Metrô ao lado de casa é sonho de paulistana ingênua

Fui surpreendida, no início deste ano, com equipamentos e equipes do Metrô circulando aqui por perto de casa, na Vila Madalena. Achei estranho, pois já temos metrô por aqui, a Estação Vila Madalena, da linha Verde, a menos de um quilômetro de distância, pouco para os padrões paulistanos. Mas eis que o burburinho no bairro começou e recebi um abaixo assinado contra a construção de uma Estação Girassol, da futura Linha 20-Rosa, planejada para conectar a Lapa (Zona Oeste) ao ABC Paulista (Santo André/São Bernardo), com cerca de 32,6 km e 24 estações. A dita Estação Girassol ficaria a um quarteirão do meu prédio e possível de ser vista da janela (está na foto). Minha primeira reação foi achar que abaixo assinado contra metrô é coisa de “gente diferenciada”, como já vimos acontecer em Higienópolis, por exemplo. Em um mundo ideal, seria maravilhoso ter uma estação de metrô tão pertinho. Apesar de próxima, preciso enfrentar ladeiras e um escadão para chegar à Estação Vila Madalena. Não é o melhor dos mundos. Apesar de não concordar com todos os argumentos dos proponentes do movimento – a Vila Madalena já é gentrificada e não é mais o bairro residencial para o qual me mudei há quase 30 anos –, há razões para os moradores nos preocuparmos com o projeto. Entre os argumentos do abaixo assinado, estão a especulação imobiliária e a construção de prédios altíssimos, como prevê o Plano Diretor para um raio de 700 metros a partir das estações de metrô. No final da rua Harmonia, onde moro, por exemplo, não existe mais casas ou sol, foi tudo ocupado por apartamentos de preços exorbitantes, parte deles enormes e destinados a milionários e parte minúsculos, os quais acredito serem destinados a aluguéis temporários (precisa ser muito trouxa para pagar quase R$ 1 milhão para viver em menos de 30 metros quadrados). Apenas o interesse privado em expandir esse raio construtivo para a parte central do bairro justifica o atual traçado. Segundo o abaixo assinado (e as matérias mais antigas sobre esse projeto), as estações eram programadas para locais com avenidas mais largas, como a Pedroso de Moraes e a São Gualter, onde, aliás, a especulação imobiliária já chegou com tudo e mais um pouco. Apesar dessa luta inglória contra a especulação e a descaracterização de São Paulo ser uma causa que me mobiliza (vou voltar a este assunto brevemente), obras do metrô me fazem tremer também por outro motivo: a obra em si. Segundo informações do Metrô, a Linha Rosa tem previsão de início de obras em 2028 e começo de operações em 2035. Como é tradição neste tipo de projeto, esta última data é conto da carochinha. Quem mora nas redondezas da construção da Linha 6-Laranja, em Higienópolis, Perdizes e Pompeia, que o diga. As obras próximas ao Estádio do Pacaembu começaram há dez anos e fico imaginando a tristeza dos donos das casas ao redor. A tradição na cidade é anunciar e inaugurar obras umas mil vezes, de preferência em ano eleitoral, até que as estações sejam efetivamente postas em operação, bem aos pouquinhos, estação por estação, em incontáveis eleições. Não sei como funciona este zoneamento de exceção perto de estações de metrô, mas se o início das obras já liberar geral, pra que mesmo precisa de pressa na construção da linha? Quem sabe meus futuros netinhos se beneficiem da nova estação.
