois era com ele que se pagava quase tudo. Pode parecer um perrengue, mas suponho que era quase assim desde que existe banco e todo mundo sobrevivia bem. Desde então, as coisas foram se complicando, ou facilitando, conforme o ponto de vista. Os saques passaram a ser feitos em máquinas, as contas a ser pagas online, o cheque e o dinheiro substituídos pelo cartão ou celular, e cada um se adaptou como pode. Meu pai, por exemplo, nunca se adaptou totalmente. Nesse processo de mudança, o primeiro susto coletivo veio com o “bug do milênio”, um problema previsto para ocorrer na virada de 1999 para 2000, devido à forma como as datas eram armazenadas nos sistemas computacionais. Para economizar memória, muitos sistemas representavam os anos com apenas dois dígitos (por exemplo, “99” para 1999). Dizia-se que, ao chegar ao ano 2000, os sistemas interpretariam “00” como 1900, colapsando o sistema, e todo o dinheiro que tínhamos no banco desapareceria enquanto estourássemos a champanhe no réveillon. Seja porque as empresas corrigiram o problema, seja porque os computadores não fossem tão burros, nada aconteceu. Desde então, as agências bancárias praticamente desapareceram, surgiu o pix, e seguimos com novos pavores, como roubarem nosso celular com todos os nossos dados, rouparem nossos dados simplesmente, cairmos em algum dos zilhares de golpes que nos cercam diariamente, a inteligência artificial decidir que não vai mais nos empregar ou pagar. E vamos nos equilibrando para não cair nesse mar de perigos. Mas eis que me chega um novo alerta: o “apocalipse quântico”. Qualquer termo que comece com apocalipse vem para gelar nossas espinhas. Ele se refere ao potencial impacto devastador que a computação quântica avançada pode ter na segurança da informação global. Poderosos computadores quânticos, em um futuro próximo, poderiam quebrar os sistemas de criptografia que protegem nossos dados sigilosos. E não apenas nossas informações bancárias, mas também registros médicos, segredos de Estado e propriedade intelectual poderão ir para o saco. Pensando bem, não vejo tanta novidade assim nesse apocalipse quântico. Agradeço o alerta, mas os apocalipses climático e nuclear me parecem mais palpáveis, prefiro desperdiçar meu sono em questões mais complicadas de solucionar. Vem ni mim, apocalipse quântico, que um fichário (ou o colchão da minha cama) pode me salvar.
Sobre os barulhos que causamos e sofremos com nossas reformas

Acabei de fazer uma reforma em meu apartamento em que uma parede foi derrubada. Foi a terceira nas quase três décadas em que moro aqui. Em todas elas, tive o cuidado de prevenir minha vizinha de porta e pedir desculpas, sem fazer mais nada. Não passou pela minha cabeça fazer o mesmo com os vizinhos de cima e de baixo. Viajei ou fui para a chácara durante os períodos críticos. Entendo que prevenir os demais afetados não iria fazer a menor diferença na experiência que intuía ser ruim, mas pelo menos seria um agrado, como dizer eu me importo com o desconforto que vou te causar. Fica aqui um mea-culpa tardio de alguém que está para enlouquecer com a reforma do apartamento acima do meu. Eu sabia que meus vizinhos fariam esta grande reforma, pois no prédio se comentava que havia sido adiada por conta de um acidente sofrido por um dos moradores do apartamento. Vi a mudança deles sair, pois precisam ficar fora para as obras e sei que têm todo o direito de mexer em seu imóvel, tanto quanto eu tenho no meu. Nada disso minimiza a sensação de permanecer oito horas por dia com pessoas martelando na minha cabeça. Esta é daquelas situações da qual ninguém tem culpa, consequência do nosso jeito de viver empilhado uns sobre os outros, em uma cidade já barulhenta o suficiente. Além dos carros, motos e ônibus na rua, aqui ainda temos música e conversas durante a noite, afinal moro em um bairro boêmio. E uma marmoraria ao lado, a qual me acostumei a abstrair, assim como a diversidade de obras no edifício. Com quase 30 anos de construção, as reformas são necessárias. Vários dos moradores que se mudaram quando o prédio ficou pronto e criou filhos por aqui, como eu e meu vizinho de cima, estamos readaptando nossas casas para a nova situação de ninho vazio. O resultado, porém, é que minha rotina nesta semana, e sabe-se lá até quando, é lidar com britadeira, marteladas e outros barulhos indecifráveis, que parecem dobrar o tamanho da minha cabeça e reverberar por cada centímetro do meu corpo, que algumas vezes, inconscientemente, se encolhe a espera de que algo caia sobre ele. Enquanto minha capacidade de me concentrar no trabalho e meu estoque de dipirona desaparecem, penso em resiliência e leveza, sem muito sucesso. Imagino o número de paulistanos que convivem com grandes obras ao lado de casa, nesse frenesi imobiliário da cidade, e me arrepio. Contem com minha solidariedade.
