Miró exibe poesia em exposição na FAAP

Sou fã de Joan Miró desde adolescente. Quando tive contato com sua obra não entendia nada de arte e continuo sabendo muito pouco, mas as obras do pintor catalão me trazem uma alegria indizível. Visitei a Fundação Joan Miró em Barcelona e foi uma das melhores experiências que tive na vida. Trouxe uma serigrafia de lá, que está em meu terraço. Se fosse milionária, um quadro dele seria meu primeiro investimento. Sendo assim, não perderia por nada a exposição Miró: Mestre das Formas, no Museu de Arte Brasileira FAAP, cujo destaque são as tapeçarias, um lado do artista que nunca tinha visto. É uma mostra bastante representativa do trabalho de Miró, porém, o que me encantou mais e, se pudesse, ficaria admirando todos os dias, são suas pinturas de cores vibrantes e um jeito de desenho de criança, mas que hipnotizam ao retratar quase sempre pássaros, mulheres e estrelas. E, mesmo que nem sempre sejam facilmente identificadas, essas figuras parecem conversar com a gente. Para quem for à exposição, vale muito a pena assistir ao filme exibido ao final da mostra, que aborda o processo criativo de Miró, como foi criando as poucas figuras que marcam seu trabalho e fazem que qualquer um reconheça imediatamente uma obra sua. O documentário apresenta, ainda, a relação do artista com a poesia e acho que descobri aí minha atração por seus quadros: vejo seus desenhos como poemas. Uma fala de Miró a Pierre Matisse, em 1936, afixada na exposição, resume essa simbiose: “Sinto-me atraído por uma força magnética em direção a um objeto, e então sinto-me levado em direção a outro objeto, que adiciono ao primeiro, e a combinação deles cria um choque poético – para não falar do impacto físico formal original, que deixa a poesia realmente tocante. Sem ele, a obra não teria efeito”. Substitua “objeto” por “palavra” nesta fala e temos um poeta trabalhando. Alguns títulos de seus quadros remetem à beleza e ao contentamento que me transmitem, como o meu preferido nesta mostra: “Pássaros ao redor da estrela da esperança”. Lindo demais!
Minhas leituras: Poemas para brincar nas quatro estações

imenso céu azul de repete – movimento – voa a borboleta Nunca tentei fazer haicai e a definição acima é de Yara Fers, na Apresentação do livro Poemas para Brincar nas Quatro Estações, de Francine Cruz, autora do texto que abre este artigo. Descobri esta obra durante a Flip, em Paraty, e continuo encantada com a beleza dos poemas, das ilustrações de Débora Bacchi e a delicadeza das páginas costuradas à mão, marca das publicações da Editora Arpillera, de Camaçari. Só descobri o que é haicai com meus filhos, quando aprenderam na escola. Me encantei pela (aparente) simplicidade dessa poesia curta, nascida em meados do século 17, no Japão. O haicai tradicional, ou kaiku, é composto de três versos, sendo o primeiro com cinco sílabas poéticas, o segundo com sete e o terceiro com cinco. É um poema minimalista, geralmente sem título e sem rimas. O livro traz, ainda, colagens de flores e folhas secas na capa e representando as estações do ano. Isso faz cada exemplar ser único, por isso, numerado. O meu é o 293. É uma obra de arte para ser admirada e exposta com cuidado. Tem cara de presente bem dado. E os poemas para brincar – na primavera, no verão, no outono e no inverso – remetem a alegria e encantamento. Dá para ler em uma sentada, mas fica muito melhor se for apreciado aos poucos, cada verso, cada colagem, cada ilustração, acompanhando as mudanças de estação.
Mostra remete a ruínas metamorfoseadas

