Adolescente de Mariana Carrara traz credibilidade

“Se deus me chamar eu vou” é o terceiro romance que leio de Mariana Salomão Carrara, e a versatilidade da autora é o que mais gostei. Neste livro, a narradora é uma menina entre onze e doze anos escrevendo um livro/diário sobre o ano que está vivendo e transmite muita credibilidade. Aliás, mais credibilidade até do que a árvore e os objetos que contam a história em “A árvore mais sozinha do mundo”, em que pese o fato de não termos nenhuma ideia de como falariam uma árvore, um espelho, um carro e um uniforme de pulverização de veneno. Em “Não Fossem as Sílabas de Sábado”, a narradora é uma mulher adulta, cujo marido é morto por um vizinho que se joga da janela. Ainda é o meu preferido, mas ainda preciso ler “É Sempre a Hora da Nossa Morte Amém”, cuja protagonista, pelo que li, é uma septuagenária com problemas de memória. Mesmo que não tenha nenhuma metáfora ou pornografia embutida nos problemas de bullying sofridos por Maria Carmem e o trisal vivido por seus pais e o consultor Leonardo, a maneira como a narradora de “Se deus me chamar eu vou” encara seu cotidiano me lembrou “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, o diário da menina prostituída pelo pai de Hilda Hilst. Naquela obra, a autora brincava com o mercado editorial, Lori representando o autor, agenciado pelo editor/pai cafetão. O que me remeteu a Hilst, no caso da adolescente de Carrara, é o jeito direto de Maria Carmem tratar seus dramas, reconhecendo inclusive preferir o bullying à indiferença dos colegas e a inveja do amor a três dos pais em relação a ela, que se acredita incapaz de um dia ter um namorado. É um relato, mais do que tudo, sobre solidão. Para ler de um fôlego só.
A Boba da Corte

Mesmo vivendo há quase 30 anos na Zona Oeste de São Paulo, só fui descobrir que mangostão, longana e rambutã não são nomes de remédios, mas frutas exóticas, ao ler A Boba da Corte, da Tati Bernardi. Indicar o livro para o Círculo Feminino de Leitura (CFL) também fez com que eu fosse pela primeira vez ao Santa Luzia (um dos mercados chiques da elite paulistana), o lugar mais próximo onde poderia ser que encontrasse algumas delas. Só achei o rambutã, pois as demais, segundo me informou a funcionária atenciosa, não estão na época. Mas comprei outras frutas tão exóticas quanto (pelo menos para mim), para montar a mesa do nosso encontro do mês em minha casa. Escolhi o livro da autora paulistana porque me identifiquei com seu sentimento de inadequação entre seu bairro suburbano de origem e a rica e descolada Zona Oeste, onde passou a viver. Assim como Tati foi criada no Tatuapé, na Zona Leste, cresci em Santana, na Zona Norte, sonhando em atravessar a ponte e morar na região entre rios (Tietê e Pinheiros) onde acreditava viver pessoas mais parecidas comigo, o que fiz assim que tive oportunidade. Depois, por muito tempo, não conseguia traduzir o desconforto próprio de quem não se sente verdadeiramente pertencente ao lugar em que mora, mas nunca cheguei na tradução certeira da elite paulistana feita pela Boba da Corte de Bernardi. Achei que a conversa seria boa em nossa reunião, pois das dez mulheres do grupo atual, somente duas são naturais desta região que chamamos de “bolha”, termo que aprendi com meus filhos, já nascidos na Vila Madalena. Quase todas as demais, assim como eu, atravessaram a ponte. No caso delas, vindas da mesma Zona Leste de Tati Bernardi. Somente a Kátia sempre viveu no Tatuapé (e nunca cogitou sair de lá) e a Marli, passada a pandemia, resolveu voltar para sua Mooca natal e ficar perto da família. Tivemos discussões acaloradas como há tempos não tínhamos. Incrível como um livrinho de menos de 100 páginas e aparentemente despretensioso pode causar polêmica. Fico imaginando o que pensam as pessoas citadas no livro. Identificamos algumas, inclusive próximas. Admiro o despudor e coragem da autora, de quem sou fã há bastante tempo. Bernardi começa seu livro contando sobre uma festa que deu em seu apartamento na rua Maranhã, no bairro “diferenciado” de Higienópolis, e uma amiga vinda do Rio de Janeiro digitou errado o endereço no Uber e foi parar na Praça Maranhão, na Zona Leste. A amiga ligou desesperada, achando que corria risco de vida, sem saber que estava exatamente no lugar onde a anfitriã passou toda a infância e adolescência. A partir desse mote, Tati Bernardi mostra de forma irônica e divertida o comportamento às vezes ingênuo e mais vezes hipócrita dessa elite, sobretudo a progressista e culta, a qual passa a frequentar, querendo furar a bolha para pertencer a ela, mas também rejeitando muitos dos seus códigos. Um mundo feito de “qual o seu sobrenome”, “de quem você é parente”, “o que faz e onde trabalha” e “onde você estudou”. Um mundo feito de oriundos do Santa Cruz, Vera Cruz, Bandeirantes, Rio Branco, entre outros, hoje com filhos no Avenues e similares. Para alguém que se alfabetizou e cursou o fundamental entre as escolas Expedicionário Brasileiro e República da Bolívia, como eu, nunca é uma situação confortável… Difícil não pensar: como vim parar aqui? Como no livro, algumas de nós consideraram a personagem/autora um tanto vulgar e exagerada. Também não é fácil se ver como pertencente a uma bolha, tendo nascido nela ou não, mesmo sabendo que isso não tem a ver obrigatoriamente com possuir dinheiro, estudo e cultura. No final, por mais que generalizações possam ser engraçadas, cada experiência é única e a capacidade de rir se si mesma, uma bênção. Para nossa reunião de dois mundos, trouxe frutas exóticas e comidinhas personalizadas, mas também estrogonofe de camarão, balas sete belo e brigadeiros, como uma boa festa suburbana deve ter. Nossa presidenta Neise se vestiu de Boba da Corte e estava maravilhosa, mostrando que o diferente também pode ser chique. Desde que sejamos nós mesmas. Tivemos direito, ainda, há uma coleção de fotos dos lugares citados pela autora na Zona Leste, presente da Kátia, que conhecia tudinho.
Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluções

Ler em grupo pode ser muito mais do que dividir opiniões sobre leituras. Em um clube do livro, compartilham-se também experiências, afetos e transformações. No dia 3 de setembro, às 19h, as autoras Maura Campanili e Luciana Gerbovic estarão na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho para uma conversa sobre essa atividade que, cada vez mais, vira tendência – principalmente entre mulheres que buscam um espaço de trocas intelectuais e afetivas reais. Será um bate-papo descontraído sobre suas vivências com clubes de leitura, os dois livros que nasceram dessas experiências e a força política e subjetiva da leitura coletiva. A conversa terá a mediação da crítica literária Patricia Ditolvo. Após as falas, as autoras farão breve sessão de autógrafos. Maura é escritora, jornalista e geógrafa, com mais de 30 anos de atuação em comunicação socioambiental. Trabalhou em organizações como a