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PaulistanaSP

Minhas leituras: Eu, Claudius, Imperador

Incluído em listas dos melhores romances do século 20, Eu, Claudius, Imperador, do inglês Robert Graves, é imperdível para quem gosta de história, de política … e de sacanagem. Para os fãs de Game of Trones, este livro é um tesouro. Muita coisa que aparece na série e achamos inverossímil demais foi baseada na fictícia autobiografia do imperador romano Claudius, por sua vez, inspirada em relatos históricos. O livro nos leva ao período da dinastia Júlio-claudiana do Império Romano, desde o assassinato de Júlio César em 44 a.C. até o assassinato de Calígula em 41 d.C., passando pelos reinados de César Augusto e sua mulher vilã Lívia, ao sádico e rancoroso Tibério até o louco Calígula. Claudius, o patinho feio da família – se é que se pode chamar esse povo de família – era gago e cocho, por conta de paralisia infantil, e por isso marginalizado e tratado como imbecil pelos parentes. Deixado de escanteio, tem um lugar privilegiado para observar, com uma narrativa cheia de ironia, o comportamento da nobreza romana. Fofocas, crueldades das mais escabrosas, casamentos feitos e desfeitos pelas mais torpes razões, traições e assassinatos de todos os tipos, corrupção como estilo de vida. Não falta nada de sádico nesta história, onde o mais difícil é acompanhar a árvore genealógica onde não faltam filhos ilegítimos e incestos. Guerras, degredos, envenenamentos e homicídios, sentenciados ou não, tornam Claudius, tio de Calígula, o único disponível para assumir o trono, por ser o único adulto vivo da família. A narrativa de seu reinado é tema de um outro livro, Claudius, o Deus, o que já mostra que não deve ter sido muito diferente de seus antecessores nem de seu sucessor, ninguém menos do que Nero. Tirando os excessos do absolutismo que tornava os imperadores poderosos como deuses (eles mesmos se autoproclamavam assim), Eu, Claudius, Imperador, mostra que nossa sociedade e nossa política não mudaram tanto assim. Talvez tenhamos, pelo menos nesse interstício que vivemos, um pouco mais de mecanismos de controle para nossos governantes. Mas dá para perceber como a democracia (ou a República, como chamavam os romanos) é frágil.

