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PaulistanaSP

Mostra remete a ruínas metamorfoseadas

Passados dois anos da grande inundação que assolou Porto Alegre, as marcas da tragédia continuam presentes, se não nas ruas e construções, no imaginário traumatizado de sua população. É difícil, para quem vem de fora como eu, conversar com alguém sem que o tema não seja mencionado. Impossível passear pela orla do Guaíba, como fiz alguns dias atrás, sem pensar na vulnerabilidade de uma metrópole rodeada de águas lentas e praticamente ao nível do mar quando as mudanças climáticas entram porta adentro de nossas vidas sem pedir licença. Senti um certo aperto no peito enquanto ia em direção ao Centro Histórico ao lembrar que um El Niño foi o causador das chuvas de 2024 e agora o mesmo fenômeno (e, como dizem, super) volta a se formar com possibilidade de enchentes e inundações no Sul do país. É muito pouco tempo para que as pessoas suportem um novo desastre climático. Meu destino naquele dia era a abertura da exposição 2016-2026 da artista plástica Ana Norogrando, no Museu de Arte do Paço (antigo prédio da Prefeitura). A mostra é formada por um conjunto de esculturas e audiovisuais de extremo impacto ao remeter a ruínas, de corpos e coisas unidas em objetos metamorfoseados que parecem ter vida própria. São fragmentos corporais, membros isolados, próteses, estrutura mecânicas, objetos encontrados, partes industriais e dispositivos tecnológicos rearranjados como ao final de uma tragédia que os carregou e obrigou a se fundirem em uma nova realidade. Vemos um mundo pós-pandêmico e pós-enchente em seu trabalho. Um mundo feito de cacos que tentamos dar forma e sentido. (Veja artigo completo em sler.com.br)

Ataque ao canteiro central

Soluções urbanas dificilmente agradam a todos, mas há opções que vão claramente na contramão das necessidades da cidade, preocupadas em beneficiar (quem sabe) algum pequeno grupo. Um exemplo disso é a destruição do canteiro central da avenida dos Semaneiros, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Enfrentamos um agosto quente e seco, com a ameaça de um super El Niño pela frente, o que pode significar uma seca terrível acompanhada de tempestades idem. Nesse contexto, deveríamos estar preocupados em abrir espaço para o solo e as árvores, para aumentar a capacidade de infiltração e a umidade do ar na cidade. Cada metro quadrado importa. É tempo de criar novas áreas verdes, mesmo pequenas. Tirar asfalto, desencanar rios, plantar árvores, muitas árvores. Mas o que vemos ali é, em nome de aumentar as vagas de estacionamento para carros, a destruição da ciclovia existente, transferindo-a para o canteiro central, aumentando a área impermeabilizada, cortando raízes e espremendo as árvores, acabando com a possibilidade de plantar novas árvores. O engraçado é que, quem estaciona neste local, exclusivamente residencial, são apenas os sócios do Clube Alto dos Pinheiros, do qual sou sócia e espero que não tenha tido nada a ver com esta horrorosa decisão. Frequento o clube diariamente e nunca aconteceu de não encontrar vaga para estacionar à distância de, no máximo, um quarteirão. Além disso, quem para ali, normalmente está indo praticar esporte. Se vai andar na esteira, não custa nada andar um pouquinho para chegar até lá. Mesmo que nem uma árvore tenha sido cortada para a obra (não acredito, pois vi troncos jogados no caminho), elas ficarão fragilizadas, com maior risco de queda durante as chuvas. Além disso, a ciclovia é pouco movimentada e fica dos dois lados da avenida. Poderia tranquilamente se mantida em apenas um dos lados. Como a via é pouco movimentada na maior parte do tempo, muito ciclistas continuarão a andar no meio da rua, pois a ciclovia do canteiro central fará muitas curvas, aumentando o trajeto. Perde a cidade, perdemos todos.

