PaulistanaSP

Jovens ainda estão com pouca raiva

Greve dos estudantes pelo clima. Convidada a falar sobre mudança do clima e o governo Bolsonaro para alunos da Fundação Getulio Vargas nesta semana, me vi pensando que o Brasil nunca foi um país que desse muita importância para as questões ambientais, mas, aos trancos e barrancos, seguíamos em frente. Mesmo nos governos Dilma e Temer, nos quais o Ministério do Meio Ambiente (MMA) voltou a ser um tanto café com leite e houve retrocessos, havia diálogo e decoro em relação ao tema, com ministros e equipe realmente comprometidos. A diferença é que agora não contamos nem com as aparências, como bem mostrou o editorial da Folha de S. Paulo de ontem (Neurose ambiental, 25/3) e, pior, a resposta do “ministro do Meio Ambiente” (entre aspas mesmo, pois não o considero digno do cargo) Ricardo Salles, no Twitter (óbvio), dizendo que trata-se de “estratégia da esquerda militante”. Ver o governo federal tentar ligar uma área tão crucial à sobrevivência humana à uma questão ideológica com tanta vulgaridade me deixa desalentada. Ainda mais porque as evidências não batem mais à porta, mas entraram e estão mostrando a que vieram. As últimas notícias mostram que a temperatura média global ultrapassou 1º C em relação à era pré-industrial – após 1,5º C, a segurança climática, segundo o IPCC, estará muito mais ameaçada. Nove dos dez anos mais quentes registrados aconteceram desde 2005; 2018 foi o quarto ano mais quentes da história (perdeu para 2015, 2016 e 2017). Quem passou o último verão no Centro-Sul do Brasil, pôde sentir na pele as temperaturas até 9°C mais altas que a média histórica para o mês. Florianópolis teve a maior temperatura máxima já medida, 40°C (3 de janeiro), Rio de Janeiro teve o janeiro mais quente desde o início das medições, com 37,4°C de máxima média mensal, e Brasília teve seu terceiro janeiro mais seco de todos os tempos (perdeu para 1972 e 1999). Saindo no nosso mundinho, vimos ainda que as temperaturas na Austrália beiraram os 50º C e acompanhamos horrorizados o que o ciclone Idai causou em Moçambique e países vizinhos. No outro extremo, o meio-oeste estadunidense teve temperaturas de – 32º C, com sensação térmica de – 60º C, neste janeiro. Mas o que o frio tem a ver com o aquecimento global? Como o Ártico vem esquentando duas vezes mais rápido do que o resto do planeta no último século, o gelo marinho e a neve da Sibéria vêm recuando. Com isso, os ventos ficam mais lentos e o imenso “rio aéreo” formado por eles fica mais denso. Resultado: massa polar escapulindo para América do Norte, Europa e Rússia. Enquanto isso, vemos o presidente do Estados Unidos, Donald Trump, desdenhando o que está na cara, e seu discípulo aqui no Brasil, Jair Bolsonaro, dizendo amém. Isso é muito inquietante, porque medidas essenciais estão sendo adiadas e nossa janela de oportunidade para reagirmos à mudança do clima vai se fechando. O novo presidente do Brasil prometeu em campanha um enorme desmonte na área ambiental e tem cumprido com galhardia. A Medida Provisória 870/2019 e os decretos que reorganizaram estrutura do governo reduziu drasticamente as competências do Ministério do Meio Ambiente: ü  Combate ao desmatamento não está na lista de atribuições do MMA; ü  Praticamente extinguiu referências ao combate às mudanças climáticas na estrutura do MMA. ü  Secretaria de Mudança do Clima e Floresta deixou de existir. ü  Agência Nacional de Águas (ANA) passou para o Ministério do Desenvolvimento Regional. ü  Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e Cadastro Ambiental Rural (CAR) passaram para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). ü  Na estrutura do MMA, ficou apenas o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima. Além disso, ü  Mapa também passou a ser responsável pela oficialização de terras indígenas e quilombolas e outros temas fundiários, como a reforma agrária e regularização fundiária na Amazônia Legal e nos territórios tradicionais. ü  Itamaraty deixou de ter a Subsecretaria de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia e suas divisões de Clima, de Recursos Energéticos Novos e Renováveis e de Desenvolvimento Sustentável. A área ambiental passou para um departamento de uma nova secretaria de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania. ü  Não se sabe quem vai conduzir a política nacional e as negociações internacionais sobre mudança do clima, que eram competências do MMA e do Itamaraty. Essas medidas terão um impacto enorme em questões cruciais para o país. Em janeiro de 2019, a Amazônia Legal perdeu 108 km² de florestas, um aumento de 54% em comparação ao mesmo período do ano anterior segundo os dados divulgados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), parte disso já consequência da sinalização federal de que combater desmatamento não será prioridade. Só que a Amazônia atingiu 19% de sua área desmatada, enquanto estudos apontam 20% a 25% como ponto de não retorno, aquele em que a deterioração da floresta e a mudança climática na região será irreversível. Por isso, conter o desmatamento é o principal compromisso do Brasil com a Convenção do Clima em sua NDC (metas de redução de emissões de cada país). Sem contar os eventos extremos e suas consequências sociais e econômicas em todo o país… Além dos pobres – sempre as maiores vítimas em qualquer situação em qualquer lugar do mundo -, os maiores prejudicados com a negação da mudança climática são os jovens, para quem vai sobrar dar um jeito (o que for possível) no problema. A Greve Escolar pelo Clima, movimento liderado pela estudante sueca Greta Thumberg, de 16 anos, que mobilizou, no último dia 15 de março, mais de 1 milhão de crianças e jovens em 120 países para pressionar líderes políticos e empresariais a agirem, para que a mudança do clima não ameace o seus futuro foi um alento. No Brasil, houve manifestação em 18 locais, uma tímida fagulhazinha. Na ocasião, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a atual geração que comanda o mundo não conseguiu responder adequadamente ao desafio dramático das mudanças climáticas. “Isso é profundamente sentido pelos

