A palavra que resta

O livro de Stênio Gardel, a Palavra que Resta, é daquelas obras misteriosas: contam uma história triste, mas o encanto é tanto, que a alma termina leve. Talvez tenha sido esse encantamento que inundou nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) sobre o livro. Mesmo que algumas de nós passassem por momentos difíceis de saúde em suas famílias, conseguimos ter um encontro alegre e profundo, no qual a compaixão pelo sofrimento de Raimundo e sua dúvida de uma vida inteira sobre as palavras escritas por Cícero, que não conseguiu ler, se misturou com nossas próprias palavras não ditas. Em seu primeiro romance, o cearense Gardel conta a história de amor de dois rapazes que se separam após a descoberta do romance pelas famílias. Na falta de uma despedida, Cícero manda entregar uma carta a Raimundo, que a guarda ao longo dos anos sem conhecer seu conteúdo, porque não sabe ler e não quer dividir aquelas palavras com ninguém. Somente aos 71 anos, ele decide se alfabetizar para poder finalmente abrir a carta. Em uma mistura de narradores e tempos nem sempre identificáveis, acompanhamos Raimundo em seus muitos anos de ajudante de caminhoneiro, escondendo sua sexualidade, até o encontro como a travesti Suzzanný, que mudaria sua trajetória para uma vida de aceitação e realização como costureiro. Com A Palavra que Resta, o autor e a tradutora Bruna Dantas Lobato venceram o National Book, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, na categoria melhor livro de literatura traduzido. Foram os primeiros brasileiros e os primeiros nomes em língua portuguesa a ganhar o prêmio. Na reunião preparada pela Wal, anfitriã do mês do CFL, trouxemos cartas seladas com palavras que conseguimos dizer em nossas vidas. A maior parte de nós as queimou, deixando-as ir, enquanto algumas preferiam guardá-las e, quem sabe, enviar algum dia ao destinatário… Trouxemos, ainda, objetos amuletos que, como a carta de Raimundo, levamos conosco ao longo dos anos. Achei emblemático apenas uma de nós levar cartas recebidas de amores antigos, enquanto as demais carregamos lembranças de familiares queridos, sobretudo mães e avós. Desenrolando um novelo de lã, dissemos umas às outras as palavras importantes que nos mantêm unidas por tanto tempo em uma rede de afeto e amizade. Palavras sempre disponíveis, para que nunca reste nada por dizer entre nós.
Escritoras mostram que memória pode ser sentimento e ancestralidade

Dois livros sobre memória, dois pontos de vista, ambos tocantes e prazerosos. Enquanto Hilda Lucas, em A Casa Dentro de Mim (Editora Laranja Original), mergulha em suas lembranças, Renata Lima, em Desde Lucrécia (Editora Faria e Silva) vai em busca de histórias e documentos de família. As duas preenchem as lacunas com a imaginação e nos levam junto como testemunhas. Em A Casa Dentro de Mim, Hilda mostra do que é feita: da infância em Ilhéus, cercada de família, nas casas dos avós, na fazenda, da religiosidade marcando sua formação. Depois a mudança para o Rio de Janeiro, adolescência, faculdade e, aos poucos, a menina que tias e avós constaram ao nascer “vai ser curiosa, nasceu com os olhos abertos ponto reparo em tudo”, ganhou o mundo, sobrenome famoso e uma imensidão de oportunidades. Mas o que preenche sua casa são as relações profundas, a mãe, as filhas, e os pequenos acontecimentos, os detalhes, aquilo que não se ostenta. Cada pequena crônica do livro é uma viagem à linguagem poética e única da autora, para quem “memória é lugar vereda abismo remanso. É quimera inventário invenção. Se é mentira, é também verdade e, na maior parte das vezes, falácia ou ficção. Viva, volátil e autoral, a Memória é minha, e eu mato quanto quiser. (…) Que minha alma-memória não se afaste de mim enquanto vivermos. Nós duas, se não autoras do vivido, autora das nossas lembranças. Memória é oráculo”. O livro de Renata também é oráculo, mas de pessoas antigas e acontecimentos históricos, como diz a autora, que traz à tona 13 gerações de sua família, Desde Lucrécia, no final do século 16, em Portugal, até