Verde traz saúde e bem-estar às pessoas
Todo mundo deveria ter uma área verde pública perto de casa, ou seja, na qual pudesse ir a pé. Na Zona Oeste de São Paulo, onde moro, isso é relativamente comum, mas não é padrão na cidade nem na maior parte do país. Visitei cidades na Amazônia onde os moradores não devem saber o que é isso (e não estou sendo irônica). Em Jarinu, onde tenho ficado a maior parte do tempo desde o início da pandemia, esse luxo também não existe. Em escala nacional – ou até planetária -, as grandes unidades de conservação, que protegem biomas, ecossistemas e espécies, são as mais importantes e há tratados e compromissos internacionais que indicam as necessidades mínimas para países e para a biodiversidade. Mas pouco se tem de concreto sobre a quantidade e como devem ser as áreas protegidas urbanas. Cada município deve trazer isso em seus planos diretores, mas a impressão é que praticamente nenhum leva isso realmente a sério. Quanto de áreas verdes deveria ter uma área urbana em relação a seu território e a sua quantidade de habitantes? Qual a distância aceitável entre cada uma delas para atender igualmente aos moradores da cidade? Como criar corredores entre elas para garantir um intercâmbio, no mínimo, de pássaros e para que áreas protegidas urbanas também sejam guardiãs de biodiversidade? Qual o tamanho mínimo de um parque, ou até de uma praça, para cumprir sua função e com quanto e que tipo de vegetação e outros equipamentos deve contar? Todas essas perguntas deveriam ser cruciais e, perto de eleições municipais que se aproximam, debatidas e encaminhadas. Mas costumam ser negligenciadas no país, sempre em nome de não serem prioridades diante da quantidade de demandas ditas mais urgentes, como saúde, educação, segurança etc. Mas será que realmente é uma discussão à parte? As áreas protegidas podem contribuir para a saúde e o bem-estar humanos de várias maneiras, muitas das quais estão apenas começando a ser entendidas, como mostra o volume Qual seu valor para nossa saúde e bem-estar?, do pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e tenho mostrado no blog paulistanasp. O material explica a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. De um modo geral, sua importância pode ser vista de três maneiras: proporcionam serviços ambientais que sustentam a vida, como proteção e provisão de água, regulação do clima (inclusive o microclima) e controle de doenças infecciosas; são fonte de biodiversidade para a produção de medicamentos tradicionais e para a descoberta de novos remédios; e possibilitam benefícios diretos para a saúde física, espiritual e mental, por conta da experiência e dos momentos passados em contato com a natureza. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere que até um quarto das mortes prematuras mundiais poderiam ser evitadas simplesmente com a boa gestão das questões ambientais, como a redução da poluição do ar, da contaminação da água e do solo. Pesquisas também relacionam o desmatamento e a fragmentação de florestas com o surgimento de doenças como ebola e aids, além da disseminação de doenças como a malária e a dengue. Agora podemos incluir a Covid-19 nessa lista. Para mostrar essa relação, uma pesquisa constatou que comunidades que vivem perto de Ruteng Park, em Flores, na Indonésia, apresentavam menos casos de malária e disenteria, crianças faltavam menos à escola por problemas de saúde e há menos fome associada à quebra de safra, do que nas comunidades vizinhas sem florestas intactas. A presença de unidades de conservação também ajuda a evitar a erosão do solo, a reduzir inundações e minimizar danos causados por outros eventos extremos do clima, como secas. Nas áreas urbanas, ajudam a reduzir a poluição, responsável por um grande número de mortes prematuras, e minimizar as ilhas de calor. Protegem, ainda, mananciais de água, garantindo quantidade e qualidade de água para abastecimento. Com isso, diminuem também os riscos de doenças de veiculação hídrica, como diarreias. Um terço das cem maiores cidades do mundo tem a maior parte do fornecimento de água a partir de mananciais protegidos por florestas, caso das maiores áreas metropolitanas brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte). No momento em que começamos a retomar uma vida quase normal, porém, seria importante percebermos o quanto a proximidade com a natureza pode nos beneficiar diretamente. Áreas protegidas são, em boa parte dos casos, seguros, acessíveis e gratuitos para recreação, prática de exercícios e relaxamento. Um relatório divulgado por pesquisadores australianos, a partir de um programa intitulado Parques Saudáveis, Pessoas Saudáveis no Parque Vitória, concluiu que há provas substanciais de que o acesso a áreas protegidas e a espaços verdes aumenta a saúde e o bem-estar das pessoas. Mostrou, ainda, que atividade física nesses espaços evita o gasto de 200 milhões de dólares australianos com saúde por ano. Pesquisa da Universidade de Chiba, no Japão, concluiu que pessoas que tiveram contato com a natureza mostraram uma diminuição de 16% no cortisol (hormônio do estresse), 4% na frequência cardíaca e 2% na pressão arterial. Por que, então, nossas cidades costumam preferir farmácias a parques? (Foto: Expedição Aracã, Amazonas, Brasil. WWF-Brasil/Zig Koch)
Com vontade política, país pode gerir bem suas áreas protegidas
