Minhas leituras: Quarto de Despejo

Ficamos felizes pela Edna ter indicado Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, para o Círculo Feminino de Leitura (CFL). Algumas de nós, apesar de vontade, tinham receito da leitura deste livro, por seu tema sensível e indigesto. Eis que a indicação nos obrigou a ter coragem de encarar a miséria e a desigualdade social brasileiras de frente. A rotina descrita sem pudor por Carolina não é novidade para ninguém que viva no Brasil e o fato de não ser um livro anacrônico, apesar de escrito nos anos 1950, nos envergonha como cidadãos. Impossível imaginar a sensação de não ter o que comer ou ver seus filhos passando fome. Mas Quarto de Despejo é mais do que isso, é a escrita de uma mulher consciente de sua situação social e que soube aproveitar cada pedacinho da pouca educação a que teve acesso e desenvolver um senso estético único, tornando-a uma artista poderosa. “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”. Carolina conheceu e soube. E a fome é amarela. E tão dolorida, que não sobrou espaço para diversão durante nossas discussões sobre o livro. Nos abrimos para mostrar trechos de nossos próprios diários, antigos ou escritos para a ocasião. Neles, a emoção de expor o cotidiano, começos e finais, e a constatação de nossos privilégios. Cercadas por frases marcantes do livro, lidas ou espalhadas na decoração do ambiente, tentamos nos aproximar das Carolinas e Marias que enfrentam racismo, miséria, discriminação de todo o tipo. “A favela é o quarto de despejo da cidade. Somos o lixo que eles jogam fora”. Mesmo que, felizmente, a extrema pobreza no Brasil esteja no menor nível da série história com IBGE (iniciada em 2012), ela ainda representa mais de 7 milhões de Carolinas lutando diariamente para ter o mínimo para sobreviver. Encerramos nosso encontro ao som do samba-enredo da Unidos da Tijuca desde ano, que homenageou a autora: “Os olhos da fome eram os meus Justiça dos homens, não é maior que a de Deus Meu quarto foi despejo de agonia A palavra é arma contra a tirania” No livro Temos Fome, Somos Loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres, conto a história do Círculo Feminino de Leitura: as participantes e a amizade que nos une, os livros que lemos, as dinâmicas que tornam nossas reuniões únicas. Se quiser conhecer, está à venda no site da Editora Pitanga.
Minhas leituras: Pitangas Verdes

Melhor do que ler um livro, é poder falar sobre ele e ouvir outras opiniões, descobrir perspectivas novas, que não reparamos de logo de cara. Essa é a mágica de estar em um clube de leitura. Quem gosta de ler, deve procurar um. E hoje isso é bastante fácil, pois há uma diversidade enorme de clubes presenciais e digitais aos quais pode-se participar sem burocracias de inscrições ou comprometimento. Digo isso para que se possa experimentar, sentir o gosto. O engajamento vem com o tempo. A Mariana Lobato e a Bel Botter, casal dedicado à literatura de diversas maneiras, mantém ambos os formatos de clube abertos a participação do público. Uma maneira de acompanhar a programação é seguir o perfil @Livro.diverso, que a Mari tem no Instagram. Participei da última reunião presencial do grupo, que acontece mensalmente na Livraria da Vila da Fradique Coutinho. O tema, desta vez, era o próprio livro de Mariana, Pitangas Verdes, o que fez a autora só aparecer no final, para deixar o papo rolar sem sua interferência. Fiquei impressionada com a profundidade das discussões, o envolvimento e a vontade de falar dos presentes, a partir de leituras cuidadosas do belo livro de estreia da Mariana Lobato Botter, vencedor do Concurso Literário Vila-Labrador do ano passado. Acompanhei a escrita dessa obra na pós-graduação em Escrita Criativa pelo Instituto Vera Cruz, da qual éramos colegas, e fiquei emocionada ao lê-lo finalizado, um olhar feminino e contemporâneo do mundo e das relações familiares. Pitangas Verdes mostra o amadurecimento precoce imposto às mulheres, deixando sequelas no caminho, impulsionando corpos que cuidam com o que têm a mão, na força do amor, às vezes da solidão, às vezes do ódio. No centro, uma filha busca entender e perdoar a mãe, de quem não conseguiu se despedir e resolver pendências antes de sua morte. É uma história de mulheres, voltada para mulheres, mas também para homens sem medo de se olhar no espelho como coadjuvantes sempre mais falhos nas relações parentais. Bel e Mari também são sócias da editora Pitanga, pela qual lancei o livro Temos Fome, Somos Loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres. Nele mostro não apenas a história de um círculo de leitoras, mas também trago dicas para se formar novos grupos. Cada um pode achar o ideal para si. Não há como se arrepender de buscar um modelo e participar.
Minhas Leituras: Ressuscitar Mamutes