seu pai nos dias atuais. De família de cristãos novos, Lucrécia Pedroso foi presa pela Inquisição por práticas de judaísmo, “foi condenada a cárcere e hábito perpétuo. Em 1596, teve sua punição comutada para penas espirituais. Mudou seu nome para Lucrécia da Cruz, virou freira capucha, foi mulher na Casa de Recolhimento da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, em Almada”. Diante da violência, os irmãos, António e Pedro (ascendente direto de Renata), imigraram para o Brasil, aonde chegaram, por volta de 1600, em São Vicente. Nos 400 anos desde então, a família cresceu e prosperou e faz parte das famílias pioneiras que se costuma chamar em São Paulo de “quatrocentões”. De bandeirantes escravizadores de indígenas, passaram a fazendeiros donos de escravos por gerações e políticos influentes – seu trisavô Manoel foi senador e era irmão do presidente da República Prudente de Moraes. Fiel aos fatos, a autora não enaltece nem desmerece o histórico familiar, é o máximo possível fiel ao que apurou, inclusive mostrando a falta de possibilidades e escolhas mesmo para as mulheres da elite sob a sociedade totalmente patriarcal. “Descobrir Lucrécia Pedroso e a sina dessa família de cristãos-novos no século 16, gerou uma onda de impactos, como o seixo que repica na superfície de um lago espelhado. (…) Há memórias que ainda latejam. Atraem e repelem, com a força invisível dos polos de um ímã.” Como conclui Renata ao final do relado, “a memória é um atordoamento”.
A África sem estereótipos de Binyavanga Wainaina

Apesar de não ser uma leitura fácil, Um Dia Vou Escrever Sobre Este Lugar, de Binyavanga Wainaina, é um dos livros mais interessantes que já li sobre a África, possivelmente por ser escrito por um africano negro de classe média, com uma realidade não muito diferente de qualquer morador de classe média de país em desenvolvimento, como o Brasil. A maior parte das obras literárias que tive acesso sobre o continente e de autores africanos são de escritores brancos (como como Mia Couto e Isabela Figueiredo) ou mulheres com experiências extremas – de mutilação, guerras (como Ayaan Hirsi Ali). Infelizmente, até agora li apenas ensaios da Chimamanda Ngozi Adichieainda, autora citada pelo próprio Wainaina. Binyavanga conta suas memórias em uma estrutura de tempo linear e, apesar de escrever a partir do futuro, a maior parte da narrativa é presentificada, sobretudo a primeira parte, relativa à infância e à adolescência, revivida pelo autor sem contextualização. Tudo é trazido sob o ponto de vista do cotidiano da criança e, depois, do adolescente: “Tenho sete anos de idade, e ainda não sei por que todo mundo parece saber o que está fazendo ou por que está fazendo”. “Ela é a estrela da classe. É 1978, e todos frequentamos a escola de ensino fundamental Lena Moi Primary School”. “É período de recesso escolar e está frio. Julho”. (pág. 9) Mesmo partindo de episódios familiares, as grandes questões do autor estão divididas em todo o livro entre o que é pessoal e o que é histórico, cultural e político em seu país e em toda a África, em como o contexto influencia sua existência e como reage a ele. Esta parece ser uma intenção clara já a partir do título de suas memórias, Ainda Vou Escrever Sobre Este LUGAR. Mas Wainaina não tem compromisso com o esclarecimento das circunstâncias para quem não está familiarizado com elas. Na maior parte do texto, essa falta de explicações ou o uso de palavras em vários idiomas não faz falta. Em alguns casos, ficamos mesmo sem entender, o que não diminui a vontade de continuar a leitura. Aliás, é muito interessante ver, em toda a primeira parte, que ocupa praticamente metade do livro, questões políticas apresentadas como uma criança que ouviu a história em casa contaria: “O Presidente Moi não vem de uma família importante. Ele era só um professor de ensino fundamental antes de entrar para a política. Ele está sempre sendo humilhado.” Dessa maneira, a vida cotidiana de um menino de uma família de classe média do Quênia se desenrola entre a escola e a família em um