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PaulistanaSP

Temos Fome, Somos Loucas na Feira do Livro de Porto Alegre

A Feira do Livro de Porto Alegre é uma das mais antigas do Brasil. Sua primeira edição foi em 1955, idealizada pelo jornalista Say Marques, diretor-secretário do Diário de Notícias. Acompanho esse evento há mais de 40 anos, quando comecei a frequentar Porto Alegre, uma cidade da qual sou apaixonada e, desde que me casei, em 1986, carrego no nome: Maura Campanili Porto Alegre. Por isso, poder participar de uma mesa de bate-papo e ter uma sessão de autógrafos do meu livro Temos Fome, Somos Loucas no evento deste ano é motivo de alegria e bastante expectativa. Quero conversar sobre o Círculo Feminino de Leitura, o CFL, clube do livro do qual faço parte com outras mulheres há mais de 17 anos e me inspirou a contar nossa história de amizades, encontros, leituras e muitos brindes nesta obra publicada pela Editora Pitanga. Clubes do livro têm se espalhado no país como uma forma de incentivo à leitura e aos encontros, sejam eles presenciais ou virtuais. Nosso CFL é uma verdadeira festa mensal dos livros, na qual discutimos o título do mês e nos inspiramos nele para nos vestir, realizar atividades, preparar o cardápio e até decorar a casa. É uma verdadeira imersão mensal em mundos diferentes que, ao longo do tempo, influenciou a vida de mais de uma dezena de mulheres, hoje na tão propalada fase dos 50+. A 71ª Feira do Livro de Porto Alegre acontece de 31 de outubro a 16 de novembro, das 10 às 20 horas, na Praça da Alfândega, no Centro Histórico de Porto Alegre. Minha participação será na quarta-feira, 5 de novembro, a partir das 14h30, no Clube do Comércio (rua dos Andradas, 1085, 2º andar, em frente da praça principal do evento). Para completar, a patrona desta edição é a escritora portalegrense Martha Medeiros, autora da qual já lemos mais de um livro no nosso grupo. Abaixo, um trecho do capítulo Doidas e Santas (2010), de Temos Fome, Somos Loucas, na qual Medeiros é a protagonista: “Obras como Divã e Doidas e Santas, de Martha Medeiros, com suas crônicas conectadas com as experiências de mulheres da nossa geração, estavam entre as leituras com as quais nos identificávamos. Suas histórias e divagações sobre viagens, filhos, amores e trabalho pareciam escritas especialmente para nós. Todas tínhamos casos inspirados nos livros para contar e, muitas vezes, pouca disposição para ouvir. Era divertido, mas caótico.”

Clubes de leitura ganham atenção na mídia

Escrever sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), experiência compartilhada com um grupo de amigas há 17 anos, foi minha maneira de inspirar mais pessoas a se juntar em nome dos livros, do prazer de viver e, principalmente, da amizade. Desde então, tenho tido retornos mais do que maravilhosos, como esta matéria do Viva, um canal dedicado ao público 50+ que traz assuntos aprofundados para este público, do qual também faço parte. Abaixo, um trecho da reportagem Clubes de leitura se ramificam e ganham força com benefícios para saúde, na qual sou uma das entrevistadas: “A proliferação dos clubes do livro e de leitura pelo país ganharam fôlego desde a pandemia, em 2020, quando as pessoas se viram restritas ao lar e os meios de comunicação e formas de trabalho se reconfiguraram. É sabido que a leitura estimula o cérebro a se adaptar e criar novas conexões. Já os clubes, por conceito, são locais onde se realizam reuniões de caráter recreativo, cultural, artístico, social, entre outros.  (…) A experiência de entrar para um grupo de leitura, iniciada há mais de 15 anos, foi tão marcante e trouxe tantos benefícios para a jornalista Maura Campanili que precisou ser contada em livro. Em ‘Temos fome, somos loucas’, publicado pela Editora Pitanga em agosto, a jornalista e escritora revela como o Círculo Feminino de Leitura (CFL), integrado por 11 mulheres 50+, se transformou em uma excelente receita para o bem-estar. Segundo ela, aos poucos os encontros literários foram se transformando em rituais de amizade, escuta e liberdade. “Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio jeito de nos reunir. Achávamos que o interesse poderia se perder com o tempo, mas aconteceu exatamente o contrário. Os encontros foram ganhando mais importância e profundidade”, explica. A experiência também revelou para a jornalista que ler em conjunto é muito mais do que trocar impressões sobre livros: é criar laços de confiança, resiliência e companheirismo. Ao longo do livro, Campanili relata como as leituras de A Menina da Montanha, de Tara Westover, ou Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, provocaram debates sobre identidade, extremismo e consumismo, assim como temas sociais e políticos que marcaram a vida brasileira nos últimos anos. De brinde, a autora ainda reúne uma lista com mais de 180 obras lidas pelo grupo e um guia prático para quem deseja criar seu próprio clube de leitura. Campanili afirma que ter esse grupo de amigas é libertador. “E, pelos livros, conseguimos também espaço para intimidade e reflexão. O resultado só pode ser bom”, conclui.”