Descobrindo cantinhos em Porto Alegre

O Centro Histórico, por questões familiares, sempre foi meu reduto em Porto Alegre, cidade que há quase 40 anos carrego como parte do meu nome. De uns tempos para cá, no entanto, passei a ficar no Moinhos e Vento, bairro cheio de boas surpresas para uma caminhante. Em primeiro lugar por sua topografia alta, mas suave, um comércio variado e charmoso, os restaurantes balados e o Parcão, o Parque Moinhos de Vento, que não é tão grande assim, mas tem espaço suficiente para um respiro e exercícios. Alguns quarteirões à frente, o Jardim do DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto) é um refúgio tranquilo que acabei de descobrir. Uma pequena área verde aberta ao público, cheio de cantinhos para se sentar e descansar, quem sabe ler um livro. Daqueles locais privilegiados que todos os moradores das cidades deveriam ter, mas sabemos raros nas nossas grandes cidades. O local abriga também uma Galeria de Arte, com acervo de mais de duzentas obras doadas, que podem ser apreciadas de segunda a sexta-feira (exceto feriados), das 8h às 17h30, com entrada franca. O Jardim abriga, ainda, o monumento público mais antigo de Porto Alegre: quatro estátuas que representam os afluentes do Guaíba. As esculturas, em mármore de Carrara, foram idealizadas pelo arquiteto italiano José Obino e instaladas na Capital em 1866. São duas figuras femininas, as Ninfas, que simbolizam os rios Caí e Sinos, e duas masculinas, os Netunos, que representam os rios Jacuí e Gravataí.

Meu adeus ao Parque Villa-Lobos

Hoje fui pela última vez ao Parque Villa-Lobos, pelo menos nesta gestão. Que os deuses das eleições permitam que o Estado de São Paulo possa ser melhor-administrado. Transformar um parque deste porte em uma rua 25 de Março deveria ser crime. No mínimo, crime ambiental. Creio, na verdade, que seja, só não há Ministério Público para ver. Se quiser entender do que estou falando, sugiro uma visita. Não se surpreenda caso só encontre tapumes e quase nenhuma árvore. Se quiser fazer um piquenique, não é um bom lugar. Além de se sentar próximo a algum tapume (não há área sem), provavelmente será interrompido pela passagem de caminhões e operários, e pela poluição e barulho ensurdecedor de geradores de energia. Me faz tão mal ir lá que resolvi seguir o conselho do meu marido e desistir de vez. Que este governo do Estado só pense em dinheiro e para quê, posso imaginar. Mas como as marcas se sujeitam a participar desta lambança, ainda me impressiona. De Casé TV, a competição de sei lá que campeonato de tênis ou sei lá que festa culinária, a Cirque du Soleil, a espaço para restaurantes e barraquinhas e lojas, banquinhas de bebidas (inclusive alcoólicas), tudo é permitido. Aliás, quem estiver interessado, pode oferecer qualquer projeto. Com certeza, será aprovado. Se tivesse capacidade (ou relevância) para fazer uma campanha seria: não frequente o Parque Villa-Lobos, não vá aos eventos realizados lá – faça esses empreendimentos fracassarem. Quem sabe, assim, haveria uma chance de os oportunistas de plantão desistirem de usar este espaço público, que deveria ser para a população fruir a natureza gratuitamente em paz, e o parque pudesse ser devolvido aos seus usuários. A empresa privada Urbia quer devolver o Horto Florestal e o Parque Estadual da Cantareira ao governo por falta de lucro. Deve ser porque ficam um pouco mais distantes, na Zona Norte. O Villa-Lobos não teve a mesma sorte. A Reserva Parques, pelo que parece, tem um contrato com direitos ilimitados, sem escrúpulos, sem bom-gosto, sem noção do que é um parque urbano. Este é só um desabafo, quem sou eu na fila do pão para mudar a situação. Apenas desisti de frequentar um dos locais de que mais gostava na cidade. (Legenda da foto: nada do que se vê neste mapa é real. O Parque está totalmente ocupado por empreendimentos)

Parque da Aclimação, joia do bairro

Alguns bairros da cidade, mesmo relativamente próximos de onde moro, são um mistério para mim, por nunca ter tido oportunidade de frequentá-los. Um deles é a Aclimação. Recentemente, dei um passeio por lá e pude constatar porque moradores, em geral, adoram viver na região. É ainda bastante residencial, com casas bonitas, muitas praças e verde para todo lado. Minha intenção era conhecer sua maior joia: o Parque da Aclimação. As distâncias e o trânsito fazem com que frequentemos somente equipamentos mais próximos. E essa é a única justificativa para nunca ter visitado esta área verde, uma das mais bonitas de São Paulo. Localizado na rua Muniz de Souza, 1.119, o parque não tem estacionamento, mas não é difícil encontrar vagas nos arredores. Com uma área de 112 mil m2, é relativamente pequeno, mas na medida para atender moradores do bairro e visitantes em busca de relaxar e se exercitar. Todo cidadão mereceria ter um assim perto de casa. O Parque da Aclimação conta com um belo lago (um pouco poluído, nada é perfeito), vários equipamentos para ginástica e parquinhos infantis, além de quadras e campo de futebol. Há algumas trilhas, não muito compridas, e a “Pista de Cooper Antonio Daoud”, em volta do lago. Para os mais jovens que não entenderam, há alguns anos não se saia para correr ou caminhar, mas para “fazer Cooper”. Segundo parque da cidade (o primeiro é o Jardim da Luz), foi inaugurado em 1939 pelo então dono da terra, Carlos Botelho, inspirado jardim parisiense Jardin d’Acclimatation, onde já mantinha um zoológico (o primeiro do município). Da tradução do francês, surgiu o Jardim da Aclimação, adquirido pela prefeitura no ano de sua inauguração. Em 1986, foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). O espaço mantém três esculturas de Arcângelo Ianelli: “Dança Brancos”, “O Retorno” e “Forma Corrompida”.

