Como é vestir-se de outros?

Transportar a experiência performática para a literatura é um desafio e tanto, mas foi encarado pela artista Beatriz Cruz no Projeto Desandar, uma coleção que traz para fotos e textos programas de performance que transitam entre os territórios do corpo e da linguagem. A obra, que lançou também a Editora Kipuka, nova aventura da Lili Almendary, também cofundadora da Taturama – Cinema de Impacto Social, vem em um caixa com três livros. O primeiro traz uma “Série de programas de performance para a cidade, o corpo e o fim do mundo” e surge da experiência com práticas de deriva urbana, de errar pela cidade, de andar sem um rumo ou objetivo a priori. E dá uma noção do olhar de Beatriz e como a performer usa o corpo em sua arte. O segundo livro é o audacioso “Uma ode à siririca e ao orgasmo autogestionado como resistência ao patriarcado”. Mais não falo, apenas recomendo que leiam sozinhas, de preferência em casa… “Notas sobre 365 dias vestida de outras pessoas”, o terceiro livro, me acompanhou por uma semana inteira de viagem imaginária. Nele, Beatriz relata, quase como um diário repleto de fotos, sua experiência de vestir-se exclusivamente com roupas emprestadas, a cada semana por uma pessoa diferente, durante um ano. Algumas delas quiseram usar as roupas da artista durante a participação. Nessa aventura, que chamou de “Descaracterizar-se”, Beatriz vestiu roupas de pessoas de todo tipo: mulheres e homens cis e pessoas não binárias. Usou até roupa de travesti. A cada semana, recebia uma mala preparada por alguém com trajes para todas as ocasiões (dormir, ficar em casa, trabalhar, passear), algumas com instruções bem precisas sobre a montagem dos trajes. Podia passar uma semana parecendo uma senhorinha, como quando pegou as roupas de sua avó, e na semana seguinte sair como um garoto grunge, com bermudões surrados e camisetas rasgadas ou com motivos rock and roll. Mudou o cabelo, pintou e cortou os cabelos, usou assessórios, pintou as unhas e fez maquiagem sempre de acordo com quem a estava vestindo. Ler seus relatos sobre como as roupas afetavam o seu cotidiano, desde o humor a como as pessoas a tratavam na rua, nos leva obrigatoriamente a questionar os papeis de gênero, convenções diversas e maneiras de ser de cada um. Como a performer pondera, todos nós fomos inicialmente vestidos por alguém. Como isso afetou nossos gostos e nossa personalidade? Como nosso gênero, profissão, ambiente que frequentamos moldam nossa maneira de vestir? Me vi em vários momentos pensando nas minhas próprias roupas e o que elas falam sobre mim. Lembrei do estilo de várias amigas e me imaginei vestindo suas roupas e perguntando quem eu seria com elas? Como eu seria com as combinações inusitadas da Nivia, que a deixam superelegante, mas que eu jamais pensaria em fazer? Ou com o estilo esportivo chique da Claudia, com as roupas transadas de trabalho da Paulinha e as sempre descoladas da Lili e da Nat? Teria coragem de usar os sapatos maravilhosos da Bia? Como eu faria exercícios com trajes de ginástica estilosos iguais aos da Maura ou da Regina? Será que minhas roupas me moldam ou as escolho a partir de um molde interno já determinado? Se alguém usasse minhas roupas, ficaria com um jeito parecido ao meu? É impressionante até onde a experiência de um livro consegue nos levar.
