Tremores e temores
Tremores e temores Ao fazer um discurso em homenagem a seu pai na universidade onde ele lecionou, dois anos após sua morte, a escritora estadunidense Siri Hustvedt teve uma tremedeira por todo o corpo, do pescoço para baixo. Ficou desconsertada e preocupada. O que seria aquilo? Acostumada a dar palestras e entrevistas, não encontrava motivos para o acontecido. Vítima de fortes enxaquecas desde a juventude, após sofrer mais um episódio de tremores ao falar em público, passou a pesquisar as causas. O resultado é o livro A Mulher Trêmula ou Uma História dos Meus Nervos, no qual retrata sua jornada em busca do que acontecia com seu corpo e se embrenha no mundo da psicanálise e da neurologia em busca de respostas. Hustvedt – agora viúva do recém-falecido escritor Paul Auster – não era uma neófita sobre doenças psíquicas e mentais. Há anos participava de grupos de estudo sobre o tema e dava aulas de escrita criativa para pacientes de um hospital psiquiátrico. Misto de biografia e ensaio, a obra me encantou por minha identificação com as questões da autora sobre o que é biológico, o que é mental ou psicológico nas manifestações do nosso cérebro. O que faz uma pessoa ser mais sentimental, ter um pensamento mais lógico, ter enxaquecas ou tremer? Como estas manifestações moldam ou são moldadas pela personalidade? Há pouco mais de três anos passei também a ser uma mulher trêmula. No meu caso, o que treme é o lado direito do rosto, e, para além do evidente problema estético, às vezes me atrapalha na leitura e até na fala. Costumo chamar o fenômeno de “presente da pandemia”, pois começou a aparecer durante o longo isolamento e depressão do período da covid. Para os neurologistas, porém, o que tenho são espasmos hemifaciais, uma manifestação neurológica que aparece sem explicações causando movimentos progressivos, involuntários e irregulares dos músculos inervados pelo nervo facial. Segundo uma das neurologistas que consultei, é como se alguns fios tivessem se desencapado e ficassem roçando uns nos outros na minha cabeça. Até o momento, a única solução – parcial e temporária – que me deram são aplicações de botox. Assim como Siri Hustvedt, gostaria de entender o que, exatamente, acontece com meus nervos. Não me parece lógico um sinal físico dessa natureza aparecer assim, do nada, e não ter relação alguma com o momento de fragilidade emocional no qual me encontrava. Por outro lado, esta mesma fragilidade emocional também me intriga. Por que me desestruturei tanto naquele momento? Milhares de pessoas passavam por tragédias imensas e não ficaram como eu. Estava segura, em nossa chácara, com toda minha família, nenhum deles internado com covid, trabalhávamos e ganhávamos normalmente. Tive algo químico ou sou apenas uma pessoa emocionalmente fraca? Perguntas como estas são instigantes, porém, não respondem ao essencial: é possível alterar essa condição, seja ela física ou psíquica? Hustvedt não conseguiu solucionar suas questões neucientíficas nem seu problema específico. Resolveu aceitar as ambiguidades do cérebro e o fato de ser uma mulher trêmula. Talvez eu deva fazer o mesmo.
