Minhas leituras: O Segredo de Espinosa

Deus ou a natureza. Ou, melhor dizendo, Deus é a natureza. Esta formulação tornou Bento de Espinosa um herege em sua época, por ser considerado ateu, o que o filósofo sempre negou. A mim, iluminou algo que eu intuía. Não preciso mais me considerar ateia. Não sem motivo, este pensador do século 19 é um dos precursores do Iluminismo e ferrenho defensor da liberdade de expressão e do uso da razão contra a superstição. O romance O Segredo de Espinosa, do autor moçambicano José Rodrigues dos Santos (Editora Planeta), é baseado na biografia do filósofo judeu de origem portuguesa nascido nos Países Baixos, Bento de Espinosa. Considerado um gênio na comunidade judia de Amsterdã (seus pais eram imigrantes fugidos da inquisição em Portugal) e cotado para ser um grande líder religioso, acabou sendo expulso ainda muito jovem de sua comunidade após passar por um cherem, o equivalente judeu da inquisição. Entre as ideias heréticas de Espinosa estavam que a Bíblia foi escrita por homens comuns e que o povo judeu não tinha nada de especial em relação aos demais povos. Embora ficcionado, o romance traz nas falas do filósofo toda a construção de seu pensamento, que continua inovador, sobretudo nestes tempos em que a humanidade parece regredir à época onde a superstição estava à frente da razão. Para Espinosa, Deus é o universo e, por isso, infinito. Os humanos são parte dele, assim como todo o restante da natureza. O filósofo chocou até seus contemporâneos, como Thomas Hobbes, ao sustentar que milagres não existiam porque a natureza não atua fora de suas regras. Essa afirmação o levou também à conclusão de que não existe o livre-arbítrio, pois tudo está ligado a causas e efeitos da natureza. O grande desafio, disse Espinosa, é criar uma ética em um mundo sem livre-arbítrio, no qual a liberdade é “a de compreender o meu comportamento e, através dessa compreensão, libertar-me das paixões e passar a usar a razão”. Sem um Deus que vá te castigar ou promessa de uma vida no além, ser ético significa buscar a alegria no amor e na generosidade, pois quem se diz crente, mas só pratica a virtude movido por medo ou interesse, não é um verdadeiro crente.
Escassez global de água já é realidade

Quando Marussia Whately e eu fechávamos nosso livro sobre água em 2016, ainda sob o impacto da crise hídrica no Estado de São Paulo em 2015, discutimos muito o título da obra. Será que O Século da Escassez era trágico demais? Mesmo que nossas pesquisas mostrassem ser para esse lugar que caminhávamos, queríamos acreditar ser possível evitar, ou pelo menos retardar, o que se avizinhava. Acabamos mantendo a ideia original, mas incluímos como subtítulo do livro, lançado pela Editora Claro Enigma/Companhia da Letras, a frase “uma nova cultura de cuidado com a água: impasses e desafios”. Terminamos o texto com um apelo ao leitor: “A todos nós cabem, em primeiro lugar, nos informar e discutir o assunto, cobrar ações dos nossos governantes e assumir com eles o desafio de garantir um futuro seguro e sustentável para a água, porque sem ela não existe futuro”. Passados dez anos, e com as represas que abastecem São Paulo em seu pior nível desde a crise de 2015, vemos que nosso título não tinha nada de sensacionalista. Acaba de ser lançado, pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (ONU), o relatório Falência Hídrica Global, segundo o qual o abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas. Conforme o estudo, muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num ponto sem volta, em que o volume de água extraída é muito maior que a reposição natural. Cruzar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados. O diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, disse que “muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”. A situação afeta áreas responsáveis por quase metade da produção global de alimentos. Falando a jornalistas em Nova Iorque, ele afirmou que se a humanidade continuar a lidar com essa falta como uma crise temporária e soluções de curto prazo, “o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”.