Feira Radar expõe arte em palacete tombado

São Paulo é uma cidade às vezes hostil, mas oferece chances únicas que, aproveitadas, fazem valer a pena os perrengues enfrentados no dia a dia. Normalmente, essas oportunidades vêm na forma de um passeio muito bacana, difícil de encontrar em outros locais, principalmente sem pagar nada. Nesta semana, estive na Feira Radar de Arte Contemporânea, que acontece até o próximo sábado (7/3), no Palacete Sthal, um casarão centenário tombado pelo CONDEPHAAT, na rua Piauí, 874, em Higienópolis. Conhecer a construção de 1.700 m2 de estilo eclético com influências francesas (Luís XVI) e um jardim de influência japonesa, já valeria a visita. Mas passar por todos os seus cômodos, incluindo os jardins e até os banheiros, inundados de obras de 60 artistas, é espetacular. E todas as obras expostas estão à venda, com trabalhos a partir de R$ 400,00. Mesmo para quem não é entendido nem colecionador de arte, como é o meu caso, ter contato com as obras é um prazer estético. Não sei se foi por conta de ter ido na abertura, mas também tive a oportunidade de conhecer diversos dos artistas e conversar sobre seus trabalhos. Dá ainda para imaginar como era viver em um palacete como aquele. Construído para o cônsul sueco, comendador Gustav Stahl, no início dos anos 1920, foi propriedade do Japão de 1940 a 2007, abrigando o consulado e sendo local de um sequestro diplomático em 1970 (informação da internet). Esta é a quinta edição da Radar, idealizada pelas artistas Daniela Schiller, Flavia Renault e Mariana Porto (que faleceu no ano passado) para incentivar o mercado de arte contemporânea. A entrada é gratuita e está aberta entre 11 e 20h30.
Desabafo de mulher enlouquecida pelas notícias

A vida acontece aparentemente igual pelo que vejo da janela, mas me sinto triste e sem vontade de escrever sobre os tantos assuntos que gostaria. A cada minuto que paro para pensar, só o que me vem à cabeça é mais uma guerra se alastrando, mais pessoas e cidades sendo destruídas. Guerras em que os mandantes estão bonitinhos em suas casas e não conseguem justificativa plausível para o que estão fazendo. Afinal, se fosse preocupações com os cidadãos de regimes ditatoriais, já teriam tomado providências há muito mais tempo. Mulheres sendo tratadas como escravas no Oriente Médio, sem poder sair de casa, ou se vestir como quiserem, ou mesmo estudar ou dirigir em alguns países, nunca mobilizaram líderes mundiais. Aliás, ir atrás de menininhas para outras coisas é o que costuma mobilizar essa gente. Penso nas meninas mortas na escola no Irã e, de repente, me lembro que muitas mais crianças foram assassinadas por bombas em Gaza agora há pouco e que as que sobreviveram continuam vivendo em um campo de concentração, onde nem organizações como o Médicos Sem Fronteiras podem entrar. E penso que há outra guerra entre Rússia e Ucrânia, que já virou rotina e não está interessando mais. Vejo as notícias na TV e as guerras são apresentadas como se fossem mais um episódio de Missão Impossível, no qual não sabemos quem é bandido e quem é mocinho, mas temos certeza de que nada do que vemos é correto. Aliás, nem o que se passa nesses filmes, fantasias para meninos, mas cada vez mais perecidos com a realidade, me parecem diversão. Ver carros, cidades e pessoas explodindo virou maneira de esfriar a cabeça. Como podemos nos comover quando as imagens são reais? Sinto o mesmo quando leio sobre a violência contra as mulheres, seja pela turma de Epstein ou da turma de bem aqui no Brasil, que adora agredir e matar mulheres, enquanto faz proselitismo moralista. Estou cansada também de assistir mulheres sendo estupradas, feridas e mortas gratuitamente em filmes, séries e novelas, sempre com a “justificativa” de se estar apenas retratando a realidade ou fazendo denúncia. Acho que o prazer de ver uma mulher sofrer é um dos maiores fetiches de nossa sociedade. Estou não apenas triste, mas também raivosa. Há tanta coisa em que precisaríamos estar pondo energia e não podemos. Como falar de alternativas para as cidades se prevenirem de eventos extremos ou da importância de elegermos gente com um mínimo de compromisso público, quando há pessoas morrendo, principalmente mulheres e crianças, de tudo quando é jeito? Quando no noticiário e na internet só nos deparamos com cenas de apocalipse, fofocas de poderosos e propagandas mentirosas de produtos e procedimentos para nos tornar lindos, ricos e imortais, enquanto bombas podem cair em nossas cabeças?