contexto de eterna instabilidade política de um país recém-saído do colonialismo. Mesmo assim, o Quênia é descrito como um país privilegiado e líder daquela parte da África, ao contrário de Uganda, terra natal de sua mãe, assombrada por Idi Amim Dada, ditador sanguinário e cruel, do qual Bynyavanga não precisa trazer detalhes, porque faz parte do imaginário global, pelo menos de quem acompanhava o noticiário dos anos 1970. Na página 49, temos um ótimo exemplo desse ponto de vista: “Olha! Olha o Michael Jackson se movendo como se não quebrasse. Tentamos dançar como ele.” “Baba nos acorda esta manhã e conta que houve um golpe de Estado (…) Há tiroteios por todo o Quênia (…) Muitas mulheres são estupradas. Há toques de recolher, por meses, e prisões (…).” “O Quênia não é Uganda. O Quênia tem grandes estradas e ferrovias e edifícios altos, ciência e tecnologia, pesquisa e grandes aviões (…). À tarde, o golpe é derrubado e milhares são mortos. Nairóbi tem cadáveres por todos os lados.” Embora linear, como mencionei antes, a narrativa tem mudanças de temas e tons, podendo ser dividida em outras três partes após a infância e adolescência no Quênia: a crise existencial (na África do Sul e no Quênia), a descoberta da vontade de ser escritor (na África do Sul e no Quênia) e o escritor reconhecido (África e Estados Unidos). Durante a adolescência e em todo o restante do livro, o autor deixa pistas não apenas do seu desconforto com questões políticas, mas também de uma inquietação e inadequação interior, que só revela ao final, quando conta aos pais já falecidos, em sua imaginação, que é homossexual. A sexualidade é uma questão mal resolvida que perpassa o livro sem ser manifestada e que parece não ser totalmente resolvida durante a vida de Binyavanga. Wainaina também descortina ao longo do texto a hierarquização em um país dividido em tribos e línguas diferentes, no qual o equilíbrio de forças é frágil e muda rapidamente a depender de quem está no poder. O autor se movimenta nessa miríade de povos e línguas sem preocupação de explicar termos, costumes etc., e vamos atrás tentando assimilar o que, parece, nem ele entende totalmente. A questão da língua é uma constante, e é difícil saber quais ele domina mais ou menos: é falante de inglês e Swahili, a língua oficial do Quênia (e em outros países africanos), mas compreende também o idioma paterno, Gikuro, que parece ser uma das etnias dominantes, enquanto salienta não entender o dialeto da mãe. Deixa claro que ser um africano é ser, no mínimo, bilíngue: “Há algumas semanas, li Decolonising the Mind, de Ngüri wa Thiong’o. É ilegal e foi emocionante, e eu tinha prometido voltar para minha própria língua. Inglês é a língua do colonizador.” Outra característica do autor, que vai ficando mais aparente conforme amadurece é a ironia. Um exemplo é quando Wainaina aborda a imagem da África fora dela e o termo diversidade, ao falar sobre os formulários para bolsas de estudo no exterior, nas quais se prega o “clube Modelo da ONU” e os “Shows da Unesco sobre as crianças do mundo”. E termina dizendo: “Quero fazer diversidade”. A partir do capítulo 13, quando Binyavanga vai para a universidade em Joanesburgo, há uma mudança no foco narrativo. A marcação deixa de ser apenas no presente: “Quando nos conhecemos, ele me perguntou qual era meu nome no rap. Eu
Livro narra trajetória de clube de leitura formado por mulheres 50+

A narrativa bem-humorada, sensível e afetiva sobre a criação e trajetória de um clube de leitura formado por mulheres 50+, dão o tom em Temos fome, somos loucas, da jornalista e escritora Maura Campanili. Lançamento da estreante Editora Pitanga, a obra mergulha o leitor na história do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um grupo que, há mais de 15 anos, transforma encontros em rituais de amizade, escuta e liberdade. “A ideia partiu de uma das integrantes, a sexóloga Neise Galego, que queria ter um grupo de amigas para discutir os livros que lia”, explica a autora. “Ela chamou as irmãs e outras amigas e começamos. Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio modo de nos reunirmos. Uma coisa interessante é que, no início, imaginava que o grupo não duraria tanto e que perderíamos o interesse ao longo do tempo. E aconteceu exatamente o contrário. Nossos encontros foram ganhando mais importância e profundidade.” Temos fome, somos loucas é uma celebração da força do coletivo e da busca por sentido em meio ao cotidiano acelerado. Com encontros regados a livros, taças de prosecco e muitas gargalhadas, as integrantes do grupo desafiam a lógica da produtividade infinita e constroem um espaço de acolhimento, trocas profundas e resistência — inclusive à própria sanidade imposta às mulheres. A obra reúne relatos sobre os livros lidos, as experiências compartilhadas, os desafios de convivência e os impactos profundos desses encontros na vida de cada participante. Obras como A Menina da Montanha, de Tara Westover, e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, por exemplo, provocaram debates intensos sobre temas como extremismo, consumismo e identidade feminina. A política brasileira, e os embates ideológicos das últimas eleições no país, não ficaram de fora. “Um grupo que não seja impactado por temas políticos e sociais, ou é muito simplista ou propositalmente alienado”, reflete Campanili. “No nosso caso, tentamos discutir todos os temas, sem a necessidade de todas concordarem com todas. Em alguns momentos, até nos alteramos, mas temos, ao longo do tempo, aprendido a superar as diferenças. Acredito que todas nós fomos, por meio dos livros, nos abrindo para temas mais difíceis e nos tornando mais permeáveis.” Além de relatos intimistas e literários, a publicação traz uma relação dos livros discutidos e um guia prático para quem deseja formar seu próprio clube de leitura. Um dos símbolos do CFL é o grito de guerra que dá nome à obra, inspirado no livro Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, e no icônico discurso de Steve Jobs em Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Em Temos fome, somos loucas, Maura Campanili convida o leitor a espiar um universo onde o riso tem o mesmo peso da análise literária, e onde a leitura se torna um gesto radical de existência. É uma obra sobre criar tempo para si, reinventar laços e fazer da leitura um ato de afeto e subversão. “Gostaria de transmitir um pouco do nosso amor pelos livros e pelo prazer que eles podem trazer. E como pode ser libertador ter um grupo de amigas com o qual nos reunimos apenas por prazer. Mesmo hoje, a maior parte das mulheres vive sobrecarregada e culpada num mundo de obrigações – com trabalho, com o cuidado com a família, com as obrigações de ser bonita, inteligente, capaz e perfeita o tempo todo. Espero que o livro seja um convite a um pouco de hedonismo, um momento de diversão. Se somamos a isso, pelos livros, um espaço para intimidade e reflexão, o resultado só pode ser bom”, finaliza a autora. (Texto do release sobre o livro)
Vamos comprar um poeta

Fomos convidadas, em nosso mais recente encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL), a entrar em um mundo distópico no qual tudo é avaliado por sua utilidade, entendida basicamente por seu valor econômico. Neste lugar, poetas – e artistas em geral – são considerados supérfluos e comprados como se fossem pets para entretenimento familiar. Imbuídas de toda nossa “inutilidade”, algumas de nós foram com roupas “patrocinadas”, como a Claudia, toda de branco, com apoio Omo, ou minhas pantufas Pé Quente Bradesco. Nada na recepção preparada pela Edna era “inutilista”, como tudo o que não é numerável é definido no romance Vamos Comprar um Poeta, do autor português Afonso Cruz. Logo descobrirmos que nossos nomes foram reduzidos a letras e números que precisavam ser decifrados para acharmos nossos lugares à mesa. As iguarias servidas também apresentavam etiquetas explicativas: bacalhau (R$ 130,00 o quilo, “melhor apertar o cinto”); crispes de shitake importados (100g o pote, 10g por pessoa); queijo provolone (uma fatia, 30g, 100 calorias). Tudo estava catalogado, até nosso