Uma chance à poesia

Ilustração de Manoel de Barros. Sempre achei que um dos meus principais defeitos de nascença era a falta de gosto sincero pela poesia. Como uma pessoa que ama tanto ler não se identifica com um tipo de escrita tão nobre? Claro que, ao longo dos anos, me apaixonei por alguns sonetos de Camões, alguns poemas de Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade. Mas se for bem sincera, amor mesmo tenho pelo letrista e pelo cronista, os quais embalaram minha adolescência e ainda hoje me fazem parar o que estou fazendo para escutar uma música ou reler um crônica que vou descobrindo que já conhecia ao longo do texto. Confesso, ainda, que tive uma epifania quando viajei para o Chile com as casas de Pablo Neruda. Visitei as três e chego a sonhar com elas, sobretudo a de Isla Negra. Mas seus livros li sem a mesma emoção. O mesmo vale para Mário Quintana. A cada vez que passo no centro cultural que o homenageia em Porto Alegre me sinto leve e confortada, mas não me animo da mesma forma com seus livros. Não me lembro de chorar lendo um poema e me pergunto como isso pode acontecer, se chego a soluçar mergulhada em romances, biografias e até livros reportagens e ensaios. Já fiquei doente e com febre ao longo de um Kafta ou um Zola. Mas eis que passei para dar uma olhada na Ocupação Manoel de Barros, no Itaú Cultural (até 7 de abril), e me vi desejando mais e mais da infância, comunhão com a natureza e desfaçatez com as palavras, tão belamente modificadas para significar exatamente o que a imaginação do poeta quis dizer, que encontrei ali. Talvez seja a identificação com o tema, essa saudade que carrego de uma vida junto a rios, plantas e bichos que nunca tive. E aconteceu. Li e reli os versos da exposição e saí de lá com uma publicação que traz respostas dadas pelo escritor a entrevistas diversas. Como era esperado, esses pequenos textos, sobre os quais nem sabemos quais foram as perguntas, me encantaram ao ponto de não conseguir me separar deles. Não são poesia convencional, mas a prova de que Manoel de Barros pensa poeticamente, de maneira que é impossível separar homem e poeta, ao contrário de uma de suas mais constantes afirmações, de que não misturava o poeta com o fazendeiro. Se o fazia, era realmente bom nisso, e não deve ter deixado transparecer o fazendeiro em nada que fazia como poeta. Mas acho que são a mesma pessoa e que essa suposta repartição é fruto de sua confissão: “noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento é mentira”. Tudo isso para dizer que talvez esse meu defeito tenha cura, seja apenas uma imaturidade persistente, e que terei que voltar minha atenção com mais leveza e afinco aos versos em geral. E também para fazer uma homenagem torta ao Dia Mundial da Poesia, que só soube que era em 21 de março agora a pouco.    

