PaulistanaSP

Foto: Tuba Karabulut

Era uma guerra de mamona e umas dez crianças tentavam se acertar indistintamente no meio da rua de vila em que morávamos. Não havia times, apenas anarquia. O objetivo era atingir quem estivesse pela frente. Até que um dos gêmeos acertou Téo, um dos menorzinhos do grupo, no olho direito. O menino tapou o rosto com as mãos e correu para casa chorando ruidosamente. A meninada se condoeu por alguns segundos, acompanhou a saída do ferido e voltou à luta. Guerra é guerra.

De repente, uma movimentação entre o muro baixo que separava as casas de Téo e dos gêmeos chamou a atenção. A atarracada mãe do atingido mostrava aos berros à mãe do atirador – que ninguém sabia quem era, pois não conseguíamos distinguir os gêmeos – o machucado do filho. Difícil saber o que ela queria exatamente, a não ser, presumo, destilar a raiva por ser interrompida pelo moleque chorão. A outra, por sua vez, que normalmente mais parecia uma linda, loura e frágil mãe de subúrbio americano, desceu das tamancas e, confesso, aprendi muitos palavrões novos naquele dia.

Nessa altura, a guerra estava há muito esquecida. Estávamos todos sentados no muro da casa em frente assistindo ao espetáculo, que ganhava cada vez mais público. Téo havia se juntado a nós e se encaixou entre seu irmão mais velho e um dos gêmeos. Então, minha mãe saiu ao portão e, bastou olhar em nossa direção, eu e meu irmão sabíamos que deveríamos entrar.

Fomos liberados um pouco mais tarde, quando os meninos corriam novamente pela rua e a mãe dos gêmeos aguava placidamente o jardim, enquanto a vizinha de muro varria a calçada, a menos de cinco metros uma da outra. Tempos de paz.

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