CFL: Em Agosto nos Vemos
Pela primeira vez em uma reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) nos ativemos mais ao Prefácio e ao posfácio, intitulado Nota da Edição Original, do que à discussão do enredo do livro. Os textos estão inseridos na obra Em Agosto nos Vemos, do Gabriel García Márquez, publicado postumamente por iniciativa dos filhos do escritor. Nossa conclusão foi unânime: se você não quiser que algo seu seja publicado (ou visto ou qualquer outra coisa) após a sua morte, destrua antes, pois caso o que você deixou valha algum dinheiro será usado à sua revelia. Foi exatamente isso que fizeram filhos e editores de Gabo ao publicar um livro claramente menor e inacabado do grande escritor. O ganhador do Nobel, ícone da literatura latino-americana e autor da obra-prima Cem Anos de Solidão não precisava ter esse livro em sua biografia. Por mais gostosinho de ler que ele seja. Caso Nos Vemos em Agosto fosse a obra de estreia de qualquer aspirante a escritor estaria super ok, pois tem um tema interessante e podemos abstrair as várias pequenas contradições e a superficialidade da história. Mas um gênio perfeccionista como García Márquez não deixaria nada passar. O Prefácio informa que o que apresenta é a junção de duas versões da novela na qual o escritor trabalhava, em meio a outras versões ainda, nenhuma considerada boa pelo autor. O argumento de que é um presente aos fãs de Gabo não convence. Seria melhor reler qualquer um de seus outros livros. Mas dindim é dindim, fazer o que. Claro que nada disso nos impediu de viajar na barca com Ana Magdalena para aquela ilha no Caribe e acompanhá-la ao túmulo de sua mãe e às suas aventuras extraconjugais. Com nossos trajes caribenhos, um cardápio de milho como base (de doer de bom), incluindo pastéis, polenta com cordeiro e curau preparados pelo simpático chef-vizinho da Edna, apoiamos as escapadas de nossa protagonista, mesmo sem entender seu propósito ou ficar claro (uma das contradições do livro) se seu marido é um predador inveterado ou um companheiro fiel que deu uma vacilada apenas uma vez. Tanto faz. Como a bruxa estava solta e imprevistos em série fizeram a maior parte das integrantes faltarem à reunião, em nosso encontro mensal do CFL – com apenas cinco de nós – ainda sentimos falta de saber mais sobre a mãe de Maria Magdalena e da relação das duas – ficou aquele gostinho de quero mais, de que havia mais a ser dito caso García Márquez o tivesse terminado.
Quando a turma da kombi se encontra
Éramos (bem) jovens. Tínhamos muitos sonhos, esperança e determinação – e alegria de sobra. Queríamos salvar o mundo de nós mesmos e para nós, mas também para todo o resto de vida que há no planeta. A Mata Atlântica foi o primeiro alvo, estava mais perto da sanha destruidora, era preciso correr contra o tempo. No início, costumávamos dizer que cabíamos em uma kombi. Depois, várias redes foram criadas, novos parceiros com os mesmos objetivos foram descobertos, e a luta se expandiu em todas as direções e biomas do Brasil. Sem essa Kombi, no entanto, possivelmente muito pouco da Mata Atlântica restante estaria de pé. Não haveria uma Lei da Mata Atlântica (a única a proteger um bioma específico no país) nem o Dia da Mata Atlântica, comemorado em 27 de maio. Nessa data, anualmente, a turma da kombi tem um encontro marcado. Nem todos conseguem vir, pois estão espalhados pelo Brasil: produzindo mudas e plantando árvores, fazendo ciência e lutando por políticas públicas para minimizar as mudanças climáticas e salvar a biodiversidade, tentando barrar o desmatamento e evitar as consequências de eventos extremos que, infelizmente, chegaram para ficar. Mas quem está em São Paulo ou tem um tempinho pra vir, aparece no Viva a Mata, a grande festa promovida pela SOS Mata Atlântica. É onde amigos e parceiros de tantos anos se reencontram, reabastecem energias e celebram o fato da kombi ter ficado pequena para tantos que vêm se juntando à frota. Comemoramos mesmo sabendo que ainda tem muito espaço nessa turma para ser ocupado e o tempo está cada vez mais curto para o tanto que é necessário fazer. Ontem tivemos mais um desses encontros. Foi lindo. Dormi feliz.