Os lados do Quadrado

Uma de minhas leituras mais interessantes no ano passado foi Coisa de Rico, do Michel Alcoforado. A maior bizarrice do livro é a existência em si dos milionários e a concentração de renda no país. Se abstraímos esta parte, o livro é muito divertido, sobretudo por nos mostrar a obsessão dessa classe por exclusividade e sua dificuldade em estar sempre dentro dos códigos dos muitos ricos para se manter pertencente. Passando férias em Porto Seguro, no sul da Bahia, uma das mecas dos ricos paulistas e mineiros, é impossível não pensar na antropologia do Alcoforado. Primeiro porque se um rico ou aspirante a rico ler este texto, de cara ficará indignado por eu falar Porto Seguro, que é o nome do município e a localidade frequentada por adolescentes e humanos mortais (leia-se classe média). Milionários frequentam condomínios e praias praticamente fechadas de Trancoso. Nem pelas estradas eles passam, o trânsito de helicópteros parece a chegada do Aeroporto de Congonhas que vejo aqui de casa. Fiquei em Arraial d’Ajuda, que é o destino intermediário. Tem um centrinho charmoso em volta da rua Mucugê e praias deliciosas, caríssimas para o padrão da maioria dos brasileiros (pra sentar nas barracas precisa desembolsar entre R$ 100 e R$ 200 por pessoa), mas lotadas. Muito rico deve ter urticária até quando voa por cima. Quem quiser ver na prática como essas divisões de classe funcionam, porém, o melhor é ir ao Quadrado, a simulação de uma vila litorânea tradicional, que funciona como o centrinho de Trancoso. Vale a pena a visita também porque é lindíssimo, sobretudo ao anoitecer, quando ainda é possível enxergar a praia do alto da falésia enquanto as luzinhas dos restaurantes e lojas começam a acender. Apenas uma voltinha ao redor do campo de futebol que delimita o quadrado do nome é suficiente para entender o lugar. Aparentemente, o campo de futebol foi o que restou para a população local e a molecada efetivamente joga bola por lá. O lado da entrada é formado por uma feirinha. O povão não passa dali. No outro extremo, há a praia, a vista, alguns ambulantes e a igrejinha. Os outros dois lados do quadrado são formados por restaurantes e lojas descoladas, onde está o mais interessante: os dois lados são praticamente iguais, a diferença é que os restaurantes à esquerda de quem chega são muito mais caros do que os da direita. Quando estivemos lá, fomos metidos e escolhemos o que achamos mais bonito do lado esquerdo. Gringos e turistas normais como nós, ocupavam as mesinhas do lado de fora, onde o clima praiano é o charme. Deu para perceber que os habituês passavam direto para o lado de dentro, mais privê e sofisticado. Soubemos por um dos garçons, que o dono possui vários outros restaurantes ali mesmo, mas tem um bufê que serve o condomínio chique ali pertinho. O restaurante era caro como os restaurantes bem caros de São Paulo, com carta de vinho começando quase nos R$ 300 e terminando nem precisa dizer onde. Mas nos 15 dias que fiquei na cidade, foi o único vinho branco que me serviram quente. A lagosta estava borrachuda e tive uma diarreia terrível durante a noite. Isso que dá não ficar no seu lugar.
Minhas leituras: Voltar a quando

Lançado no final de 2025, quando a crise na Venezuela só fazia aumentar e seus desdobramentos atuais se anunciavam, Voltar a Quando, de María Elena Morán, escritora venezuelana radicada no Brasil, é uma grande oportunidade de conhecermos a dimensão humana da crise humanitária vivida em nosso país vizinho. No romance, ganhador do prêmio literário espanhol Café Gijón de Novela, acompanhamos Nina, cuja família era admiradora fervorosa de Hugo Chávez, ver todos os sonhos irem por água abaixo a partir da ascensão de Nicolás Maduro e a consolidação de uma ditadura na Venezuela. Ao mesmo tempo que o país desmorona, levando a população à extrema pobreza, vão junto o casamento de Nina e o mínimo de segurança que carregava, a partir da morte de seu pai. Desesperada, ela decide imigrar para o Brasil, deixando a filha aos cuidados da mãe em Maracaibo, a decadente e esvaziada cidade petroleira venezuelana, onde Morán também nasceu. Como boa literatura latino-americana, Voltar a Quando é escrito em várias vozes e traz aquele cadinho de realismo mágico do qual somos feitos, talvez a única forma de encarar realidades difíceis que se repetem incansavelmente desde que o continente foi invadido e colonizado. Além daquele frio na espinha recorrente de encarar o que regimes autoritários podem causar, sejam de direita ou esquerda, o romance causa o mal-estar pelo pouco que sabermos da realidade tão próxima do venezuelanos, tanto os que persistem no país quando os muitos que atravessam as fronteiras e estão aqui convivendo conosco, tentando se erguer e se recuperar dos traumas em nosso país. O mais legal, porém, é todas estas questões, apesar de fundamentais, serem coadjuvantes em uma história de amor e aventura, que passa por Venezuela, Brasil, México e Estados Unidos, sem nos deixar piscar.