Comportamentos mudam e têm consequências

Quando eu era criança, nesta mesma cidade de São Paulo, o ritmo era outro. Havia menos opções de tudo, mas não percebíamos, pois era o que conhecíamos. Por falta do que fazer, as pessoas se visitavam e, como poucos tinham telefone, o normal era somente ir. Isso significa que a possibilidade da chegada de alguém era normal e constante. Acho que o ditado “colocar mais água no feijão” deve ter algo a ver com isso. Se a campainha tocasse e já estivéssemos de pijamas, o que acontecia após o banho no final da tarde, alguém olhava de soslaio quem era e saíamos em disparada para nos trocar, e o visitante aguardava calmamente na porta, pois sabia o que estava acontecendo. Por conta disso, na maior parte das casas, sempre havia um licor, um café para ser passado, um bolo, um docinho, uma cervejinha para oferecer às visitas. Não existia pedir alguma coisa e entregarem. Quando era muita gente de uma vez, a alternativa era ir à padaria da esquina e trazer uma pizza ou pães e frios para um lanche, reforçar o estoque de refrigerante e cerveja. Pelo menos era assim na minha casa e nas dos amigos, vizinhos e familiares que eu frequentava. Hoje, a cidade é outra. Somos todos outros. Para ir à casa de alguém, é preciso ser convidado, de preferência com antecedência. O anfitrião necessita de tempo para se preparar. Poucas vezes isso significa ir para a cozinha e preparar algo. A maior parte dos convites é para comer uma pizza, que será pedida após a chegada dos visitantes. Nas reuniões dos mais jovens, pelo que acompanho dos meus filhos, ninguém serve nada, cada um leva a sua própria bebida. Ou levava. Agora a prática é cada um pedir sua cerveja ou vinho depois de chegar. O verbo utilizado importa: não é encomendar, é pedir, pois precisa ser rápido, imediato. Não há aqui saudosismo do tipo “naquela época era melhor”, só era diferente mesmo. E essa prática de “pedir” comida, bebida, remédios, cigarros se generalizou, principalmente, quando não há visitante algum. Para uma pessoa jovem, possivelmente a antiga máxima “foi comprar cigarro e não voltou” não tenha sentido algum. Como toda mudança, porém, há consequências. Esse novo costume, que se intensifica a cada ano, produziu em São Paulo uma massa de entregadores alucinados pela cidade. Mal pagos e pressionados a fazer entregas em tempo recorde, não respeitam nenhuma lei de trânsito, arriscam a própria vida e as alheias como se nada fossem. Misturados aos ladrões de celulares, motoqueiros e, em menor proporção, ciclistas, são o terror de pedestres e motoristas paulistanos. Nós os tememos, reclamamos deles o tempo todo, mas não vivemos sem eles. Será que precisa ser assim? O que me fez recordar de épocas antigas foi uma postagem da minha colega de faculdade e vereadora Renata Falzoni, na qual ela pergunta: Pra que tanta pressa? Ela relaciona o aumento de acidentes e mortes no trânsito na cidade aos aplicativos de entrega, que prometem recebimento no mesmo dia e, em alguns casos, em 10 ou 15 minutos (incluindo o preparo do prado!). Disse que irá pedir uma CPI para discutir o tema na Câmara Municipal. É claro que maior policiamento e fiscalização de trânsito minimizariam o problema e são muito necessários. Mas não adianta defendermos isso e continuarmos a querer receber de tudo em casa em tempo recorde. Se sua pizzaria preferida fica a 10 quilômetros da sua casa e você quer comer a pizza quentinha e rápido, não tem como ela se materializar na sua frente, pelo menos por enquanto. Alguém terá que sair feito louco pelas ruas para trazê-la, não tem milagre. Renata ainda brinca que poderia haver um item “pode vir com calma” na hora de fazer o pedido. Claro que é uma discussão sistêmica, não apenas de atitude individual, mas ter no radar que comportamentos podem mudar é essencial. Não dá para fingir que ninguém tem nada a ver com isso.
