Literatura que vem da África será destaque na Flip
O que uma mulher, que se sente inadequada com seu corpo – e carrega esse peso real e metafórico – por toda a sua vida, tem em comum com outra mulher, que se sente insatisfeita no papel de mãe e se apoia em uma babá para se realizar profissionalmente, e essas duas com um porco-espinho condenado a ser o duplo de um humano e fazer maldades em seu lugar? Aparentemente nada, a não ser o fato de serem personagens de três livros escritos por autores nascidos na África e revelados para a literatura na Europa. Isabela Figueiredo, autora de A Gorda, é moçambicana, filha de portugueses, e se mudou para Portugal após a independência da colônia; Leila Slimani, autora do best-seller Canção de Ninar, nasceu no Marrocos e vive na França; Alain Mabanckou, autor de Memórias de Porco-espinho, é natural da República do Congo, despontou para a literatura na França e hoje mora nos Estados Unidos. Os três estão entre os escritores convidados da próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 25 e 29 de julho, e por isso foram tema da última reunião do nosso Círculo Feminino de Leitura (CFL), na semana passada. Estamos nos preparando para comemorar neste evento os 10 anos desse grupo de mulheres leitoras. Na bagagem, levaremos também a leitura de O Caderno Rosa de Lori Lamby, da autora homenageada Hilda Hilst, e dos também africanos/europeus Djaimilia Pereira de Almeida (Esse Cabelo – A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras) e André Aciman (Me chame pelo seu nome). Não sei se essa seleção foi proposital, mas esse mergulho na Flip nos proporcionou um contato inesperado com escritoras e escritores africanos, que eram franca minoria na nossa relação de mais de 130 obras lidas desde o início do CFL. O fato de nenhum deles ainda viver na África ou ter ficado conhecido a partir de lá é um indicativo de que o problema não deve ser falta de talentos, mas oportunidades, naquele imenso e populoso continente. Autores brasileiros devem entender do que estou falando. Com temas e estilos tão diferentes, todos esses livros são ótimos e renderam debates incríveis. Com A Gorda, romance de pitadas autobiográficas, vimos uma mulher em permanente luta contra o abandono – da terra natal, dos pais – que permaneceram ainda por muito anos em Moçambique antes de também retornarem a Portugal -, da melhor amiga, do amor da sua vida. A fome de amor se traduz em uma fome real, que define seu corpo e sua história, de modo que já não é possível saber o que é causa e o que é consequência. Logo no início, nos conta que perdeu 40 quilos com uma gastrectomia, mas foi uma meia-solução: “Ainda penso como gorda. Serei sempre uma gorda. Sei que o mundo das pessoas normais não é para mim”. Fugir ao padrão de beleza feminino é uma carga tão grande para Maria Luiza, a protagonista do romance, que se torna a questão central em sua vida, eclipsando tudo o que ela apenas sugere – e que se torna mero pano de fundo em sua trajetória -, que é ser uma intelectual brilhante e reconhecida. Ser marginalizada na escola, preterida no baile de formatura, rejeitada pelo namorado, que tinha vergonha dela, criticada pela mãe, são questões que nem a conquista de um novo corpo tem a capacidade de apagar. Em Canção de Ninar, mais uma vez, nos deparamos com as limitações impostas às mulheres e nos identificamos com aquela jovem advogada que se torna mãe e vê todo o seu potencial se perder em uma rotina nada estimulante, enquanto o marido ascende profissionalmente. Mesmo quando decide contratar uma babá para poder voltar ao trabalho, recebe um apoio relutante do marido, que, em nenhum momento, mesmo quando as coisas claramente estão se tornando problemáticas, assume um papel igualitário na responsabilidade pelos filhos. O mote da história, com a babá sendo uma psicopata que mata as crianças, parece gritar que essa mãe fez a opção errada, que foi egoísta. A autora estressa uma culpa tão conhecida por mães de classe média brasileiras: culpa por trabalhar não apenas por questões financeiras, mas também por realização e ambições pessoais; culpa por não serem mães perfeitas e não estarem presentes sempre que os filhos precisam – produzindo com isso uma geração de crianças mimadas e sem limites, num processo de compensação ilimitado; culpa, para algumas, por sublocar, por valores que sabe serem irrisórios, seus filhos a outras mulheres que, nesse caso por necessidade de sobrevivência, muitas vezes abrem mão de cuidar de seus próprios filhos para se dedicar ao de outras, num círculo vicioso de frustrações. Parece que Slimani está gritando que esta é uma questão não resolvida na nossa sociedade e que precisamos falar mais e mais sobre isso. Ao dar voz ao irônico porco-espinho, Mabanckou também está jogando na cara dos humanos – que chama de primos dos macacos – o quando essa espécie que domina o planeta é pretenciosa e age sem nenhuma razoabilidade. Obrigado a realizar tarefas maléficas de seu senhor, movidas sempre por motivos torpes, como ciúme, inveja, vingança, o duplo nocivo se questiona: “quem entre o Homem e o animal é verdadeiramente uma besta? Vasta questão!” Fotos: Livros e mimos da reunião do CFL de julho e nossas discussões, tudo fotografado pela Wal.