Qual o destino das nossas incríveis praias de falésia?

Pelo segundo ano consecutivo, passei férias em praias de falésias. No verão passado, estive em Pipa, no Rio Grande do Norte, e neste, em Arraial d’Ajuda, em Porto Seguro, Bahia. Descontando o desafio das escadarias e ladeiras diárias para chegar ao mar, estou encantada com estas formações. Opressivos à primeira vista, os paredões revelam uma variedade de cores e formas, às vezes até parecendo desenhadas, suas camadas expostas a nos lembrar quão mínimos somos diante da antiguidade do mundo. Passei horas e horas a observá-los em longas caminhadas ou em demorados banhos de mar. As falésias são um companheiro de viagem, um plus em qualquer praia, ainda mais quando terminam em piscinas naturais mutantes conforme as marés. Aliás, como ficam comumente em litorais com praias estreitas e em contato direto com o mar, nos obrigam a buscar informações sobre as tábuas de maré, para não correr riscos de não poder voltar de uma caminhada ou não ter onde sentar-se na praia. Definitivamente, esse não é um costume sudestino, e dá um ar de aventura a um passeio comezinho. Esses paredões rochosos espetaculares, esculpidos a partir da erosão causada pelo mar, chuvas e ventos durante milhões de anos, no entanto, são formações geológicas frágeis, que podem desmoronar a qualquer momento, sobretudo pela erosão na base pelas ondas. Difícil não pensar em riscos à essas paisagens tão procuradas do Nordeste brasileiro, sobretudo no Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia, com o aumento do nível do mar e os eventos extremos das mudanças climáticas. Em Arraial, dá para perceber que a maré já sobe mais, deixando a faixa de areia mais estreita. Em Pipa, passar de uma praia para a outra ficou bastante difícil. Caminhos antes naturalmente feitos pelos veranistas a pé, hoje só são possíveis por pouquíssimo tempo na maré mais baixa. Sem falar no perigo de deslizamentos repentinos, como o que aconteceu em 2020, quando um casal e seu bebê morreram soterrados. Temos que nos adaptar ao colapso climático e muito há para se fazer, para que as cidades continuem habitáveis, para que as construções sejam feitas para resistir, para que consigamos frear as emissões o quanto antes. Sobre as lindas praias de falésias, porém, o futuro é bastantes incerto.
Minhas leituras: De Onde Eles Vêm

Todo começo de ano, somos inundados com um festival de inutilidades, ignorância e até crimes ao vivo no Big Brother Brasil. Mesmo quem não assiste, como é o meu caso, é só abrir qualquer rede social e lá estão os comentários do dia. Nesta edição, já vimos desinformação rasgada sobre o Bolsa Família, homem expondo a esposa grávida e o mesmo sujeito cometendo crime de assédio sexual. Enquanto estava de férias, na semana passada, um outro assunto do BBB me chamou a atenção: duas integrantes conversavam sobre cotas raciais e, pelo que entendi, uma branca defendia as cotas, por conta de reparação histórica, e a outra, negra, dizia que brancos e negros têm a mesma capacidade de raciocínio e, presume-se, era contra as cotas. Confundir capacidade de raciocínio com passar no vestibular é, no mínimo, ingenuidade. Acontece que vi os comentários sobre este assunto enquanto terminava de ler De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras), de Jefferson Tenório, mesmo autor de O Avesso da Pele, um dos melhores romances brasileiros sobre o racismo estrutural no país, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. Neste outro romance, o autor volta ao tema, dessa vez sob a perspectiva justamente das cotas raciais na universidade. Seus personagens são pobres, periféricos, excluídos … e negros que tiveram acesso à universidade pelo sistema de cotas raciais. Acompanhamos especialmente Joaquim, jovem órfão, desempregado e responsável por cuidar da avó doente, tentando se manter no curso de Letras e se enquadrar na faculdade, enquanto falta dinheiro até para pegar o ônibus da cidade dormitório onde vive até Porto Alegre, onde estuda. O romance se passa em meados dos anos 2000, quando as cotas estavam ainda no início e os alunos beneficiados começavam a se organizar para criar uma rede de apoio e enfrentar os preconceitos. Lendo o livro de Tenório, fica claro como as cotas são necessárias, embora insuficientes, para acabar com a desigualdade absurda que vigora em todo o Brasil. No ano passado, estive em Porto Alegre para a formatura da minha sobrinha, na mesma Universidade Federal do Rio Grande do Sul que é cenário do livro. Foi a primeira vez que assisti a uma formatura onde havia paridade de alunos negros e brancos. Eram formandos de Psicologia e Serviço Social e me emocionei ao ver muitos deles dizer serem os primeiros da família a completar um curso superior e dedicarem seus diplomas a mães e pais que lutaram a vida toda sem conseguir ascender dos trabalhos da base da pirâmide aos quais grande parte da população negra é aprisionada. Viva as cotas!