Mata Doce

Mata Doce é um lugar no coração do Brasil, provavelmente nascido de um quilombo, onde em um tempo indefinido os donos da terra estão constantemente ameaçados pelo primeiro coronel branco que chegar. Onde a justiça oficial é tão improvável, que ninguém nem pensa em buscar. A alternativa é procurar um jeito de viver cada um com suas dores e, quem sabe, contar com o justiçamento de deus. Neste lugar presenteado pela escritora Luciany Aparecida, cachorros podem ser imortais, rosas brancas inundam o ambiente com seu perfume, mulheres podem ser um casal sem ser incomodadas, mesmo uma delas sendo uma travesti. Lá, uma noiva, cujo casamento não se concretizou por conta de um assassinato injustificável, pode ter três mães. E mesmo cercada de toda essa quantidade de amor materno, passar uma vida inteira de falta. Em Mata Doce, uma noiva banhada em sangue, escolhe passar o resto de sua existência nesta condição. Maria Teresa transforma-se em filinha mata-boi para aplacar sua raiva todos os sábados no matadouro de seu algoz, impondo a ele sua presença. Mas a noiva também é a datilógrafa que imortaliza em cartas histórias e sentimentos não ditos de personagens esquecidos do Brasil. Foi neste mundo ao mesmo tempo belo, amoroso, violento e triste que imergimos em nossa última reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), algumas vestidas de noiva, outras de vaqueira, todas Maria Teresa/Filinha Mata Boi. Em um ambiente cercado de religiosidade e rosas, entramos na intimidade de cada morador de Mata Doce, sofremos suas dores, o iminente fim de sua comunidade, e escrevemos cartas: uma amiga datilografava enquanto outra ditava algo destinado a uma terceira de nós. Ao contrário das cartas do livro, repartimos nossos afetos lendo as mensagens no final.
Publicação traz propostas para COP 30

A COP 30, que é a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, está chegando, é no Brasil, a maior nação poluidora do mundo não apenas não vai participar, como seu inominável líder é o maior negacionista do clima do planeta. E o assunto corrente é se haverá lugar para o povo se hospedar em Belém do Pará. Claro que este é um tema importante, sem os negociadores presentes, não há decisões na conferência, mas o foco mesmo da coisa parece perder relevância na boca do povo. O documento Propostas para uma Transição Climática Global para o Setor do Uso da Terra, da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que ajudei a editar, lançado na Climate Week, em Nova York na semana passada, traz algumas pistas da responsabilidade e das oportunidades do Brasil como organizador do evento. Responsabilidade, porque mais de três quartos das emissões brasileiras estão vinculadas diretamente à terra e ao setor agropecuário – sendo 46,2% de mudanças no uso da terra e florestas e 27,5% da agropecuária. Esses números evidenciam que nenhuma estratégia climática será bem-sucedida sem uma abordagem consistente para agricultura, florestas e outros usos do solo no Brasil. É também uma oportunidade, porque a conferência será realizada no coração da Amazônia, oferecendo ao Brasil a chance de apresentar ao mundo não apenas compromissos, mas soluções concretas de implementação que conciliam produção, conservação e inclusão social. É uma chance que ganha ainda mais relevância quando se observam as incertezas geopolíticas do cenário internacional – marcado pela retração do multilateralismo e por conflitos armados – e a intensificação de eventos climáticos extremos – como secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais -, que ameaçam a produção agrícola, agravam a crise hídrica e expõem populações vulneráveis à insegurança alimentar. Para a Coalizão, o êxito da COP 30 deverá ser medido não apenas por resoluções diplomáticas, mas pela capacidade de transformar compromissos presentes em conferências anteriores em implementações tangíveis. Entre os avanços concretos esperados de sucesso estão: a mobilização de novos fluxos financeiros internacionais, em escala compatível com a emergência climática; avanços concretos na transição energética; e a aprovação do Marco Global da Adaptação. Em relação específica ao uso da terra, espera-se a criação de mecanismos internacionais melhores que os atuais e que remunerem de forma efetiva a conservação e a restauração de florestas e outros ecossistemas tropicais; o estabelecimento de compromissos claros para redirecionar subsídios a combustíveis fósseis para Soluções Baseadas na Natureza, que promovam conservação, produção de alimentos e bioenergia; e o desenvolvimento de iniciativas globais de recuperação de solos agrícolas. A publicação e um sumário executivo estão disponíveis no site da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
Bienal é um privilégio paulistano

