PaulistanaSP

Ativismo como uma postura de vida

  Voltamos à entrevista com Dorinha, a arquiteta pernambucana Maria das Dores Melo. Durante aproximadamente 20 anos, ela esteve à frente de organizações não-governamentais que ajudaram a colocar no mapa – literalmente – a Mata Atlântica do Nordeste e evitar que seus remanescentes interioranos desaparecessem de vez. Tanto na Sociedade Nordestina de Ecologia (SNE) como a Associação para a Mata Atlântica do Nordeste (Amane), organização criada por uma aliança de oito importantes ONGs brasileiras que atuam no bioma, ela se dedicou apaixonadamente para conseguir recursos e implementar projetos na região, até comprometer sua saúde. Para Dorinha, ativismo pode ser uma postura de viver, de se expressar, “essencial mesmo que não seja tão confortável”. Veja a entrevista completa no Conexão Planeta: https://conexaoplaneta.com.br/blog/dorinha-melo-ativismo-e-uma-postura-de-vida-essencial-mesmo-que-nao-seja-confortavel/ Foto: Arquivo pessoal.

Um encontro com a cara real do Brasil

Ando me permitindo alguns luxos. Um deles foi ter aceitado um convite para acompanhar meu marido em um evento em Gramado, no Rio Grande do Sul, na semana passada. Viagem de esposa, só pra passear mesmo. Daquelas em que se sabe muito remotamente do que se trata e que, no máximo, precisa aparecer em algum jantar. Achei que, depois de tanto tempo juntos, merecia um programa de dondoca. No primeiro dia, não me fiz de rogada. Me esbaldei de caminhar pela charmosa cidade, que não visitava há uns 20 anos, fui a alguns parques ver as paisagens da Mata Atlântica serrana, com suas araucárias, cânions e cachoeiras deslumbrantes, e percorri as principais ruas do centro com suas milhares de lojas de chocolate e roupas de frio que acho lindas, mas não teria onde usar: nem lá, já que temos nos esforçado muito para aumentar a temperatura do planeta e, enquanto estive na Serra Gaúcha, só senti mesmo um leve friozinho. Ao reencontrar meu marido no final da tarde, porém, a consciência pesou um pouco quando vi seu entusiasmo com o evento que estava acompanhando. Além do tema em si – a 27ª Jornada Internacional de Direito tinha como tema Democracia e Valores Humanos, assunto bastante caro para nós -, os organizadores se pautaram por garantir equidade absoluta de gênero e raça entre os convidados. Deveria ser uma escolha banal em um evento voltado a estudantes de Direito, em um país onde metade da população é negra e metade é mulher. Mas, como sabemos, a verdade é que apenas o quadrante que não citei dessas metades sobrepostas, ou seja, os 25% de homens brancos, costuma reinar como palestrantes em encontros do gênero no Brasil. E não estou me referindo somente aos eventos de Direito. Nas minhas andanças ambientalistas e feministas, entre outras, já acompanhei encontros apenas de mulheres (claro que voltados às questões femininas) e, em pouquíssimos casos, equidade de gênero, mas de gênero e raça nunca havia visto. Resolvi abrir espaço em minha recente e almejada vida inconsequente para ver de perto, na manhã seguinte, o que estava acontecendo no famoso Palácio dos Festivais de Gramado. Não me arrependi. Logo ao chegar, era visível que a diversidade do palco se refletia na plateia, o que não é trivial para um evento que acontecia no Sul do Brasil. Nas diversas palestras que assisti, ouvi mulheres incríveis, entre elas a pesquisadora Winnie Bueno, de quem já era fã, além de Maria Angélica dos Santos, Juliana Albano, Tatiana Marcello, Luana Pereira da Costa, entre outras (e outros). As falas refletiam a mensagem básica que deveria nortear todas as políticas e ações neste país: sem diversidade, não há democracia ou direitos humanos. Ou, nas palavras do genial Emicida: “tudo que nois tem é nois”. Todos nós, não somente alguns de nós. Metida que sou, ainda disse ao curador do evento, o advogado Fabiano Machado da Rocha, que estava faltando representação indígena na seleção, ao que ele agradeceu e garantiu que providenciará para a próxima edição. Já passou da hora do Brasil mostrar sua cara real em todos os palcos e espaços de representação e poder.