Agrotóxico é veneno, não adianta maquiar o nome
Já entrevistei muito agricultor na vida e nunca vi nenhum chamar agrotóxico de defensivo agrícola. Para eles, a coisa chama veneno mesmo. Isso significa que agrotóxico já é o nome bonzinho para um produto desenvolvido para matar – insetos, plantas invasoras e outras “pragas” que podem atacar a plantação. O grande desafio no uso desses venenos é dosar a quantidade para que mate o que atrapalha sem destruir a cultura que se quer proteger. Para os fabricante, se prejudica a saúde do agricultor (ou do consumidor), é um detalhe bem ilustrado pela luta empreendida pelas empresas produtoras desses químicos contra toda legislação que tenta restringi-los. Ao invés de procurar fazer que seus produtos sejam cada vez menos tóxicos, em geral, a indústria prefere investir em propaganda ou no desenvolvimento de espécies resistentes ao veneno, seja pelo processo da seleção natural, seja via transgênicos. Esse é o caso do defensivo Roundup, nome comercial de um herbicida fabricado pela Monsanto cujo princípio ativo é o glifosato, conhecido por contaminar alimentos, atmosfera, solo e lençol freático, podendo causar intoxicação humana mesmo quando consumido em baixas doses. É tão forte que causava a morte da soja que tentava “proteger”. A solução foi criar uma soja transgênica resistente ao produto, que pode tomar banho com ele à vontade. Já os rios, o solo, os animais que se alimentam da soja (inclusive os humanos que a consomem direta ou indiretamente) são só o “detalhe”. Não é à toa que essa indústria também luta ferozmente para que não se tenha a obrigação de avisar nas embalagens dos alimentos que eles têm origem transgênica. São questões como essas que estão em jogo na votação, que se desenrolou ao longo desta semana na Câmara Federal, do chamado Pacote do Veneno, voltado a flexibilizar ainda mais a legislação dos agrotóxicos no país, que já é uma das mais tolerantes. O Brasil é o país onde mais se consomem esses agroquímicos no mundo e onde são permitidos produtos há tempos proibidos na Comunicada Europeia e nos Estados Unidos. A pior parte desse pacote nem é a questão do nome da coisa, que no projeto final que está em discussão ficou como “pesticida” (a contratação do publicitário mais famoso do país pela Confederação Nacional de Agricultura deve dar conta disso sem lei mesmo), mas permitir que esses produtos possam ser liberados pelo Ministério da Agricultura sem análises de outros órgãos que são hoje reguladores, como a Anvisa e o Ibama. Não sou especialista nem tenho a pretensão de ficar contradizendo cada argumento dessa poderosa indústria, que faz gato e sapato desde sempre em países menos desenvolvidos, onde a democracia é mais claudicante. O que ouvi de pequenos agricultores que entrevistei para reportagens e livros que falam sobre agricultura sustentável, em várias parte dos país, é que o que a indústria chama de técnicos que os visitam são, na verdade, vendedores encarregados de fazer o agricultor comprar cada vez mais, dando o mínimo de orientação, para que ele fique dependente e use o máximo possível dos produtos. Vários produtores rurais acabam optando pela agricultura orgânica depois de ficarem doentes. Críticos que dizem que produtos orgânicos são para ricos, me emocionam só até a página 2. É claro que disputar com a indústria do veneno é difícil e ganhar escala competitiva é difícil, fazendo esses produtos chegarem mais caros aos supermercados. Mas essas diferenças de preço vêm caindo rapidamente e as opções de locais de compras, principalmente as feirinhas de orgânicos, crescem em todas as regiões do país. Há anos, na minha casa, a maior parte verduras e legumes que comemos (e frutas quando há disponibilidade) é orgânica – ou fornecida por um produtor daqui mesmo da região metropolitana, que entrega em casa semanalmente, ou plantada na nossa horta. É um processo de reaprendizado, pois ficamos (mal)acostumados a comprar o que queremos em qualquer época do ano e os produtores orgânicos precisam respeitar as épocas de cada cultura. O resultado é um cardápio muito mais rico e variado ao longo do ano (e sem tomates que podem durar mais de um mês na geladeira – que medo!). Outro dia, meu marido, que não é ambientalista de carteirinha como eu, comentava feliz como ninguém mais fica doente em casa. Tenho como provar que é por causa do que comemos? Não. Pretendo mudar? Só se for para aumentar a quantidade de produtos orgânicos na mesa. (Foto: Aplicação de agrotóxico)
A pintora e o revolucionário: quando ficção parece realidade que parece ficção
A melhor parte de ler livros que romanceiam acontecimentos históricos é humanizar os personagens e trazê-los para um mundo mais palpável. Por outro lado, podem nos fazer cair na armadilha de tomar ficção por realidade e não termos mais como diferenciar o que realmente aconteceu do que foi inventado. Isso está particularmente na moda quando se trata de autobiografias. O autor se protege mudando nomes, fantasiando alguns fatos, mas todo mundo sabe que trata-se da vida dele, só que não temos como separar as duas coisas. É superlegítimo, instiga, não tira o prazer da leitura, mas confunde. Quando é um romancista partindo de uma fato que conhecemos, mas não muito, e sobre o qual há pouca informação disponível, esse efeito é mais forte ainda. Mesmo sabendo que o que está sendo contado não é exatamente verdade, nossa mente registra a informação como tal e