Quem pode, pode
Ler Jorge Luis Borges é uma experiência única: você não vai entender boa parte, se sentirá burra e sem referências em outras. Mas, se persistir, vai se divertir. Nos contos de Ficções, o autor mistura fatos e pessoas reais com outros imaginários, alguns totalmente fantásticos, e nos convence de estar descrevendo casos verídicos, que qualquer um que se pretenda erudito deve se interessar e ter conhecimentos prévios que o ajudem a entender. Um exemplo é o pretenso “ensaio” Exame da Obra de Herbert Quain, que teria sido um escritor que acabara de falecer. Borges analisa toda a obra do artista, incluindo até equações matemáticas e citações a Flaubert, Henry James e Schopenhauer. Terminei me sentindo uma ignorante por nunca ter lido nada de Quain! Encontrei um artigo do José Saramago onde entra na brincadeira e traz várias evidências de que Herbert Quain existiu. Em O Fim, Borges encena a morte de Martín Fierro, um gaúcho argentino, por um negro em uma briga de bar. Confesso que o que mais chamou minha atenção foi o nome do assassinado, frequentadora que sou do restaurante paulistano de mesmo nome. O fato me levou a uma pesquisa rápida para saber de quem se tratava e descobri que Fierro é um herói épico de um poeta argentino chamado José Hernández, que o escritor reinterpreta em seu conto. Borges pode tudo.
De volta às mulheres ativistas
Em 2019, entristecida com os retrocessos que se instalavam no país, queria fazer algum trabalho que valorizasse o engajamento feminino. Desse desejo e conversas com a Mônica Nunes, editora do Conexão Planeta, surgiu o blog Mulheres Ativistas, no qual, ao longo de três anos, publiquei o perfil de exatas 50 mulheres extraordinárias. A maior parte são amigas e parceiras de ativismo socioambiental com quem convivo e admiro há anos. Outras conheci nesse percurso e se incorporaram ao meu rol de fontes de inspiração. Parti da premissa, totalmente baseada em minhas observações, de que o ativismo feminino é especial. A maior parte das mulheres, ao aderir a uma causa, seja ela qual for, acaba por incorporar outras questões ligadas a direitos em geral, se não em sua militância, na sua própria vida. Por isso, são um motor potente para mudar o mundo. Ao longo de todo aquele tempo, minha lista de possíveis entrevistadas só cresceu. Sempre me lembrava de alguém ou recebia indicações. Ficava angustiada porque sabia que não conseguiria homenagear a todas, o que de fato aconteceu. Acabei parando com o blog por falta de tempo para me dedicar a ele e sou muito agradecida ao Conexão Planeta por me abrigar. Quem sabe uma hora encontre um novo formato para voltar ao tema. Mas tenho pensado muito na importância do ativismo permanente neste país, ainda mais ao ver como tem se comportado o Congresso Nacional e até algumas posturas dúbias do próprio governo federal, nos fazendo ter os mesmos calafrios da época dos bagres e de Belo Monte. Achei que poderia voltar aos perfis para matar a saudade e lembrar que, mesmo que os tempos não estejam tão sombrios – o material foi publicado com Bolsonaro no poder e, em boa parte, durante a pandemia -, precisamos ainda de muita militância e cidadania por aqui. Minha primeira entrevistada no blog foi escolhida a dedo, pois Miriam Prochnow é uma das mais aguerridas ambientalistas brasileiras, de quem tenho a honra de ser amiga e trabalhar junto em inúmeras ocasiões. Quem quer saber como a sociedade civil conseguiu reverter a destruição da Mata Atlântica e garantir uma legislação para conservar o bioma, precisa conhecer a história dela e da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), a organização que criou com seu marido Wigold Shäffer, na qual militam até hoje. Num momento em que o Congresso quer novamente colocar em risco a Mata Atlântica que, ao contrário, precisamos urgentemente recuperar, é bom contar e contar e contar que há pessoas que dedicam a vida a causas como esta. Veja a entrevista: https://conexaoplaneta.com.br/blog/miriam-prochnow-tres-decadas-de-luta-em-defesa-do-meio-ambiente-e-da-vida/
Histórias paralelas