Mata Doce

Mata Doce é um lugar no coração do Brasil, provavelmente nascido de um quilombo, onde em um tempo indefinido os donos da terra estão constantemente ameaçados pelo primeiro coronel branco que chegar. Onde a justiça oficial é tão improvável, que ninguém nem pensa em buscar. A alternativa é procurar um jeito de viver cada um com suas dores e, quem sabe, contar com o justiçamento de deus. Neste lugar presenteado pela escritora Luciany Aparecida, cachorros podem ser imortais, rosas brancas inundam o ambiente com seu perfume, mulheres podem ser um casal sem ser incomodadas, mesmo uma delas sendo uma travesti. Lá, uma noiva, cujo casamento não se concretizou por conta de um assassinato injustificável, pode ter três mães. E mesmo cercada de toda essa quantidade de amor materno, passar uma vida inteira de falta. Em Mata Doce, uma noiva banhada em sangue, escolhe passar o resto de sua existência nesta condição. Maria Teresa transforma-se em filinha mata-boi para aplacar sua raiva todos os sábados no matadouro de seu algoz, impondo a ele sua presença. Mas a noiva também é a datilógrafa que imortaliza em cartas histórias e sentimentos não ditos de personagens esquecidos do Brasil. Foi neste mundo ao mesmo tempo belo, amoroso, violento e triste que imergimos em nossa última reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), algumas vestidas de noiva, outras de vaqueira, todas Maria Teresa/Filinha Mata Boi. Em um ambiente cercado de religiosidade e rosas, entramos na intimidade de cada morador de Mata Doce, sofremos suas dores, o iminente fim de sua comunidade, e escrevemos cartas: uma amiga datilografava enquanto outra ditava algo destinado a uma terceira de nós. Ao contrário das cartas do livro, repartimos nossos afetos lendo as mensagens no final.