Educação financeira e o coração mole

O menino tinha uns sete anos. Um dia chegou esbaforido da escola, bochechas vermelhas de excitação, e anunciou: – Preciso comprar as cartas de Yu–Gi–Oh!. Todo mundo tem! A mãe não fazia ideia do que se tratava, mas, solícita, perguntou onde comprava. – Em qualquer banca de jornal. Imaginou que fosse um gibi ou um álbum de figurinhas e prometeu passar para dar uma olhada. Ao chegar ao jornaleiro, porém, levou um susto. Tratava-se de algo como um jogo de baralho, com o qual os meninos travavam batalhas. O problema é que era importado e custava uma pequena fortuna para a época. Já poderia ser considerado um presente, e presentes, no combinado familiar, eram reservados para ocasiões especiais. Comunicou ao filho. Inconformado, depois de apelar para o pai, para a existência de cheque e cartão de crédito, “afinal, com eles, nem é preciso ter dinheiro”, o menino trouxe a solução: o preço do Yu-Gi-Oh! era seis vezes sua mesada. A mãe poderia emprestar o dinheiro e ele ficaria sem mesada por todos esses meses. Dividida entre o orgulho pela engenhosidade do rebento e a raiva dessa imposição de consumo, acabou concordando com a proposta. E, como mãe que era, ainda recomendou ao entregar as cartas ao filho, depois que as compraram juntos: – Toma cuidado com elas. São seis meses de mesada! Ao voltar do trabalho, naquele mesmo dia, a mãe pressentiu o clima de enterro em casa assim que colocou os pés para dentro. As filhas mais novas sentadas no sofá como se fossem princesas medievais, a babá entre constrangida e p. da vida, e o negociante suado e com olhos fundos de choro. Quis saber o que aconteceu. A babá e o menino passaram a falar ao mesmo tempo aos borbotões, mas a história era simples. À tarde, no clube, enquanto a babá estava com as meninas no parquinho, o filho foi jogar futebol e deixou a caixa das figurinhas na arquibancada. Quando se lembrou delas, não estavam mais lá. A mãe, consumidora de todas as cartilhas sobre como ser uma mãe moderna, segurou a vontade de explodir, respirou fundo, e conversou com o filho, que novamente desandara no choro: – Que pena! Quem sabe da próxima vez você cuida melhor das suas coisas. Deixar em qualquer lugar não é uma boa escolha – e blá, blá, blá até a criança se acalmar. De repente, o rosto do menino se iluminou, enxugou os olhos e, com um sorrido, falou à mãe: – Pelo menos agora eu vou ter minha mesada de volta. Nessa hora, talvez pela primeira vez nesse caso todo, a mãe se comoveu verdadeiramente e ficou longos segundos sem palavras. Como explicar ao pequeno que a dívida não se acaba com o desaparecimento do que foi comprado com o empréstimo? Desse jeito mesmo, é obvio, e foi o que ela fez, de coração partido. A tristeza dupla do menino durou alguns dias, mas não se falou mais no assunto, embora permanecesse como um peso para toda a família. Pouco mais de um mês depois, o pai viajou a trabalho para os Estados Unidos e ligou para a mulher para dizer que, lá, o Yu–Gi–Oh! custava menos da metade do que no Brasil. – Que tal levar de presente pra ele? Pais amolecidos de classe média funcionam assim. E é difícil saber se quem ficou mais feliz foi o filho ou eles mesmos. Mantiveram, entretanto, o compromisso da dívida, que foi regiamente paga em seis meses. 

