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PaulistanaSP

Passeio na Vila Flores

  As informações na internet diziam que abriria às 10h30. Chegamos às 10h40 e a porta com o número 753 do endereço está fechada. Damos a volta em torno das casinhas que compõem a Vila Flores do lado de fora, todas com plaquinhas confirmando que fazem parte desse centro cultural que há tempos quero conhecer em Porto Alegre. Tocamos até uma campainha e nada. Como típicos paulistanos, ficamos mais irritados do que decepcionados. Para não perder totalmente a viagem, saco o celular e tiro algumas fotos das fachadas antigas, enfeitadas com vasos floridos, e nos preparamos para chamar o Uber quando, como que por encanto, o 753 se abre. Dentro, um charmoso café, com mesinhas e uma cozinha à mostra, funciona como um portal para outro mundo. Uma moça sorridente, vestindo um avental, nos recebe, pergunta se é nossa primeira vez por lá e, ao respondermos que sim, diz que chamará alguém para nos acompanhar. Do outro lado do café, uma nova portinha se abre para um pátio cercado de prédios de três andares com apartamentos com varanda na frente. A combinação de construções antigas com trepadeiras e flores, pinturas, esculturas e bancos de praça faz pensar que estamos em uma cidadezinha europeia. A manhã ensolarada deixa tudo ainda mais colorido, e relaxamos de vez quando aparece Pâmela para nos guiar. Ela conta que o espaço é uma antiga vila de operários, formada por três edifícios projetados nos anos 1920 pelo engenheiro-arquiteto alemão Joseph Franz Seraph Lutzenberger, avô no nosso ambientalista primeiro José Lutzenberger. Penso que ter um avô imigrante que projetou varandas para operários no início do século passado deve ter sido uma inspiração para o Lutz que nos puxou para a luta contra a poluição e degradação ambiental em nosso país. Pâmela explica, também, que o local é um centro de arte e cultura, gerido por organizações do terceiro setor, cooperativas, sociedade civil e empreendimentos sociais, e mantido pelo aluguel que organizações e artistas pagam para instalar seus ateliês nos antigos apartamentos. Ela mesma atua em um projeto social que une arte, educação e sustentabilidade, por meio de reaproveitamento de tecidos e produção de roupas e acessórios, que são vendidos no local. Nos leva para conhecer os galpões, onde são realizadas oficinas e exposições. Nas paredes, o resultado de uma dessas oficinas na qual mulheres expressam a indignação pela onda misógina que toma conta do Brasil. Frases de políticos machistas notórios me deixam arrasada ao constatar que são todos paulistas: “Os governos agora precisam ter maridos, viu, porque daí não vai quebrar” (Michel Temer); “Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher” (vocêsabequem); “Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata” (Paulo Maluf); “São fáceis porque são pobres” (Arthur do Val). Sei que o mal é nacional, mas é duro de ver tipos como esses brotarem como cana, café e laranja no meu estado. Shows, festivais e até uma feira de produtos orgânicos fazem parte da programação do lugar. Uma creche parental é mantida para o cuidado compartilhado das crianças. Em abril último, o local foi um dos escolhidos para receber o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por suas ações para preservação e promoção do patrimônio social e seu impacto para a sustentabilidade econômica. Cheios de compromissos familiares que compõem nossas visitas a Porto Alegre, nem temos tempo de tomar o café e esperar pelos pãezinhos que estão sendo assados no momento que saímos. Um dos ótimos motivos para voltar.

Mulheres Ativistas: um olhar para as futuras gerações e para o envelhecimento feminino