O calor fora de época e de bitola dificultam a vontade de escrever ou fazer qualquer coisa. Quem sabe os cientistas estejam todos errados e as altas temperaturas sejam apenas um ponto fora da curva, como pregam os negacionistas. Ou sempre fez calor assim, nós que esquecemos ou os termômetros foram finalmente calibrados. Mesmo de brincadeira, acho difícil pensar em asneiras como essas. Imagino o que passa pela cabeça de mitômanos como o fulano que enviou discurso em nome do Brasil quarta-feira (30/9) à cúpula sobre biodiversidade da ONU e voltou a dizer que as ONGs comandam crimes ambientais e que seu governo está combatendo o desmatamento, sem provas ou mínimas evidências. O mais triste é que assistimos ao vivo um filme de terror que poderia ser muito diferente caso não fosse dirigido por vilões tão caricatos. Ao contrário do que apregoam os responsáveis pelo circo de horrores que nos tornamos, o país tem uma sociedade civil, boa parte dela organizadas em ONGs, altamente empenhada em colaborar com governos e entre si para resolver nossos problemas estruturais. E tem muita coisa para mostrar. Uma delas, muito representativa, por sua importância para nossa segurança climática, é o Programa Arpa – Áreas Protegidas da Amazônia -, a maior iniciativa de conservação de florestas do mundo. Lançado em 2003 pelo governo brasileiro e coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, é gerido financeiramente pelo Funbio – Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, uma associação civil sem fins lucrativos, a partir de doadores internacionais e nacionais. O Arpa foi responsável, entre 2005 e 2015, pela criação de 276 mil km2 de unidades de conservação (UC) e o apoio à consolidação de 590 mil km2. A consolidação de uma unidade de conservação significa dotá-la dos instrumentos necessários à sua gestão (plano de manejo, conselho, plano de proteção, infraestrutura – equipamentos e instalações, sistema de monitoramento) e garantir a realização de atividades que assegurem o alcance dos seus objetivos. Um estudo do WWF-Brasil, O Impacto do Programa Arpa na Efetividade de Gestão das Unidades de Conservação da Amazônia, de 2017, mostrou que o financiamento contínuo e de longo prazo, como é o caso do Arpa, foi fundamental para aumentar a consolidação das UC. A pesquisa mapeou muitos bons exemplos de gestão e programas em unidades de conservação, com resultados concretos da capacidade do país de manter e implementar suas áreas protegidas. Tudo isso, é claro, fica muito mais difícil com o próprio governo federal, que deveria estar liderando as boas iniciativas, jogando abertamente contra. Um exemplo de programa que vinha tendo bons resultados foi a implantação da técnica de manejo integrado do fogo pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio), em parceria com diversas instituições e ONGs, que permitiu a redução de 40% na área atingida por incêndios entre 2010 e 2017 em unidades de conservação federais. Entre as UC beneficiadas estavam a Estação Ecológica da Serra Geral do Tocantins, a Reserva Extrativista Chapada Limpa e os parques nacionais da Chapada dos Veadeiros, do Itatiaia, Lagoa do Peixe, do Araguaia e da Serra da Canastra. A técnica busca o uso sustentável do fogo, seja para produção agrícola com as queimas controladas, seja para a conservação ambiental com as queimas prescritas em fitofisinomias savânicas, sob condições em que o fogo pode ser facilmente controlado. Outra iniciativa mapeada é voltada para sensibilização e fiscalização de manguezais. Construção civil, lenha destinada a olarias e implantação de curral (tipo de pesca artesanal) trouxeram degradação para o manguezal da Área de Proteção Ambiental Guapimirim, na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A partir da criação da unidade de conservação, em 1984, trabalhos de sensibilização ambiental e posteriormente de fiscalização foram eficazes na recuperação de vários fragmentos. Em outras áreas, termos de ajustamento de conduta propiciaram a recuperação. Aproximadamente 100 hectares de áreas degradadas de mangue foram recuperados, com registro de reocupação da fauna local. Catadores de caranguejo do entorno não precisam mais viajar para outros estados brasileiros em busca de manguezais nos quais trabalhar. O projeto A Floresta é Nossa, realizado pela Floresta Nacional de Brasília, na região de Taguatinga/DF, promoveu o envolvimento do público em ações capazes de melhorar a experiência de visitação na área protegida. Com isso, houve uma mobilização de ciclistas, que se apropriaram da UC, respondendo ao movimento que partiu da equipe gestora. As ações foram decididas em conjunto e os ciclistas entraram com mão-de-obra e investimentos. Sete trilhas para ciclistas foram sinalizadas para diversos perfis, com melhoria de duas pontes. Além disso, foram criadas trilhas para caminhadas com diferentes níveis de dificuldade. O número de visitantes triplicou, passando de 11 mil, em 2014, para 33 mil, em 2017. Outros exemplos estão no volume Como gerir e maximizaros benefícios dessas áreas?, do pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e tenho mostrado no blog paulistanasp. O material explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. (Foto: Arara-canindé, no Parque Nacional do Juruena – WWF-Brasil/Zig Kock)
Unidades de conservação geram recursos econômicos para o país
Há um mito, provocado pela ignorância, de que unidades de conservação (UC) não possuem valor econômico. A base dessa crença é o desserviço bancado pelos interessados na ocupação das terras que deveriam estar ou estão sob proteção – grileiros, madeireiros, garimpeiros, agropecuaristas – e os políticos que os representam (em número exponencialmente maior do que a representatividade que esses setores têm na população). Outra dificuldade, que começa a ser vencida, é explicitar esse valor em números. O valor econômico de uma unidade de conservação é calculado a partir da variação do bem-estar das pessoas devido a mudanças na quantidade ou qualidade de bens e serviços ambientais que ela propicia. Valorar seus recursos ambientais é a melhor forma de calcular monetariamente as perdas ou ganhos da sociedade diante da variação da quantidade e tamanho dessas áreas protegidas. Mas não só. As UC geram recursos também a partir da geração direta de renda, seja por meio dos serviços turísticos, seja pela produção de riquezas nas unidades de conservação de uso sustentável. O estudo Quanto Vale o Verde – a importância econômica das unidades de conservação