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Transição

A imagem estática no espelho mostrava uma mulher sem idade. Os cabelos crespos, um tanto grisalhos, modulavam o rosto sério, mas sereno, levemente assimétrico. Prestando bastante atenção, dava para ver o tremor fugidio no olho direito. O contorno da face começava a perder a forma, e a falta de tônus, principalmente ao redor da boca, era mais aparente do que as rugas, quase inexistentes na ausência de movimentos. Os olhos, o nariz e a boca eram pequenos, mas não destoavam do tamanho da cabeça. Ainda se reconhecia naquela moldura à sua frente. Sorriu. Ao fazer isso, algo se quebrou. O espasmo discreto se estendeu do olho para toda a face direita, repuxando a boca e deixando a pálpebra cair. A expressão tornou-se irônica, e preferiu fechar os olhos e apenas sentir os movimentos involuntários, agora parte de quem era. Repetiu seu mantra matutino — o importante é ter saúde, envelhecer faz parte da vida — sem muita convicção. Faltavam exatamente seis meses para completar 60 anos. Se deu conta de que as projeções feitas ao longo da vida nunca haviam chegado a esse ponto. Quando criança, havia as conversas sobre o final do mundo no ano 2000, conforme profetizara Nostradamus. Lembrava-se das discussões noturnas na cama de casal que dividia com as primas, quando dormiam na casa da avó nos fins de semana, ou após a escola com os amigos, no escadão que ligava sua rua a uma outra abaixo, o qual não deveriam frequentar por ser inóspito, mas por isso mesmo ideal para conversas sérias. Contava nos dedos para ter certeza e, ao se certificar que teria 36 anos na mudança de século, ficava aliviada. Vou ser uma velha até lá, dane-se o fim do mundo. Depois fez planos para se formar, ter uma profissão e não ser dona de casa como as mulheres adultas do seu entorno. Queria ser linda, ter sucesso, encontrar alguém para dividir a vida e criar uma família. Em algum momento, acreditou que ajudava a salvar o mundo com seu trabalho e ativismo em organizações socioambientais, e a militância tomou grande parte de seu tempo, deixando um pouco de lado as pretensões de sucesso e independência. Encontrou o amor, educou os filhos. Olhando para trás, alguns dos projetos se realizaram, outros não. Perdeu a ilusão quanto à sua influência fora de seu espaço íntimo, o mundo se vira sozinho, mas o que fazer com este terço de vida pendente? Finalmente, era livre como nunca foi, mas se sentia paralisada, sem saber o que desejar. A resposta não estava no espelho. Se vestiu e foi ao parque caminhar em pleno meio da manhã. Estava mais quente do que esperava, a luz chapada do verão atravessando as árvores tornava o caminho um tanto dramático, é o sol ou sou eu? Pensou nos filhos crescidos e já fora de casa, no trabalho para o qual dedicou 40 anos, mas que não a satisfazia mais, nas novas atividades começadas sem objetivos claros. Será necessário propósito? Seu estado melancólico, tinha consciência, vinha dos braços doloridos pelas duas vacinas tomadas no dia anterior e do regime alimentar iniciado há duas semanas para perder peso. Eram parte do combo de mudanças que vinha se instalando lentamente em seu corpo: um metabolismo falho, insônia, cansaços súbitos e falta de concentração. O déficit de proteínas detectado nos exames e o tratamento dos espasmos faciais a levavam a se confrontar com antigos preconceitos e se render a soluções antes impensadas: suplementos alimentares, ansiolíticos, aplicações periódicas de botox no rosto. A vida já não era a mesma, mas, afinal, quem disse que será pior?, pensou. Aos poucos, seu estado de espírito se acalmou. Voltou do parque cantando, almoçou sua refeição de calorias controladas, vestiu uma das calças que estavam apertadas e voltaram a ficar bem. Nenhum compromisso era obrigatório ou tinha prazo. Foi ao shopping. Viu vitrines e, contrariando a sensatez habitual, comprou três vestidos de uma vez. Sem óculos, na luminosidade precária do provador, achou que estava ótima. *Texto publicado na Antologia 2024, da Pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz.

