Dia da Água deveria ser feriado

Se tem uma data que deveria ser feriado é o Dia Mundial da Água (23 de março). Não estou sugerindo a criação de mais um feriado nacional – embora não tenha nada contra… -, apenas gostaria que se desse a devida importância ao tema. Vivo em uma cidade onde perdemos quase totalmente o vínculo com ela, nossos rios estão poluídos, cercados de carros ou enterrados, na maior parte, para os mesmos carros passarem. Nossa água vem encanada e privatizada, ou seja, serve ao lucro de poucos, que podem decidir quem recebe e quando. E no país que concentra mais de 12% das águas doces superficiais do planeta, com rios sensacionais como o Amazonas, Tocantins, São Francisco e Paraná, entre milhares de outros, é desalentador pensar que 6,6 milhões de domicílios não recebem água regularmente, que 32 milhões de brasileiros (mais de 15% da população) não têm acesso a água tratada e 91,3 milhões não têm esgotamento sanitário. Ou seja, os dejetos vão direto para os rios e o oceano. Pensar que comecei minha caminhada de ativista ambiental nos anos 1980 pedindo a despoluição do rio Tietê, que continua cortando São Paulo emporcalhado, é bem triste. Sempre faltam recursos para o saneamento ambiental por aqui. Tudo avança lentamente, enquanto a poluição e as mudanças climáticas estão gritando que não há mais tempo para firula, é preciso agir. E, quando opino contra a privatização da água, sempre há dados a me deixar mais indignada. Vi um levantamento da Agência Pública de que 50 empresas tem o direito de utilizar 5,2 trilhões de litros de água anualmente, quantidade suficiente para abastecer quase 50% da população brasileira no mesmo período. São empresas do agronegócio, sulcroalcooleiras, de papel e celulose, principalmente, que usam a água sem pagar. Ou seja, ela é privatizada só para a população. A situação é grave, mas há soluções. O Instituto Água e Saneamento (IAS) acaba de completar a série de publicações que abordam os desafios e apresentam soluções para o saneamento básico a partir da crise climática. São quatro volumes, dos quais participei da produção de três: Adapação e Saneamento, Chuvas e Águas Urbanas, Água de Beber e Água, Esgoto e Higiene (WASH). Os conteúdos incluem temas como drenagem urbana, manejo das águas pluviais, garantia de água potável, além das relações entre saneamento, dignidade humana e saúde pública. Estão disponíveis para download no site do IAS.
Bebês-árvores dão esperança no amanhã

O Brasil tem a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 em todos os biomas. Faz parte do compromisso do país para combater as mudanças climáticas. O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, porém, tem um propósito ousado para o bioma: recuperar 15 milhões de hectares até 2050. Diferente de um compromisso internacional, o Pacto é resultado de uma grande coalizão que reúne organizações ambientais, governos, empresas, proprietários rurais, universidades e centros de pesquisa — hoje, cerca de 300 membros participam ativamente. Nesta semana, estive na Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), ong catarinense, com sede em Atalanta, pequeno município do Alto Vale Itajaí, uma das organizações mais atuante no Pacto. Além de manter um dos maiores viveiros de mudas da Mata Atlântica do Brasil, com uma diversidade de cerca de 200 espécies, já plantaram aproximadamente 9 milhões de árvores. Acompanhar a equipe da Apremavi é daquelas coisas que fazem a gente recuperar um pouco da confiança no mundo. Dá para imaginar o quanto a atuação deles é difícil, ainda por cima em um estado onde os ruralistas dão as cartas? Sem se intimidar, a equipe da organização faz o trabalho de formiguinha de convencer produtores rurais a restaurar suas matas ciliares e áreas de reserva legal em Santa Catarina e no Paraná, fornecendo mudas e assessoria técnica. E, para garantir a recuperação e conservação de grandes áreas, compra terras para restaurar e transformar em reservas particulares do patrimônio natural (RPPN). Seus fundadores também estiveram à frente da criação das principais áreas de preservação federais nos últimos 30 anos na região Sul do país. Participei de uma visita técnica em áreas de restauração em duas áreas da Apremavi, a Fazendo Serra Pitoco e o Sítio Nascentes do Rio Santo Antônio, ambas na Serra do Pitoco, onde verificavam como estavam os plantios e discutiam técnicas de recuperação e como podem ser melhoradas. Vibravam como o crescimento dos bebês-árvores como se fossem uma das últimas esperanças da humanidade. E, para falar a verdade, acredito que sejam mesmo.
