A Boba da Corte

Mesmo vivendo há quase 30 anos na Zona Oeste de São Paulo, só fui descobrir que mangostão, longana e rambutã não são nomes de remédios, mas frutas exóticas, ao ler A Boba da Corte, da Tati Bernardi. Indicar o livro para o Círculo Feminino de Leitura (CFL) também fez com que eu fosse pela primeira vez ao Santa Luzia (um dos mercados chiques da elite paulistana), o lugar mais próximo onde poderia ser que encontrasse algumas delas. Só achei o rambutã, pois as demais, segundo me informou a funcionária atenciosa, não estão na época. Mas comprei outras frutas tão exóticas quanto (pelo menos para mim), para montar a mesa do nosso encontro do mês em minha casa. Escolhi o livro da autora paulistana porque me identifiquei com seu sentimento de inadequação entre seu bairro suburbano de origem e a rica e descolada Zona Oeste, onde passou a viver. Assim como Tati foi criada no Tatuapé, na Zona Leste, cresci em Santana, na Zona Norte, sonhando em atravessar a ponte e morar na região entre rios (Tietê e Pinheiros) onde acreditava viver pessoas mais parecidas comigo, o que fiz assim que tive oportunidade. Depois, por muito tempo, não conseguia traduzir o desconforto próprio de quem não se sente verdadeiramente pertencente ao lugar em que mora, mas nunca cheguei na tradução certeira da elite paulistana feita pela Boba da Corte de Bernardi. Achei que a conversa seria boa em nossa reunião, pois das dez mulheres do grupo atual, somente duas são naturais desta região que chamamos de “bolha”, termo que aprendi com meus filhos, já nascidos na Vila Madalena. Quase todas as demais, assim como eu, atravessaram a ponte. No caso delas, vindas da mesma Zona Leste de Tati Bernardi. Somente a Kátia sempre viveu no Tatuapé (e nunca cogitou sair de lá) e a Marli, passada a pandemia, resolveu voltar para sua Mooca natal e ficar perto da família. Tivemos discussões acaloradas como há tempos não tínhamos. Incrível como um livrinho de menos de 100 páginas e aparentemente despretensioso pode causar polêmica. Fico imaginando o que pensam as pessoas citadas no livro. Identificamos algumas, inclusive próximas. Admiro o despudor e coragem da autora, de quem sou fã há bastante tempo. Bernardi começa seu livro contando sobre uma festa que deu em seu apartamento na rua Maranhã, no bairro “diferenciado” de Higienópolis, e uma amiga vinda do Rio de Janeiro digitou errado o endereço no Uber e foi parar na Praça Maranhão, na Zona Leste. A amiga ligou desesperada, achando que corria risco de vida, sem saber que estava exatamente no lugar onde a anfitriã passou toda a infância e adolescência. A partir desse mote, Tati Bernardi mostra de forma irônica e divertida o comportamento às vezes ingênuo e mais vezes hipócrita dessa elite, sobretudo a progressista e culta, a qual passa a frequentar, querendo furar a bolha para pertencer a ela, mas também rejeitando muitos dos seus códigos. Um mundo feito de “qual o seu sobrenome”, “de quem você é parente”, “o que faz e onde trabalha” e “onde você estudou”. Um mundo feito de oriundos do Santa Cruz, Vera Cruz, Bandeirantes, Rio Branco, entre outros, hoje com filhos no Avenues e similares. Para alguém que se alfabetizou e cursou o fundamental entre as escolas Expedicionário Brasileiro e República da Bolívia, como eu, nunca é uma situação confortável… Difícil não pensar: como vim parar aqui? Como no livro, algumas de nós consideraram a personagem/autora um tanto vulgar e exagerada. Também não é fácil se ver como pertencente a uma bolha, tendo nascido nela ou não, mesmo sabendo que isso não tem a ver obrigatoriamente com possuir dinheiro, estudo e cultura. No final, por mais que generalizações possam ser engraçadas, cada experiência é única e a capacidade de rir se si mesma, uma bênção. Para nossa reunião de dois mundos, trouxe frutas exóticas e comidinhas personalizadas, mas também estrogonofe de camarão, balas sete belo e brigadeiros, como uma boa festa suburbana deve ter. Nossa presidenta Neise se vestiu de Boba da Corte e estava maravilhosa, mostrando que o diferente também pode ser chique. Desde que sejamos nós mesmas. Tivemos direito, ainda, há uma coleção de fotos dos lugares citados pela autora na Zona Leste, presente da Kátia, que conhecia tudinho.
Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluções

Ler em grupo pode ser muito mais do que dividir opiniões sobre leituras. Em um clube do livro, compartilham-se também experiências, afetos e transformações. No dia 3 de setembro, às 19h, as autoras Maura Campanili e Luciana Gerbovic estarão na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho para uma conversa sobre essa atividade que, cada vez mais, vira tendência – principalmente entre mulheres que buscam um espaço de trocas intelectuais e afetivas reais. Será um bate-papo descontraído sobre suas vivências com clubes de leitura, os dois livros que nasceram dessas experiências e a força política e subjetiva da leitura coletiva. A conversa terá a mediação da crítica literária Patricia Ditolvo. Após as falas, as autoras farão breve sessão de autógrafos. Maura é escritora, jornalista e geógrafa, com mais de 30 anos de atuação em comunicação socioambiental. Trabalhou em organizações como a SOS Mata Atlântica e o Instituto Socioambiental, além de colaborar com diversas ONGs por meio do Núcleo de Conteúdos Ambientais (NUCA). É autora de Temos fome, somos loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres (Pitanga, 2025), que narra a trajetória de um grupo de leitoras que transformou dor em vínculo, e leitura em liberdade. Luciana é graduada em Comunicação Social e Direito. Advogada, mestre em Direito Civil e mediadora de clubes de leitura há mais 15 anos, em diversos espaços públicos e privados. Professora de leitura e escrita literárias e formadora de mediadores de clubes de leitura desde 2019. Coarticuladora do “Remição em Rede”, programa que implementa clubes de leitura e forma mediadores em penitenciárias, com fins de formação de leitores e remição de pena pela leitura. É sócia-diretora da Escrevedeira Centro Cultural Literário. Coautora do livro “Clubes de leitura: uma aposta nas pequenas revoluções” (Solisluna/Selo Emília, 2024) e autora do romance “A maior mentira do mundo” (Quelônio, 2024). Patricia é formada em Letras e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é mediadora de conversas e clubes de leitura, e criadora do projeto Críticas Instantâneas Não Especializadas (@criticasinstantaneas). A conversa é gratuita e aberta ao público, com sessão de autógrafos ao final. Venham!!! 📍 SERVIÇO O quê: Bate-papo com Maura Campanili e Luciana Gerbovic, com mediação de Patricia DitolvoTema: Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluçõesQuando: Quarta-feira, 3 de setembro de 2025, às 19hOnde: Livraria da Vila da FradiqueRua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo – SPQuanto: Evento gratuitoLivros à venda no local, com sessão de autógrafos após a conversa
Encontro com o CFL Júnior

Quando resolvi escrever um livro sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), um dos motivos era dividir uma experiência coletiva tão bacana e, quem sabe, inspirar outras pessoas a tentar fazer algo parecido. Antes mesmo do livro ser publicado, eu e mais duas mulheres do CFL tivemos a alegria de ver nossas filhas, tão amigas quanto nós, criar o CFL-Júnior, com suas próprias amigas. Depois do lançamento, mais uma boa surpresa: as meninas escolheram Temos Fome, Somos Loucas como livro do mês e nos convidaram a participar da reunião sobre o livro. Conversar com elas sobre o livro, encontros e amizade foi um momento único. O mais bonito foi ouvir que, mesmo próximas da história que conto – nossas filhas inclusive aparecem na narrativa em alguns momentos, as amigas ouvem sobre nosso grupo há anos -, ler o livro as fez nos ver de outra maneira. Deixamos de ser “as mães” para nos tornarmos mulheres, que têm vida própria, discutem entre si, se emocionam com as amigas e, ao mesmo tempo, continuamos meninas, como elas mesma se veem. Disseram ter compreendido que não existe o tal amadurecer que a tudo responde. E o peso de se tornar adulta diminuiu. Foi divertido repartirmos uma reunião cheia de cuidados na preparação, com direito às comidinhas feitas por cada uma, brindes, atividades e lembrancinhas. Apenas no figurino eu a Claudia demos demonstração de sermos veteranas: nos vestimos de lilás, como a capa do livro. Todas elas perceberam o detalhe ao chegar e comentaram que deveriam ter pensado nisso. Mais do que tudo, foi muito gratificante saber que conseguimos mostrar às nossas eternas meninas que é possível encontrar propósito e prazer em todos os aspectos da existência.