Chego em São Paulo após um voo em que menos de 5% dos passageiros eram negros. Na tripulação, nenhum. Volto impactada pela visita ao National Museum of African American History and Culture, em Washington, aberto em 2016 e do qual não tinha ouvido falar até me deparar com o majestoso prédio bem pertinho da Casa Branca. A primeira coisa que me perguntei foi se este lugar existiria se não houvesse Barak Obama ou se dependesse de um governo como Trump. De todos os inúmeros museus da capital estadunidense, foi o que escolhi para conhecer e por lá passei umas boas três horas. Como tudo naquela cidade, o prédio, já grandioso por fora, é ainda maior por dentro e tem muito mais gente do que se imagina. É uma sucessão de filas para tudo. Pessoas de todas as cores, mas principalmente a população negra daquele país. Uma ala inteira para a história da escravidão e a dor no peito de sempre ao constatar como as histórias do Brasil e dos Estados Unidos são parecidas na crueldade, e de ver, mais uma vez, que de onde vim essa indignidade fez muito mais vítimas e durou mais tempo. A abolição divide os dois países. Nos Estados Unidos, a mesma Guerra Civil que acabou com a escravidão, criou as condições para perpetuar a segregação racial, na primeira e mais abusada das hipocrisias do “país da liberdade”, “centro do mundo livre” entre outras definições autoproclamadas. No Brasil, isso nunca existiu, embora pareça difícil achar que largar a maior parte da população do país à própria sorte de um dia para outro, trazendo europeus de balde com garantia de emprego e terras para substituí-los, seja muito melhor. Em comum, as duas péssimas decisões produziram sociedades desiguais e incentivou o racismo na população branca, sempre se sentindo ameaçada por possíveis perdas em seus privilégios. As duas outras alas principais do museu da história afro-americana são dedicadas às lutas pelos direitos civis, sobretudo entre 1955 e 1968, e o que chamam da transformação do país a partir disso. Os sentimentos são contraditórios. Vão da emoção de ver a garra e a coragem de um povo em busca de seus direitos à raiva profunda da resistência que enfrentaram e de reconhecer, na postura dos que resistiam às reivindicações, ideias e comportamentos que vejo ainda hoje em círculos não tão distantes de mim. O taxista que nos trouxe do aeroporto para casa no domingo, por exemplo, só não terminou uma frase horrorosa sobre imigrantes haitianos porque meu marido o interrompeu (e intimidou) ao me perguntar se meus amigos haitianos, que trabalham no estacionamento em que deixo o carro quando vou visitar meus pais, falam bem o português. A transformação nos EUA desde os anos 1970 é inegável e muito superior ao que temos por aqui. Representando pouco mais de 12% da população, pessoas negras estão presentes em todos os espaços, sobretudo nas grandes cidades. São reconhecidas não apenas nos esportes, mas em todas as áreas, inclusive no centro do poder. Há um espaço especial no museu para afrodescendentes de sucesso, como Oprah Winfrey e a família e a presidência de Obama. Infelizmente, ainda não há nada sobre acontecimentos recentes, como o assassinato de George Floyd e o movimento Vidas Negras Importam, que mostram que a luta ainda está longe de acabar. Andando pelas ruas de Washington e Nova York, é possível constatar que os negros ainda são os mais pobres e que a população em situação de rua é praticamente só dessa cor. Mesmo assim, uma verdadeira transformação está muito mais longe por aqui, onde é aceitável que mais de 50% da população não tenha acesso aos melhores empregos, endereços, restaurantes, equipamentos culturais, escolas e o que mais se pensar. Que viajar seja um privilégio branco. Que negros serem assassinados em massa em ruas e favelas e sigam acuados em todos os cantos seja normalizado. Chego em São Paulo e a principal notícia nas redes sociais e na boca do povo é a injúria sofrida pelo Vini Júnior na Espanha. Brasileiros estão furiosos e solidários com o jogador de futebol e vários vociferam contra os espanhóis, como se todos naquele país fossem racistas e, por aqui, vivêssemos na maior democracia racial do planeta, para orgulho de Gilberto Freire e suas casas grandes e senzalas. Afinal, enricar e ter muitos fãs a partir do campo de futebol foi permitido aos descendentes das senzalas, embora os melhores lugares dos estádios (ou na direção dos times de futebol) não sejam reservados a eles. Claro que considero um horror o que acontece nos campos de futebol da Europa e, lembremos, também por aqui. A postura de Vini Júnior e a repercussão do caso são um alento e, oxalá, produzam mudanças. Só não dá para sermos seletivos e pontuais em nossas indignações.