Não perca a 36a Bienal de São Paulo. Mesmo que não entenda de arte, como eu, vale muito a pena. É um privilégio ter um evento desse porte na cidade, por tanto tempo e de graça. Uma mostra que acontece a cada dois anos desde 1951 e tem um prédio próprio especialmente projetado para ela por arquitetos como Oscar Niemeyer dentro do Parque Ibirapuera. Tudo isso já é motivo suficiente para programar correndo a visita, mas a Bienal de São Paulo ainda é considerada um dos três principais eventos do circuito artístico internacional, junto à Bienal de Veneza e à Documenta de Kassel (realizada na Alemanha a cada cinco anos). E nem precisa tanta pressa, já que a Bienal vai até 11 de janeiro de 2026, abrindo de terça a domingo, das 10 às 18 horas (aos sábados, vai até às 19 horas). Com o tema “Nem todo viandante anda estradas. Da humanidade como prática”, esta edição traz uma presença feminina muito forte e uma maior parte de artistas brasileiros e do sul global. As instalações predominam e contam uma história da presença humana e sua interação com os demais seres e com o planeta. Os temas são mostrados em seis capítulos e são autoexplicativos, as sensações vão dando conta do que se está querendo transmitir. Fazer uma visita guiada ajuda a entender, mas não é essencial. O importante é se deixar levar pela curiosidade, como em um passeio, sem compromisso, apenas sentindo. Dá para passar pelo menos duas horas por lá, percorrendo paisagens sonoras, olfativas, táteis e visuais. Entrar e já percorrer uma mata de cerrado com plantas nativas do bioma criada especialmente para a exposição pela artista e poeta britânica Precious Okoyomon. Se maravilhar dentro da instalação totalmente instagramável da chinesa Song Dong, com espelhos, lustres e abajures, todos emprestados de casas reais, ouvir o som vindo das entranhas do pavilhão a bienal via dutos de encanamento ou a sinfonia criada por ar e lâmpadas em contato com a água. É impossível passar por obras de pura beleza, como o caracol de panos pintados com flores, de Maria Magdalena Campo Pons, e não sair encantado desta viagem pela “intratável beleza do mundo”, nome da última parte da exposição.
Tristeza pela morte do idealizador das cidades esponjas

Fiquei consternada com a morte do arquiteto chinês Kongjian Yu em um acidente aéreo no Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Yu foi o criador do conceito de cidades esponja, uma das melhores definições para cidades sustentáveis, harmônicas com o meio ambiente e resilientes às mudanças climáticas. Escrevi sobre o paisagista e as cidades esponja na publicação Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas, lançada em fevereiro deste ano pelo Instituto Água e Saneamento (IAS). No trecho sobre o tema, reproduzido abaixo, dá para ter uma ideia da importância de Yu e de seu legado. Cidades esponjas na China Uma cidade-esponja é aquela com capacidade de deter, limpar e infiltrar águas usando soluções baseadas na natureza. Para entrar nessa categoria, uma cidade precisa encontrar soluções que ajudem a absorver as águas de chuva, seja em áreas livres ou construídas. Essas águas vão recarregar os aquíferos e lençóis freáticos, enquanto o excedente de chuva escorre para áreas possíveis de serem alagáveis. Várias cidades pelo mundo têm aderido a elementos característicos de cidades-esponja, como Nova York, nos Estados Unidos, Berlim, na Alemanha, Copenhague, na Dinamarca, Bangcoc, na Tailândia. Mas a grande referência mundial é a China, com 16 cidades adaptadas a esse conceito, incluindo metrópoles como Pequim e Xangai, além de mais de 250 cidades com projetos usando os mesmos princípios. O país passou a investir nesse tipo de intervenção urbanística a partir de 2012, quando uma grave enchente matou cerca de 80 pessoas em Pequim. Atualmente, a capital chinesa possui uma área de 150 hectares criada para absorver a água pluvial e evitar que tragédias semelhantes se repitam. Outras cidades do país que passaram por intervenções desde então são Xangai, Zhoushan, Suzhou Xi’na e Jinhua. A cerca de 350 km de Xangai, esta última com algumas das mais belas construções seguindo esses conceitos e uma das vitrines chinesas com seus enormes parques com passarelas suspensas e solo alagável. Uma das causas desse protagonismo é o paisagista chinês Kongjian Yu, professor da Universidade de Pequim, criador do conceito de cidade-esponja. Pelo pioneirismo, ele recebeu, em 2020, o prêmio Sir Geoffrey Jellicoe, da Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas, e, em 2023, o Prêmio Internacional de Arquitetura Paisagística Cornelia Hahn Oberlander. Ao perceber o avanço da infraestrutura cinza, com o aumento do concreto nas cidades (canalizando rios e impermeabilizando grandes áreas), Yu passou a praticar um urbanismo que privilegia a natureza para lidar com enchentes, priorizando grandes áreas alagáveis e presença de vegetação nativa. Isso torna as cidades uma espécie de esponja, com capacidade para receber inundações deixando a água escoar lentamente. Entre as medidas que tornam uma cidade esponja estão: a criação de áreas verdes como parques alagáveis; a reconstrução das margens dos rios, com a retirada de concreto e replantio de matas ciliares; implementação de jardins de chuva ou áreas verdes espalhadas pela cidade; criação de telhados verdes, para reduzir a taxa de escoamento da chuva; introdução de tecnologias de pavimentação permeável, para também absorver a água. Para o arquiteto chinês, “as enchentes não são inimigas e podemos ser amigos delas usando sabedoria ancestral”. Yu preconiza que muros de contenção são uma ameaça, por funcionarem como uma barreira que impede a água de retornar para o leito dos rios durante transbordamentos, assim como a canalização e retificação de rios, que aumentam a velocidade do fluxo da água ao invés de retardá-la.