Minhas leituras: O Acontecimento

Em O Acontecimento (editora Fósforo), Annie Ernaux relata a experiência traumática de um abordo realizado em sua juventude, nos anos 1960, quando era universitária e a prática considerada crime na França. O drama da autora em nenhum momento se refere a alguma dúvida sobre sua vontade de interromper a gravidez indesejada, mas à dificuldade de fazer o abordo por conta das questões legais. O que está em jogo é o controle moral e legal sobre o corpo da mulher e os sofrimentos causados por este combo. O livro foi uma ótima escolha para a reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), da qual não consegui participar por questões de trabalho. Mas adorei a indicação e o impacto que a leitura me causou, sobretudo por Ernaux afirmar considerar seu relato válido mesmo sendo anacrônico, pois hoje o aborto é livre na França e a história seria completamente outra. Para uma brasileira, é uma porrada na barriga, com ou sem feto, pois aqui mulheres ainda são consideradas criminosas ao abortar, mesmo sendo crianças. E, ao invés deste debate avançar, parece piorar. Enquanto a extrema-direita ganhar a narrativa por aqui, o assunto não será colocado em pauta seriamente por nenhum governo, por mais progressista que seja. Ernaux é uma das principais autoras da atualidade, sobretudo do estilo escrita de si. Embora muito utilizado, não acredito que o termo autoficção se aplique à autora, ganhadora do Nobel. Sua escrita é biográfica e política, com contexto, análise, opinião. E emociona pela sinceridade, como quando reconhece ter sido tratada com desprezo até por pessoas próximas sem perceber e na cena do abordo em si, sem assistência e colocando sua vida em risco, humilhada até no hospital a que precisou recorrer. Neste momento, Ernaux traz a hipocrisia da sociedade, ao contar que os maus tratos eram também direcionados a outra mulher, por estar para parir sem marido. Durante todo o tempo de seu infortúnio, Annie lembra a presença onipresente da lei, da “impossibilidade absoluta de imaginar que um dia as mulheres pudessem abortar livremente”. Para francesas e tantas outras mundo afora esse dia chegou. Nos Estados Unidos da extrema-direita autoritária (sei que é pleonasmo) esses dias parecem contados. Para as brasileiras, temos que criar possibilidades concretas para imaginar uma realidade diferente. Ao final, a autora divaga sobre sua provação e considera que precisou passar por aquela experiência para depois poder ser mãe. Com certeza, apesar de ser bonito e tocante ver como precisamos achar razão e redenção para nosso sofrimento, Annie não necessitava nem merecia passar por aquilo. Nenhuma mulher deveria passar por esse tipo de sofrimento por razão alguma.
Bebês-árvores dão esperança no amanhã

O Brasil tem a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 em todos os biomas. Faz parte do compromisso do país para combater as mudanças climáticas. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, porém, tem um propósito ousado para o bioma: recuperar 15 milhões de hectares até 2050. Diferente de um compromisso internacional, o Pacto é resultado de uma grande coalizão que reúne organizações ambientais, governos, empresas, proprietários rurais, universidades e centros de pesquisa — hoje, cerca de 300 membros participam ativamente. Nesta semana, estive na Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), ong catarinense, com sede em Atalanta, pequeno município do Alto Vale Itajaí, uma das organizações mais atuante no Pacto. Além de manter um dos maiores viveiros de mudas da Mata Atlântica do Brasil, com uma diversidade de cerca de 200 espécies, já plantaram aproximadamente 9 milhões de árvores. Acompanhar a equipe da Apremavi é daquelas coisas que fazem a gente recuperar um pouco da confiança no mundo. Dá para imaginar o quanto a atuação deles é difícil, ainda por cima em um estado onde os ruralistas dão as cartas? Sem se intimidar, a equipe da organização faz o trabalho de formiguinha de convencer produtores rurais a restaurar suas matas ciliares e áreas de reserva legal em Santa Catarina e no Paraná, fornecendo mudas e assessoria técnica. E, para garantir a recuperação e conservação de grandes áreas, compra terras para restaurar e transformar em reservas particulares do patrimônio natural (RPPN). Seus fundadores também estiveram à frente da criação das principais áreas de preservação federais nos últimos 30 anos na região Sul do país. Participei de uma visita técnica em áreas de restauração em duas áreas da Apremavi, a Fazendo Serra Pitoco e o Sítio Nascentes do Rio Santo Antônio, ambas na Serra do Pitoco, onde verificavam como estavam os plantios e discutiam técnicas de recuperação e como podem ser melhoradas. Vibravam como o crescimento dos bebês-árvores como se fossem uma das últimas esperanças da humanidade. E, para falar a verdade, acredito que sejam mesmo.