Ligações aleatórias, de Jane Austen à distopia feminista

Imagem conhecida de Jane Austen. Poucas coisas são mais “mulherzinha” do que os livros de Jane Austen. E, no entanto, sou apaixonada por eles. Suas mulheres são fúteis, fofoqueiras, melodramáticas. Será? Escritos entre o final do século 18 e início do 19, quando a única ambição permitida ao sexo feminino no ambiente em que vivia (o que seria hoje uma classe média alta e rural na Inglaterra) era conseguir um bom casamento, me parece mais que eram inteligentes e pragmáticas. Afinal, em um mundo onde não tinham nenhuma voz ou direito, que melhor saída para uma contrariedade, na qual não tinham a mínima chance de fazer valer seu ponto de vista, do que desmaiar? Esse recurso é usado mais de uma vez no engraçado e trágico conto Amor e Amizade, que acabei de ler. Escrito quando Austen tinha apenas 15 anos, narra as desventuras econômicas e amorosas de Laura, que conta sua história por meio de cartas à filha de uma amiga, em um tom de ironia e tragicomédia que prenunciam a grande autora que se tornaria. Ironia maior, porém, é o fato da escritora ter usufruído pouquíssimo de seu sucesso. Seus livros publicados em vida não traziam sua assinatura e, como não se casou, viveu seus 41 anos dependendo financeiramente da família. Criada em uma época na qual feminismo ainda era uma vaguíssima ideia, Jane Austen faz de sua mais icônica personagem, Elizabeth Bennet (de Orgulho e Preconceito – minha personagem austeana favorita), uma mulher com valores fortes sobre não submissão, mas ainda assim muito realista sobre suas possibilidades. Se casar era a profissão feminina por excelência naquela sociedade, acho icônico o trecho em que Lizzy conhece na mansão de Darcy e pensa no que perdeu ao recusar seu pedido de casamento. Raciocina como uma mulher moderna que recusou uma oferta de emprego por questões éticas, mas têm consciência de que dificilmente terá outra oportunidade igual. Tão surpreendente quanto a ironia de Austen em seu tempo, para mim, foi ler a primeira distopia feminista que já vi. Em Lola pela Manhã, conto também escrito por uma mulher (Karin Hueck, no livro Realidade Alternativa – 24 contos além da imaginação, coletânea da revista SuperInteressante, da Abril), a autora descreve um mundo comandado por mulheres, no qual as líderes decidiram manter uma porcentagem estável de homens de 15% da população. “A ideia era usá-los para a procriação, mas preservar a liberdade dos sobreviventes. Mesmo em minoria, seguiram responsáveis por oito em cada dez dos crimes violentos registrados”. A solução, então, foi confiná-los em campos de concentração, nos quais mantêm suas atividades vigiados de longe, com um mínimo de intervenção. Assim, em uma singela partida de futebol, por exemplo, torcidas adversárias deixadas à própria sorte e instinto deixam um saldo de 17 mortos. Fora dos ambientes masculinos confinados, os índices de criminalidade caíram a quase zero. Acidentes de trânsito viraram notícia. Mulheres que querem sexo ou ter filhas (há seleção genética e só nascem homens quando é preciso repor), podem entrar e escolher parceiros. Mas, passadas algumas gerações, a maior parte das mulheres prefere mesmo relacionamentos lésbicos. Tive acessos de riso com esse The Handmaid’s Tale ao contrário, mesmo com o final surpreendente e pretensamente enigmático.

À procura da razão, contra a barbárie

Orquídea do jardim, para lembrar que há muita coisa boa e linda. Desde o final do ano passado tenho feito uma peregrinação voltada a entender o que está acontecendo no país. Isso inclui ler muitos artigos, ter engulhos nas redes sociais, fazer cursos e me refugiar na arte, sobretudo exposições e literatura. Tento achar onde nos perdemos e, a cada instante, me convenço de que nunca nos encontramos realmente, como povo, como nação, como cidadãos. Mas já tivemos dias muito melhores. Em mais uma dessas tentativas de busca, me inscrevi no curso Obras Abertas: História Sincrônica da Literatura, na Casa Guilherme de Almeida. Ontem (13/3), na primeira aula, o escritor e professor Flávio Ricardo Vassolar, por conta do massacre na escola de Suzano, escolheu um texto – já previsto na grade – de Amós Oz (do livro Como curar um fanático, Companhia das Letras, 2018). Para Vassolar, tragédias como essa tendem a se repetir por um fenômeno que chama de “narcisismo necrófilo”. Em uma sociedade onde todos buscam o sucesso a qualquer custo, tendemos a nos ocupar apenas dos vencedores, seja porque são lindos, são atletas, são ricos ou bem-sucedidos, mesmo que apenas nas redes sociais. Mas quem está de fora dessas categorias também se acha merecedor de seus 5 minutos de fama, nem que, para tanto, precise matar e morrer. O narciso, assim, se torna também um fanático pela morte. No artigo Narciso gosta de se mutilar – De ‘Crise e castigo’ a crimes sem castigo, Vassoler assinala que “…se observamos o padrão de comportamento dos atiradores civis, desde o massacre na Columbine High School, no Colorado (EUA), em abril de 1999, passando pelo massacre do Realengo, ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, na cidade do Rio de Janeiro, em abril de 2011, até chegarmos ao mais recente caso na Parkland High School, na Flórida (EUA), no dia 14 de fevereiro de 2018 (apenas para citarmos três entre as várias tragédias ocorridas), descobriremos que há uma profunda fusão entre winners e losers, vida e morte. Os atiradores escolares tendem a apresentar o perfil dos nerds que, supostamente (e não mais do que supostamente), não se importam em ser postos em ostracismo. (…) em alguns casos (…), o profundo ressentimento opera como um propulsor que, no limite, pretende transformar o loser em winner, o coadjuvante em herói, por meio de uma vingança viril que, ao mesmo tempo, lance mão do martírio como derradeira exposição narcísica”. Incentivados por uma cultura de violência – que hoje parece, inclusive, ser política de Estado -, narcisos necrófilos tentem a se tornar fanáticos – frutos de uma “inutilidade banal”, como define Vassoler, parafraseando a “banalidade do mal” de Hannah Arendt. Em que pese o pessimismo que a situação enseje, entre os antídotos sugeridos para desmobilizar os fanáticos que infestam a sociedade (travestidos não apenas de adolescentes losers, mas de milicianos, políticos, religiosos e afins) pelo grande escritor israelense Amós Oz, estão o humor e a curiosidade: “Fanáticos não têm sendo de humor e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas”. É na literatura, e na arte em geral, que Oz deposita suas melhores apostas para instigar a curiosidade dos fanáticos – a mesma arte que vemos atualmente (e sempre que fanáticos encontram o poder) como um dos principais alvos de perseguição. Sobre o humor, me vem à cabeça a fúria destilada pela turba governista e asseclas contra o ator José de Abreu, que brinca nas redes sociais ser “presidente autoproclamado do Brasil”. Vi também essa falta de leveza em algumas pessoas sensatas, que pareceram levar a sério a brincadeira ou reclamam do deboche como a dizer que o momento pede mais seriedade. Um artigo que li no Facebook, da psicóloga Rita Almeida, abordando justamente o case José de Abreu, traz essa ideia o uso do humor como instrumento desconstrutor com a qual tendo a concordar (embora, reconheço, com muita dificuldade em utilizar). Para ela, “se não é possível desmontar um delírio, é possível desconstruí-lo pouco a pouco, parte por parte. Fazer pequenos furos, abalar algumas verdades, duvidar, perguntar, são algumas das estratégias que utilizamos para ir minando a certeza do sujeito delirante, fazendo-o enxergar outras possibilidades. E é muito importante que ele encontre outras possibilidades, caso contrário, voltará para sua certeza delirante, que ao menos lhe assegura um lugar”. A mesma ideia norteia o documentário Tá rindo de quê? (Brasil, direção Claudio Manoel, Álvaro Campos e Alê Braga, 2018), que estava em cartaz em São Paulo até a semana passada. O filme mostra como o humor foi usado por artistas como resistência durante a brutalidade e truculência da ditadura militar no Brasil e como foram ameaçados e perseguidos por isso. Claro que uma tragédia como a de ontem em Suzano não suscita, nem poderia, nenhuma dose de humor. Mas para evitar que ideias até pouco tempo impensáveis, como professores armados como solução para casos como esses, sejam sequer cogitadas, precisamos pensar cada vez mais em como garantir que a razão prevaleça à barbárie.