O labirinto ou a resistência
Uma Espanha recém-saída de uma Guerra Civil cruel, na qual o fascismo venceu, cercada por uma guerra mundial tão maligna quanto (com resultados ainda incertos mesmo em 1944) e uma ditadura que ainda perduraria por décadas. Este é o pano de fundo de O Labirinto do Fauno, livro escrito a partir do filme de mesmo nome do cineasta Guillermo del Toro, assinado por ele e a escritora e ilustradora Cornelia Funke. Aliás, suas ilustrações lindas e sombrias, nesta edição bem especial da Intrínseca, fazem jus ao que encontramos no texto. Mas minha missão, para nosso Clube Feminino de Leitura (CFL), foi falar do personagem – secundário na trama – Pedro, irmão da incansável governanta Mercedes e brindado com o “final glorioso” de assassinar o vilão Vidal com um tiro na cabeça. Mas quem é Pedro? É o líder de um grupo de guerrilheiros resistentes à sanguinária ditadura franquista, que se esconde na floresta das milícias oficiais do governo, as quais tenta sabotar. Chefiados pelo capitão Vidal, os soldados que tudo podem, perseguem os dissidentes, suas famílias e o povo pobre em geral, do qual roubam até os poucos provimentos que teriam direito durante o racionamento imposto pelo governo central. Idealistas, Pedro e seus companheiros esperam que os Aliados venham socorrê-los assim que a guerra acabar: “Rússia, Inglaterra, Estados Unidos… Eles vão nos ajudar – disse Pedro, enfim. – Assim que derrotarem os fascistas alemães, vão nos ajudar a derrotar os fascistas aqui na Espanha. Franco apoiou Hitler, mas nós apoiamos os Aliados. Muitos de nós morreram ajudando a Resistência. Sabotamos as minas de tungstênio da região da Galícia, que eram indispensáveis às fábricas de armas alemãs… Acham que os Aliados vão se esquecer disso?” “Sim eles vão esquecer”, pensou com razão outro personagem, o doutor Ferreiro, como a História nos diz hoje. Sabiamente, o médico que tombou sem se render à desumanidade que o cercava, tinha medo de que “as causas boas nunca ganhassem, afastando o mal apenas por um breve momento”. O fim de Pedro, não sabemos, mas deve ter acabado seus dias morto em combate, preso e torturado nas prisões franquistas ou se submeteu ao sistema e sobreviveu para, na velhice, ver a Espanha se reerguer como país democrático (porém ainda monarquista) a partir da morte de Franco, em 1975. Tenho simpatia por Pedro e seus semelhantes que resistiram e ainda hoje resistem às injustiças em busca de um mundo melhor. São geralmente destemidos e enfrentam forças quase sempre muito superiores a eles em nome de uma vida melhor para pessoas impotentes, mas às vezes também ignorantes, covardes e coniventes com o que as oprime. Por isso, são todos, quase sempre, perdedores. Em O Labirinto do Fauno, a esperança existe apenas no escapismo do conto de fadas (como fez Ofélia entrando no Labirinto) e na pequena vitória sobre o tirano de pouco escalão que logo deve ter sido substituído. A luta, portanto, é eterna e incerta. Se é assim, por que, então, ainda temos “Pedros” (e Mercedes e doutores Ferrero) no mundo? A resposta foi dada pelo próprio Pedro quando Mercedes questionava seu papel de espiã dentro da casa de seu algoz: “E se o doutor tiver razão e não conseguirmos vencer?” Disse Pedro: “Então pelo menos teremos dificultado as coisas para esse desgraçado”. Foto da @walscaramella