Ser ou não ser mãe, eis a questão

Embora tenham abordagens diferentes, o mesmo tema permeia Manifesto Antimaternalista, de Vera Iaconelli (Editora Zahar), e Maternidade, de Sheila Heti (Companhia das Letras). Ambos os livros problematizam a maternidade como função primordial da mulher, ideia corrente na sociedade ainda hoje nos quatro cantos do mundo. Enquanto Iaconelli aborda o assunto de maneira quase acadêmica, sob o ponto de vista da psicanálise e das políticas de reprodução, escancarando eventos políticos e sociais que moldaram um ideal de maternidade baseado na hipervalorização do papel de cuidadora na genitora e na conceção de um instinto materno que impõe sacrifício, abnegação e culpa à mulher, Heti escreve um livro inteiro para se decidir se quer (ou precisa) ser mãe. Segundo a psicanalista e escritora Vera Iaconelli, o maternalismo é a ideologia que atribui às mães um papel insubstituível no cuidado com as crianças, um modelo anacrônico, fonte de inúmeros sofrimentos e adoecimentos para as mulheres. Mais do que isso, o termo “mãe”, conforme a autora, se liga ao mito de que a genitora é o tipo preferencial de mãe, aquela que teria dotes naturais para a função, ou seja, o famoso “mãe só tem uma!”, distinguindo-a de todos os demais cuidadores, incluindo o pai. Seu manifesto antimaternalista combate a falsa premissa de que haveria uma natureza maternal decorrente do instinto e coloca em xeque o modelo de reprodução social que procura manter as mulheres em posição subalterna e que negligencia um sentido coletivo de cuidado e responsabilização. Chegando à idade crítica para procriar e vendo a maior parte de suas amigas se tornar mãe, a autora canadense Sheila Heti também questiona o papel feminino como principal responsável pela reprodução da espécie e, assim como Iaconelli, a ideia imposta às mulheres de incompletude se não tiverem filhos. Em suas sofridas divagações, que devem ser as mesmas de um número exorbitantes de mulheres atualmente, ela diz que, se pudesse, adoraria ser pai. E ninguém diga que essa afirmação carece de explicação. Mais do que a “mãe genitora”, que Iaconelli tão bem descreve, Sheila Heti também discute esse lugar de cuidadora que todos esperam das mulheres: “Na verdade, a coisa mais difícil é não ser mãe – se recusar a ser a mãe de quem quer que seja. (…) Há sempre alguém pronto a se meter no meio do caminho que leva uma mulher a sua liberdade, percebendo que ela não é mãe, tentando transformá-la em uma (…) – pessoas que querem que você faça com que tomem suas vitaminas, ou precisam do seu conselho a todo momento, ou que simplesmente querem conversar, tomar uma cerveja – e te persuadir a ser a mãe deles.” Fico muito feliz em ver mulheres jovens atualmente tendo dúvidas ou falando com naturalidade sobre não querer ser mães, pois nunca acreditei na máxima de que uma mulher só se realiza pela maternidade. E sempre me irritou a sobrecarga sobres as mães. Tinha a convicção de que não queria ter filhos. Como me casei muito cedo, aos 22 anos, passei anos sendo questionada sobre porque não engravidava, o que era muito irritante. Aos 30 anos, de repente, quis ser mãe, conversei com meu marido, e resolvemos juntos sermos pais. Em três anos, tivemos três filhos e foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, embora eu saiba que outras coisas boas poderiam ter acontecido se nossa decisão fosse outra. Na fase de crianças pequenas, outra frase que me deixava louca era se meu marido me ajudava. Sempre combati a concepção de que toda a obrigação era minha e que tinha que ser agradecida de obter “ajuda” do pai dos meus filhos. Ainda estamos longe como sociedade de resolver essa questão. Por isso, esses dois livros são muito bons para quem pensa em ter um bebê, para as mulheres que já tiveram bebês e para as que não querem ter. Se possível, sobre o tema, leiam também O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Ou melhor, se tem mulher que ainda não leu, corra pra ler Beauvoir o mais rápido possível.