Passados dois anos da grande inundação que assolou Porto Alegre, as marcas da tragédia continuam presentes, se não nas ruas e construções, no imaginário traumatizado de sua população. É difícil, para quem vem de fora como eu, conversar com alguém sem que o tema não seja mencionado. Impossível passear pela orla do Guaíba, como fiz alguns dias atrás, sem pensar na vulnerabilidade de uma metrópole rodeada de águas lentas e praticamente ao nível do mar quando as mudanças climáticas entram porta adentro de nossas vidas sem pedir licença. Senti um certo aperto no peito enquanto ia em direção ao Centro Histórico ao lembrar que um El Niño foi o causador das chuvas de 2024 e agora o mesmo fenômeno (e, como dizem, super) volta a se formar com possibilidade de enchentes e inundações no Sul do país. É muito pouco tempo para que as pessoas suportem um novo desastre climático. Meu destino naquele dia era a abertura da exposição 2016-2026 da artista plástica Ana Norogrando, no Museu de Arte do Paço (antigo prédio da Prefeitura). A mostra é formada por um conjunto de esculturas e audiovisuais de extremo impacto ao remeter a ruínas, de corpos e coisas unidas em objetos metamorfoseados que parecem ter vida própria. São fragmentos corporais, membros isolados, próteses, estrutura mecânicas, objetos encontrados, partes industriais e dispositivos tecnológicos rearranjados como ao final de uma tragédia que os carregou e obrigou a se fundirem em uma nova realidade. Vemos um mundo pós-pandêmico e pós-enchente em seu trabalho. Um mundo feito de cacos que tentamos dar forma e sentido. (Veja artigo completo em sler.com.br)
Ataque ao canteiro central

Soluções urbanas dificilmente agradam a todos, mas há opções que vão claramente na contramão das necessidades da cidade, preocupadas em beneficiar (quem sabe) algum pequeno grupo. Um exemplo disso é a destruição do canteiro central da avenida dos Semaneiros, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Enfrentamos um agosto quente e seco, com a ameaça de um super El Niño pela frente, o que pode significar uma seca terrível acompanhada de tempestades idem. Nesse contexto, deveríamos estar preocupados em abrir espaço para o solo e as árvores, para aumentar a capacidade de infiltração e a umidade do ar na cidade. Cada metro quadrado importa. É tempo de criar novas áreas verdes, mesmo pequenas. Tirar asfalto, desencanar rios, plantar árvores, muitas árvores. Mas o que vemos ali é, em nome de aumentar as vagas de estacionamento para carros, a destruição da ciclovia existente, transferindo-a para o canteiro central, aumentando a área impermeabilizada, cortando raízes e espremendo as árvores, acabando com a possibilidade de plantar novas árvores. O engraçado é que, quem estaciona neste local, exclusivamente residencial, são apenas os sócios do Clube Alto dos Pinheiros, do qual sou sócia e espero que não tenha tido nada a ver com esta horrorosa decisão. Frequento o clube diariamente e nunca aconteceu de não encontrar vaga para estacionar à distância de, no máximo, um quarteirão. Além disso, quem para ali, normalmente está indo praticar esporte. Se vai andar na esteira, não custa nada andar um pouquinho para chegar até lá. Mesmo que nem uma árvore tenha sido cortada para a obra (não acredito, pois vi troncos jogados no caminho), elas ficarão fragilizadas, com maior risco de queda durante as chuvas. Além disso, a ciclovia é pouco movimentada e fica dos dois lados da avenida. Poderia tranquilamente se mantida em apenas um dos lados. Como a via é pouco movimentada na maior parte do tempo, muito ciclistas continuarão a andar no meio da rua, pois a ciclovia do canteiro central fará muitas curvas, aumentando o trajeto. Perde a cidade, perdemos todos.
Descobrindo cantinhos em Porto Alegre

O Centro Histórico, por questões familiares, sempre foi meu reduto em Porto Alegre, cidade que há quase 40 anos carrego como parte do meu nome. De uns tempos para cá, no entanto, passei a ficar no Moinhos e Vento, bairro cheio de boas surpresas para uma caminhante. Em primeiro lugar por sua topografia alta, mas suave, um comércio variado e charmoso, os restaurantes balados e o Parcão, o Parque Moinhos de Vento, que não é tão grande assim, mas tem espaço suficiente para um respiro e exercícios. Alguns quarteirões à frente, o Jardim do DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto) é um refúgio tranquilo que acabei de descobrir. Uma pequena área verde aberta ao público, cheio de cantinhos para se sentar e descansar, quem sabe ler um livro. Daqueles locais privilegiados que todos os moradores das cidades deveriam ter, mas sabemos raros nas nossas grandes cidades. O local abriga também uma Galeria de Arte, com acervo de mais de duzentas obras doadas, que podem ser apreciadas de segunda a sexta-feira (exceto feriados), das 8h às 17h30, com entrada franca. O Jardim abriga, ainda, o monumento público mais antigo de Porto Alegre: quatro estátuas que representam os afluentes do Guaíba. As esculturas, em mármore de Carrara, foram idealizadas pelo arquiteto italiano José Obino e instaladas na Capital em 1866. São duas figuras femininas, as Ninfas, que simbolizam os rios Caí e Sinos, e duas masculinas, os Netunos, que representam os rios Jacuí e Gravataí.
Em busca dos caminhos do escritor