Tempo de eras geológicas. Tempo de uma vida. Tempo do agora. Tempo do Futuro. Ressuscitar Mamutes, de Silvana Tavano (Autêntica Contemporânea), nos faz viajar por várias dimensões da temporalidade, enquanto toca em uma das relações mais fortes e delicadas, a de mãe e filha. Da mamutezinha que se separou da mãe e acabou fossilizada por milênios até ser encontrada recentemente, quase intacta, a um futuro imaginado para a mãe falecida e os descendentes da narradora deste romance cativante, Tavano mexe com nossas próprias memórias e expectativas. Misturando jornalismo, ensaio, memória e ficção em um texto que prende o leitor do início ao fim, o livro discute também o acaso dos acontecimentos e a tecnologia e a imaginação que inventam a posteridade de nossas próprias vidas e do planeta que nos dá sustentação. Li Ressuscitar Mamutes há quase dois anos, assim que foi lançado, e me marcou a capacidade da autora em se aprofundar em tantos temas em um romance curto (120 páginas), o qual devorei quase de uma vez só. Reli o livro neste início de ano quando foi o escolhido do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL) e já era vencedor do prêmio Oceanos, finalista do prêmio São Paulo e semifinalista do Jabuti, todos em 2025. Esta segunda leitura teve um gostinho ainda mais especial porque Silvana aceitou nosso convite para participar de nosso encontro, no qual a importância da relação mãe e filhas tomou conta das discussões e emoções à flor da pele. Ressuscitar Mamutes ganhará, antes do meio do ano, edição em espanhol pela editora argentina Hibrida. Quem ainda não leu, agora é a hora para não ficar atrás dos argentinos.
Minhas leituras: O Acontecimento

Em O Acontecimento (editora Fósforo), Annie Ernaux relata a experiência traumática de um abordo realizado em sua juventude, nos anos 1960, quando era universitária e a prática considerada crime na França. O drama da autora em nenhum momento se refere a alguma dúvida sobre sua vontade de interromper a gravidez indesejada, mas à dificuldade de fazer o abordo por conta das questões legais. O que está em jogo é o controle moral e legal sobre o corpo da mulher e os sofrimentos causados por este combo. O livro foi uma ótima escolha para a reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), da qual não consegui participar por questões de trabalho. Mas adorei a indicação e o impacto que a leitura me causou, sobretudo por Ernaux afirmar considerar seu relato válido mesmo sendo anacrônico, pois hoje o aborto é livre na França e a história seria completamente outra. Para uma brasileira, é uma porrada na barriga, com ou sem feto, pois aqui mulheres ainda são consideradas criminosas ao abortar, mesmo sendo crianças. E, ao invés deste debate avançar, parece piorar. Enquanto a extrema-direita ganhar a narrativa por aqui, o assunto não será colocado em pauta seriamente por nenhum governo, por mais progressista que seja. Ernaux é uma das principais autoras da atualidade, sobretudo do estilo escrita de si. Embora muito utilizado, não acredito que o termo autoficção se aplique à autora, ganhadora do Nobel. Sua escrita é biográfica e política, com contexto, análise, opinião. E emociona pela sinceridade, como quando reconhece ter sido tratada com desprezo até por pessoas próximas sem perceber e na cena do abordo em si, sem assistência e colocando sua vida em risco, humilhada até no hospital a que precisou recorrer. Neste momento, Ernaux traz a hipocrisia da sociedade, ao contar que os maus tratos eram também direcionados a outra mulher, por estar para parir sem marido. Durante todo o tempo de seu infortúnio, Annie lembra a presença onipresente da lei, da “impossibilidade absoluta de imaginar que um dia as mulheres pudessem abortar livremente”. Para francesas e tantas outras mundo afora esse dia chegou. Nos Estados Unidos da extrema-direita autoritária (sei que é pleonasmo) esses dias parecem contados. Para as brasileiras, temos que criar possibilidades concretas para imaginar uma realidade diferente. Ao final, a autora divaga sobre sua provação e considera que precisou passar por aquela experiência para depois poder ser mãe. Com certeza, apesar de ser bonito e tocante ver como precisamos achar razão e redenção para nosso sofrimento, Annie não necessitava nem merecia passar por aquilo. Nenhuma mulher deveria passar por esse tipo de sofrimento por razão alguma.
Minhas leituras: O Segredo de Espinosa