Saneamento adaptado às mudanças do clima é chave para bem viver

Pensar em adaptação do saneamento básico às mudanças climáticas, em uma semana de sol em São Paulo às vésperas do Carnaval, parece uma péssima ideia. Ninguém quer se lembrar de problemas relacionados a chuvas ou falta de chuvas, que, no caso da cidade, remete a inverno. Mas, talvez, justamente por estarmos fora da emergência, seja o melhor momento. Ainda mais porque a maior parte das adaptações necessárias também pode minimizar esse calor em ondas cada vez mais fortes. Em “Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas”, publicação recém-lançada pelo Instituto Água e Saneamento (IAS), da qual participei, mostramos por que a adaptação dessa área é fundamental para garantir o bem viver nas cidades. Sem uma drenagem pensada para a nova realidade, ficaremos sem mobilidade – a parte mais visível da equação -, mas também sem abastecimento de água, sem tratamento adequado de esgotos, sem habitações de qualidade e com sérios problemas de saúde pública. Na pesquisa realizada para a publicação, ficou claro que um conjunto e medidas precisa ser tomado urgentemente, envolvendo de legislação e políticas públicas a meios de financiamento. Obras como sistemas de coleta e tratamento de esgotos eficientes e resilientes são urgentíssimas, já que temos uma defasagem a ser superada, além de outras infraestruturas cinzas, como piscinões, por exemplo. O que ficou evidente, porém, é a necessidade de soluções baseadas na natureza, chamadas pela nova sigla do momento SbN ou de infraestruturas verdes. Isso significa, em uma cidade como São Paulo, na qual as chuvas provocam tragédias e a falta d’água está sempre pairando, pensar em como era este espaço antes da metrópole se instalar: uma região com três grandes rios de várzeas (Tietê, Pinheiros e Tamanduateí) serpenteando uma planície para onde afluíam cerca de dois mil córregos, a maior parte deles atualmente canalizados. Mesmo com chuvas normais, as águas querem seu espaço original, imagine com os eventos extremos que vêm pela frente. (continua nos comentários ou em paulistanasp, link na bio) Conheço as respostas obvias. Os rios foram retificados, sem as marginais o trânsito não anda, tudo já foi ocupado. O pior é que o processo de impermeabilização do solo não cessa nunca, a cada dia mais e mais prédios gigantescos são construídos sem que se pense na drenagem urbana. Na chuva fatídica de 24 de janeiro, minha rua, que sempre enche na parte baixa, perto do Beco do Batman, conseguiu ter apartamentos inundados na parte alta, com o lençol freático subindo pelos ralos. As mudanças não são fáceis, mas têm que ser feitas. Há várias cidades sendo adaptadas pelo mundo. Nova York tem investido em aumentar suas áreas verdes e as cidades-esponja criadas na China tem aberto espaço para as águas escorrerem e armazenarem naturalmente. Na publicação do IAS, trazemos exemplos de medidas grandes e pequenas que podem ajudar, e disponibilizamos o endereço de várias plataformas com experiências em andamento. Ficar lamentando a época das chuvas e, alguns meses depois, a de seca não vai ajudar a melhorar a situação.