A palavra que resta

O livro de Stênio Gardel, a Palavra que Resta, é daquelas obras misteriosas: contam uma história triste, mas o encanto é tanto, que a alma termina leve. Talvez tenha sido esse encantamento que inundou nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) sobre o livro. Mesmo que algumas de nós passassem por momentos difíceis de saúde em suas famílias, conseguimos ter um encontro alegre e profundo, no qual a compaixão pelo sofrimento de Raimundo e sua dúvida de uma vida inteira sobre as palavras escritas por Cícero, que não conseguiu ler, se misturou com nossas próprias palavras não ditas. Em seu primeiro romance, o cearense Gardel conta a história de amor de dois rapazes que se separam após a descoberta do romance pelas famílias. Na falta de uma despedida, Cícero manda entregar uma carta a Raimundo, que a guarda ao longo dos anos sem conhecer seu conteúdo, porque não sabe ler e não quer dividir aquelas palavras com ninguém. Somente aos 71 anos, ele decide se alfabetizar para poder finalmente abrir a carta. Em uma mistura de narradores e tempos nem sempre identificáveis, acompanhamos Raimundo em seus muitos anos de ajudante de caminhoneiro, escondendo sua sexualidade, até o encontro como a travesti Suzzanný, que mudaria sua trajetória para uma vida de aceitação e realização como costureiro. Com A Palavra que Resta, o autor e a tradutora Bruna Dantas Lobato venceram o National Book, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, na categoria melhor livro de literatura traduzido. Foram os primeiros brasileiros e os primeiros nomes em língua portuguesa a ganhar o prêmio. Na reunião preparada pela Wal, anfitriã do mês do CFL, trouxemos cartas seladas com palavras que conseguimos dizer em nossas vidas. A maior parte de nós as queimou, deixando-as ir, enquanto algumas preferiam guardá-las e, quem sabe, enviar algum dia ao destinatário… Trouxemos, ainda, objetos amuletos que, como a carta de Raimundo, levamos conosco ao longo dos anos. Achei emblemático apenas uma de nós levar cartas recebidas de amores antigos, enquanto as demais carregamos lembranças de familiares queridos, sobretudo mães e avós. Desenrolando um novelo de lã, dissemos umas às outras as palavras importantes que nos mantêm unidas por tanto tempo em uma rede de afeto e amizade. Palavras sempre disponíveis, para que nunca reste nada por dizer entre nós.
Escritoras mostram que memória pode ser sentimento e ancestralidade

Dois livros sobre memória, dois pontos de vista, ambos tocantes e prazerosos. Enquanto Hilda Lucas, em A Casa Dentro de Mim (Editora Laranja Original), mergulha em suas lembranças, Renata Lima, em Desde Lucrécia (Editora Faria e Silva) vai em busca de histórias e documentos de família. As duas preenchem as lacunas com a imaginação e nos levam junto como testemunhas. Em A Casa Dentro de Mim, Hilda mostra do que é feita: da infância em Ilhéus, cercada de família, nas casas dos avós, na fazenda, da religiosidade marcando sua formação. Depois a mudança para o Rio de Janeiro, adolescência, faculdade e, aos poucos, a menina que tias e avós constaram ao nascer “vai ser curiosa, nasceu com os olhos abertos ponto reparo em tudo”, ganhou o mundo, sobrenome famoso e uma imensidão de oportunidades. Mas o que preenche sua casa são as relações profundas, a mãe, as filhas, e os pequenos acontecimentos, os detalhes, aquilo que não se ostenta. Cada pequena crônica do livro é uma viagem à linguagem poética e única da autora, para quem “memória é lugar vereda abismo remanso. É quimera inventário invenção. Se é mentira, é também verdade e, na maior parte das vezes, falácia ou ficção. Viva, volátil e autoral, a Memória é minha, e eu mato quanto quiser. (…) Que minha alma-memória não se afaste de mim enquanto vivermos. Nós duas, se não autoras do vivido, autora das nossas lembranças. Memória é oráculo”. O livro de Renata também é oráculo, mas de pessoas antigas e acontecimentos históricos, como diz a autora, que traz à tona 13 gerações de sua família, Desde Lucrécia, no final do século 16, em Portugal, até seu pai nos dias atuais. De família de