Dia D me deu saudades de ET, O Extraterrestre

Sou uma consumidora voraz de ficção científica, seja em livros, filmes ou séries e estou sempre disposta a acreditar em quase tudo enquanto estou envolvida com a história. Mas Dia D (Disclosure Day), de Steven Spielberg, me irritou um pouco. A falta de verossimilhança e a supervalorização de si mesmos dos estadunidenses chegou a um nível extraterrestre, para ficar no tema do filme. O fato dos ETs acharem que somente os Estados Unidos são dignos da visita de seus Ovnis é um pouco ofensivo, mas entendo. Se eu fosse fazer um filme sobre o tema, tenderia a localizá-lo no Brasil. Em Varginha, talvez? Imaginar, no entanto, seres extraterrestres tão poderoso a ponto de viajarem distâncias inimagináveis, com tecnologia e superpoderes para enfiar conhecimento infinito na cabeça de criancinhas, obrigar outros seres a fazer o que eles querem, ler pensamentos e se transformarem em qualquer animal e, mesmo assim, serem feitos de gato e sapato pelo governo e por ong maléfica norte-americanos, a ponto de somente um conseguir sobreviver, é difícil de engolir. No filme de Spielberg há três tipos de seres com alguma inteligência relevante: os ETs, os estadunidenses malvados e os estadunidenses com boas intenções. O restante da humanidade é tão estúpido que precisa ser tutelado em tudo. Essa parte, aliás, é bem explicadinha: Jane, ex-freira namorada do mocinho, ao descobrir a existência dos extraterrestres fica desesperada porque todos os humanos, menos ela, vão entrar em parafuso ao saber que não estamos sozinhos no universo. Mas se acalma um pouco quando a madre superiora do convento que frequentou (minha xará, irmã Maura) explica pra ela que a Bíblia diz que os humanos são os maiorais na Terra, sem mencionar o resto do universo. Ufa!, podemos acreditar em ET e em Deus ao mesmo tempo. Doutrinas a parte, a história sobre o possível caos global após uma transmissão ao vivo na televisão revelar que a humanidade sempre esteve sendo visitada por inteligências extraterrestres tem inconsistências gritantes. A narrativa acompanha duas figuras centrais que recebem habilidades extraordinárias ao serem abus@das, ops, abduzidas pelos ETs quando crianças para futuramente revelar a verdade no Dia D (a tradução literal do título seria Dia da Revelação). O menino é Daniel Kellner, que não se lembra da infância, mas se descobre gênio da matemática na adolescência, se transforma em hacker, é preso e depois vai trabalhar na ONG que esconde as informações sobre a presença dos extraterrestres. Entre suas habilidades, está entender a língua do ET sobrevivente transformada em equação matemática. O problema é que o funcionário da ONG que raptou o ET sobrevivente para revelar ao mundo sua existência esperou cinco anos até a menina abduzida, repórter do tempo de uma emissora de TV, Margareth Fairchild, começar a ter experiências misteriosas: seu dom é ler pensamento e conhecer todos os humanos pelo nome. No entanto, não há nada de útil em esperar pela revelação dela, já que Daniel é quem se comunica com o ET. A única colaboração de Margareth é ser a apresentadora de televisão que faz a revelação ao público. Isso eu também poderia fazer. Se, para quem não viu o filme, deu para entender toda essa complicação, deixo aqui o spoiler final: não ficamos sabendo qual é a revelação, porque o ET cochicha para o hacker que cochicha para a apresentadora. Quando ela vai fazer a revelação na TV para o mundo, o filme acaba. Saudades de ET, O Extraterreste.

Minhas leituras: Suíte Tóquio

Desta vez, a anfitriã do Círculo Feminino de Leitura (CFL) fui eu e o livro indicado foi Suíte Tóquio, da Giovana Madalosso. O romance é contado, em capítulos alternados, pela babá Maju e sua patroa, a executiva Fernanda, enquanto a primeira sequestra Cora, a filha da segunda. Embora tenha um ritmo de thriller, o livro traz discussões sobre diferenças sociais e relações de classe, maternidade, desejos e liberdade femininos e seus limites. Daquelas histórias onde não há mocinhas e vilãs: não dá para justificar o sequestro de uma criança e também julgamos a mãe que prioriza tanto a carreira que não tem vergonha de admitir que negligencia a filha. Ainda por cima, para resolver seus problemas, destrói a vida da babá ao comprá-la, aproveitando-se de sua condição econômica, para trabalhar em regime praticamente de escravidão. Para a reunião do CFL, quis ressaltar a relação mãe-babá, situação vivida pela maior parte do nosso grupo. Somos todas mulheres de classe média e sempre presamos por nossas carreiras. E pudemos escolher ser ou não mães. Todas as que fizeram essa escolha, em algum momento, contamos com babás e empregadas para nos dar suporte. E tivemos nossos dramas internos por conta disso. Pensei em nos colocar do outro lado do balcão: pedi que minhas amigas viessem vestidas de babás e trouxessem suas “picochucas”, como Maju chamava carinhosamente a menina da qual tomava conta e acabou achando que poderia ser sua. Deixei avisado na portaria do prédio para encaminhá-las pela garagem e o elevador de serviço. Pendurei na porta da cozinha uma placa com os dizeres “Entrada para o Exército de Branco”, como Fernanda se referia às babás do bairro em que morava. Aliás, para os bons entendedores, a personagem vivia no “bairro diferenciado” de Higienópolis. Não vou dar spoiler sobre o nome do livro, mas se refere a mais uma das ironias da patroa em relação à sua funcionária. O romance também discute relações amorosas e como em nossa sociedade estão diretamente ligadas ao trabalho e ao dinheiro. E as expectativas contraditórias sobre quem deve cuidar de quem.