As tartarugas e o aquecimento do oceano

Nunca havia me deparado com tartarugas mortas na praia, até encontrar duas em menos de uma semana agora em janeiro, no sul da Bahia. É triste de ver, ainda mais porque a maior parte dessas mortes estão ligadas a ações humanas. Muitas delas sucumbem por se enroscar em redes de linhas de pesca ou ingestão de lixo, especialmente plástico. Nas que presenciei, porém, não dava para saber se tiveram algum desses problemas. Sem ser especialista, acredito que um fator agravante que pode estar aumentando a vulnerabilidade desses animais é o aquecimento do oceano. Pelo que pesquisei, as tartarugas marinhas são ectotérmicas, ou seja, dependem da temperatura externa para sobreviver. Quando a água fica muito quente, o metabolismo acelera, elas gastam mais energia e ficam mais suscetíveis a doenças e infeções. O Nordeste brasileiro tem enfrentado ondas de calor marinho, com águas entre 3º C a 5º C acima do normal em alguns trechos. Como uma banhista apaixonada por praia, sinto isso na pele. No meu caso, costuma ser bom, mas sabemos que é péssimo para os corais e todos os demais animais marinhos, incluindo as tartarugas. Outra consequência ruim do aquecimento global são as areias mais quentes aumentarem a mortalidade dos embriões depositados nas praias e alterarem a proporção de machos e fêmeas, pois a temperatura define o sexo, o que pode afetar populações no longo prazo. Ainda sobre observações das férias, vi apenas uma área demarcada como ninho de tartarugas marinhas, na Praia da Lagoa Azul (Arraial d’Ajuda), colocada pela dona de uma barraca de praia. Em locais em que há Projeto Tamar, estas marcações são comuns. Nesta praia, relativamente pouco movimentada, vi uma mulher jovem, mas adulta, que não se aguentava de vontade de invadir o cercadinho dos ovos. Parecia obsessão. A toda hora ia até lá, chacoalhava as varetas, ficava rodeando e às vezes ameaçava enfiar o pé lá dentro. Acho que só não concretizou o intento pela reza do meu marido, sabedor de que eu estava pronta para entrar em ação se isso acontecesse.
