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PaulistanaSP

Publicação traz propostas para COP 30

A COP 30, que é a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, está chegando, é no Brasil, a maior nação poluidora do mundo não apenas não vai participar, como seu inominável líder é o maior negacionista do clima do planeta. E o assunto corrente é se haverá lugar para o povo se hospedar em Belém do Pará. Claro que este é um tema importante, sem os negociadores presentes, não há decisões na conferência, mas o foco mesmo da coisa parece perder relevância na boca do povo. O documento Propostas para uma Transição Climática Global para o Setor do Uso da Terra, da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que ajudei a editar, lançado na Climate Week, em Nova York na semana passada, traz algumas pistas da responsabilidade e das oportunidades do Brasil como organizador do evento. Responsabilidade, porque mais de três quartos das emissões brasileiras estão vinculadas diretamente à terra e ao setor agropecuário – sendo 46,2% de mudanças no uso da terra e florestas e 27,5% da agropecuária. Esses números evidenciam que nenhuma estratégia climática será bem-sucedida sem uma abordagem consistente para agricultura, florestas e outros usos do solo no Brasil. É também uma oportunidade, porque a conferência será realizada no coração da Amazônia, oferecendo ao Brasil a chance de apresentar ao mundo não apenas compromissos, mas soluções concretas de implementação que conciliam produção, conservação e inclusão social. É uma chance que ganha ainda mais relevância quando se observam as incertezas geopolíticas do cenário internacional – marcado pela retração do multilateralismo e por conflitos armados – e a intensificação de eventos climáticos extremos – como secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais -, que ameaçam a produção agrícola, agravam a crise hídrica e expõem populações vulneráveis à insegurança alimentar. Para a Coalizão, o êxito da COP 30 deverá ser medido não apenas por resoluções diplomáticas, mas pela capacidade de transformar compromissos presentes em conferências anteriores em implementações tangíveis. Entre os avanços concretos esperados de sucesso estão: a mobilização de novos fluxos financeiros internacionais, em escala compatível com a emergência climática; avanços concretos na transição energética; e a aprovação do Marco Global da Adaptação. Em relação específica ao uso da terra, espera-se a criação de mecanismos internacionais melhores que os atuais e que remunerem de forma efetiva a conservação e a restauração de florestas e outros ecossistemas tropicais; o estabelecimento de compromissos claros para redirecionar subsídios a combustíveis fósseis para Soluções Baseadas na Natureza, que promovam conservação, produção de alimentos e bioenergia; e o desenvolvimento de iniciativas globais de recuperação de solos agrícolas. A publicação e um sumário executivo estão disponíveis no site da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Tristeza pela morte do idealizador das cidades esponjas

Fiquei consternada com a morte do arquiteto chinês Kongjian Yu em um acidente aéreo no Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Yu foi o criador do conceito de cidades esponja, uma das melhores definições para cidades sustentáveis, harmônicas com o meio ambiente e resilientes às mudanças climáticas. Escrevi sobre o paisagista e as cidades esponja na publicação Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas, lançada em fevereiro deste ano pelo Instituto Água e Saneamento (IAS). No trecho sobre o tema, reproduzido abaixo, dá para ter uma ideia da importância de Yu e de seu legado. Cidades esponjas na China Uma cidade-esponja é aquela com capacidade de deter, limpar e infiltrar águas usando soluções baseadas na natureza. Para entrar nessa categoria, uma cidade precisa encontrar soluções que ajudem a absorver as águas de chuva, seja em áreas livres ou construídas. Essas águas vão recarregar os aquíferos e lençóis freáticos, enquanto o excedente de chuva escorre para áreas possíveis de serem alagáveis. Várias cidades pelo mundo têm aderido a elementos característicos de cidades-esponja, como Nova York, nos Estados Unidos, Berlim, na Alemanha, Copenhague, na Dinamarca, Bangcoc, na Tailândia. Mas a grande referência mundial é a China, com 16 cidades adaptadas a esse conceito, incluindo metrópoles como Pequim e Xangai, além de mais de 250 cidades com projetos usando os mesmos princípios. O país passou a investir nesse tipo de intervenção urbanística a partir de 2012, quando uma grave enchente matou cerca de 80 pessoas em Pequim. Atualmente, a capital chinesa possui uma área de 150 hectares criada para absorver a água pluvial e evitar que tragédias semelhantes se repitam. Outras cidades do país que passaram por intervenções desde então são Xangai, Zhoushan, Suzhou Xi’na e Jinhua. A cerca de 350 km de Xangai, esta última com algumas das mais belas construções seguindo esses conceitos e uma das vitrines chinesas com seus enormes parques com passarelas suspensas e solo alagável. Uma das causas desse protagonismo é o paisagista chinês Kongjian Yu, professor da Universidade de Pequim, criador do conceito de cidade-esponja. Pelo pioneirismo, ele recebeu, em 2020, o prêmio Sir Geoffrey Jellicoe, da Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas, e, em 2023, o Prêmio Internacional de Arquitetura Paisagística Cornelia Hahn Oberlander. Ao perceber o avanço da infraestrutura cinza, com o aumento do concreto nas cidades (canalizando rios e impermeabilizando grandes áreas), Yu passou a praticar um urbanismo que privilegia a natureza para lidar com enchentes, priorizando grandes áreas alagáveis e presença de vegetação nativa. Isso torna as cidades uma espécie de esponja, com capacidade para receber inundações deixando a água escoar lentamente. Entre as medidas que tornam uma cidade esponja estão: a criação de áreas verdes como parques alagáveis; a reconstrução das margens dos rios, com a retirada de concreto e replantio de matas ciliares; implementação de jardins de chuva ou áreas verdes espalhadas pela cidade; criação de telhados verdes, para reduzir a taxa de escoamento da chuva; introdução de tecnologias de pavimentação permeável, para também absorver a água. Para o arquiteto chinês, “as enchentes não são inimigas e podemos ser amigos delas usando sabedoria ancestral”. Yu preconiza que muros de contenção são uma ameaça, por funcionarem como uma barreira que impede a água de retornar para o leito dos rios durante transbordamentos, assim como a canalização e retificação de rios, que aumentam a velocidade do fluxo da água ao invés de retardá-la.