O conforto da bolha é bom, mas não resolve

Os algoritmos decidem o que eu vejo nas redes sociais a partir das postagens que curto, comento ou apenas me detenho. Isso significa uma inundação de informações sobre meio ambiente – agora a maior parte sobre a COP-30 -, literatura, feminismo e política alinhada às pautas de esquerda. Para quem não sabe, não significa comer criancinha ou ditadura comunista, mas direitos humanos, justiça social e coisas comezinhas como estas. Mas também vejo bastante coisa sobre moda, viagens e programas culturais e gastronômicos na cidade de São Paulo. Sou feliz na minha bolha. Ultimamente, porém, tenho me perguntado o que deve passar pelas redes das pessoas, digamos, “conservadoras”. O termo me incomoda muito, porque não sei até agora o que essas pessoas querem conservar. As últimas semanas têm sido uma montanha-russa destrambelhada impossível de controlar. Um julgamento histórico, com um peruqueiro no meio tentando melar, mas que no final nos deixou aliviados. Mas que tipo de informação abastece os que querem uma intervenção estadunidense no Brasil, para salvar seu mito golpista e implantar um regime totalitário por aqui em nome da “liberdade de expressão” !?!?!?! Fico imaginando quais argumentos devem passar nas timelines e chegar nos grupos de WhatsApp das pessoas desejosas da aprovação do Projeto da Anistia. Sei que estão imersos em uma bolha muito diferente da minha, mas ela deve ter alguma lógica. Será? Quando tenho alguma informação sobre esse mundo invertido, vejo uma senhorinha dizendo que Lula e os ministros do STF foram substituídos por sósias ou então pessoas vociferando livremente pelas ruas, mas dizendo que estamos em uma ditadura. Gostaria de saber se e onde essas pessoas estudaram lógica, pois não consigo acompanhar seus raciocínios. Deve haver algum raciocínio. Se tudo isso é incompreensível, a PEC da blindagem, ou da picaretagem ou da bandidagem, é difícil nomear, ultrapassa todo o resto. Que tipo de informação pode estar circulando entre essas pessoas que justifique apoiar parlamentares não poderem ser presos, ou mesmo investigados, nem por crises comuns, como assassinato e estupro? O pior, nesse caso, é que não é apenas o PL e seus irmãos de sangue que votaram sim, mas muitos deputados de esquerda ameaçados por algum malfeito. Aparentemente, seus eleitores nem precisam estar sendo informados, visto que os deputados não parecem estar muito preocupados com o que a sociedade pensa sobre o assunto. Até porque, desconfio, muitos vão votar neste mesmo congresso nefasto na próxima eleição, conforme seus líderes ou pastores mandarem. É por isso que sempre escolho parlamentares do Psol e da Rede. Eles não me decepcionam.
A bailarina

Acompanho as aventuras da Joana desde bebezinha, ou até antes, na barriga da mãe, minha amiga Daiani Mistieri, que sempre amou dividir as proezas da cria nas redes sociais. E a @jo.mistieri não decepciona. Era um azougue já bem pequena fazendo dança acrobática. E isso não faz tanto tempo assim, porque a menina só tem dez anos. Desde 2022, Joana é aluna da Escola Momentum Arte e Movimento e, sob direção e coreografia de Marina Mancini, já vem conquistando espaço nos palcos. Tem participado de importantes festivais e se destaca em cada apresentação. Com a coreografia “Dermatite Atópica”, criada por Marina Mancini em 2023, ganhou cinco premiações expressivas: o Festival Aplausos, o Festival de São Paulo, o Festival de Joinville e, mais recentemente, neste ano, o Festival Pridansp, no qual ficou em primeiro lugar. Além da conquista no Pridansp, Joana recebeu um convite exclusivo para se apresentar na Noite de Gala, um espaço reservado apenas para os grandes destaques do festival — um reconhecimento que celebra não só o talento, mas também todo o empenho e a evolução da jovem bailarina. Tem tudo para fazer história nos palcos, para corujice da mãe (e das amigas da mãe!). Enquanto isso, sigam ela por aqui, que é uma delícia.