  Nesta entrevista ao blog Mulheres Ativistas, no Conexão Planeta, a bióloga Lucila Egydio fala de ativismo como uma postura de vida, presente em todas as escolhas que faz. Por quase uma década, Lucila conviveu diretamente com os pantaneiros e sua cultura no Refúgio Ecológico Caiman, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, e aprendeu a importância do ecoturismo como oportunidade de conservação do meio ambiente. Não se intimidou com o fato de ser mulher e forasteira em um ambiente bastante masculino, e conquistou seu espaço se integrando, ao máximo, aos costumes locais. A experiência adquirida como guia, na gestão do hotel e no desenvolvimento de manuais e trilhas fez com que fosse convidada, em 2000, para trabalhar no Ministério do Meio Ambiente, em um programa de desenvolvimento do ecoturismo na Amazônia. Depois disso, coordenou um projeto de desenvolvimento de ecoturismo na Mata Atlântica para a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, além de dar aulas e consultorias sobre o tema. Em 2011, se tornou diretora executiva Instituto SOS Pantanal, quanto teve que aprender a lidar com o mundo do agronegócio, sobretudo da pecuária, alvo das ações da organização. Em 2015, de volta a São Paulo, um pouco frustrada com as dificuldades de atuar com o setor agro, ela deu uma guinada que a colocou em uma outra frente de ativismo, o do envelhecimento. Convidada para ajudar a desenvolver um projeto voltado a idosos, foi seduzida pelo tema. Passou a frequentar eventos e foi estudar o envelhecimento feminino. “Briguei muito pelas futuras gerações e agora estou lutando pela minha”, brinca ela. A biólogo, amiga que acompanho de perto há anos, é um exemplo de ativismo por inteiro, que busca a cidadania e a construção de um mundo melhor pata todos em qualquer área em que atue. Veja a entrevista em:  https://conexaoplaneta.com.br/blog/lucila-egydio-um-olhar-para-as-futuras-geracoes-e-para-o-envelhecimento-feminino/ (Foto de arquivo pessoal no FB)

Sobre o Marco Temporal e o tempo e tudo mais que roubamos de nós mesmos

Estava em Carajás, que é uma ferida imposta à floresta amazônica no Pará. Mais precisamente, na cidadela construída pela Vale para abrigar os funcionários qualificados que leva para coordenar e controlar a infecção causada pela retirada de minério de ferro para alimentar nossa gulosa civilização. O lugar é um tipo de Alphaville murada, não para isolar dos pobres, mas de onças e quetais. De lá, nós, jornalistas, seríamos levados pela companhia para uma comunidade caiapó, dos Xicrin do Cateté, para presenciarmos a finalização de um projeto de manejo sustentável de madeira realizado pelos indígenas. Era mais uma das inúmeras tentativas de dar uma “utilidade” para índios e suas terras, pensadas por ambientalistas e indigenistas bem-intencionados para adiar a extinção desses povos, e financiada pela grande corporação, não por generosidade ou consciência pesada, mas para pacificá-los e evitar que impedissem o carregamento da montanha em pedaços pela estrada-de-ferro que circunda a terra indígena – ou invade parte do que deveria estar dentro dela. Caiapós são guerreiros e a vida do capital não é fácil perto deles. Nos levantamos cedo para a viagem e eu estava animada, pois, mesmo com anos de trabalho relacionado a povos indígenas, nunca havia estado em uma aldeia, mas também com medo. Quando ouvi que iríamos de “caravan”, achei que era de carro, mas era um bimotor. Andava