Michelle Obama, a história de uma mulher incomum

Reunião do CFL, fevereiro de 2019. Começar o ano do Círculo Feminino de Leitura (CFL) com Minha História, de Michelle Obama, foi uma oportunidade para nos conectarmos ainda mais com o feminino e a necessidade urgente do diálogo, daquele em que feridas podem ser expostas, mas o objetivo é a cura, não torcer pela infecção. A escolha pela autobiografia de uma mulher forte, atualmente uma das mais influentes do mundo, propiciou um sentimento de identificação com seus valores e admiração por sua força e capacidade de não perder a humanidade, mesmo no centro do poder mundial. Claro que uma autobiografia tem um que de edulcoração, mas Michelle consegue transmitir sinceridades em seus questionamentos sobre seu papel de mulher, de mãe, de profissional, sobre as dificuldades das escolhas e como assumi-las com responsabilidade. O longo e detalhado relato de sua vida desde a infância mostra a construção de sua personalidade e capacidades a partir da família e da realidade em que cresceu, contando com uma mãe dedicada a não deixar que o determinismo de viver em um bairro decadente e em uma comunidade discriminada impedissem o potencial de seus filhos. Inteligente, bonita e segura de si, Michelle foi atrás e não deixou escapar nenhuma oportunidade. Passou por cima de tudo que poderia desencorajá-la – como a coordenadora da escola que achava que as melhores universidades não eram para ela -, sem perder a noção de foi uma exceção. Por isso, quando chegou lá, optou por lutar pelo empoderamento de mais pessoas. Uma das causas mais interessantes abraçadas por ela é o de mentoria de jovens provenientes de minorias e comunidades carentes – principalmente meninas -, para que desenvolvam suas capacidades. Michelle teve sorte em encontrar Barak Obama em seu caminho, mas tem luz própria e sua história teria sido igualmente significativa sem ele. Como casal, parece que se completaram e o sucesso de ambos está bastante ligado. Todo o relato sobre a ascensão de sua família para a posição central no maior olimpo mundial é narrado sem disfarçar o deslumbramento que o fato enseja, mas mantendo o foco na realidade, na efemeridade e, sobretudo, buscando as oportunidades que poderia ensejar. Competente, soube eleger suas prioridades como primeira dama dos Estados Unidos dentro do papel que lhe cabia. Não esconde, em nenhum momento, a dificuldade em conciliar essa vida cheia de poder, glamour, mas também restrições, com o papel de mãe, desafio para qualquer mulher, seja qual for sua posição social ou geográfica, no mundo. Chama a atenção, ainda, a capacidade de indignação, que não se perdeu em desculpas de quem assume o poder e tende a minimizar os problemas. Michelle mostra isso quando se comove com as tragédias que acontecem durante o governo de seu marido, como os massacres gratuitos, que são quase uma rotina naquela sociedade que endeusa armas, ou quando manifesta seu desconforto com a comemoração nas ruas da morte de Osama Bin Laden, mesmo tendo sido uma vitória política para seu marido. Também não disfarça sua decepção (e até certo ponto atordoamento) com a eleição de Donald Trump e com o retrocesso que representou. Ao final da jornada como primeira dama – já que possivelmente não desistirá de continuar sua busca por grandes causas -, ela diz que é “uma pessoa comum que se viu numa jornada extraordinária”. Infelizmente, pois precisaríamos de infinitas mais como ela, Michelle não é, absolutamente, comum.