cristãos novos, Lucrécia Pedroso foi presa pela Inquisição por práticas de judaísmo, “foi condenada a cárcere e hábito perpétuo. Em 1596, teve sua punição comutada para penas espirituais. Mudou seu nome para Lucrécia da Cruz, virou freira capucha, foi mulher na Casa de Recolhimento da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, em Almada”. Diante da violência, os irmãos, António e Pedro (ascendente direto de Renata), imigraram para o Brasil, aonde chegaram, por volta de 1600, em São Vicente. Nos 400 anos desde então, a família cresceu e prosperou e faz parte das famílias pioneiras que se costuma chamar em São Paulo de “quatrocentões”. De bandeirantes escravizadores de indígenas, passaram a fazendeiros donos de escravos por gerações e políticos influentes – seu trisavô Manoel foi senador e era irmão do presidente da República Prudente de Moraes. Fiel aos fatos, a autora não enaltece nem desmerece o histórico familiar, é o máximo possível fiel ao que apurou, inclusive mostrando a falta de possibilidades e escolhas mesmo para as mulheres da elite sob a sociedade totalmente patriarcal. “Descobrir Lucrécia Pedroso e a sina dessa família de cristãos-novos no século 16, gerou uma onda de impactos, como o seixo que repica na superfície de um lago espelhado. (…) Há memórias que ainda latejam. Atraem e repelem, com a força invisível dos polos de um ímã.” Como conclui Renata ao final do relado, “a memória é um atordoamento”.
Apocalipse nos Trópicos é uma ode para que ele não aconteça

O documentário Apocalipse nos Trópicos, da cineasta Petra Costa, está sendo exibido na Netflix e merece ser visto. O filme não emociona tanto quanto Democracia em Vertigem, de 2019, que foi indicado ao Oscar e ao qual assisti às lágrimas, talvez porque estamos mais cascudos aos absurdos naturalizados desde então, mas é um ótimo retrato do crescimento dos evangélicos na política brasileira e seu papel na ascensão da extrema direita no país e de Bolsonaro à presidência, além da tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. Costa faz do pastor Malafaia seu personagem emblemático. Falastrão, ele explica que seu principal objetivo é ter o poder terreno mesmo, ou seja, Brasília, e que não mede esforços para tanto. Fala de Bolsonaro quase como um subordinado seu. É engraçada uma cena em que o ex-presidente discursa e Malafaia, ao seu lado no palanque, vai falando labialmente as palavras junto com ele, como faria um “ponto” no teatro. Poderia ser divertida também, mas absolutamente não é, a entrevista com uma senhora na Bahia que diz gostar muito das políticas do Lula, que ele fez muita coisa para a população, mas que não votaria nele porque ele era do Candomblé e isso era inadmissível. Quando perguntada sobre de onde tirou a informação, ela mostra o celular. Me chamou a atenção, ainda, a forma articulada de funcionamento da bancada evangélica no Congresso Nacional. Dizer que a cineasta generaliza os evangélicos é pueril diante das cenas que mostram como eles acham muito natural transformar o legislativo brasileiro em quintal de suas crenças. Estado laico para eles não representa nada. O alinhamento da bancada da Bíblia com a da Bala fica bem claro sobretudo nos comícios. Me deixou intrigada também a obsessão que os evangélicos têm com o aborto: a primeira coisa a ser combatida no mundo em todos os discursos. Alguém precisa dizer pra eles que mentir descaradamente na internet ou nos palanques, assediar, estuprar e bater em mulheres, deixar crianças abandonadas nas ruas, deixar pessoas morrerem sem atendimento médico e ainda debochar dos doentes é um caminho muito mais certeiro para o inferno, seja lá o que for isso, do que ajudar uma menina violentada a ter alguma chance de futuro ou uma mulher adulta decidir o que fazer com o próprio corpo. O que mais me espanta, porém, vendo o documentário, me lembrando dos quatro terríveis anos do governo Bolsonaro – principalmente durante a pandemia – e em todos os noticiários diários desde então, é como alguém consegue votar em uma pessoa que não consegue formular uma frase coerente como começo, meio e fim.