sensível naqueles tempos. Com crianças pequenas em casa, tinha paúra de morrer, imagina perdida no meio da selva! Foram uns 40 minutos de pavor e maravilhamento voando debaixo de chuva sobre aquele tapete verde sem fim. Até que, junto com um sol esplendoroso, surgiu uma clareira na paisagem – a pista de pouso -, um trechinho de terra à mostra cheio de crianças correndo e acenando para o avião. Gelei em pleno calor equatorial ao nos aproximarmos e imaginar um strike de crianças, que, claro, não aconteceu. Na aldeia, ali pertinho, a expectativa de um grande evento agitava os moradores. Entre os muitos visitantes, até ministro de Estado era esperado. No grande pátio, cercado pelas construções típicas daquele povo, crianças de todas as idades circulavam, as menorzinhas totalmente nuas, em um ambiente de total liberdade. Corriam, subiam em árvores, os bebês passavam de colo em colo. Pareciam não ser cuidadas por ninguém, mas percebi que, na verdade, eram cuidadas por todos. Foto: Festa por ocasião de saída da primeira safra de madeira da Terra Indígena Xikrin do Cateté. Pedro Martinelli-2000, ISA, https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kayap%C3%B3_Xikrin Um grupo de meninas, quase adolescentes, me cercou para mostrar as pulseiras de sementes e miçangas que haviam feito. Queriam trocar pelo relógio de ouro que carregava no pulso. Não entendiam minha recusa, pois eram muitas pulseiras para um só relógio. Expliquei a elas (com alguma verdade), que se tratava de um presente de meu marido, por isso não seria possível me desfazer dele. Ganhei pulseiras mesmo assim, mas fiquei com uma sensação de perda que ainda não conseguia explicar. Durante a solenidade com as autoridades, a maior parte dos moradores parou para assistir. O cacique – um senhor imponente e com cara de bravo, sentado no chão no centro da roda – fazia as honras da casa. Enquanto falava, várias crianças acercavam-se dele, algumas sentavam-se entre suas pernas. Quando uma delas queria lhe dizer alguma coisa, ele interrompia sua fala para ouvi-la pacientemente, e depois continuava a conversa com os forasteiros. Comecei a me sentir mal. Demorei para perceber a causa. Tive uma epifania. Me transportei para meu apartamento pequeno onde meus filhos deveriam estar confinados aos cuidados da babá ou em alguma atividade monitorada por adultos pagos para mantê-los sob controle. Um nó me subiu pelo estômago e precisei sair correndo dali antes que o soluço alto, que não tinha como evitar, chamasse a atenção. Sozinha, atrás de grandes árvores às margens da aldeia, chorei por vários minutos invadida por um sentimento de pena dos meus filhos, e culpa por proporcionar uma infância tão pobre pra eles. Os via como pequenos prisioneiros em um mundo tão grande e cheio de aventuras e belezas inacessíveis para suas vidas limitadas a um sistema pré-determinado e sem saída. Lembrei desse momento hoje de manhã ao ver as manchetes sobre a aprovação na Câmara dos Deputados do Marco Temporal. A imprensa vê o fato como um revés para a agenda ambiental do governo Lula. Ruralistas, garimpeiros e corporações ávidas por mais e mais terras e rios e florestas e montanhas para comer devem estar comemorando. A maior parte da população não está nem aí, não entende do que se trata nem está interessada em saber. Eu voltei para aquela aldeia indígena que me mostrou o quando de nossa humanidade estava perdida. E tive pena de meus possíveis futuros netos. 