Por que aceitamos complacentes o lixo boiando no Tietê?

Lixo de todo tipo boiando no rio Tietê, São Paulo Artigo publicado na Ilustríssima do último domingo (O Brasil contra si mesmo, FSP, 17/2), do sociólogo Zander Navarro, defende que a complacência* é a característica que define o brasileiro. Mesmo sem concordar com todas as afirmações do autor para justificar sua afirmação, tendo a concordar que faz sentido. Só mesmo muita complacência diante do poder público, das indústrias e de nós mesmos justifica – entre tantas e tantas outras coisas – assistirmos à cena do rio Tietê totalmente tomado por lixo (sobretudo garrafas pets) neste fim-de-semana em Salto. Meu amigo Rodrigo Agostinho (agora deputado federal) me diz, no Facebook, que parte da sujeira chegou em Barra Bonita e a mancha de poluição já está em Sabino. O que, se não muita complacência, pode justificar que o principal rio do estado mais rico do país, cujo processo de despoluição começou há mais de 20 anos, consumindo bilhões e bilhões de investimentos, apresente uma cena tão triste, digna do pior subdesenvolvimento no mundo? É como se todos os governantes que passaram por aqui rissem na cara de cada um de nós e achássemos normal. Parece mentira que o país tenha uma Política Nacional de Resíduos Sólidos desde 2010 (Lei nº 12.305/10) e o lixo continue a correr solto em todos os cantos possíveis, das equinas e praças das cidades, terrenos baldios, rios e oceano. Somos tão indiferentes a isso que o assunto sequer entra em debates nas campanhas eleitorais (nem nas municipais). A passividade é tanta, que as pessoas nem ficam constrangidas em atirar lixo das janelas de seus carros nas ruas. Engravatados e madames em carrões atirando bitucas de cigarro sem nenhuma cerimônia é uma constante (não apenas eles, mas, afinal, é a elite que temos…). Sem contar a pasmaceira diante da imundície das ruas após qualquer evento (está aí o Carnaval chegando para não me deixar mentir) ou das praias, mesmo as de “bacanas”, após um dia de sol. A questão é que, diferentemente da poluição do ar ou mesmo dos esgotos que empesteiam nossas águas, o lixo é visível a olho nu e, mesmo assim, conseguimos abstrair. Se isso não incomoda, se fingimos não ver o que está na nossa cara, qual a esperança de que as demais formas de poluição (e outros grandes problemas), que demandam mais investimentos e mudanças estruturais, sejam algum dia enfrentadas? Enquanto formos complacentes com o poder público (“ele é incompetente mesmo”), com as indústrias (“afinal, por que o capital deveria se responsabilizar pelo lixo que produziu? Pobrezinho, teria que repassar custos para o consumidor, que pagaria mais pelos produtos, sobretudo os produtos de primeiríssima necessidade que são vendidos dentro de garrafas pet!”) e conosco mesmos (“o que posso fazer se não há coleta seletiva na minha rua, ou se o horário da coleta é em um horário muito ruim, ou o que pode significar um bituquinha de cigarro ou uma garrafinha de água a mais da rua, quer que meu carro fique abarrotado de lixo?”) nada vai mudar. Diante de tantas demandas, porém, por que a sujeira literal deveria ser prioridade? Também não sei, mas deixar a tarefa de limpar praças, ruas, rios e oceano apenas nas mãos de voluntários abnegados, que enxugam gelo em seus finais de semana, não nos levará longe. *Complacência, no dicionário, é a disposição habitual para corresponder aos desejos ou gostos de outrem com a intenção de ser-lhe agradável. Para o autor do artigo da Ilustríssima, significa “atitude passiva de subordinação acrítica e frouxidão valorativa dos indivíduos, em contextos variados e em todos os estratos sociais”.

Vale: após os dois desastres, haverá algum aprendizado?