Terra Dentro no parque

Algumas vidas são destinadas à tragédia. É esse o caso dos irmãos Rita, Mirna e Mosquito, de Terra Dentro, de Vanessa Vascouto, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Nesse pequeno romance (com menos de 100 páginas), feito para ser lido de um fôlego só, a autora dá voz aos três irmãos, que narram, cada um à sua maneira, a vida da família num pedaço de chão que não era deles e com a fatalidade como destino. Para conversar sobre a obra, ao mesmo tempo triste e bela, nos reunimos no Parque da Água Branca em uma tarde ensolarada, para um piquenique, no qual reverenciamos a rica linguagem presenteada por Vascouto, sempre poética, mas respeitosa das versões e personalidades de seus narradores, cada um se dirigindo a um interlocutor diferente. Na obra, acompanhamos como os acontecimentos impactam cada um dos irmãos de maneiras diferentes, suas reações e sentimentos. Impossível não ter empatia por cada um deles. É a história da Rita que amava o Maridinho, do Mosquito que amava a Rosa e da Mirna que escolheu não amar ninguém. História de amor e luto, inclusive por si mesmo e por quem não conta porque não veio. Luto vivido por Rita por meio dos cata-ventos que fazia: “Melhor cata-vento no lugar das flores que não morrem e são mais lindos. Da última vez, uma mulher veio falar comigo no cemitério, perguntar porque eu levava os cata-ventos e não as flores. Eu disse que era pra soprarem a alma do meu Maridinho mais pra longe pra ele não remorrer de desgosto naquele lugar”. A leveza dos cata-ventos também embalou nossas conversas no parque, um espaço coletivo feito para fruição, mas atualmente ameaçado pela sanha privatista dominante. Dóris, nossa membra vizinha do Água Branca e árdua defensora desta tradicional área verde paulistana, trouxe para a ocasião uma toalha-manifesto confeccionada para o grupo @amoraperdizes para lembrar a importância do lugar. Nós, que amamos os livros e a natureza, saímos revigoradas de lá.
Exposição retrata vida das pessoas por trás da crise hídrica

“A nossa seca está ofendendo muita gente”. “Se eu tivesse tido uma oportunidade ao longo da vida de ter um poço de água, eu teria até bens materiais”. Ao invés de encobrir, a beleza plástica das fotos de Érico Hiller torna mais impactantes as fotos da exposição Água, que o fotógrafo inaugurou nesta semana no MIS-SP. As frases acima ilustram algumas das mais de 30 imagens de pessoas lutando para sobreviver em situação de carência hídrica testemunhadas pelo artista nos últimos dez anos e revelam as histórias humanas por trás da crise da água que só faz aumentar diante das mudanças climáticas. A mostra conta com fotografias coloridas, feitas na Etiópia, Índia, Palestina, Jordânia, Bolívia, países onde a água aparece em sua dimensão universal — fonte de sobrevivência, beleza e contraste. Já na série em preto e branco captada no Brasil, o olhar se volta ao contexto nacional, ressaltando a força poética e crítica desse elemento em nossas paisagens e comunidades. Completando a experiência, uma sala exibe um vídeo de bastidores de cerca de sete minutos, que mergulha no processo criativo e nas vivências do fotógrafo durante a construção deste projeto. Mais do que um registro visual, a exposição convida o público a refletir sobre a urgência de preservar a água, compreendendo-a não apenas como recurso, mas como elo vital que sustenta toda a vida no planeta. Em uma semana em que o Congresso Nacional deu mais uma demonstração de desprezo pela vida de quem deveriam estar garantindo os direitos básicos, as fotos de Hiller deixam também um gosto é de revolta. Imaginar o retrocesso representado pela anulação aos vetos presidenciais que tentavam diminuir o impacto nefasto na legislação ambiental do país, é de doer o estômago. Não é demais repetir que a maior parte das consequências das mudanças climáticas – e o desmatamento é uma de suas grandes causas – chegam até nós por meio da água, seja por sua falta ou excesso causado por eventos extremos. Segundo Hiller, “Água é um minúsculo recorte do Brasil e do mundo nesta década quente dos anos 2020. A crise climática é o pano de fundo da cena planetária que, somada à má distribuição e ao uso indevido dos recursos naturais, torna a vida de milhões um verdadeiro calvário”. A exposição fica em cartaz até abril do próximo ano, aquele em que poderemos mudar o jogo de forças no Congresso, que tem nos levado ladeira abaixo.