Em grupo, a leitura é mais transformadora

Ler um livro costuma ser um ato solitário, individual. Mas quando se tem a oportunidade de expandir essa experiência de modo compartilhado, aumentamos seu poder de entendimento e transformação. No caso da literatura, a expectativa da troca já torna a leitura especial. Essa é a essência dos encontros mensais do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Sabemos que nossas impressões sobre a obra do mês serão aprofundadas, modificadas e vivenciadas em discussões e atividades surpreendentes. Em nosso último encontro, o protagonista da noite foi “A árvore mais sozinha do mundo”, da Mariana Salomão Carrara, no qual a autora dá vida a uma árvore, um espelho, um carro e uma roupa de proteção para nos contar, de pontos de vista diferentes, o cotidiano de uma família de pequenos produtores de fumo no Rio Grande do Sul. Apesar da identificação com o tema central do livro, focado na crueldade da indústria fumageira e suas consequências em todos os aspectos das vidas dos personagens humanos da história, tive um pouco de dificuldade de me entregar à narração dos observadores humanizados. Ouvir as opiniões de minhas amigas, que entraram completamente na proposta da autora, me ajudou a rever algumas de minhas ideias iniciais e, principalmente, a me conhecer melhor. Para tanto, a leitura de trechos escolhidos com antecedência por cada uma, a pedido de nossa anfitriã Claudia, foi tão importante quando a produção feita por ela de um cenário com objetos, cores e sabores das personagens – o pêssego em calda foi quase uma abdução para aquela casa pobre, rodeada de tabaco e veneno, mas também entendida de amor (como constata a árvore solitária) e em busca de doçura, travestida em compotas de pêssego que complementavam a renda familiar. Colaboraram, ainda, a Neise e a Kátia vestidas de árvores e a Nivia enfeitada de espelho, além de trocarmos ideias com um espelho, e tentarmos nos imaginar como seres inanimados ou não humanos observando o mundo. Tivemos também a bela pesquisa da Claudia sobre a cultura de tabaco no Brasil (somos o segundo maior produtor e o maior exportador dessa cultura que só serve pra piorar a saúde de quem produz e quem usa), a análise literária da Dóris, as memórias de família da Marli no interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as tiradas bem-humoradas da Wal, da Edna e da Laura: estávamos inspiradas. Acho que essa é a mágica que a literatura conjugada à amizade faz.

Como seria reescrever a própria vida?

O que você faria se pudesse voltar atrás nas diversas decisões que tomou ao longo da vida, vivenciar seu presente a partir dessa mudança e escolher entre a vida que tem hoje ou uma das alternativas possíveis? Essa é a premissa de A Biblioteca da Meia-noite, de Matt Haig, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Na narrativa, a protagonista Nora tenta o suicídio e permanece em uma espécie de purgatório, ou multiverso, no qual experimenta várias das vidas possíveis que poderia ter tido. Mesmo sendo um tanto previsível e ter um quê de autoajuda disfarçada, é um texto gostoso de ler, como uma minissérie de televisão. Aliás, parece que logo o enredo se transformará nisso mesmo. Para quem não quer esperar e prefere uma leitura leve, apesar da temática pesada, o livro inspira a pensarmos em nossas próprias escolhas e as consequências imaginadas e imprevistas de diferentes decisões. O mais interessante, na minha opinião, é que somos muito bons em fantasiar o futuro brilhante que teríamos em caso de opções alternativas em nosso passado, mas dificilmente incluímos na conta o que aconteceria com o resto do mundo, sobretudo as pessoas próximas, por causa disso. Aquele tal “efeito borboleta”. Por exemplo, se tivéssemos terminado o namoro antes de nos casarmos, qual seria o futuro do nosso/a parceiro/a ou como seria o mundo sem os nossos filhos, pois, mesmo que tivéssemos filhos, não seriam “esses” filhos. Ou se tivéssemos aceitado aquele trabalho do outro lado do mundo ao invés de ficar para cuidar da nossa mãe velhinha. O que teria acontecido com ela? Esses foram dilemas que a personagem de Haig enfrentou e sobre os quais nos dedicamos a especular no CFL, na maior parte das vezes confirmando que gostamos de nossas escolhas, mesmo que às vezes as questionemos em alguns momentos. A vida vivida é sempre um presente construído pelo acaso, pelas nossas opções e pelas oportunidades dadas. Imaginar que podemos direcioná-la exatamente como queremos é, no mínimo, ingenuidade.