Bento Rodrigues, Mariana (MG) O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho me pegou no início da leitura do livro Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil, da jornalista Cristina Serra, um dos melhores livros-reportagens que já li. Com uma narrativa em primeira pessoa, Cristina nos leva para dentro do horror que foi o rompimento da barragem da Samarco (empresa da mesma Vale, em sociedade paritária com a australiana BHP Billiton) junto com ela, que chegou ao local poucos dias depois do fatídico 5 de novembro de 2015 como repórter do Fantástico, da TV Globo. Com o seu olhar humano, voltado logo de cara para as vítimas da tragédia, vamos nos comovendo com o que aconteceu. Sentimos junto com ela a compaixão pelos mortos, por seus familiares e amigos, pelos que perderam tudo o que tinham. E vamos nos indignando com a maneira como estas pessoas foram tratadas antes (não foram informadas dos riscos, não receberam instruções ou avisos) e depois da tragédia (suas casas destruídas ou deixadas ao léu para serem saqueadas, não foram indenizadas nem receberam novas casas permanentes três anos depois etc. etc. etc.). Cristina quis que as histórias de cada um dos 19 mortos fosse contada, para que não se perdesse a dimensão humana do que aconteceu (será que a história dos mais de 300 desta nova tragédia também será contada assim?) e que os heróis que impediram que a calamidade fosse ainda maior fossem reconhecidos. Paula Geralda Alves, a funcionária de uma terceirizada da Vale que, com a lama atrás de si, vai até o vilarejo de Bento Rodrigues em sua moto para salvar a mãe e o filho e não sai de lá antes de avisar a todos os moradores, mereceria, por si só, ter um filme sobre ela. Mais do que o impacto ambiental, cuja dimensão estamos longe de poder compreender e que nunca será sanado – o Rio Doce nunca mais será o mesmo -, são as pessoas impactadas que realmente nos fazem ver como nossas estruturas são frágeis e, no fim, os interesses empresariais tendem a prevalecer. O que pode justificar, por exemplo, que em três anos uma empresa que constrói barragens imensas e tritura montanhas inteiras vorazmente e em pouquíssimo tempo não tenha conseguido entregar as novas moradias para os que foram desalojados? Como explicar que lute para não precisar indenizar pessoas que trabalhavam nas praias próximas a foz do rio Doce, justificando que não tinham vínculo legal provando seus empregos? O livro traz muitas e muitas dessas histórias nos mais de 600 quilômetros percorridos pela lama. O estômago remói, porém, quando se lê com atenção as minuciosas páginas nas quais as questões técnicas da tragédia são contadas, com a sucessão de prepotência, pouco caso e incompetência que marcam a atuação da empresa. Um exemplo quase singelo, diante de tudo, é que, mesmo com a bomba relógio que era a barragem de Fundão, a exíguos 8 quilômetros de Bento Rodrigues, a empresa pretendia construir uma nova barragem a 1,2 quilômetro da localidade. Para tanto, já tinha projeto e encomendou uma pesquisa detalhada sobre a comunidade e seus moradores, para avaliar como seria (em termos de custos e convencimento) removê-los de lá, sem, em nenhum momento, dizer aquelas pessoas o que estava acontecendo. Foi muito difícil continuar a ler o livro (que é gigante, com suas 462 páginas) acompanhando, ao mesmo tempo, o desenrolar das notícias de Brumadinho, mas acho que deveria ser leitura obrigatória, sobretudo para jornalistas e engenheiros de qualquer área. Se tivesse lido antes da nova tragédia, porém, já estaria preparada e não me surpreenderia, pois a conclusão óbvia (e explicitada por especialistas e promotores entrevistados) é que só não se tinha a data e o local exato, mas a maneira como as coisas foram tratadas pelas empresas e pelas autoridades (governos de todas as instâncias) só poderia desembocar em novos desastres. Entre os fatores mais gritantes, a impunidade é talvez o que mais salta aos olhos e é o que deixa tranquilos todos os envolvidos na cadeia da mineração. Saber que, após Mariana, o lobby das empresas continuou e foi exitoso para abrandar as exigências para o licenciamento ambiental das barragens, que os promotores que investigavam o caso foram afastados, que a sociedade civil não teve voz em nenhuma das ações de remediação, são alguns dos fatores que anunciam as novas desgraças. Por isso, achei muito feliz o nome do evento realizado ontem (14/02), no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), Brumadinho pós-Mariana: lições não aprendidas, embora as informações e conclusões dos pesquisadores sobre as causas do desastre, sucessão e reincidência de falhas, exclusão social e vulnerabilidade das barragens sejam uma imensa infelicidade. O Brasil é um lugar renitente em não aprender com seus erros e fazer de tudo para manter tudo igual. Se comove com a desgraça alheia por alguns dias, mas logo depois tudo volta a ser como antes. As mentes e corações costumam vibrar mais forte para o mercado e o capital. Não demora nada para a sociedade esquecer o drama dos milhares de atingidos e voltar a se preocupar com o impacto do preço da Vale na Bolsa de Valores e a tachar o Movimento dos Atingidos por Barragem, que está lá dando apoio a mais essas vítimas, de baderneiro, que é como o establishment atual (mais acintosamente) vê os movimentos sociais. É por saber disso que o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, já se sente à vontade para dizer que a empresa é uma “joia que não pode ser condenada pelo rompimento da barragem” e não se digna, nem por hipocrisia, a se levantar para homenagear os mais de 300 mortos pela lama de sua empresa, durante a audiência na Câmara dos Deputados.