Caminhante urbana em treinamento

Três coisas dificultam a vida de quem gosta de caminhar em São Paulo: a má qualidade das calçadas, as ladeiras e o clima, nesta ordem. Sobre segurança, não me alongarei, pois gosto de andar de dia e em lugares movimentados. E não descuido. Não considero a cidade pior do que qualquer outra grande metrópole que conheço, a não ser em relação a celulares dando sopa, o que não acontece com o meu. Sempre gostei das andanças paulistanas, mas tenho intensificado porque pretendo fazer o Caminho Cora Coralina no segundo semestre e preciso treinar. Serão 300 quilômetros em 15 dias, nunca cheguei perto de nada parecido. Mas estou empolgada com minha coragem e tomada de pensamento positivo, apesar da desconfiança familiar. O ideal seria treinar fazedo trilhas, mas não é tão simples vivendo em São Paulo. Andar na cidade ainda é a melhor alternativa. Tenho procurado fazer pelo menos um desses passeios por semana, aumentando os percursos. Tem sido interessante colocar o endereço de onde quero ir no Google Maps e seguir o percurso indicado a pé. Acabo conhecendo caminhos bem diferentes dos normalmente feitos de carro. Passei a usar o escadão do Beco do Batman, a famosa Escadaria do Patápio. Moro há quase 30 anos na Vila Madalena e nunca tinha subido nesta verdadeira galeria de arte urbana a céu aberto, que liga a rua Medeiros de Albuquerque à rua Patápio Silva. Passar pelas floriculturas da avenida Doutor Arnaldo a pé também é uma experiência que vale a pena, sem contar que me deu vontade de visitar o cemitério apenas a passeio para ver os mausoléus do Cemitério do Araçá, o que ainda não fiz. Já estive lá várias vezes, pois parte da minha família tem sepultura lá, mas só passei pelo local em enterros. Se fico irritada com as calçadas e às vezes com a sujeira nas ruas, percebi que as ladeiras já não me incomodam tanto. Veja bem, desde que as calçadas sejam decentes. E percebi que as distâncias dos lugares que gosto de ir são menores do que imaginava. Ir da Vila Madalena para a avenida Paulista, para Higienópolis, qualquer pedaço de Pinheiros ou Sumaré, é muito mais perto do que qualquer percurso que faço quando estou viajando. Quando é um lugar mais longe – ainda não me aventurei a ir a pé até o Centro -, vou andando até o metrô Fradique Coutinho, por ser mais longe do que a estação Vila Madalena. Claro que dá para melhorar muito minha performance, estou engatinhando nessa aventura. Espero que ela me traga boas histórias para contar.

Minhas leituras: As Meninas

Uma das melhores coisas de As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, é a própria publicação do livro, em plena ditadura militar. A coragem da autora de enviar o livro para aprovação da censura demonstra sua segurança na preguiça e ignorância dos censores. Lygia traz um título singelo, de romance de mulherzinha, mas com uma narrativa sofisticada, misturando vozes e obrigando uma leitura atenta, e um crescente de densidade na história, com cenas de tortura, consumo de drogas e overdose. Diz a lenta, muito plausível, que o censor leu apenas as primeiras páginas, não entendeu nada e liberou. As Meninas foi tema de uma reunião do Círculos Feminino de Leitura (CFL) cheia de bossa, para usar um termo da época. A placa na porta dizia que chegávamos ao Pensionado Nossa Senhora de Fátima. A anfitriã, nossa querida Dóris, nos recebeu vestida de Madre Alix e, vestidas de jovens mulheres dos anos 1970, voltamos a ser as adolescentes que fomos, algumas mais no início, outras ao final daquela década. Nossa anfitriã nos levou a buscar o que lembrávamos daquele tempo, como vivíamos e o que sabíamos da ditadura e, depois, da abertura que marcou o seu final e pegou a maior parte de nós na faculdade. Concluímos que fomos alienadas como Leninha, mesmo em nossas famílias de classe média, sem saber quase nada sobre as combativas Lias e acompanhando de longe o desbunde das Anas Claras. Lygia constrói suas meninas com perfis diferentes, aos quais vamos reconhecendo por meio dos fluxos de pensamento sem identificação. São mulheres de seu tempo, mas também universais, nas dores, inseguranças, sonhos e amizade. No fundo, todas somos um pouco de cada uma delas e por isso esse é um livro atemporal. Se ainda não leu, já colocou na sua lista?