A memória é o grande tema do livro Ainda Estou Aqui

O sucesso do filme Ainda Estou Aqui, com seus múltiplos prêmios e indicações ao Oscar, comprovam a escolha certeira do diretor Walter Salles na abordagem escolhida na adaptação do livro. Quase tudo já foi dito sobre sua atualidade, qualidade e importância para o resgate da história brasileira. Ao ler o texto de Marcelo Rubens Paiva, no qual foi baseado, porém, fiquei encantada com a quantidade de camadas do livro. Outros filmes, igualmente bons, poderiam ser inspirados nele. Para alguém como eu, que convive há quase 20 anos com uma mãe perdendo lentamente a memória e a personalidade, sabendo como a demência rouba seu ente querido aos poucos, em uma marcha inexorável sem prazo para acabar, o relato de Marcelo emociona a cada detalhe de suas indagações, pesquisas e constatações sobre o Alzheimer. O resgate amoroso da história de uma mulher inteligente e forte, pelo filho que nada pode fazer para impedir que ela vá se tornando frágil e incapaz de gerenciar a própria vida é um retrato da situação vivida por tanta gente hoje em dia. Um drama que, mesmo sem os vilões sádicos da ditadura militar, corrói famílias impotentes diante da situação. A demência de minha mãe é consequência da retirada de um tumor cerebral há muitos anos, embora os sintomas sejam muito semelhantes ao Alzheimer. Mesmo que hoje ela reconheça cada vez menos pessoas e fale quase nada com sentido – na maior parte do tempo repete nomes de cores: verde, verde, verde, azul, azul, azul -, de repente, olha para televisão e faz uma observação coerente, “este homem é mal”, para um vilão de novela, ou “coitadinhos”, para vítimas de enchentes no telejornal. E sentimos a mesma angústia de Marcelo em relação à Eunice Paiva. Ambas as mães (e tantas outras) ali, em seus mundos particulares, ao qual ninguém tem acesso, a dizer “ainda estou aqui”. Está mesmo? Está onde? É possível resgatá-la? Aos 90 anos, também meu pai começa a apresentar os sintomas de senilidade, a memória recente já é quase nula e não consegue gerenciar mais suas coisas. Nunca imaginei passar por um drama desses com pai e mãe ao mesmo tempo. A capacidade de Marcelo Rubens Paiva de trazer duas questões tão prementes relacionadas à importância da memória, a coletiva e a individual, para a sociedade contemporânea, talvez seja o maior mérito do livro. Vermos um mundo, há apenas 80 anos saído da mais cruel das guerras, voltar a se encaminhar para pensamentos e, possivelmente, regimes fascistas, é tão cruel quando vermos nossos velhos sobrevivendo sem entender o que estão fazendo aqui. 

Férias com Hercule Poirot

Quando estou de férias, gosto de tirar alguns dias para não pensar. Então deixo Hercule Poirot pensar por mim. Levar Agatha Christie na bagagem é diversão certa se deixo de lado meu anacronismo em relação a questões como feminismo, racismo, colonialismo etc., essas coisas que pouca gente presta atenção, mas sou boba o suficiente para ficar reparando e fazendo malabarismos para não estragar o prazer de quase tudo o que leio. Não nas férias! Costumo me tornar uma pessoa normal nessa época. Neste ano, levei comigo Morte no Nilo, mas poderia ser qualquer um: Assassinato no Expresso Oriente, Cai o Pano, Morte na Mesopotâmia, o Natal de Poirot. Quando quero uma protagonista mulher, opto por um dos títulos onde a heroína é a detetive amadora Miss Marple, como Um Corpo na Biblioteca ou Crime no Hotel Bertram. Não tenho a mínima ideia de onde a escritora britânica tirava tanta imaginação e como conseguiu escrever tantos livros.  O importante, se quiser embarcar na aventura, é saber, desde o início, que não adianta queimar neurônios para seguir as pistas dos crimes (sempre envolvendo assassinatos), pois a lógica dos acontecimentos só estará acessível aos detetives de Christie. Relaxe, aproveite as intrigas e as reviravoltas mirabolantes para se divertir entre um mergulho e outro no mar, um gole de água de coco ou caipirinha, um cochilo e outro na rede, ou seja lá o que estiver fazendo. Neste Morte no Nilo, um grupo de ricaços e picaretas de várias estirpes fazem um cruzeiro pelo rio egípcio quando a jovem milionária Linnet Doyle, em lua de mel, é assassinada. Nem preciso dizer que todo mundo naquele barco tinha motivos para querer vê-la morta e, para minha sorte e azar do assassino, Hercule Poirot estava a bordo. Felizmente, ainda pra mim, minhas férias foram bem mais tranquilas do que as do esnobe detetive belga.