Retrofit

  Era o prédio mais bonito de São Paulo. Pelo menos no olhar do menino franzino que, aos 14 anos, foi contratado como mensageiro na Companhia Telefônica Brasileira, ou CTB. Não sabia, então, que a sede da Companhia – como chamaria a empresa mesmo após mudanças de nome ao longo do tempo – seria praticamente sua casa por toda uma vida. Conhecia cada corredor, cada sala, por onde passava entregando a correspondência entre setores, em um mundo onde o e-mail não era sequer sonhado. Tímido, mas educado e dedicado, acabou promovido ao balcão de atendimento, no suntuoso átrio do edifício. Era ali que os poucos privilegiados possuidores de telefones vinham resolver os problemas relacionados a suas linhas. Ou reclamar da falta delas, agrura paulistana que só começou a ser resolvida no final dos anos 1970. Foi daquele balcão que viu, pela primeira vez, a moça interiorana bonita e espevitada, deslumbrada com a cidade, que seria sua colega de trabalho por muito tempo, antes e depois de ter coragem de se declarar. Para ela, a Companhia significou a prova de que a capital era mesmo cheia de oportunidades. Assim que chegou “à terra da garoa, em um deslumbrante dia de sol”, soube que estavam contratando telefonistas e correu para se inscrever. Ao passar pelo exame admissional, com uma gripe forte de recém-chegada, o médico perguntou sobre sua formação e, ao saber que “fazia o Normal”, disse que era muito qualificada para ser telefonista. Pediu que fosse para casa e, quando passasse a febre, voltasse que seria encaminhada para um trabalho mais bem remunerado e menos sacrificado. As heroicas telefonistas trabalhavam em esquemas de plantão que incluíam dormir no serviço, o que inviabilizaria que terminasse o magistério no turno da noite. De uma forma resumida, na parte que me toca desta história, eu possivelmente não existiria se esse edifício não tivesse sido construído. Foi na CTB que meus pais se conheceram e se apaixonaram. Era para estar perto da rua Sete de Abril, onde trabalhavam, que, ao se casarem, foram morar na rua Martinho Prado, em frente à Praça Roosevelt e ao lado de onde estava sendo construído o elevado que seria conhecido como Minhocão. Dali, podiam almoçar em casa e estar rapidamente com o casal de filhos que aumentou a família em pouco mais de dois anos. Durante meus primeiros anos, esses cartões-postais de São Paulo, que incluíam subir e descer a escada rolante da Galeria Metrópole, programa de todos os fins de semana, eram o mundo que conhecia. O edifício da Sete de Abril era tão parte da família quando os muitos amigos dos meus pais com os quais convivíamos, todos colegas na Companhia. Desdobramento comum para a época, depois de onze anos trabalhando no mesmo lugar e com o marido que de colega passou a chefe, minha mãe deixou o emprego e nos mudamos para um bairro mais amigável para crianças. Meu pai, estudando à noite, concluiu dois cursos superiores, o que viabilizou que tivesse uma longa e bem-sucedida carreira na firma, que de Companhia Telefônica, passou a Telesp, voltou a ser Telefônica e, agora, privatizada, não sei mais o que é. Em algum momento, com a empresa crescendo ao ritmo de São Paulo, meu pai deixou o edifício da Sete de Abril e trabalhou em diversos endereços até se aposentar, depois de 45 anos, como o funcionário mais longevo na organização até então. E eis que outro dia vejo no Instagram que o edifício da Telefônica, aquele que foi um dos mais imponentes da cidade e está abandonado há anos, será retrofitado. E que, antes da obra começar, estava sendo realizada uma exposição de arte no local. Tive um ataque de comichão e ansiedade. Faltavam poucos dias, precisava levar meu pai até lá. Combinei de me encontrar com ele na porta, mas, ao chegar, quase me arrependi ao me deparar com um prédio totalmente deteriorado. Não havia placas indicando que algo acontecia ali, apenas portas fechadas e paredes pichadas. Mas faltava ainda meia hora para abrir e resolvi tomar um café em uma lanchonete ao lado e ver o que acontecia. Aos 88 anos e com seus passos vagarosos, localizei meu pai um tanto atordoado na multidão do centro e fui resgatá-lo. Ele já havia passado em frente ao edifício e estava tão decepcionado quando eu. Aguardamos ainda alguns minutos e, quando nos aproximamos, havia várias pessoas esperando a abertura da exposição. Estávamos entre os primeiros a entrar no grande vestíbulo que misturava um ar de abandono com início de obras, ocupado por poderosas instalações de arte que pareciam gritar que aquele é um espaço de valor, do qual o capital e a falta de memória da metrópole tentaram se livrar, mas não conseguiram. Os olhos mareados de meu pai, porém, mal enxergavam as obras de arte. Suas pupilas refletiam os tempos passados: o grande balcão, os elevadores, o banco onde os clientes esperam para ser atendidos, o mezanino, de onde desciam por um elevador os documentos solicitados. O título da mostra, Irrealidades Visíveis, era o mais próprio possível. Em meio a restos abandonados de móveis e tecnologias antigas, alguns deles utilizados nas instalações artísticas, meu pai me descreveu como era o prédio, como funcionava a empresa, onde ficavam os escritórios, as telefonistas e seus dormitórios, as quadras de boliche, segundo ele coisa dos “ingleses” da Companhia. Lamentou que minha mãe, hoje com demência senil, não pudesse estar ali. Ficamos sabendo que o prédio será reformado e transformado em escritórios e apartamentos, que já estão à venda. Permanecemos andando pela atual ruína por quase uma hora e saímos felizes de saber que voltará à vida, e, talvez, ajude a recuperar o que podemos chamar do coração de São Paulo. Este, constatamos, anda um tanto sujo e com um certo ar de desleixo do poder público. Mas ainda é vibrante e cheio de uma diversidade que faz lembrar a cidade de promessas de quase um século atrás. 