livro do mês, que pesava 13,3g. Antes de começarmos a reunião, deixamos nas caras umas das outras “um ou dois miligramas de saliva, ou beijos, se quiserem ser poéticos”, como elucidou a protagonista do livro, sem nome como, aliás, todos que aparecem na história. Fizemos isso, porque “dizem que é bom transacionarmos afetos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda, há quem acredite – é uma questão de fé -, que pode trazer dividendos.” Nivia foi transgressora nessa realidade não tão diferente assim da nossa, e apareceu vestida de poeta. Com isso, ganhou a prerrogativa de ser a primeira a apresentar seu talento “inutilista”, como nos pediu a anfitriã. Declamou um poema feito especialmente para a ocasião. Depois dela, as demais mostramos desenhos e pinturas, cantamos canções e lemos contos produzidos por nós como demonstrações do quando ter poesia na vida é essencial para nos tornarmos humanos. Conhecemos ali versões até então escondidas de algumas de nós, alargando a janela por onde vemos o mundo, como nos ensinou o poeta comprado e depois abandonado pela família na obra de Afonso Cruz. Felizmente, no CFL, concordamos com a descoberta da protagonista de que “a cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem”. E a criatividade também. Pode ser até que tenhamos exagerado, ao fazer um poema coletivo a partir de trechos do livro escritos em frente aos lugares de cada uma à mesa: “O mar é tão grande Que o bico dos pássaros leva às costas O horizonte na margem do olhar. Um segundo, uma eternidade Com pessoas constantemente receosas para ver o mar Além do infinito que desenhou um sorriso.” Francamente…
Culinária pode ser central para saborear um livro

Cada encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL) tem uma característica especial que fica gravada em nossa memória coletiva. Neste “Fique Comigo”, de Ayòbámi Adébáyò, será a culinária nigeriana e sua indiscutível relação com os sabores que a África presenteou ao Brasil que ficará conosco por mais tempo. A partir das pesquisas da Neise, nossa anfitriã do mês, sobre os ingredientes e pratos citados na obra, mergulhamos em bolinhos de feijão que por aqui viraram o acarajé; usos múltiplos do inhame, tubérculo tão importante para os povos iorubá, etnia dos principais personagens do livro, quando a mandioca é para nós; e descobrimos que o quindim e o pavê de amendoim não têm origem em Portugal, mas na África. Esse mergulho gastronômico foi o pano de fundo da discussão de uma trama folhetinesca regada a tradições ancestrais ainda fortemente presentes na cultura de vários países africanos: a poligamia, o poder das hierarquias familiares sobre as vidas individuais, a necessidade imprescindível de deixar descendência e o julgamento moral sobre a mulher que não cumpre essa função. Todo esse peso cai sobre as cabeças do casal Yejide e Akin. Eles se conhecem e apaixonam na faculdade e logo se casam, com o compromisso de não se render aos costumes, sobretudo à poligamia, uma exigência de Yejide para embarcar na relação. Todas as promessas desmoronam quando os anos passam e ela não engravida, levando a família a impor uma nova esposa a Akin. A partir desse acontecimento arrebatador, a vida da empresária e cabelereira Yejide se torna uma montanha-russa de tragédias e reviravoltas, que incluem uma interminável gravidez psicológica. A turbulência familiar de Yejide e Akin acontece em meio à desordem política e social da própria Nigéria dos anos 1980, acontecimentos que se misturam na história, potencializando o enredo. Em “Fique Comigo”, a autora nos faz deparar com a subjugação da mulher por costumes que anulam (ou quase) as possibilidades de sororidade. Mesmo a heroína Yejide transfere a maior parte de sua revolta às outras mulheres e não aos homens que se “beneficiam” dessas tradições. O que não quer dizer que a vida dos homens seja mais fácil ou feliz. O que sobressai, porém, são as traições revestidas de amor, a capacidade de se reerguer a partir das decepções e do luto, e de enfrentar sentimentos universais de amor e perdão.