O paradoxo das motos em São Paulo

Se existe um tema sem solução fácil é a proliferação de motos em São Paulo. O novo capítulo sobre o imbróglio é a implantação pelos aplicativos de transporte de mototáxis à revelia da proibição municipal. A modalidade foi disponibilizada, com enorme sucesso entre os usuários, nas áreas fora do centro expandido, ou seja, nas áreas periféricas, onde o sistema de transporte é mais precário. Desde que ouvi a notícia fiquei me perguntando o que poderia dizer para uma pessoa que leva horas para ir e vir de qualquer lugar, em um trânsito caótico, dentro de ônibus, metrô e trem lotados e caros, que a convença de que a opção de ganhar um tempo precioso a um custo mais barato é uma má escolha. Sob o ponto de vista de segurança, será que caminhar o equivalente a dois a três pontos de ônibus à noite na volta do trabalho é mais seguro do que na garupa de uma moto? E pegar um ônibus, que pode demorar bastante pelo mesmo preço da moto, é vantajoso? O tema é difícil para o cidadão, ainda mais que seu bem-estar não está em discussão entre as partes dessa briga de foice. Os aplicativos querem lucrar e o prefeito (não se iludam) está preocupado com a concorrência para os ônibus, não com a segurança da população. Caso contrário, Ricardo Nunes não esperaria quatro anos à frente da prefeitura para se dar conta que as motos são um perigo fora de controle. Os acidentes e mortes de motoqueiros só fazem crescer nos últimos anos e seus condutores parecem ter sido liberados totalmente de seguir normas mínimas de trânsito: parar em semáforos vermelhos, não entrar na contramão ou fazer conversões proibidas, não ultrapassar pela direita, dar prioridade aos pedestres e toda a lista de regras do Detran. Sob a desculpa de que motoboys precisam trabalhar e que a cidade pararia sem os entregadores, autoridades se abstêm de fiscalizar e a população já entregou pra deus. Por que tanto escândalo por causa dos mototáxis? Quer dizer que sou a favor deste tipo de transporte? Absolutamente não. Individualmente, pode ser interessante para o usuário, desde que assuma os riscos de um veículo cujo para-choque é seu próprio corpo. O problema é que a implantação de mototáxis tende a aumentar o número de motos na cidade, sem diminuir o número de automóveis, o que significa que deve crescer, sim, a quantidade de acidentes. Com isso, há vários impactos coletivos a serem considerados – a sobrecarga do sistema de saúde é o mais óbvio. Cada acidente de moto, porém, provoca congestionamento, prejudicando todo mundo que está circulando em ônibus e automóveis, diminuindo a qualidade de vida de seus usuários. E a poluição já excessiva da cidade. Ou seja, mototáxis não melhoram o trânsito e aumentam as emissões na cidade, com consequências para a saúde e para as mudanças climáticas. Mais uma vez, o interesse privado das empresas e dos usuários, mesmo que justificado neste último caso, é colocado em primeiro lugar em detrimento da coletividade. Ao invés de brigar com os aplicativos de transporte, o prefeito poderia investir esforços em criar alternativas reais para as motos: sistema de transporte barato, quiçá gratuito, além de seguro e sustentável. E fiscalizar se as motos cumprem as leis de trânsito mais do que se carregam alguém na garupa.
Será que as árvores são as vilãs?