A Boba da Corte

Mesmo vivendo há quase 30 anos na Zona Oeste de São Paulo, só fui descobrir que mangostão, longana e rambutã não são nomes de remédios, mas frutas exóticas, ao ler A Boba da Corte, da Tati Bernardi. Indicar o livro para o Círculo Feminino de Leitura (CFL) também fez com que eu fosse pela primeira vez ao Santa Luzia (um dos mercados chiques da elite paulistana), o lugar mais próximo onde poderia ser que encontrasse algumas delas. Só achei o rambutã, pois as demais, segundo me informou a funcionária atenciosa, não estão na época. Mas comprei outras frutas tão exóticas quanto (pelo menos para mim), para montar a mesa do nosso encontro do mês em minha casa. Escolhi o livro da autora paulistana porque me identifiquei com seu sentimento de inadequação entre seu bairro suburbano de origem e a rica e descolada Zona Oeste, onde passou a viver. Assim como Tati foi criada no Tatuapé, na Zona Leste, cresci em Santana, na Zona Norte, sonhando em atravessar a ponte e morar na região entre rios (Tietê e Pinheiros) onde acreditava viver pessoas mais parecidas comigo, o que fiz assim que tive oportunidade. Depois, por muito tempo, não conseguia traduzir o desconforto próprio de quem não se sente verdadeiramente pertencente ao lugar em que mora, mas nunca cheguei na tradução certeira da elite paulistana feita pela Boba da Corte de Bernardi. Achei que a conversa seria boa em nossa reunião, pois das dez mulheres do grupo atual, somente duas são naturais desta região que chamamos de “bolha”, termo que aprendi com meus filhos, já nascidos na Vila Madalena. Quase todas as demais, assim como eu, atravessaram a ponte. No caso delas, vindas da mesma Zona Leste de Tati Bernardi. Somente a Kátia sempre viveu no Tatuapé (e nunca cogitou sair de lá) e a Marli, passada a pandemia, resolveu voltar para sua Mooca natal e ficar perto da família. Tivemos discussões acaloradas como há tempos não tínhamos. Incrível como um livrinho de menos de 100 páginas e aparentemente despretensioso pode causar polêmica. Fico imaginando o que pensam as pessoas citadas no livro. Identificamos algumas, inclusive próximas. Admiro o despudor e coragem da autora, de quem sou fã há bastante tempo. Bernardi começa seu livro contando sobre uma festa que deu em seu apartamento na rua Maranhã, no bairro “diferenciado” de Higienópolis, e uma amiga vinda do Rio de Janeiro digitou errado o endereço no Uber e foi parar na Praça Maranhão, na Zona Leste. A amiga ligou desesperada, achando que corria risco de vida, sem saber que estava exatamente no lugar onde a anfitriã passou toda a infância e adolescência. A partir desse mote, Tati Bernardi mostra de forma irônica e divertida o comportamento às vezes ingênuo e mais vezes hipócrita dessa elite, sobretudo a progressista e culta, a qual passa a frequentar, querendo furar a bolha para pertencer a ela, mas também rejeitando muitos dos seus códigos. Um mundo feito de “qual o seu sobrenome”, “de quem você é parente”, “o que faz e onde trabalha” e “onde você estudou”. Um mundo feito de oriundos do Santa Cruz, Vera Cruz, Bandeirantes, Rio Branco, entre outros, hoje com filhos no Avenues e similares. Para alguém que se alfabetizou e cursou o fundamental entre as escolas Expedicionário Brasileiro e República da Bolívia, como eu, nunca é uma situação confortável… Difícil não pensar: como vim parar aqui? Como no livro, algumas de nós consideraram a personagem/autora um tanto vulgar e exagerada. Também não é fácil se ver como pertencente a uma bolha, tendo nascido nela ou não, mesmo sabendo que isso não tem a ver obrigatoriamente com possuir dinheiro, estudo e cultura. No final, por mais que generalizações possam ser engraçadas, cada experiência é única e a capacidade de rir se si mesma, uma bênção. Para nossa reunião de dois mundos, trouxe frutas exóticas e comidinhas personalizadas, mas também estrogonofe de camarão, balas sete belo e brigadeiros, como uma boa festa suburbana deve ter. Nossa presidenta Neise se vestiu de Boba da Corte e estava maravilhosa, mostrando que o diferente também pode ser chique. Desde que sejamos nós mesmas. Tivemos direito, ainda, há uma coleção de fotos dos lugares citados pela autora na Zona Leste, presente da Kátia, que conhecia tudinho.

Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluções

Ler em grupo pode ser muito mais do que dividir opiniões sobre leituras. Em um clube do livro, compartilham-se também experiências, afetos e transformações. No dia 3 de setembro, às 19h, as autoras Maura Campanili e Luciana Gerbovic estarão na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho para uma conversa sobre essa atividade que, cada vez mais, vira tendência – principalmente entre mulheres que buscam um espaço de trocas intelectuais e afetivas reais. Será um bate-papo descontraído sobre suas vivências com clubes de leitura, os dois livros que nasceram dessas experiências e a força política e subjetiva da leitura coletiva. A conversa terá a mediação da crítica literária Patricia Ditolvo. Após as falas, as autoras farão breve sessão de autógrafos. Maura é escritora, jornalista e geógrafa, com mais de 30 anos de atuação em comunicação socioambiental. Trabalhou em organizações como a SOS Mata Atlântica e o Instituto Socioambiental, além de colaborar com diversas ONGs por meio do Núcleo de Conteúdos Ambientais (NUCA). É autora de Temos fome, somos loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres (Pitanga, 2025), que narra a trajetória de um grupo de leitoras que transformou dor em vínculo, e leitura em liberdade. Luciana é graduada em Comunicação Social e Direito. Advogada, mestre em Direito Civil e mediadora de clubes de leitura há mais 15 anos, em diversos espaços públicos e privados. Professora de leitura e escrita literárias e formadora de mediadores de clubes de leitura desde 2019. Coarticuladora do “Remição em Rede”, programa que implementa clubes de leitura e forma mediadores em penitenciárias, com fins de formação de leitores e remição de pena pela leitura. É sócia-diretora da Escrevedeira Centro Cultural Literário. Coautora do livro “Clubes de leitura: uma aposta nas pequenas revoluções” (Solisluna/Selo Emília, 2024) e autora do romance “A maior mentira do mundo” (Quelônio, 2024). Patricia é formada em Letras e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é mediadora de conversas e clubes de leitura, e criadora do projeto Críticas Instantâneas Não Especializadas (@criticasinstantaneas). A conversa é gratuita e aberta ao público, com sessão de autógrafos ao final. Venham!!! 📍 SERVIÇO O quê: Bate-papo com Maura Campanili e Luciana Gerbovic, com mediação de Patricia DitolvoTema: Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluçõesQuando: Quarta-feira, 3 de setembro de 2025, às 19hOnde: Livraria da Vila da FradiqueRua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo – SPQuanto: Evento gratuitoLivros à venda no local, com sessão de autógrafos após a conversa