Parques não existem para dar lucro a empresas

A Urbia, mesma empresa que administra o Parque do Ibirapuera, anunciou que quer devolver a concessão do Horto Florestal e do Parque Estadual da Cantareira, na Zona Norte de São Paulo, porque a rentabilidade do “negócio” ficou abaixo do esperado. Chamar uma área protegida de negócio me dá embrulho no estômago. Esperar que o lucro seja financeiro e não em qualidade de vida para a população ainda mais. Estive recentemente no Horto Florestal, o qual faz parte da minha história. Marcou esta última visita a falta de sinalização sobre caminhos e atrações do parque. Por exemplo, a entrada para a Trilha da Pedra Grande (localizada no vizinho Parque Estadual da Cantareira) fica dentro do Horto, mas só descobri por acaso, pois não há nada indicando isso. Existem, sim, espaços fechados sem informações sobre o que (e se algo) funciona ali, poucos banheiros e um estacionamento carésimo. Painéis de LED e propagandas em geral também têm bastante. Espero que estas duas importantes áreas de conservação urbanas paulistas voltem para a gestão pública estadual rapidamente. De preferência, para uma gestão que as valorize como se deve. A atual, parece, só enxerga cifrões em seus parques paulistanos, vide o Água Branca e o Villa-Lobos, onde cada centímetro está disponível para comercialização, seja do que for. A concessão desses dois parques estaduais é da Reserva Parques (do grupo DC Set Group), administradora de áreas verdes através do Consórcio Novos Parques Urbanos, que também inclui a LivePark e o Grupo Oceanic. Ambos têm sido fontes de questionamentos sobre a privatização. Frequentadores do Parque da Água Branca criaram uma associação para protestar contra a realização de eventos e instalação de restaurantes em áreas do parque. Seu slogan é “Parque não é shopping”. No Villa-Lobos, painéis publicitários anunciam bebidas alcoólicas, vendidas em diversos locais do parque. A Heineken é “parceira” do Villa-Lobos e conta com um espaço exclusivo no local chamado Heineken House. É só um pouco menos vergonhoso do que as bets serem patrocinadoras de atletas, jogos e times de futebol. Parques urbanos são locais para preservação ambiental, lazer gratuito e de qualidade. Não é mercadoria, é direito. Além de proporcionarem serviços ambientais, como proteção e provisão de águas, regulação do clima (inclusive o microclima) e controle de doenças infecciosas, possibilitam benefícios diretos para a saúde física, espiritual e mental da população. Um estudo na Austrália concluiu que a atividade física realizada em áreas protegidas evita o gasto de 200 milhões de dólares australianos com saúde por ano. Pesquisa da Universidade de Chiba, o Japão, concluiu que pessoas que tiveram contato com a natureza mostraram uma diminuição de 16% no cortisol (hormônio do estresse), 4% na frequência cardíaca e 2% na pressão arterial. Natureza não é shopping ou 25 de março. Nem tudo no mundo é sobre lucratividade empresarial.