O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.

Eventos Extremos, o show

Enquanto São Paulo passava por mais um dia de caos por conta das chuvas na terça-feira (18/2), uma turma animada se reunia na Casa das Caldeiras no final de mais um dia de trabalho de avaliação justamente sobre as mudanças climáticas. Esse pessoal faz parte do Observatório do Clima, uma rede de organizações de todo o Brasil que atua para reduzir as emissões de carbono, minimizar seus efeitos deletérios, divulgar a enrascada em que nos metemos ao não levar a ciência a sério e tentar mudar o rumo dos acontecimentos enquanto é tempo. Quando cheguei lá, no final da tarde, para encontrar alguns desses meus amigos-heróis, ainda não sabíamos que mais uma pessoa (desta vez uma motorista de aplicativo) tinha perdido a vida em uma enchente, nem de todos os estragos na Zona Norte da capital paulista. Aliás, na Zona Oeste, a chuva nem tinha dados as caras ainda. Com todos os motivos para entrar em desespero, essa turma, como eu disse, é muito animada, e otimista. Acreditam que vamos acordar e agir. Gosto de estar com eles porque conseguem me contagiar. Naquele dia, descobri que alguns deles, entre os quais Claudio Ângelo, Gustavo Faleiros e Ricardo Baitelo, ainda conseguem tempo para tocar em uma banda – e não uma banda qualquer. É a Eventos Extremos, nome para não deixar dúvidas sobre a que veio. Com um repertório, na maior parte de versões satíricas de músicas conhecidas, a banda animava os fãs com letras sugestivas como: “Chora, IPCC/Ninguém te deu razão/Queimamos o carvão/E deu ruim/Chora, IPCC/Não tem planeta B/Ninguém ouviu você/E deu ruim/Ah, chupa essa, IPCC/O lobby fóssil ganhou/Nós vamos ferver/Você bem que avisou”. No momento que nos acabávamos na pista dançando ao som de: “Ontem choveu em casa/meu carro afundou/tô sem luz/ e a torneira secou/Mas tá tudo ok/sou negacionista, sem rancor/no meu coração, durmo bem”, os celulares começaram a apitar com mensagens da Defesa Civil sobre a tempestade chegando à região. Alguém da organização avisou para que ninguém saísse, porque as ruas ao redor estavam todas inundadas. Não nos restou nada a fazer, a não ser continuar a festa, com a certeza de tempos de muito sucesso para a Eventos Extremos.