Encontro com o CFL Júnior

Quando resolvi escrever um livro sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), um dos motivos era dividir uma experiência coletiva tão bacana e, quem sabe, inspirar outras pessoas a tentar fazer algo parecido. Antes mesmo do livro ser publicado, eu e mais duas mulheres do CFL tivemos a alegria de ver nossas filhas, tão amigas quanto nós, criar o CFL-Júnior, com suas próprias amigas. Depois do lançamento, mais uma boa surpresa: as meninas escolheram Temos Fome, Somos Loucas como livro do mês e nos convidaram a participar da reunião sobre o livro. Conversar com elas sobre o livro, encontros e amizade foi um momento único. O mais bonito foi ouvir que, mesmo próximas da história que conto – nossas filhas inclusive aparecem na narrativa em alguns momentos, as amigas ouvem sobre nosso grupo há anos -, ler o livro as fez nos ver de outra maneira. Deixamos de ser “as mães” para nos tornarmos mulheres, que têm vida própria, discutem entre si, se emocionam com as amigas e, ao mesmo tempo, continuamos meninas, como elas mesma se veem. Disseram ter compreendido que não existe o tal amadurecer que a tudo responde. E o peso de se tornar adulta diminuiu. Foi divertido repartirmos uma reunião cheia de cuidados na preparação, com direito às comidinhas feitas por cada uma, brindes, atividades e lembrancinhas. Apenas no figurino eu a Claudia demos demonstração de sermos veteranas: nos vestimos de lilás, como a capa do livro. Todas elas perceberam o detalhe ao chegar e comentaram que deveriam ter pensado nisso. Mais do que tudo, foi muito gratificante saber que conseguimos mostrar às nossas eternas meninas que é possível encontrar propósito e prazer em todos os aspectos da existência.

A palavra que resta

O livro de Stênio Gardel, a Palavra que Resta, é daquelas obras misteriosas: contam uma história triste, mas o encanto é tanto, que a alma termina leve. Talvez tenha sido esse encantamento que inundou nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) sobre o livro. Mesmo que algumas de nós passassem por momentos difíceis de saúde em suas famílias, conseguimos ter um encontro alegre e profundo, no qual a compaixão pelo sofrimento de Raimundo e sua dúvida de uma vida inteira sobre as palavras escritas por Cícero, que não conseguiu ler, se misturou com nossas próprias palavras não ditas. Em seu primeiro romance, o cearense Gardel conta a história de amor de dois rapazes que se separam após a descoberta do romance pelas famílias. Na falta de uma despedida, Cícero manda entregar uma carta a Raimundo, que a guarda ao longo dos anos sem conhecer seu conteúdo, porque não sabe ler e não quer dividir aquelas palavras com ninguém. Somente aos 71 anos, ele decide se alfabetizar para poder finalmente abrir a carta. Em uma mistura de narradores e tempos nem sempre identificáveis, acompanhamos Raimundo em seus muitos anos de ajudante de caminhoneiro, escondendo sua sexualidade, até o encontro como a travesti Suzzanný, que mudaria sua trajetória para uma vida de aceitação e realização como costureiro. Com A Palavra que Resta, o autor e a tradutora Bruna Dantas Lobato venceram o National Book, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, na categoria melhor livro de literatura traduzido. Foram os primeiros brasileiros e os primeiros nomes em língua portuguesa a ganhar o prêmio. Na reunião preparada pela Wal, anfitriã do mês do CFL, trouxemos cartas seladas com palavras que conseguimos dizer em nossas vidas. A maior parte de nós as queimou, deixando-as ir, enquanto algumas preferiam guardá-las e, quem sabe, enviar algum dia ao destinatário… Trouxemos, ainda, objetos amuletos que, como a carta de Raimundo, levamos conosco ao longo dos anos. Achei emblemático apenas uma de nós levar cartas recebidas de amores antigos, enquanto as demais carregamos lembranças de familiares queridos, sobretudo mães e avós. Desenrolando um novelo de lã, dissemos umas às outras as palavras importantes que nos mantêm unidas por tanto tempo em uma rede de afeto e amizade. Palavras sempre disponíveis, para que nunca reste nada por dizer entre nós.