Samyra Crespo ajuda a entender crise ambiental e sugere caminhos para seu enfrentamento
Devorei Conta Quem Viveu, Escreve Quem Se Atreve (Editora CRV), da Samyra Crespo cujo tema, como diz a capa, são crônicas do meio ambiente no Brasil. Mas o livro traz muito mais do que isso: destrincha a trajetória de uma mulher que transitou pela academia, organizações da sociedade civil e governo, estudou, atuou e tenta entender a complexidade da crise ambiental e climática que vivenciamos. Samyra faz o que se propôs, se atreve a contar sob sua perspectiva a aventura do ambientalismo no país. E o faz bem e gostosamente. É uma delícia acompanhar, na primeira parte do relato, como sua trajetória pessoal – de mulher de classe média intelectual, que vivenciou talvez o melhor momento da Igreja Católica (cheguei a pegar a rabeira desse processo) –, a levou a se aproximar das questões relacionadas à ecologia e ao meio ambiente, a ponto de transformar a experiência em sua principal ideologia e militância. Para quem faz parte da ainda reduzida bolha que abraça e trabalha de verdade por essa causa, é um verdadeiro revival de uma história que parecia caminhar inexoravelmente, apesar das dificuldades, para um final feliz: o empoderamento da sociedade civil, a aproximação entre as militâncias ambientais e sociais, o surgimento das ONGs e do movimento socioambiental, o maior entendimento da ecologia pela Ciência, a criação das leis e da burocracia ambiental em todos os níveis de governo no Brasil e no mundo, a realização de grande eventos e pactos globais para dar rumo à rota desenfreada da humanidade e a conscientização da população. O monitoramento desta última parte, aliás, é uma das grandes colaborações de Samyra Crespo para a área. A série de pesquisas coordenada por ela, O que o Brasileiro Pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, com cinco edições em 20 anos, é uma importante referência sobre a evolução do tema no imaginário da população. Lembro de aguardar e cobrir o lançamento de várias edições da pesquisa e me encantar com a assertividade e otimismo daquela pesquisadora bonita que o apresentava. Aos que não são da “turma” do ambientalismo e ainda não conhecem (ou conhecem pouco) Samyra Crespo, sua trajetória é uma inspiração: pesquisadora em História da Ciência no Museu de Astronomia e Ciências Afins, do Ministério de Ciência e Tecnologia, atuou e dirigiu por vários anos o Instituto de Estudos da Religião (Iser), foi secretária de articulação do Ministério do Meio Ambiente e presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Hoje totalmente dedicada a seu ativismo, milita nas redes sociais e escreve para sites independentes. Aos que estão um tanto apavorados com os 2.000 campos de futebol por dia desmatados na Amazônia (18 árvores por segundo) e com os 40ºC de calor em Londres, a leitura da segunda parte do livro pode ajudar a entender conceitos, riscos e oportunidades para mudar a situação – ou, como diria Ailton Krenak, adiar o fim do mundo. Samyra consegue trazer, sem usar óculos cor de rosa, um pouco de otimismo e motivação para a luta. Na entrevista que me deu para o Mulheres Ativistas (no Conexão Planeta), em fevereiro de 2020, também fez uma conclamação ainda mais oportuna para os dias atuais: “Ambientalistas precisam ‘sair da bolha’ e se candidatar às eleições”. Estamos precisando muito!