SOS Mata Atlântica e o Instituto Socioambiental, além de colaborar com diversas ONGs por meio do Núcleo de Conteúdos Ambientais (NUCA). É autora de Temos fome, somos loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres (Pitanga, 2025), que narra a trajetória de um grupo de leitoras que transformou dor em vínculo, e leitura em liberdade. Luciana é graduada em Comunicação Social e Direito. Advogada, mestre em Direito Civil e mediadora de clubes de leitura há mais 15 anos, em diversos espaços públicos e privados. Professora de leitura e escrita literárias e formadora de mediadores de clubes de leitura desde 2019. Coarticuladora do “Remição em Rede”, programa que implementa clubes de leitura e forma mediadores em penitenciárias, com fins de formação de leitores e remição de pena pela leitura. É sócia-diretora da Escrevedeira Centro Cultural Literário. Coautora do livro “Clubes de leitura: uma aposta nas pequenas revoluções” (Solisluna/Selo Emília, 2024) e autora do romance “A maior mentira do mundo” (Quelônio, 2024). Patricia é formada em Letras e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é mediadora de conversas e clubes de leitura, e criadora do projeto Críticas Instantâneas Não Especializadas (@criticasinstantaneas). A conversa é gratuita e aberta ao público, com sessão de autógrafos ao final. Venham!!! 📍 SERVIÇO O quê: Bate-papo com Maura Campanili e Luciana Gerbovic, com mediação de Patricia DitolvoTema: Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluçõesQuando: Quarta-feira, 3 de setembro de 2025, às 19hOnde: Livraria da Vila da FradiqueRua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo – SPQuanto: Evento gratuitoLivros à venda no local, com sessão de autógrafos após a conversa
Encontro com o CFL Júnior

Quando resolvi escrever um livro sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), um dos motivos era dividir uma experiência coletiva tão bacana e, quem sabe, inspirar outras pessoas a tentar fazer algo parecido. Antes mesmo do livro ser publicado, eu e mais duas mulheres do CFL tivemos a alegria de ver nossas filhas, tão amigas quanto nós, criar o CFL-Júnior, com suas próprias amigas. Depois do lançamento, mais uma boa surpresa: as meninas escolheram Temos Fome, Somos Loucas como livro do mês e nos convidaram a participar da reunião sobre o livro. Conversar com elas sobre o livro, encontros e amizade foi um momento único. O mais bonito foi ouvir que, mesmo próximas da história que conto – nossas filhas inclusive aparecem na narrativa em alguns momentos, as amigas ouvem sobre nosso grupo há anos -, ler o livro as fez nos ver de outra maneira. Deixamos de ser “as mães” para nos tornarmos mulheres, que têm vida própria, discutem entre si, se emocionam com as amigas e, ao mesmo tempo, continuamos meninas, como elas mesma se veem. Disseram ter compreendido que não existe o tal amadurecer que a tudo responde. E o peso de se tornar adulta diminuiu. Foi divertido repartirmos uma reunião cheia de cuidados na preparação, com direito às comidinhas feitas por cada uma, brindes, atividades e lembrancinhas. Apenas no figurino eu a Claudia demos demonstração de sermos veteranas: nos vestimos de lilás, como a capa do livro. Todas elas perceberam o detalhe ao chegar e comentaram que deveriam ter pensado nisso. Mais do que tudo, foi muito gratificante saber que conseguimos mostrar às nossas eternas meninas que é possível encontrar propósito e prazer em todos os aspectos da existência.