Neivia Justa: criadora da #ondeestãoasmulheres continua usar redes pela inclusão

  Executiva de sucesso na área de comunicação corporativa, a jornalista cearense Neivia Justa conta que foram precisos mais de 20 anos de trajetória profissional – que iniciou como apresentadora de TV em Fortaleza até a diretoria de grandes multinacionais em São Paulo -, para se dar conta de que a falta de equidade de gênero no mundo corporativo era um problema. Mas, no momento em que foi tocada pelo tema, não ficou de braços cruzados. Criou a hashtag #ondeestãoasmulheres, que logo se transformou num movimento nas redes sociais. Mas foi no Linkedin que estourou. “Se somos quase 52% da população brasileira, responsáveis por 80% das decisões de consumo no Brasil, e ocupamos 60% das vagas nas universidades, por que não somos devidamente representadas?”, questiona. No Linkedin, hoje ela já tem mais de 80 mil seguidores e incorporou outros temas, como sustentabilidade e inclusão. Trocou a vida de executiva pela de empreendedora, criando a consultoria Justa Causa, com a qual desenvolve projetos de transformação e cultura digital, liderança, comunicação inclusiva e gestão de mudança para executivos e empresas.  Desde que a entrevistei para o Mulheres Ativistas, no Conexão Planeta, em 2019, Neivia também passou a entrevistar lideranças que estão na vanguarda das novas demandas empresariais. Em um momento no qual diversidade e inclusão ganham cada vez mais importância, vale a pena rever e entrevista com a criadora, ainda, do #aquiestãoasmulheres, para dar luz às mulheres que conseguem furar a bolha do machismo e se destacar. Veja a entrevista em: https://conexaoplaneta.com.br/blog/neivia-justa-em-busca-de-equidade-e-diversidade-nas-corporacoes/ Foto: Selfie de quando conversamos para a entrevista.