Se você mora na cidade de São Paulo, tenho um pedido pra te fazer. Quando estiver na calçada, olha pra cima. Veja quantos postes você enxerga e a quantidade de fios amarrados neles. Dá uma olhada e tente contar as camadas e, mesmo considerando o número de empresas de telefonia e internet disponíveis no seu bairro (já que energia elétrica é monopólio), imagina se faz sentido a quantidade de fios que passa por ali. E, mais do que isso, perceba o volume de fios amarrados de qualquer jeito, enrolados, caídos pelos postes ou meio pendentes entre um poste e outro e dos quais é preciso se desviar ao andar pela rua. Se você não achar que está diante de um serviço muito malfeito, realizado com um descaso inimaginável, olha de novo, pois você não prestou atenção. Li um artigo muito comprido e bastante complexo do @ayubio, um especialista em tecnologia, e o assunto não é simples, mas há vários fatores responsáveis por tudo isso. Segue um resuminho do que entendi: Os cabos elétricos costumam ser acinzentados e ocupam o topo dos postes. A 1,5 metro para baixo, os cabos de cor preta com esse aspecto emaranhado são as fibras óticas, atendendo a internet fixa, a internet móvel (levando o sinal até as torres) e as bases terrestres da Starlink (que também dependem de fibra ótica). Para que outras empresas possam pendurar qualquer coisa nos postes, a distribuidora privada de energia (como a ENEL) precisa aprovar o projeto técnico e cobra pelo uso do poste. Como essa não é uma atividade lucrativa para a distribuidora, tratam os pedidos de autorização do setor de telecomunicações com desdém e demoram muito para aprovar. Com isso, as empresas cansam de esperar e vão pendurando tudo sem autorização mesmo, isso se solicitaram autorização. Como os cabos de fibra ótica não podem ser reaproveitados, caso depois não recebam autorização, as empresas deixam os fios por lá mesmo (acredito que se fazem uma reparação, também agem do mesmo jeito: colocam um fio novo e o antigo fica por lá). Só que tem um limite de peso que os postes aguentam e não tem ninguém calculando isso. Segundo o artigo, “esses projetos precisam ser meticulosos pois cada cabo pendurado no poste gera tração, aumentando a tendência de tombamento de postes”. Não precisa ser genial para inferir que, com isso, um vento mais forte ou um galho maiorzinho de árvore sobre os fios derruba os postes. Por que os fios não são enterrados? É simples: porque custa dinheiro. Em São Paulo, apenas 1% das ruas têm cabeamento subterrâneo. E quem poderia fiscalizar tudo isso e incentivar ou ter um plano para enterrar os fios? A prefeitura, é claro. Mas é muito mais fácil culpar as árvores. Agora, vamos olhar para cima novamente e ver como as árvores são tratadas. Como os fios passam por meio delas e como as podas são também malfeitas, colaborando para que fiquem fragilizadas e propensas a cair. E, podemos, ainda, pensar que, com a crise climática, mais ventos fortes e tempestades assolarão a cidade. Mas as árvores são fundamentais para ajudar as águas a escoarem e para minimizar a sensação térmica do aumento da temperatura. E os fios, não são também fundamentais? São, mas podem ser enterrados e ficar bonitinhos, protegidos de ventanias e chuva. Só mais uma olhadinha pra cima, e vamos imaginar juntos como nossas ruas ficariam bonitas sem esses fios horrorosos. Como sobraria espaço para mais árvores e mais sombra. Será que somos capazes de imaginar São Paulo assim? Me parece que não. É mais fácil pensar em coisas como privatizar e sucatear mais e mais serviços públicos e discutir com quem as pessoas querem transar ou se uma mulher pode fazer o que quer com seu próprio corpo. (Fotos feitas na frente da minha casa, que nem é dos piores locais, a maioria é bem mais terrível)
Propaganda eleitoral