Quem pode, pode

  Ler Jorge Luis Borges é uma experiência única: você não vai entender boa parte, se sentirá burra e sem referências em outras. Mas, se persistir, vai se divertir. Nos contos de Ficções, o autor mistura fatos e pessoas reais com outros imaginários, alguns totalmente fantásticos, e nos convence de estar descrevendo casos verídicos, que qualquer um que se pretenda erudito deve se interessar e ter conhecimentos prévios que o ajudem a entender. Um exemplo é o pretenso “ensaio” Exame da Obra de Herbert Quain, que teria sido um escritor que acabara de falecer. Borges analisa toda a obra do artista, incluindo até equações matemáticas e citações a Flaubert, Henry James e Schopenhauer. Terminei me sentindo uma ignorante por nunca ter lido nada de Quain! Encontrei um artigo do José Saramago onde entra na brincadeira e traz várias evidências de que Herbert Quain existiu. Em O Fim, Borges encena a morte de Martín Fierro, um gaúcho argentino, por um negro em uma briga de bar. Confesso que o que mais chamou minha atenção foi o nome do assassinado, frequentadora que sou do restaurante paulistano de mesmo nome. O fato me levou a uma pesquisa rápida para saber de quem se tratava e descobri que Fierro é um herói épico de um poeta argentino chamado José Hernández, que o escritor reinterpreta em seu conto. Borges pode tudo.

De volta às mulheres ativistas

  Em 2019, entristecida com os retrocessos que se instalavam no país, queria fazer algum trabalho que valorizasse o engajamento feminino. Desse desejo e conversas com a Mônica Nunes, editora do Conexão Planeta, surgiu o blog Mulheres Ativistas, no qual, ao longo de três anos, publiquei o perfil de exatas 50 mulheres extraordinárias. A maior parte são amigas e parceiras de ativismo socioambiental com quem convivo e admiro há anos. Outras conheci nesse percurso e se incorporaram ao meu rol de fontes de inspiração. Parti da premissa, totalmente baseada em minhas observações, de que o ativismo feminino é especial. A maior parte das mulheres, ao aderir a uma causa, seja ela qual for, acaba por incorporar outras questões ligadas a direitos em geral, se não em sua militância, na sua própria vida. Por isso, são um motor potente para mudar o mundo. Ao longo de todo aquele tempo, minha lista de possíveis entrevistadas só cresceu. Sempre me lembrava de alguém ou recebia indicações. Ficava angustiada porque sabia que não conseguiria homenagear a todas, o que de fato aconteceu. Acabei parando com o blog por falta de tempo para me dedicar a ele e sou muito agradecida ao Conexão Planeta por me abrigar. Quem sabe uma hora encontre um novo formato para voltar ao tema. Mas tenho pensado muito na importância do ativismo permanente neste país, ainda mais ao ver como tem se comportado o Congresso Nacional e até algumas posturas dúbias do próprio governo federal, nos fazendo ter os mesmos calafrios da época dos bagres e de Belo Monte. Achei que poderia voltar aos perfis para matar a saudade e lembrar que, mesmo que os tempos não estejam tão sombrios – o material foi publicado com Bolsonaro no poder e, em boa parte, durante a pandemia -, precisamos ainda de muita militância e cidadania por aqui.  Minha primeira entrevistada no blog foi escolhida a dedo, pois Miriam Prochnow é uma das mais aguerridas ambientalistas brasileiras, de quem tenho a honra de ser amiga e trabalhar junto em inúmeras ocasiões. Quem quer saber como a sociedade civil conseguiu reverter a destruição da Mata Atlântica e garantir uma legislação para conservar o bioma, precisa conhecer a história dela e da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), a organização que criou com seu marido Wigold Shäffer, na qual militam até hoje. Num momento em que o Congresso quer novamente colocar em risco a Mata Atlântica que, ao contrário, precisamos urgentemente recuperar, é bom contar e contar e contar que há pessoas que dedicam a vida a causas como esta. Veja a entrevista:  https://conexaoplaneta.com.br/blog/miriam-prochnow-tres-decadas-de-luta-em-defesa-do-meio-ambiente-e-da-vida/