Existe vida profissional após a maternidade: só tem mais emoção

  Lembrei-me desta história conversando com uma amiga grávida preocupada com seu futuro profissional. Minha narrativa não chega a ser um alento, mas posso atestar que, apesar de aventuras como esta, é possível ser mãe e profissional! Quando me tornei mãe de gêmeas, já com um filho de três anos, achei que minha vida profissional e toda mais havia se encerrado. Mas eis que, passados três meses, voltei ao trabalho e o mundo continuou a rodar, mesmo que em sistema de adaptação. Assim que as bebês completaram dez meses, me senti pronta para a primeira viagem profissional pós-revolução. A missão era uma expedição ao Vale do Ribeira para identificar necessidades das populações ribeirinhas e quilombolas que ajudassem a direcionar a ação do Instituto Socioambiental (onde eu trabalhava) naquela região. Na equipe, uma antropóloga, um advogado e eu, a jornalista que reportaria as andanças. Em Iguape, onde estava nossa base, um biólogo se juntaria ao time. Deixei meu apartamento em um clima de paz celestial, com bagagem para cinco dias e uma secreta euforia pelas noites que passaria na pousada sem nada para interromper meu sono. Tínhamos avançado menos de duzentos quilômetros na Regis Bittencourt, no entanto, quando meu telefone tocou. Maridão avisava para eu não me preocupar, ficar tranquila, mas que uma das gêmeas estava com um pouco de febre e que ele sairia mais cedo do trabalho para acompanhar. Não me preocupei. Horas mais tarde, enquanto me enternecia com um pinguim achado na praia, que se recuperava no cercadinho da sede do Ibama em Iguape, e me decidia se ignoraria o cateto que morava na recepção e ia até a sala do coordenador para entrevistá-lo, chegou mais uma ligação de casa. “Só para você acompanhar, a bebê está com um febrão e muita tosse. Parece que também estou um pouco resfriado. Tudo bem por aí?” Ainda estava. À noite, após recusar sair com o pessoal para ter minha tranquila noite de sono, dei uma ligadinha pra casa, para ser informada que o pediatra pediu para ver a bebê no dia seguinte e que meu marido se sentia febril, “mas está tudo sob controle, os outros dois estão bem, aproveite a viagem”. Saímos de barco na madrugada do dia seguinte para nos embrenharmos nas comunidades do Lagamar, onde não chegavam notícias, políticas públicas e tampouco sinal de celular. Em meio à exuberância de mangues, florestas e restingas, e histórias de pescadores, marisqueiros e extrativistas, me esqueci de tudo mais. Só lembrei que era uma mãe-de-família durante o jantar e após algumas taças de vinho, na hora em que finalmente ouvi o telefone e gelei com a quantidade de mensagens. Meu marido, então já desprovido de sutilezas, descrevia uma situação de caos, na qual ele, “com muita febre”, teve que levar a bebê para tirar chapa do pulmão, “pois parece pneumonia”, e a “babá também está com tosse e febre”. Vencida pela realidade, decidi deixar a equipe seguir viagem sem mim e voltar para casa no primeiro ônibus, que saía às 5 horas da manhã. O caco humano, cansado e culpado que acordou com o celular descarregado e atrasado pela noite curta e mal dormida, só se lembrou que não havia feito xixi quando o ônibus deixava a rodoviária, e foi se contorcendo até a primeira parada em Miracatu, uma hora depois, com o dia amanhecendo. Saí voando assim que a porta se abriu e corri para o banheiro, para descobrir que o xixi custava 50 centavos. Tentei negociar com uma leoa de chácara que cuidava daquela roleta como se fosse a entrada do paraíso, o que para mim efetivamente era. Sem sucesso, tirei da carteira o único dinheiro que tinha, uma nota novinha de 50 reais. Ela não se comoveu. Pediu que eu esperasse enquanto ia trocar, o que pareceu, naquela situação de desespero, demorar algumas horas. Apenas depois de contar todas as moedas e notas de 1 real, as quais depositou uma a uma na minha mão, finalmente liberou minha entrada. Confesso que o alivio de sentir o corpo voltar à situação de controle me tirou um pouco da pressa e da noção de realidade, tanto que cheguei a cogitar tomar um café. Uma olhada rápida para o estacionamento, porém, fez meu coração sincopar. Ainda sem entender a situação, me vi correndo de um lado para o outro, sem acreditar que o acontecido de verdade aconteceu. O ônibus foi embora sem mim e, pior, com todas as minhas anotações dentro da mochila. Desse momento em diante, minha mente entrou no modo “o que gostaria de fazer: assassinar o motorista e a leoa de chácara” versus “o que preciso fazer”, que finalmente se impôs. Cheguei ao guichê indignada, aos berros, que se transformaram em lágrimas e desistência da vida assim que o vendedor me disse que o próximo ônibus só sairia ao meio-dia. Nesse momento, conheci a verdadeira compaixão. O rapaz ficou tão condoído com minha história de supermãe que precisa salvar a família, que se ofereceu para alcançar o ônibus de moto. Sem pensar ou puxar da memória “por que mesmo eu não ando mais de moto?” (quase fui comida por um pitbull, que pôs a cara pra fora de um carro e, felizmente, só conseguiu levar parte do meu cabelo), aceitei o oferecimento e me vi na garupa do mocinho, sem capacete, fazendo motocross a mil por hora por uma estrada vicinal que não fazia ideia para onde levava. Depois de uns 15 minutos e uma manobra radical para a direita, finalmente chegamos na BR-116 no exato instante em que o ônibus passava, ou seja, não conseguimos pará-lo por uns cinco segundos. Resignada, voltei com ele para a rodoviária de Miracatu, de onde ligou para a de São Paulo e conseguiu a promessa de que guardariam minha mochila até eu chegar, o que só aconteceu por volta das quatro da tarde. Em casa, uma hora de táxi depois, fui recebida pela babá, apenas levemente gripada, e pelas crianças felizes, saudáveis e bem cuidadas: o exame da bebê

Neidinha Suruí: uma onça na defesa dos índios e seus territórios

 Quem ainda não conhece Neidinha Suruí, pode ler seu perfil no Mulheres Ativistas ou assistir ao filme O Território, no Disney+, que recomendo muito. A luta desta indigenista, mãe da também ativista Txai Suruí, é uma ótima chave para entender a importância de que o Marco Temporal NÃO seja aprovado. Desde 1992, a Neidinha lidera a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, organização não-governamental de Rondônia que atua com mais de 50 etnias indígenas. Foi a primeira mulher a trabalhar na Funai com índios isolados e, por isso, se acostumou a enfrentar madeireiros ilegais, mineradores e outros invasores de terras indígenas e unidades de conservação. Mãe de cinco filhos, Neidinha passou a infância em plena floresta amazônica. Em Porto Velho, onde vive, cursou História e fez mestrado em Geografia. Com esse cacife, essa mulher miúda é uma gigante na defesa ambiental e dos direitos dos povos desde os locais mais embrenhados na mata até em eventos internacionais mundo afora. É uma onça que não se intimida com as constantes ameaças que pairam sobre ela e sua família. Ela ainda canta, pinta e toca!! Veja seu perfil no Conexão Planeta: https://conexaoplaneta.com.br/blog/neidinha-surui-tenho-espirito-de-onca-pintada-das-mais-bravas/ (Foto: das amigas)  