Casarão restaurado vira galeria de arte em Higienópolis

Quem ama São Paulo está sempre de cabelo em pé pelas barbaridades cometidas contra sua história e seu patrimônio. É por isso que saber de um casarão restaurado e destinado a exposições de arte é festa para uma paulistana sair correndo para visitar. Em São Paulo há quase 25 anos, a galeria Pinakotheke inaugurou agora em maio sua nova sede na cidade. Saiu do Morumbi para um espaço bem maior em Higienópolis, na rua Minas Gerais, 246, perto da avenida Paulista. Não conhecia esta galeria, que tem uma sede em Botafogo, no Rio de Janeiro, desde 1994, e em Fortaleza (Ceará), desde 1987. É mais um endereço para ficar atenta e acompanhar. A exposição de inauguração é Surrealismos: arte para além da razão (com curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiaretti). São dois andares com obras dos artistas clássicos do surrealismo, brasileiros e latino-americanos no térreo e europeus e estadunidenses e caribenhos no primeiro andar. A mostra incorpora revisões contemporâneas do movimento, incluindo a proeminência de mulheres artistas. Logo na entrada, Tarsila do Amaral nos chama para entrar no clima da exposição. Também em destaque, a escultora brasileira Maria Martins, da qual ficamos conhecendo seu romance impossível com Marcel Duchamp, por ambos serem casados, mas que inspirou a obra de ambos. Memória, sexualidade, trauma, percepção do corpo e relações familiares saltam nas esculturas da francesa, naturalizada estadunidense, Louise Borgeouis. Um trecho do filme O sangue de um poeta, de Jean Cocteau, me deixou paralisada por um tempão ao pé da escada. Para mim, representa uma tradução audiovisual do surrealismo. Como diz a apresentação da exposição, este movimento artístico “propõe uma experiência de pensamento. Um convite a atravessar zonas de ambiguidade e a reconhecer, na arte, um espaço de liberdade. A imaginação, nesse contexto é uma forma de reconfigurar o real”. Programe-se.