brasileiras mensurou o valor econômico das unidades de conservação para vários setores, mostrando o quanto o país pode ganhar a partir de suas UC. Alguns desses dados estão no pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e tenho mostrado nesteblog. O material explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. Esses dados fazem parte do volume Quantovalem economicamente para o país?. O mais óbvio desse valor é o gerado pela água que é produzida sob influência de unidades de conservação. A estimativa é que as UC gerem R$ 59,8 bilhões anuais, distribuídos em termos de proteção de rios para geração hidrelétrica (R$ 23,6 bilhões anuais), usos consuntivos (R$ 28,4 bilhões anuais) – aqueles que retiram água do manancial para sua destinação, como a irrigação, a utilização na indústria e o abastecimento humano – e erosão evitada (R$ 7,8 bilhões anuais). Cerca de 44% da capacidade da produção de hidroeletricidade em operação no Brasil está sob influência de unidades de conservação. Aproximadamente 24% da captação de água (o equivalente a 4,03 bilhões de m3 de água por ano para consumo nas cidades e propriedades) é influenciada por unidades de conservação, que ajudam a manter a qualidade e a quantidade da água necessárias. No caso da água, deve-se ainda considerar que o efeito é mais importante por causa da mudança do clima, que deve agravar problemas de chuvas intensas e de secas prolongadas. O que temos presenciado neste ano é um bom aperitivo sobre o que vem pela frente. A visitação em áreas protegidas continua tendo grande destaque como elemento de dinamização econômica. Cerca de 17 milhões de visitantes foram registrados em 2016, com impacto sobre a economia estimado entre R$ 2,5 bilhões a R$ 6,1 bilhões anuais, correspondendo a uma geração entre 77 mil e 133 mil ocupações de trabalho. Esses valores, porém, podem estar subdimensionados porque nem todas as unidades de conservação fazem esse tipo de registro. O que salta aos olhos, no entanto, é que as UC podem receber uma quantidade bastante superior de visitantes caso sejam realizados investimentos para tanto: um incremente de 20% na visitação (mais 3,4 milhões de visitantes anuais) resultaria em um impacto econômico entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão, com a criação de 15 mil a 42 mil novos postos de trabalho. Boa parte de nossas unidades de conservação são de uso sustentável, com populações tradicionais que nelas vivem ou com possibilidade de exploração econômica. O potencial de aproveitamento de bens que podem ser extraídos de forma sustentável das unidades de conservação que admitem atividades econômicas é muito grande. A madeira em tora é o produto de maior destaque no extrativismo do país, e o sistema de concessões florestais implementado pelo Serviço Florestal Brasileiro pode expandir a produção sustentável de madeira das florestas nacionais. A persistência do desmatamento, porém, tem reduzido as possibilidades de aproveitamento dos recursos madeireiros, cuja extração teve redução de 36% entre 2006 e 2016. A extração sustentável de produtos não-madeireiros – como castanhas, frutas, óleos, mel etc. – também é uma oportunidade e está melhor estruturada no país. A produção de açaí aumentou 112% entre 2006 e 2016. No mesmo período, a produção de castanha-do-pará cresceu 20,4%. Melhoramentos nas cadeias produtivas podem aumentar as possibilidades desses setores. O valor potencial em todas as unidades de conservação passíveis de atividade pesqueira é de R$ 86,5 milhões para o peixe, R$ 55,2 milhões para o camarão e de R$ 24,8 milhões para o caranguejo, totalizando R$ 167,5 milhões em pescado. Em 2016, nas unidades de conservação onde as famílias foram atendidas pelo Programa Bolsa Verde, a contribuição econômica do pescado foi de R$ 10 milhões para o peixe, R$ 7,5 milhões para o camarão e de R$ 11,7 milhões para o caranguejo, totalizando em R$ 29,2 milhões. Assunto ainda difícil de explicar, mas cujo potencial tende a aumentar à medida que avança o aquecimento global, o valor monetário do estoque de carbono conservado nas unidades de conservação brasileiras foi estimado em R$ 130,3 bilhões, correspondendo a fluxos anuais de benefícios por conservação entre R$ 3,9 a R$ 7,8 bilhões, mesmo usando valores conservadores para monetizar a tonelada de CO2 equivalente (US$ 3,8 ou R$ 12,4 por tCO2 e). Por fim, a presença de unidades de conservação responde por 44% do valor total do ICMS ecológico dos municípios de treze estados brasileiros. Esse valor foi estimado em R$ 776 milhões para o ano de 2015. Em ano de eleições municipais, vale a pena se informar se seu estado conta com o ICMS ecológico e se e quanto de unidades de conservação há na sua cidade. (Foto: Parque Nacional do Iguaçu, Paraná, Brasil.WWF-Brasil/Chris Rizzi)
Dilemas de nossos dias
Assisti a The Social Dilemma, na Netflix, e não fiquei confortável. A primeira impressão é que a polarização criada pelas redes sociais é apenas reflexo da burrice ou má intensão de parte (significativa) da população – o que já se intuía. O documentário mostra que as empresas do Vale do Silício se aproveitam dessas fraquezas para ficar trilhardárias e estão se lixando se isso leva o mundo para o buraco. Se há quem queira crer que a terra é plana, mudança climática e covid não existem e Bolsonaro é um bom presidente, porém, como não haver divisão? Acreditar que com regulações para a internet o problema será contornado, como os entrevistados dizem no filme, é de uma ingenuidade que condiz com a mágica que atribuem à inteligência artificial. A narrativa é feita para tocar o terror e não nos deixar dormir. Associam a internet às drogas – “são os dois segmentos que chamam seus clientes de ‘usuários’” – e seguem o mesmo padrão de apavorar pais: adolescentes abobados e sem vontade própria caindo nas mãos de “traficantes” de fake news. Produzido por estadunidentes para estadunidentes, citam um montão de problemas no terceiro