isso mistura com o que sabemos mais ou menos e pronto: temos uma nova versão particular reinventada. Se já passamos pelo vestibular, não há o que temer. É essa a sensação que me acompanhou durante a leitura de “Frida e Trótski – a história de uma paixão secreta”, de Gérard de Cortanze (Planeta, 2018). O romance é centrado na relação – ao que parece verídica – entre a pintora mexicana Frida Kahlo e o revolucionário comunista León Trótski, durante seu exilio na Cidade do México (entre 1937 e sua morte em 1940) – país que o aceitou após estar jurado de morte por Stálin -, por intervenção justamente de Diego Rivera, o influente pintor que era marido de Frida. Fui acompanhada durante a leitura pela impressão que o romance entre os dois personagens foi muito inflado no livro, que sustenta que, mesmo após os poucos meses do caso em si, os laços entre eles nunca foram rompidos. Falta verossimilhança para nos fazer acreditar na importância desse relacionamento tanto para Frida quanto para Trótski, cuja relação com sua mulher Natalia Sedova continuou firme e forte depois disso. Talvez o título do livro em português colabore para o desconforto. No original, em francês, o nome é “Les Amants de Coyacán”, que suaviza a palavra paixão – termo bastante dramático – para amante, algo mais normal na vida de Frida, cuja paixão foi reservada a Rivera. Mas é só um palpite. A parte essa questão, o romance é muito gostoso de ler, nos faz entrar no mundo de Frida e sua época. Essa mulher incrível causaria furor hoje em dia, imagina na década de 1930, em um México ultracatólico e um mundo mergulhado no nazifascismo da Segunda Guerra Mundial. Também traz certa normalidade a um personagem como Trótski, com sua vida que parece série do Netflix (como é que ainda não fizeram uma!). É como se naquele período final, quando viveu praticamente prisioneiro e aguardando o momento, que de fato ocorreu, do seu assassinato, Frida representasse para León um oásis de juventude e liberdade que o ajudava a fugir das lembranças doloridas – que incluíam a morte dos quatro filhos – e do destino inexorável que o esperava. Sobre avida amorosa do revolucionário soviético, o artigo “Trótski teve casos amorosos com a pintora Frida Kahlo e com uma prima de Winston Churchill”, de Euler de França Belém, no jornal Opinião, é bastante saboroso: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/trotski-teve-casos-amorosos-com-pintora-frida-kahlo-e-com-uma-prima-de-winston-churchill-97477/ (Foto: Contracapa do livro “Frida e Trótski – A história de uma paixão secreta”)
Sesc 24 de Maio é oásis de modernidade no Centro
Fui conhecer o Sesc 24 de Maio, inaugurado no ano passado no antigo prédio da Mesbla, no Centro – destino que tem se tornado constante, com mais surpresas positivas do que negativas. Desci na estação Anhangabaú do metrô, que é um pouco mais longe do que a República, mas o caminho é bem bacana, passando pelo Teatro Municipal. Me desafiar a fazer um passeio por semana a lugares diferentes tem me feito (re)descobrir a cidade real, longe da cidadela Zona Oeste onde me refugiei. Andar a pé, de metrô, descobrir caminhos com a escala do pedestre tem sido gratificante. Talvez isso aconteça por ser o que eu disse – passeio. Quando só usava transporte público, meu esgotamento era patológico. Venci meu medo de dirigir e comprei um carro para não desistir de estudar e ter um pouco mais de vontade de trabalhar. De dentro do carro a vida fica mais fácil, mas cria uma dependência da qual estou tentando me libertar. A primeira impressão ao chegar no prédio do Sesc, lindamente reformado a partir de projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, é de entrar em um mundo diferente. Saem os prédios antigos, a superlotação das ruas, a agitação das galerias e surge um ambiente ultramoderno, amplo, onde reina confraternização e tranquilidade. Grupos de jovens, crianças, gente de todo tipo circula e se reúne em pequenos grupos para aproveitar um espaço público acolhedor, caso raro em São Paulo. Logo na entrada, há um balcão de informações onde te ajudam a se localizar e saber o que há para fazer. Pena que muitas atividades do Sesc são restritas aos comerciários (já fui associada quando trabalhava em jornal). Não consegui ver a piscina icônica na cobertura, só é aberta à visitação às quartas (fui em uma quinta), mas subi ao café do 11º andar (Jardim da Piscina), onde tem um espelho d´água e se pode passar o tempo tranquilamente nos bancos e poltronas com vista para a cidade. Desci depois pelas rampas, que são uma atração por si só, vendo tudo o que há nos demais andares. As salas de ginástica são incríveis! O andar de exposições é o quinto e, até 26 de agosto, é possível ver a mostra “Jamaica, Jamaica!”, que traz a história deste país caribenho, com um grande enfoque em sua música. Tema novo para mim, uma Jamaica além de Bob Marley e do reggae, que vai do sound system, na década de 1950, até o dancehall, que começou nos anos 1990 e pelo visto são a inspiração até das dançarinas de funk nos bailes no Brasil. Descobri que a origem dos hastafáris é um imperador da Etiópia, Haile Selassie, coroado em 1930, que representou a resistência ao colonialismo e era considerado a encarnação de Deus por seus seguidores jamaicanos. Ras era o título do príncipe e Tafari Makonnen, nome de Selassie antes da coroação. Só exposição já vale a visita. (Fotos: Café Jardim da Piscina e exposição Jamaica, Jamaica!)