Horto Florestal, Trilha da Pedra Grande e a falta de informação

Enquanto vivi na Zona Norte da cidade, frequentei o Horto Florestal (Parque Estadual Alberto Löfgren). Desde criança. É um parque especial por ficar bem no meio de uma Mata Atlântica original, um dos poucos onde era realmente possível ver esquilos e macacos. Durante bastante tempo, o lugar praticamente marcava o final da cidade para aquele lado. Está bem, sou bem antiga. Não foi só o Horto que mudou e nem foi tanto assim. Mas estive lá agora e a casa de verão do governador de São Paulo, conhecida como Palácio do Horto, não é mais cercada e estava fechada. A IA me diz que abriga atualmente um espaço para eventos e um café colonial. Achei pouco nobre para um lugar que eu olhava de longe e povoava meus devaneios de infância de ser filha do governador e poder passar minhas férias lá. Os lagos e os caminhos me pareceram menores, mas ainda estavam lá, inclusive com patinhos e tartarugas, poucos, é verdade. Agora o estacionamento é (bem) pago e tem uma entrada pelos fundos, difícil de achar para quem não é da região. Há vários parquinhos, um palco (na manhã em que estive lá, usado para aula de ginástica), campo de futebol, que me lembro já existia, e uma filial do restaurante Velhão, tradicional na Serra da Cantareira. Ainda é bom de visitar, porém, é mais um dos parques que foram privatizados sem que vejamos nenhuma vantagem a não ser para quem o administra. Só encontrei um banheiro, na entrada principal de pedestres, a infraestrutura está bem mais ou menos e, sobretudo, não há sinalização de nada. Para encontrar o estacionamento, nem o Wase me ajudou. Tive que apelar para o formato antigo: parar e perguntar para um guarda. Lá dentro, nenhuma indicação de por onde seguir ou o que encontrar no local. Estou especialmente rabugenta porque minha intenção inicial era fazer a Trilha da Pedra Grande, cujas informações oficiais são de fica no Núcleo Pedra Grande do Parque Estadual da Cantareira, que faz divisa com o Horto Florestal. Na internet, encontrei dois endereços diferentes (em alguns sites, não havia endereço algum), escolhi um e resolvi tentar. Me levou para um bairro afastado por um caminho que acabava em um terminal de ônibus. Foi aí que desisti e resolvi ir caminhar no Horto Florestal, que eu conhecia. Daí a achar a entrada, já contei. Andando pelo parque, segui um caminho alternativo da trilha principal, por parecer mais tranquilo. Qual não é minha surpresa ao descobrir que, no final do percurso, havia um portão e uma guarita. Ouvi uma pessoa perguntando sobre a Trilha da Pedra Grande e me aproximei. Só aí deu para perceber que aquela era a entrada e tinha uma bilheteria para se adquirir os ingressos. Em nenhum lugar que pesquisei se dizia que a entrada era pelo Horto Florestal e, no parque, não existe placa indicando isso. Estava de bom-humor, então ri sozinha, pensando em programar uma nova visita e ir direto para a Pedra Grande assim que possível. Mas será que as coisas precisariam ser tão difíceis?

Minhas leituras: Flores para Algernon

Publicado pela primeira vez como um conto em 1959 e, como romance, em 1966, Flores para Algernon, de Daniel Keys, é uma ficção científica cientificamente anacrônica e, ao mesmo tempo, uma obra muito atual. São vários assuntos discutidos na história de Charles – um reconhecido retardado, no dizer da época, que é curado e transformado em gênio -, mas os mais marcantes, em tempos de Alzheimer e de inteligência artificial, é o que nos faz humanos. Transformado em prodígio cerebral, Charles tem consciência de ser uma pessoa desde sempre e, ao mesmo tempo, de não ser tratado como tal quando “retardado” nem tampouco na condição de cobaia talentosa. A leitura me instigou a pensar que o envelhecimento da população tem nos levando a uma epidemia de demências senis e hoje não há praticamente ninguém que não esteja lidando algum parente perdendo a memória e a autonomia, e a dificuldade de enfrentar a situação. Além das questões práticas, decidir quem vai cuidar, quais remédios e terapias podem retardar a doença, quais comportamentos devemos ter desde cedo para evitar ficar nesta condição, esta condição nos leva a perguntar para onde foi a consciência dessas pessoas e o que define a humanidade. Como essas pessoas são tratadas e como deveriam ser. As memórias de Charles jogam na nossa cada que, por mais que nos esforcemos (e nem todos se esforçam), acabamos sempre falhando. Alçado de deficiente mental grave a gênio no período de três meses, Charles também nos remete à nossa fascinação e temor em relação à inteligência artificial. Na trama, é como se o personagem se transformasse de uma máquina programada para operações simplíssimas, como varrer chão e fazer entregas, sem questionar ou entender nada a seu redor, para uma esponja aparentemente infinita de conhecimento. Essa absurda capacidade acaba afastando-o ainda mais das outras pessoas. Rapidamente, Charles começa a achar todo mundo medíocre e desinteressante. Sua tolerância fica cada vez menor às limitações inerentes aos humanos normais. Me lembrou o filme Her (Ela, de 2013), no qual a namorada digital se desinteressa de seu par humano e diz que prefere se relacionar com seus iguais tecnológicos. O filme, porém, é bonzinho sobre onde essa relação desigual leva. O que acontece com Charles e quem é, afinal, Algernon, deixo para quem se interessar a ler o livro. Recomendo. Em tempo, Flores para Algernon fez parte de uma reunião divertida e profunda do Círculo Feminino de Leitura (CFL), preparada pela Nivia Galego há algum tempo atrás.