mundo (Bolsonaro é, merecidamente, o caso apresentado de manipulação de uma eleição), mas não mexem em suas próprias feridas. Trump não é citado e os políticos que aparecem não são identificados por partido. O dilema, no entanto, está lá. É viável usar as redes sociais sem ser manipulado por elas? É possível vencer a falta de vontade de pensar do ser humano médio, que foi potencializada à estratosfera com os algoritmos da internet? Sou uma profissional de comunicação que lido com a manipulação desse setor desde os primórdios, quando ainda era uma questão apenas relacionada a anúncios. Uma vez, no Portal de Meio Ambiente da Agência Estado, no início dos anos 2000, tivemos uma briga com o departamento comercial porque uma entidade ligada a empresas (não lembro qual), travestida de instituto de pesquisa, comprou um espaço em nossa página e fez um anúncio seguindo à risca nosso padrão editorial. Recebemos vários comentários de fontes confiáveis que não perceberam que era anúncio nos questionando sobre a “matéria”. Hoje, essas fontes nem veriam esse material, que seria destinado apenas para os desinformados que acreditariam nele. Na ocasião, ficamos arrasadas porque já havíamos sido humilhadas pelo departamento comercial que nos respondeu que “pagava nosso salário” e que não reclamássemos. A primeira vez que publiquei uma matéria online, naquela mesma época, e recebi uma mensagem furiosa, cheia de insultos, menos de dois minutos depois, entrei em choque. No mundo offline em que vivia até então, o sujeito indignado precisava escrever uma carta, que por amor próprio revisava, tinha que comprar envelope e selo e ir até a caixa do correio para enviar. Tempo suficiente para refletir sobre o que pensava e como expressaria sua opinião. Hoje, as reações não passam pelo cérebro e são comandadas diretamente pelo fígado. Para me preservar, tenho como princípio não olhar nenhum anúncio nas redes sociais. Mas muitos não aparecerem como tal. Também limpei minhas redes de negacionistas, racistas, misóginos, fascistas e tudo o que me corrói o estômago. Tenho convicção que a militância que faço online não serve para nada porque só chega a quem pensa como eu. Costumo me consolar dizendo que envio para o “universo”, mas sei que ele pouco se importa. A opção seria sair de todas elas, me alienar e isolar de vez? Escuto as mensagens que pedem o fim da polarização e mais diálogo. Acredito que é nossa única alternativa. Até porque temos questões urgentes a resolver que não há como serem adiadas. Um bioma queimado e desaparecido não tem como ressuscitar espécies e ecossistemas perdidos para sempre. Povos, culturas e línguas de populações tradicionais idem. Mudanças climáticas que se aceleram vão continuar e nos destruir, mesmo que o presidente e seus seguidores continuem a rir delas. As vidas perdidas pela intolerância racial, de gênero ou social não voltarão. Mas não sei nem como começar. (Foto: Reprodução da Netflix)
O que ameaça as áreas protegidas brasileiras?
Parece piada fazer essa pergunta no momento em que quase todos os biomas brasileiros estão sob ataque, principalmente governamental, e metade da população brasileira apoia o governo. Ou seja, os algozes de nossas áreas naturais somos os brasileiros mesmo. Se com essa postura estivéssemos apenas nos condenando a uma vida que tenderá a ficar desesperadora, acho que me preocuparia menos, pois é uma opção civilizatória. Mas as cenas que temos presenciado da carnificina animal, sobretudo pelo fogo no Pantanal, são das mais indignas de nossa história recente, que não é lá grande coisa. As áreas protegidas deveriam ser nossas principais aliadas para reverter as mudanças climáticas que já não se fazem de rogadas, mas a falta de entendimento sobre sua importância e prioridades tortas as têm ameaçado sempre, com tendência crescente nos últimos anos. Ou seja, ao invés de estarmos aumentando o número dessas áreas e investindo pesado para que sejam bem geridas, assistimos a um ataque sistemático a elas. Nem vou falar agora sobre as terras indígenas e quilombolas porque persegui-las é programa de governo explícito de Bolsonaro desde sua campanha. As unidades de conservação (nossos parques e todos os demais tipos de áreas destinadas especificamente à conservação da natureza), porém, vêm sofrendo crescentes ataques nos últimos anos no Congresso Nacional e assembleias legislativas estaduais, com uma série de tentativas de diminuição de tamanho, redução no grau de proteção ou sua total eliminação. Conhecidos internacionalmente pela sigla PADDD – do inglês Protected Areas Ddowngrading and Degazettement – esses eventos são motivados por projetos de infraestrutura, mineração e agronegócio. No Brasil, 90 casos desse tipo já ocorreram, afetando uma área total de mais de 116 mil km2, outros mais de 250 mil km2 estão diretamente ameaçados. Esses dados fazem parte do pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, o qual ajudei a produzir e comecei a abordar na semana passada. O material explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. Esses dados fazem parte do volume O que ameaça as áreas protegidas brasileiras?. Entre as principais ameaças, estão a proposta de reabertura da Estrada do Colono (no Parque Nacional do Iguaçu), a redução do status de proteção do Parque Nacional Campos Gerais (ambos no Paraná), da Estação Ecológica de Tamoios (no Rio de Janeiro) e as propostas de redelimitação dos parques nacionais Serra da Bodoquena (Mato Grosso do Sul) e Lençóis Maranhenses (Maranhão). As unidades de conservação estão ameaçadas, ainda, pela proposta do Ministério do Meio Ambiente (MMA) de revisar todos os limites e categorias de unidades de conservação federais. Nos últimos cinco anos (entre 2013 e 2018), o orçamento do MMA caiu R$ 1,3 bilhão, passando de R$ 5 bilhões para R$ 3,7 bilhões. De 2017 para 2018, o ICMBio, responsável pela manutenção das unidades de conservação, teve redução de 44% em seu