Ecofalante: uma mostra necessária
A 7ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental termina hoje, depois de duas semanas, quando exibiu mais de 120 filmes de 31 países, gratuitamente, em vários espaços de São Paulo, além de realizar debates, oficinas e prêmios. Nesta edição, assisti a quatro filmes, com temáticas diferentes e bastante contundentes. Fiquei feliz porque todas as seções a que estive estavam lotadas – porém foram acompanhadas de debates, então não sei dizer se foi uma constante. Mas uma coisa é certa: a mostra vem crescendo muito e deve aumentar ainda mais nos próximos anos, tanto porque o público vem aprendendo a assistir documentários quanto porque a temática socioambiental ambiental vem ganhando adeptos. Acredito que o interesse por documentários venha da maior difusão deste tipo de filme a partir das TVs pagas e streaming, mas também da pouca profundidade e credibilidade tanto da imprensa tradicional quando das redes sociais. Notícias rápidas cansam e não satisfazem, as pessoas buscam nos documentários um pouco de reflexão. A maior conscientização e os sinais do dia a dia também têm aumentado a curiosidade sobre mudanças climáticas, economia verde, consumo sustentável, entre outros assuntos para os quais passamos a dar importância e procuramos maneiras de nos informar. Mais do que os debates, que trouxeram visões muito interessantes, os filmes que vi foram todos muito perturbadores. O primeiro (Safari, de Ulrich Seidl, Áustria, 2016), que abriu a mostra, é bastante indigesto, várias pessoas não conseguiram ficar até o fim. O documentário mostra europeus (alemães e austríacos) que fazem “turismo” de caça na África. Para alguns, é chocante ver tirar a pele de uma zebra ou de uma girafa, com o que concordo. Mas o pior no filme, para mim, foram os depoimentos dos turistas/caçadores, descrevendo o prazer de atirar, os motivos torpes e mentirosos que justificam seu hobby (chegaram a dizer que é pelo bem dos animais, pois já estão velhos) e o prazer em tirar fotos ao lado do bicho morto. A desfaçatez de contarem com ajudantes negros para fazer praticamente todo o trabalho (eles não carregam nada, não fazem praticamente nada, apenas apertam o gatilho após o guia escolher o bicho e posicionar a arma, e sorriem para a foto). Depois da caça, após escalpelarem o bicho, os nativos ficam apenas com suas patas, que levam para alimentar a família em casebres miseráveis. Como disse um amigo, não é exatamente um filme sobre natureza, mas sobre a natureza humana. O segundo filme que assisti, Sob a Pata do Boi (de Márcio Isensee e Sá, Brasil, 2018), aborda a criação de gado na Amazônia, mostrando sua relação direta com o desmatamento. Apesar de fazer um alerta, principalmente para os consumidores urbanos, para que se antenem sobre de onde vem o seu bifinho, é um filme um pouco mais otimista, ao mostrar que já há pecuaristas fazendo diferente e que é possível produzir sem destruição. A diferença entre uma fazenda bem manejada das demais é uma coisa que sempre me impressionou nas minhas idas para a região. São oásis cercados de “velho oeste” ou, em alguns casos, quando a queimada da floresta foi recente e não tiveram nem o trabalho de tirar os tocos das árvores incendiadas, parecem cenário de filme pós hecatombe nuclear. Minha terceira incursão foi para o debate sobre consumo, precedido de um curta chamado Coração de Açougueiro (de Marijn Frank, Holanda, 2017), que descreve o dia a dia de uma família de açougueiros pela perspectiva de um adolescentes dividido entre a tradição de trabalho da família e o bullying que sofre dos colegas por conta da atividade: pouca gente encara que, para comer carne, um animal deve ser morto. Logo em seguida, Uma História de Desperdício (de Anna Chai e Nari Kye, Estados Unidos, 2017) apresenta as consequências do consumo alimentar no mundo, mostrando o desperdício desde a produção do campo, industrialização, comercialização, consumo e descarte. E como o que é jogado fora seria suficiente para que não houvesse ninguém passando fome no mundo. A condução do filme segue a sequência que nós, comunicadores da área, tendemos a dar para nossos produtos (sejam filmes, matérias, livros), que é mostrar os problemas e depois trazer as soluções que estão sendo buscadas. Nesse caso, animais alimentados com sobras da indústria, restaurantes populares abastecidos com sobras de restaurantes chiques, países onde o descarte tem reduzido muito. O tom otimista dessa