Adolescente de Mariana Carrara traz credibilidade

“Se deus me chamar eu vou” é o terceiro romance que leio de Mariana Salomão Carrara, e a versatilidade da autora é o que mais gostei. Neste livro, a narradora é uma menina entre onze e doze anos escrevendo um livro/diário sobre o ano que está vivendo e transmite muita credibilidade. Aliás, mais credibilidade até do que a árvore e os objetos que contam a história em “A árvore mais sozinha do mundo”, em que pese o fato de não termos nenhuma ideia de como falariam uma árvore, um espelho, um carro e um uniforme de pulverização de veneno. Em “Não Fossem as Sílabas de Sábado”, a narradora é uma mulher adulta, cujo marido é morto por um vizinho que se joga da janela. Ainda é o meu preferido, mas ainda preciso ler “É Sempre a Hora da Nossa Morte Amém”, cuja protagonista, pelo que li, é uma septuagenária com problemas de memória. Mesmo que não tenha nenhuma metáfora ou pornografia embutida nos problemas de bullying sofridos por Maria Carmem e o trisal vivido por seus pais e o consultor Leonardo, a maneira como a narradora de “Se deus me chamar eu vou” encara seu cotidiano me lembrou “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, o diário da menina prostituída pelo pai de Hilda Hilst. Naquela obra, a autora brincava com o mercado editorial, Lori representando o autor, agenciado pelo editor/pai cafetão. O que me remeteu a Hilst, no caso da adolescente de Carrara, é o jeito direto de Maria Carmem tratar seus dramas, reconhecendo inclusive preferir o bullying à indiferença dos colegas e a inveja do amor a três dos pais em relação a ela, que se acredita incapaz de um dia ter um namorado. É um relato, mais do que tudo, sobre solidão. Para ler de um fôlego só.
Jornalistas contra o sistema

O fim de semana no Festival Piauí de Jornalismo, nos dias 6 e 7 de setembro foi uma experiência radical. Com o tema “A Contra-História, repórteres que bagunçam os mitos nacionais”, passaram pela Cinemateca jornalistas de vários cantos do mundo contando suas experiências e o funcionamento da vida real, aquela que até está disponível nos meios de comunicação, mas não temos tempo ou estômago para nos aprofundar. Entre os convidados, israelenses e estadunidenses que compartilham com a parte pensante da população a indignação pelos “patriotas” brasileiros adoradores de bandeiras de Israel e dos Estados Unidos em pleno dia da pátria. Assistir ao vivo o podcast mais querido de quem espera continuar se informando e mantendo a sanidade ao mesmo tempo foi a cereja do bolo. Uma fila se formou na entrada para pegar os melhores lugares para ouvir a música tema do Foro de Teresina e Fernando de Barros e Silva dar início, sem delongas, aos comentários de Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros sobre os principais assuntos políticos da semana no país. A jornalista etíope Selam Gebrekidan abriu o evento contando como foi realizada a reportagem do New York Times que desvendou a quantidade exorbitante que o Haiti teve que pagar à França como indenização por ter ganho a guerra contra o colonizador. Isso mesmo: é aparentemente o único caso no mundo em que o ganhador precisou reembolsar o perdedor – colonizador e escravagista – pelos prejuízos financeiros de não ter mais a colônia e os escravos. Essa aberração só foi possível porque os demais países escravocratas (Inglaterra, Estados Unidos, Portugal/Brasil etc.) não queriam que o exemplo haitiano se espalhasse. Com isso, a cada dois dólares produzidos no Haiti, a França ficava com um e meio. Isso diz muito sobre a pobreza do Haiti e a riqueza da França até os dias atuais, e só não enoja quem já perdeu (ou nunca teve) nenhuma dignidade. A repórter investigativa do NYTimes ainda contou como foi proibida de voltar ao seu país natal, a Etiópia, depois de narrar em suas matérias acordos suspeitos entre a Boeing e a companhia aérea Ethiopian Airlines após a queda dois aviões, matando mais de 150 pessoas. O jornalista russo