Caminhante urbana em treinamento

Três coisas dificultam a vida de quem gosta de caminhar em São Paulo: a má qualidade das calçadas, as ladeiras e o clima, nesta ordem. Sobre segurança, não me alongarei, pois gosto de andar de dia e em lugares movimentados. E não descuido. Não considero a cidade pior do que qualquer outra grande metrópole que conheço, a não ser em relação a celulares dando sopa, o que não acontece com o meu. Sempre gostei das andanças paulistanas, mas tenho intensificado porque pretendo fazer o Caminho Cora Coralina no segundo semestre e preciso treinar. Serão 300 quilômetros em 15 dias, nunca cheguei perto de nada parecido. Mas estou empolgada com minha coragem e tomada de pensamento positivo, apesar da desconfiança familiar. O ideal seria treinar fazedo trilhas, mas não é tão simples vivendo em São Paulo. Andar na cidade ainda é a melhor alternativa. Tenho procurado fazer pelo menos um desses passeios por semana, aumentando os percursos. Tem sido interessante colocar o endereço de onde quero ir no Google Maps e seguir o percurso indicado a pé. Acabo conhecendo caminhos bem diferentes dos normalmente feitos de carro. Passei a usar o escadão do Beco do Batman, a famosa Escadaria do Patápio. Moro há quase 30 anos na Vila Madalena e nunca tinha subido nesta verdadeira galeria de arte urbana a céu aberto, que liga a rua Medeiros de Albuquerque à rua Patápio Silva. Passar pelas floriculturas da avenida Doutor Arnaldo a pé também é uma experiência que vale a pena, sem contar que me deu vontade de visitar o cemitério apenas a passeio para ver os mausoléus do Cemitério do Araçá, o que ainda não fiz. Já estive lá várias vezes, pois parte da minha família tem sepultura lá, mas só passei pelo local em enterros. Se fico irritada com as calçadas e às vezes com a sujeira nas ruas, percebi que as ladeiras já não me incomodam tanto. Veja bem, desde que as calçadas sejam decentes. E percebi que as distâncias dos lugares que gosto de ir são menores do que imaginava. Ir da Vila Madalena para a avenida Paulista, para Higienópolis, qualquer pedaço de Pinheiros ou Sumaré, é muito mais perto do que qualquer percurso que faço quando estou viajando. Quando é um lugar mais longe – ainda não me aventurei a ir a pé até o Centro -, vou andando até o metrô Fradique Coutinho, por ser mais longe do que a estação Vila Madalena. Claro que dá para melhorar muito minha performance, estou engatinhando nessa aventura. Espero que ela me traga boas histórias para contar.

Horto Florestal, Trilha da Pedra Grande e a falta de informação

Enquanto vivi na Zona Norte da cidade, frequentei o Horto Florestal (Parque Estadual Alberto Löfgren). Desde criança. É um parque especial por ficar bem no meio de uma Mata Atlântica original, um dos poucos onde era realmente possível ver esquilos e macacos. Durante bastante tempo, o lugar praticamente marcava o final da cidade para aquele lado. Está bem, sou bem antiga. Não foi só o Horto que mudou e nem foi tanto assim. Mas estive lá agora e a casa de verão do governador de São Paulo, conhecida como Palácio do Horto, não é mais cercada e estava fechada. A IA me diz que abriga atualmente um espaço para eventos e um café colonial. Achei pouco nobre para um lugar que eu olhava de longe e povoava meus devaneios de infância de ser filha do governador e poder passar minhas férias lá. Os lagos e os caminhos me pareceram menores, mas ainda estavam lá, inclusive com patinhos e tartarugas, poucos, é verdade. Agora o estacionamento é (bem) pago e tem uma entrada pelos fundos, difícil de achar para quem não é da região. Há vários parquinhos, um palco (na manhã em que estive lá, usado para aula de ginástica), campo de futebol, que me lembro já existia, e uma filial do restaurante Velhão, tradicional na Serra da Cantareira. Ainda é bom de visitar, porém, é mais um dos parques que foram privatizados sem que vejamos nenhuma vantagem a não ser para quem o administra. Só encontrei um banheiro, na entrada principal de pedestres, a infraestrutura está bem mais ou menos e, sobretudo, não há sinalização de nada. Para encontrar o estacionamento, nem o Wase me ajudou. Tive que apelar para o formato antigo: parar e perguntar para um guarda. Lá dentro, nenhuma indicação de por onde seguir ou o que encontrar no local. Estou especialmente rabugenta porque minha intenção inicial era fazer a Trilha da Pedra Grande, cujas informações oficiais são de fica no Núcleo Pedra Grande do Parque Estadual da Cantareira, que faz divisa com o Horto Florestal. Na internet, encontrei dois endereços diferentes (em alguns sites, não havia endereço algum), escolhi um e resolvi tentar. Me levou para um bairro afastado por um caminho que acabava em um terminal de ônibus. Foi aí que desisti e resolvi ir caminhar no Horto Florestal, que eu conhecia. Daí a achar a entrada, já contei. Andando pelo parque, segui um caminho alternativo da trilha principal, por parecer mais tranquilo. Qual não é minha surpresa ao descobrir que, no final do percurso, havia um portão e uma guarita. Ouvi uma pessoa perguntando sobre a Trilha da Pedra Grande e me aproximei. Só aí deu para perceber que aquela era a entrada e tinha uma bilheteria para se adquirir os ingressos. Em nenhum lugar que pesquisei se dizia que a entrada era pelo Horto Florestal e, no parque, não existe placa indicando isso. Estava de bom-humor, então ri sozinha, pensando em programar uma nova visita e ir direto para a Pedra Grande assim que possível. Mas será que as coisas precisariam ser tão difíceis?