O prazer da leitura pode vir de vários lugares. Pode ser o gênero literário, a linguagem do autor, o tema em si. O leitor não precisa saber de onde vem sua identificação com o livro, assim como um quadro pode emocionar sem que se conheça as técnicas ou o movimento artístico a que pertence. Ter noções sobre os métodos artísticos, processos criativos e história da arte, porém, pode enriquecer a experiência. Na literatura, é a mesma coisa. Novo artigo no Sler: Em busca dos caminhos do escritor – Maura Campanili
As cores como experiência

Estive nesta semana, pela primeira vez, no Espaço Cultural Rudolf Steiner, sede da Sociedade Antroposófica no Brasil. Fica em Santo Amaro, em uma região com várias referências desta filosofia criada pelo austríaco Rudolf Steiner no início do século 20, com escola, farmácia e restaurante baseados em princípios antroposóficos na redondeza, além de várias casas com estilo alemão. O espaço cultural tem, ainda, uma biblioteca dedicada ao tema. Por tudo isso, um lugar bacana para se visitar em São Paulo. Fui visitar a exposição de pinturas Véus que Revelam – Experiência entre Luz, Escuridão e Cor, da qual minha amiga Rhauna Damous participa. A mostra, que vai até 7 de outubro, traz dez artistas da Academia de Pintura Hubertus, idealizada por Virgínia Xiol e fruto de um coletivo de estudo, pesquisa e prática da metodologia de Luz, Escuridão e Cor, criada por Liane Collot d’Herbois. Segundo me explicou Rhauna, como todas as atividades que envolvem a antroposofia, esta metodologia vê as cores como seres espirituais com capacidade de nos influenciar diretamente. Fundada durante a pandemia de covid, a Academia reúne um grupo de mulheres movidas pelo desejo de realizar, por meio da pintura, um movimento de fortalecimento interior. A exposição tem como centro os véus de cor e a maneira como dialogam entre si. A ideia é explorar como a luz emerge na escuridão e trazer atmosferas, sentimentos e lembranças despertadas por cada obra, um convite para viver uma experiência em que a cor fala antes das palavras. Tenho pouco contato com a antroposofia; o que sei vem do Programa Germinar, que fiz em 2022. Tirando alguns enfoques um tanto eurocêntricos e religiosos demais, gosto muito deste movimento inicialmente chamado de “ciência do espírito” por Steiner, como uma tentativa de unir a rigidez do método científico à busca espiritual, sem ser uma religião dogmática. A antroposofia desenvolveu práticas para diferentes áreas que movimenta uma legião de seguidores ao redor do mundo, como a arquitetura, medicina e farmácia antroposóficas, educação Waldorf e, o que mais gosto, a agricultura biodinâmica.
Perigos extremos exigem adaptação cognitiva

Como nas temporadas das séries de TV, em que aparecem personagens diferentes para bagunçar geral e dar mais emoção às histórias, nos deparamos com uma nova ameaça relacionada às mudanças climáticas a cada ano. As ondas de calor, a falta de chuva ou as tempestades com volumes de água nunca vistos não foram absorvidas e chegaram, parece que para ficar, as ventanias. Avisos como os da Defesa Civil, em que pese a necessidade de se aprimorarem, precisam começar a ser levados a sério. Leia artigo completo em: Perigos extremos exigem adaptação cognitiva – Maura Campanili
Minhas leituras: Canção para ninar menino grande