A palavra que resta

O livro de Stênio Gardel, a Palavra que Resta, é daquelas obras misteriosas: contam uma história triste, mas o encanto é tanto, que a alma termina leve. Talvez tenha sido esse encantamento que inundou nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) sobre o livro. Mesmo que algumas de nós passassem por momentos difíceis de saúde em suas famílias, conseguimos ter um encontro alegre e profundo, no qual a compaixão pelo sofrimento de Raimundo e sua dúvida de uma vida inteira sobre as palavras escritas por Cícero, que não conseguiu ler, se misturou com nossas próprias palavras não ditas. Em seu primeiro romance, o cearense Gardel conta a história de amor de dois rapazes que se separam após a descoberta do romance pelas famílias. Na falta de uma despedida, Cícero manda entregar uma carta a Raimundo, que a guarda ao longo dos anos sem conhecer seu conteúdo, porque não sabe ler e não quer dividir aquelas palavras com ninguém. Somente aos 71 anos, ele decide se alfabetizar para poder finalmente abrir a carta. Em uma mistura de narradores e tempos nem sempre identificáveis, acompanhamos Raimundo em seus muitos anos de ajudante de caminhoneiro, escondendo sua sexualidade, até o encontro como a travesti Suzzanný, que mudaria sua trajetória para uma vida de aceitação e realização como costureiro. Com A Palavra que Resta, o autor e a tradutora Bruna Dantas Lobato venceram o National Book, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, na categoria melhor livro de literatura traduzido. Foram os primeiros brasileiros e os primeiros nomes em língua portuguesa a ganhar o prêmio. Na reunião preparada pela Wal, anfitriã do mês do CFL, trouxemos cartas seladas com palavras que conseguimos dizer em nossas vidas. A maior parte de nós as queimou, deixando-as ir, enquanto algumas preferiam guardá-las e, quem sabe, enviar algum dia ao destinatário… Trouxemos, ainda, objetos amuletos que, como a carta de Raimundo, levamos conosco ao longo dos anos. Achei emblemático apenas uma de nós levar cartas recebidas de amores antigos, enquanto as demais carregamos lembranças de familiares queridos, sobretudo mães e avós. Desenrolando um novelo de lã, dissemos umas às outras as palavras importantes que nos mantêm unidas por tanto tempo em uma rede de afeto e amizade. Palavras sempre disponíveis, para que nunca reste nada por dizer entre nós.
Escritoras mostram que memória pode ser sentimento e ancestralidade

Dois livros sobre memória, dois pontos de vista, ambos tocantes e prazerosos. Enquanto Hilda Lucas, em A Casa Dentro de Mim (Editora Laranja Original), mergulha em suas lembranças, Renata Lima, em Desde Lucrécia (Editora Faria e Silva) vai em busca de histórias e documentos de família. As duas preenchem as lacunas com a imaginação e nos levam junto como testemunhas. Em A Casa Dentro de Mim, Hilda mostra do que é feita: da infância em Ilhéus, cercada de família, nas casas dos avós, na fazenda, da religiosidade marcando sua formação. Depois a mudança para o Rio de Janeiro, adolescência, faculdade e, aos poucos, a menina que tias e avós constaram ao nascer “vai ser curiosa, nasceu com os olhos abertos ponto reparo em tudo”, ganhou o mundo, sobrenome famoso e uma imensidão de oportunidades. Mas o que preenche sua casa são as relações profundas, a mãe, as filhas, e os pequenos acontecimentos, os detalhes, aquilo que não se ostenta. Cada pequena crônica do livro é uma viagem à linguagem poética e única da autora, para quem “memória é lugar vereda abismo remanso. É quimera inventário invenção. Se é mentira, é também verdade e, na maior parte das vezes, falácia ou ficção. Viva, volátil e autoral, a Memória é minha, e eu mato quanto quiser. (…) Que minha alma-memória não se afaste de mim enquanto vivermos. Nós duas, se não autoras do vivido, autora das nossas lembranças. Memória é oráculo”. O livro de Renata também é oráculo, mas de pessoas antigas e acontecimentos históricos, como diz a autora, que traz à tona 13 gerações de sua família, Desde Lucrécia, no final do século 16, em Portugal, até seu pai nos dias atuais. De família de cristãos novos, Lucrécia Pedroso foi presa pela Inquisição por práticas de judaísmo, “foi condenada a cárcere e hábito perpétuo. Em 1596, teve sua punição comutada para penas espirituais. Mudou seu nome para Lucrécia da Cruz, virou freira capucha, foi mulher na Casa de Recolhimento da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, em Almada”. Diante da violência, os irmãos, António e Pedro (ascendente direto de Renata), imigraram para o Brasil, aonde chegaram, por volta de 1600, em São Vicente. Nos 400 anos desde então, a família cresceu e prosperou e faz parte das famílias pioneiras que se costuma chamar em São Paulo de “quatrocentões”. De bandeirantes escravizadores de indígenas, passaram a fazendeiros donos de escravos por gerações e políticos influentes – seu trisavô Manoel foi senador e era irmão do presidente da República Prudente de Moraes. Fiel aos fatos, a autora não enaltece nem desmerece o histórico familiar, é o máximo possível fiel ao que apurou, inclusive mostrando a falta de possibilidades e escolhas mesmo para as mulheres da elite sob a sociedade totalmente patriarcal. “Descobrir Lucrécia Pedroso e a sina dessa família de cristãos-novos no século 16, gerou uma onda de impactos, como o seixo que repica na superfície de um lago espelhado. (…) Há memórias que ainda latejam. Atraem e repelem, com a força invisível dos polos de um ímã.” Como conclui Renata ao final do relado, “a memória é um atordoamento”.