Minhas leituras: O Segredo de Espinosa

Deus ou a natureza. Ou, melhor dizendo, Deus é a natureza. Esta formulação tornou Bento de Espinosa um herege em sua época, por ser considerado ateu, o que o filósofo sempre negou. A mim, iluminou algo que eu intuía. Não preciso mais me considerar ateia. Não sem motivo, este pensador do século 19 é um dos precursores do Iluminismo e ferrenho defensor da liberdade de expressão e do uso da razão contra a superstição. O romance O Segredo de Espinosa, do autor moçambicano José Rodrigues dos Santos (Editora Planeta), é baseado na biografia do filósofo judeu de origem portuguesa nascido nos Países Baixos, Bento de Espinosa. Considerado um gênio na comunidade judia de Amsterdã (seus pais eram imigrantes fugidos da inquisição em Portugal) e cotado para ser um grande líder religioso, acabou sendo expulso ainda muito jovem de sua comunidade após passar por um cherem, o equivalente judeu da inquisição. Entre as ideias heréticas de Espinosa estavam que a Bíblia foi escrita por homens comuns e que o povo judeu não tinha nada de especial em relação aos demais povos. Embora ficcionado, o romance traz nas falas do filósofo toda a construção de seu pensamento, que continua inovador, sobretudo nestes tempos em que a humanidade parece regredir à época onde a superstição estava à frente da razão. Para Espinosa, Deus é o universo e, por isso, infinito. Os humanos são parte dele, assim como todo o restante da natureza. O filósofo chocou até seus contemporâneos, como Thomas Hobbes, ao sustentar que milagres não existiam porque a natureza não atua fora de suas regras. Essa afirmação o levou também à conclusão de que não existe o livre-arbítrio, pois tudo está ligado a causas e efeitos da natureza. O grande desafio, disse Espinosa, é criar uma ética em um mundo sem livre-arbítrio, no qual a liberdade é “a de compreender o meu comportamento e, através dessa compreensão, libertar-me das paixões e passar a usar a razão”. Sem um Deus que vá te castigar ou promessa de uma vida no além, ser ético significa buscar a alegria no amor e na generosidade, pois quem se diz crente, mas só pratica a virtude movido por medo ou interesse, não é um verdadeiro crente.
Escassez global de água já é realidade

Quando Marussia Whately e eu fechávamos nosso livro sobre água em 2016, ainda sob o impacto da crise hídrica no Estado de São Paulo em 2015, discutimos muito o título da obra. Será que O Século da Escassez era trágico demais? Mesmo que nossas pesquisas mostrassem ser para esse lugar que caminhávamos, queríamos acreditar ser possível evitar, ou pelo menos retardar, o que se avizinhava. Acabamos mantendo a ideia original, mas incluímos como subtítulo do livro, lançado pela Editora Claro Enigma/Companhia da Letras, a frase “uma nova cultura de cuidado com a água: impasses e desafios”. Terminamos o texto com um apelo ao leitor: “A todos nós cabem, em primeiro lugar, nos informar e discutir o assunto, cobrar ações dos nossos governantes e assumir com eles o desafio de garantir um futuro seguro e sustentável para a água, porque sem ela não existe futuro”. Passados dez anos, e com as represas que abastecem São Paulo em seu pior nível desde a crise de 2015, vemos que nosso título não tinha nada de sensacionalista. Acaba de ser lançado, pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (ONU), o relatório Falência Hídrica Global, segundo o qual o abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas. Conforme o estudo, muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num ponto sem volta, em que o volume de água extraída é muito maior que a reposição natural. Cruzar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados. O diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, disse que “muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”. A situação afeta áreas responsáveis por quase metade da produção global de alimentos. Falando a jornalistas em Nova Iorque, ele afirmou que se a humanidade continuar a lidar com essa falta como uma crise temporária e soluções de curto prazo, “o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”.