O paradoxo das motos em São Paulo

motos

Se existe um tema sem solução fácil é a proliferação de motos em São Paulo. O novo capítulo sobre o imbróglio é a implantação pelos aplicativos de transporte de mototáxis à revelia da proibição municipal. A modalidade foi disponibilizada, com enorme sucesso entre os usuários, nas áreas fora do centro expandido, ou seja, nas áreas periféricas, onde o sistema de transporte é mais precário. Desde que ouvi a notícia fiquei me perguntando o que poderia dizer para uma pessoa que leva horas para ir e vir de qualquer lugar, em um trânsito caótico, dentro de ônibus, metrô e trem lotados e caros, que a convença de que a opção de ganhar um tempo precioso a um custo mais barato é uma má escolha. Sob o ponto de vista de segurança, será que caminhar o equivalente a dois a três pontos de ônibus à noite na volta do trabalho é mais seguro do que na garupa de uma moto? E pegar um ônibus, que pode demorar bastante pelo mesmo preço da moto, é vantajoso? O tema é difícil para o cidadão, ainda mais que seu bem-estar não está em discussão entre as partes dessa briga de foice. Os aplicativos querem lucrar e o prefeito (não se iludam) está preocupado com a concorrência para os ônibus, não com a segurança da população. Caso contrário, Ricardo Nunes não esperaria quatro anos à frente da prefeitura para se dar conta que as motos são um perigo fora de controle.  Os acidentes e mortes de motoqueiros só fazem crescer nos últimos anos e seus condutores parecem ter sido liberados totalmente de seguir normas mínimas de trânsito: parar em semáforos vermelhos, não entrar na contramão ou fazer conversões proibidas, não ultrapassar pela direita, dar prioridade aos pedestres e toda a lista de regras do Detran. Sob a desculpa de que motoboys precisam trabalhar e que a cidade pararia sem os entregadores, autoridades se abstêm de fiscalizar e a população já entregou pra deus. Por que tanto escândalo por causa dos mototáxis? Quer dizer que sou a favor deste tipo de transporte? Absolutamente não. Individualmente, pode ser interessante para o usuário, desde que assuma os riscos de um veículo cujo para-choque é seu próprio corpo. O problema é que a implantação de mototáxis tende a aumentar o número de motos na cidade, sem diminuir o número de automóveis, o que significa que deve crescer, sim, a quantidade de acidentes.  Com isso, há vários impactos coletivos a serem considerados – a sobrecarga do sistema de saúde é o mais óbvio. Cada acidente de moto, porém, provoca congestionamento, prejudicando todo mundo que está circulando em ônibus e automóveis, diminuindo a qualidade de vida de seus usuários. E a poluição já excessiva da cidade. Ou seja, mototáxis não melhoram o trânsito e aumentam as emissões na cidade, com consequências para a saúde e para as mudanças climáticas. Mais uma vez, o interesse privado das empresas e dos usuários, mesmo que justificado neste último caso, é colocado em primeiro lugar em detrimento da coletividade. Ao invés de brigar com os aplicativos de transporte, o prefeito poderia investir esforços em criar alternativas reais para as motos: sistema de transporte barato, quiçá gratuito, além de seguro e sustentável. E fiscalizar se as motos cumprem as leis de trânsito mais do que se carregam alguém na garupa.

Que 2025 seja fresco!

Dois mil de vinte e cinco era para ser um ano tranquilinho. Não temos eleição, copa do mundo, olimpíadas. Há bastantes feriados e o carnaval é no começo de março, ampliando o verão. Mas é por aí começam os problemas, pois não foi só o verão, mas tudo ficou mais quente. Quente de verdade, e não apenas pelo fogo que queima a Califórnia e que, no ano passado, queimou o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica por aqui. Com mais de 1,5º C de temperatura média no planeta, o índice que esperávamos evitar, o fogo deve seguir firme e forte dando as caras neste ano. Assim como as chuvas, que costumavam fechar o verão em março, mas, agora, quem sabe quando e onde vão aparecer. Ou se recusar a aparecer.  Passei as últimas duas semanas em um paraíso à beira mar – a Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte -, onde o tempo ainda é previsível e perfeito para o lazer, entre 25 e 30 graus, e a chuva, quando cai, é pouca e suave nesta época do ano. As praias são limpas, (quase) sem plásticos, (quase) sem caixas de som, bênçãos as quais estava desacostumada. Mas não existe mais refúgio isolado no mundo. A especulação imobiliária já corre solta, à força de gringos que trazem recursos, baratos pra eles e bem-vindos para a população local. As criações de camarão comem o mangue, também na mesma pegada de progresso que destrói a proteção do que lá tem de melhor e mais garantido. Embora nada mais seja garantido de verdade. Moradores e, principalmente, os que dependem o turismo, veem o nível do mar aumentando e a faixa de areia aproveitável abaixo das maravilhosas falésias cada vez menor. É preciso consultar a tabua de marés para escolher o intervalo de tempo, mais curto a cada ano, para caminhar entre as praias, uma das melhores atrações locais.  Nada que tenha me impedido de relaxar e abstrair que o Trump vai assumir na segunda-feira com promessas hitlerianas para o mundo, que as big techs perderam de vez o pouco pudor que fingiam ter e as fake news sobre o PIX escancararam o que vem pela frente. Para quem gosta de viver e deste planeta como eu, aconselho muita meditação, calma e uma disposição otimista para a luta. Sejamos serenos e bem-humorados, sem usar óculos cor-de-rosa, por favor, porque excesso de tolerância com a insanidade e falta de realismo não vão nos tirar do buraco. Sei que estou um pouco atrasada, mas Feliz Ano Novo, que seja fresco pra todo mundo!