última parte, porém, é minimizado no depoimento do chef-celebridade Anthony Bourdain, que abre e fecha o filme. Norte-americano, super viajado e estrela de TV, começa falando da diversidade dos alimentos no mundo, em como as pessoas se conectam por meio deles. No final (não lembro as palavras literais, mas a mensagem me marcou muito), começa com um discurso edificante, mas termina ironicamente perguntando se deveria dizer que, na verdade, não há solução, já que o problema está mesmo no ser humano. Mais uma falha minha, nuca tinha ouvido falar de Bourdain, que sequer foi identificado no filme. Mas seu tom pessimista me deixou triste, pois, sem esperança, o que nos resta é ficarmos imóveis vendo o apocalipse chegar. Eis que dois dias depois de conhecê-lo no filme, descubro quem é pelas manchetes que noticiaram o seu suicídio. Desde então, tenho pensado bastante que precisamos realmente encarar nossos problemas como espécie e, para isso, é necessário ir fundo em questões que não gostamos, sobretudo nossa maneira injusta de tratarmos com nossos semelhantes, com as desigualdades de todos os tipos, e de lidarmos com nossa casa, que é o planeta que habitamos. Para tanto, filmes como os da Ecofalante são essenciais. Mas que nos levem para uma (re)ação e não para a depressão. (Foto: cena do filme Safari/Divulgação)
Me chame pelo seu nome, porque eu me desejo através de você
Mais do que um amor de verão, o romance entre Elio e Oliver, em “Me chame pelo seu nome”, de André Aciman, é uma paixão daquela fase em que estamos descobrindo a sexualidade e como lidar com ela. Daquelas onde a pessoa amada é idealizada como uma projeção de nós mesmos e da ideia que fazemos do amor. O fato dos personagens passarem a chamar um ao outro pelo seu próprio nome parece ser uma forte representação disso. Essa foi a impressão mais forte que ficou deste livro do mês, na última reunião do CFL-Círculo Feminino de Leitura. Foi mais uma obra da nossa lista de autores que estarão na próxima Flip, em julho, em Paraty, onde vamos comemorar os 10 anos do nosso grupo [há mais três na nossa mira até a viagem]. Mesmo não tendo sido uma unanimidade – parte adorou (foi o meu caso!), parte achou apenas uma história de amorzinho -, todas achamos um mérito do livro o fato da homossexualidade não ser uma questão tão relevante na narrativa. Poderia ser contada com qualquer tipo de casal – como deveria ser na vida em geral. O romance nos fez divagar sobre as paixões de juventude, aquelas que, por um período, preenchem todo o seu corpo e o seu tempo e, talvez justamente por não terem prosseguido (ou, em alguns casos, nem se concretizado), ficaram como lembrança da história perfeita (e nem precisaram acontecer na Riviera Italiana!). Nossos amantes do livro são lindos, inteligentes e desejados, e estão em um ambiente de sensualidade que parece só existir mesmo no mundo da idealização. É tudo tão perfeito que você lê e pensa: eu queria ser o Elio, ter 17 anos, viver naquela casa, naquele lugar, ter aqueles pais e amigos, comer a comida e beber os refrescos da Mafalda, tocar piano divina e despretensiosamente, viver uma paixão com o Oliver e, se perigar, até transar com a Marzia. A conversa entre Elio e seu pai, após voltar da viagem a Roma, é uma das partes mais tocantes, onde o pai deixa claro a importância de se permitir seguir o coração e o desejo sem medo do que possa acontecer. “No meu lugar, muitos pais esperariam que a coisa simplesmente sumisse, ou rezariam para que seus filhos se reerguessem logo. Mas eu não sou um desses pais. No seu lugar, se houver dor, cuide dela, e se houver uma chama, não apague, não seja bruto com ela”, aconselha. Quanto sofrimento seria evitado no mundo com posturas assim! Impossível não considerar, ainda, a influência do filme de Luca Guadagnino, ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado em 2018 – um dos raros casos em que cinema e literatura se completam e são tão bons quanto. Mesmo tendo me proposto a esperar ler o livro para depois ver o filme, não resisti e assisti antes de começar. Com isso, já mergulhei na leitura com o cenário e os personagens formados, embora tenham ganhado vida nova e independente ao longo da história. Com o sucesso, o diretor anunciou que vai filmar a continuação do romance. Claro que vou assistir, mas teria terminado o romance onde termina o filme. Saber o que acontece depois não acrescenta muito e quebra um pouco o encanto de se imaginar o que poderia ser.