Deus ou a natureza. Ou, melhor dizendo, Deus é a natureza. Esta formulação tornou Bento de Espinosa um herege em sua época, por ser considerado ateu, o que o filósofo sempre negou. A mim, iluminou algo que eu intuía. Não preciso mais me considerar ateia. Não sem motivo, este pensador do século 19 é um dos precursores do Iluminismo e ferrenho defensor da liberdade de expressão e do uso da razão contra a superstição. O romance O Segredo de Espinosa, do autor moçambicano José Rodrigues dos Santos (Editora Planeta), é baseado na biografia do filósofo judeu de origem portuguesa nascido nos Países Baixos, Bento de Espinosa. Considerado um gênio na comunidade judia de Amsterdã (seus pais eram imigrantes fugidos da inquisição em Portugal) e cotado para ser um grande líder religioso, acabou sendo expulso ainda muito jovem de sua comunidade após passar por um cherem, o equivalente judeu da inquisição. Entre as ideias heréticas de Espinosa estavam que a Bíblia foi escrita por homens comuns e que o povo judeu não tinha nada de especial em relação aos demais povos. Embora ficcionado, o romance traz nas falas do filósofo toda a construção de seu pensamento, que continua inovador, sobretudo nestes tempos em que a humanidade parece regredir à época onde a superstição estava à frente da razão. Para Espinosa, Deus é o universo e, por isso, infinito. Os humanos são parte dele, assim como todo o restante da natureza. O filósofo chocou até seus contemporâneos, como Thomas Hobbes, ao sustentar que milagres não existiam porque a natureza não atua fora de suas regras. Essa afirmação o levou também à conclusão de que não existe o livre-arbítrio, pois tudo está ligado a causas e efeitos da natureza. O grande desafio, disse Espinosa, é criar uma ética em um mundo sem livre-arbítrio, no qual a liberdade é “a de compreender o meu comportamento e, através dessa compreensão, libertar-me das paixões e passar a usar a razão”. Sem um Deus que vá te castigar ou promessa de uma vida no além, ser ético significa buscar a alegria no amor e na generosidade, pois quem se diz crente, mas só pratica a virtude movido por medo ou interesse, não é um verdadeiro crente.
Minhas leituras: Voltar a quando

Lançado no final de 2025, quando a crise na Venezuela só fazia aumentar e seus desdobramentos atuais se anunciavam, Voltar a Quando, de María Elena Morán, escritora venezuelana radicada no Brasil, é uma grande oportunidade de conhecermos a dimensão humana da crise humanitária vivida em nosso país vizinho. No romance, ganhador do prêmio literário espanhol Café Gijón de Novela, acompanhamos Nina, cuja família era admiradora fervorosa de Hugo Chávez, ver todos os sonhos irem por água abaixo a partir da ascensão de Nicolás Maduro e a consolidação de uma ditadura na Venezuela. Ao mesmo tempo que o país desmorona, levando a população à extrema pobreza, vão junto o casamento de Nina e o mínimo de segurança que carregava, a partir da morte de seu pai. Desesperada, ela decide imigrar para o Brasil, deixando a filha aos cuidados da mãe em Maracaibo, a decadente e esvaziada cidade petroleira venezuelana, onde Morán também nasceu. Como boa literatura latino-americana, Voltar a Quando é escrito em várias vozes e traz aquele cadinho de realismo mágico do qual somos feitos, talvez a única forma de encarar realidades difíceis que se repetem incansavelmente desde que o continente foi invadido e colonizado. Além daquele frio na espinha recorrente de encarar o que regimes autoritários podem causar, sejam de direita ou esquerda, o romance causa o mal-estar pelo pouco que sabermos da realidade tão próxima do venezuelanos, tanto os que persistem no país quando os muitos que atravessam as fronteiras e estão aqui convivendo conosco, tentando se erguer e se recuperar dos traumas em nosso país. O mais legal, porém, é todas estas questões, apesar de fundamentais, serem coadjuvantes em uma história de amor e aventura, que passa por Venezuela, Brasil, México e Estados Unidos, sem nos deixar piscar.
Minhas leituras: De Onde Eles Vêm