A air fryer e a ilusão capitalista
Fui apresentada à air fryer durante a pandemia. Não pessoalmente, pois me encontrava em isolamento em uma chácara, digamos, isolada, mas através das reuniões de Zoom. Era só termos uma pausa hidráulica ou nos aproximarmos da hora do almoço e alguém soltava: “chegou minha air fryer!” Dali pra frente, mesmo que estivéssemos discutindo o destino da Amazônia ou do Cerrado, de florestas, a índios, a gado, a rios, enfim, qualquer coisa mundana trivial, tudo era esquecido. As maravilhas que eram possíveis de fazer rapidamente, sem óleo, sem trabalho, apenas jogando o que quer que fosse naquela que entendi ser uma panela elétrica, tornavam-se o centro das atenções. Os rostos apáticos nas telas ganhavam vivacidade e a troca de dicas e receitas e declarações de amor ao mais importante utensílio doméstico criado desde a invenção do fogão à lenha tomavam toda a atenção. Frango à passarinho ou batata frita, legumes e arroz em minutos, forrar com papel alumínio para facilitar a limpeza, pão de queijo ou coxinha rapidinhos para o lanche: aprendi que tudo fica bom e mais saudável na air fryer. Trancafiada em um lugar onde precisava rotear o 4G do celular para o computador para poder trabalhar e aonde não chegava correio, proibida de sair de casa pela filharada, que ia apenas uma vez por semana à cidade para comprar o que tivesse no supermercado local, eu me fazia de samambaia para não ser notada e ninguém ver minha cara de inveja. Nesses momentos, ir até à horta um pouco antes do almoço colher o que tinha de fresco para a próxima refeição deixava de ser um antigo sonho e se tornava um enorme fardo sem nenhuma tecnologia. Passada a fase hard do isolamento, ainda antes das vacinas ou de luz no fim do túnel da pandemia, os filhos resolveram que, se era para morrer, não seria naquele fim de mundo, e começaram a passar temporadas em São Paulo, mesmo que fechados no apartamento. Quando nossa fiel escudeira Érika ficou sabendo disso, me ligou e disse que não achava “justo” estarmos os cinco trabalhando (eu, meu marido e os três filhos) e ela “sem fazer nada em casa”. Se ofereceu para preparar marmitas e deixar na portaria do prédio para que quem estivesse por lá trouxesse para a chácara cardápios completos para a semana. Fizemos uma reunião de família e chegamos à conclusão, com a consciência de classe tranquila, que não tínhamos argumentos para rebater a oferta. Não aguentávamos mais o cardápio limitado e as eternas discussões sobre o excesso de louça na pia entre reuniões, lives e aulas on-line. Ela tinha um cartão de crédito funcional para os gastos e, felizmente, um carro para poder fazer a entrega sem grandes riscos. A vida ficou tão mais fácil que até a depressão geral familiar diminuiu. Me sentia tão aliviada que continuei a me fazer de desentendida nos momentos air fryer entre colegas por vergonha de contar meu privilégio e estragar o entusiasmo geral. Com a redução da pandemia, após as vacinas, a vida foi, aos poucos, voltando ao normal. Retornamos de vez ao nosso apartamento em São Paulo e, pouco depois, à mordomia de ter a comida da Érika feita diariamente em casa. Esqueci da existência da air fryer ao mesmo tempo que ela deixou de ser o centro das atenções do home office forçado. Até que, não sei se por terem sido obrigados a ficar trancados com os pais tanto tempo ou porque já estava na hora mesmo, meus filhos, em um curto período, saíram todos de casa. E, de repente, nos jantares em que nos reunimos, quem voltou a ser assunto? Ela mesma, a air fryer. As expressões maravilhadas que via na tela durante a pandemia, passei a encarar na minha própria mesa, com conselhos “de filhos pra mãe” de que preciso ter uma. Foi nesse momento que meu banco entrou na história. Por meu banco, entenda o banco em que tenho conta, naturalmente, pois se tivesse um banco, não me preocuparia com panelas elétricas ou de qualquer outra natureza. Enfim, meu banco passou a enviar mensagens diárias por e-mail, às vezes mais de uma por dia, de ofertas em sua loja on-line. Insatisfeito de apenas guardar e emprestar dinheiro, resolveu também vender produtos e me avisava que eu tinha muitos pontos, ganhos por gastar dinheiro via cartão de crédito, para resgatar em produtos diversos. Mas que esses pontos venceriam se não os utilizasse e, nas entrelinhas, que eu era uma trouxa por não aproveitar a oportunidade. Tive, então, a grande ideia de resolver duas questões de uma vez: gastar meus pontos e, finalmente, adquirir uma air fryer. Escolhi a mais cara que meus pontos podiam comprar. Fiquei tão feliz que saí pela casa contando pra todo mundo: meu marido, a filha que veio para o almoço e a Érika. Fizemos planos para novos cardápios crocantes e menos calóricos. Voltaria a comer batatinha frita! A alegria só durou até voltar à minha escrivaninha e ler um e-mail do banco avisando que a compra não foi efetivada por problemas técnicos. A frustração foi enorme, mas deixei para tentar novamente em outra hora, pois havia outras coisas quase tão urgentes para fazer. Me esqueci do caso por alguns dias até me deparar com a conta do cartão de crédito e ver que os quase 400 reais da air fryer foram cobrados na fatura. Desde então, meu sonho de consumo e minha confiança no banco se liquefizeram. Passado mais de um mês, várias trocas de e-mails e ligações com o gerente do banco, uma visita à agência, duas calls com o gerente e a equipe do cartão de crédito, tudo o que consegui foi uma promessa remota de que “estão avaliando o caso” e que, “se tudo der certo”, podem me estornar o valor em até dois meses. Balanço até o momento: continuo com meus pontos, estou quase 400 reais mais pobre e sem uma air fryer para chamar de minha.