orçamento. Um exemplo comezinho do que acontece. Sem nenhuma manifestação contrária, deputados da Assembleia Legislativa de Rondônia fizeram desaparecer, em menos de uma hora de discussão, mais de meio milhão de hectares de áreas protegidas na Amazônia. De uma só vez, há exato um ano (setembro de 2019), riscaram do mapa onze unidades de conservação no estado, com tramitação em tempo recorde: o projeto foi protocolado no meio da manhã e, à tarde, já estava aprovado. A maior delas é a Estação Ecológica Soldado da Borracha, de 1.789 km2. Outro caso, ainda não efetivado, mas com porteira está aberta e boiada louca para passar, é a ação judicial movida por antigos proprietários que não foram indenizados no Parque Nacional da Bodoquena, em Mato Grosso do Sul. A ação visa a reduzir a área do parque de 76 mil hectares, para 20% disso (cerca de 15 mil ha). O parque abriga mais de 170 tipos diferentes de árvores e fauna ameaçada de extinção. Além disso, é o local onde nascem alguns dos rios mais importantes para as atividades que fazem de Bonito um dos principais destinos de ecoturismo no país. Resolver questões como essa é essencial para acabar com as ameaças às áreas protegidas, sem que a solução seja punir o meio ambiente e toda a vida que dele depende. (Foto: Queimada na Amazônia no estado do Pará,2019. Araquém Alcântara/WWF-Brasil)
É mentira que Brasil tem áreas protegidas demais
O Brasil arde em chamas e boa parte da população ainda cai no conto do vigário de que fogo não é fogo, fogo aparece sozinho, floresta é mato e existe mesmo para queimar (e depois plantar commodity, criar gado ou minerar). Pantanal, Amazônia, Cerrado e até o pouco que resta da Mata Atlântica estão indo para o espaço, em forma de fumaça, e brasileiro médio preocupado com os incêndios das mansões da Califórnia. Enquanto nossos biomas agonizam e as populações que deles dependem vivem em situação de guerra, incentivada pelo governo federal, mas não só, a ladainha de que há muita área conservada, muita terra pra pouco índio (e pouca pra latifundiário) e nosso agro é pop continua a ser recitada em verso e prosa. Mas são informações que, como tantas outras nesses tempos sinistros, não correspondem aos fatos. O Brasil é o quinto maior país em território do mundo, com seus 8.516.000 km2. Desse total, 18% são cobertos por unidades de conservação (UC), que somam aproximadamente 1,6 milhão de km2. No entanto, apenas 6% da área em UC estão em unidades de proteção integral, ou seja, aquelas que permitem apenas o uso indireto dos recursos naturais e atividades como educação, pesquisa científica e turismo. Os demais 12% são unidades de uso sustentável, nas quais são permitidas atividades econômicas, sendo 5,4% em Áreas de Proteção Ambiental (APA), categoria com pouquíssimas restrições de uso da terra, contendo inclusive cidades efazendas em seu interior. O restante são áreas nas quais são permitidas a produção madeireira sustentável e o extrativismo de produtos como castanha, açaí e borracha. A porcentagem de cada bioma em unidades de conservação também não é homogênea: Amazônia, 28%; Caatinga, 8,8%; Cerrado, 8,3%; Mata Atlântica, 9,5%, Pampa, 3%; Pantanal, 4,6% (alguém adivinha se essa porcentagem baixa ajuda que o fogo esteja tomando este bioma a ponto de até os pecuaristas estarem desesperados?). Além disso, o país conta com 963 mil km2 de unidades de conservação no mar, totalizando 26,4% de sua área marinha; 22,9% em Áreas de Proteção Ambiental. Em números, são mais de 2.300 unidades de conservação no Brasil. Parece muito, mas não é. E não estou nem levando em consideração como essas áreas (não) são geridas. Se observarmos as áreas protegidas como um todo e somarmos às unidades de conservação as terras indígenas, que ocupam 1.179.560 km2 (14% do território brasileiro), o Brasil protege 2.572.575 ou 30,2% do país. Caso sejam excluídas as APA, muito pouco restritivas (ou unidade de conservação para boi dormir, às vezes literalmente), são 25% do território em UC e TI. Para quem ainda não entendeu: terras indígenas são áreas federais do povo brasileiro, com usufruto dos índios, que, se deixados em paz, costumam cuidar muito bem delas. Em relação à área do país, as áreas protegidas estão ainda muito mal distribuídas pelos biomas: 90% ficam na Amazônia, que concentra apenas 10% da produção agropecuária. Fora da Amazônia, onde ocorre 90% da produção agropecuária brasileira, apenas 5% do território está sob áreas protegidas. O ideal seria ter, no mínimo, 20% de cada bioma em unidade de conservação. O mais importante, porém, para os recalcitrantes não ficarem de mimimi, é que a proporção de áreas protegidas no Brasil não destoa da média mundial, que é de 29%. A Europa, aquele continente o qual nossos governantes gostam de dizer que destruiu tudo o que tinha e agora quer que o Brasil morra à míngua e no meio do mato, tem porcentagens significativas de território em áreas protegidas: França: 26%, Reino Unido: 29%, Alemanha: 38%. O Japão tem 29%, enquanto nossos hermanos amazônicos Peru, Colômbia e Bolívia têm mais de 40%. Esses dados fazem parte de um pacote informativo lançado pelo WWF-Brasil neste ano, que ajudei a produzir, o qual explica, de forma didática e ilustrativa, a importância das unidades de conservação e os principais riscos que enfrentam. São cinco volumes, voltados prioritariamente para professores. Esses dados fazem parte do volume Quanto o Brasil tem em unidades de conservação?. (Foto: Confluência dos rios Juruena e Teles Pires, Pará. @WWF-Brazil/Zig Kock)
Todos deveríamos querer uma área protegida por perto