Paz e sustentabilidade por meio da espiritualidade

Mais uma vez no Brasil, desta vez para participar da COP30, em Belém, a líder espiritual indiana Jayanti Kirpalani fará uma palestra no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 27 de novembro, com o tema “Fazendo escolhas que cuidam de nós mesmos e do planeta”. Na ocasião, ela será entrevistada pela jornalista Darlene Menconi, produtora de conteúdo sobre resiliência climática e pesquisadora em cidades inteligentes e sustentáveis. Diretora administrativa adjunta da Brahma Kumaris (BK), maior organização espiritual do mundo liderada por mulheres, Sister Jayanti, como é conhecida, esteve no país em 2019, quando a entrevistei para o blog Mulheres Ativistas, do portal Conexão Planeta. Líder espiritual e professora há mais de 50 anos, é pioneira na defesa do cuidado com a terra a partir de uma base espiritual. Para ela, o materialismo e o consumismo afastaram o ser humano da natureza, que passou de lugar sagrado em todas as culturas, para algo a ser explorado. O resultado mais visível atualmente são as mudanças climáticas causadas por esse estilo de vida. Representante da Brahma Kumaris na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1982 e nas conferências anuais do clima desde 2009, a indiana procura inserir princípios espirituais nas mesas de discussão de políticos, economistas, líderes empresariais e cientistas. Veja a entrevista em https://conexaoplaneta.com.br/blog/jayanti-kirpalani-paz-e-sustentabilidade-por-meio-da-espiritualidade/ ou abaixo. A palestra no Sesc Santana começa às 19 horas de sexta-feira. A entrada franca, mas é necessário retirar ingresso pelo link https://www.sescsp.org.br/programacao/fazendo-escolhas-que-cuidam-de-nos-mesmos-e-do-planeta/ ou no dia do evento no local, a partir das 18 horas. – Como foi o seu despertar para a espiritualidade? Embora não tenha perdido meu contato com a Índia, onde ia com a família para passar férias desde nossa mudança para a Inglaterra, aos 19 anos, em 1968, resolvi passar mais tempo no país, conhecer mais sobre nossa cultura. Minha mãe já tinha contato com a Brahma Kumaris e procurei um dos seus centros de meditação atrás de algo que me ajudasse a tomar melhores decisões na vida. Passei seis meses estudando e buscando meu desenvolvimento pessoal. Lá, encontrei o fundador da organização, Brahma Baba, que me perguntou o que eu queria dizer ao mundo. Naquele momento, soube que minha vontade era ser uma professora espiritual e inspirar pessoas. E essa foi minha jornada. Em janeiro de 1969, Baba faleceu e foi um momento de virada para a organização, quando duas mulheres passaram a ser as dirigentes. Isso foi possível porque, desde que a Brahma Kumaris foi criada, em 1937, existia a visão clara que, se quiséssemos um mundo de paz, precisávamos de igualdade entre os gêneros. Por isso, sempre houve treinamento de mulheres, como os que participei, para ser líderes. Essa postura era revolucionária na época na Índia e no mundo todo. – Você foi a primeira pessoa a levar a Brahma Kumaris para fora da Índia? Sim. Em 1969, voltei para Londres pensando em iniciar as atividades da organização para a Europa. Passei dois anos fazendo contatos com várias organizações até que, em 1971, uma delegação da Brahma Kumaris foi até lá para apresentar sua filosofia para a comunidade ocidental e fundamos o primeiro Centro de Meditação fora da Índia. Em 1981, estávamos em 30 países com nossa filosofia de paz individual e mundial. Em 1986, quando coordenávamos atividades do Ano Internacional da Paz, da ONU, criamos em Londres o primeiro escritório internacional, do qual sou dirigente, para agilizar a comunicação entre os países. Hoje, estamos em todos os continentes. – Qual a afinidade entre a Brahma Kumaris e a ONU? Somos filiados à ONU como uma organização não-governamental. Nosso propósito é a paz, o que também é a meta das Nações Unidas, por isso estamos conectados. Um ano antes do Ano Internacional da Paz, em 1985, houve o Festival Live Aid, para arredar recursos para a combater a fome na África. Vimos que as pessoas queriam doar mais do que dinheiro. Queríamos pedir algo mais valioso e as convidamos a doar tempo, minutos para orar, meditar ou ter pensamentos puros pela