Ver os Yanomami através de Claudia Anjudar é exercitar a compaixão

Como uma principiante, perdi a exposição do Weiwei na Oca. Coisa de paulistana que, ao ver que uma mostra ficará bastante tempo em cartaz, vai adiando, esperando o final do trânsito do fim do ano, as férias e, quando resolve que chegou o dia, descobre que acabou. Fiz diferente com a Claudia Andujar e fui correndo ver A Luta Yanomami, no Instituto Moreira Salles, assim que voltei do Ano Novo, mesmo que a mostra vá até 7 de abril. Aconselho a todos que façam o mesmo. Deixar para a última hora é um risco desnecessário e essa exposição merece muito ser vista. E não apenas pela beleza das fotos de Andujar e dos próprios Yanomami, que são mais do que suficientes. Mas, em uma época de trevas, como a que vivemos neste início de 2019 (acho que é por isso que só agora, quase meados de fevereiro, consegui escrever sobre o tema), se abstrair de procurar se informar é um ato de covardia atroz. Conhecer os Yanomami sob o olhar desta grande fotógrafa e ativista, que escapou com a mãe da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto sua família paterna, judaica, foi morta nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau, é exercitar a compaixão e, quem sabe, entender que Direitos Humanos é uma causa de todos para todos. Se, ao ver as fotos daquelas pessoas numeradas na Amazônia – mesmo que por conta da causa nobre de receberem tratamento médico -, você não se emocionar e lembrar das outras dos campos de concentração; ou assistir ao vídeo que é um apelo contra o extermínio desse povo e não ficar incomodadx, aconselho a visitar a mostra mais uma vez e ler todos os textos do Davi Kopenawa que acompanham boa parte das fotos expostas. Esses textos, tenho quase certeza, foram tirados do livro A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami (Companhia das Letras), no qual o antropólogo Bruce Albert transcreve praticamente literalmente as palavras de Davi Kopenawa contando sua história de iniciação ao xamanismo e como ele e seu povo viram e viveram o contato com o homem branco. É um raro relato em primeira pessoa do avanço dos brancos pela floresta e seu rastro de epidemias, violência e destruição narrado pelo lado de um índio. Poucas vezes me senti tão envergonhada de fazer parte desta ‘civilização’ brasileira quanto lendo este livro. Ver nossa cultura e valores por olhos indígenas foi uma experiência, no mínimo, triste. Apenas um exemplo que me marcou muito (li o livro em 2015, logo que foi lançado): para os Yanomami, visitas são muito importantes. Se um visitante chega à sua casa – seja um parente, um amigo ou um branco -, receberá o melhor tratamento possível e será presenteado com o que tem de melhor. Se tiver dois colares, dará o mais bonito para sua visita, e assim por diante. Quando os pastores evangélicos começaram a chegar e se instalar próximos às aldeias (Oh! Onde será que escutamos história parecida hoje em dia!?!?!), trouxeram muitos utensílios, como panelas, por exemplo, em quantidades muito maiores do que precisavam. Os índios, encantados, pediam se podiam ficar com alguma delas e a resposta era invariavelmente não (afinal, panelas são propriedades). Alguns deles ficavam indignados – pois isso ia completamente contra sua cultura e, lembremos, estavam na terra deles – e pegavam uma panela. E, surpresa, eram acusados de ladrões. Nem vou entrar nas doenças que essa gente “de deus” levou para as aldeias, porque tenho gasto muito minhas lágrimas ultimamente. Enfim, para quem acha que índio é um entrave ao progresso da nação, que a Amazônia está lá para dificultar a criação de gado e a mineração, e que Chico Mendes é irrelevante, visite a exposição porque o Instituto Moreira Salles é muito chique, tem um ótimo café e um restaurante descolado. E aproveita para ver a exposição Millôr: Obra Gráfica (esta, só vai até dia 24 de fevereiro). Se a visão da nossa pequenez pelos olhos do grande cartunista também não sensibilizar, melhor mesmo é procurar Jesus na goiabeira…