A África sem estereótipos de Binyavanga Wainaina

Apesar de não ser uma leitura fácil, Um Dia Vou Escrever Sobre Este Lugar, de Binyavanga Wainaina, é um dos livros mais interessantes que já li sobre a África, possivelmente por ser escrito por um africano negro de classe média, com uma realidade não muito diferente de qualquer morador de classe média de país em desenvolvimento, como o Brasil. A maior parte das obras literárias que tive acesso sobre o continente e de autores africanos são de escritores brancos (como como Mia Couto e Isabela Figueiredo) ou mulheres com experiências extremas – de mutilação, guerras (como Ayaan Hirsi Ali). Infelizmente, até agora li apenas ensaios da Chimamanda Ngozi Adichieainda, autora citada pelo próprio Wainaina. Binyavanga conta suas memórias em uma estrutura de tempo linear e, apesar de escrever a partir do futuro, a maior parte da narrativa é presentificada, sobretudo a primeira parte, relativa à infância e à adolescência, revivida pelo autor sem contextualização. Tudo é trazido sob o ponto de vista do cotidiano da criança e, depois, do adolescente: “Tenho sete anos de idade, e ainda não sei por que todo mundo parece saber o que está fazendo ou por que está fazendo”. “Ela é a estrela da classe. É 1978, e todos frequentamos a escola de ensino fundamental Lena Moi Primary School”. “É período de recesso escolar e está frio. Julho”. (pág. 9) Mesmo partindo de episódios familiares, as grandes questões do autor estão divididas em todo o livro entre o que é pessoal e o que é histórico, cultural e político em seu país e em toda a África, em como o contexto influencia sua existência e como reage a ele. Esta parece ser uma intenção clara já a partir do título de suas memórias, Ainda Vou Escrever Sobre Este LUGAR. Mas Wainaina não tem compromisso com o esclarecimento das circunstâncias para quem não está familiarizado com elas. Na maior parte do texto, essa falta de explicações ou o uso de palavras em vários idiomas não faz falta. Em alguns casos, ficamos mesmo sem entender, o que não diminui a vontade de continuar a leitura. Aliás, é muito interessante ver, em toda a primeira parte, que ocupa praticamente metade do livro, questões políticas apresentadas como uma criança que ouviu a história em casa contaria: “O Presidente Moi não vem de uma família importante. Ele era só um professor de ensino fundamental antes de entrar para a política. Ele está sempre sendo humilhado.” Dessa maneira, a vida cotidiana de um menino de uma família de classe média do Quênia se desenrola entre a escola e a família em um contexto de eterna instabilidade política de um país recém-saído do colonialismo. Mesmo assim, o Quênia é descrito como um país privilegiado e líder daquela parte da África, ao contrário de Uganda, terra natal de sua mãe, assombrada por Idi Amim Dada, ditador sanguinário e cruel, do qual Bynyavanga não precisa trazer detalhes, porque faz parte do imaginário global, pelo menos de quem acompanhava o noticiário dos anos 1970. Na página 49, temos um ótimo exemplo desse ponto de vista: “Olha! Olha o Michael Jackson se movendo como se não quebrasse. Tentamos dançar como ele.” “Baba nos acorda esta manhã e conta que houve um golpe de Estado (…) Há tiroteios por todo o Quênia (…) Muitas mulheres são estupradas. Há toques de recolher, por meses, e prisões (…).” “O Quênia não é Uganda. O Quênia tem grandes estradas e ferrovias e edifícios altos, ciência e tecnologia, pesquisa e grandes aviões (…). À tarde, o golpe é derrubado e milhares são mortos. Nairóbi tem cadáveres por todos os lados.” Embora linear, como mencionei antes, a narrativa tem mudanças de temas e tons, podendo ser dividida em outras três