Nostalgia do que não vivi
Visitar a Casa da Imagem, para qualquer paulistano ‘da gema’, é como viajar no túnel do tempo e sentir saudade de uma cidade que não existe mais, ou ainda, acompanhar as diversas cidades que foram se transformando e sobrepondo para desembocar nesta que habitamos hoje. Este museu, localizado próximo à Praça da Sé, ao lado do Pátio do Colégio, faz parte do Museu da Cidade de São Paulo, responsável por 13 edificações históricas que exemplificam a evolução das técnicas construtivas da cidade (várias delas não sabia que existiam), entre as quais estão também o Solar da Marquesa de Santos, separado da Casa da Imagem pelo Beco do Pinto, sobre o qual falarei daqui a pouco. A Casa da Imagem abriga o Acervo Iconográfico de São Paulo, composto por 84 mil fotografias, das quais 140 estão expostas aos visitantes. Elas mostram São Paulo em diversas fases desde a segunda metade do século XIX, quando era uma cidadezinha, antes de se tornar a metrópole do café. Dá para acompanhar o crescimento vertiginoso a partir do início do século XX, quando ainda se conseguia ver as várzeas dos rios e a Serra da Cantareira praticamente de qualquer lugar. Acompanhamos a cidade se industrializar e expandir, com os bairros operários, e se sofisticar, com a construção da avenida Paulista. Vemos o crescimento vertical, com os primeiros arranha céus, a abertura de novas vias, as mudanças nos transportes – dos diversos tipos de bondes até o metrô. O mais legal, porém, está no fim: na última sala do andar de cima fica passando um filme, realizado como propaganda do Sesquicentenário de São Paulo, comemorado em 1954. Em um tom mais do que ufanista, o documentário enaltece a cidade que é “um fenômeno único no mundo”, passando de 350 mil habitantes na passagem do século para os 2,2 milhões cinquenta anos depois. A cidade “que mais cresce no planeta” atraia visitantes dos quatro cantos do mundo para ver as oito casas que eram construídas por hora, além dos grandes edifícios, avenidas e viadutos que surgiam velozmente e a quantidade de carros que não parava de aumentar. A metrópole, diz o filme, se preparava para ser o centro de um Brasil que caminhava a passos largos para ter seu lugar entre os países mais desenvolvidos do mundo. Vale muito a pena assistir! Como o nome diz, a proprietária e moradora mais ilustre do vizinho Solar da Marquesa de Santos foi Domitila de Castro Canto e Melo, que viveu lá entre 1834 e 1867, quando faleceu. Nessa época, o imóvel era famoso pelas festas promovidas por sua dona e era conhecido como Palacete do Carmo. Ambos os imóveis tiveram vários proprietários e usos até serem restaurados e abertos ao público em 2011. Com isso, apesar de serem bons representantes do que era a cidade no século XIX, foram bastante alterados ao longo do tempo e pouco mostram do estilo de vida da aristocracia de então. Por isso, a maior atração do Solar da Marquesa, até 13 de dezembro de 2018, é a exposição “Yolanda Penteado, a dama das artes de São Paulo”, que apresenta a trajetória da mulher que, junto com Assis Chateaubriand e Francisco Matarazzo Sobrinho (Ciccillo) – com quem foi casada -, brindaram a cidade com o MAM SP, o Masp, a Bienal de São Paulo, além de contribuírem para a criação do MAC USP. Fazendeira e socialite, foi daquelas mulheres plenamente classificadas no chavão “à frente de seu tempo”. Nascida no início do século passado, foi casada e se separou duas vezes, administrou sua fazenda, viajou o mundo e conviveu com os maiores artistas de sua época. E ajudou a trazer São Paulo para o cenário internacional das artes. Essa mulher trouxe Guernica, de Picasso, para a II Bienal de São Paulo, em 1953!! Agora, para mim, o menos conhecido dos três espaços é o que tem a história mais interessante sobre a relação da cidade com seus cidadãos e sobre quem manda nela. O Beco do Pinto é uma antiga passagem entre o Solar da Marquesa e a Casa no 1 (como era conhecido o casarão da Casa da Imagem), que, desde a época colonial, era usado para o trânsito de pessoas e animais entre o largo da Sé e a várzea do rio Tamanduateí. Ganhou esse nome quando, em 1821, o Brigadeiro José Joaquim Pinto de Moraes Leme, então morador do futuro Solar da Marquesa, resolveu fechar o acesso ao beco, privatizando-o e criando uma briga com a vizinhança. Em 1826, a passagem foi reaberta e recebeu da Câmara o nome oficial de Beco do Colégio. Mas, quando o imóvel foi comprado pela Marquesa de Santos – veja só -, a passagem foi oficialmente fechada. Atualmente restaurado, é um lugar bem bonito com vestígios do calçamento original (e fechado na parte de baixo por um portão).