Passeio na Vila Flores

  As informações na internet diziam que abriria às 10h30. Chegamos às 10h40 e a porta com o número 753 do endereço está fechada. Damos a volta em torno das casinhas que compõem a Vila Flores do lado de fora, todas com plaquinhas confirmando que fazem parte desse centro cultural que há tempos quero conhecer em Porto Alegre. Tocamos até uma campainha e nada. Como típicos paulistanos, ficamos mais irritados do que decepcionados. Para não perder totalmente a viagem, saco o celular e tiro algumas fotos das fachadas antigas, enfeitadas com vasos floridos, e nos preparamos para chamar o Uber quando, como que por encanto, o 753 se abre. Dentro, um charmoso café, com mesinhas e uma cozinha à mostra, funciona como um portal para outro mundo. Uma moça sorridente, vestindo um avental, nos recebe, pergunta se é nossa primeira vez por lá e, ao respondermos que sim, diz que chamará alguém para nos acompanhar. Do outro lado do café, uma nova portinha se abre para um pátio cercado de prédios de três andares com apartamentos com varanda na frente. A combinação de construções antigas com trepadeiras e flores, pinturas, esculturas e bancos de praça faz pensar que estamos em uma cidadezinha europeia. A manhã ensolarada deixa tudo ainda mais colorido, e relaxamos de vez quando aparece Pâmela para nos guiar. Ela conta que o espaço é uma antiga vila de operários, formada por três edifícios projetados nos anos 1920 pelo engenheiro-arquiteto alemão Joseph Franz Seraph Lutzenberger, avô no nosso ambientalista primeiro José Lutzenberger. Penso que ter um avô imigrante que projetou varandas para operários no início do século passado deve ter sido uma inspiração para o Lutz que nos puxou para a luta contra a poluição e degradação ambiental em nosso país. Pâmela explica, também, que o local é um centro de arte e cultura, gerido por organizações do terceiro setor, cooperativas, sociedade civil e empreendimentos sociais, e mantido pelo aluguel que organizações e artistas pagam para instalar seus ateliês nos antigos apartamentos. Ela mesma atua em um projeto social que une arte, educação e sustentabilidade, por meio de reaproveitamento de tecidos e produção de roupas e acessórios, que são vendidos no local. Nos leva para conhecer os galpões, onde são realizadas oficinas e exposições. Nas paredes, o resultado de uma dessas oficinas na qual mulheres expressam a indignação pela onda misógina que toma conta do Brasil. Frases de políticos machistas notórios me deixam arrasada ao constatar que são todos paulistas: “Os governos agora precisam ter maridos, viu, porque daí não vai quebrar” (Michel Temer); “Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher” (vocêsabequem); “Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata” (Paulo Maluf); “São fáceis porque são pobres” (Arthur do Val). Sei que o mal é nacional, mas é duro de ver tipos como esses brotarem como cana, café e laranja no meu estado. Shows, festivais e até uma feira de produtos orgânicos fazem parte da programação do lugar. Uma creche parental é mantida para o cuidado compartilhado das crianças. Em abril último, o local foi um dos escolhidos para receber o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por suas ações para preservação e promoção do patrimônio social e seu impacto para a sustentabilidade econômica. Cheios de compromissos familiares que compõem nossas visitas a Porto Alegre, nem temos tempo de tomar o café e esperar pelos pãezinhos que estão sendo assados no momento que saímos. Um dos ótimos motivos para voltar.