Niemeyer e Portinari em edifício desapercebido no Centro

Finalmente tirei meu Bilhete Único de idosa (demorei para me convencer) e fui testá-lo. Precisei pedir ajuda a três pessoas até conseguir carregar o cartão, mas agora posso pegar metrô sem pagar. Ainda não entendi bem como funciona, pois é preciso recarregar de tempos em tempos, não sei se pelo número de viagens ou pela data, mas vou aprender. Para marcar a estreia, resolvi fazer um passeio pelo Centro. Fui até a estação República para conhecer a Galeria e Edifício Califórnia, na rua Barão de Itapetininga, por onde havia passado vezes a fio sem saber que existia. Desta vez, também passei em frente sem perceber que havia chegado e tive que voltar para encontrar. Incrível como São Paulo esconde suas preciosidades por falta de informação, valorização, deterioração do entorno ou acesso complicado. O edifício, inaugurado em 1955, tem projeto de Oscar Niemeyer e Carlos Lemos, fachada modernista bonita e um mural de mosaico de Cândido Portinari na galeria, com cerca de 250 metros quadrados. Só isso já vale a visita. Tinha ouvido falar que o edifício também conta com jardins suspensos dos quais não consegui confirmar a autoria. Um dos atendentes da portaria do prédio me contou que eles podem ser visitados, mas é preciso marcar com antecedência. E me passou um e-mail para isso (galeria.california@hotmail.com). Foi gentil, mas não teve jeito de me deixar acessar sem a anunciada burocracia. Já tinha ouvido falar deste lugar? Tem outros assim que também valem a visita? Me conta.

Minhas leituras: O Velho e o Mar

A primeira vez que li O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, foi bem no comecinho do Círculo Feminino de Leitura (CFL), possivelmente no final de 2008. Já naquele tempo tive uma impressão controversa do livro. Achei uma história típica de homem hétero, patriarcal, focado em mostrar que é macho, sem refletir muito sobre o que faz. Não estou falando da qualidade da literatura, mas do enredo. A escrita do Prêmio Nobel Hemingway é incrível, seguimos o pescador Santiago sem desgrudar os olhos da leitura. Mas o personagem tem uma obstinação sem propósito a partir do momento em que os tubarões passam a atacar o enorme marlim, finalmente vencido, e ele insiste na luta, mesmo sabendo que não terá o peixe ao final. O velho luta contra a natureza, o que importa é o triunfo. Reli o livro agora, para o Círculo de Leitura do Clube, e minha opinião se manteve a mesma. Desta vez como daquela foi uma opinião isolada. Não que algumas pessoas (mulheres, devo dizer) não vejam traços do patriarcado no livro, mas relevam, em nome da trajetória do herói, que enfrenta o inimigo até o fim, mesmo arriscando a vida e sem garantia de benefício. A maior parte das pessoas, parece, acha isso exemplar. Eu, porém, só consigo ver mérito se houver um propósito maior, o que não consigo enxergar no romance. Me lembra comportamentos masculinos sem sentido: briga de torcida, na melhor hipótese, ou o conjunto de guerras travadas pelo orgulho e teimosia de líderes sem qualquer princípio de razoabilidade. Lembrando que Hemingway era um macho alfa típico: lindo, com seu famoso queijo quadrado, boêmio e mulherengo. Se casou quatro vezes. Aos 17 anos, se alistou na Cruz Vermelha e foi ser motorista de ambulância durante a primeira Grande Guerra, quando se feriu. Depois foi para Paris, nos anos 1920, onde viveu a boemia junto a grandes artistas da época. Durante a Guerra Civil Espanhola, foi para lá como correspondente. Suicidou-se com pouco mais de 60 anos.