Para Luiza
Estávamos na piscina com nossos gêmeos. Eu sentada na borda e Ricardo dentro d’água, que lhe chegava à cintura. Batíamos papo enquanto as crianças, em fila indiana, pulavam na água sob sua supervisão. Com a desenvoltura que dois anos a mais de idade dão às crianças, minhas meninas saltavam sozinhas e batiam pés e mãos desajeitados até a beira para voltar para a fila. Quando chegava a vez dos dele, Ricardo dava um passo à frente, segurava suas mãozinhas para o pulo e os colocava novamente para fora. Mas Luiza não via justiça na independência das amigas. Do alto dos seus quase dois anos, quando chegava sua vez, encolhia os braços e repetia: “xozinha”. Sem repercussão para sua indignação, acabava cedendo e dava as mãos para não perder a vez. Estava, porém, visivelmente brava. Até que, em uma das rodadas, sem se voltar pra ela ou interromper nossa conversa, Ricardo não avançou para pegar Luiza. Incrédula, mas confiante, ela respirou e pulou. Foram frações de segundo entre o salto e o resgate do pai, que, sem alarde, a suspendeu e levou até a borda. Qual pavão, ela se empinou orgulhosa e voltou para o fim na fila. Na próxima rodada, a pequena parou na beirada e esperou. De nossa parte, continuávamos o papo como se nada estivesse acontecendo, enquanto Luiza olhava um tanto sem-graça até não se segurar mais, estender os bracinhos e chamar: “papai”.
O mirante, a rosa e a fonte milagreira
A sensação no mirante era de abandono diante da emoção de ver por inteiro a paisagem já entranhada aos pedaços do chão. Mas havia ainda um outro abandono, este incômodo, do local mau cuidado que servia de base para a contemplação da planície de palmeiras e praias infinitas. Um espaço turístico, mas de terra esburacada, fios soltos, construções meio abandonadas. De repente, a menina, algo como cinco anos, chega do nada e me oferece uma rosa feita de palha. “Um presente para você”, diz olhando para o chão e voz envergonhada de quem foi mandada fazer algo que a deixava desconfortável. Pela primeira vez, olho ao redor e vejo, por traz de algumas árvores, duas mulheres sentadas no chão e dedicadas à produção das flores, cercadas de crianças e embalagens de copos e quentinhas espalhadas com seus materiais de trabalho. Tão sem-graça quanto a garotinha, aceito o “presente” que me trouxe à realidade, vou até o carro, pego um dinheiro, e me aproximo das mulheres. Uma das amigas que estavam comigo já estava praticamente interrogando as mulheres sobre o que as crianças faziam por lá, se não vão para a escola. Mais constrangida eu fico. Respondem que, sim, elas vão, mas por conta da covid, apenas uma semana sim e outra não. Ofereço o dinheiro esperado e perguntamos se sabiam onde ficava a Fonte Milagreira, que deu origem ao nome da cidade de São Miguel dos Milagres, que era o que procurávamos até encontrar o mirante. Uma das mulheres nos ensina o caminho, mas passa um sermão, “santo não faz milagre e Deus não aprova esse tipo de desfeita”, e nos desaconselha a ir até lá. Recitava o que deve ouvir de algum pastor, que possivelmente promete milagres dos quais ele é o intermediário e pode cobrar por eles. Achamos a fonte, que é uma gruta construída como um minitemplo, com um poço fechado com um vidro e um altar para o santo. Ao lado, uma bica onde moradores e turistas/fiéis enchem garrafas d´água. É mal sinalizada, não tem lugar para estacionar e fica junto a uma fábrica de móveis de madeira que funciona ao ar livre. Tiramos nossas fotos, algumas das amigas com alguma devoção fizeram orações e pegaram água, e fomos para a praia, que nunca decepciona por essas bandas. Para quem se interessa, essa fonte existe desde a ocupação holandesa, por volta de 1635, quando moradores da região fugiram à procura de um abrigo onde pudessem observar o movimento dos invasores e fundaram o povoado de Freguesia Nossa Senhora Mãe do Povo. Depois de alguns anos, um pescador encontrou na praia uma peça de madeira coberta de musgo e algas e foi limpá-la na fonte, quando descobriu ser uma imagem de São Miguel Arcanjo. Ao lavá-la, ele ficou curado de um grande problema de saúde. A notícia se espalhou e criou a fama do lugar que passou a ser conhecido como São Miguel dos Milagres.