O que nos diz o cabelo crespo
Há sempre uma história por trás de um cabelo crespo. Assim como o gênero e a cor da pele, a textura das madeixas conferem status e estereótipos de todo tipo. Cresci ouvindo na família que minha “gadeia” não tinha jeito (mais tarde soube que era a maneira caipira de se dizer gadelha: o mesmo que cabeleira, cabelo disforme), condenada a usar, em grande parte da infância, o corte “Joãozinho”, para não dar trabalho. Nem tinha cinco anos e já me frustrava por não ter os cabelos na cintura e lisos como os da Wanderleia, para poder dançar e chacoalhá-los ao vento. Não é de admirar que, tão logo pude administrar meus problemas capilares, estes passaram a ser de outra natureza: lidar com químicas, toucas e escovas, sempre com resultados efêmeros ou pouco satisfatórios. Só muito mais tarde pude constatar que minha musa teve que passar pelos mesmos dramas que eu até assumir sua juba original. Durante toda a vida lidei com os sentimentos contraditórios dessa herança latina, que no contexto racista brasileiro tem variadas conotações. Por um lado, o volume dos cabelos me conferia poder, sensualidade. Quando me vejo em fotos assim, me acho mais bonita. Nos meus momentos mais segura de mim, sempre optei pelo cabelo natural. Por outro lado, os cabelos alisados conferem uma aceitabilidade reconfortante. Por incrível que pareça, te tratam melhor nas lojas, mexem menos com você na rua e, até hoje, se escovo os cabelos, a mulherada – sobretudo – invariavelmente diz como estou linda e chique. Minha autoestima vacilante é bastante suscetível. Eis que, na busca por autores que estarão na próxima Flip, em Paraty, onde vamos comemorar os dez anos do CFL-Círculo Feminino de Leitura, nos deparamos com Djaimilia Pereira de Almeida, com seu Esse Cabelo – A tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras. Foi identificação à primeira vista. A transposição (supostamente) bem-humorada de sua história de menina mestiça, que sai de Luanda para viver com a família branca em Lisboa, para as aventuras de seus cabelos crespos é tocante. As andanças de Mila – a personagem autora – pelos bairros de Lisboa à procura da cabeleireira perfeita, mulheres originárias de várias partes do mundo, sobretudo da África, traz em seu bojo a necessidade de aceitação, sua em relação a si mesma e também dos outros. Apesar do carinho com o qual se refere aos avós e familiares paternos, que a acolheram, sua relação com a mãe – que ficou em Angola – e avós maternos, também imigrantes em Portugal, é repleta de amor, carinho e compaixão. Seu pertencimento oscila entre as duas realidades e culturas, assim como as mudanças em seu cabelo. Na narrativa, não há grandes explicações, mas impressões e sentimentos. No final, pelo menos por enquanto, já que o mundão dá voltas e Djaimilia é jovem, prevalece a aceitação dos cabelos como são, mostrada a partir do fiasco de seu penteado alisado de casamento, ornamentado com uma tiara, que anos depois deixou como enfeite em sua casa para lembrá-la de seu antigo “drama capilar”. “A travessa exposta na vitrina devolve-me a mim como decoração do meu cabelo. O cabelo é a pessoa. O subterfúgio da comédia, o drama pretensamente tranquilo, são os adornos. ‘Faz de ti um museu mostrando o que já era visível’”, escreveu. Em nossas discussões cefelistas sobre o livro, lembramos do momento de glória dos cabelos crespos nos anos 1960, com o Black Power e o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Recordações dos Jackson Five, dos Globetrotters ou de Tony Tornado cantando BR-3, no início dos anos 70, que nos remeteram à constatação de que conquistas vão e voltam, como a moda. Ver a ostentação de lindos penteados crespos florescer novamente, como marca de um renovado movimento negro – principalmente aqui no Brasil de Marielle – é reconfortante. Nas reuniões do CFL, procuramos sempre meios de vivenciar de alguma maneira a narrativa. Mas, nesta época de discussões – às vezes válidas, outras nem tanto – de apropriação cultural, me causou certo desconforto chegar e encontrar uma peruca Black Power circulando pelas cabeças. Ao longo da noite, porém, em meio a depoimentos de lisas e crespas – nós últimas, todas brancas, que, de verdade, na denominação cabelística, somos apenas “onduladas” – fomos incorporando o poder dessa cabeleira e o quão intimidante ela pode ser para os que ainda insistem em um modelo racista de sociedade. Diante do sofrimento que essa mentalidade tem imposto a gerações de mulheres negras – que apenas conseguimos (talvez) imaginar – só podemos desejar vida longa, cheia e abundante para todos os cabelos crespos.