Conceição Evaristo traz prazer e incômodo na leitura de Ponciá Vicêncio

Ponciá Vicêncio foi minha primeira leitura de Conceição Evaristo e me trouxe, simultaneamente, duas sensações: uma de prazer, pelo texto conciso e, mesmo assim, poético da autora, que nos faz devorar a obra de um fôlego só; e outra de incômodo, ao seguir uma história de tristezas em série, que Evaristo não economiza. Desde o início, quando Ponciá, mesmo um bebê de colo, se recorda do enterro do avô e, mais tarde, imita seu jeito de andar, a autora anuncia um presságio inexorável no destino da menina. Destino esse que se cumpre, na pobreza persistente ao migrar para a cidade grande em busca de oportunidades, nos sete abortos, na falta de notícias da família, na violência do companheiro e, finalmente, nas ausências predestinadas desde a infância. Conceição Evaristo, em suas escrevivências, como denomina, faz de Ponciá e sua família um microcosmo desse erro de nascença brasileiro, forjado na violência da escravidão e enfrentado tão timidamente como sociedade ao longo dos últimos cento e poucos anos, que deixa pouca margem para sonhar. A começar pela questão agrária e relações de trabalho ainda coloniais e intocáveis, escancaradas no nome da vila e no sobrenome da família Vicêncio. E nos reflexos desse modus operandi também na cidade, onde o trabalho doméstico e braçal, praticamente a única opção dessas pessoas, não é nada melhor. No final, porém, quando tudo leva à mais absoluta desesperança, parece que Evaristo busca, no fundo da alma, uma luz no fim desse túnel praticamente impossível de atravessar. A partir de decisões inusitadas (a mãe ir para a cidade, o irmão não fazer justiça com as próprias mãos, Ponciá – mesmo sem força nenhuma – decidir voltar para sua terra) e encontros mais inusitados ainda, vemos a família de repente unida e voltando junta para casa. Mãe e filhos prontos para recomeçar, apesar de uma realidade sem novidades, contando apenas consigo mesmos e com a herança da memória dos seus.
A Moça Sem Rosto, por duas moças com tudo de bom

Beleza e leveza caminham juntas em A Moça Sem Rosto – Uma jornada de possibilidades, livro da poetisa (entre tantas outras coisas, como ela se define) Sandra Quinteiro e da ilustradora (também multiatividades) Juliana Cardozo, editado pelo selo Afins, que acaba de ser lançado. A obra é uma jornada poética de autodescoberta. Uma fábula contada em versos e imagens sobre a busca pelo essencial, o encontro consigo e com o mundo ao redor. Difícil dizer o que emociona mais, se as palavras ou os desenhos que as inundam de significados. Tive a alegria de ser convidada por essas duas amigas artistas para fazer a Apresentação do livro, que reproduzo aqui como um convite para que leiam o livro e conheçam os trabalhos das autoras: “Foi ao redor de uma fogueira, em uma noite de aconchego no Germinar, formação da qual a Sandra Quinteiro é uma das idealizadoras, que a ouvi declamar A Moça Sem Rosto. E ali, naquele clima de comunhão, tive o privilégio de assistir ao nascimento da ideia deste projeto de coautoria com a Juliana Cardozo, que reflete o talento das duas artistas. Conheci a Sandra em um Fórum de Confiança entre Mulheres e logo me identifiquei com seu jeito ao mesmo tempo gentil e firme em suas colocações. Foi ela quem primeiro me apresentou a antroposofia, a filosofia que norteia sua procura constante por um conhecimento profundo do ser humano, da natureza e do universo. Mais tarde, descobri a poetisa e declamadora, que sempre me emociona, e a facilitadora com quem mergulhei em um mundo mais sábio, tolerante e diverso, onde o autoconhecimento me fez entender um pouco mais sobre mim mesma e sobre o mundo. Participando do Germinar, também conheci a Ju, companheira de caronas e papos sobre a busca de novos caminhos profissionais e como criar impacto na sociedade. E uma ilustradora com a sensibilidade à altura da escrita da Sandra. Versos e traços integrados, presenteando beleza e despertando os sentidos.”