As tartarugas e o aquecimento do oceano

Nunca havia me deparado com tartarugas mortas na praia, até encontrar duas em menos de uma semana agora em janeiro, no sul da Bahia. É triste de ver, ainda mais porque a maior parte dessas mortes estão ligadas a ações humanas. Muitas delas sucumbem por se enroscar em redes de linhas de pesca ou ingestão de lixo, especialmente plástico. Nas que presenciei, porém, não dava para saber se tiveram algum desses problemas. Sem ser especialista, acredito que um fator agravante que pode estar aumentando a vulnerabilidade desses animais é o aquecimento do oceano. Pelo que pesquisei, as tartarugas marinhas são ectotérmicas, ou seja, dependem da temperatura externa para sobreviver. Quando a água fica muito quente, o metabolismo acelera, elas gastam mais energia e ficam mais suscetíveis a doenças e infeções. O Nordeste brasileiro tem enfrentado ondas de calor marinho, com águas entre 3º C a 5º C acima do normal em alguns trechos. Como uma banhista apaixonada por praia, sinto isso na pele. No meu caso, costuma ser bom, mas sabemos que é péssimo para os corais e todos os demais animais marinhos, incluindo as tartarugas. Outra consequência ruim do aquecimento global são as areias mais quentes aumentarem a mortalidade dos embriões depositados nas praias e alterarem a proporção de machos e fêmeas, pois a temperatura define o sexo, o que pode afetar populações no longo prazo. Ainda sobre observações das férias, vi apenas uma área demarcada como ninho de tartarugas marinhas, na Praia da Lagoa Azul (Arraial d’Ajuda), colocada pela dona de uma barraca de praia. Em locais em que há Projeto Tamar, estas marcações são comuns. Nesta praia, relativamente pouco movimentada, vi uma mulher jovem, mas adulta, que não se aguentava de vontade de invadir o cercadinho dos ovos. Parecia obsessão. A toda hora ia até lá, chacoalhava as varetas, ficava rodeando e às vezes ameaçava enfiar o pé lá dentro. Acho que só não concretizou o intento pela reza do meu marido, sabedor de que eu estava pronta para entrar em ação se isso acontecesse.
Escassez global de água já é realidade

Quando Marussia Whately e eu fechávamos nosso livro sobre água em 2016, ainda sob o impacto da crise hídrica no Estado de São Paulo em 2015, discutimos muito o título da obra. Será que O Século da Escassez era trágico demais? Mesmo que nossas pesquisas mostrassem ser para esse lugar que caminhávamos, queríamos acreditar ser possível evitar, ou pelo menos retardar, o que se avizinhava. Acabamos mantendo a ideia original, mas incluímos como subtítulo do livro, lançado pela Editora Claro Enigma/Companhia da Letras, a frase “uma nova cultura de cuidado com a água: impasses e desafios”. Terminamos o texto com um apelo ao leitor: “A todos nós cabem, em primeiro lugar, nos informar e discutir o assunto, cobrar ações dos nossos governantes e assumir com eles o desafio de garantir um futuro seguro e sustentável para a água, porque sem ela não existe futuro”. Passados dez anos, e com as represas que abastecem São Paulo em seu pior nível desde a crise de 2015, vemos que nosso título não tinha nada de sensacionalista. Acaba de ser lançado, pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (ONU), o relatório Falência Hídrica Global, segundo o qual o abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas. Conforme o estudo, muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num ponto sem volta, em que o volume de água extraída é muito maior que a reposição natural. Cruzar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados. O diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, disse que “muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”. A situação afeta áreas responsáveis por quase metade da produção global de alimentos. Falando a jornalistas em Nova Iorque, ele afirmou que se a humanidade continuar a lidar com essa falta como uma crise temporária e soluções de curto prazo, “o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”.