partes após a infância e adolescência no Quênia: a crise existencial (na África do Sul e no Quênia), a descoberta da vontade de ser escritor (na África do Sul e no Quênia) e o escritor reconhecido (África e Estados Unidos). Durante a adolescência e em todo o restante do livro, o autor deixa pistas não apenas do seu desconforto com questões políticas, mas também de uma inquietação e inadequação interior, que só revela ao final, quando conta aos pais já falecidos, em sua imaginação, que é homossexual. A sexualidade é uma questão mal resolvida que perpassa o livro sem ser manifestada e que parece não ser totalmente resolvida durante a vida de Binyavanga. Wainaina também descortina ao longo do texto a hierarquização em um país dividido em tribos e línguas diferentes, no qual o equilíbrio de forças é frágil e muda rapidamente a depender de quem está no poder. O autor se movimenta nessa miríade de povos e línguas sem preocupação de explicar termos, costumes etc., e vamos atrás tentando assimilar o que, parece, nem ele entende totalmente. A questão da língua é uma constante, e é difícil saber quais ele domina mais ou menos: é falante de inglês e Swahili, a língua oficial do Quênia (e em outros países africanos), mas compreende também o idioma paterno, Gikuro, que parece ser uma das etnias dominantes, enquanto salienta não entender o dialeto da mãe. Deixa claro que ser um africano é ser, no mínimo, bilíngue: “Há algumas semanas, li Decolonising the Mind, de Ngüri wa Thiong’o. É ilegal e foi emocionante, e eu tinha prometido voltar para minha própria língua. Inglês é a língua do colonizador.” Outra característica do autor, que vai ficando mais aparente conforme amadurece é a ironia. Um exemplo é quando Wainaina aborda a imagem da África fora dela e o termo diversidade, ao falar sobre os formulários para bolsas de estudo no exterior, nas quais se prega o “clube Modelo da ONU” e os “Shows da Unesco sobre as crianças do mundo”. E termina dizendo: “Quero fazer diversidade”. A partir do capítulo 13, quando Binyavanga vai para a universidade em Joanesburgo, há uma mudança no foco narrativo. A marcação deixa de ser apenas no presente: “Quando nos conhecemos, ele me perguntou qual era meu nome no rap. Eu
Livro narra trajetória de clube de leitura formado por mulheres 50+

A narrativa bem-humorada, sensível e afetiva sobre a criação e trajetória de um clube de leitura formado por mulheres 50+, dão o tom em Temos fome, somos loucas, da jornalista e escritora Maura Campanili. Lançamento da estreante Editora Pitanga, a obra mergulha o leitor na história do Círculo Feminino de Leitura (CFL), um grupo que, há mais de 15 anos, transforma encontros em rituais de amizade, escuta e liberdade. “A ideia partiu de uma das integrantes, a sexóloga Neise Galego, que queria ter um grupo de amigas para discutir os livros que lia”, explica a autora. “Ela chamou as irmãs e outras amigas e começamos. Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio modo de nos reunirmos. Uma coisa interessante é que, no início, imaginava que o grupo não duraria tanto e que perderíamos o interesse ao longo do tempo. E aconteceu exatamente o contrário. Nossos encontros foram ganhando mais importância e profundidade.” Temos fome, somos loucas é uma celebração da força do coletivo e da busca por sentido em meio ao cotidiano acelerado. Com encontros regados a livros, taças de prosecco e muitas gargalhadas, as integrantes do grupo desafiam a lógica da produtividade infinita e constroem um espaço de acolhimento, trocas profundas e resistência — inclusive à própria sanidade imposta às mulheres. A obra reúne relatos sobre os livros lidos, as experiências compartilhadas, os