Mulheres Ativistas: um olhar para as futuras gerações e para o envelhecimento feminino

  Nesta entrevista ao blog Mulheres Ativistas, no Conexão Planeta, a bióloga Lucila Egydio fala de ativismo como uma postura de vida, presente em todas as escolhas que faz. Por quase uma década, Lucila conviveu diretamente com os pantaneiros e sua cultura no Refúgio Ecológico Caiman, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, e aprendeu a importância do ecoturismo como oportunidade de conservação do meio ambiente. Não se intimidou com o fato de ser mulher e forasteira em um ambiente bastante masculino, e conquistou seu espaço se integrando, ao máximo, aos costumes locais. A experiência adquirida como guia, na gestão do hotel e no desenvolvimento de manuais e trilhas fez com que fosse convidada, em 2000, para trabalhar no Ministério do Meio Ambiente, em um programa de desenvolvimento do ecoturismo na Amazônia. Depois disso, coordenou um projeto de desenvolvimento de ecoturismo na Mata Atlântica para a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, além de dar aulas e consultorias sobre o tema. Em 2011, se tornou diretora executiva Instituto SOS Pantanal, quanto teve que aprender a lidar com o mundo do agronegócio, sobretudo da pecuária, alvo das ações da organização. Em 2015, de volta a São Paulo, um pouco frustrada com as dificuldades de atuar com o setor agro, ela deu uma guinada que a colocou em uma outra frente de ativismo, o do envelhecimento. Convidada para ajudar a desenvolver um projeto voltado a idosos, foi seduzida pelo tema. Passou a frequentar eventos e foi estudar o envelhecimento feminino. “Briguei muito pelas futuras gerações e agora estou lutando pela minha”, brinca ela. A biólogo, amiga que acompanho de perto há anos, é um exemplo de ativismo por inteiro, que busca a cidadania e a construção de um mundo melhor pata todos em qualquer área em que atue. Veja a entrevista em:  https://conexaoplaneta.com.br/blog/lucila-egydio-um-olhar-para-as-futuras-geracoes-e-para-o-envelhecimento-feminino/ (Foto de arquivo pessoal no FB)