Todo começo de ano, somos inundados com um festival de inutilidades, ignorância e até crimes ao vivo no Big Brother Brasil. Mesmo quem não assiste, como é o meu caso, é só abrir qualquer rede social e lá estão os comentários do dia. Nesta edição, já vimos desinformação rasgada sobre o Bolsa Família, homem expondo a esposa grávida e o mesmo sujeito cometendo crime de assédio sexual. Enquanto estava de férias, na semana passada, um outro assunto do BBB me chamou a atenção: duas integrantes conversavam sobre cotas raciais e, pelo que entendi, uma branca defendia as cotas, por conta de reparação histórica, e a outra, negra, dizia que brancos e negros têm a mesma capacidade de raciocínio e, presume-se, era contra as cotas. Confundir capacidade de raciocínio com passar no vestibular é, no mínimo, ingenuidade. Acontece que vi os comentários sobre este assunto enquanto terminava de ler De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras), de Jefferson Tenório, mesmo autor de O Avesso da Pele, um dos melhores romances brasileiros sobre o racismo estrutural no país, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. Neste outro romance, o autor volta ao tema, dessa vez sob a perspectiva justamente das cotas raciais na universidade. Seus personagens são pobres, periféricos, excluídos … e negros que tiveram acesso à universidade pelo sistema de cotas raciais. Acompanhamos especialmente Joaquim, jovem órfão, desempregado e responsável por cuidar da avó doente, tentando se manter no curso de Letras e se enquadrar na faculdade, enquanto falta dinheiro até para pegar o ônibus da cidade dormitório onde vive até Porto Alegre, onde estuda. O romance se passa em meados dos anos 2000, quando as cotas estavam ainda no início e os alunos beneficiados começavam a se organizar para criar uma rede de apoio e enfrentar os preconceitos. Lendo o livro de Tenório, fica claro como as cotas são necessárias, embora insuficientes, para acabar com a desigualdade absurda que vigora em todo o Brasil. No ano passado, estive em Porto Alegre para a formatura da minha sobrinha, na mesma Universidade Federal do Rio Grande do Sul que é cenário do livro. Foi a primeira vez que assisti a uma formatura onde havia paridade de alunos negros e brancos. Eram formandos de Psicologia e Serviço Social e me emocionei ao ver muitos deles dizer serem os primeiros da família a completar um curso superior e dedicarem seus diplomas a mães e pais que lutaram a vida toda sem conseguir ascender dos trabalhos da base da pirâmide aos quais grande parte da população negra é aprisionada. Viva as cotas!
Terra Dentro no parque

Algumas vidas são destinadas à tragédia. É esse o caso dos irmãos Rita, Mirna e Mosquito, de Terra Dentro, de Vanessa Vascouto, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Nesse pequeno romance (com menos de 100 páginas), feito para ser lido de um fôlego só, a autora dá voz aos três irmãos, que narram, cada um à sua maneira, a vida da família num pedaço de chão que não era deles e com a fatalidade como destino. Para conversar sobre a obra, ao mesmo tempo triste e bela, nos reunimos no Parque da Água Branca em uma tarde ensolarada, para um piquenique, no qual reverenciamos a rica linguagem presenteada por Vascouto, sempre poética, mas respeitosa das versões e personalidades de seus narradores, cada um se dirigindo a um interlocutor diferente. Na obra, acompanhamos como os acontecimentos impactam cada um dos irmãos de maneiras diferentes, suas reações e sentimentos. Impossível não ter empatia por cada um deles. É a história da Rita que amava o Maridinho, do Mosquito que amava a Rosa e da Mirna que escolheu não amar ninguém. História de amor e luto, inclusive por si mesmo e por quem não conta porque não veio. Luto vivido por Rita por meio dos cata-ventos que fazia: “Melhor cata-vento no lugar das flores que não morrem e são mais lindos. Da última vez, uma mulher veio falar comigo no cemitério, perguntar porque eu levava os cata-ventos e não as flores. Eu disse que era pra soprarem a alma do meu Maridinho mais pra longe pra ele não remorrer de desgosto naquele lugar”. A leveza dos cata-ventos também embalou nossas conversas no parque, um espaço coletivo feito para fruição, mas atualmente ameaçado pela sanha privatista dominante. Dóris, nossa membra vizinha do Água Branca e árdua defensora desta tradicional área verde paulistana, trouxe para a ocasião uma toalha-manifesto confeccionada para o grupo @amoraperdizes para lembrar a importância do lugar. Nós, que amamos os livros e a natureza, saímos revigoradas de lá.
A COP e a mudança para Marte