Não deveria ser assim… mas é. Assistir à propaganda eleitoral gratuita na TV é quase um programa para o paulistano. Um programa ‘tipo’ comédia; em alguns momentos, comédia de horrores. No último sábado, nos prostramos para ver o desfile de candidatos a vereadores e a diversão da família era enumerar os nomes mais bizarros, os mais feios (por que será que todo mundo fica horroroso nestas propagandas?) e as profissões: quantos ex-jogadores de futebol, ex-cantores, professores, pastores etc. Aliás, estas são praticamente as únicas informações passadas nos poucos segundos de exposição. Como é possível diferenciar alguém em meio a tanta alegoria? Infelizmente, o quadro se repete quando o foco está com os candidatos a prefeito, como pudemos comprovar na segunda-feira. Os mais divertidos são os nanicos de sempre. A previsibilidade tanto dos ultradireitistas quanto dos ultraesquerdistas é de matar. Lá estão os primeiros a defender os bons costumes e as grandes obras e os segundos a mostrar como o capital faz a população sofrer. Os grandes partidos, munidos de mais espaço e mais dinheiro, contam com grandes produções, onde os vilões são sempre os outros partidos e a mesma história é recontada a cada novo candidato sob um ponto de vista completamente diverso (embora as promessas de melhoria sejam rigorosamente as mesmas). A se levar a sério esses programas, podemos votar em qualquer um e, em quatro anos, São Paulo será uma filial do paraíso, com transporte, saúde, educação e moradia de dar inveja à Dinamarca. No meio de tudo isso, é difícil dizer para meu filho de 17 anos e que vai votar pela primeira vez que o voto faz sim diferença, mesmo que pequena (lamentavelmente). Dá também para entender o porquê da maior parte dos amigos dele, todos na mesma faixa etária do voto opcional, não ter tido sequer o interesse de tirar título de eleitor. Claro que tenho meu candidato a vereador e espero que seja eleito. Mas o privilégio de uma escolha embasada no conhecimento direto do candidato, em uma cidade tão grande, onde político é algo distante e que, às vezes, aparece perto da eleição, é para poucos (ser jornalista tem pelo menos essa vantagem). Poucos candidatos incluem um site para informação em suas propagandas, o que é um instrumento interessante (não acessível a toda a população, principalmente aos mais pobres e aos mais velhos). Na mesma linha, a Plataforma Ambiental da SOS Mata Atlântica (http://www.sosma.org.br/projeto/plataforma-ambiental/) permite que candidatos à prefeitura e a vereança em todo o domínio da Mata Atlântica, do qual São Paulo faz parte, se comprometam com uma agenda que inclui desenvolvimento sustentável, clima, educação, saúde e saneamento básico. Se eleito, cabe ao eleitor cobrar o compromisso, mas é um começo.
Ansiedade do rodízio
Todo paulistano que dirige já deve ter passado pela ansiedade do rodízio, um tipo de mal nativo que acomete aqueles que saem com o carro no dia do rodízio e têm que estar em casa até às 17 horas. Calcula-se direitinho quanto tempo se leva no caminho e se dá todos os acréscimos necessários ao trânsito imprevisto (que de imprevisto realmente não tem nada, pois sempre aparece). A alteração comportamental começa ainda durante o compromisso em que se está, pois como manda a tradição, nada começa exatamente no horário e, quanto mais a hora fatídica de sair se aproxima, sua concentração vai toda para ensaiar a melhor maneira de avisar os demais que terá que sair antes de terminar. Mas é na hora que você está no carro e o congestionamento se materializa que vem aquele friozinho na espinha, que começa com o arrependimento de ter tirado o carro de casa, depois com a culpa mão ter saído de seu compromisso 20 minutos mais cedo até a aceitação de que não vai conseguir mesmo e iniciar as contas mentais do que deixará de fazer para pagar a multa e como vai administrar seus pontos na carteira. Neste meio tempo, para disfarçar, liga o rádio e finge que está distraído ouvindo música tranquilamente, mas, na verdade, está controlando o relógio do carro, do pulso e do celular. Com alguma sorte, um deles sempre está uns dois minutos atrasado e é este que você se convence que está certo. Quando, finalmente, consegue entrar na garagem às 17h02 sem que um marronzinho esteja parado na porta da sua casa, o alívio é imediato. Só não adianta acreditar na autopromessa de que isso não vai acontecer novamente, porque na semana que vem vão marcar aquela reunião importantíssima, às 15 horas e você vai novamente calcular que ninguém vai atrasar, ela vai durar apenas uma hora e, bem antes das 17, seu carro vai estar bem descansado na garagem.