Exposição retrata vida das pessoas por trás da crise hídrica

“A nossa seca está ofendendo muita gente”. “Se eu tivesse tido uma oportunidade ao longo da vida de ter um poço de água, eu teria até bens materiais”. Ao invés de encobrir, a beleza plástica das fotos de Érico Hiller torna mais impactantes as fotos da exposição Água, que o fotógrafo inaugurou nesta semana no MIS-SP. As frases acima ilustram algumas das mais de 30 imagens de pessoas lutando para sobreviver em situação de carência hídrica testemunhadas pelo artista nos últimos dez anos e revelam as histórias humanas por trás da crise da água que só faz aumentar diante das mudanças climáticas. A mostra conta com fotografias coloridas, feitas na Etiópia, Índia, Palestina, Jordânia, Bolívia, países onde a água aparece em sua dimensão universal — fonte de sobrevivência, beleza e contraste. Já na série em preto e branco captada no Brasil, o olhar se volta ao contexto nacional, ressaltando a força poética e crítica desse elemento em nossas paisagens e comunidades. Completando a experiência, uma sala exibe um vídeo de bastidores de cerca de sete minutos, que mergulha no processo criativo e nas vivências do fotógrafo durante a construção deste projeto. Mais do que um registro visual, a exposição convida o público a refletir sobre a urgência de preservar a água, compreendendo-a não apenas como recurso, mas como elo vital que sustenta toda a vida no planeta. Em uma semana em que o Congresso Nacional deu mais uma demonstração de desprezo pela vida de quem deveriam estar garantindo os direitos básicos, as fotos de Hiller deixam também um gosto é de revolta. Imaginar o retrocesso representado pela anulação aos vetos presidenciais que tentavam diminuir o impacto nefasto na legislação ambiental do país, é de doer o estômago. Não é demais repetir que a maior parte das consequências das mudanças climáticas – e o desmatamento é uma de suas grandes causas – chegam até nós por meio da água, seja por sua falta ou excesso causado por eventos extremos. Segundo Hiller, “Água é um minúsculo recorte do Brasil e do mundo nesta década quente dos anos 2020. A crise climática é o pano de fundo da cena planetária que, somada à má distribuição e ao uso indevido dos recursos naturais, torna a vida de milhões um verdadeiro calvário”. A exposição fica em cartaz até abril do próximo ano, aquele em que poderemos mudar o jogo de forças no Congresso, que tem nos levado ladeira abaixo.
Paz e sustentabilidade por meio da espiritualidade

Mais uma vez no Brasil, desta vez para participar da COP30, em Belém, a líder espiritual indiana Jayanti Kirpalani fará uma palestra no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 27 de novembro, com o tema “Fazendo escolhas que cuidam de nós mesmos e do planeta”. Na ocasião, ela será entrevistada pela jornalista Darlene Menconi, produtora de conteúdo sobre resiliência climática e pesquisadora em cidades inteligentes e sustentáveis. Diretora administrativa adjunta da Brahma Kumaris (BK), maior organização espiritual do mundo liderada por mulheres, Sister Jayanti, como é conhecida, esteve no país em 2019, quando a entrevistei para o blog Mulheres Ativistas, do portal Conexão Planeta. Líder espiritual e professora há mais de 50 anos, é pioneira na defesa do cuidado com a terra a partir de uma base espiritual. Para ela, o materialismo e o consumismo afastaram o ser humano da natureza, que passou de lugar sagrado em todas as culturas, para algo a ser explorado. O resultado mais visível atualmente são as mudanças climáticas causadas por esse estilo de vida. Representante da Brahma Kumaris na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1982 e nas conferências anuais do clima desde 2009, a indiana procura inserir princípios espirituais nas mesas de discussão de políticos, economistas, líderes empresariais e cientistas. Veja a entrevista em https://conexaoplaneta.com.br/blog/jayanti-kirpalani-paz-e-sustentabilidade-por-meio-da-espiritualidade/ ou abaixo. A palestra no Sesc Santana começa às 19 horas de sexta-feira. A entrada franca, mas é necessário retirar ingresso pelo link https://www.sescsp.org.br/programacao/fazendo-escolhas-que-cuidam-de-nos-mesmos-e-do-planeta/ ou no dia do evento no local, a partir das 18 horas. – Como foi o seu despertar para a espiritualidade? Embora não tenha perdido meu contato com a Índia, onde ia com a família para passar férias desde nossa mudança para a Inglaterra, aos 19 anos, em 1968, resolvi passar mais tempo no país, conhecer mais sobre nossa cultura. Minha mãe já tinha contato