Ativismo como uma postura de vida
Voltamos à entrevista com Dorinha, a arquiteta pernambucana Maria das Dores Melo. Durante aproximadamente 20 anos, ela esteve à frente de organizações não-governamentais que ajudaram a colocar no mapa – literalmente – a Mata Atlântica do Nordeste e evitar que seus remanescentes interioranos desaparecessem de vez. Tanto na Sociedade Nordestina de Ecologia (SNE) como a Associação para a Mata Atlântica do Nordeste (Amane), organização criada por uma aliança de oito importantes ONGs brasileiras que atuam no bioma, ela se dedicou apaixonadamente para conseguir recursos e implementar projetos na região, até comprometer sua saúde. Para Dorinha, ativismo pode ser uma postura de viver, de se expressar, “essencial mesmo que não seja tão confortável”. Veja a entrevista completa no Conexão Planeta: https://conexaoplaneta.com.br/blog/dorinha-melo-ativismo-e-uma-postura-de-vida-essencial-mesmo-que-nao-seja-confortavel/ Foto: Arquivo pessoal.
Um encontro com a cara real do Brasil
Ando me permitindo alguns luxos. Um deles foi ter aceitado um convite para acompanhar meu marido em um evento em Gramado, no Rio Grande do Sul, na semana passada. Viagem de esposa, só pra passear mesmo. Daquelas em que se sabe muito remotamente do que se trata e que, no máximo, precisa aparecer em algum jantar. Achei que, depois de tanto tempo juntos, merecia um programa de dondoca. No primeiro dia, não me fiz de rogada. Me esbaldei de caminhar pela charmosa cidade, que não visitava há uns 20 anos, fui a alguns parques ver as paisagens da Mata Atlântica serrana, com suas araucárias, cânions e cachoeiras deslumbrantes, e percorri as principais ruas do centro com suas milhares de lojas de chocolate e roupas de frio que acho lindas, mas não teria onde usar: nem lá, já que temos nos esforçado muito para aumentar a temperatura do planeta e, enquanto estive na Serra Gaúcha, só senti mesmo um leve friozinho. Ao reencontrar meu marido no final da tarde, porém, a consciência pesou um pouco quando vi seu entusiasmo com o evento que estava acompanhando. Além do tema em si – a 27ª Jornada Internacional de Direito tinha como tema Democracia e Valores Humanos, assunto bastante caro para nós -, os organizadores se pautaram por garantir equidade absoluta de gênero e raça entre os convidados. Deveria ser uma escolha banal em um evento voltado a estudantes de Direito, em um país onde metade da população é negra e metade é mulher. Mas, como sabemos, a verdade é que apenas o quadrante que não citei dessas metades sobrepostas, ou seja, os 25% de homens brancos, costuma reinar como palestrantes em encontros do gênero no Brasil. E não estou me referindo somente aos eventos de Direito. Nas minhas andanças ambientalistas e feministas, entre outras, já acompanhei encontros apenas de mulheres (claro que voltados às questões femininas) e, em pouquíssimos casos, equidade de gênero, mas de gênero e raça nunca havia visto. Resolvi abrir espaço em minha recente e almejada vida inconsequente para ver de perto, na manhã seguinte, o que estava acontecendo no famoso Palácio dos Festivais de Gramado. Não me arrependi. Logo ao chegar, era visível que a diversidade do palco se refletia na plateia, o que não é trivial para um evento que acontecia no Sul do Brasil. Nas diversas palestras que assisti, ouvi mulheres incríveis, entre elas a pesquisadora Winnie Bueno, de quem já era fã, além de Maria Angélica dos Santos, Juliana Albano, Tatiana Marcello, Luana Pereira da Costa, entre outras (e outros). As falas refletiam a mensagem básica que deveria nortear todas as políticas e ações neste país: sem diversidade, não há democracia ou direitos humanos. Ou, nas palavras do genial Emicida: “tudo que nois tem é nois”. Todos nós, não somente alguns de nós. Metida que sou, ainda disse ao curador do evento, o advogado Fabiano Machado da Rocha, que estava faltando representação indígena na seleção, ao que ele agradeceu e garantiu que providenciará para a próxima edição. Já passou da hora do Brasil mostrar sua cara real em todos os palcos e espaços de representação e poder.