Sobre a praia e o lixo, ou os restos que deixamos e o mar devolve
Minha pior experiência com lixo oceânico foi na Grécia, há uns sete anos. Havia chegado a Istambul um dia antes e embarcado em um iate para uma viagem de dez dias pelas ilhas turcas e gregas na qual até hoje não sei como caí e o que estava fazendo lá, mas isso é outra história. Após uma noite a bordo, acordamos em território grego e de frente para duas ilhas paradisíacas, uma cheia de casinhas brancas e restaurantes caros da nossa imaginação e outra que parecia um recando verde esquecido do mundo – a segunda parte da frase é verdadeira. Como ficaríamos um dia inteiro no local, escolhemos ir primeiro ao destino natural, para o que parecia ser uma praia virgem, que sabemos não existir, mas fantasiar não custa nada. Conforme o bote se aproximada da praia, porém, brilhos e cores difusas começaram a aparecer e a nos intrigar. À medida que chegávamos mais perto, percebemos que se tratava de um depósito de lixo cuspido pelo mar que tomava todo o espaço, desde uns três metros dentro d’água, adentrando por toda a areia e se infiltrando na vegetação que vinha depois. Eram zilhões de pets, canudos, sacolas, latinhas, garrafas e tudo mais que podemos imaginar que não tem vontade de se decompor. Não faço ideia de quanto tempo aquele templo à imundície humana levou para ser formado, mas imagino que o governo local se preocupe em manter limpas e cheirosas apenas as ilhas onde os turistas possam gastar euros. Ficamos um tempão explorando o local e sentindo na pele o que os catadores sentem nos lixões aqui da terrinha, porque o barqueiro, acredito que de propósito, nos deixou por lá um tempão – quem, em sã consciência, trabalha em um iate e não odeia seus passageiros? Na hora, achei que era prenúncio de uma viagem fracassada, mas me enganei. Nada do que vi depois passou perto desse local de trevas, embora, para garantir, tenha me enquadrado e não arrisquei mais nada fora do recomendado. O trauma, no entanto, ficou. O mar não tolera desaforo: devolve toda a sujeira recebida. Desde então, quando ando na praia, qualquer praia, meus olhos acabaram treinados a enxergar plásticos, vidros e latas antes de se deterem na primeira conchinha ou siri perdidos na areia. A “chata do rolê” que eu já era, piorou, e fico vigiando quem está comigo para não deixar vestígios fora da lata do lixo, além de carregar pelo menos um canudinho de metal, para não ter que abrir mão da minha água de coco a beira mar. Não me tornei a louca do lixo, até porque acredito que mereça relaxar um pouco quando estou na praia. Há quase um mês neste quase paraíso perdido que é São Miguel do Milagres, já vi dois casais que carregam sacolas e vão andando pela praia recolhendo a sujeira dos outros. Não chego a tanto, mas nunca volto de uma caminhada sem recolher uma ou duas garrafas pet e, quando tenho bolsos, alguns canudinhos e tampinhas de cerveja. É um vício difícil de controlar. Há poucos dias, meu marido, o qual suspeito tinha certa vergonha secreta de mim, começou a fazer o mesmo. Ainda acho que não há salvação para nossa espécie, mas alguns indivíduos possivelmente terão acento no paraíso.