Histórias paralelas

  Chego em São Paulo após um voo em que menos de 5% dos passageiros eram negros. Na tripulação, nenhum. Volto impactada pela visita ao National Museum of African American History and Culture, em Washington, aberto em 2016 e do qual não tinha ouvido falar até me deparar com o majestoso prédio bem pertinho da Casa Branca. A primeira coisa que me perguntei foi se este lugar existiria se não houvesse Barak Obama ou se dependesse de um governo como Trump. De todos os inúmeros museus da capital estadunidense, foi o que escolhi para conhecer e por lá passei umas boas três horas. Como tudo naquela cidade, o prédio, já grandioso por fora, é ainda maior por dentro e tem muito mais gente do que se imagina. É uma sucessão de filas para tudo. Pessoas de todas as cores, mas principalmente a população negra daquele país. Uma ala inteira para a história da escravidão e a dor no peito de sempre ao constatar como as histórias do Brasil e dos Estados Unidos são parecidas na crueldade, e de ver, mais uma vez, que de onde vim essa indignidade fez muito mais vítimas e durou mais tempo. A abolição divide os dois países. Nos Estados Unidos, a mesma Guerra Civil que acabou com a escravidão, criou as condições para perpetuar a segregação racial, na primeira e mais abusada das hipocrisias do “país da liberdade”, “centro do mundo livre” entre outras definições autoproclamadas. No Brasil, isso nunca existiu, embora pareça difícil achar que largar a maior parte da população do país à própria sorte de um dia para outro, trazendo europeus de balde com garantia de emprego e terras para substituí-los, seja muito melhor. Em comum, as duas péssimas decisões produziram sociedades desiguais e incentivou o racismo na população branca, sempre se sentindo ameaçada por possíveis perdas em seus privilégios. As duas outras alas principais do museu da história afro-americana são dedicadas às lutas pelos direitos civis, sobretudo entre 1955 e 1968, e o que chamam da transformação do país a partir disso. Os sentimentos são contraditórios. Vão da emoção de ver a garra e a coragem de um povo em busca de seus direitos à raiva profunda da resistência que enfrentaram e de reconhecer, na postura dos que resistiam às reivindicações, ideias e comportamentos que vejo ainda hoje em círculos não tão distantes de mim. O taxista que nos trouxe do aeroporto para casa no domingo, por exemplo, só não terminou uma frase horrorosa sobre imigrantes haitianos porque meu marido o interrompeu (e intimidou) ao me perguntar se meus amigos haitianos, que trabalham no estacionamento em que deixo o carro quando vou visitar meus pais, falam bem o português.  A transformação nos EUA desde os anos 1970 é inegável e muito superior ao que temos por aqui. Representando pouco mais de 12% da população, pessoas negras estão presentes em todos os espaços, sobretudo nas grandes cidades. São reconhecidas não apenas nos esportes, mas em todas as áreas, inclusive no centro do poder. Há um espaço especial no museu para afrodescendentes de sucesso, como Oprah Winfrey e a família e a presidência de Obama. Infelizmente, ainda não há nada sobre acontecimentos recentes, como o assassinato de George Floyd e o movimento Vidas Negras Importam, que mostram que a luta ainda está longe de acabar. Andando pelas ruas de Washington e Nova York, é possível constatar que os negros ainda são os mais pobres e que a população em situação de rua é praticamente só dessa cor. Mesmo assim, uma verdadeira transformação está muito mais longe por aqui, onde é aceitável que mais de 50% da população não tenha acesso aos melhores empregos, endereços, restaurantes, equipamentos culturais, escolas e o que mais se pensar. Que viajar seja um privilégio branco. Que negros serem assassinados em massa em ruas e favelas e sigam acuados em todos os cantos seja normalizado. Chego em São Paulo e a principal notícia nas redes sociais e na boca do povo é a injúria sofrida pelo Vini Júnior na Espanha. Brasileiros estão furiosos e solidários com o jogador de futebol e vários vociferam contra os espanhóis, como se todos naquele país fossem racistas e, por aqui, vivêssemos na maior democracia racial do planeta, para orgulho de Gilberto Freire e suas casas grandes e senzalas. Afinal, enricar e ter muitos fãs a partir do campo de futebol foi permitido aos descendentes das senzalas, embora os melhores lugares dos estádios (ou na direção dos times de futebol) não sejam reservados a eles. Claro que considero um horror o que acontece nos campos de futebol da Europa e, lembremos, também por aqui. A postura de Vini Júnior e a repercussão do caso são um alento e, oxalá, produzam mudanças. Só não dá para sermos seletivos e pontuais em nossas indignações.