Livro narra trajetória de clube de leitura formado por mulheres 50+

A narrativa bem-humorada, sensível e afetiva sobre a criação e trajetória de um clube de leitura formado por mulheres 50+, dão o tom em Temos fome, somos loucas, da jornalista e escritora Maura Campanili. Lançamento da estreante Editora Pitanga, a obra mergulha o leitor na história do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um grupo que, há mais de 15 anos, transforma encontros em rituais de amizade, escuta e liberdade. “A ideia partiu de uma das integrantes, a sexóloga Neise Galego, que queria ter um grupo de amigas para discutir os livros que lia”, explica a autora. “Ela chamou as irmãs e outras amigas e começamos. Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio modo de nos reunirmos. Uma coisa interessante é que, no início, imaginava que o grupo não duraria tanto e que perderíamos o interesse ao longo do tempo. E aconteceu exatamente o contrário. Nossos encontros foram ganhando mais importância e profundidade.” Temos fome, somos loucas é uma celebração da força do coletivo e da busca por sentido em meio ao cotidiano acelerado. Com encontros regados a livros, taças de prosecco e muitas gargalhadas, as integrantes do grupo desafiam a lógica da produtividade infinita e constroem um espaço de acolhimento, trocas profundas e resistência — inclusive à própria sanidade imposta às mulheres. A obra reúne relatos sobre os livros lidos, as experiências compartilhadas, os desafios de convivência e os impactos profundos desses encontros na vida de cada participante. Obras como A Menina da Montanha, de Tara Westover, e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, por exemplo, provocaram debates intensos sobre temas como extremismo, consumismo e identidade feminina. A política brasileira, e os embates ideológicos das últimas eleições no país, não ficaram de fora. “Um grupo que não seja impactado por temas políticos e sociais, ou é muito simplista ou propositalmente alienado”, reflete Campanili. “No nosso caso, tentamos discutir todos os temas, sem a necessidade de todas concordarem com todas. Em alguns momentos, até nos alteramos, mas temos, ao longo do tempo, aprendido a superar as diferenças. Acredito que todas nós fomos, por meio dos livros, nos abrindo para temas mais difíceis e nos tornando mais permeáveis.” Além de relatos intimistas e literários, a publicação traz uma relação dos livros discutidos e um guia prático para quem deseja formar seu próprio clube de leitura. Um dos símbolos do CFL é o grito de guerra que dá nome à obra, inspirado no livro Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, e no icônico discurso de Steve Jobs em Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Em Temos fome, somos loucas, Maura Campanili convida o leitor a espiar um universo onde o riso tem o mesmo peso da análise literária, e onde a leitura se torna um gesto radical de existência. É uma obra sobre criar tempo para si, reinventar laços e fazer da leitura um ato de afeto e subversão. “Gostaria de transmitir um pouco do nosso amor pelos livros e pelo prazer que eles podem trazer. E como pode ser libertador ter um grupo de amigas com o qual nos reunimos apenas por prazer. Mesmo hoje, a maior parte das mulheres vive sobrecarregada e culpada num mundo de obrigações – com trabalho, com o cuidado com a família, com as obrigações de ser bonita, inteligente, capaz e perfeita o tempo todo. Espero que o livro seja um convite a um pouco de hedonismo, um momento de diversão. Se somamos a isso, pelos livros, um espaço para intimidade e reflexão, o resultado só pode ser bom”, finaliza a autora. (Texto do release sobre o livro)