Sobre o Marco Temporal e o tempo e tudo mais que roubamos de nós mesmos

Estava em Carajás, que é uma ferida imposta à floresta amazônica no Pará. Mais precisamente, na cidadela construída pela Vale para abrigar os funcionários qualificados que leva para coordenar e controlar a infecção causada pela retirada de minério de ferro para alimentar nossa gulosa civilização. O lugar é um tipo de Alphaville murada, não para isolar dos pobres, mas de onças e quetais. De lá, nós, jornalistas, seríamos levados pela companhia para uma comunidade caiapó, dos Xicrin do Cateté, para presenciarmos a finalização de um projeto de manejo sustentável de madeira realizado pelos indígenas. Era mais uma das inúmeras tentativas de dar uma “utilidade” para índios e suas terras, pensadas por ambientalistas e indigenistas bem-intencionados para adiar a extinção desses povos, e financiada pela grande corporação, não por generosidade ou consciência pesada, mas para pacificá-los e evitar que impedissem o carregamento da montanha em pedaços pela estrada-de-ferro que circunda a terra indígena – ou invade parte do que deveria estar dentro dela. Caiapós são guerreiros e a vida do capital não é fácil perto deles. Nos levantamos cedo para a viagem e eu estava animada, pois, mesmo com anos de trabalho relacionado a povos indígenas, nunca havia estado em uma aldeia, mas também com medo. Quando ouvi que iríamos de “caravan”, achei que era de carro, mas era um bimotor. Andava sensível naqueles tempos. Com crianças pequenas em casa, tinha paúra de morrer, imagina perdida no meio da selva! Foram uns 40 minutos de pavor e maravilhamento voando debaixo de chuva sobre aquele tapete verde sem fim. Até que, junto com um sol esplendoroso, surgiu uma clareira na paisagem – a pista de pouso -, um trechinho de terra à mostra cheio de crianças correndo e acenando para o avião. Gelei em pleno calor equatorial ao nos aproximarmos e imaginar um strike de crianças, que, claro, não aconteceu. Na aldeia, ali pertinho, a expectativa de um grande evento agitava os moradores. Entre os muitos visitantes, até ministro de Estado era esperado. No grande pátio, cercado pelas construções típicas daquele povo, crianças de todas as idades circulavam, as menorzinhas totalmente nuas, em um ambiente de total liberdade. Corriam, subiam em árvores, os bebês passavam de colo em colo. Pareciam não ser cuidadas por ninguém, mas percebi que, na verdade, eram cuidadas por todos. Foto: Festa por ocasião de saída da primeira safra de madeira da Terra Indígena Xikrin do Cateté. Pedro Martinelli-2000, ISA, https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kayap%C3%B3_Xikrin Um grupo de meninas, quase adolescentes, me cercou para mostrar as pulseiras de sementes e miçangas que haviam feito. Queriam trocar pelo relógio de ouro que carregava no pulso. Não entendiam minha recusa, pois eram muitas pulseiras para um só relógio. Expliquei a elas (com alguma verdade), que se tratava de um presente de meu marido, por isso não seria possível me desfazer dele. Ganhei pulseiras mesmo assim, mas fiquei com uma sensação de perda que ainda não conseguia explicar. Durante a solenidade com as autoridades, a maior parte dos moradores parou para assistir. O cacique – um senhor imponente e com cara de bravo, sentado no chão no centro da roda – fazia as honras da casa. Enquanto falava, várias crianças acercavam-se dele, algumas sentavam-se entre suas pernas. Quando uma delas queria lhe dizer alguma coisa, ele interrompia sua fala para ouvi-la pacientemente, e depois continuava a conversa com os forasteiros. Comecei a me sentir mal. Demorei para perceber a causa. Tive uma epifania. Me transportei para meu apartamento pequeno onde meus filhos deveriam estar confinados aos cuidados da babá ou em alguma atividade monitorada por adultos pagos para mantê-los sob controle. Um nó me subiu pelo estômago e precisei sair correndo dali antes que o soluço alto, que não tinha como evitar, chamasse a atenção. Sozinha, atrás de grandes árvores às margens da aldeia, chorei por vários minutos invadida por um sentimento de pena dos meus filhos, e culpa por proporcionar uma infância tão pobre pra eles. Os via como pequenos prisioneiros em um mundo tão grande e cheio de aventuras e belezas inacessíveis para suas vidas limitadas a um sistema pré-determinado e sem saída. Lembrei desse momento hoje de manhã ao ver as manchetes sobre a aprovação na Câmara dos Deputados do Marco Temporal. A imprensa vê o fato como um revés para a agenda ambiental do governo Lula. Ruralistas, garimpeiros e corporações ávidas por mais e mais terras e rios e florestas e montanhas para comer devem estar comemorando. A maior parte da população não está nem aí, não entende do que se trata nem está interessada em saber. Eu voltei para aquela aldeia indígena que me mostrou o quando de nossa humanidade estava perdida. E tive pena de meus possíveis futuros netos. 