O labirinto ou a resistência

Uma Espanha recém-saída de uma Guerra Civil cruel, na qual o fascismo venceu, cercada por uma guerra mundial tão maligna quanto (com resultados ainda incertos mesmo em 1944) e uma ditadura que ainda perduraria por décadas. Este é o pano de fundo de O Labirinto do Fauno, livro escrito a partir do filme de mesmo nome do cineasta Guillermo del Toro, assinado por ele e a escritora e ilustradora Cornelia Funke. Aliás, suas ilustrações lindas e sombrias, nesta edição bem especial da Intrínseca, fazem jus ao que encontramos no texto. Mas minha missão, para nosso Clube Feminino de Leitura (CFL), foi falar do personagem – secundário na trama – Pedro, irmão da incansável governanta Mercedes e brindado com o “final glorioso” de assassinar o vilão Vidal com um tiro na cabeça. Mas quem é Pedro? É o líder de um grupo de guerrilheiros resistentes à sanguinária ditadura franquista, que se esconde na floresta das milícias oficiais do governo, as quais tenta sabotar. Chefiados pelo capitão Vidal, os soldados que tudo podem, perseguem os dissidentes, suas famílias e o povo pobre em geral, do qual roubam até os poucos provimentos que teriam direito durante o racionamento imposto pelo governo central. Idealistas, Pedro e seus companheiros esperam que os Aliados venham socorrê-los assim que a guerra acabar: “Rússia, Inglaterra, Estados Unidos… Eles vão nos ajudar – disse Pedro, enfim. – Assim que derrotarem os fascistas alemães, vão nos ajudar a derrotar os fascistas aqui na Espanha. Franco apoiou Hitler, mas nós apoiamos os Aliados. Muitos de nós morreram ajudando a Resistência. Sabotamos as minas de tungstênio da região da Galícia, que eram indispensáveis às fábricas de armas alemãs… Acham que os Aliados vão se esquecer disso?” “Sim eles vão esquecer”, pensou com razão outro personagem, o doutor Ferreiro, como a História nos diz hoje. Sabiamente, o médico que tombou sem se render à desumanidade que o cercava, tinha medo de que “as causas boas nunca ganhassem, afastando o mal apenas por um breve momento”. O fim de Pedro, não sabemos, mas deve ter acabado seus dias morto em combate, preso e torturado nas prisões franquistas ou se submeteu ao sistema e sobreviveu para, na velhice, ver a Espanha se reerguer como país democrático (porém ainda monarquista) a partir da morte de Franco, em 1975. Tenho simpatia por Pedro e seus semelhantes que resistiram e ainda hoje resistem às injustiças em busca de um mundo melhor. São geralmente destemidos e enfrentam forças quase sempre muito superiores a eles em nome de uma vida melhor para pessoas impotentes, mas às vezes também ignorantes, covardes e coniventes com o que as oprime. Por isso, são todos, quase sempre, perdedores. Em O Labirinto do Fauno, a esperança existe apenas no escapismo do conto de fadas (como fez Ofélia entrando no Labirinto) e na pequena vitória sobre o tirano de pouco escalão que logo deve ter sido substituído. A luta, portanto, é eterna e incerta. Se é assim, por que, então, ainda temos “Pedros” (e Mercedes e doutores Ferrero) no mundo? A resposta foi dada pelo próprio Pedro quando Mercedes questionava seu papel de espiã dentro da casa de seu algoz: “E se o doutor tiver razão e não conseguirmos vencer?” Disse Pedro: “Então pelo menos teremos dificultado as coisas para esse desgraçado”.  Foto da @walscaramella

Samyra Crespo ajuda a entender crise ambiental e sugere caminhos para seu enfrentamento