Dia da Água deveria ser feriado

Se tem uma data que deveria ser feriado é o Dia Mundial da Água (23 de março). Não estou sugerindo a criação de mais um feriado nacional – embora não tenha nada contra… -, apenas gostaria que se desse a devida importância ao tema. Vivo em uma cidade onde perdemos quase totalmente o vínculo com ela, nossos rios estão poluídos, cercados de carros ou enterrados, na maior parte, para os mesmos carros passarem. Nossa água vem encanada e privatizada, ou seja, serve ao lucro de poucos, que podem decidir quem recebe e quando. E no país que concentra mais de 12% das águas doces superficiais do planeta, com rios sensacionais como o Amazonas, Tocantins, São Francisco e Paraná, entre milhares de outros, é desalentador pensar que 6,6 milhões de domicílios não recebem água regularmente, que 32 milhões de brasileiros (mais de 15% da população) não têm acesso a água tratada e 91,3 milhões não têm esgotamento sanitário. Ou seja, os dejetos vão direto para os rios e o oceano. Pensar que comecei minha caminhada de ativista ambiental nos anos 1980 pedindo a despoluição do rio Tietê, que continua cortando São Paulo emporcalhado, é bem triste. Sempre faltam recursos para o saneamento ambiental por aqui. Tudo avança lentamente, enquanto a poluição e as mudanças climáticas estão gritando que não há mais tempo para firula, é preciso agir. E, quando opino contra a privatização da água, sempre há dados a me deixar mais indignada. Vi um levantamento da Agência Pública de que 50 empresas tem o direito de utilizar 5,2 trilhões de litros de água anualmente, quantidade suficiente para abastecer quase 50% da população brasileira no mesmo período. São empresas do agronegócio, sulcroalcooleiras, de papel e celulose, principalmente, que usam a água sem pagar. Ou seja, ela é privatizada só para a população. A situação é grave, mas há soluções. O Instituto Água e Saneamento (IAS) acaba de completar a série de publicações que abordam os desafios e apresentam soluções para o saneamento básico a partir da crise climática. São quatro volumes, dos quais participei da produção de três: Adapação e Saneamento, Chuvas e Águas Urbanas, Água de Beber e Água, Esgoto e Higiene (WASH). Os conteúdos incluem temas como drenagem urbana, manejo das águas pluviais, garantia de água potável, além das relações entre saneamento, dignidade humana e saúde pública. Estão disponíveis para download no site do IAS.

A luta contra os dinossauros do Antropoceno

Aprendi na série Os Dinossauros, na Netflix, que as árvores ficaram cada vez mais altas no período Jurássico para poderem sobreviver à fome dos dinossauros, cujos pescoços aumentavam quase na mesma proporção. Imagino que, se não fosse esse quase, teriam acabado as árvores e os dinossauros sem precisar de asteroide. Em São Paulo, os prédios sofrem o mesmo fenômeno: crescem aos céus no ritmo da fome das incorporadoras que dominam território. Meu medo é chegarmos ao ponto de dependermos de um cometa descontrolado para salvar a cidade. Fico imaginando os documentários das espécies que nos sucederão, contando a história de uma megalópole que começou com pequenas ocas indígenas ao redor de seus rios. As ocas, presentes há milênios, não sobreviveram à competição com as novas edificações, que começaram em taipa de pilão e foram “evoluindo” até os poderosos concreto armado, aço e vidro. As condições favoráveis, feitas a partir de armas, violência e capitalismo selvagem, fizeram a cidade crescer inicialmente na horizontal. Quando se achava que o crescimento populacional avassalador pelo qual passou no século XX arrefecia e a urbanização finalmente traria beleza e qualidade de vida aos moradores, eis que a especulação imobiliária reagiu. Tal qual um Tyrannosaurus rex, o ser mais temido do Jurássico, a especulação imobiliária do Antropoceno decidiu que tudo o que havia sido construído até então seria substituído, não tinha valor. Passou a comer tudo o que via pela frente e a transformar o que já era uma paisagem hostil em apocalipse, sem sol, sem respiro, sem história. Na selva de pedra, porém, nem sempre são os mais fortes que vencem. Ainda na série sobre os dinos, vi que os esses seres majestosos surgiram como inofensivos animaizinhos, parecidos com uma galinha bem pequena. No entanto, na briga com os poderosos répteis gigantes, se mostraram mais adaptados aos desafios que a Terra de então colocava aos seus habitantes, e depois puderam evoluir e dominá-la. Ainda não sei o final do documentário do futuro, apenas torço para ser menos catastrófico.