Vamos comprar um poeta

Fomos convidadas, em nosso mais recente encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL), a entrar em um mundo distópico no qual tudo é avaliado por sua utilidade, entendida basicamente por seu valor econômico. Neste lugar, poetas – e artistas em geral – são considerados supérfluos e comprados como se fossem pets para entretenimento familiar. Imbuídas de toda nossa “inutilidade”, algumas de nós foram com roupas “patrocinadas”, como a Claudia, toda de branco, com apoio Omo, ou minhas pantufas Pé Quente Bradesco. Nada na recepção preparada pela Edna era “inutilista”, como tudo o que não é numerável é definido no romance Vamos Comprar um Poeta, do autor português Afonso Cruz. Logo descobrirmos que nossos nomes foram reduzidos a letras e números que precisavam ser decifrados para acharmos nossos lugares à mesa. As iguarias servidas também apresentavam etiquetas explicativas: bacalhau (R$ 130,00 o quilo, “melhor apertar o cinto”); crispes de shitake importados (100g o pote, 10g por pessoa); queijo provolone (uma fatia, 30g, 100 calorias). Tudo estava catalogado, até nosso livro do mês, que pesava 13,3g. Antes de começarmos a reunião, deixamos nas caras umas das outras “um ou dois miligramas de saliva, ou beijos, se quiserem ser poéticos”, como elucidou a protagonista do livro, sem nome como, aliás, todos que aparecem na história. Fizemos isso, porque “dizem que é bom transacionarmos afetos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda, há quem acredite – é uma questão de fé -, que pode trazer dividendos.” Nivia foi transgressora nessa realidade não tão diferente assim da nossa, e apareceu vestida de poeta. Com isso, ganhou a prerrogativa de ser a primeira a apresentar seu talento “inutilista”, como nos pediu a anfitriã. Declamou um poema feito especialmente para a ocasião. Depois dela, as demais mostramos desenhos e pinturas, cantamos canções e lemos contos produzidos por nós como demonstrações do quando ter poesia na vida é essencial para nos tornarmos humanos. Conhecemos ali versões até então escondidas de algumas de nós, alargando a janela por onde vemos o mundo, como nos ensinou o poeta comprado e depois abandonado pela família na obra de Afonso Cruz. Felizmente, no CFL, concordamos com a descoberta da protagonista de que “a cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem”. E a criatividade também. Pode ser até que tenhamos exagerado, ao fazer um poema coletivo a partir de trechos do livro escritos em frente aos lugares de cada uma à mesa: “O mar é tão grande Que o bico dos pássaros leva às costas O horizonte na margem do olhar. Um segundo, uma eternidade Com pessoas constantemente receosas para ver o mar Além do infinito que desenhou um sorriso.” Francamente…

Culinária pode ser central para saborear um livro

Cada encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL) tem uma característica especial que fica gravada em nossa memória coletiva. Neste “Fique Comigo”, de Ayòbámi Adébáyò, será a culinária nigeriana e sua indiscutível relação com os sabores que a África presenteou ao Brasil que ficará conosco por mais tempo. A partir das pesquisas da Neise, nossa anfitriã do mês, sobre os ingredientes e pratos citados na obra, mergulhamos em bolinhos de feijão que por aqui viraram o acarajé; usos múltiplos do inhame, tubérculo tão importante para os povos iorubá, etnia dos principais personagens do livro, quando a mandioca é para  nós; e descobrimos que o quindim e o pavê de amendoim não têm origem em Portugal, mas na África. Esse mergulho gastronômico foi o pano de fundo da discussão de uma trama folhetinesca regada a tradições ancestrais ainda fortemente presentes na cultura de vários países africanos: a poligamia, o poder das hierarquias familiares sobre as vidas individuais, a necessidade imprescindível de deixar descendência e o julgamento moral sobre a mulher que não cumpre essa função. Todo esse peso cai sobre as cabeças do casal Yejide e Akin. Eles se conhecem e apaixonam na faculdade e logo se casam, com o compromisso de não se render aos costumes, sobretudo à poligamia, uma exigência de Yejide para embarcar na relação. Todas as promessas desmoronam quando os anos passam e ela não engravida, levando a família a impor uma nova esposa a Akin. A partir desse acontecimento arrebatador, a vida da empresária e cabelereira Yejide se torna uma montanha-russa de tragédias e reviravoltas, que incluem uma interminável gravidez psicológica. A turbulência familiar de Yejide e Akin acontece em meio à desordem política e social da própria Nigéria dos anos 1980, acontecimentos que se misturam na história, potencializando o enredo. Em “Fique Comigo”, a autora nos faz deparar com a subjugação da mulher por costumes que anulam (ou quase) as possibilidades de sororidade. Mesmo a heroína Yejide transfere a maior parte de sua revolta às outras mulheres e não aos homens que se “beneficiam” dessas tradições. O que não quer dizer que a vida dos homens seja mais fácil ou feliz. O que sobressai, porém, são as traições revestidas de amor, a capacidade de se reerguer a partir das decepções e do luto, e de enfrentar sentimentos universais de amor e perdão.