paz. Uma escola que decidisse dedicar três minutos de uma assembleia com mil alunos para isso, representaria três mil minutos de pensamento pela paz. O Projeto Mensageiro da Paz surgiu daí. Era uma técnica simples para tornar as pessoas perceptivas de que podem fazer algo pela paz no mundo. A meta era que começassem a ter pensamentos pacíficos para experimentar a paz que existe em cada ser humano e iniciassem uma jornada em direção à paz. Chegamos a bilhões de minutos pela causa, em 60 países diferentes. Com esse projeto ganhamos vários reconhecimentos da ONU e fomos considerados a entidade sem fins lucrativos que mais atuou pela causa naquele ano. A partir dali, passamos a desenvolver vários programas junto à ONU para mulheres, idosos, saúde, desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, estamos conectados com o tema de mudanças climáticas. – A campanha pela paz teve continuidade? A ONU se interessou pelo nosso trabalho e pediu que continuássemos com ele, o que resultou no Projeto de Cooperação Global por um Mundo Melhor, que durou de 1988 a 1991 e chegou a reunir 128 países. Nele, perguntávamos para as pessoas: qual a sua visão para um mundo melhor? Como vê os relacionamentos nesse mundo? Como se vê nele? Quais os passos práticos que você pode dar para tornar esse mundo melhor uma realidade? Cada um podia fazer o que quisesse. Por exemplo, uma família na Grécia tomou a decisão de pegar um cômodo da casa para ser uma zona livre de queixas. Engraxates mirins do Brasil, que brigavam muito entre eles, resolveram que iriam cooperar, emprestando seus equipamentos, como escovas, uns aos outros. – Por que a Brahma Kumaris se envolveu tão fortemente com as mudanças climáticas? Trabalhamos junto à ONU com o propósito de mostrar que existe uma dimensão espiritual em todas as pessoas. Mas a consciência humana criou uma forma materialista de viver. Nos tornamos uma sociedade consumista. Materialismo e consumismo nos distanciam da natureza. A espiritualidade nos lembra que a natureza é algo sagrado, por isso é
Pedestres, se virem!

Dirigia meu carro hoje pela manhã quando uma senhorinha de bengala apareceu vindo em minha direção subindo a ladeira pelo meio da rua. Meu primeiro pensamento foi se a mulher estava querendo que alguém fizesse um strike nela. Mas parei o carro, aguardei a passagem do veículo que subia na mão contrária e passei ao lado dela. Logo depois, olhei pelo retrovisor e a vi chegar ao ponto de ônibus e se sentar no banquinho. Automaticamente, desviei o olhar para a calçada ao lado e me deparei com uma trilha estreita, formada por degraus irregulares e tortos, esburacada, com postes e árvores com raízes aparentes no caminho. Se aquela ladeira seria desanimadora para mim, imagine para alguém que depende de uma bengala. Carrinho de bebê ou cadeira de rodas, então, não teriam a mínima viabilidade. Mirei a rua asfaltada onde trafegava e, por pior que seja o asfalto paulistano, era uma via regular, recém-recapeada (para as eleições do ano passado), sem obstáculos que não fossem as lombadas feitas para que os automóveis, construídos para andar a até mais de 200 km/h, não se empolguem demais. Apesar de estreitas para a passagem de ônibus e caminhões, as ruas do meu bairro permitem estacionamento nos dois lados, o que só não acontece em entradas de garagem (mais uma vez para os carros) e para a privatização das ruas pelos restaurantes, que aumentam sua área para além da calçada, dificultando ainda mais a vida do pedestre, que ainda precisa desviar de garçons, pessoas esperando lugar e, às vezes, mesas e cadeiras. É comum ver pedestres andando pelo meio da rua para além dos puxadinhos dos bares. Pensei, então, nas ciclovias, que pegam parte de algumas ruas da redondeza e, aí sim, o estacionamento é proibido. Sou muito a favor das ciclovias, mas muitas delas são usadas por pedestres – pelos mesmos motivos da senhora de bengala – também expostos ao perigo. Mais do que as ladeiras, acredito que a preferência para usar o carro até para micropercursos, como ir à padaria na esquina, para quem pode, é a falta de calçadas minimamente decentes. Fico imaginando em que momento nos perdemos da civilidade para achar que pedestres não importam? Será que um dia isso vai mudar?