  Devorei Conta Quem Viveu, Escreve Quem Se Atreve (Editora CRV), da Samyra Crespo cujo tema, como diz a capa, são crônicas do meio ambiente no Brasil. Mas o livro traz muito mais do que isso: destrincha a trajetória de uma mulher que transitou pela academia, organizações da sociedade civil e governo, estudou, atuou e tenta entender a complexidade da crise ambiental e climática que vivenciamos. Samyra faz o que se propôs, se atreve a contar sob sua perspectiva a aventura do ambientalismo no país. E o faz bem e gostosamente. É uma delícia acompanhar, na primeira parte do relato, como sua trajetória pessoal – de mulher de classe média intelectual, que vivenciou talvez o melhor momento da Igreja Católica (cheguei a pegar a rabeira desse processo) –, a levou a se aproximar das questões relacionadas à ecologia e ao meio ambiente, a ponto de transformar a experiência em sua principal ideologia e militância. Para quem faz parte da ainda reduzida bolha que abraça e trabalha de verdade por essa causa, é um verdadeiro revival de uma história que parecia caminhar inexoravelmente, apesar das dificuldades, para um final feliz: o empoderamento da sociedade civil, a aproximação entre as militâncias ambientais e sociais, o surgimento das ONGs e do movimento socioambiental, o maior entendimento da ecologia pela Ciência, a criação das leis e da burocracia ambiental em todos os níveis de governo no Brasil e no mundo, a realização de grande eventos e pactos globais para dar rumo à rota desenfreada da humanidade e a conscientização da população. O monitoramento desta última parte, aliás, é uma das grandes colaborações de Samyra Crespo para a área. A série de pesquisas coordenada por ela, O que o Brasileiro Pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, com cinco edições em 20 anos, é uma importante referência sobre a evolução do tema no imaginário da população. Lembro de aguardar e cobrir o lançamento de várias edições da pesquisa e me encantar com a assertividade e otimismo daquela pesquisadora bonita que o apresentava. Aos que não são da “turma” do ambientalismo e ainda não conhecem (ou conhecem pouco) Samyra Crespo, sua trajetória é uma inspiração: pesquisadora em História da Ciência no Museu de Astronomia e Ciências Afins, do Ministério de Ciência e Tecnologia, atuou e dirigiu por vários anos o Instituto de Estudos da Religião (Iser), foi secretária de articulação do Ministério do Meio Ambiente e presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Hoje totalmente dedicada a seu ativismo, milita nas redes sociais e escreve para sites independentes. Aos que estão um tanto apavorados com os 2.000 campos de futebol por dia desmatados na Amazônia (18 árvores por segundo) e com os 40ºC de calor em Londres, a leitura da segunda parte do livro pode ajudar a entender conceitos, riscos e oportunidades para mudar a situação – ou, como diria Ailton Krenak, adiar o fim do mundo. Samyra consegue trazer, sem usar óculos cor de rosa, um pouco de otimismo e motivação para a luta. Na entrevista que me deu para o Mulheres Ativistas (no Conexão Planeta), em fevereiro de 2020, também fez uma conclamação ainda mais oportuna para os dias atuais: “Ambientalistas precisam ‘sair da bolha’ e se candidatar às eleições”. Estamos precisando muito!

Para Luiza

Estávamos na piscina com nossos gêmeos. Eu sentada na borda e Ricardo dentro d’água, que lhe chegava à cintura. Batíamos papo enquanto as crianças, em fila indiana, pulavam na água sob sua supervisão. Com a desenvoltura que dois anos a mais de idade dão às crianças, minhas meninas saltavam sozinhas e batiam pés e mãos desajeitados até a beira para voltar para a fila. Quando chegava a vez dos dele, Ricardo dava um passo à frente, segurava suas mãozinhas para o pulo e os colocava novamente para fora.  Mas Luiza não via justiça na independência das amigas. Do alto dos seus quase dois anos, quando chegava sua vez, encolhia os braços e repetia: “xozinha”. Sem repercussão para sua indignação, acabava cedendo e dava as mãos para não perder a vez. Estava, porém, visivelmente brava. Até que, em uma das rodadas, sem se voltar pra ela ou interromper nossa conversa, Ricardo não avançou para pegar Luiza. Incrédula, mas confiante, ela respirou e pulou.  Foram frações de segundo entre o salto e o resgate do pai, que, sem alarde, a suspendeu e levou até a borda. Qual pavão, ela se empinou orgulhosa e voltou para o fim na fila. Na próxima rodada, a pequena parou na beirada e esperou. De nossa parte, continuávamos o papo como se nada estivesse acontecendo, enquanto Luiza olhava um tanto sem-graça até não se segurar mais, estender os bracinhos e chamar: “papai”.