com a Brahma Kumaris e procurei um dos seus centros de meditação atrás de algo que me ajudasse a tomar melhores decisões na vida. Passei seis meses estudando e buscando meu desenvolvimento pessoal. Lá, encontrei o fundador da organização, Brahma Baba, que me perguntou o que eu queria dizer ao mundo. Naquele momento, soube que minha vontade era ser uma professora espiritual e inspirar pessoas. E essa foi minha jornada. Em janeiro de 1969, Baba faleceu e foi um momento de virada para a organização, quando duas mulheres passaram a ser as dirigentes. Isso foi possível porque, desde que a Brahma Kumaris foi criada, em 1937, existia a visão clara que, se quiséssemos um mundo de paz, precisávamos de igualdade entre os gêneros. Por isso, sempre houve treinamento de mulheres, como os que participei, para ser líderes. Essa postura era revolucionária na época na Índia e no mundo todo. – Você foi a primeira pessoa a levar a Brahma Kumaris para fora da Índia? Sim. Em 1969, voltei para Londres pensando em iniciar as atividades da organização para a Europa. Passei dois anos fazendo contatos com várias organizações até que, em 1971, uma delegação da Brahma Kumaris foi até lá para apresentar sua filosofia para a comunidade ocidental e fundamos o primeiro Centro de Meditação fora da Índia. Em 1981, estávamos em 30 países com nossa filosofia de paz individual e mundial. Em 1986, quando coordenávamos atividades do Ano Internacional da Paz, da ONU, criamos em Londres o primeiro escritório internacional, do qual sou dirigente, para agilizar a comunicação entre os países. Hoje, estamos em todos os continentes. – Qual a afinidade entre a Brahma Kumaris e a ONU? Somos filiados à ONU como uma organização não-governamental. Nosso propósito é a paz, o que também é a meta das Nações Unidas, por isso estamos conectados. Um ano antes do Ano Internacional da Paz, em 1985, houve o Festival Live Aid, para arredar recursos para a combater a fome na África. Vimos que as pessoas queriam doar mais do que dinheiro. Queríamos pedir algo mais valioso e as convidamos a doar tempo, minutos para orar, meditar ou ter pensamentos puros pela paz. Uma escola que decidisse dedicar três minutos de uma assembleia com mil alunos para isso, representaria três mil minutos de pensamento pela paz. O Projeto Mensageiro da Paz surgiu daí. Era uma técnica simples para tornar as pessoas perceptivas de que podem fazer algo pela paz no mundo. A meta era que começassem a ter pensamentos pacíficos para experimentar a paz que existe em cada ser humano e iniciassem uma jornada em direção à paz. Chegamos a bilhões de minutos pela causa, em 60 países diferentes. Com esse projeto ganhamos vários reconhecimentos da ONU e fomos considerados a entidade sem fins lucrativos que mais atuou pela causa naquele ano. A partir dali, passamos a desenvolver vários programas junto à ONU para mulheres, idosos, saúde, desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, estamos conectados com o tema de mudanças climáticas. – A campanha pela paz teve continuidade? A ONU se interessou pelo nosso trabalho e pediu que continuássemos com ele, o que resultou no Projeto de Cooperação Global por um Mundo Melhor, que durou de 1988 a 1991 e chegou a reunir 128 países. Nele, perguntávamos para as pessoas: qual a sua visão para um mundo melhor? Como vê os relacionamentos nesse mundo? Como se vê nele? Quais os passos práticos que você pode dar para tornar esse mundo melhor uma realidade? Cada um podia fazer o que quisesse. Por exemplo, uma família na Grécia tomou a decisão de pegar um cômodo da casa para ser uma zona livre de queixas. Engraxates mirins do Brasil, que brigavam muito entre eles, resolveram que iriam cooperar, emprestando seus equipamentos, como escovas, uns aos outros. – Por que a Brahma Kumaris se envolveu tão fortemente com as mudanças climáticas? Trabalhamos junto à ONU com o propósito de mostrar que existe uma dimensão espiritual em todas as pessoas. Mas a consciência humana criou uma forma materialista de viver. Nos tornamos uma sociedade consumista. Materialismo e consumismo nos distanciam da natureza. A espiritualidade nos lembra que a natureza é algo sagrado, por isso é
A COP e a mudança para Marte