Tietar não é preciso, mas é legal!

A imensidão das águas do Rio Negro e suas ilhas de florestas alagadas me proporcionaram uma das experiências mais incríveis da vida. E não estou falando de estar na Amazônica, que sempre me emociona pela biodiversidade, cultura e gentes, mas de passar algum tempo junto de escritoras das quais sou fã, poder ouvi-las, conversar com elas e me permitir até tietar um pouquinho. Está aí uma vantagem de envelhecer: perder o excesso de compostura que me impediam de me aproximar de pessoas que admirava por medo de incomodar e vergonha de me mostrar. Participar da expedição Navegar é Preciso era um sonho acalentado há anos, que se tornou imperativo diante da seleção de autores anunciados. Iniciativa da Livraria da Vila, a viagem junta leitores apaixonados, isolados por quatro dias em um navio (sem internet), para trocar ideias e afetos com seus escritores favoritos, enquanto se embrenham em uma das paisagens mais lindas e remotas do país. Todos no mesmo barco (desculpem, não resisti ao lugar comum), fingimos ser super natural fazermos passeios, refeições, nadar e dançar com aqueles cuja intimidade só tínhamos por meio de seus personagens ou pensamentos que dividiram conosco através de seus livros. Descobri que Socorro Acioli é uma das criaturas mais divertidas e com as tiradas mais espirituosas que já conheci. Merecia um programa de entrevistas na televisão (#ficaadica). Mariana Salomão Carrara é uma amigona de suas amigas, daquelas que todo mundo quer ter. Eliane Marques é firme e aguerrida, mas um doce de pessoa e uma dançarina e tanto. Vera Iaconelli tem uma família linda, com filhas tão bacanas quanto ela. Zelia Duncan é tão simpática e gente boa quanto eu imaginava. E o Jeferson Tenório é menos sério do que achei na conferência que assisti no Instituto Vera Cruz e um paizão daqueles de emocionar. Não saí de lá best friend forever de nenhum deles como prometi para minhas amigas, mas os admirando um tantinho mais. Conheci, ainda, entre os viajantes, pessoas com muita coisa em comum, que espero levar para sempre. E trouxe uma vontade de, quem sabe, repetir a dose em uma próxima oportunidade.