Na minha ilusão de amante da natureza e estudiosa da sua importância, áreas protegidas não apenas são imprescindíveis como também deveriam ser adoradas pela população, que faria de tudo para mantê-las da melhor forma possível e lutaria para que muitas delas fossem criadas em todo lugar. Ao contrário, o que vemos é um esforço deliberado para destruir avidamente o que temos – vide as invasões garimpeiras e grileiras nas terras indígenas e os desmatamentos e incêndios que não poupam unidades de conservação em todo o território nacional. Imagens do Pantanal, da Amazônia e do Cerrado em chamas – mas não só, como vimos até na Serra do Japi, em São Paulo, pertinho de onde estou (daqui a pouco voltamos a ela…) – são mais uma coisa a me assombrar nesta pandemia político-sanitária que nos assola. Praticamente todas as áreas protegidas que temos foram criadas a duras penas, a partir do esforço coletivo de pessoas e organizações que tiveram que enfrentar batalhas, algumas sangrentas, para garantir sua existência. Fazer com que sejam bem geridas (ou simplesmente geridas), porém, demandaria uma mobilização engajada da população que, até aqui, continua a não ver importância nesses territórios. Há um mito, espalhado pelos detratores dessas áreas, infelizmente hoje majoritários dentro do governo, de que temos áreas protegidas demais. Não é verdade. Estamos dentro da média mundial e essas áreas são muito mal distribuídas. Por exemplo, no município de Jarinu, onde atualmente me refugio, há apenas uma unidade de conservação (UC), que é a Área de Proteção Ambiental (APA) Jundiaí. O fato de ter o nome de outra cidade já é um indicador de que unidade de conservação não deve ser prioridade por aqui. Além disso, APA é o tipo de UC mais xexelento do nosso Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Sem querer dizer que não tem utilidade (tem sim), é uma categoria de uso sustentável onde quase tudo é permitido. Basta dizer que a APA Jundiaí pega TODO o município de Jundiaí e parte de vários outros. Essa unidade foi criada para proteger justamente a Serra do Japi, maior patrimônio ambiental da região e importante remanescente de Mata Atlântica. Que queima a cada inverno por falta de conscientização e um sistema de conservação insuficiente. Mas o que a falta de uma unidade de conservação integral, como um parque, faz a um município como Jarinu? Oras, sem entrar no mérito da informação, a cidade propaga ter o segundo melhor clima do mundo atestado pela Unesco, seja lá o que for ter o melhor clima do mundo. Como uma pessoa que frequenta a região há quase 30 anos, realmente é muito agradável, com dias quentes e noites frias, sem extremos de nenhum dos lados. O potencial turístico desse apelo, junto com uma topografia também bonita, a presença de muitas chácaras e proximidade com São Paulo, parece irresistível, mas não há praticamente nada para se fazer em Jarinu. A simples atividade de fazer uma caminhada só pode acontecer nas ruas, onde é urbanizado, ou em estradinhas sem nenhuma calçada ou qualquer coisa que indique segurança (aqui onde estou, quando criamos coragem de sair, levamos paus para o caso de encontramos cachorros bravos no caminho, o que é frequente). Se quiser fazer piquenique, trilha, andar de bicicleta (sem correr riscos), ou apenas curtir a natureza, não dá para ser por aqui. Ou está tão escondido que ainda não achei. Será que é tão difícil entender o potencial econômico, para saúde ou qualidade de vida de moradores e visitantes em contar com áreas protegidas? Tenho participado de vários trabalhos nos últimos tempos sobre unidades de conservação, principalmente para o WWF-Brasil, tanto sobre sua importância, quanto ameaças que vêm sofrendo, algumas, inclusive, de serem extintas. Para quem se interessa, tentarei mostrar um pouco dessas informações nos próximos textos. (Foto: paisagem dos fundos da minha casa em Jarinu)
Mulheres odiadas (e violentadas)
Me programei para escrever nesta semana sobre áreas protegidas, um tema que acompanho há tanto tempo e mais um dos que só trazem péssimas novidades. Queria comentar o desespero que são as queimadas e o desmatamento sem precedentes que tomaram conta do país e as desventuras em São Paulo, com toda a mobilização que a sociedade civil foi obrigada a fazer para evitar que a Fundação Florestal fosse extinta. Também pretendia ser leve e abordar a importância dessas áreas para nossa vida, inclusive como refúgio que espero se tornem para humanos terem momentos de lazer e um pouco de liberdade pós-pandemia. Eu e minhas filhas, quando tinham dez anos, apenas brincando, que é o que meninas de dez anos fazem. Mas isso fica para uma próxima oportunidade, porque desde o fim-de-semana só consigo pensar no horror supremo do caso da menina de dez anos estuprada, engravidada e perseguida pela horda de cristandade que, em suas várias versões, submete corações, mentes, fé e política no Brasil desde que os europeus aqui chegaram. Pensamento dominante este que só causa ódio às mulheres e faz com que mais da metade da população viva aterrorizada, com medo de sair às ruas e medo de ficar em casa. Que induz meninas e mulheres a se sentir culpadas por existirem ou pelas inúmeras violências que são obrigadas a sofrer ao longo da vida. O aborto é um tema tão tabu nesta sociedade que é empurrado para baixo do tapete inclusive por políticos que sabidamente são a favor dele, intimidados pelo poder das igrejas e pelos votos que seu atraso induz. Que forças fazem as mulheres se calarem e deixarem de exigir a legalização de uma prática a qual boa parte delas vai passar pelo menos uma vez na vida (minha experiência empírica mostra que quase metade, sem contar as que não têm coragem de contar) e que mata pelo menos uma de nós a cada dois dias? Como podem existir mulheres sórdidas como Damares e essa Sara Giromini, que se intitula inverno? Por que controlar os corpos femininos é tão importante para os homens? Será para ter a garantia do silêncio quando as obrigam a abortar? Esse caso da menininha do Espírito Santo fez chacoalhar esse tapete e é tanta sujeira despejada no ar que tem me sufocado e tirado o sono (felizmente não apenas o meu). Nos fez lembrar que são realizados no país seis abortos por dia em meninas de até 14 anos vítimas de estupro, que quatro meninas de até 13 anos são