Miklail Zygar cobriu várias guerras até tornar-se, em 2010, o primeiro editor-chefe do Dozhd, único canal de TV independente da Rússia e que cobria protestos contra Vladimir Putin. Hoje vivendo nos Estados Unidos, contou que teve que deixar a Rússia para não ser preso, pois foi condenado por espalhar fake news no país. As fake news, segundo o governo de Putin, referem-se a chamar a invasão da Ucrania de guerra, o que é proibido na Rússia. O depoimento mais tocante do evento talvez tenha sido o da nigeriana Kiki Mordi, que esteve à frente do documentário da BBC Sex for Grades (https://www.youtube.com/watch?v=we-F0Gi0Lqs) sobre assédio sexual nas universidades da Nigéria e de Gana. Mordi chorou (e nós também) ao contar como ela mesma foi obrigada a desistir do curso de medicina por não ceder ao assédio de um professor e decidiu ser jornalista para denunciar esse tipo de violência. No documentário, ela e mais duas jornalistas entraram como alunas infiltradas nas universidades e mostraram como a cultura de assédio funcionava. Em uma cena do documentário exibida no evento, um professor quer obrigar uma aluna/repórter a beijá-lo, apaga a luz e tranca a porta da sala. É terrível. Após o documentário, os professores envolvidos foram demitidos e as universidades nos dois países criaram regras para evitar o assédio. No entanto, Kiki Mordi foi perseguida, está sendo processada e teve que deixar o país. Proprietário do jornal Haaretz, de oposição a Benjamin Netanyahu, Amos Schocken não conseguiu sair de Israel para vir a São Paulo e participou do evento remotamente. Não consegui conter as lágrimas ao vê-lo contar, mesmo que já saibamos, as atrocidades cometidas pelo governo de seu país contra a população palestina, vivendo em um campo de concentração bombardeado constantemente e sem acesso à ajuda internacional. A matança de jornalistas impingida nesta guerra por Israel já fez mais vítimas do que a primeira e a segunda guerra mundiais juntas. E todos eles palestinos, pois jornalistas internacionais, inclusive israelenses, são proibidos do cobrir o massacre. Sobre a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan, Pakrat Estukyan nos contou que jornalistas são perseguidos e presos. O pequeno jornal Agos, do qual é editor, porém, é tolerado justamente, acredita ele, por ser pequeno, por ser o único veículo bilingue de Istanbul, escrito em turco e em armênio, e por seu fundador ter sido assassinado por um garoto nacionalista turco. Pakrat contou como a comunidade armênia, cujo genocídio a Turquia se nega a aceitar, vive no país sob preconceito e luta para manter viva sua cultura. Pela primeira vez, ouvi a história de que a criação da polícia de Nova York estava diretamente relacionada à captura de negros alforriados por policiais, que depois os vendiam no Sul dos Estados Unidos para voltarem à escravidão. O jornalista Chenjerai Kumanyikad narra esse fato no podcast Empire City, no qual mostra como o racismo estrutural está na base da polícia da sua cidade. Em sua entrevista, se emocionou ao saber dos mais de 6.000 mortos por ano, a maior parte homens negros jovens, pela polícia brasileira. A jornalista Ruth Marcus, atualmente na The New Yorker, narrou com detalhes como acabou pedindo demissão do jornal Whashington Post, um dos mais combativos dos Estados Unidos e onde trabalhou por mais de 40 anos, após ser censurada por escrever contra as regras do jornal de não falar mal de Donald Trump em editoriais e colunas de opinião. A jornalista contou sobre a mudança editorial no jornal após o novo dono, o poderoso dono Amazon, Jeffrey Bezos, se alinhar ao presidente ultradireitista, e comparou os empresários das bigtechs norte-americanas aos oligarcas russos. Ruth Marcus, especialista em Direito, abordou como Trump tem intimidado todo o sistema judiciário daquele país, incluindo os grandes escritórios de advocacia, assim como as demais instituições democráticas. Ambos os jornalistas estadunidenses se mostraram