A crise climática tem ocupado maior espaço nas mídias e na boca do povo nestes dias de COP 30 acontecendo no Brasil. No noticiário, porém, o que prevalece são a presença de autoridades e celebridades, manifestações populares, perrengues relacionados à produção do evento e hospedagem de milhares de pessoas na cidade amazônica e discussões, na maior parte incompreensíveis, sobre acordos e promessas de financiamento. Fica uma sensação de que, ao invés de esclarecimento e adesão à causa, as pessoas acabam de bode do assunto. Isso acontece porque a conferência anual das partes (ou países signatários) da Convenção do Clima é um espaço para os representantes dos países retificarem coisas que foram negociadas ao longo do ano, enquanto ambientalistas e cientistas tentam dar visibilidade às pautas climáticas e lobistas do setor petroleiro vender a imagem de que são bacanas enquanto tentam melar tudo. Mesmo pra quem está acostumado a seguir o assunto rotineiramente, é muito difícil acompanhar para onde a banda vai tocar. Como meros mortais, sem poder de influenciar o que acontece em Belém, poderíamos aproveitar o ensejo para nos inteirarmos do tema e sabermos o que podemos fazer, no nosso dia a dia, para ajudar a conter a tragédia que se avizinha se deixarmos tudo apenas nas mãos do entourage da COP e dos negacionistas das mudanças climáticas. Uma boa fonte para tanto é o livro Mude ou Mude-se para Marte – Um empurrãozinho para uma vida com hábitos mais sustentáveis, da jornalista Giane Gatti, lançado no finalzinho do ano passado. O título entrega o que está dentro de forma bem-humorada. O mais bacana, porém, é a capacidade da autora de abordar temas tão indigestos com uma linguagem simples e deixar uma mensagem de esperança sem pieguismo, o que anda difícil ultimamente. Giane inicia seu relato narrando como tudo começou e como nos metemos nessa enrascada, contando como nós, os humanos, ocupamos e transformamos a Terra, sobretudo nos últimos 200 anos, a ponto de comprometermos nossa própria sobrevivência. Nos mostra como a maneira como comemos e consumimos é insustentável e vem provocando as três grandes crises do planeta: mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição. Além de dividir sua própria jornada para uma vida mais sustentável, Giane traz uma dimensão espiritual sobre o tema, abordagem incomum, mas necessária, numa época em que tudo é medido por dinheiro. “Meu desejo é mostrar, neste livro, como a contribuição de cada um é fundamental. Devemos assumir nosso papel de agentes transformadores. Não subestime sua capacidade de agir e acredite que dá para fazer diferente”, convida a autora. Às vésperas de um ano eleitoral, pensar em considerar estas questões antes de depositar nossos votos também é uma ótima pedida.
Livro de Lúcio Flavio Pinto será lançado em Belém durante a COP 30

Mesmo há algum tempo afastado do jornalismo, Lúcio Flavio Pinto continua a ser um dos maiores conhecedores da Amazônia, sobretudo de suas questões políticas e econômicas. Trabalhei com ele durante alguns anos na Agência Estado, no início dos anos 2000, onde ele publicava semanalmente artigos produzidos também para o seu Jornal Pessoal. Lúcio era perseguido judicialmente e recebia ameaças de morte o tempo todo, sobretudo de políticos e grileiros incomodados com sua audácia de expor fatos e análises certeiras sobre a região. Se apresentava como um amazônida, um cidadão da Amazônia. No próximo dia 18 de novembro, ainda durante a COP 30, será lançada a reedição de seu livro Memória de Santarém (904 páginas – Editora Letra Selvagem), que reúne crônicas e artigos publicados durante 25 anos no jornal o Estado do Tapajós (já extinto) e no portal www.oestadonet.com.br. Ambientado a partir de Santarém, o livro é uma fonte autêntica e segura de informações sobre acontecimentos que marcaram a região do Baixo Amazonas paraense durante dois séculos e que extrapolam essa região, revelando um conjunto impressionante de fatos e personagens. Por exemplo, o desmatamento e o extrativismo mineral, que produz riquezas sem melhoria expressiva das condições de vida das populações nativas. É uma publicação para quem quer conhecer a Amazônia a fundo e para colecionadores de grandes obras. Editado pelo jornalista Miguel Oliveira, um dos organizadores da reedição, juntamente com Nicodemos Sena, diretor da editora Letra Selvagem, o livro transita entre o jornalismo e a sociologia, e explica as razões da secular estagnação econômica, social e política da Amazônia, sempre a reboque dos interesses dos governos centrais, desde a Colônia até os dias de hoje. O lançamento será às 18 horas, no auditório do Ministério Público Federal (MPF), em Belém. O livro estará à venda na Amazon.