estupradas por hora no Brasil, onde foram registradas 642 internações por esse motivo apenas neste fatídico 2020, e são realizados 26 mil partos anualmente de mães entre 10 (DEZ!!!!!) a 14 anos. Quem lê isso e não tem vontade de vomitar precisa de tratamento. Me pergunto quem são os homens que cometem essas atrocidades. Não podem ser exceções pela quantidade (os dados acima são apenas os oficiais). De que tamanho precisa ser a misoginia normalizada e incrustada no inconsciente coletivo masculino para que pais, avôs, tios, irmãos, primos, padrastos, amigos íntimos das famílias se sintam à vontade para abusar de meninas das quais são responsáveis por cuidar e deveriam amar? O que pensam quando se olham no espelho? Me vejo pensando nos homens que conheci durante a minha vida. Quais deles seriam capazes desses atos ou foram às vias de fato? Impossível não fazer perguntas como essa diante da realidade. Como mãe, confesso que o fato de minhas filhas serem gêmeas e inseparáveis sempre foi um fator tranquilizador quando não estavam sob meus olhos. Lembro desse pensamento quando saíam para brincar no clube, em festinhas ou em qualquer outro lugar. O que mais me choca, porém, é a postura religiosa, que se arvora de defender a vida, mas despreza as mulheres. A declaração da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de que o abordo realizado na menina – não custa repetir muitas vezes, de 10 anos estuprada por quatro anos pelo tio – foi um crime hediondo é tão revoltante, que escrevo tremendo. É por essas e outras que me excomunguei da igreja católica, na qual fui criada, há mais de 30 anos. Que adianta ter um papa bacaninha, em um clubinho onde mulheres não podem chefiar nem míseras paróquias e pedófilos são encobertos e perdoados aos borbotões? Uma das séries documentais que vi nesta quarentena foi The Keepers, sobre casos reais de padres pedófilos, tão ilustrativa sobre a questão quanto o mais conhecido filme Spotlight (Segredos Revelados). O documentário parece uma ficção de horror e nos faz assistir roendo as unhas. Recomendo muito. Ambos, documentário e filme, se passam nos Estados Unidos, mas duvido que seja diferente por aqui. Sem contar o espetáculo macabro dos cristãos vociferando na porta do hospital em Recife contra o médico e a vítima, o próprio fato da menina ter que ir a outro estado para ser atendida é outra aberração difícil de aceitar. Que tipo de gente são esses médicos que escolhem ser hipócritas e não acabar com o sofrimento de uma criança a seguir o juramento de Hipócrates? Será excesso de cloroquina preventiva afetando os neurônios ou a compaixão? Enfim, diante da realidade tão nefasta, me vejo como o Luís Fernando Veríssimo em sua última coluna no Estadão (Florescendo). Assim como o escritor não conseguiu falar apenas das cerejeiras do jardim pela imposição dos mais de 100 mil mortos pela covid-19, também eu não consigo pensar em nada bom, leve e bonito com mais essa barbárie jogada nas nossas costas já tão sobrecarregadas.
Divagações sobre a cidade e a condição de cidadão
Uma certeza que carreguei até aqui era ser uma citadina. Mesmo minhas incursões campesinas, praianas ou florestais como turista ou a trabalho pareciam reforçar a convicção. Estar em São Paulo era estar em casa. Aliás, a metrópole funcionava como extensão da minha casa. Sempre gostei e interagi com sua efervescência, com a possibilidade de encontros, a diversidade cultural e de lazer, a facilidade de acesso a produtos imaginados a qualquer momento. Minha máxima era: se a pessoa não aproveita o que a cidade tem de bom, porque passar pelos perrengues – trânsito, poluição, transporte e calçadas precários, falta de segurança… São Paulo da janela do Masp. A consciência de que estar ou não na cidade e do que fazer nela são privilégios e não escolhas estava presente, mas com condicionantes, até que a pandemia se instalou e tive um duplo impacto. Por um lado, acabou minha liberdade de decidir o que fazer com meu tempo, por outro, tive a opção de sair sem grandes esforços e com muitas vantagens à disposição. Na primeira vez que voltei a São Paulo, pouco mais de um mês depois, em uma manhã chuvosa de sábado, ainda com as ruas desertas e tudo fechado, tive uma péssima impressão. Pela primeira vez, a feiura e a tristeza cinza da falta de horizonte me sufocou. Atravessar portões e depender da caixa fechada do elevador para chegar em casa foi penoso. Estar mascarada e com medo de tocar nas coisas só piorou a situação. Entrar no apartamento, que pareceu ainda menor do que achava, e olhar a cidade de cima através de redes foram a gota d’água para um acesso de choro (sou dramática, não tenho como evitar). Desde então, estive por lá algumas poucas vezes para buscar coisas ou resolver algum problema. A cidade quase voltou ao ritmo normal e apenas os protocolos pregados em todos os lugares e as máscaras usadas pela maior parte das pessoas impedem que esqueçamos a situação de anormalidade que se impôs com a alcunha de “novo normal’. Saudosa da minha antiga vida (quem não está?), não consigo planejar o que quero daqui para frente, partindo do princípio que “nada será como antes amanhã”. Principalmente, tenho severas dúvidas sobre ser ainda uma citadina, pelo menos da cidade como ela era e do que será se tudo seguir a tendência de normalidade que se avizinha. Sem uma nova utopia, receio me tornar uma eremita. Como parte desse treinamento intensivo para ermitã, tenho evitado me afundar na profusão de lives à disposição, mas na semana passada acabei acompanhando minha filha em uma da Escola da Cidade, onde ela estuda, com o arquiteto Wellington Cançado, professor da UFMG, e o sábio (muito sábio) Ailton Krenak. Não recebi respostas prontas, mas vários insights sobre meus incômodos e algumas ideias sobre um porvir desejável, na cidade e fora dela. Sob a provocação ‘Espaços para Respirar (em São Paulo)’, Cançado afirmou que estamos acossados em espaços privados pela