desafios de convivência e os impactos profundos desses encontros na vida de cada participante. Obras como A Menina da Montanha, de Tara Westover, e Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, por exemplo, provocaram debates intensos sobre temas como extremismo, consumismo e identidade feminina. A política brasileira, e os embates ideológicos das últimas eleições no país, não ficaram de fora. “Um grupo que não seja impactado por temas políticos e sociais, ou é muito simplista ou propositalmente alienado”, reflete Campanili. “No nosso caso, tentamos discutir todos os temas, sem a necessidade de todas concordarem com todas. Em alguns momentos, até nos alteramos, mas temos, ao longo do tempo, aprendido a superar as diferenças. Acredito que todas nós fomos, por meio dos livros, nos abrindo para temas mais difíceis e nos tornando mais permeáveis.” Além de relatos intimistas e literários, a publicação traz uma relação dos livros discutidos e um guia prático para quem deseja formar seu próprio clube de leitura. Um dos símbolos do CFL é o grito de guerra que dá nome à obra, inspirado no livro Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, e no icônico discurso de Steve Jobs em Stanford: “Stay hungry, stay foolish”. Em Temos fome, somos loucas, Maura Campanili convida o leitor a espiar um universo onde o riso tem o mesmo peso da análise literária, e onde a leitura se torna um gesto radical de existência. É uma obra sobre criar tempo para si, reinventar laços e fazer da leitura um ato de afeto e subversão. “Gostaria de transmitir um pouco do nosso amor pelos livros e pelo prazer que eles podem trazer. E como pode ser libertador ter um grupo de amigas com o qual nos reunimos apenas por prazer. Mesmo hoje, a maior parte das mulheres vive sobrecarregada e culpada num mundo de obrigações – com trabalho, com o cuidado com a família, com as obrigações de ser bonita, inteligente, capaz e perfeita o tempo todo. Espero que o livro seja um convite a um pouco de hedonismo, um momento de diversão. Se somamos a isso, pelos livros, um espaço para intimidade e reflexão, o resultado só pode ser bom”, finaliza a autora. (Texto do release sobre o livro)
Vamos comprar um poeta

Fomos convidadas, em nosso mais recente encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL), a entrar em um mundo distópico no qual tudo é avaliado por sua utilidade, entendida basicamente por seu valor econômico. Neste lugar, poetas – e artistas em geral – são considerados supérfluos e comprados como se fossem pets para entretenimento familiar. Imbuídas de toda nossa “inutilidade”, algumas de nós foram com roupas “patrocinadas”, como a Claudia, toda de branco, com apoio Omo, ou minhas pantufas Pé Quente Bradesco. Nada na recepção preparada pela Edna era “inutilista”, como tudo o que não é numerável é definido no romance Vamos Comprar um Poeta, do autor português Afonso Cruz. Logo descobrirmos que nossos nomes foram reduzidos a letras e números que precisavam ser decifrados para acharmos nossos lugares à mesa. As iguarias servidas também apresentavam etiquetas explicativas: bacalhau (R$ 130,00 o quilo, “melhor apertar o cinto”); crispes de shitake importados (100g o pote, 10g por pessoa); queijo provolone (uma fatia, 30g, 100 calorias). Tudo estava catalogado, até nosso livro do mês, que pesava 13,3g. Antes de começarmos a reunião, deixamos nas caras umas das outras “um ou dois miligramas de saliva, ou beijos, se quiserem ser poéticos”, como elucidou a protagonista do livro, sem nome como, aliás, todos que aparecem na história. Fizemos isso, porque “dizem que é bom transacionarmos afetos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda, há