A crise climática tem ocupado maior espaço nas mídias e na boca do povo nestes dias de COP 30 acontecendo no Brasil. No noticiário, porém, o que prevalece são a presença de autoridades e celebridades, manifestações populares, perrengues relacionados à produção do evento e hospedagem de milhares de pessoas na cidade amazônica e discussões, na maior parte incompreensíveis, sobre acordos e promessas de financiamento. Fica uma sensação de que, ao invés de esclarecimento e adesão à causa, as pessoas acabam de bode do assunto. Isso acontece porque a conferência anual das partes (ou países signatários) da Convenção do Clima é um espaço para os representantes dos países retificarem coisas que foram negociadas ao longo do ano, enquanto ambientalistas e cientistas tentam dar visibilidade às pautas climáticas e lobistas do setor petroleiro vender a imagem de que são bacanas enquanto tentam melar tudo. Mesmo pra quem está acostumado a seguir o assunto rotineiramente, é muito difícil acompanhar para onde a banda vai tocar. Como meros mortais, sem poder de influenciar o que acontece em Belém, poderíamos aproveitar o ensejo para nos inteirarmos do tema e sabermos o que podemos fazer, no nosso dia a dia, para ajudar a conter a tragédia que se avizinha se deixarmos tudo apenas nas mãos do entourage da COP e dos negacionistas das mudanças climáticas. Uma boa fonte para tanto é o livro Mude ou Mude-se para Marte – Um empurrãozinho para uma vida com hábitos mais sustentáveis, da jornalista Giane Gatti, lançado no finalzinho do ano passado. O título entrega o que está dentro de forma bem-humorada. O mais bacana, porém, é a capacidade da autora de abordar temas tão indigestos com uma linguagem simples e deixar uma mensagem de esperança sem pieguismo, o que anda difícil ultimamente. Giane inicia seu relato narrando como tudo começou e como nos metemos nessa enrascada, contando como nós, os humanos, ocupamos e transformamos a Terra, sobretudo nos últimos 200 anos, a ponto de comprometermos nossa própria sobrevivência. Nos mostra como a maneira como comemos e consumimos é insustentável e vem provocando as três grandes crises do planeta: mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição. Além de dividir sua própria jornada para uma vida mais sustentável, Giane traz uma dimensão espiritual sobre o tema, abordagem incomum, mas necessária, numa época em que tudo é medido por dinheiro. “Meu desejo é mostrar, neste livro, como a contribuição de cada um é fundamental. Devemos assumir nosso papel de agentes transformadores. Não subestime sua capacidade de agir e acredite que dá para fazer diferente”, convida a autora. Às vésperas de um ano eleitoral, pensar em considerar estas questões antes de depositar nossos votos também é uma ótima pedida.
Publicação traz propostas para COP 30

A COP 30, que é a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, está chegando, é no Brasil, a maior nação poluidora do mundo não apenas não vai participar, como seu inominável líder é o maior negacionista do clima do planeta. E o assunto corrente é se haverá lugar para o povo se hospedar em Belém do Pará. Claro que este é um tema importante, sem os negociadores presentes, não há decisões na conferência, mas o foco mesmo da coisa parece perder relevância na boca do povo. O documento Propostas para uma Transição Climática Global para o Setor do Uso da Terra, da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que ajudei a editar, lançado na Climate Week, em Nova York na semana passada, traz algumas pistas da responsabilidade e das oportunidades do Brasil como organizador do evento. Responsabilidade, porque mais de três quartos das emissões brasileiras estão vinculadas diretamente à terra e ao setor agropecuário – sendo 46,2% de mudanças no uso da terra e florestas e 27,5% da agropecuária. Esses números evidenciam que nenhuma estratégia climática será bem-sucedida sem uma abordagem consistente para agricultura, florestas e outros usos do solo no Brasil. É também uma oportunidade, porque a conferência será realizada no coração da Amazônia, oferecendo ao Brasil a chance de apresentar ao mundo não apenas compromissos, mas soluções concretas de implementação que conciliam produção, conservação e inclusão social. É uma chance que ganha ainda mais relevância quando se observam as incertezas geopolíticas do cenário internacional – marcado pela retração do multilateralismo e por conflitos armados – e a intensificação de eventos climáticos extremos – como secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais -, que ameaçam a produção agrícola, agravam a crise hídrica e expõem populações vulneráveis à insegurança alimentar. Para a Coalizão, o êxito da COP 30 deverá ser medido não apenas por resoluções diplomáticas, mas pela capacidade de transformar compromissos presentes em conferências anteriores em implementações tangíveis. Entre os avanços concretos