Há muito mais que cobras e lagartos no Butantan, mas eles ainda são a atração principal
Apesar de um certo incômodo ao dar de cara com jiboias, jararacas, pítons e afins, às vezes te encarando nos olhos, a visita ao Instituto Butantan é sempre um programão. A começar por ficar em meio a uma belíssima área verde, que já vale sozinha o passeio. O fato de poder entrar com o carro e estacionar gratuitamente é quase um milagre em São Paulo e também é um belo convite. Além disso, o ingresso é baratinho (R$ 6,00 o mais caro, para adultos, após vários tipos de isenções e descontos) e vale para os três museus do complexo: Museu Biológico, Museu Histórico e Museu de Microbiologia. Dá para passar um dia inteiro – pena que fecha relativamente cedo (o funcionamento é de terça a domingo, das 9h às 16h45). Mas é claro que a atração principal é o Museu Biológico, com suas serpentes lindas e assustadoras, divertidos lagartos, iguanas e sapos, e os MUITO assustadores aranhas e escorpiões. Confesso que todas as vezes que estive lá, passei correndo por estes últimos. Também tenho dúvidas sobre esse sistema de exposição de animais vivos, do tipo zoológico. Dá pena ver os bichos presos, em pequenas vitrines. O serpentário, do lado de fora, dá um pouco menos essa impressão. De qualquer maneira, a exposição é bastante didática, mostrando de onde vêm, o que comem e quais répteis são venenosos. Mas para mim, o mais divertido (e posso ficar bastante tempo nisso) é brincar de Onde está Wally? com as serpentes, já que elas ficam camufladas e quase sempre imóveis – tirando os momentos em que nos encaram. Algumas vezes, chegamos a pensar que um dos recintos está vazio e, de repente, vemos uma cobra imensa bem ao lado do vidro sem que tivéssemos percebido. O mesmo vale para o serpentário: contar o número de cascavéis vai levar alguns bons minutos. Não conhecia o Museu de Microbiologia e fiquei impressionada ao saber que existe desde 2002. O local me pareceu bastante frequentado por escolas, mas é bem interessante para qualquer leigo ter uma ideia sobre o mundo dos micróbios. Há vídeos mostrando, por exemplo, bactérias sendo contaminadas por vírus e se multiplicando doidamente (isso se entendi direito…). Também dá para ver no microscópio belezuras como o vírus da gripe ou o mosquito da dengue. Para quem estudou em escolas públicas, onde laboratório de ciências era um ser desconhecido, foi bastante interessante. O Museu Histórico mostra objetos antigos utilizados nas atividades de pesquisa e produção de soros e vacinas do Butantan. O museu fica em uma edificação reconstruída no local onde funcionou o primeiro laboratório utilizado pelo cientista Vital Brazil, primeiro diretor do instituto, no início do século passado. Mais uma vez, em um país com tão pouca tradição ou apreço oficial pela ciência, é um prazer ver que há pessoas tanto produzindo conhecimento – e com resultados tão importantes -, quanto difundindo tudo isso, quem sabe inspirando muitos outros a seguir esse mesmo caminho.
Memorial da Resistência: o que o passado nos diz sobre o presente?
O maior impacto de se visitar o Memorial da Resistência é chegar até lá, antes de entrar. Um verdadeiro soco no estômago. Localizado há uns três quarteirões da Estação da Luz, logo atrás da Sala São Paulo, este museu está instalado na Estação Pinacoteca, em um prédio tombado construído para ser estação ferroviária, mais tarde substituída pela Júlio Prestes, e onde funcionou por 42 anos (entre 1941 e 1983) o famigerado Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo, o DEOPS/SP. Sua proposta é nos conectar com um passado de repressão política pouco lisonjeiro e que nos envergonha como país, mas dar de cara com a marquise do edifício tomada por pessoas vivendo ao relento ou em barracas precárias, em meio a excrementos e restos de comida dos quais precisamos desviar, faz do presente algo intolerável. Se as atrocidades cometidas pelos diversos regimes autoritários que formaram o Brasil, sobretudo o regime militar pós-64, que usou aquele espaço para torturar e matar, é algo do qual a maior parte dos atuais brasileiros pode se eximir (afinal não éramos nascidos ou éramos crianças na época), a situação degradante que deixamos existir debaixo de nossos narizes (literalmente) fingindo que não existe, que não é conosco, é nefasta. Pior – pelo que vem sendo demonstrado nas famigeradas redes sociais –, parte da sociedade culpa essa multidão de excluídos por suas mazelas, causando uma sensação de desesperança total: nem a democracia nem a Constituição de 1988 conseguiram dar um sentido de empatia e civilidade ao país. Continuamos, os privilegiados, agarrados à falsa premissa de que, se fingirmos que não existe – e que não temos responsabilidade – a concentração de renda, a injustiça social (e a violência associada à ela), o racismo, a corrupção e outros problemas nossos do dia a dia vão desaparecer sozinhos ou dependem de regimes truculentos e autoritários. Passando por esse corredor da vergonha, entramos em um prédio muito limpo, muito amplo, com funcionários muito gentis e temos acesso a uma exposição autoguiada um pouco difícil de acompanhar. Parece coisa feita para iniciado. O lugar se propõe a mapear a memória da repressão política e dos que resistiram a ela, mas duvido que um jovem que cresceu sem saber o que é poder ser preso apenas por expressar uma opinião ou porque leu um determinado livro entenda, passando por lá, o que isso significa. Mesmo as celas conservadas, mantendo alguns registro feitos nas paredes pelos presos que passaram por lá, parecem um cenário pálido, que dependem de leituras de textos enormes para se saber o que acontecia ali. Senti falta de mensagens mais contundentes, talvez com imagens da tortura (mesmo que em cenas de filmes), dos desaparecidos, dos muitos jovens presos, com os quais os jovens atuais possam se identificar. E até de dados do Brasil real daquela época, que não era absolutamente melhor do que o de agora. Seria bacana se os jovens que se aventurassem a conhecer aquele espaço – muito poucos, pelo que vi na minha visita, aparentemente a partir da persistência de alguns professores abnegados – saíssem de lá acreditando que as imagens que viram do lado de fora ao chegar não são uma novidade do Brasil atual, mas a consequência e a permanência de defeitos de origem que incluem o autoritarismo e a falta – e não excesso – de participação democrática de sua população.