Minhocão, do tico-tico aos murais

O primeiro lugar em que morei foi um apartamento na Bela Vista, na rua Martinho Prado, no prédio onde funcionou por muitos anos o Ferro’s Bar, primeiro ponto de encontro de mulheres gays na cidade. Claro que eu não sabia disso, já que me mudei de lá aos cinco anos. Segundo o jornalista Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo[M1] , até 1964, ano em que nasci e em que houve o golpe militar, o bar era frequentado por militantes comunistas, mas com as perseguições que se seguiram passou a ser ocupado pelas lésbicas. A repressão ao local continuou, como se pode imaginar, mas era de outra natureza[M2]  e não é essa história que eu queria contar. Falando do que me lembro sobre esse meu primeiro endereço, meu parquinho era a praça Roosevelt e, este é o ponto, andava de tico-tico (para quem sabe o que é isso) no Minhocão, enquanto estava sendo construído. Acho que meu pai me levava lá nos fins de semana, quando não havia obras (nem sei se aconteceu mais de uma vez), mas é uma imagem que nunca esqueci. Já não morava no Centro quando o elevado foi inaugurado, em 1971, mas é um local que, de um jeito ou de outro, fez parte da minha vida. Seja por passar muito perto do apartamento dos meus tios, na rua Barão de Campinas, em Santa Cecília, quando eu e minhas primas, mesmo novinhas, circulávamos pelas ruas muito tranquilamente e íamos até a Igreja de Santa Cecília ver a imagem da santa e confabular se era verdade que os cabelos dela continuavam crescendo, seja bem mais tarde quando se tornou meu caminho diário. Foram incontáveis horas parada em seus congestionamentos, pelos menos dois espelhos de carro levados por motoqueiros e, em raras oportunidades, algumas tomadas de curva, numa época em que regras de trânsito e noção de perigo ainda não tinham sido inventadas por aqui. Foi por esses tempos que comecei a acompanhar, como repórter de cidades, as discussões sobre a degradação no entorno atual elevado Presidente João Goulart (cuja alcunha ainda era Costa e Silva) e a possibilidade de impor limites ao tráfego de automóveis e, quem sabe, um dia, até implodir a coisa. Ainda em fins do século passado, eram discussões que – apesar de me deixarem animada – pareciam meio surreais, de tão impossíveis. Os anos passaram e os limites ao tráfego vêm se efetivando lentamente e hoje até parece natural pensar em um Minhocão totalmente sem carros. Com a criação do Parque Municipal do Minhocão, no início deste ano, há uma previsão (sem data determinada) de desativação gradativa do elevado para o trânsito. Atualmente, fecha nos finais de semana e de segunda a sexta-feira entre 20 e 7 horas da manhã. Gosto da ideia do parque. Até acredito que a cidade ficaria mais bonita sem o elevado – e que talvez essa seja a alternativa defendida pelos moradores do entorno. Mas acho que as cidades têm uma história que precisa ser de alguma forma preservada. Além disso, faltam espaços públicos em São Paulo. Ter os 2,8 km de pistas abertas a pedestres e ciclistas me parece razão suficiente para manter o viaduto. Costumo passear por lá algumas vezes por ano. É um trajeto mais do que tudo afetivo, mas também uma oportunidade de vivenciar a metrópole por um ângulo diferente e também olhar os belos murais das empenas cegas dos prédios – tanto os grafites quanto as incríveis paredes verdes. E as pessoas fotografando, atividade que mais vejo as pessoas fazendo por lá, o que mostra que a obra mais bizarra da cidade também pode ser fotogênica.  [M1]https://blogdaboitempo.com.br/2013/05/08/de-bar-em-bar-xxiv-ferros-bar/  [M2]https://vangeleonel.blogspot.com/2008/09/revolta-do-ferros-bar.html Foto: Minhocão em um sábado de sol.

Sandubas tradicionais paulistanos são para os fortes

Há pelo menos três sanduíches tradicionais paulistanos: o Bauru do Ponto Chic, o de mortadela do Mercado Municipal e o de pernil do Estadão. Todos são deliciosos, todos têm por base o pão francês – típico da cidade -, todos são exagerados. Isso significa que é praticamente impossível comer sem se lambuzar e devorá-los por inteiro é para os fortes. O Bauru do Ponto Chic, diz a lenda, foi criado nos anos 1930 por um dos alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco que frequentavam o bar no Largo do Paissandu, cujo apelido era o nome de sua cidade natal e acabou batizando também o sanduba. Embora se possa comer bauru em qualquer padaria paulistana – sanduíche caracterizado por ser um misto quente (queijo e presunto) com tomate -, o do Ponto Chic é muito mais incrementado: inúmeras fatias de rosbife, tomate em rodelas, pepino em conserva e uma mistura de quatro tipos de queijos fundidos em banho-maria (prato, estepe, gouda e suíço). Hoje pode ser encontrado nas três lojas do bar, além da do Paissandu, também em Perdizes e no Paraíso. Dos mesmos anos 1930, o famoso sanduíche do Bar do Mané é atração turística no Mercadão, no centro da cidade. É recheado com cerca de 300 gramas de mortadela da marca Ceratti. Para quem acha que é pouco, pode acrescentar queijo prato, alface e tomate. É tanta mortadela, que é quase impraticável segurar o gajo. O Bar Estadão tem esse nome por estar localizado no Viaduto 9 de Julho, ao lado da antiga sede do jornal O Estado de S. Paulo. Desde o final dos anos 1960, foi ponto de encontro de políticos, jornalistas e intelectuais e continua atraindo o mais variado tipo de público, disposto a comer no balcão seu famoso sanduíche de pernil com um molho feito com cebola, tomate e pimentão. Aqui também pode ser acrescentado queijo, conforme a preferência do freguês. O melhor é que o bar fica aberto 24 horas, o que significa que não há limitação de horário para matar a fome. Experimentar esses sandubas é obrigatório para quem gosta de tradições e não se importa de enfiar o pé na jaca. Se pudesse dar um conselho para seus diletos vendedores, apenas sugeriria que criassem versões mais de acordo com os padrões menos glutões atuais, para satisfazer quem quer ter esse prazer sem deixar parte da comida no prato. Foto: No Estadão, lutando entre a razão e a gulodice.