A Casa Azul
Morar em uma casa simples, térrea, de frente para uma pracinha de verdade, daquelas com bancos de concreto e crianças brincando de esconde-esconde, senhoras que conversam ou só veem o tempo passar e casais de namorados que aproveitam o escurinho depois que o sol se põe. Assistir a tudo isso de uma varanda, com jardim e muro baixo, de onde também é possível entrever o mar. Fazer deste terraço o escritório de trabalho, no qual se esquece computador e celular do lado de fora enquanto vai almoçar e não lembrar que seria melhor levar para dentro. Sem falar do clima ensolarado e quente na medida, que fica sempre entre 24 e 29 graus. Tudo isso me foi concedido. Por um mês. Graças ao Airbnb, ao Google Earth, à internet, ao home office e algumas economias. Claro que a chegada à Casa Azul – sim, a casinha tem nome e é só mencioná-lo e todos por aqui sabem onde estou hospedada – em Porto da Rua, São Miguel dos Milagres, Alagoas, não foi sem algum susto. Como boa paulistana, vinda de uma cultura onde um apartamento de pouco mais de 90 metros quadrados é construído com quatro banheiros, entrei em choque ao verificar que aqui tinha apenas um. E que as paredes internas não chegam até o teto, que, por sua vez não tem forro. A imagem de filho, filhas e amigas, que viriam passar algum tempo conosco, disputando banheiro e sem privacidade me paralisaram por alguns minutos. Passou logo. Como me curar de Brasil me portando como a burguesia da qual quero tanto me afastar? Vim em busca de cura dessa tristeza sufocante e de um pouco de esperança, que me foram trazida, a primeira, e tirada, a segunda, por escolha intencional de meus conterrâneos, e que a pandemia colocou uma pá de cal. Consegui, mesmo que parcialmente. Já na primeira noite, acordamos eu e meu marido/companheiro de aventura com o barulho de uma grande chuva e descobrimos que os respingos que sentimos não vinham da janela aberta, mas do telhado. Sentamos cama, nos olhamos e tivemos uma crise de riso há muito represada, e voltamos a dormir refrescados com o chuvisco particular que durou uns dez minutos, se tanto. Em dois dias, a Casa Azul era nosso lar e seu frescor, trazido justamente pela falta de laje e fechamento total das paredes, motivo de admiração. Dividir o inquilinato com os gatos, do lado de fora, e com rãs e sapos, que não respeitam muito limites, mas comem os mosquitos, também se tornou normal. Acordar uma manhã com a cabeça de um sagui nos olhando por uma fresta entre telhado e parede também não causou mais do que um “chispa daí” do meu marido, que o visitante, por incrível que pareça, obedeceu. Fora isso, tocamos a vida, cumprimentando os vizinhos, que são também os pescadores e barqueiros que encontramos na praia de manhãzinha – bem de manhãzinha, porque aqui 5 horas já tem um sol pra cada um -, quando fazemos nossa caminhada e depois lá pelas 5 da tarde, quando vamos dar um mergulho e esperar o por do sol. São também os donos e funcionários dos mercadinhos, restaurantes e pousadas do lugarejo, muitos deles aparentados, que encontramos em todos os lugares que vamos, exercendo funções diferentes. Lica, que cuida da casa que alugamos, também trabalha no posto de saúde na rua ao lado e mora naquela mesma rua, onde à noite senta na calçada com os amigos para papear, em frente a um dos restaurantes que frequentamos e cujo garçom, que também cuida da agência de passeios do larguinho em frente à praia, é seu sobrinho. Aqui é assim. À medida que a pandemia arrefece, vemos as máscaras rarearam nas ruas e praticamente desaparecerem das praias, mas continuam na maior parte dos rostos de quem atende público em todos os estabelecimentos. Neste estado, um dos que menos votaram no inominável, também a pandemia foi um pouquinho menos cruel (para mim a relação é direta). Todos com quem falei estão aliviados com a vacina e com expectativas de que o próximo verão seja alvissareiro e compense os tempos sinistros sem os turistas que os sustentam. E eu agradeço o privilégio de estar aqui, penso sobre quais consequências dessa experiência ficarão na minha vida e faço contagem regressiva para a volta à rotina na metrópole que me criou e me tem cativa, por enquanto.