Educação financeira e o coração mole
O menino tinha uns sete anos. Um dia chegou esbaforido da escola, bochechas vermelhas de excitação, e anunciou: – Preciso comprar as cartas de Yu–Gi–Oh!. Todo mundo tem! A mãe não fazia ideia do que se tratava, mas, solícita, perguntou onde comprava. – Em qualquer banca de jornal. Imaginou que fosse um gibi ou um álbum de figurinhas e prometeu passar para dar uma olhada. Ao chegar ao jornaleiro, porém, levou um susto. Tratava-se de algo como um jogo de baralho, com o qual os meninos travavam batalhas. O problema é que era importado e custava uma pequena fortuna para a época. Já poderia ser considerado um presente, e presentes, no combinado familiar, eram reservados para ocasiões especiais. Comunicou ao filho. Inconformado, depois de apelar para o pai, para a existência de cheque e cartão de crédito, “afinal, com eles, nem é preciso ter dinheiro”, o menino trouxe a solução: o preço do Yu-Gi-Oh! era seis vezes sua mesada. A mãe poderia emprestar o dinheiro e ele ficaria sem mesada por todos esses meses. Dividida entre o orgulho pela engenhosidade do rebento e a raiva dessa imposição de consumo, acabou concordando com a proposta. E, como mãe que era, ainda recomendou ao entregar as cartas ao filho, depois que as compraram juntos: – Toma cuidado com elas. São seis meses de mesada! Ao voltar do trabalho, naquele mesmo dia, a mãe pressentiu o clima de enterro em casa assim que colocou os pés para dentro. As filhas mais novas sentadas no sofá como se fossem princesas medievais, a babá entre constrangida e p. da vida, e o negociante suado e com olhos fundos de choro. Quis saber o que aconteceu. A babá e o menino passaram a falar ao mesmo tempo aos borbotões, mas a história era simples. À tarde, no clube, enquanto a babá estava com as meninas no parquinho, o filho foi jogar futebol e deixou a caixa das figurinhas na arquibancada. Quando se lembrou delas, não estavam mais lá. A mãe, consumidora de todas as cartilhas sobre como ser uma mãe moderna, segurou a vontade de explodir, respirou fundo, e conversou com o filho, que novamente desandara no choro: – Que pena! Quem sabe da próxima vez você cuida melhor das suas coisas. Deixar em qualquer lugar não é uma boa escolha – e blá, blá, blá até a criança se acalmar. De repente, o rosto do menino se iluminou, enxugou os olhos e, com um sorrido, falou à mãe: – Pelo menos agora eu vou ter minha mesada de volta. Nessa hora, talvez pela primeira vez nesse caso todo, a mãe se comoveu verdadeiramente e ficou longos segundos sem palavras. Como explicar ao pequeno que a dívida não se acaba com o desaparecimento do que foi comprado com o empréstimo? Desse jeito mesmo, é obvio, e foi o que ela fez, de coração partido. A tristeza dupla do menino durou alguns dias, mas não se falou mais no assunto, embora permanecesse como um peso para toda a família. Pouco mais de um mês depois, o pai viajou a trabalho para os Estados Unidos e ligou para a mulher para dizer que, lá, o Yu–Gi–Oh! custava menos da metade do que no Brasil. – Que tal levar de presente pra ele? Pais amolecidos de classe média funcionam assim. E é difícil saber se quem ficou mais feliz foi o filho ou eles mesmos. Mantiveram, entretanto, o compromisso da dívida, que foi regiamente paga em seis meses.