impossibilidade de respirar coletivamente. E citou Lina Bo Bard: “Toda liberdade só pode ser coletiva”. Para o arquiteto, estamos confinados em nossas cavernas assistindo o extermínio afro-indígena e a exploração dos entregadores de tudo e mais um pouco. E se você acha que isso é fruto da pandemia, cuide da sua ingenuidade. Os vetores ‘antopocidas’ não chegaram com o vírus, mas o processo avançado de urbanização planetária propiciou que a covid-19 se espalhasse rapidamente a partir de poucas conexões aéreas, consequência do nosso modo epidêmico de ocupação da Terra. Nossa urbanização está muito distante dos sonhos cosmopolitas, cujo imaginário liga ao que é bom, educado, civilizado. E mesmo que o modo de vida ‘cidadocêntrico’ seja vendido como prevalente, afinal somos 3,5 bilhões de pessoas nas cidades, 2 bilhões ainda vivem na floresta e têm o direito de continuar por lá. O professor lembra que, no Brasil ocupado pelos europeus, a criação de espaço para respirar era limpar o terreno, criar clareiras para sair da floresta e afastar seus seres indesejáveis. Vivemos sobre ex-florestas e seguimos condenando as florestas e seus moradores indígenas e não-humanos. Nossa arrogância não permitiu que incluíssemos outros modos de viver humanos e também de outros seres (animais, árvores) como sujeitos de direito de respirar na cidade e fora dela. E pagamos o preço. Ailton Krenak diz que a cidadania, na verdade, é privilégio de quem é da cidade, quem está fora é outra coisa. “Por isso criamos a florestania, para lembrar que existem outras vidas que não a de citadino”. O líder indígena e ambientalista defende que a cidade atrai o ser humano com a ilusão de ser consumidor de tudo que há no mundo. “Mas é um lugar seletivo, para um pequeno clube, não é para todos. Na verdade, funciona como um indutor de desejo de consumir tudo o que vem de fora”. Com todas as promessas, as cidades tornaram-se arapucas bem sucedidas. Encomendadas pelo mercado imobiliário, são pródigas em produzir desigualdades. “Todas as grandes cidades nasceram ao longo de um rio, o qual mutilaram. E são onde as pessoas ficam encurraladas, onde mais gente está morrendo na pandemia.” Como sair dessa arapuca? Que cidade poderíamos especular para responder aos desafios das mudanças climáticas (e suas consequências que ameaçam sua existência, como a falta de água e alimentos ou novas pandemias) e que consiga sobreviver com respeito a outros modos de vida e sem a dependência da destruição do que está além dela? Algumas pistas começam por nos perguntarmos de onde vem o que consumimos (a carne, a madeira, os metais, a tecnologia) ou o que aconteceria se outros seres também fossem considerados como dignos de direitos. E se a cidade fosse mais autossuficiente, não apenas produtora de cultura e serviços, mas também de alimentos, energia limpa, moradia de qualidade, mais inclusiva e diversa, menos acumulativa? Vale a pena apostar na cidadania?
Confusão mental
Mais de cinco meses depois que abandonei abruptamente minha até então vida para me refugiar na chácara, onde nunca pensei em morar, já não sei o que devo fazer. Ficar de quarentena ficou fora de moda de repente, quase ao mesmo tempo em que o país se aproxima de 100 mil mortos pela doença e que os índices de contaminados sobem vertiginosamente. Deve haver alguma coisa no isolamento que embotou minha capacidade de entendimento e os remédios da vez (cloroquina, invermectina e agora ozônio via retal) não são para esse mal. Estou meio perdida, algo me escapou sem que percebesse. Esperando o tempo passar. Não que eu acredite que tenha que seguir a boiada (será que posso falar isso?), mas a sensação de ficar para trás não é boa. Será que sou preguiçosa e não quero procurar novos desafios? Será que não ter um chefe me obrigando a voltar para o escritório é sintoma de fracasso? Será que meus amigos não são bons porque não me convidam para festas, ou sou egoísta por não os estar convidando para nada? Vou me tornar uma caipira que não sabe andar de metrô ou no shopping center? Vivo em uma realidade paralela e ninguém teve coragem de me contar? Pelo pouco entendimento que me resta, dizer que a pandemia é uma fatalidade ainda pode. Que atinge o mundo todo e isso é horrível também. Mas mencionar que política tem a ver com o tamanho da tragédia do país ficou old fashioned – ou antiquado mesmo, em bom português. Afinal, isso é só questão de opinião e opinião só é relevante (ou ciência) quando se trata de receitar medicamentos para a Covid-19. Dizer que a vacina vai chegar rapidinho e tudo vai voltar ao normal não só pode como é o esperado. Qualquer coisa diferente disso é ser do contra. Devo estar enganada, mas o maior crime para um brasileiro desde o início do ano passado é exatamente ser do contra. Parece que dá um superpoder ao vivente e o que ele prognostica acontece. Se todos pensassem positivo, estaríamos bem e eu não estaria com todos esses dilemas. Tento recorrer à minha bolha no Twitter ou Facebook, mas é só não resistir à tentação e olhar os comentários – mais uma prova de insanidade que me acomete com cada vez mais frequência – e vejo que esta bolha é realmente muito pequena e contaminada com pensamentos negativos, baseados em crenças démodé (a gente muda a língua, mas o significado é sempre o mesmo) sobre defender a lógica, a ciência, os direitos humanos, a coletividade. Somos um povo de pouca fé e quase nenhuma influência, como mostram as pesquisas de opinião divulgadas quase todos os dias. Se é que consigo interpretá-las. Na minha confusão mental, quando a gente acha algo razoável, é porque está mais para bom do que para mal. Então, não adianta especular que são poucos (entre 15% e 30%) os que avaliam bem a gestão federal. Somos bem minoritários os que, como eu, acham que vivemos uma realidade inaceitável. Mas deve ser apenas delírio do isolamento. Radicalismo de quem inveja os que aproveitam a vida enquanto fico aqui vendo o tempo passar.