quem acredite – é uma questão de fé -, que pode trazer dividendos.” Nivia foi transgressora nessa realidade não tão diferente assim da nossa, e apareceu vestida de poeta. Com isso, ganhou a prerrogativa de ser a primeira a apresentar seu talento “inutilista”, como nos pediu a anfitriã. Declamou um poema feito especialmente para a ocasião. Depois dela, as demais mostramos desenhos e pinturas, cantamos canções e lemos contos produzidos por nós como demonstrações do quando ter poesia na vida é essencial para nos tornarmos humanos. Conhecemos ali versões até então escondidas de algumas de nós, alargando a janela por onde vemos o mundo, como nos ensinou o poeta comprado e depois abandonado pela família na obra de Afonso Cruz. Felizmente, no CFL, concordamos com a descoberta da protagonista de que “a cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem”. E a criatividade também. Pode ser até que tenhamos exagerado, ao fazer um poema coletivo a partir de trechos do livro escritos em frente aos lugares de cada uma à mesa: “O mar é tão grande Que o bico dos pássaros leva às costas O horizonte na margem do olhar. Um segundo, uma eternidade Com pessoas constantemente receosas para ver o mar Além do infinito que desenhou um sorriso.” Francamente…
Culinária pode ser central para saborear um livro

Cada encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL) tem uma característica especial que fica gravada em nossa memória coletiva. Neste “Fique Comigo”, de Ayòbámi Adébáyò, será a culinária nigeriana e sua indiscutível relação com os sabores que a África presenteou ao Brasil que ficará conosco por mais tempo. A partir das pesquisas da Neise, nossa anfitriã do mês, sobre os ingredientes e pratos citados na obra, mergulhamos em bolinhos de feijão que por aqui viraram o acarajé; usos múltiplos do inhame, tubérculo tão importante para os povos iorubá, etnia dos principais personagens do livro, quando a mandioca é para nós; e descobrimos que o quindim e o pavê de amendoim não têm origem em Portugal, mas na África. Esse mergulho gastronômico foi o pano de fundo da discussão de uma trama folhetinesca regada a tradições ancestrais ainda fortemente presentes na cultura de vários países africanos: a poligamia, o poder das hierarquias familiares sobre as vidas individuais, a necessidade imprescindível de deixar descendência e o julgamento moral sobre a mulher que não cumpre essa função. Todo esse peso cai sobre as cabeças do casal Yejide e Akin. Eles se conhecem e apaixonam na faculdade e logo se casam, com o compromisso de não se render aos costumes, sobretudo à poligamia, uma exigência de Yejide para embarcar na relação. Todas as promessas desmoronam quando os anos passam e ela não engravida, levando a família a impor uma nova esposa a Akin. A partir desse acontecimento arrebatador, a vida da empresária e cabelereira Yejide se torna uma montanha-russa de tragédias e reviravoltas, que incluem uma interminável gravidez psicológica. A turbulência familiar de Yejide e Akin acontece em meio à desordem política e social da própria Nigéria dos anos 1980, acontecimentos que se misturam na história, potencializando o enredo. Em “Fique Comigo”, a autora nos faz deparar com a subjugação da mulher por costumes que anulam (ou quase) as possibilidades de sororidade. Mesmo a heroína Yejide transfere a maior parte de sua revolta às outras mulheres e não aos homens que se “beneficiam” dessas tradições. O que não quer dizer que a vida dos homens seja mais fácil ou feliz. O que sobressai, porém, são as traições revestidas de amor, a capacidade de se reerguer a partir das decepções e do luto, e de enfrentar sentimentos universais de amor e perdão.