Carta ao narrador do romance Memórias do Subsolo, de Dostoiévski

Caro Homem do Subsolo, Você não me conhece, mas como lavou sua alma em público, eu te conheço um pouco. Aliás, conheço várias pessoas parecidas com você, e olha que 100 anos separam o seu nascimento (mesmo que aos 40 anos) do meu. Vivo mais de 150 anos à sua frente, e sou obrigada a concordar com sua insatisfação com o gênero humano. Esse tempo que nos aparta só fez reforçar sua tese sobre não sabermos fazer boas escolhas, nem para o coletivo, nem para nós mesmos. Temos hoje uma lista enorme para acrescentar às suas queixas: duas guerras mundiais com crueldades inimagináveis e, apesar disso, várias guerras inexplicáveis correndo soltas. Para piorar, agora, todos participamos delas, pelo menos olhando as terríveis imagens em tempo real. Além disso, temos um planeta devastado por nossas atividades. Neste momento, por causa delas, ocorre a mais rápida extinção em massa de espécies da história do planeta e mudanças climáticas agravam a situação de precariedade e violência inerente aos humanos. Não temos freios, tampouco motivos para otimismo. Você também é um vanguardista. Seu individualismo e, ao mesmo tempo, sua presunção de ser visto a qualquer custo (hoje diríamos “falem mal, mas falem de mim”) são muito modernos. Atualmente, pouquíssimos somos diferentes disso. O filme O Mundo Depois de Nós, da Netflix é um exemplo disso ao terminar com uma menininha – que passou a história toda tentando ser ouvida, sem sucesso -, diante do fim do mundo, escolhendo assistir sozinha a uma série boba de televisão. Tenho certeza de que esta seria sua opção também, mesmo que você não saiba o que é um filme, a Netflix, nem que os acontecimentos por aqui, agora, não têm repercussão por mais de alguns dias. Sua reação às questões inerentes à nossa espécie, porém, me parecem equivocadas e ignóbeis (aliás, termo que pessoas como você adoram usar). Não que você seja único, como quer demonstrar. Todos nós, em alguns momentos, temos esse comportamento vil, que inclui exercer pequenos poderes para prejudicar e constranger pessoas, apenas para nos vingar da própria mediocridade da existência. Alguns, porém, escolhem lutar contra esse instinto que nos trouxe até aqui. Não é uma escolha fácil, mas a que torna nossa permanência suportável (e a das demais pessoas também). Gosto das justificativas dadas para essa escolha por duas pessoas que admiro muito. O líder indígena e pensador Ailton Krenak, em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, aborda a raridade da existência, no universo, de um planeta que possibilitou a vida e de estarmos aqui. Defende que fomos convidados para uma festa cósmica improvável e, somente por isso, devemos ser gratos e fazer nosso melhor. Nurit Bensusan, bióloga e escritora, me salvou de sucumbir à desesperança, durante os anos nefastos de extrema direita e covid juntas que assolaram o Brasil, com sua tese sobre o imperativo ético. Para Nurit, é esse imperativo ético que nos faz continuar a fazer o que achamos certo, mesmo sabendo o quão poucos resultados (às vezes nenhum) terão nossas ações. Para pessoas ressentidas como você, essas ideias podem parecer pueris, mas garanto que tornam a vida mais leve e nossa breve passagem por aqui pelo menos um pouco gratificante. Nem sempre é simples, em alguns momentos parece mesmo impossível. Qualquer página de jornal está aí para não me deixar mentir. Precisa ser um propósito diário, mas, mesmo assim, acredito que valha a pena. O contrário disso é amargor e solidão. Aliás, é a lembrança da solidão que me faz ter certeza de estar certa ao escolher a leveza. Além de você, conheci recentemente um outro personagem/autor, mais contemporâneo, com esse tipo de irritação gratuita (ou, pelo menos, exagerada). Em Derrubar Árvores, Uma Irritação, de Thomas Bernhard, o narrador é tão pernóstico em relação aos demais personagens que vomitei antes de terminar a leitura. Ao destilar sua baixa estima por todos os demais, o personagem exala tanta infelicidade, que ela irradia para quem está ao seu lado na história ou apenas lendo o livro. Embora o título do livro não tenha ligação direta com o tema, pensei naqueles que derrubam árvores (e garimpam e grilam terras e perseguem mulheres e índios e negros e pobres e gays) somente para aplacar sua insatisfação de estar no mundo e tornar a vida de tantos insuportável, em um looping difícil de interromper. A cada dia, ao me levantar da cama, me exercito para não ser como estas pessoas, me esforço em suavizar minha reação ao que é mau, sem me tornar alienada ou desiludida contumaz. Como já disse, não é fácil, mas acho que você também deveria tentar. Abraço, Maura