Obra de ficção

Atenção: este é um diálogo hipotético. Uma obra de ficção. – Boa tarde! O senhor é o administrador do Parque Villa-Lobos? – Sim, no que posso ajudá-lo? – Eu gostaria de usar o parque para fazer algumas coisinhas e queria saber o que é possível. – Meu amigo, não trabalhamos com limites, mas com os trocadinhos que pingam. Dependendo do valor, pode fazer o que quiser. – Posso instalar máquinas, totens e equipamentos? Vender qualquer coisa? – Pode. – Ah! Muito bom. Posso cercar qualquer área do parque e fazer as obras que precisar? – Com certeza. – Mesmo obras permanentes e sublocadas? – Mesmo estas. – E tem alguma regra sobre como seriam os equipamentos, destinação de locais, datas possíveis, padronização, paisagismo? – Nada, apenas é desejável que escreva alguma placa que contenha palavras como “verde”, “sustentável”, “sustentabilidade”, “natureza”, “bem-estar”, qualquer coisa dessas. Mas não é obrigatório. – E os frequentadores do parque não acham ruim, não protestam? Tenho acompanhado o que está acontecendo no Parque da Água Branca e fico um pouco receoso. – Não se preocupe, o pessoal aqui não é tão radical e esquerdopata como os de lá. – Ufa! Mas alguma parte do pagamento vai para os equipamentos do próprio parque, como manter os espelhos d’água da biblioteca, reabrir o Circuito das Árvores ou restaurar e colocar em funcionamento o orquidário? Isso pode encarecer o projeto. – Imagina, o povo que frequenta este parque nem percebe que esses equipamentos existem. Aqui podemos fazer tudo o que quisermos. Dá para reservar parte do estacionamento, cobrar entrada de tudo, circular com caminhões dentro do parque na hora que precisar. Nossos eleitores nos autorizam e não estão nem aí para essas bobagens de paisagismo, arborização e sossego, que é coisa de vagabundo, não de patriota. – Que maravilha! Vai ser um prazer fazer negócio com gestores tão responsáveis e visionários. Circuito das Árvores: fechado!
Mães e meninos – Parte 2

Brincava sozinha no quarto que dividia com meu irmão, quando ele entrou afogueado e se deitou na cama, aparentemente disposto a dormir. Pressenti que havia acontecido algo, mas meu interesse por ele era bem limitado naquela época para perguntar. Minutos depois, a campainha tocou e corri para atender. Me deparei com a mãe de um garoto que morava na rua de baixo, trazendo o filho com a boca ensanguentada pelo braço e cara de poucos amigos. Era uma mulher pequena, muito magra e enrugada, que não inspirava simpatia na criançada, mas alguns de seus muitos filhos apareciam, de vez em quando, para brincar na vila. Vinha cercada de um bando de meninos curiosos e barulhentos. Quando minha mãe finalmente apareceu, a mulher apontou para a boca do filho, que tinha o lábio inchado e um dente da frente faltando um pedaço: – Olha o que seu filho fez. – Como você sabe que foi ele? – respondeu minha mãe, com a calma de quem espera desarmar uma bomba. – Os meninos são todos testemunhas. Minha mãe mandou, então, que eu chamasse o meliante dentro de casa. Luiz apareceu com cara de quem ia para a forca. – Foi você quem fez isso? – Foi – sussurrou meu irmão. – Como aconteceu? – Estávamos brincando de um derrubar o outro do muro e ele caiu quando eu empurrei. – Quer dizer que todos os meninos estavam em cima do mundo, um empurrando o outro para que caísse? – É – assentiu Luiz, acompanhado da concordância dos demais. – Alguém mais caiu? Vários meninos se manifestaram. Caíram, mas não perderam o dente. Mamãe virou para a mulher, que claramente não sabia da história toda e começava de se sentir mais embaraçada do que raivosa: – Não sei o que você espera que eu faça. Seu filho é bem maior que o meu, estavam todos na mesma situação, e poderia muito bem ter sido o meu que tivesse se machucado. – É, mas vou ter que levar ele ao dentista. – Infelizmente, vai. E, se não quer que aconteça de novo, fala pro seu filho não participar mais desse tipo de brincadeira – disse mamãe encerrando a conversa. Ao entrarmos, ela chamou Luiz, deu uma olhada de cima a baixo e avisou, enquanto colocava os óculos: – Vê se escolhe bem do que quer brincar. Se me aparecer sem dente porque ficou de empurra-empurra em cima de muro, vai ficar banguela. E voltou para o livro que estava lendo.