Neivia Justa: criadora da #ondeestãoasmulheres continua usar redes pela inclusão
Executiva de sucesso na área de comunicação corporativa, a jornalista cearense Neivia Justa conta que foram precisos mais de 20 anos de trajetória profissional – que iniciou como apresentadora de TV em Fortaleza até a diretoria de grandes multinacionais em São Paulo -, para se dar conta de que a falta de equidade de gênero no mundo corporativo era um problema. Mas, no momento em que foi tocada pelo tema, não ficou de braços cruzados. Criou a hashtag #ondeestãoasmulheres, que logo se transformou num movimento nas redes sociais. Mas foi no Linkedin que estourou. “Se somos quase 52% da população brasileira, responsáveis por 80% das decisões de consumo no Brasil, e ocupamos 60% das vagas nas universidades, por que não somos devidamente representadas?”, questiona. No Linkedin, hoje ela já tem mais de 80 mil seguidores e incorporou outros temas, como sustentabilidade e inclusão. Trocou a vida de executiva pela de empreendedora, criando a consultoria Justa Causa, com a qual desenvolve projetos de transformação e cultura digital, liderança, comunicação inclusiva e gestão de mudança para executivos e empresas. Desde que a entrevistei para o Mulheres Ativistas, no Conexão Planeta, em 2019, Neivia também passou a entrevistar lideranças que estão na vanguarda das novas demandas empresariais. Em um momento no qual diversidade e inclusão ganham cada vez mais importância, vale a pena rever e entrevista com a criadora, ainda, do #aquiestãoasmulheres, para dar luz às mulheres que conseguem furar a bolha do machismo e se destacar. Veja a entrevista em: https://conexaoplaneta.com.br/blog/neivia-justa-em-busca-de-equidade-e-diversidade-nas-corporacoes/ Foto: Selfie de quando conversamos para a entrevista.
Existe vida profissional após a maternidade: só tem mais emoção
Lembrei-me desta história conversando com uma amiga grávida preocupada com seu futuro profissional. Minha narrativa não chega a ser um alento, mas posso atestar que, apesar de aventuras como esta, é possível ser mãe e profissional! Quando me tornei mãe de gêmeas, já com um filho de três anos, achei que minha vida profissional e toda mais havia se encerrado. Mas eis que, passados três meses, voltei ao trabalho e o mundo continuou a rodar, mesmo que em sistema de adaptação. Assim que as bebês completaram dez meses, me senti pronta para a primeira viagem profissional pós-revolução. A missão era uma expedição ao Vale do Ribeira para identificar necessidades das populações ribeirinhas e quilombolas que ajudassem a direcionar a ação do Instituto Socioambiental (onde eu trabalhava) naquela região. Na equipe, uma antropóloga, um advogado e eu, a jornalista que reportaria as andanças. Em Iguape, onde estava nossa base, um biólogo se juntaria ao time. Deixei meu apartamento em um clima de paz celestial, com bagagem para cinco dias e uma secreta euforia pelas noites que passaria na pousada sem nada para interromper meu sono. Tínhamos avançado menos de duzentos quilômetros na Regis Bittencourt, no entanto, quando meu telefone tocou. Maridão avisava para eu não me preocupar, ficar tranquila, mas que uma das gêmeas estava com um pouco de febre e que ele sairia mais cedo do trabalho para acompanhar. Não me preocupei. Horas mais tarde, enquanto me enternecia com um pinguim achado na praia, que se recuperava no cercadinho da sede do Ibama em Iguape, e me decidia se ignoraria o cateto que morava na recepção e ia até a sala do coordenador para entrevistá-lo, chegou mais uma ligação de casa. “Só para você acompanhar, a bebê está com um febrão e muita tosse. Parece que também estou um pouco resfriado. Tudo bem por aí?” Ainda estava. À noite, após recusar sair com o pessoal para ter minha tranquila noite de sono, dei uma ligadinha pra casa, para ser informada que o pediatra pediu para ver a bebê no dia seguinte e que meu marido se sentia febril, “mas está tudo sob controle, os outros dois estão bem, aproveite a viagem”. Saímos de barco na madrugada do dia seguinte para nos embrenharmos nas comunidades do Lagamar, onde não chegavam notícias, políticas públicas e tampouco sinal de celular. Em meio à exuberância de mangues, florestas e restingas, e histórias de pescadores, marisqueiros e extrativistas, me esqueci de tudo mais. Só lembrei que era uma mãe-de-família durante o jantar e após algumas taças de vinho, na hora em que finalmente ouvi o telefone e gelei com a quantidade de mensagens. Meu