esperados de sucesso estão: a mobilização de novos fluxos financeiros internacionais, em escala compatível com a emergência climática; avanços concretos na transição energética; e a aprovação do Marco Global da Adaptação. Em relação específica ao uso da terra, espera-se a criação de mecanismos internacionais melhores que os atuais e que remunerem de forma efetiva a conservação e a restauração de florestas e outros ecossistemas tropicais; o estabelecimento de compromissos claros para redirecionar subsídios a combustíveis fósseis para Soluções Baseadas na Natureza, que promovam conservação, produção de alimentos e bioenergia; e o desenvolvimento de iniciativas globais de recuperação de solos agrícolas. A publicação e um sumário executivo estão disponíveis no site da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
Tristeza pela morte do idealizador das cidades esponjas

Fiquei consternada com a morte do arquiteto chinês Kongjian Yu em um acidente aéreo no Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Yu foi o criador do conceito de cidades esponja, uma das melhores definições para cidades sustentáveis, harmônicas com o meio ambiente e resilientes às mudanças climáticas. Escrevi sobre o paisagista e as cidades esponja na publicação Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas, lançada em fevereiro deste ano pelo Instituto Água e Saneamento (IAS). No trecho sobre o tema, reproduzido abaixo, dá para ter uma ideia da importância de Yu e de seu legado. Cidades esponjas na China Uma cidade-esponja é aquela com capacidade de deter, limpar e infiltrar águas usando soluções baseadas na natureza. Para entrar nessa categoria, uma cidade precisa encontrar soluções que ajudem a absorver as águas de chuva, seja em áreas livres ou construídas. Essas águas vão recarregar os aquíferos e lençóis freáticos, enquanto o excedente de chuva escorre para áreas possíveis de serem alagáveis. Várias cidades pelo mundo têm aderido a elementos característicos de cidades-esponja, como Nova York, nos Estados Unidos, Berlim, na Alemanha, Copenhague, na Dinamarca, Bangcoc, na Tailândia. Mas a grande referência mundial é a China, com 16 cidades adaptadas a esse conceito, incluindo metrópoles como Pequim e Xangai, além de mais de 250 cidades com projetos usando os mesmos princípios. O país passou a investir nesse tipo de intervenção urbanística a partir de 2012, quando uma grave enchente matou cerca de 80 pessoas em Pequim. Atualmente, a capital chinesa possui uma área de 150 hectares criada para absorver a água pluvial e evitar que tragédias semelhantes se repitam. Outras cidades do país que passaram por intervenções desde então são Xangai, Zhoushan, Suzhou Xi’na e Jinhua. A cerca de 350 km de Xangai, esta última com algumas das mais belas construções seguindo esses conceitos e uma das vitrines chinesas com seus enormes parques com passarelas suspensas e solo alagável. Uma das causas desse protagonismo é o paisagista chinês Kongjian Yu, professor da Universidade de Pequim, criador do conceito de cidade-esponja. Pelo pioneirismo, ele recebeu, em 2020, o prêmio Sir Geoffrey Jellicoe, da Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas, e, em 2023, o Prêmio Internacional de Arquitetura Paisagística Cornelia Hahn Oberlander. Ao perceber o avanço da infraestrutura cinza, com o aumento do concreto nas cidades (canalizando rios e impermeabilizando grandes áreas), Yu passou a praticar um urbanismo que privilegia a natureza para lidar com enchentes, priorizando grandes áreas alagáveis e presença de vegetação nativa. Isso torna as cidades uma espécie de esponja, com capacidade para receber inundações deixando a água escoar lentamente. Entre as medidas que tornam uma cidade esponja estão: a criação de áreas verdes como parques alagáveis; a reconstrução das margens dos rios, com a retirada de concreto e replantio de matas ciliares; implementação de jardins de chuva ou áreas verdes espalhadas pela cidade; criação de telhados verdes, para reduzir a taxa de escoamento da chuva; introdução de tecnologias de pavimentação permeável, para também absorver a água. Para o arquiteto chinês, “as enchentes não são inimigas e podemos ser amigos delas usando sabedoria ancestral”. Yu preconiza que muros de contenção são uma ameaça, por funcionarem como uma barreira que impede a água de retornar para o leito dos rios durante transbordamentos, assim como a canalização e retificação de rios, que aumentam a velocidade do fluxo da água ao invés de retardá-la.
O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.