Mães e meninos – Parte 1

Era uma guerra de mamona e umas dez crianças tentavam se acertar indistintamente no meio da rua de vila em que morávamos. Não havia times, apenas anarquia. O objetivo era atingir quem estivesse pela frente. Até que um dos gêmeos acertou Téo, um dos menorzinhos do grupo, no olho direito. O menino tapou o rosto com as mãos e correu para casa chorando ruidosamente. A meninada se condoeu por alguns segundos, acompanhou a saída do ferido e voltou à luta. Guerra é guerra. De repente, uma movimentação entre o muro baixo que separava as casas de Téo e dos gêmeos chamou a atenção. A atarracada mãe do atingido mostrava aos berros à mãe do atirador – que ninguém sabia quem era, pois não conseguíamos distinguir os gêmeos – o machucado do filho. Difícil saber o que ela queria exatamente, a não ser, presumo, destilar a raiva por ser interrompida pelo moleque chorão. A outra, por sua vez, que normalmente mais parecia uma linda, loura e frágil mãe de subúrbio americano, desceu das tamancas e, confesso, aprendi muitos palavrões novos naquele dia. Nessa altura, a guerra estava há muito esquecida. Estávamos todos sentados no muro da casa em frente assistindo ao espetáculo, que ganhava cada vez mais público. Téo havia se juntado a nós e se encaixou entre seu irmão mais velho e um dos gêmeos. Então, minha mãe saiu ao portão e, bastou olhar em nossa direção, eu e meu irmão sabíamos que deveríamos entrar. Fomos liberados um pouco mais tarde, quando os meninos corriam novamente pela rua e a mãe dos gêmeos aguava placidamente o jardim, enquanto a vizinha de muro varria a calçada, a menos de cinco metros uma da outra. Tempos de paz.
A África sem estereótipos de Binyavanga Wainaina

Apesar de não ser uma leitura fácil, Um Dia Vou Escrever Sobre Este Lugar, de Binyavanga Wainaina, é um dos livros mais interessantes que já li sobre a África, possivelmente por ser escrito por um africano negro de classe média, com uma realidade não muito diferente de qualquer morador de classe média de país em desenvolvimento, como o Brasil. A maior parte das obras literárias que tive acesso sobre o continente e de autores africanos são de escritores brancos (como como Mia Couto e Isabela Figueiredo) ou mulheres com experiências extremas – de mutilação, guerras (como Ayaan Hirsi Ali). Infelizmente, até agora li apenas ensaios da Chimamanda Ngozi Adichieainda, autora citada pelo próprio Wainaina. Binyavanga conta suas memórias em uma estrutura de tempo linear e, apesar de escrever a partir do futuro, a maior parte da narrativa é presentificada, sobretudo a primeira parte, relativa à infância e à adolescência, revivida pelo autor sem contextualização. Tudo é trazido sob o ponto de vista do cotidiano da criança e, depois, do adolescente: “Tenho sete anos de idade, e ainda não sei por que todo mundo parece saber o que está fazendo ou por que está fazendo”. “Ela é a estrela da classe. É 1978, e todos frequentamos a escola de ensino fundamental Lena Moi Primary School”. “É período de recesso escolar e está frio. Julho”. (pág. 9) Mesmo partindo de episódios familiares, as grandes questões do autor estão divididas em todo o livro entre o que é pessoal e o que é histórico, cultural e político em seu país e em toda a África, em como o contexto influencia sua existência e como reage a ele. Esta parece ser uma intenção clara já a partir do título de suas memórias, Ainda Vou Escrever Sobre Este LUGAR. Mas Wainaina não tem compromisso com o esclarecimento das circunstâncias para quem não está familiarizado com elas. Na maior parte do texto, essa falta de explicações ou o uso de palavras em vários idiomas não faz falta. Em alguns casos, ficamos mesmo sem entender, o que não diminui a vontade de continuar a leitura. Aliás, é muito interessante ver, em