marido, então já desprovido de sutilezas, descrevia uma situação de caos, na qual ele, “com muita febre”, teve que levar a bebê para tirar chapa do pulmão, “pois parece pneumonia”, e a “babá também está com tosse e febre”. Vencida pela realidade, decidi deixar a equipe seguir viagem sem mim e voltar para casa no primeiro ônibus, que saía às 5 horas da manhã. O caco humano, cansado e culpado que acordou com o celular descarregado e atrasado pela noite curta e mal dormida, só se lembrou que não havia feito xixi quando o ônibus deixava a rodoviária, e foi se contorcendo até a primeira parada em Miracatu, uma hora depois, com o dia amanhecendo. Saí voando assim que a porta se abriu e corri para o banheiro, para descobrir que o xixi custava 50 centavos. Tentei negociar com uma leoa de chácara que cuidava daquela roleta como se fosse a entrada do paraíso, o que para mim efetivamente era. Sem sucesso, tirei da carteira o único dinheiro que tinha, uma nota novinha de 50 reais. Ela não se comoveu. Pediu que eu esperasse enquanto ia trocar, o que pareceu, naquela situação de desespero, demorar algumas horas. Apenas depois de contar todas as moedas e notas de 1 real, as quais depositou uma a uma na minha mão, finalmente liberou minha entrada. Confesso que o alivio de sentir o corpo voltar à situação de controle me tirou um pouco da pressa e da noção de realidade, tanto que cheguei a cogitar tomar um café. Uma olhada rápida para o estacionamento, porém, fez meu coração sincopar. Ainda sem entender a situação, me vi correndo de um lado para o outro, sem acreditar que o acontecido de verdade aconteceu. O ônibus foi embora sem mim e, pior, com todas as minhas anotações dentro da mochila. Desse momento em diante, minha mente entrou no modo “o que gostaria de fazer: assassinar o motorista e a leoa de chácara” versus “o que preciso fazer”, que finalmente se impôs. Cheguei ao guichê indignada, aos berros, que se transformaram em lágrimas e desistência da vida assim que o vendedor me disse que o próximo ônibus só sairia ao meio-dia. Nesse momento, conheci a verdadeira compaixão. O rapaz ficou tão condoído com minha história de supermãe que precisa salvar a família, que se ofereceu para alcançar o ônibus de moto. Sem pensar ou puxar da memória “por que mesmo eu não ando mais de moto?” (quase fui comida por um pitbull, que pôs a cara pra fora de um carro e, felizmente, só conseguiu levar parte do meu cabelo), aceitei o oferecimento e me vi na garupa do mocinho, sem capacete, fazendo motocross a mil por hora por uma estrada vicinal que não fazia ideia para onde levava. Depois de uns 15 minutos e uma manobra radical para a direita, finalmente chegamos na BR-116 no exato instante em que o ônibus passava, ou seja, não conseguimos pará-lo por uns cinco segundos. Resignada, voltei com ele para a rodoviária de Miracatu, de onde ligou para a de São Paulo e conseguiu a promessa de que guardariam minha mochila até eu chegar, o que só aconteceu por volta das quatro da tarde. Em casa, uma hora de táxi depois, fui recebida pela babá, apenas levemente gripada, e pelas crianças felizes, saudáveis e bem cuidadas: o exame da bebê
Neidinha Suruí: uma onça na defesa dos índios e seus territórios
Quem ainda não conhece Neidinha Suruí, pode ler seu perfil no Mulheres Ativistas ou assistir ao filme O Território, no Disney+, que recomendo muito. A luta desta indigenista, mãe da também ativista Txai Suruí, é uma ótima chave para entender a importância de que o Marco Temporal NÃO seja aprovado. Desde 1992, a Neidinha lidera a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, organização não-governamental de Rondônia que atua com mais de 50 etnias indígenas. Foi a primeira mulher a trabalhar na Funai com índios isolados e, por isso, se acostumou a enfrentar madeireiros ilegais, mineradores e outros invasores de terras indígenas e unidades de conservação. Mãe de cinco filhos, Neidinha passou a infância em plena floresta amazônica. Em Porto Velho, onde vive, cursou História e fez mestrado em Geografia. Com esse cacife, essa mulher miúda é uma gigante na defesa ambiental e dos direitos dos povos desde os locais mais embrenhados na mata até em eventos internacionais mundo afora. É uma onça que não se intimida com as constantes ameaças que pairam sobre ela e sua família. Ela ainda canta, pinta e toca!! Veja seu perfil no Conexão Planeta: https://conexaoplaneta.com.br/blog/neidinha-surui-tenho-espirito-de-onca-pintada-das-mais-bravas/ (Foto: das amigas)