Apesar de ser o personagem principal, Fio Jasmin, o menino grande de Conceição Evaristo, não é o protagonista desta escrevivência da autora. Em Canção para Ninar Menino Grande, as mulheres seduzidas pelo ferroviário em suas andanças são as figuras centrais. O livro foi o tema da reunião de julho do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um encontro regado a boas novas em nosso grupo, ligadas a saúde, mudanças e desafios. Cada uma de nós com suas características e questões pessoais, assim como as amantes do homem bonito e sedutor, mas imaturo emocionalmente, que parece não superar ter sido preterido, por ser negro, para o papel de príncipe na escola. Sem se preocupar com os sentimentos das mulheres que encontrava ou com as consequências de seus casos, inclusive filhos, Fio Jasmim exala seu perfume e fia a teia de histórias de várias mulheres, a maior parte fortes e fazedoras de seus destinos; algumas, vítimas de expectativas não realizadas. A autora/narradora nos conta as aventuras de Fio e suas mulheres a partir de histórias que ouviu, mas principalmente de uma delas, Tina, compositora da canção que dá nome ao livro, que passou grande parte da vida a amar e esperar por ele. A anfitriã Wal nos levou a viajar pelas cidadezinhas e comidas mineiras enquanto nos instigou a pensar no que deixaríamos na estação ferroviária e o que levaríamos conosco no trem da vida. Desenhamos enquanto desenrolamos os fios de nossas próprias histórias. Nos tornamos Pérola Maria, Juventina, Dolores, Antonieta, Angelina, cada uma com suas paixões, desilusões e sonhos. Somos fruto do patriarcado e sofremos seus reflexos, querendo ou não ninar meninos grandes.
Meu adeus ao Parque Villa-Lobos

Hoje fui pela última vez ao Parque Villa-Lobos, pelo menos nesta gestão. Que os deuses das eleições permitam que o Estado de São Paulo possa ser melhor-administrado. Transformar um parque deste porte em uma rua 25 de Março deveria ser crime. No mínimo, crime ambiental. Creio, na verdade, que seja, só não há Ministério Público para ver. Se quiser entender do que estou falando, sugiro uma visita. Não se surpreenda caso só encontre tapumes e quase nenhuma árvore. Se quiser fazer um piquenique, não é um bom lugar. Além de se sentar próximo a algum tapume (não há área sem), provavelmente será interrompido pela passagem de caminhões e operários, e pela poluição e barulho ensurdecedor de geradores de energia. Me faz tão mal ir lá que resolvi seguir o conselho do meu marido e desistir de vez. Que este governo do Estado só pense em dinheiro e para quê, posso imaginar. Mas como as marcas se sujeitam a participar desta lambança, ainda me impressiona. De Casé TV, a competição de sei lá que campeonato de tênis ou sei lá que festa culinária, a Cirque du Soleil, a espaço para restaurantes e barraquinhas e lojas, banquinhas de bebidas (inclusive alcoólicas), tudo é permitido. Aliás, quem estiver interessado, pode oferecer qualquer projeto. Com certeza, será aprovado. Se tivesse capacidade (ou relevância) para fazer uma campanha seria: não frequente o Parque Villa-Lobos, não vá aos eventos realizados lá – faça esses empreendimentos fracassarem. Quem sabe, assim, haveria uma chance de os oportunistas de plantão desistirem de usar este espaço público, que deveria ser para a população fruir a natureza gratuitamente em paz, e o parque pudesse ser devolvido aos seus usuários. A empresa privada Urbia quer devolver o Horto Florestal e o Parque Estadual da Cantareira ao governo por falta de lucro. Deve ser porque ficam um pouco mais distantes, na Zona Norte. O Villa-Lobos não teve a mesma sorte. A Reserva Parques, pelo que parece, tem um contrato com direitos ilimitados, sem escrúpulos, sem bom-gosto, sem noção do que é um parque urbano. Este é só um desabafo, quem sou eu na fila do pão para mudar a situação. Apenas desisti de frequentar um dos locais de que mais gostava na cidade. (Legenda da foto: nada do que se vê neste mapa é real. O Parque está totalmente ocupado por empreendimentos)