Retrofit

  Era o prédio mais bonito de São Paulo. Pelo menos no olhar do menino franzino que, aos 14 anos, foi contratado como mensageiro na Companhia Telefônica Brasileira, ou CTB. Não sabia, então, que a sede da Companhia – como chamaria a empresa mesmo após mudanças de nome ao longo do tempo – seria praticamente sua casa por toda uma vida. Conhecia cada corredor, cada sala, por onde passava entregando a correspondência entre setores, em um mundo onde o e-mail não era sequer sonhado. Tímido, mas educado e dedicado, acabou promovido ao balcão de atendimento, no suntuoso átrio do edifício. Era ali que os poucos privilegiados possuidores de telefones vinham resolver os problemas relacionados a suas linhas. Ou reclamar da falta delas, agrura paulistana que só começou a ser resolvida no final dos anos 1970. Foi daquele balcão que viu, pela primeira vez, a moça interiorana bonita e espevitada, deslumbrada com a cidade, que seria sua colega de trabalho por muito tempo, antes e depois de ter coragem de se declarar. Para ela, a Companhia significou a prova de que a capital era mesmo cheia de oportunidades. Assim que chegou “à terra da garoa, em um deslumbrante dia de sol”, soube que estavam contratando telefonistas e correu para se inscrever. Ao passar pelo exame admissional, com uma gripe forte de recém-chegada, o médico perguntou sobre sua formação e, ao saber que “fazia o Normal”, disse que era muito qualificada para ser telefonista. Pediu que fosse para casa e, quando passasse a febre, voltasse que seria encaminhada para um trabalho mais bem remunerado e menos sacrificado. As heroicas telefonistas trabalhavam em esquemas de plantão que incluíam dormir no serviço, o que inviabilizaria que terminasse o magistério no turno da noite. De uma forma resumida, na parte que me toca desta história, eu possivelmente não existiria se esse edifício não tivesse sido construído. Foi na CTB que meus pais se conheceram e se apaixonaram. Era para estar perto da rua Sete de Abril, onde trabalhavam, que, ao se casarem, foram morar na rua Martinho Prado, em frente à Praça Roosevelt e ao lado de onde estava sendo construído o elevado que seria conhecido como Minhocão. Dali, podiam almoçar em casa e estar rapidamente com o casal de filhos que aumentou a família em pouco mais de dois anos. Durante meus primeiros anos, esses cartões-postais de São Paulo, que incluíam subir e descer a escada rolante da Galeria Metrópole, programa de todos os fins de semana, eram o mundo que conhecia. O edifício da Sete de Abril era tão parte da família quando os muitos amigos dos meus pais com os quais convivíamos, todos colegas na Companhia. Desdobramento comum para a época, depois de onze anos trabalhando no mesmo lugar e com o marido que de colega passou a chefe, minha mãe deixou o emprego e nos mudamos para um bairro mais amigável para crianças. Meu pai, estudando à noite, concluiu dois cursos superiores, o que viabilizou que tivesse uma longa e bem-sucedida carreira na firma, que de Companhia Telefônica, passou a Telesp, voltou a ser Telefônica e, agora, privatizada, não sei mais o que é. Em algum momento, com a empresa crescendo ao ritmo de São Paulo, meu pai deixou o edifício da Sete de Abril e trabalhou em diversos endereços até se aposentar, depois de 45 anos, como o funcionário mais longevo na organização até então. E eis que outro dia vejo no Instagram que o edifício da Telefônica, aquele que foi um dos mais imponentes da cidade e está abandonado há anos, será retrofitado. E que, antes da obra começar, estava sendo realizada uma exposição de arte no local. Tive um ataque de comichão e ansiedade. Faltavam poucos dias, precisava levar meu pai até lá. Combinei de me encontrar com ele na porta, mas, ao chegar, quase me arrependi ao me deparar com um prédio totalmente deteriorado. Não havia placas indicando que algo acontecia ali, apenas portas fechadas e paredes pichadas. Mas faltava ainda meia hora para abrir e resolvi tomar um café em uma lanchonete ao lado e ver o que acontecia. Aos 88 anos e com seus passos vagarosos, localizei meu pai um tanto atordoado na multidão do centro e fui resgatá-lo. Ele já havia passado em frente ao edifício e estava tão decepcionado quando eu. Aguardamos ainda alguns minutos e, quando nos aproximamos, havia várias pessoas esperando a abertura da exposição. Estávamos entre os primeiros a entrar no grande vestíbulo que misturava um ar de abandono com início de obras, ocupado por poderosas instalações de arte que pareciam gritar que aquele é um espaço de valor, do qual o capital e a falta de memória da metrópole tentaram se livrar, mas não conseguiram. Os olhos mareados de meu pai, porém, mal enxergavam as obras de arte. Suas pupilas refletiam os tempos passados: o grande balcão, os elevadores, o banco onde os clientes esperam para ser atendidos, o mezanino, de onde desciam por um elevador os documentos solicitados. O título da mostra, Irrealidades Visíveis, era o mais próprio possível. Em meio a restos abandonados de móveis e tecnologias antigas, alguns deles utilizados nas instalações artísticas, meu pai me descreveu como era o prédio, como funcionava a empresa, onde ficavam os escritórios, as telefonistas e seus dormitórios, as quadras de boliche, segundo ele coisa dos “ingleses” da Companhia. Lamentou que minha mãe, hoje com demência senil, não pudesse estar ali. Ficamos sabendo que o prédio será reformado e transformado em escritórios e apartamentos, que já estão à venda. Permanecemos andando pela atual ruína por quase uma hora e saímos felizes de saber que voltará à vida, e, talvez, ajude a recuperar o que podemos chamar do coração de São Paulo. Este, constatamos, anda um tanto sujo e com um certo ar de desleixo do poder público. Mas ainda é vibrante e cheio de uma diversidade que faz lembrar a cidade de promessas de quase um século atrás.