O privilégio de ter uma área verde para chamar de minha
Uma caminhada de seis minutos, com 400 metros e uma boa subida, que não chega a incomodar, me separa da área verde mais próxima de onde moro, privilégio compartilhado por grande parte das pessoas que vivem na Zona Oeste de São Paulo, mas bem mais raro para habitantes de outras regiões. Sei disso porque nem sempre morei aqui. Na Zona Norte, onde fui criada, há apenas as ladeiras e as calçadas ruins em comum; praças e parques são raridade. O Centro, mais antigo, também é bem serviço de praças, mas poucas com as características de local para exercício e convívio com a natureza, parte pelo grande movimento, parte pela urbanização que não privilegia esse uso. O Vale do Anhangabaú é um exemplo sobre o qual tenho até preguiça de comentar. De volta à cidade – aos poucos – após quase sete meses de exílio no interior, percebo mais intensamente a importância dessas áreas. Já não temos horizonte para acompanhar o caminho do sol, da lua, das estrelas – deve ser por isso que alguns passaram a acreditar que a Terra é plana. Contar com áreas arborizadas onde possamos dividir espaço pelo menos com pássaros, caminhar sem torcer o pé, não respirar gás carbônico diretamente dos escapamentos ou se preocupar em não ser atropelado em cada esquina é uma essencialidade que pode reduzir a crescente popularidade das farmácias, setor em ascensão galopante por aqui. A “minha” é, na verdade, um conjunto de três praças com nomes de homens, Rafael Sapienza, Professor Haroldo Valadão e Dr. Fernando de Oliveira Pimentel, as duas primeiras contínuas desde o fechamento da rua que as separava. Há bosques com pequenas trilhas, mesinhas e bancos para descanso e convívio, equipamentos para exercício e um parquinho bacana para crianças, mantido por um grupo de amigos, como anuncia a plaquinha na entrada. Infelizmente, meus filhos não tiveram a oportunidade de usufruir, pois ele não existia quando eram pequenos. Placas espalhadas por toda a área pedem para os frequentadores recolherem o lixo e o cocô de seus cachorros. Há bastante novas mudas de árvores plantadas. Ou seja, mesmo com um entulhinho largado aqui ou ali, é um local bem cuidado. Áreas verdes podem, ainda, ser um espaço de convivência e treino de civilidade que precisamos muito. Neste, os frequentadores são todos da vizinhança e muitos se conhecem. Cumprimentar uns aos outros é um costume que permanece, mesmo que haja alguma redução a partir de 2017 (por que será?) e agora com a presença das indefectíveis máscaras. É um lugar onde qualquer um se sente bem, mas há muito a evoluir no quesito “eu não sou a pessoa mais importante do mundo, os demais têm os mesmos direitos que eu”. Quem tem cachorro, por exemplo, poderia entender que alguns não gostam ou têm medo. Outro dia, uma feliz cachorra enorme veio correndo lamber minha mão e paralisei. Sua dona/mãe (não sei o nome politicamente correto) só a chamou quando eu disse que por favor o fizesse, porque eu estava assustada. Não houve nenhum pedido de desculpa, só a informação de praxe “ela é mansinha”. Também alguns dos treinadores físicos que usam o espaço poderiam ter mais sensibilidade. Monopolizar a área com equipamentos públicos de ginástica com seus alunos e suas bolsas é um pouco chato. Em outras épocas, até pediria licença e tentaria conversar, mas os tempos são de prudência e me sinto acuada. Esses pequenos infortúnios, porém, são irrisórios diante da alegria de começar o dia com uma boa caminhada cercada da beleza e do frescor da vegetação. É um direito fundamental que continuarei a defender por aqui. (Fotos: minha mesmo)