Os lados do Quadrado

Uma de minhas leituras mais interessantes no ano passado foi Coisa de Rico, do Michel Alcoforado. A maior bizarrice do livro é a existência em si dos milionários e a concentração de renda no país. Se abstraímos esta parte, o livro é muito divertido, sobretudo por nos mostrar a obsessão dessa classe por exclusividade e sua dificuldade em estar sempre dentro dos códigos dos muitos ricos para se manter pertencente. Passando férias em Porto Seguro, no sul da Bahia, uma das mecas dos ricos paulistas e mineiros, é impossível não pensar na antropologia do Alcoforado. Primeiro porque se um rico ou aspirante a rico ler este texto, de cara ficará indignado por eu falar Porto Seguro, que é o nome do município e a localidade frequentada por adolescentes e humanos mortais (leia-se classe média). Milionários frequentam condomínios e praias praticamente fechadas de Trancoso. Nem pelas estradas eles passam, o trânsito de helicópteros parece a chegada do Aeroporto de Congonhas que vejo aqui de casa. Fiquei em Arraial d’Ajuda, que é o destino intermediário. Tem um centrinho charmoso em volta da rua Mucugê e praias deliciosas, caríssimas para o padrão da maioria dos brasileiros (pra sentar nas barracas precisa desembolsar entre R$ 100 e R$ 200 por pessoa), mas lotadas. Muito rico deve ter urticária até quando voa por cima. Quem quiser ver na prática como essas divisões de classe funcionam, porém, o melhor é ir ao Quadrado, a simulação de uma vila litorânea tradicional, que funciona como o centrinho de Trancoso. Vale a pena a visita também porque é lindíssimo, sobretudo ao anoitecer, quando ainda é possível enxergar a praia do alto da falésia enquanto as luzinhas dos restaurantes e lojas começam a acender. Apenas uma voltinha ao redor do campo de futebol que delimita o quadrado do nome é suficiente para entender o lugar. Aparentemente, o campo de futebol foi o que restou para a população local e a molecada efetivamente joga bola por lá. O lado da entrada é formado por uma feirinha. O povão não passa dali. No outro extremo, há a praia, a vista, alguns ambulantes e a igrejinha. Os outros dois lados do quadrado são formados por restaurantes e lojas descoladas, onde está o mais interessante: os dois lados são praticamente iguais, a diferença é que os restaurantes à esquerda de quem chega são muito mais caros do que os da direita. Quando estivemos lá, fomos metidos e escolhemos o que achamos mais bonito do lado esquerdo. Gringos e turistas normais como nós, ocupavam as mesinhas do lado de fora, onde o clima praiano é o charme. Deu para perceber que os habituês passavam direto para o lado de dentro, mais privê e sofisticado. Soubemos por um dos garçons, que o dono possui vários outros restaurantes ali mesmo, mas tem um bufê que serve o condomínio chique ali pertinho. O restaurante era caro como os restaurantes bem caros de São Paulo, com carta de vinho começando quase nos R$ 300 e terminando nem precisa dizer onde. Mas nos 15 dias que fiquei na cidade, foi o único vinho branco que me serviram quente. A lagosta estava borrachuda e tive uma diarreia terrível durante a noite. Isso que dá não ficar no seu lugar.
Minhas leituras: Voltar a quando

Lançado no final de 2025, quando a crise na Venezuela só fazia aumentar e seus desdobramentos atuais se anunciavam, Voltar a Quando, de María Elena Morán, escritora venezuelana radicada no Brasil, é uma grande oportunidade de conhecermos a dimensão humana da crise humanitária vivida em nosso país vizinho. No romance, ganhador do prêmio literário espanhol Café Gijón de Novela, acompanhamos Nina, cuja família era admiradora fervorosa de Hugo Chávez, ver todos os sonhos irem por água abaixo a partir da ascensão de Nicolás Maduro e a consolidação de uma ditadura na Venezuela. Ao mesmo tempo que o país desmorona, levando a população à extrema pobreza, vão junto o casamento de Nina e o mínimo de segurança que carregava, a partir da morte de seu pai. Desesperada, ela decide imigrar para o Brasil, deixando a filha aos cuidados da mãe em Maracaibo, a decadente e esvaziada cidade petroleira venezuelana, onde Morán também nasceu. Como boa literatura latino-americana, Voltar a Quando é escrito em várias vozes e traz aquele cadinho de realismo mágico do qual somos feitos, talvez a única forma de encarar realidades difíceis que se repetem incansavelmente desde que o continente foi invadido e colonizado. Além daquele frio na espinha recorrente de encarar o que regimes autoritários podem causar, sejam de direita ou esquerda, o romance causa o mal-estar pelo pouco que sabermos da realidade tão próxima do venezuelanos, tanto os que persistem no país quando os muitos que atravessam as fronteiras e estão aqui convivendo conosco, tentando se erguer e se recuperar dos traumas em nosso país. O mais legal, porém, é todas estas questões, apesar de fundamentais, serem coadjuvantes em uma história de amor e aventura, que passa por Venezuela, Brasil, México e Estados Unidos, sem nos deixar piscar.