toda a primeira parte, que ocupa praticamente metade do livro, questões políticas apresentadas como uma criança que ouviu a história em casa contaria: “O Presidente Moi não vem de uma família importante. Ele era só um professor de ensino fundamental antes de entrar para a política. Ele está sempre sendo humilhado.” Dessa maneira, a vida cotidiana de um menino de uma família de classe média do Quênia se desenrola entre a escola e a família em um contexto de eterna instabilidade política de um país recém-saído do colonialismo. Mesmo assim, o Quênia é descrito como um país privilegiado e líder daquela parte da África, ao contrário de Uganda, terra natal de sua mãe, assombrada por Idi Amim Dada, ditador sanguinário e cruel, do qual Bynyavanga não precisa trazer detalhes, porque faz parte do imaginário global, pelo menos de quem acompanhava o noticiário dos anos 1970. Na página 49, temos um ótimo exemplo desse ponto de vista: “Olha! Olha o Michael Jackson se movendo como se não quebrasse. Tentamos dançar como ele.” “Baba nos acorda esta manhã e conta que houve um golpe de Estado (…) Há tiroteios por todo o Quênia (…) Muitas mulheres são estupradas. Há toques de recolher, por meses, e prisões (…).” “O Quênia não é Uganda. O Quênia tem grandes estradas e ferrovias e edifícios altos, ciência e tecnologia, pesquisa e grandes aviões (…). À tarde, o golpe é derrubado e milhares são mortos. Nairóbi tem cadáveres por todos os lados.” Embora linear, como mencionei antes, a narrativa tem mudanças de temas e tons, podendo ser dividida em outras três partes após a infância e adolescência no Quênia: a crise existencial (na África do Sul e no Quênia), a descoberta da vontade de ser escritor (na África do Sul e no Quênia) e o escritor reconhecido (África e Estados Unidos). Durante a adolescência e em todo o restante do livro, o autor deixa pistas não apenas do seu desconforto com questões políticas, mas também de uma inquietação e inadequação interior, que só revela ao final, quando conta aos pais já falecidos, em sua imaginação, que é homossexual. A sexualidade é uma questão mal resolvida que perpassa o livro sem ser manifestada e que parece não ser totalmente resolvida durante a vida de Binyavanga. Wainaina também descortina ao longo do texto a hierarquização em um país dividido em tribos e línguas diferentes, no qual o equilíbrio de forças é frágil e muda rapidamente a depender de quem está no poder. O autor se movimenta nessa miríade de povos e línguas sem preocupação de explicar termos, costumes etc., e vamos atrás tentando assimilar o que, parece, nem ele entende totalmente. A questão da língua é uma constante, e é difícil saber quais ele domina mais ou menos: é falante de inglês e Swahili, a língua oficial do Quênia (e em outros países africanos), mas compreende também o idioma paterno, Gikuro, que parece ser uma das etnias dominantes, enquanto salienta não entender o dialeto da mãe. Deixa claro que ser um africano é ser, no mínimo, bilíngue: “Há algumas semanas, li Decolonising the Mind, de Ngüri wa Thiong’o. É ilegal e foi emocionante, e eu tinha prometido voltar para minha própria língua. Inglês é a língua do colonizador.” Outra característica do autor, que vai ficando mais aparente conforme amadurece é a ironia. Um exemplo é quando Wainaina aborda a imagem da África fora dela e o termo diversidade, ao falar sobre os formulários para bolsas de estudo no exterior, nas quais se prega o “clube Modelo da ONU” e os “Shows da Unesco sobre as crianças do mundo”. E termina dizendo: “Quero fazer diversidade”. A partir do capítulo 13, quando Binyavanga vai para a universidade em Joanesburgo, há uma mudança no foco narrativo. A marcação deixa de ser apenas no presente: “Quando nos conhecemos, ele me perguntou qual era meu nome no rap. Eu